sexta-feira, 5 de julho de 2019

ENCONTRO DE ESCRITORES E JORNALISTAS PORTUGALEGOS


No próximo dia 13 de julho realiza-se o IX Encontro de Escritores e Jornalistas do Alto Tâmega, Barroso e Galiza, em Chaves, no Auditório do GATAT.

No quadro desse encontro, o Prof. Jorge José Alves Ferreira, a convite da Direção do Fórum Galaico Transmontano, apresentará a comunicaçom "Judeus, Cristãos-novos e Marranos no Alto Tâmega", conforme programa.
A participação é livre e gratuita.

terça-feira, 12 de março de 2019

III SIMPÓSIO SOBRE JUDAISMO EM TRÁS-OS-MONTES

Nos próximos dias 15-16 de março celebra-se em Chaves e Valpaços o III Simpósio sobre judaismo em Trás-os-Montes sob o título Os Judeus, cristãos-novos e marranos em (de) Trás-os-Montes: História e património.

Inscriçom grátis, mas obrigatória através deste link ou email para: rotary.cejat@gmail.com

Consulte aqui o programa.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

AMEAÇADA INTEGRIDADE DA SINAGOGA BEVIS MARKS EM LONDRES

Para quem interessar, compartilho um apelo da comunidade sefardita de Londres, transladado por Ângela Campos, respeitante à ameaça que paira sobre a integridade da sinagoga londrina de Bevis Marks.

Dear All

We urgently need your help. As most of you know we have been waiting for the planning application to be submitted on 33 Creechurch lane – the building adjacent to our Historical Bevis Marks Synagogue – and the enclosed image shows its effects on our light, and our heritage environment not to mention the building’s structure. Please see below the advice and guidance from our professional team. Can we please call you ALL to action to follow the simple instructions below. The online comments link below is very simple.

This is our synagogue and it’s for us to protect it for our future generations.

ACTION PLAN

A planning application has been submitted to the City of London for a 20 storey tower just a few metres from the Synagogue’s eastern wall. As you will see from the image below, it will tower over the Synagogue. We have been monitoring this and now we need your help.


As a matter of urgency - Please let the City know what you think by submitting comments by the deadline of 12th February - or sooner if you can. We give details of how to do this below. Every objection counts - so please respond quickly. 


In conveying your views you may wish to reflect the Trustees major concerns:

“We are deeply concerned over the major impact that the development would have on the historic setting of the Synagogue along with the reductions in daylight and sunlight into the Synagogue and the much used courtyard. This overbearing presence will change the much loved character and atmosphere of the Synagogue and its immediate surroundings.  We are also worried about disturbance to our services, disabled access and damage to the Synagogue’s fabric during the construction of such a large tower so close to our 300 year old building.”

You can submit comments on the planning application through the City of London online system here.


Alternatively you can email PLNComments@cityoflondon.gov.uk quoting the planning application reference 18/00305/FULMAJ and the address which is 33 Creechurch Lane London EC3A 5E.

You can also write, quoting the same reference number and address, to:
Mrs Annie Hampson
Chief Planning Officer and Development Director
Department of the Built Environment
City of London
PO Box 270
Guildhall
London  EC2P 2EJ

The full planning application documents can be viewed here.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

PARLAMENTO GALEGO APROVA DECLARAÇOM NO DIA INTERNACIONAL DA LEMBRANÇA DO HOLOCAUSTO

Em 1 de novembro de 2005, a Assembleia Geral das Nações Unidas, na sua 42ª sessom plenária, reafirmou que o Holocausto, que teve como resultado que um terço do povo judeu e inúmeros membros de outras minorias morreram assassinados, será sempre um aviso para todo o mundo dos perigos do ódio, do fanatismo, do racismo e dos preconceitos.

E também decidiu designar em 27 de janeiro como o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, todos eles vítimas do nazismo, entre as som contados galegos e galegas.


O Holocausto é o resultado dum programa de perseguiçom, aprisionamento e extermínio realizado polo nazismo que matou mais de seis milhões de pessoas. Teve a sua origem na tentativa de eliminaçom da dissidência política e ideológica e resultou num genocídio que contou com a colaboraçom da Ditadura franquista e que perseguiu milhares de homens e mulheres que fugiram do Estado espanhol depois da derrota da República em 1939 e após a instauraçom dum regime fascista

Em particular, este Parlamento quer lembrar os mais de 10.000 republicanos espanhóis que foram deportados nos campos nazistas pola colaboraçom do ditador Francisco Franco com o nazismo alemão e o fascismo italiano. Segundo algumhas fontes historiográficas, cerca de 200 deles eram originários da Galiza e morreram lá ou foram libertados, mas nunca puderam regressar porque a ditadura franquista, que tinha retirado previamente a sua nacionalidade, lhes negou o direito de regressar ao seu país de origem.

Por tudo isso, o Parlamento da Galiza faz sua a declaraçom da Assembleia Geral das Nações Unidas em que rejeitou qualquer negaçom, parcial ou total, do Holocausto como um facto histórico. E condenou sem reservas, condena também este Parlamento faz sua, todas as manifestações de intolerância religiosa, incitaçom, assédio ou violência contra as pessoas ou comunidades com base na origem étnica ou nas crenças religiosas, tenham lugar onde tenham lugar.

O Parlamento da Galiza acha, com a Assembléia Geral das Nações Unidas, que a ignorância e o desprezo dos direitos humanos originam atos de barbárie que ofendem a consciência humana.

O Parlamento da Galiza, mais um ano e de acordo com a letra e o espírito da Declaraçom de 1 de novembro de 2005 da 42ª Assembleia Geral das Nações Unidas, chama à Junta da Galiza para trabalhar arreu contra os possíveis surtos de racismo, xenofobia, antissemitismo e outras discriminações com base na origem étnica ou crenças religiosas, e aos cidadãos e às suas organizações para permanecem vigilantes para que, nunca mais, um regime como o que produziu o Holocausto possa estabelecer-se entre nós e em qualquer lugar do mundo.

Santiago de Compostela, 30 de janeiro de 2019

Fonte: Parlamento da Galiza

domingo, 6 de janeiro de 2019

CHAVES

Cidade portuguesa da regiom de Trás-os-Montes erguida no vale do rio Tâmega.

À época da invasom romana da península Ibérica, os romanos construíram fortificações, aproveitando alguns dos castros existentes pola periferia. Tal era a importância desse núcleo urbano, que foi elevado à categoria de município no ano 79 d.n.e., advendo daqui a antiga designaçom Aquæ Flaviæ da atual cidade de Chaves, bem como o seu gentílico de flaviense. 

A partir do século III a chegada de Suevos, Visigodos e Alanos deu cabo da colonizaçom romana. O domínio bárbaro durou até que os mouros, oriundos do Norte de África, invadiram a regiom no início do século VIII.

Com os árabes, também o islamismo invadiu o espaço ocupado polo cristianismo, o que causou umha azeda querela religiosa e provocou a fuga das populações residentes para as montanhas a noroeste, com inevitáveis destruições. As escaramuças entre mouros e cristãos duraram até ao século XI. A cidade começou por ser reconquistada aos mouros no século IX, por D. Afonso, rei de Galécia-Leom que a reconstruiu parcialmente. Porém, logo depois, no primeiro quartel do século X, voltou a cair no poder dos mouros, até que no século XI, D. Afonso III, rei de Galécia-Leom, a resgatou, mandou reconstruir, povoar e cercar novamente de muralhas.

Já aqui prosperava umha importante Judiaria, cuja Sinagoga se situava num edifício entre a Travessa da Rua Direita, e a Rua 25 de Abril, onde se lê em antiga inscriçom na soleira da porta o nome "Salomom". O edifício existe, de grande portal encoberto e em degradaçom (aqui chamado "casa de rebuçados da espanhola"), em lugar cimeiro do típico casario das "muralhas novas". Porém, judiaria de Chaves ainda nom foi definitivamente localizada.

Em 1434 a comunidade de Chaves recebeu umha carta de privilégios e pagava à coroa umha taxaçom de 31.000 reis.

Depois da expulsom dos Judeus de Portugal existiu umha importante comunidade "Marrana" em Chaves.

Quando os Marranos de Portugal retomaram o contato com o judaismo no século XX, alguns cripto-judeus de Chaves regressaram ao judaismo. Em 1930 estabeleceu-se um comité de "Novos Judeus" comandado polo antigo marrano Augusto Nunes. Porém, com o estabelecimento da ditadura em 1932 a atividade judaica entre os marranos locais esmoreceu.

Em 25 de julho de 2013 foi apresentado mais um número da revista "Aqua Flaviae" subordinado à temática "A presença cristã-nova em Chaves no período filipino (1580-1640)" autoria de Jorge José Alves Ferreira. Este trabalho fornece umha valiosa informaçom sobre a presença da comunidade judaica em Chaves, retirando-a da penumbra para a tornar atrativa na sua Judiaria da zona histórica onde estaria localizada. Mais concretamente a investigaçom diz respeito a um conjunto de conhecimentos sobre a comunidade judaica de Chaves relativamente à localizaçom geográfica, ao Tribunal do Santo Ofício, à vivência quotidiana dos cristãos-novos, com destaque para práticas religiosas, teias relacionais, família ou mundo do trabalho.


Recentemente a câmara municipal de Chaves estabeleceu um protocolo com entidades israelitas para a fundaçom dum Centro de Estudos Judaicos do Alto Tâmega (CEJAT) que, desde 2015, dependente da Associação Rotary Club de Chaves, se dedica ao estudo da presença judaica nesta regiom transmontana.

Atualizaçom:
A partir do ciclo de investigações levadas a cabo polo historiador Jorge Alves Pereira e do referido CEJAT pudo-se localizar de delimitar a judiaria de Chaves na época medieval. 

Assim sendo, embora se desconheça a abrangência total da judiaria, esta localizar-se-ia na área da Rua Direita, Pr. da República, R. de Santa Maria, Rua do General Sousa Machado (antiga Rua Nova), R. do Poço, Largo do Cavaleiro,  R. Luís de Viacos, Rua do Postigo das Manas e Travessa das Caldas.

A partir da expulsom dos Judeus o arruamento onde se localiza a atual R. do General Sousa Machado passou a chamar-se Rua Nova em alusom à presença judaica existente nessa área, conservando este nome durante quase quatro séculos. Nela localizar-se-ia a escola de estudo das sagradas escrituras, célebre na comunidade científica dessa altura e que tornou a Chaves num centro de irradiaçom de cultura em nível regional.

Na judiaria de Chaves achar-se-ia também uma das capelas à que posteriormente se dirigiriam os cristãos-novos para fazer os seus rituais. Trata-se dum prédio que se distingue dos demais pola fasquia da sua fachada e existência dumha janela para permitir a entrada de luz. 
Edifício onde se localizaria a sinagoga de Chaves
O local da sinagoga de Chaves teria sido por embaixo deste edifício ou nas suas imediações.

A Rua de Luis de Viacos é a única que na toponímia flaviense alude à presença judaica.

Foi a partir de fontes indiretas que se pude delimintar a judiaria flaviense. Em documentos do Abade de Baçal refere-se que no Largo do Cavaleiro teria morado um fidalgo cavaleiro que foi representante das povoações de Chaves nas Cortes e que moraria "em frente da judiaria".

Na atualidade nom existe na toponímia de Chaves qualquer elemento que aluda à presença judaica ou cristã-nova apesar da importância da comunidade judaica para a defesa da cultura na cidade. De facto, com a publicaçom de Sacramental em 14 de abril de 1488, os judeus de Chaves contribuiram para a impresom do primeiro livro em língua portuguesa.


Em Monforte de Rio Livre, antiga vila localizada na atual freguesia de Águas Frias do município de Chaves e que foi sede de concelho até 1853, existem vestígios de presença judaica.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

PORTO

Porto, a capital do Norte de Portugal, é umha cidade com cerca de 238.000 habitantes cuja metrópole, constituída polos municípios adjacentes que formam entre si um único conglomerado urbano, conta com cerca de 1,3 milhões de habitantes, o que a torna a maior do noroeste peninsular.

É a cidade que deu nome a Portugal, quando se designava Portus Cale, vindo mais tarde a tornar-se a capital do Condado Portucalense. Devido ao seu carácter comercial atraiu bem cedo mercadores judeus.

Durante a Idade Média no Porto houve três judiarias: a Judiaria Velha, a Judiaria de Monchique e a Judiaria Nova do Olival que contaram, possivelmente, quatro sinagogas.
Localizaçom das Judiarias do Porto. GoogleEarth
Judiaria Velha

A Judiaria Velha ficava situada na parte alta do Morro da Sé, dentro da "cerca velha", também chamada "muralha suévica", ali por perto da Rua da Aldas (hoje Rua do Arco de Santa Ana) e perto das atuais Rua Escura e Largo do Colégio, onde ainda se pode apreciar a planta medieval das ruas. 
Morro da Sé ou da Pena Ventosa, local da Judiaria Velha
R. do Arco de Santa Ana

Pouco se sabe dela, nem do ponto de vista arqueológico, nem do ponto de vista documental, mas que foi o núcleo mais antigo da fixaçom de comunidades judaicas (século XIII). A “Comuna dos judeus” era, por certo, um agrupamento social de artesãos e comerciantes, tendo, sem dúvida, um pequeno edifício estruturalmente adaptado como sinagoga. 
Localizaçom da Judiaria Velha no alto do Morro da Sé do Porto. Foto: Wikipedia
Todavia, os comerciantes e artesãos judeus estendiam a sua atividade polas ruelas do morro até à baixa da Ribeira e a Rua da Alfândega, junto ao rio Douro e perto da Basílica de São Francisco, onde estava o ancoradouro dos barcos e onde se movimentava o comércio e eles tinham as suas lojas lado a lado com cristãos, sem que haja notícias de tensões entre os dous grupos. Por um aforamento de 1386, sabe-se, de facto, que os Judeus tinham uma sinagoga doméstica na loja do marinheiro Lourenço Peres, situada na Rua da Munhata ou Minhota entre os conventos de S. Domingos e de S. Francisco (agora Rua do Comércio).


R. do Comércio do Porto
Como referido, seria esta a chamada “Judiaria de Baixo” e era ali a segunda sinagoga, que ficava por baixo da encosta da Vitória, onde, mais tarde, se construíu a Judiaria do Olival e a sua sinagoga.

Judiaria de Monchique

Na zona fluvial de Monchique (freguesia atual de Miragaia), extramuros, formou-se posteriormente umha outra judiaria, ocupando umha área que ia das Virtudes até ao Convento de Monchique, Rua da Bandeirinha e Largo do Viriato. 
Vista da zona de Monchique/Miragaia
O facto de os Judeus se terem deslocado para este local foi devido a que, a partir do século XIII foi proibido alugar ou vender-lhes propriedades dentro da Cividade onde se achava a Judiaria Velha.

Nessa zona ainda persistem, ligados à presença dos Judeus, vários topónimos: Monte dos Judeus, Escadas do Monte dos Judeus, Largo dos Judeus ou Rua do Monte dos Judeus. 
Judiaria de Monchique - Porto. GoogleMaps


GoogleMaps


Escadas do Monte dos Judeus



Imagens de A vida em Fotos
É nesta zona que, por volta de 1380, o rabino-mor do rei, D. Fernando Don Yahuda Ibn Maner, funda a terceira sinagoga do Porto.  O local da antiga sinagoga é desde o 1535 o Convento das Clarissas e a capela do Convento da Madre de Deus de Monchique.

Desta sinagoga (aberta entre 1380-86) existe um documento notabilíssimo, que é a inscriçom de inauguraçom, a maior inscriçom conhecida dos judeus em Portugal e que foi encontrada em 1826, agora exibida no Museu Arqueológico do Carmo de Lisboa.
Inscriçom encontrada no local da sinagoga de Monchique
Na lápide, encontrada na parede ocidental da capela do referido convento, pode-se ler:

«1. Alguém poderá dizer: Como nom foi resguardada umha casa de tanta nomeada no interior dumha muralha?
2. Mas esse bem sabe que tenho um conhecido que é reconhecido da alta estirpe.
3. Ele é que me guarda, pois me declara sem sobra de dúvida: Eu sou muralha.
4. O maior entre os Judeus, o mais forte dos heróis, e que se levantam os chefes ali está ele de pé.
5. Benfeitor do seu povo, servo de Deus na sua integridade, edificou umha casa ao seu nome de pedras de talha.
6. Para o Rei ele é segundo, à cabeça é controlado, pola sua grandeza e na presença de reis ele se ergue.
7. Ele é o Rabi Don Yehudah ben Maner, luz de Judá e a ele compete autoridade.

8. Por ordem do Rabi, que ele viva, Don Joseph ibn Arieh, encarregado e chefe para a tarefa».


Extinto convento de Monchique





Imagens de A vida em Fotos
Muito perto da referida sinagoga, no lugar que hoje chamam “Monte dos Judeus” é que teria existido um cemitério judaico (Maqbar). Porém, nom existe unanimidade no tocante à sua localizaçom. Enquanto uns historiadores o situam no local do atual Palácio das Sereias/Mamudas, no fundo da Rua Bandeirinha, outros acham que terá sido muito para oriente nos socalcos do Jardim Municipal do Horto das Virtudes, próximo da Igreja de S. Pedro de Miragaia. 


Monte dos Judeus ou Morro de Monchique
A existência dum curso de água, o Rio Frio, que passa polo Horto, abastecendo a Fonte das Virtudes, indo depois desaguar no Rio Douro, poderá ter sido um apoio logístico para os funerais judaicos, devido à obrigatoriedade religiosa de lavar os corpos dos falecidos antes de se proceder ao enterramento, um ritual de purificaçom que no idioma hebraico se designa de Tahara.



Judiaria Nova do Olival

Em 1386, o rei D. João I mandou instalar os Judeus dispersos polo Porto num espaço intramuros, justificando a medida por questões de segurança (a eminência das guerras de libertaçom com Espanha) e quando o espaço das antigas judiarias se tornara escasso para conter todos os Judeus da cidade. D. João mandou a Câmara do Porto assinalar um lugar apartado dentro dos muros da cidade para construir umha nova judiaria, sendo escolhido o Campo do Olival. 

O bairro judeu ocupava um terreno de 30 courelas e por ele se pagavam anualmente 200 maravedis velhos, tal como estipulava o contrato celebrado com a Câmara a 2 de junho de 1388. O dirigismo subjacente ao processo de urbanizaçom do Campo do Olival, com complemento programático e cronológico na abertura da R. Formosa, fica bem patente no loteamento da R. de S. Miguel, onde os Judeus recebem trinta quadrelas, certamente correspondentes aos trinta lotes ainda perceptíveis no cadastro atual.

Em pouco tempo e de forma muito racional, os Judeus urbanizaram umha zona erma e economicamente desinteressante, edificando eles a sua sinagoga e casas de morada ao longo dumha extensa artéria em L, que se denominou Rua da Judiaria Nova do Olival, pois só anos mais tarde é que se rasgaria a Rua Nova ou Formosa, depois Rua Nova dos Ingleses (atualmente Rua Infante D. Henrique) entre o Convento de S. Francisco e a desembocadura da Rua dos Mercadores, por norma considerada como o primeiro projeto urbanístico moderno do Porto.

A Judiaria do Olival ocupava o ângulo noroeste do intramuros era delimitada por dous eixos urbanos principais (R. de S. Miguel de Cima e o caminho que de S. Domingos vai para Miragaia), que garantiam o essencial das necessidades de circulaçom nos sentidos N-S e L-O. Qualquer umha delas terminava numha das portas da muralha fernandina. 
Maqueta da Judiaria do Olival do Porto. Wikipedia
Esta judiaria construía um autêntico gueto, o que permita controlar a movimentaçom dos Judeus. Lá os Judeus tinham liberdade de açom na cidade, comprando e vendendo, mas estavam obrigados a recolher à judiaria à noite, ao toque de Trindades, na torre da porta do Olival. Segundo o estatuto de “gente de naçom” ou “os meus judeus”, como diziam entom os reis portugueses, a comunidade contava com oficiais próprios, livremente eleitos, sendo a Comuna dos Judeus umha alternativa étnica à Câmara dos Cristãos, uma espécie de concelho dentro do concelho. 

A Judiaria Nova do Olival situava-se no espaço atual do quarteirom da Vitória, nas ruas que hoje rodeiam a igreja de Nossa Senhora da Vitória, entre o Mosteiro de São Bento e a Rua de Belmonte.

Arruamentos da Judiaria do Olival do Porto. GoogleMaps
Este bairro judeu desenvolvia-se em torno dum eixo principal (norte-sul) constituído pola Rua de S. Miguel (que hoje corresponde às ruas de S. Bento da Vitória e de S. Miguel), em torno do qual se abriam travessas perpendiculares, incluindo também a atual R. das Taipas. 
R. S. Bento da Vitória


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                                          Travessa de São Bento                                                             CAEIRO


                     Tr. de São Bento vista da R. dos Taipas               CAEIRO
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R. S. Miguel da Vitória
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Rua das Taipas

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Travessa das Taipas

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Era um burgo dentro do burgo, limitado a norte por uma viela que seguia para as barreiras, ficando no seu exterior o "outão" e o forno do Olival. Tinha duas portas, umha à entrada voltada para o Largo da Porta do Olival (atual R. de São Bento da Vitória) e umha outra de saída situada nas Escadas da Esnoga/Sinagoga (hoje Escadas da Vitória) e onde se colocou umha placa que lembra esse nome.


Escadas da Esnoga



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Escadas da Esnoga do Porto. José Paulo Andrade
A Vida em Fotos
Entroncamento das Escadas na R. Vitória. A Vida em Fotos

A Sinagoga estava situada no topo das Escadas da Vitória. Este local veio depois a ser ocupado pola Igreja de Nossa Senhora da Vitória. 


Igreja de Nossa Senhora da Vitória alegadamente no local da antiga sinagoga. CAEIRO
A igreja vista da Rua da Vitória. A Vida em Fotos
Segundo umha hipótese, um pouco mais a norte, no Passeio das Virtudes, localizavar-se-ia o cemitério judaico do Porto.


Os judeus aqui viveram e prosperaram, tendo assimilado os Hebreus expulsos dos reinos de Espanha. Assim, em 1482 acentua-se a sublocaçom das casas e aforam-se edifícios do lado exterior da porta da judiaria. Aliás, em 1492, quando o édito de expulsom dos Judeus dos reinos de Espanha, o rei português D. João II negociou com o rabino Isaac Aboab, rabino-mor (gaon) de Castela, o estabelecimento de trinta famílias de Judeus expulsos na Judiaria do Olival, dando origem às trinta casas da courela dos judeus, como informa o médico Emanuel Aboab na sua Nomologia.

O édito de expulsom de D. Manuel I de dezembro de 1496 ditou o fim da Judiaria e muitos Judeus abandonaram o reino, enquanto outros se convertiam ao cristianismo. Estes passaram a designar-se cristãos-novos. 

Quer porque muitos abandonaram as suas casas, quer porque os que se converteram nom queriam ficar ligados ao passado judaico, o facto é que a zona desta antiga judiaria ficou quase deserta por volta do século XVI. Entom as casas desabitadas foram entregues a cristãos velhos. Desta Judiaria é oriundo o célebre filósofo Uriel da Costa, que viveu na cidade de Amsterdám (Holanda).

O rei D. João III promulgou duas cartas régias em 1534 e 1539 que obrigaram os cristãos-novos habitantes em varios locais da cidade (como a Praça da Ribeira) a concentrarem a sua morada na Rua de S. Miguel, que na altura, incluia a Rua de São Bento da Vitória. 

No espaço das trinta casas da courela dos judeus ergueu-se, no século XVI-XVII, o Mosteiro de São Bento da Vitória, um mosteiro beneditino. Na padieira da portaria do mosteiro foi colocada uma inscrição latina: "Quae fuerat sedes tenebrarum est regia solis. Expulsis tenebris sol benedictus ovat". Tal levou muito historiadores a suporem tivesse sido aqui a sinagoga. Atualmente crê-se que seria na igreja paroquial da Vitória. 

Posteriormente, nos seus muros foi colocado um Memorial Historiado e Litúrgico de mármore, em língua hebraica e portuguesa, em recordaçom dos Judeus expulsos ou que foram obrigados a se converter ao cristianismo.
A Vida em Fotos
Sabe-se que muitos cristãos-novos continuaram a praticar o judaísmo clandestinamente, no entanto, devido ao seu velho e consistente passado judaico e devido a essa herança estrutural “marrana” do Porto, inconsciente mas pressentida e intuitiva, a Inquisiçom apenas funcionou no Porto durante dous anos e só realizou um auto-de-fé porque o povo do Porto nom a aceitou, nom denunciando aos que se esconderam e acolhendo os que passaram a ser cristãos-novos.


Nos princípios do século XVII, mercadores com as suas lojas, gente de prol, mais tarde os magistrados e funcionários do Tribunal da Relaçom passaram a viver na Rua da Judiaria Nova (agora denominada de S. Miguel, mais extensa que a atual, porque abrangia também a Rua de S. Bento da Vitória de hoje).



Quando em 1920 o militar Artur Carlos de Barros Basto tentou a retomada do judaísmo entre os marranos, Porto tornou-se no centro das suas atividades. A congregaçom "Mekor Haim" foi estabelecida em 1927. Em 1929 abriu-se a Sinagoga Kadoorie, albergando tanto a congregaçom quanto o seminário de estudos religiosos. O templo da comunidade israelita do Porto acha-se no bairro de Boavista, no nº. 340 da R. Guerra Junqueiro. Na década de 1970 a comunidade judaica do Porto contava com 100 pessoas.
Sinagoga Kaddorie Mekor Haim no Porto
Sinagoga secreta
Em 2003, no decurso dumhas obras numha casa da Rua de S. Miguel (n.ºs 9-11) ter-se-á descoberto um Hejal/Ehal (arca santa, ou Aron hakodesh o elemento central dumha sinagoga), onde se guardam os rolos da Lei (Torá), por detrás dumha parede dupla desse prédio. Este armário em nicha foi descoberto após abater umha parede falsa no lado oriental da casa.
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O armário judaico foi identificado por arqueólogos e historiadores da Faculdade de Letras da Universidade do Porto como um dos quatro existentes em Portugal, datando de finais do século XVI ou inícios do século XVII. 
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O achado descoberto confirma o edifício como o da sinagoga secreta que se sabia ter existido na Rua de S. Miguel, desde meados do séc. XVI. O filósofo e médico Imanuel Aboab, nascido no Porto em 1555, descreveu-a na sua Nomologia (Amsterdám, 1629), porque aí ia orar, em criança.

Como muitos cristãos-novos continuaram a praticar o criptojudaismo em segredo apesar da proibiçom, o edificio da R. de S. Miguel era assim o centro dessa comunidade e oferecia esta entrada nos nºs 9-11 e umha outra, discreta, localizada na traseira, jundo às Escadas da Esnoga (da Vitória).
Traseiras do edificio que alberga a sinagoga secreta do Porto. CAEIRO

Entrada discreta da sinagoga clandestina do Porto. CAEIRO

Desde 2012 o imóvel do achado é considerado Imóvel de Interesse Público, o que nom impede que albergue o Lar e Centro de Dia Nossa Senhora da Vitória.