terça-feira, 24 de junho de 2014

PRESENÇA JUDAICA NA GALIZA

Rubém Melide

Com especial releváncia até os alvores da Idade Moderna, a coletividade judaica manteve ao longo da nossa história umha presença continuada. Nom é por acaso que, da mesma maneira que os sefarditas expulsos dos territórios de língua castelhana, a coletividade judia galega e portuguesa manteve a sua versom da nossa língua longe das nossas terras, nomeadamente na França, Países Baixos e Inglaterra, embora infelizmente o judeu-galego ou judeu-português seja um idioma já extinto, ou empregue só de umha maneira muito reduzida e circunscrita apenas a usos litúrgicos.

Na sua obra Os judeus no Noroeste da Península Ibérica, o professor João Domingos Gomes Sanches explica-nos que os judeus nom som precisamente umha raça, conceito resultante dumha construçom cultural e nom dum facto biológico. Tratar-se-ia dumha coletividade –ou coletividades– cujo fio condutor seriam umha série de tradições e valores culturais.

Nom conhecemos com precisom o momento da chegada dos Hebreus à Península Ibérica, mas o que sabemos com certeza é o facto de os povos da Palestina conhecerem a Sepharad desde a noite dos tempos. Os comerciantes Fenícios chegaram até as nossas costas bem antes do aparecimento dos Romanos nelas e, já no terreno da lenda, o rei Salomom teria enviado expedições à Sepharad com o objetivo de se fazer com o ouro preciso para a construçom do primeiro templo de Jerusalém. No tocante ao primeiro momento em que aparece documentada a sua presença no país, a primeira referência é do século XI na vila de Cela Nova

Mais tarde, em 1289, temos constância documental dumha outra comunidade judia organizada na vila de Alhariz, onde as autoridades cristãs e o representante dos judeus chegaram a um acordo para solucionarem eventuais conflitos. Desde o século XIV, as referências documentais aumentam, remetendo-nos para localidades como Ponte Vedra, Monte Rei, Betanços, Corunha, Caldas, Noia e Ourense. Também conhecemos a existência de comunidades noutros pontos do mapa, tais como Ferrol, Ribadeu, Mondonhedo, Pontedeume, Compostela, Monforte, Baiona, Tui, Vila Franca, ou a vila galega com mais reminiscências judaicas na atualidade: Ribadávia.


A dizer de José Ramón Ónega, a comunidade judia de Ribadávia, junto com elementos doutras coletividades do país, manejava as redes comerciais da Galiza medieval, mas também as doutras partes da Península e ainda de fora desta. A tradiçom hebraica da vila é tam forte que mesmo existem autores, como Méndez Silva, que pensam que foram os Judeus os que impuseram ao rio Ávia o seu nome, que quereria dizer vontade de Deus. Aliás, segundo Outeiro Pedraio, as gentes do Ribeiro tinham por pró-judeus os habitantes da vila.

Tradicionalmente, os Judeus foram considerados como um coletivo quase exclusivamente urbano, dedicado a atividades artesanais e comerciais, à medicina e à arrecadaçom. Temos exemplos documentados de hebreus galegos que exerceram todas estas profissões, como o arrecadador de Ourense Salomom Baquix, o também ourensano çirurgião Rab Juda ou o mercador Ysaque Rodriga. 

Sendo o vinho um dos principais elementos materiais da economia galega medieval, nom podiam os Judeus ser alheios ao seu comércio. O vinho figura constantemente em contratos de foro e de empréstimo, segundo nos relata María Gloria de Antonio no seu Os xudeus en Galicia. Os Hebreus nom podiam beber vinho manipulado por mãos nom judias, mas admitiam-no frequentemente como modo de pagamento. Também o peixe foi um produto a cujo comércio se dedicaram os Judeus, circunstância que nos confirma o documento de 1384 segundo o qual o hebreu corunhês David possui umha nau “nova e grande e bem fornecida” que lhe serve para exportar peixe para o Mediterrâneo.

Da dilatada presença judaica no mundo galaico e lusitano ficaram alguns vestígios, dos quais os apelidos estám entre os mais rastejáveis. Umha vez exilados em terras como a Aquitânia, encontramos no Caminho francês e nos cemitérios de Baiona e Bordéus nomes galego-portugueses, tais como Rodrigues, Álvares, Pereira, Mendes, Lopes, Depas (de Paz), Pixotte (Peixoto), Fonsèque (Fonseca), da Costa, Carvalho, Oliveira, Silva, Porto e outros.

No que diz respeito às perseguições religiosas, é um lugar-comum que a Galiza foi um terreno de relativa segurança e tolerância para as comunidades hebraicas no convulso contexto de fins do século XV, embora acabassem forçados à conversom ou ao exílio. Segundo Ónega, a tradiçom tolerante do país pode ter as suas raízes já no período suevo, o qual proporcionaria aos Judeus umha posiçom de que nom gozavam na última etapa do Império. Assim, os Hebreus ocuparam numerosos cargos oficiais, estando-lhes permitido casarem com mulheres cristãs. O mesmo autor assegura que os Judeus teriam participado das tentativas independentistas galegas da plena Idade Média. Mais umha vez, a segurança será a chave, pois na Galiza as comunidades hebraicas nom sofriam as perseguições e matanças que já naquela altura existiam noutras partes da Península.

Para culminarmos o aparente idílio entre os Judeus e a historiografia (-mitologia) nacional galega, temos o documento de 1447, citado por López Ferreiro, segundo o qual os Judeus teriam colaborado com os Irmandinhos no derrubamento do Castelo Ramiro, próximo da cidade de Ourense. Para Ónega, os judeus galegos estavam “identificados com o movimento popular, assumindo a causa irmandinha contra a nobreza opressora”.

Artigo publicado no nº67de A REVISTA, suplemento do Novas da Galiza. Abril de 2014.

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