Eis a história das perseguições e repressões sofridas polos membros da família Kuper-Kuperstein de médicos judeus que viveram em Vigo entre 1914 e 1938.
Simeón Kuper Hornstein (Schlomo Mendelewitch Kuper) (Ucrânia, 1879) foi um médico judeu que viveu na cidade de Vigo com a sua família.
Nascido na Ucrânia, emigrou primeiro a Lodz (Polónia) e depois para a Suíça. De ideologia social-democrata, envolveu-se na Revoluçom russa de 1905 contra o czarismo, vendo-se obrigado a fugir por causas políticas e exilar-se na Suíça. Em Genebra conhece outro refugiado judeu russo chamado Wulf Dainow, que possuía umha clínica odontológica em Ourense com quem foi trabalhar entre 1912-14.
Durante a sua estada na Suíça no ano 1911 nasce Alejandro Kuper Kuperstein, filho de Simeon e da sua mulher, Ana Kuperstein.
Em 1914 fixa-se com a família em Vigo, abrindo umha clínica odontológica no nº67 da Rua do Príncipe, a primeira da Galiza a estar dotada com aparelhos de radiologia. Com umha clientela da burguesia local, também são lembrados como pessoas sempre prestes, como os Dicker-Dainow, a ajudar as pessoas mais carenciadas.
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Anúncio do gabinete | Faro de Vigo 18/10/1915 |
Por causa do processo burocrático de legalizaçom dos títulos académicos e a obtençom das autorizações para exercer a profissom o coletivo de médicos judeus enfrentou um cúmulo de dificultades. Por trás dos atrancos estavam a ferrenha oposiçom dos colégios médicos e de odontologistas, que viam na chegada dos estrangeiros umha sólida concorrência, alegando a existência dumha trama de falsificaçom de títulos académicos e a desconfiança das autoridades com os imigrantes procedentes da Rússia, polo temor de que fossem agentes encobertos do bolchevismo.
Assim sendo, a 29 de julho de 1917, o médico odontologista Manuel Filgueira publica no jornal Progreso umha carta encaminhada ao presidente do colégio de médicos na que pede a tomada de medidas contra o intrusismo:
"É igualmente legal umha autorizaçom concedida a um título russo que possui um tal Liloimo Mendelecrek Kuper, quem exerce nesta cidade de Vigo, Príncipe 67, segundo a gente em companhia dum marquês e que consoante dita autorizaçom pode exercer em Espanha como médico cirurgião dentista?
Simeón Kuper defende-se afirmando que estudou nas universidades de Kiev e de Genebra e que, aliás, mesmo tinha estudos de direito. No ano 1922 ainda pendente umha resoluçom sobre o título, é adiada a ordem de suspensom do exercício como dentista até conhecer o resultado das inquirições. Por enquanto, Simeon Kuper consegue em 1925 a cidadania espanhola.
Em 1920, logo do início da guerra civil russa, Ita Lia (Elisa) Kuper (Ucrânia, 1885), chega à Galiza depois de passar por Odessa para trabalhar como dentista com o seu irmão Simeón e depois num gabinete próprio no n°16 da R. do Príncipe (na altura chamada de Galán). Viúva, acompanha-a a sua filha, Lydia Kuper Fridman (Lodz, 1914).
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Os Kuper- Kuperstein de Vigo: 2 Elisa - 3 Ana Kuperstein - 7 Lydia - 8 Alejandro Autor da 📷 Salomão Kuper |
Esse mesmo ano umha outra irmã dele, Sofía Kuper Hornstein, licenciada em odontologia pola Universidade de Novorossiisk e casada com o dentista Abraham Zbarsky, abandonam a cidade de Lodz (Polónia) onde trabalharam como dentistas e chegam a Vigo.
Em 1923 Sofia recebe a licença para exercer durante cinco anos na sua clínica em Vigo, localizada no n°50 da R. Velázquez Moreno. A 6 de fevereiro de 1927 é eleita para o cargo de Contabilista do Colégio de Odontologistas de Ponte Vedra-Ourense, numhas eleições nas que a sua irmã Elisa foi eleita Tesoureira. Doravante aparece nas listas de dentistas autorizados até o ano 1928, altura em que expira a licença profissional, deixando de exercer. Na década de 1930 aparece como sócia da mutualidade benéfica de classes sanitarias.
O seu homem Abraham, cujos estudos de odontología foram validados na Universidade Central de Madrid, abriu em 1925 umha clínica na cidade de Ponte Vedra. O casal Zbarsky-Kuper tinha dous filhos: Elias (Odessa, 1906) e Jacobo (Lodz, 1914).
Alejandro Kuper, filho de Simeon, depois de ser criado em Vigo, no ano 1928 começa estudos de medicina na Universidade de Santiago de Compostela, onde milita na FUE, graduando-se em 1934. Especializa-se em Endocrinologia trabalhando na clinica do doutor Gregorio Marañón em Madrid. Durante os estudos universitários conhece Concepción Ema Berenguer (Santander, 1912) e que se tornará mulher dele e médico radiologista.
Logo de passar a infância em Vigo, Lydia Kuper muda-se em 1932/33 para Madrid a fim de estudar, diferentemente da família, o curso em Filosofia e Letras. Alojou-se na ala feminina da Residencia de Estudiantes. Posteriormente trabalhou como professora de historia no Instituto Velázquez de ensino médio de Madrid. Em 1935, com 21 anos, casa com Gabriel León Trilla, um dos fundadores do Partido Comunista de Espanha (PCE).
Repressom e expulsom
Na sequência do golpe de estado nazi-fascista de 18 de julho de 1936, dous dias depois, o capitão "rebelde", Antonio Carreró Vergés, proclama a Lei Marcial na Porta do Sol de Vigo.
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Adereços fascistas na Rua do Príncipe de Vigo (1937) |
Umha condessa que morava no mesmo prédio que a família Kuper denunciou ter ouvido disparos na sua morada coincidindo com o golpe militar. A 21 de julho Simeón é detido junto ao seu sobrinho Elias Zbarsky, sendo-lhe apreendidos vários impressos e umha pistola de pólvora seca. Um dos impresos era um chamado da Aliança Operária encaminhada aos "camaradas soldados" de Vigo em que dava conta da sublevaçom de várias guarnições contra o governo legítimo, lembrando-lhes que nom estavam obrigados a aceitar as ordens dos superiores, pois o governo decretara o licenciamento das tropas cujos mandos se revoltassem contra a legalidade republicana. Outros panfletos apreendidos referiam-se à greve na fábrica Singer. Para além disso, ocupam umha mala com livros "de genuina propaganda soviética".
Simeón e o seu sobrinho Elias Zbarsky são processados em Vigo por excitaçom à rebeliom militar, com o resultado de suspensom provisória do processo judiciário. Porém, Simeón, Elias e a sua irmã Elisa são detidos polos sublevados e presos no Paço da Justiça e cárcere localizado diante do prédio da sua consulta.
Tribunal Militar Territorial 4 | Pontevedra e Vigo | Causa 593/1936, Caixa 200, Orden 2143 | Motivo: Rebelion Militar | Notas: Judicial
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O cárcere de Vigo (atual Museu MARCO) onde os Kuper-Zbasky foram presos |
A família é libertada em 1938, altura em que conseguem sair do cárcere ao abrigo dumha troca de prisioneiros com os familiares dum proeminente militar "rebelde" por intermediaçom do Comité Internacional da Cruz Vermelha. Em agosto de 1938 os irmãos Simeon, Elisa e Sofia Kuper Hornstein, junto com Elias Zbarsky, filho de Sofia, atravessam a fronteira de Irún-Hendaia, pois o governo espanhol decidira a sua expulsom, emigrando em 1939 para Moscovo com os seus familiares.
Em março de 1939 umha ordem judiciária decreta a apreensom dos bens de Simeón Kuper A casa que tinha em Vigo foi leiolada para pagar umha multa de 50.000 pesetas (aprox. 300€). O juiz que organizou a leilom era à vez o diretor do cárcere onde Simeón esteve preso. Curiosamente a moradia foi parar para as mãos da mulher que fez a denúncia.
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Fotografia atual do prédio da R. do Príncipe, 67 onde estava o gabinete dental de S. Kuper e que posteriormente foi "comprado" 📷 GoogleMaps |
Por enquanto, a Alejandro Kuper o golpe de estado de 18 de julho de 1936 apanha-o com a sua mulher em Madrid, onde adere ao PCE. O casal exerce de médicos na frente e ele de intérprete dos conselheiros soviéticos da Brigada de Tanques de Combate do Exército Popular da República. Depois trabalhou como secretario cultural da Comisom do PCE na embaixada soviética de Barcelona.
Em 1938 o casal Kuper-Ema residia junto com a mãe de Alejandro, Ana Kuperstein, e outros membros da família no sexto andar dum prédio da rua Muntaner de Barcelona. Umha noite, Ana pediu à sua nora, em avançado estado de gravidez, que interpretasse ao piano umha peça. Enquanto Concepcion tocava, Ana, que padecia umha profunda depressom pola separaçom familiar e as circunstâncias da guerra, suicidou jogando-se da varanda. No dia depois, 3 de agosto, nascia a primeira filha de Concepción, que foi chamada Ana, como a sua avó.
Alejandro envolve-se como agente do NKVD e em fevereiro de 1939, após a queda da Catalunha, os sobreviventes da família, acompanhando o pessoal da embaixada, são acolhidos na URSS. Durante a Segunda Guerra Mundial Alejandro incorporou-se como médico no Exército Vermelho. Porém, entre 1942-48 esteve em missões políticas no México, entre as quais, proteger Ramón Mercader, o assassino de Leon Trotsky.
Com certeza, Alejandro Kuper Kuperstein, passaria à história por ser a pessoa encarregada de libertar a Ramón Mercader em México após a morte de Trotsky. Fora treinado em Moscovo para tentar, polos meios que fosse, ceivá-lo da prisom. Mas a mãe de Mercader achou que poderia levar a cabo esse labor pola sua conta e frustrou a operaçom. Em 1944 Mercader, o assassino de Trotsky, reconheceria numha carta que deveria ter estado livre nessa altura "se nom tivesse sido pola minha mãe que o estragou tudo".
Porém, à idade de 31 anos Concepcion morre em Moscovo em 1943, talvez por causa dumha leucemia contraída devido à exposiçom às radiações durante o seu exercício profissional. Dous anos antes, em 1941, nascia o segundo filho do casal, Alejandro Kuper Ema, que seria criado, junto com a sua irmã Ana, polo avô.
No início da guerra civil, Lydia Kuper, separada do homem, interrompeu a sua carreira docente e, graças ao domínio da língua russa, foi intérprete no Estado Maior da República para os assessores militares soviéticos, entre os quais Rodion Malinovsky (futuro marechal da URSS durante a Segunda Guerra Mundial e ministro de Defesa da URSS entre 1957-69). Segundo Julián Gorkin, Lydia e Malinovsky foram amantes.
Em março de 1939, antes do final da Guerra civil espanhola, Lydia abandona Espanha num dos últimos aviões, junto a um seleto grupo de militares e conselheiros soviéticos. A avioneta teve de fazer umha aterragem de emergência em Argélia na que Lydia rompeu um braço. Logo de estar retida en Orão, obteve um visto para viajar para Marselha e depois para Paris, onde se reuniu com exilados espanhóis. Posteriormente exilou-se URSS, onde trabalhou como tradutora e intérprete para a cúpula do PCE, formada por dirigentes que nom dominavam o russo.
Exilo na URSS
Instalado na URSS em 1939, Simeón Kuper foi professor de latim e russo a alunado estrangeiro do Instituto de Medicina nº1 de Moscovo. O filho dele regressa em 1948 à URSS, dedicando-se à traduçom de livros, entre os quais as obra completas de Estaline ao castelhano.
Na esteira da tradiçom antissemita russa, em janeiro de 1953 desata-se na URSS o Complô dos médicos judeus. Segundo a versom oficial do Estado Soviético, umha conspiraçom judaica, sob ordens da inteligência estado-unidense, teria como objetivo assassinar os principais quadros do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), mesmo o próprio Estaline.
"Prendam os Médicos Assassinos" — alardeava a manchete do Pravda a 13 de janeiro de 1953. "Os médicos do Kremlim, judeus na sua maioria, assassinaram os maiores líderes soviéticos, e tramaram contra outros, talvez até contra o próprio Estaline".
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Cartoon publicado na revista Krokodil em janeiro de 1953 | |
Na sequência dessa vaga antissemita promovida por Estaline é que Simeon Kuper perde o emprego por causa da sua origem etno-religiosa.
Depois da morte de Estaline, em março de 1953, os líderes da URSS assumiram que o caso foi fabricado com o objetivo de prender e executar líderes comunistas que se opunham ao Líder Supremo. Em abril do mesmo ano, o mesmo Pravda dizia que "os médicos tinham sido presos sem nengumha base legal". Porém, Simeon Kuper nunca mais recuperou o emprego.
Nessa altura é que Alejandro, o filho dele, abandona a URSS, indo viver em Bucareste e Praga. Simeon Kuper falecia em Moscovo em 1957 à idade de 78 anos.
Por enquanto, Lydia Kuper, acabada a Segunda Guerra Mundial, trabalhou para a URSS como tradutora no Serviço de Edições em Línguas Estrangeiras. Nesta linha, Lydia fez parte do seleto ‘Grupo de Moscovo’ formado por inteletuais que realizaram traduções para o espanhol dos clássicos da literatura russa, e que foram publicados em Espanha nos decénios de 1950 e 1960.
A partir de 1968 Alejandro Kuper manteve posturas críticas com o comunismo logo depois da invasom soviética de Checoslováquia.
Nos inícios da década de 1970 o odontologista local Celso González Muñoz teve de fazer umha assistência profissional no cárcere de Vigo. Na enfermaria da prisom saltou aos olhos umha caixa de instrumental de exodôncia, de desenho e qualidade muito especiais. Um funcionário referiu que pertencera a um dentista russo fuzilado. Perante a teimosia do odontologista em inquirir polo motivo da execuçom, o funcionário retorquiu: "porque era russo, fogo!" Em posteriores visitas à prisom o odontologista reparou que a caixa desaparecera. Em 1985 os restos da família Kuper-Kuperstein puderam recuperar umhas moedas de ouro depositadas no Banco Pastor de Vigo.
Em 1988 Alejandro Kuper regressa a Espanha, mas nom à Galiza, fixando-se na cidade de València acompanhado polos seus filhos Ana e Alejandro. Porém, poucos meses depois falece à idade de 77 anos por causa dum cancro de figado. Alejandro Kuper Kuperstein, com o sentimento que umha parte fundamental da sua vida ficou na Galiza, sempre lembrou nos seus escritos Vigo, a cidade onde fora criado, e ao "Celtinha". Enquanto o seu filho Alejandro Kuper Ema desenvolve a sua profissom de engenheiro em València com morada em El Saler, a sua irmã Ana deslocar-se-á para Madrid, sendo localizada pola QJ a trabalhar como empreiteira em El Boalo, umha localidade no sopé da vertente sul da serra de Guadarrama.
A 5 de setembro de 1996 o jornal "A Nosa Terra" (nº742) noticiava a presença na Galiza de dous advogados vindos de València, Francisco Albert Matea e Maria Martinez, com um mandado: recompilhar informações para reconstruir os avatares e recuperar a memória da família Zbarsky-Kuper, nomeadamente, defender os interesses dos seus representados, os irmãos Alejandro e Ana relativamente a achar informações sobre o estado dos bens imobiliários da família e poder revisar a causa das suas mortes. Segundo os advogados, "ele [Alejandro] quer chegar até o final, nom apenas preocupado com a recuperaçom do património apreendido, mas que se reconheça que foram injustas as mortes e o desterro".
O seu interesse concentrava-se, segundo ANT, em boa parte em conhecer precedentes de processos de anulaçom das pantomimas de juízos que se celebraram naqueles dias e, para isso, solicitavam a ajuda em todas as instituições galegas. Aliás, "queremos falar com gente viva que os lembre, com os seus vizinhos e conhecer outros casos de injustiça na Galiza", frisaram eles.
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Lydia Kuper (1914-2011) |
Em 1957, após um acordo coa Cruz Vermelha e o regime franquista, Lydia voltou a Espanha, onde prosseguiu a profissom de tradutora para várias editoriais até a morte, acontecida em Madrid a 8 de fevereiro de 2011, à idade de 99 anos.
Fontes:
> "Os anos do medo" de Xosé Álvarez Castro (blogue)
> HISTORIAS de Pedro (blogue)
> Búscame en el ciclo de la vida, de Gabino Alonso e María Torres
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