Matheus Alexandre
Nas últimas semanas, um intenso debate tomou conta da opiniom pública após Elon Musk realizar umha saudaçom nazista durante a posse de Donald Trump como presidente dos EUA. A atitude foi amplamente condenada por especialistas em fascismo e nazismo, que apontaram a crescente proximidade do bilionário com o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), grupo cuja trajetória é marcada polo antissemitismo.
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A saudaçom nazista do Elon Musk |
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, veio a público quase que imediatamente em defesa de Musk. Para muitos, essa atitude pode parecer surpreendente.
Para nós, nom.
Netanyahu tem um histórico de distorçom dos factos sobre o Holocausto. Em 2015, ele declarou que Hitler nom pretendia inicialmente exterminar os judeus, mas teria mudado de ideia após um encontro com Haj Amin al-Husseini, mufti de Jerusalém, que supostamente teria sugerido a queima dos judeus em vez da sua deportaçom. Essa afirmaçom foi prontamente refutada por historiadores, que demonstraram que a Soluçom Final já estava a ser articulada antes da reuniom entre Hitler e al-Husseini, ocorrida em novembro de 1941.
Além de historicamente falsa, essa narrativa tinha umha consequência clara: transferir a responsabilidade polo Holocausto para os palestinianos, minimizando o papel central do regime nazista no extermínio judeu.
Netanyahu também tem sido um aliado estratégico da extrema-direita europeia, trocando apoio político por vantagens diplomáticas. Para fortalecer a posiçom de Israel na Uniom Europeia e em fóruns internacionais, ele nom hesitou em se associar a partidos e líderes herdeiros do antissemitismo histórico europeu, contribuindo para a reabilitaçom da imagem dessas lideranças políticas. Ao analisarmos as ideologias e vínculos desses partidos, rapidamente encontramos as raízes no nazismo e nos seus colaboradores.
Um exemplo emblemático dessa aliança é a proximidade de Netanyahu com Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria. Orbán tem repetidamente feito relativizações do Holocausto e já foi duramente criticado por exaltar figuras do seu país ligadas ao colaboracionismo nazista, como Miklós Horthy, regente do país entre 1920 e 1944. Horthy, que colaborou diretamente com Hitler, foi responsável por leis antissemitas e pola deportaçom de mais de 400 mil judeus húngaros para Auschwitz. Mesmo assim, Orbán o classifica como um “estadista excepcional”. Para Netanyahu, a aliança com Orbán justifica-se, nas suas palavras, por “muitas cousas que compartilhamos no passado e no presente”. O que de facto está a ser compartilhado, no entanto, é a exploraçom política do antissemitismo para fins estratégicos, enquanto a verdadeira memória do Holocausto é manipulada e distorcida em nome da conveniência geopolítica.
Outro exemplo desse oportunismo político ocorreu em agosto de 2019, quando o jornal Israel Hayom, alinhado ao partido Likud de Netanyahu, defendeu a abertura dum diálogo oficial com a AfD alemã, agora defendida por Musk.
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O partido AfD nom dissimula as suas saudades do nazismo |
Poucos meses depois, em maio de 2020, Yair Netanyahu, filho do primeiro-ministro, tornou-se um símbolo da AfD ao publicar um tweet inflamado pedindo a destruiçom da Uniom Europeia. Em resposta à Delegaçom da UE em Israel, ele escreveu:
“A zona de Schengen está morta e, em breve, a sua organizaçom globalista maligna também estará. A Europa voltará a ser livre, democrática e cristã!”
O envolvimento dos Netanyahu com figuras e movimentos de extrema-direita também ficou evidente em 2019, quando o seu governo recebeu calorosamente o primeiro-ministro da Lituânia, Saulius Skvernelis. No seu país, Skvernelis tem sido um dos principais responsáveis pola distorçom da história do Holocausto, exaltando como heróis nacionalistas envolvidos no massacre de judeus. Além disso, ele pressionou por umha legislaçom que proíbe a venda de livros que “distorcem a história lituana”, numha clara tentativa de censurar as evidências documentadas da colaboraçom em massa da populaçom local com os nazistas. Diante desse histórico, Netanyahu nom apenas ignorou esses fatos, como também elogiou Skvernelis, apresentando-o como um exemplo de combate ao antissemitismo.
A estratégia de Netanyahu de relativizar o antissemitismo para manter alianças políticas já era evidente anteriormente. Em 2017, o seu governo foi duramente criticado por nom se opor à campanha antissemita promovida por Viktor Orbán contra George Soros. O primeiro-ministro húngaro lançou umha ofensiva publicitária difamatória contra Soros, sobrevivente do Holocausto e bilionário judeu, utilizando cartazes e anúncios recheados de estereótipos antissemitas. A campanha retratava-o como um conspirador global manipulador, evocando as mesmas narrativas usadas por regimes antissemitas ao longo da história. Inicialmente, a embaixada de Israel na Hungria condenou a iniciativa, alertando sobre o tom antissemita da propaganda. No entanto, dias depois, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, sob Netanyahu, nom apenas retirou a condenaçom, como também se juntou aos ataques contra Soros.
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Campanha antissemita contra Soros: "Don’t Let Soros Have the Last Laugh" |
Mais recentemente, em maio de 2023, o atual Ministro de Assuntos da Diáspora e Combate ao Antissemitismo de Israel, Amichai Chikli, novamente deu sinais dessa postura oportunista ao sair em defesa de Elon Musk. O bilionário comparara George Soros ao personagem Magneto, dos X-Men —um judeu sobrevivente do Holocausto— e declarado que Soros “odeia a humanidade” e “quer corroer o próprio tecido da civilizaçom”. As declarações foram amplamente condenadas como antissemitas por diversas organizações judaicas e especialistas em discurso de ódio.
Esses episódios revelam um padrom: longe de ser um defensor genuíno da memória do Holocausto e do combate ao antissemitismo, Netanyahu instrumentaliza esses temas conforme os seus interesses políticos, priorizando alianças estratégicas mesmo quando envolvem figuras e grupos historicamente ligados à perseguiçom dos judeus.
O governo de Benjamin Netanyahu é a prova viva de como o combate ao antissemitismo pode ser transformado em arma política. Netanyahu nom tem um compromisso genuíno com a luta contra o antissemitismo, mas sim com a manutençom do seu próprio poder.
É inegável que o movimento antissionista tem instrumentalizado na sua retórica e açom política elementos antissemitas —e isso deve ser firmemente condenado.
No entanto, o que Netanyahu e a extrema-direita israelita fazem é algo diferente: utilizam a acusaçom de antissemitismo como um escudo para silenciar qualquer oposiçom ao seu governo, equiparando críticas legítimas à sua política com ódio contra judeus. Ao mesmo tempo em que distorce o significado do antissemitismo em prol da manutençom da sua agenda, Netanyahu colabora ativamente com extremistas que promovem discursos e ações que colocam em risco a vida dos judeus na diáspora — com quem ele nom se importa. Assim, longe de ser um defensor dos interesses judaicos, o seu governo reforça alianças oportunistas que enfraquecem a luta real contra o antissemitismo e instrumentalizam a memória do Holocausto para fins políticos.
Esses episódios, no entanto, revelam um problema mais profundo. Se, por um lado, é inegável que os antissionistas instrumentalizam a causa palestiniana para legitimar o seu discurso de ódio, deslocando para “sionismo” todos os clichês do antissemitismo junto ao seu programa de destruiçom Israel, por enxergá-lo como a encarnaçom política do povo judeu, por outro lado, é possível e cada dia mais relevante apontar como o governo israelita de Netanyahu se apresenta como a expressom absoluta da vontade geral da naçom judaica —tanto em Israel quanto na diáspora. Esse enquadramento transforma qualquer crítica ao governo num ataque ao próprio povo, mesmo quando essa crítica parte de judeus sionistas ou da oposiçom israelita. Trata-se dumha dissoluçom da política em favor dumha unidade imaginária.
Ora, essa é umha lógica autoritária que esteve presente em muitos regimes na história do século XX. Líderes autoritários nom apenas se colocam como os únicos intérpretes legítimos da história e do destino coletivo, como também reivindicam para si o monopólio da representaçom da naçom. Dessa forma, seus críticos deixam de ser adversários políticos legítimos e passam a ser tratados como inimigos do próprio povo.
Ainda que numha realidade profundamente distinta —afinal, Israel é umha democracia parlamentar— , essa estratégia retórica se repete no governo de Benjamin Netanyahu. Ao se apresentar como o único defensor legítimo da identidade e da segurança do povo judeu, Netanyahu reforça umha narrativa que deslegitima qualquer oposiçom, ao passo que, por interesses geopolíticos, promove a naturalizaçom de líderes e partidos antissemitas ao redor do mundo.
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