sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

BRAGA

Braga, centro da regiom portuguesa do Minho, é umha cidade com 138.000 habitantes fundada polos romanos e, como Lugo, conta com mais de dous mil anos de historia. 

Fortemente ligada à Galiza, após a queda do império romano, foi eleita capital política e intelectual do Reino Suevo, que abrangia a extinta Galécia (atual território administrativo da Galiza, norte de Portugal, parte das Astúrias e das províncias de Leom e Samora e que se prolongava até o Tejo).

Em Braga a presença judaica foi testemunhada desde muito cedo, vivendo os Judeus isolados e espalhados pola cidade. No Tombo do Cabido, datado de entre 1369-80, já há notícias de Judeus em Braga. 

Por determinaçom do Rei Dom João I, a 30 de setembro de 1400, constitui-se a Judiaria de Braga, conhecida de Judiaria Velha, reunindo famílias judaicas na Rua do Poço, junto à Sé, e na Rua da Erva (depois chamada Rua de Santa Maria e atualmente Rua Gonçalo Pereira).
Judiaria Velha de Braga na R. Gonçalo Pereira, perto da Sé. GoogleMaps
Assim sendo, entre 1440-46, a documentaçom régia apontava para um grupo de dezassete pessoas, nomeadamente Mestre Paulo, físico e cirurgião do arcebispo. Mestre Paulo, um judeu converso, tornado clérigo, representou um caso insólito polas pregações antijudaicas mas de imediato foi travado por disposiçom régia. O objetivo deste converso era forçar os Judeus a aceitarem o cristianismo. 

Em maio de 1466 a Judiaria de Braga foi deslocada para umha Judiaria Nova a teor dum acordo assinado entre o cabido e a comunidade hebraica. O novo bairro judaico situava-se em ruas mais afastadas, na Rua da Judiaria Nova (atual Rua de Santo António das Travessas). Tratava-se dum arruamento judaico próprio, encerrado por portas.
Judiaria Nova de Braga, na R. Santo António das Travessas. GoogleMaps
R. de Sto. António das Travessas de Braga. Foto J. Braga
Em consequência do deslocamento para a nova Judiaria, em 1466 a sinagoga da Judiaria Velha, foi aforada por Diogo de Viana, membro do cabido. Entretatno, a instalaçom do templo na Judiaria Nova fazia-se numha casa pertencente à catedral. Nessa altura Gonçalo Vasques, tercenário da Sé, residia na casa contígua à sinagoga.

Esta deslocaçom trouxe problemas pois, para além de motivações religiosas, houve interesses económicos do próprio cabido em renovar os arrendamentos das casas deixadas polos Judeus. Quem ficou descontente com esta decisom foi a paróquia de Santiago da Cividade, a quem a vinda de Judeus representaria umha queda dos seus ingressos (esmolas). Para compensar estas perdas, através dumha sentença ratificada polo Chantre do Cabido bracarense, em janeiro de 1468 os Judeus deveram pagar umha quantia anual de 200 reais à paróquia.

Na altura de 1466 e 1509 aponta-se um total de 52 judeus, entre os quais seis conversos. Entre eles havia três rabinos, três físicos ou médicos, quatro ourives, dous mercadores, algumhas mulheres com o trato de honra.
Judiarias de Braga. GoogleEarth
A Judiaria de Braga teve entre os seus moradores judeus galegos pois o uso do apelido "galego" por parte dos Judeus bracarenses determina a origem dalguns membros desta comunidade. Existe constância documental de Muse Galego, joalheiro, que recebe um foro do cabido em 1470, a presença, em 1472, de Araão Galego, casado com Graça ou Menahen Galego a quem Junça Abdias e a mulher dele, venderam ou subaforaram umhas casas.

É a partir da sua instalaçom na Judiaria Nova que a tensom antijudia aumentou. O seu aumento foi tam significativo, que se tornou bem visível no Sínodo Bracarense de 1477, onde se aprovaram cinco constituições antijudaicas.

Se, por um lado, até finais do século XV se detetam Judeus que habitam na Praça da cidade, frente à Sé, por outro, em ambas as judiarias, a ocupaçom das casas é feita indistintamente por Judeus e cristãos, incluindo clérigos. As casas das duas judiarias pertenciam ao cabido da catedral.

A partir do decreto da expulsom ordenado polo Rei D. Manuel I e da conversom forçada em 1497 os Judeus que ficaram passaram a chamar-se cristãos-novos. Face à paridade de direitos e deveres implementados polo Rei D. Manuel I, em 1507, os cristãos-velhos tentaram, sempre que possível, vedar alguns direitos aos cristãos-novos porque, ao fim e ao cabo, sentiam-se ultrapassados polas capacidades destes no campo económico, social e cultural.

Antes da sua expulsom, os Judeus de Braga teriam umha posiçom social de grande relevo, destacando entre eles os apelidos de Almeidas e Regos.

Nesta sequência de ideias e polo Regimento do Santo Ofício de 1640 foi vedado aos cristãos-novos o acesso a cargos públicos e a certas profissões como físico e boticário polas implicações que estas poderiam trazer para os cristãos velhos, que periodicamente acusaram os cristãos-novos de querê-los envenenar e matar.

Perante tantas limitações, a populaçom cristã-nova soube engrandecer a sua posiçom utilizando todos os meios ao seu alcance face umha maioria cristã-velha que revelava pouco espírito de concorrência, mas que tentava utilizar as mais variadas formas para cercear o "avanço" dos cristãos-novos.

Ao cabo do tempo, a Rua da Judiaria Nova (R. de Santo António das Travessas) tornou-se na rua "proibida" de Braga, ao albergar as "toleradas" na que as mulheres da vida esperavam ou atraíam a clientela na soleira das portas.
R. de Santo António das Travessas, Braga
Em 1993 dous edifícios da R. Santo António das Travessas, números 34 a 40, foram declarados Imóveis de Interesse Público. Por um lado, o imóvel com o número 34 da Rua de Santo António das Travessas é umha casa de dimensom reduzida que se desenvolve em dous pisos, com fachada principal em cantaria, marcada pola abertura dumha porta de verga reta no piso térreo e duas janelas no andar superior. 
Casa do nº 34 da R. de Santo António das Travessas
Já o outro edifício, correspondente ao n.º 36-40, é conhecido como Casa Grande de Santo António das Travessas ou antigo Albergue Distrital. Destaca-se na frente urbana em que se insere pola imponência das suas linhas, com fachada principal em cantaria, de fenestrações regulares e com um friso a percorrer todo o alçado. Merecem especial atençom as portas das extremidades, com pedra de armas, uma sobrepujada por baldaquino quinhentista com imagem, e outra por frontom seiscentista, já ao nível das janelas de sacada do segundo piso. 

Este imóvel, que abriga a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, remonta, certamente, ao século XIV, tendo funcionado como esnoga da Judiaria de Braga no início da centúria seguinte. Assim o indica a documentaçom que se conserva no Arquivo Distrital de Braga, bem como o fragmento de uma inscriçom hebraica numha das aduelas da porta gótica do interior da casa (ver imagens fornecidas por José Zêzere Barradas)




FOTOS: JOSÉ BARRADAS
O imóvel foi objeto de várias alterações posteriores. As janelas do andar superior denunciam a sua fatura tardo-gótica, do início de quinhentos. Por sua vez, o brasom de armas e o frontom som já seiscentistas, devendo-se o primeiro ao cónego João de Meira Carrilho que teve um papel de grande relevo em Braga no final do século XVII.


1 comentário:

  1. Com o desenvolvimento e evolução cultural devemos chegar ao momento em que a sociedade vai pedir ao povo Judeu que nos dê o privilégio do contacto com a sua educação, até para podermos aprender algo mais.
    Luís Sequeira

    ResponderEliminar