sábado, 11 de maio de 2013

TESE 5ª: ISRAEL É UM GUERREIRO AGRESSOR COM O MELHOR EXÉRCITO DO MUNDO


Sim, de facto, Israel mantém cuidadosamente um exército e vence as suas guerras; mas se ele cessasse um instante de manter este exército, se fosse vencido umha só vez, o que seria dele? Eis de novo o senso autêntico da objeçom: qualquer um que desejar que Israel baixe a guarda sem oferecer uma alternativa deseja que ele desapareça. Sim, há guerra e violência entre judeus e árabes. Mas é isto tam surpreendente no Terceiro Mundo? Há pouco a Argélia e o Marrocos, duas nações tam irmãs, mesma língua, mesma religiom, que reivindicam umha unidade mítica, lutaram por um limite fronteiriço, deixando algumhas centenas de mortos sobre o terreno. Nom houve umha guerra entre a Tunísia e a Argélia, também por umha questom fronteiriça, apenas porque os tunisianos sabiam que eles nom resistiriam duas horas perante o exército argelino. É inútil dizer que ainda é culpa do colonizador francês, o que traçou as fronteiras artificiais: é preciso corrigir os erros da colonizaçom fazendo a guerra? Por que nom arranjar o assunto em família? Houve umha guerra entre o Egito e o Sudám, o Egito e o Iémen, entre a Transjordânia (hoje Jordânia) e os palestinianos, entre os curdos e os iraquianos. Esquecemos o Biafra? E o Bangladesh?

Relativamente à definiçom do agressor, vejam a que dam os russos: nom existe agressom, afirmam eles, caso se defenda a sua existência. É preciso tirar o primeiro? Sim, porque, insistem os russos, é a melhor maneira de se preservar: atacando. Quando um conflito parece insolúvel pola discusom e o discurso, pola diplomacia, é a violência a que se impõe sendo, portanto, secundário saber quem inicia. Ninguém se importou com saber se foi a Argélia ou o Marrocos quem abriu primeiro o fogo. Relembremos que foi a França quem atacou a Alemanha nazista em 1939 e nom ao invés. Mesmo ainda lamentamos que nom o tivesse feito antes, de maneira que Munique parece a muitos historiadores um erro que deu à Alemanha tempo de pôr a ponto a sua máquina de guerra, que esteve preste a esmagar o mundo.

A verdade é que o problema da violência é um dos mais complexos e difíceis que existem. [...] Ninguém pensa em reprovar a Argélia, o Marrocos, por manter exércitos, os quais, aconselhados e formados polos franceses nom som desdenháveis, aos indochineses de combater há trinta anos, aos guerrilheiros da América Latina, os seus atentados, amiudamente atrozes e cegos. Temo que a condenaçom da violência seja a condenaçom da violência do outro.

Nom é que os árabes, particularmente os palestinianos, nom sofrem este conflito e nom recolhem os frutos da violência. Mas os judeus também sofrem e morrem nele, e mais em proporçom. E nom apenas em Israel. Depois de tudo o que eu disse, e confirmado sem cessar, sobre as minhas ligações com os árabes, relembro mais umha vez, sem complacência, que nos países islâmicos os judeus sempre viveram na insegurança e a humilhaçom e, no mínimo, nisso que um termo de moda chama de violência fria, que ocasionalmente se torna em violência quente. Isto nom seria suficiente para explicar, do lado judeu, que eles estariam prontos à guerra para nom retornar a esse estado? A verdade enfim é que nom é a violência a que é um escândalo no mundo humano que continuamos a viver (ah, como desejaria, com todo o meu coraçom e com o meu espírito, que todos os conflitos algum dia entre indivíduos ou entre povos possam ser arranjados pola negociaçom!), o que escandaliza é a significaçom da violência. Mas se há conflito e violência entre os judeus e os árabes, esta nom é do modelo colonizador-colonizado, sendo os judeus os colonizadores e os árabes os colonizados. Os judeus acabam de libertar-se do colonizador inglês, de escapar dum extermínio quase bem sucedido, no qual um judeu em cada três perdeu a vida e nalguns países a totalidade das comunidades! Um número de judeus, igual  a esses refugiados árabes, mal acabam de abandonar os países árabes e os que ainda lá ficaram vivem na angústia. Do lado árabe existem nações já constituídas, para os quais a questom israelita nom tem qualquer relaçom com os seus problemas reais. Trata-se dumha assimilaçom muito absurda e cómoda. 

Existe violência entre árabes e judeus porque existe um conflito histórico entre duas aspirações nacionais poderosas e parcialmente concorrentes, e nom entre um movimento social e revolucionário (árabe) e um movimento nacionalista e imperialista (judeu). Igualmente, o conflito entre a URSS e Israel nom é de todo um conflito entre um país socialista e um país que nom o é, mas entre dous interesses nacionais, entre o que a URSS considera como as suas necessidades nacionais no Mediterrâneo e o entrave que Israel supõe à sua realizaçom.

É por isto que eu nom estou certo de que os regimes socialistas árabes, mesmo realmente e nom ficticiamente socialistas, teriam trilhado mais facilmente o caminho da paz com Israel. Nem que os socialistas em Israel seriam mais partidários a fazer a paz: uns e outros têm um problema nacional a resolver, que absorve momentaneamente o melhor das suas forças, que eles deveriam normalmente consagrar aos problemas sociais, os quais precisam da paz. Porém, esta dificuldade considerável nom terá sido sem proveito, pois tem a vantagem de mostrar que a luta que opõe judeus e árabes nom é umha contradiçom, mas um conflito. Em termos marxistas, isso significa que o sucesso de cada movimento nom passa pola necessária eliminaçom do outro, como na contradiçom proletário-patrom, ou opressor-oprimido, na que o opressor deve mudar de natureza e mesmo desaparecer para que o poder passe ao oprimido.

Portanto é exacto que o sionismo, o movimento de libertaçom nacional do povo judeu, acha-se em conflito com as aspirações nacionais das populações árabes, sobretodo imediatamente vizinhas do Estado de Israel. Aspirações árabes, pouco distintas na origem, mas que se afirmaram progressivamente, o que nom diminui a sua legitimidade atual. É um azar histórico que se deve tentar de solucionar. Além disso, eu já demosntrei que é falso achar que todas as justas causas estám automaticamente em harmonia entre elas. Existem conflitos amiúdo inevitáveis mesmo entre reivindicações e interesses. Em consequência nom serve para nada escolher um campo, de forma arbitrária ou seguindo umha linha política alheia ao assunto, a baptizar de socialista, colocando o outro no campo do nacionalismo chauvinista.

Em vez de nos resignar ao apocalipse, às guerras fratricidas e loucas nos povos que carecem de tudo, devemos procurar pacientemente as soluções, forem estas pobremente satisfatórias para todas as partes envolvidas.

Trecho tirado de "O sionismo, Israel e o Terceiro Mundo: semelhanças, especificidades e afirmações nacionais", de Albert Memmi (1972).

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