sexta-feira, 26 de abril de 2013

A TRAMA DOS QUE APLAUDEM O VETO DE BEIRAS E BNG PASSA PELO IRÃO


Esta postagem (a quinta) faz parte do dossier intitulado "O ódio é um espelho" sobre as simpatias do nazismo internacional com Beiras e BNG por terem-se negado a condenar o Holocausto*


João Guisan Seixas, escritor


Bom, na verdade, temos visto apenas uns poucos fios da maranha. O importante é que temos descoberto alguns dos nós mais importantes. Temos visto (na verdade sem excessivo assombro) que um deles se localiza em Teerão. Não só em bailes de opróbio às vitimas do Holocausto é que se encontram estes indivíduos. Se seguirmos as peripécias vitais de todas as personagens que têm aparecido ao longo desse artigo, veremos que as linhas de todas as suas vidas se cruzam na capital dos aiatolás. Já vimos que o autor da primeira notícia que vai marcando um desses fios, aquele "Mounadil al Djazaïri", colaborava em meios iranianos, e tínhamos falado das frequentes visitas a Irão de Alexander Dugin. Mas na verdade quase todas as pessoas e movimentos que se regozijaram com a repugnância de Beiras e BNG a render tributo à vítimas dos Holocausto, têm passado por aí. 

A começar pelo final, o nosso último protagonista, o racista David Duke, que foi convidado especialmente pelo regime islâmico como estrela do congresso internacional do negacionismo que organizou em 2006 o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad (quem, como vemos, estava portanto muito justamente sentado à beira de Jorquera na fotomontagem que abre este artigo).

Na sua intervenção Duke lamenta que o povo palestiniano tenho sido imolado "no altar do Holocausto", num delirante arrazoado irracional também muito frequente nos lábios dos nossos esquerdistas.

O bom deste percurso pelos infernos, não é tanto localizarmos as pessoas e movimentos de extrema-direita que aplaudem a decisão de Beiras e BNG, mas identificar nos lábios de uns os mesmos argumentos que nos dos outros. O realmente importante desta pesquisa tem sido identificar, nuns e outros, uns mesmos processos mentais. Um deles é este: o da inversão. É devolver o Holocausto aos judeus, colocar sadicamente as vítimas no lugar dos assassinos. Nega-se ao mesmo tempo um genocídio do que há constância histórica inegável (e matemática: havia 6 milhões menos de judeus no mundo no final da II Guerra mundial do que no início) ao tempo que se dá por demonstrado um genocídio de que não há constância histórica nenhuma, o do povo palestiniano (e que também não resiste a constatação matemática de que a população palestiniana é uma das que mais cresceram no planeta e uma das que apresentam menor taxa de mortalidade). Também depois das reacções ao Bruschenschaftenball negacionista, o líder do partido neonazi austríaco, Heinze-Christian Strache, afirmou que eles eram os novos judeus e que a censura das autoridades podia comparar-se com a "Noite de Cristal", início da perseguição sistemática dos nazis contra os judeus. Agora atentem às declarações de Beiras sobre o conflito do Oriente Médio e verão como este processo de inversão, de devolver a "bola" do Holocausto ao campo judeu (ele dirá "sionista") aparece também por toda a parte.

Neste congresso internacional do negacionismo, que se auto-intitulava "International Conference to Review the Global Vision of the Holocaust" ("revisionismo" é um eufemismo por "negacionismo"), havia também judeus convidados (os "Neturei Karta" à cabeça), o que constitui um outro procedimento do novo anti-semitismo: a coarctada do judeu. "Nós não somos anti-semitas, convidámos também judeus". Como sempre há judeus o suficientemente e estupidamente narcisistas (cujo único objectivo na vida é serem considerados heróis da abertura, a compreensão, a elasticidade, o pacifismo e o progressismo), nunca lhes faltarão coarctadas. Revejam também os foros, manifestações e "flotilhas" e verão como o "argumento ad hominen inverso do judeu convidado" aparece também por toda a parte.

Mas não só Duke e os pontos inicial e final daquele fio (Mounadil al Djazaïri e Alexander Dugin) apresentavam vinculações directas com o Irão. Elas são igualmente claras na etapa intermédia daquela viagem, a protagonizada por Alain Soral. 

Soral, além de criar "Égalité & Réconciliation" fundou também o "Partido Anti-Sionista" com que se apresentou à últimas eleições europeias. Um partido que utiliza, naturalmente, a coarctada do judeu convidado, e inclui, como não podia deixar de ser, um judeu ultra-ortodoxo no seu cartaz.


Pois bem, neste vídeo, Alain Soral reconhece abertamente que a sua lista foi financiada, a fundo perdido, pelo Irão. Tradução: "Se foi possível fazer a Lista Anti-sionista, que custou 3 milhões de euros, é porque obtivemos o dinheiro dos iranianos. Pode-se dizer, não há que surpreender-se. Não temos 3 milhões de euros, sobretudo para os perdermos. Para sermos reembolsados precisamos obter 5% dos votos... (Risos. Eles sabiam perfeitamente que não tinham hipótese nenhuma e que a lista era simples propaganda: obtiveram 1,3% na região da Île de France)... Isto quer dizer o que? Que eu sou o homem de uma potência estrangeira?" 

O logo utilizado na campanha ilustra, aliás, às mil maravilhas um outro mecanismo comum a todas estas pessoas e ideologias ultra-esquerdistas-direitistas. Repare-se na  forma subtil de fazer, gráfica e ideologicamente, a passagem subliminar do pretenso "anti-sionismo" para o anti-semitismo não declarado.

À esquerda tal e como aparece na web do partido e à direita tal e como aparece reproduzido numa web mais "de casa", neste caso a página "de humor palestiniano" "La Gueule Enfarinée" ("Avoir la gueule enfarinée", "Ter o focinho enfarinhado", quer dizer em francês precisamente fingir-se inocente para conseguir propósitos ocultos, como o gato da fábula de La Fontaine que cobriu de farinha o focinho para enganar o rato e o atrair assim directamente às suas fauces).
  
No primeiro, ainda se pode interpretar que o que se está a riscar é a bandeira de Israel, e que portanto estamos no terreno do "anti-sionismo politicamente correcto". No segundo, porém, já não estamos a riscar a bandeira, que excede o sinal de proibição (mesmo as bandas azuis não representam os seus limites, e há ainda uma área branca acima e abaixo delas). Está a riscar-se a estrela de David, que não representa já apenas Israel, mas a totalidade do povo judeu, em qualquer lugar do tempo e do espaço em que se encontre. É o símbolo com que eram marcados os judeus na Alemanha nazi antes da criação do Estado de Israel.

Pode parecer exagerado, e de teoria conspiratória, analisar estes pormenores. Temos de ter em conta, porém, que estamos a tratar precisamente com ideologias de uma parte "conspiratórias", cujo procedimento retórico mais frequente é, aliás, o da "inversão", e a que portanto resulta conveniente aplicar as teorias conspiratórias que eles aplicam aos outros, E devemos considerar também, de outra parte, que são ideologias que consideram fundamentais todas as questões "identitárias", pessoas que vivem num mundo habitado de símbolos, e para as quais um emblema vale mais do que uma vida humana. Quando eles querem queimar, ou riscar, uma bandeira, queimam-na ou riscam-na inteira. Para eles os símbolos não são arbitrários nem irrelevantes. Cada centímetro é tão valioso como uma cidade perdida ou conquistada. Quando renunciam a uma parte do símbolo é que alguma coisa querem dizer. Quando fazem este género de coisas estão a enviar uma piscadela para os acólitos: "bom, nós dizemos que somos anti-sionistas, mas vocês já sabem que o que queremos dizer é que é preciso riscar os judeus da face da Terra".

Interpretação que se revela, aliás, como incontestavelmente certa quando encontramos na Uncyclopedia (uma Wikipédia "alternativa" sem "censura", onde ao lado de muitas piadas absurdas podemos encontrar apologia da violência, elogios de Hilter ou conteúdos anti-semitas como é o caso) este símbolo catalogado como "No Jews" , "Não aos Judeus" , ou o vemos em páginas anti-semitas como Veterans News Now (cujo nome pretende evocar, ao mesmo tempo, pelas siglas VNN o da CNN e pela última palavra e o ar bélico do site também o do filme  "Apocalypsis Now"), utilizado ao lado da sua tradução em letra gótica "Não se admitem judeus!"
       
Bom, na verdade o mero facto de riscar a bandeira de um outro país não deveria ser admissível na propaganda política de um país civilizado. Imaginam o que aconteceria se um Partido anti-romeno se apresentasse às eleições europeias com o mapa da França com uma bandeira romena riscada no centro? Daí que resulte ainda mais surpreendente que isto seja permitido num país que costuma ter as coisas muito mais claras que Espanha e cujo Supremo Tribunal declarou ilegal a campanha BDS de boicote a Israel por constituir necessariamente um acto de xenofobia.

Campanha precisamente em cujo logo parece inspirar-se o do Partido Anti-sionista, e com o qual também se realiza (de uma maneira se calhar mais clara) a subtil transição gráfica do anti-sionismo para o anti-semitismo, do "Boicote a Israel" ao "Não aos judeus!". Tirados, quer da página brasileira Liberdade Palestina, quer de uma página polaca empenhada também em tão nobre fim.

E campanha também à que coincide que, nestes dias atrás, acabou de somar-se publicamente o BNG. É bom sabermos que na França seria considerado um partido ainda mais xenófobo do que o Partido Anti-sionista. 

No cartaz eleitoral acima, além do judeu ortodoxo (cujo nome não se especifica, nem interessa, porque como sabemos não representa senão o álibi do "judeu convidado")
aparecem, junto com Soral, duas personagens que delineiam outros tantos fios da malha do racismo, negacionismo, nazismo e anti-semitismo. 

No centro Dieudonné Mbala, e ao lado direito dele, Yahia Gouasmi (nos nomes, em baixo, os lugares aparecem trocados). Yahia Gouasmi é o presidente da Federação dos Xiitas da França e dirige o centro pró-iraniano Zahra. Num comunicado do próprio Partido Anti-sionista, reconhece-se que se reuniu com o comandante do grupo terrorista libanês pró-iraninao Hezbollah, Hassan Nasrallah, patenteando a coincidência de objectivos e estratégias e proclamando a vontade de colaboração.


Os caminhos de Dieudonné e Gouasmi voltam a levar-nos, como cabia esperar, a Teerão.

Neste encontro, celebrado em Novembro de 2009, Dieudonné conseguiu também financiamento, não já para o partido mas para sua particular "carreira artística", assegurando que graças à generosidade do regime islamista ia poder fazer filmes à altura dos de Holliwood, dominado, como todo o anti-semita sabe, pelo lobby judeu. Perdão: ele disse "sionista". 

Mas a figura de Dieudonné tem outras muitas ramificações. Dieudonné faz parte dessa tendência ultimamente registada na política pelo freakismo. Como Tiririca no Brasil ou Beppe Grillo em Itália, Dieudonné começou como cómico antes de se decidir a provar fortuna na política.

Dieudonnée é originário da República dos Camarões, mas colabora sem pudor com partidos xenófobos como o Front National. Dieudonné é mulato e colabora sem pudor com movimentos racistas. Dieudonné é um caso único dentro da cromatismo político. Porque é um racista mulato. Primeiro, porque é mulato e racista (exactamente igual que há judeus anti-semitas), mas também porque, dada a sua largueza de espírito, é também capaz de ser racista das duras cores, um "racista de amplo espectro" podíamos dizer.

Assim, as suas amizades políticas, e pessoais, abrangem um racista branco, Jean Marie Le Pen, padrinho da sua filha e padrinho também na sua carreira política (mais um convidado, já agora, no Bruschenschaftenball negacionista. Le Pen é outro nó da malha e portanto também "muito bem sentado", na fotomontagem inicial, à beira de Beiras), e um racista negro como Kémi Seba (alcunha que significa "Estrela Negra"), fundador de diversas organizações de supremacismo negro, condenado por instigação ao ódio racial, etc. Coisa que também não deve estranhar, pois Le Pen e Kémi Seba concordam numa coisa: brancos e negros devem viver separados.

Como cómico a especialidade de Dieudonnée são, como se pode imaginar, as piadas anti-semitas, e foi graças às polémicas que suscitaram que ele se tornou uma vedeta do "show-bisness". Num dos seus espectáculos fez a "brincadeira" de convidar para sair ao palco, no final, o ancião, mas nada venerável, historiador Robert Faurisson, considerado o "patriarca do negacionismo", e pedir ao público (entre o qual se encontravam, como não, Jean Marie Le Pen e Kémi Seba) uma salva de palmas para ele. A "piada" consistia em que um figurante vestido com o uniforme às riscas dos internados nos campos de concentração e uma estrela de David amarela no peito, saísse também à cena e lhe desse como troféu uma menorah com maçãs espetadas nos braços (escapa-me a simbologia disto, mas alguma ofensiva e delirante deve ter), entre uivos desenfreados de Dieudonné que não cessava de pedir mais e mais aplausos para Faurisson ao público

Robert Faurisson leva-nos de novo a Teerão, onde foi também convidado estrela no congresso negacionista de 2006. Ali provavelmente terá encontrado Duke. Mas não terá sido, de certeza, o seu primeiro encontro com um racista americano. Este historiador, que nega a autenticidade dos diários de Anne Frank, das câmaras de gás, e só afirma as virtudes da principais figuras anti-semitas colaboracionistas do governo de Vichy, já se tinha dirigido, em Setembro de 1979 aos militantes da National Alliance, o partido neonazi americano que encontrávamos na primeira das webs analisadas, mesmo num lugar acima da celebração da negativa de Beiras e BNG a lamentar as vítimas do holocausto. Camaradagem ultra-direita-esquerda que também não lhe resulta alheia a Faursisson que foi publicamente defendido por um "alternativo" como Noam Chomsky, que não se importou, aliás, de fazer o papel de "judeu convidado" a prefaciar um livro deste campeão do negacionismo.

Entre todos os nomes de pessoas e de grupos que celebraram o repúdio de Beiras e BNG a mostrarem solidariedade com as vítimas do Holocausto, entre não importa que dois pontos do círculo de infâmia que desenha o percurso desse regozijo, podemos estabelecer, como estamos a ver, ligações múltiplas.

Não resulta estranho encontrar, por exemplo, o ultra-nacionalista francês Alain Soral como protagonista do site "OpenRevolt".

Já sei que pode parecer uma página do mais "alternativo". Mas repare-se no logo da estrela verde. É o mesmo do que aparecia no site "The Green Star", donde tirávamos a foto do ultra-nacionalista russo Alexander Dugin com o emblema hitleriano do "movimento euro-asiático" atrás. Essa estrela verde é o símbolo do grupo New Resistence, o seu ramo americano:

Sem dúvida está inspirado (mesmo o pretende patentear) no símbolo das Revolutionäre Zellen ("Celulas Revolucionárias), um grupo terrorista alemão de estrema esquerda colaborador da Frente Popular para a Libertação da Palestina, com um forte viés anti-semita, que sequestrou não só israelitas, mas também judeus não israelitas só pelo feito de serem judeus, e, pelo mesmo "pecado", planeou assassinar o célebre caça-nazis Simon Wiesenthal e o líder da comunidade judia alemã.

A cor verde, segundo eles mesmo confessam é uma homenagem a Muammar Gaddafi (venerado no site como mártir e guia da sua causa), que escolheu para a "revolução" líbia, não o vermelho das ocidentais, mas a cor simbólica do Islão, a cor do chamado à oração (de facto hoje em dia costumam colocar-se fluorescentes verdes no alto dos minaretes, e é a cor das fitas com versículos do Alcorão que se usam os terroristas do Hamas). Porque neste site abundam também as citas de Maomé, ao lado de  panegíricos não só de Muammar Gaddafi, mas também de Hugo Chávez, cujas exéquias ocupam um enorme espaço.
Então? Cada vez mais progressista, não acham?

New Resistence é um movimento fundado por um líder neonazi americano que responde, a sério, ao muito ilustrativo nome de James Porrazzo, sobre quem nos ilustra este informe do Soutthern Poverty Law Center, uma organização americana de luta contra o ódio e a intolerância: 

Porrazzo provém do American Front, o principal grupo de skinheads racistas americanos. Declarado admirador de Muammar Gaddafi, foi-se aproximando cada vez mais de grupos islamistas como Hamas, Hezbollah e Al Qaeda, até que encontrou nas teorias de Dugin a síntese perfeita de tudo isso.

Pode parecer estranho (se uma nova salada mental pudesse estranha a estas alturas) que um movimento tão anti-americano como o de Dugin, tenha um ramo americano (um americano euro-asiático, e ainda em cima contrário à mundialização, deveria ou exilar-se na Antárctida ou suicidar-se...). E não deve estranhar porque o objecto reconhecido de New Resistence é precisamente destruir os Estados Unidos e estabelecer, no seu território, uma série de nações determinadas com critérios étnicos: uma para os brancos, outra para os negros, outra para os índios, etc. Por isso New Resistence se declara "não racista". E ao que parece está de acordo com outros movimentos "não racistas" negros (Porrazzo declara-se admirador também de Malcom X), índios, muçulmanos, chicanos etc. (como New Black Panther Party, Nation of Islam, o grupo "nacionalista chicano" Aztlán, etc.)

Resulta demolidor comprovar que os dois vínculos que temos encontrado entre Dugin e Soral sejam por um lado admiração que por eles sentem James Porrazzo e New Resistance, e do outro a admiração que eles sentem por Beiras e BNG. 

Não é, porém, a única ocasião em que podemos encontrar vultos do Partido Anti-sionista em páginas inspiradas no "pensamento" (por o chamar de alguma forma) de Dugin.  Como "Remetre Les Choses en Place"("Pôr as coisas no seu lugar"), que, com um texto e uma imagem do profeta da Eurásia, se apresenta como uma página nem de esquerda nem de direita, cristã e muçulmana, contrária ao capitalismo e à mundialização promovidas pelos "lobbies ocultos", e contra os quais o melhor antídoto é a restauração do Sacro Império Romano-Germânico. 

Nesta ocasião insere-se um comunicado do Partido Anti-sionista em que se denuncia a conspiração das imobiliárias israelitas para comprarem terrenos e casas aos árabes e vendê-los a judeus (no seguinte post afirmarão que os judeus roubam as suas terras aos palestinianos, mas isso é normal). Mas o que mais nos interessa é o desenho que o acompanha, porque ele traz à baila um terceiro convidado, também já conhecido.


Já tínhamos encontrado a bandeira de Israel relacionada com o "libelo de sangue", e agora encontramo-la relacionada com outro libelo, também exponente máximo do anti-semitismo: o livro "Os Protocolos dos Sábios de Sião"pretensa "confissão de parte" (como outras muitas utilizadas hoje em dia, sem ir mais longe nessa mesma informação) falsificada pela polícia secreta czarista para justificar os progroms de fins do XIX na Rússia. É por isso que vamos encontrar essa capa reproduzida onde? No site "This is Zionism" em que acabámos por descobrir as pegadas do Ku Klux Klan.

A serpente com as fauces abertas que "personifica" a conspiração judia para fazer-se com o domínio do mundo, serve perfeitamente portanto para ilustrar igual a conspiração imobiliária sionista para adquirir uns quantos metros quadrados a um preço livremente pactuado com um proprietário árabe.

É só mais um pequeno nó, neste caso, em que se apinham, à volta da causa palestiniana, mais uma vez Soral, Dugin e Duke, três das grandes mentes (ainda que eu preferiria não tratar estes de mentes) que aplaudiram a negativa de Beiras e BNG a lamentarem por cinco minutos o extermínio nazi, não fosse isso favorecer Israel. 

Encontro que vem ilustrar, aliás, duas coisas valiosas que temos aprendido neste estudo: 

- Como o moderno anti-sionismo bebe nas fontes do mais rançoso anti-semitismo, por meio de um transvasamento constante de argumentos ideológicos, recursos retóricos e elementos simbólicos de um para o outro.

- Como existe uma rede internacional de movimentos e pessoas que abrangem um amplo espectro (negacionistas, neonazis, racistas, supremacistas de todas as latitudes e cores, anti-sistema, anti-mundialistas, anti-sistema, anti-ocidentais, pró-palestinianos, etc.) através da qual se realiza esse tráfico. 

São movimentos e pessoas com projectos em muitos aspectos antagónicos, alguns mais "nazis", mais revolucionários, mais centrados na "raça", outros de corte mais "fascista", mais tradicionalistas, mais centrados no nacionalismo. A maior parte deles são furiosamente anti-americanos, mas estão também os nacional-socialistas americanos, que por sua vez não deviam dar-se muito bem com os sulistas do Ku Klux Klan, por não falar do imperialismo russo à Alexander Dugin, cujo projecto devia chocar, em boa lógica, com todos os outros, se a expressão "boa lógica" pudesse fazer aqui algum sentido.

Há só duas coisas realmente comuns a todos esses grupos e indivíduos: o anti-semitismo e o facto de terem celebrado o nojo manifestado por Beiras e BNG de lamentarem a morte cruel de seis milhões de judeus. Claro que isso também pudera indicar que não se trata afinal de "duas coisas".  

Não esqueçamos que toda a trama dessa rede fomo-la desenhando a seguir o eco do aplauso ao facto de Beiras e BNG terem rejeitado condenar o Holocausto. Como se fôssemos morcegos, a reverberação dessa notícia é que nos forneceu o retrato da extrema-direita internacional. E isso deveria fazer com que Beiras e BNG pedissem perdão publicamente com a cara vermelha de vergonha.

*Texto publicado originalmente na web da associaçom AGAI.

Sem comentários:

Enviar um comentário