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quinta-feira, 1 de agosto de 2024

A ESQUERDA E O ÓDIO AOS JUDEUS. SOBRE AS ORIGENS REVOLUCIONÁRIAS DA JUDEUFOBIA MODERNA (II)

Pierre-André Taguieff 

 O autor desta reflexom, filósofo, cientista político e historiador das ideias, vém de publicar na Revue Politique et Parlementaire, este artigo plenamente relevante sobre a atualidade no Ocidente. Na QJ divulgamos a segunda parte.

Pierre-Andre Taguieff

Antijudeus revolucionários na Alemanha

Explorador, déspota e parasita: assim é o judeu para aqueles que o odeiam e se esforçam para justificar o seu ódio. 

> Richard Wagner

Richard Wagner (1813-1883) denuncia a emancipaçom judaica

A acusaçom de parasitismo, ou seja, de esterilidade cultural, é retomada e teorizada polo músico e poeta comprometido com a extrema esquerda que era entom Richard Wagner no final da década de 1840, como evidencia o seu famoso ensaio publicado no início de setembro de 1850: “Das Judenthum in Musik” (“A Judiaria [ou judaidade] na música”), republicado em 1869 em versom revisada e ampliada. Denuncia virulentamente a emancipaçom dos Judeus como instrumento da sua dominaçom, retomando assim o tema dos Judeus “reis da época”, amplamente difundido pola literatura antijudaica da década de 1840 na sociedade moderna dominada polo poder do dinheiro, a emancipaçom teria permitido aos Judeus tomar o poder real, isto é, o poder económico e financeiro.

O tema promete um legado longo e mortal. Wagner acrescenta primeiro umha acusaçom de inspiraçom racista: a inaptidom do povo judeu para a criaçom artística, que o condena à imitaçom e ao simulacro, portanto à superficialidade e ao engano, tendo como motivaçom principal a busca por honras e riquezas. O que o leva a formular umha segunda acusaçom: os Judeus são responsáveis ​​por terem difundido estes contra-valores nas sociedades modernas, em particular por terem submetido a criaçom artística à procura do lucro. O resultado é um fenômeno de impregnaçom “judaica” da cultura alemã, julgado fundamentalmente negativo por Wagner, denunciando veementemente a corruçom do gosto e a desnaturaçom da identidade nacional: é o que ele chama de “Verjüdung”, “enjuivement” (termo às vezes também traduzido como “judaizaçom”). Porém, para Wagner, “desjudaizaçom” (Entjudung) significa “regeneraçom”.

> Karl Marx

K. Marx (1818-1883) apesar de origem judaica, atacou os Judeus sob preceitos racistas

“Qual é a base secular do Judaísmo? A necessidade prática, a utilidade pessoal. Qual é a adoraçom profana do judeu? O tráfego. Quem é o seu Deus profano? O dinheiro. […] Umha organizaçom da sociedade que eliminasse as pré-condições para o tráfico e, portanto, a possibilidade de tráfico, teria tornado o judeu impossível. […] O dinheiro é o deus ciumento de Israel, diante do qual nengum outro deus tem o direito de subsistir. »

A este breve manifesto, inseparavelmente anticapitalista e antijudaico, devemos acrescentar os textos polémicos onde, particularmente no que diz respeito aos seus camaradas de armas de origem judaica, Marx revela os seus preconceitos raciais e solicita virulentamente um certo número de críticas antijudaicas e estereótipos negrofóbicos. O tratamento que reserva a Ferdinand Lassalle, o grande líder do socialismo alemão que foi o seu “amigo” e companheiro de lutas, atesta que Marx, longe de se ater à judeofobia político-económica, pensava segundo categorias racialistas. Evidenciado por esta passagem relativa à aparência física de Lassalle numha carta a Engels datada de 30 de julho de 1862: “Agora é perfeitamente óbvio para mim que o formato da sua cabeça e [a textura do] seu cabelo mostram que ele descende de negros que se juntaram à tropa de Moisés durante o êxodo do Egito –a menos que a sua mãe ou avó paterna tivesse relações com um negro. »

Noutro lugar, Marx diz do “pequeno judeu” Lassalle, deste “negro-judeu de Lassalle”, a quem ele às vezes apelida de “o Youpin Braun” ou “nosso Youpin Braun” (carta a Engels de 25 de fevereiro de 1859), que ele é “o mais bárbaro de todos os Youpins da Polónia”. Encontramos até farpas antijudaicas em "O Capital", como nesta passagem do famoso capítulo IV (“A fórmula geral do capital”) do primeiro livro: “O capitalista sabe muito bem que todas as mercadorias, qualquer que seja a sua aparência e cheiro, são dinheiro “na fé e na verdade”, Judeus circuncidados internamente [innerlich beschnittene Juden] e, além disso, instrumentos maravilhosos para ganhar dinheiro. »

> Eugen Duhring

Entre os ideólogos antissemitas alemães do final do século XIX, o programa de desjudaizaçom tinha umha componente política mínima: privar os Judeus dos seus direitos civis. O político social-democrata austríaco expressou ironicamente o sentimento partilhado por muitos representantes de esquerda nos países de língua alemã: “Se todos os Judeus deixassem Viena, nom seria umha grande perda.» No seu panfleto antissemita publicado em 1880, Die Judenfrage als Racen-, Sitten-, und Culturfrage (“A questom judaica como umha questom de raça, moral e cultura”), o socialista e antissemita anticristão Karl Eugen Dühring resumiu assim a sua visom dos Judeus, agentes dum “enjuyment” ou “judaizaçom” de sociedades nom-judaicas:

“Mesmo um movimento espiritual mais forte do que o das religiões existentes nom melhoraria os Judeus. Por outro lado, a assimilaçom dos Judeus só pode prejudicar a melhor comunidade espiritual (…) No que diz respeito aos Judeus, devemos, portanto, contar com algo imutável pola sua própria natureza. (…) Graças ao seu dinheiro e à sua desonestidade, os Judeus conseguiram infiltrar-se em todas as vias de acesso à sociedade e já muito antes da chamada emancipaçom, tinham nas mãos boa parte dos fios que permitem dirigir a vida da naçom. Entom eles dominaram todas as posições do Estado e da sociedade e estabeleceram-se firmemente em todos os lugares. »

Os mais radicais entre os teóricos antijudaicos e revolucionários propuseram a expulsom de todos os Judeus, nom sem sugerir, como Dühring, que eles poderiam ser fisicamente eliminados. De facto, Dühring afirmou que “massacre e extermínio” (Ertötung und Ausrottung) eram a única forma de destruir o Judaísmo (Judentum). Em 1901, na quinta ediçom do seu livro sobre a “questom judaica” (primeira ediçom em 1880), este socialista antimarxista exigia “a aniquilaçom [Vernichtung] da naçom judaica”. Ele supõe que apenas “o terror e a força bruta” podem vencer os Judeus, estes “estrangeiros parasitas”. Na ediçom póstuma da mesma obra (corrigida em 1920), Dühring afirma que “nom há lugar na Terra para os Judeus”.

> Mikhail Bakunin

Mikhail Bakunin (1814-1876) aderiu à conspiraçom da dominaçom judaica

Quanto ao anarco-comunista russo Mikhail Bakunin, o infeliz e vingativo rival de Marx na luta pola liderança da Primeira Internacional, ele uniu em 1872, na mesma conspiraçom judaica pola dominaçom universal, o pólo capitalista (o banco Rothschild) e o pólo comunista-marxista (Marx), ou seja, as duas faces da “seita exploradora”: “Os Judeus têm um pé no banco e o outro no movimento socialista.» E denuncia “este mundo judaico, formando umha seita exploradora, um povo sanguessuga, um parasita único”.

> Ver: CONCEÇOM MATERIALISTA DA QUESTOM JUDAICA (Abraham Leon)


Judeofobia de esquerda francesa: a sua ascensom e o seu fim fantasiado

Na França, a extrema esquerda revolucionária foi explicitamente antijudaica ao longo do século XIX –de Fourier e Toussenel a Auguste Blanqui, ao blanquista e comunardo Gustave Tridon (autor do Molochismo Judaico, escrito em 1867 e publicado em 1884), a Auguste Chirac (autor de Os Reis da República. História dos Judeus, 1883-1885), a Albert Regnard (também Blanquista e Communard, autor de Arianos e Semitas, 1890), Benoît Malon (Communard, socialista revolucionário e diretor da La Socialist Review de 1880 até sua morte em 1893) e Augustin Hamon (inimigo declarado da “raça semítica hebraica” ou “judaísmo” personificado por Rothschild e os “financistas cosmopolitas”), via Proudhon–, exceto durante os poucos anos em que, sob a liderança de Jean Jaurès, Lucien Herr, Bernard Lazare, Émile Zola e Charles Péguy, em que escolheu o campo Dreyfusard.

> Edmond Picard

Para socialista belga Edmond Picard (1836-1924) os Judeus são "vermes"

Também nom devemos esquecer a Bélgica, que tem os seus próprios socialistas antijudaicos. Membro do Partido dos Trabalhadores Belgas e senador socialista, seguidor das teorias raciais da sua época e autor dumha "Síntese do Antissemitismo" em 1892, Edmond Picard lançou-se contra os semitas, estas “raças parasitas”. Ele compara os Judeus a umha “praga” ou “verme” que “enxameia”. O seu objectivo é conseguir "a supressom da influência judaica" através da "destruiçom das fortunas judaicas", através de legislaçom adequada, bem como através da "exclusom do judeu das funções governamentais, o preconceito fundamentado para nom lhe deixar nengumha parte no rumo da nossa civilizaçom, dar preferência ao ariano em todas as cousas.”

No seu notável estudo sintético intitulado “A Esquerda e os Judeus” (1981), Michel Winock lembra que o próprio Jaurès, em dous artigos publicados em 1 e 8 de maio de 1895 polo La Dépêche de Toulouse, explicou que “na forma um pouco” perto do antissemitismo está a espalhar na Argélia um verdadeiro espírito revolucionário", e que o grande líder socialista nom hesitou, nas vésperas do caso Dreyfus, em "retomar os argumentos do lobby antissemita contra "o poder judaico .”

Foi apenas com o artigo publicado por Émile Zola em 16 de maio de 1896 no Le Figaro, “Para os Judeus”, que os laços de conivência, até mesmo de cumplicidade, entre os círculos socialistas e os antissemitas começaram a ser desvendados. Mas foi só com a publicaçom do “J'accuse” de Zola no L'Aurore, em 13 de janeiro de 1898, que a maioria dos socialistas (incluindo Jaurès) puseram fim a isso, ou mais precisamente começaram a pôr fim às suas hesitações. Porque, poucos dias depois, em 20 de janeiro de 1898, foi tornado público um manifesto assinado por 32 deputados socialistas, cujo argumento expressava claramente o antissemitismo “social” difuso da época:

“Os capitalistas judeus, depois de todos os escândalos que os desacreditaram, precisam, para ficarem com a sua parte dos despojos, reabilitarem-se um pouco. Se pudessem demonstrar, em relaçom a um dos seus, que houve um erro judicial, procurariam (...), de acordo com os seus aliados oportunistas, a reabilitaçom indireta de todo o grupo judaizante e panamista [isto é, comprometido no escândalo financeiro do Canal do Panamá]. Eles gostariam de lavar toda a sujeira de Israel nesta fonte. »

Ainda mais significativo, Jaurès nom hesitou em publicar na La Petite République, em 13 de dezembro de 1898, um artigo intitulado "O embaraço de Drumont", onde, à maneira dumha crítica abrangente ao desejo de Drumont de ser inteligente, retoma sobre o seu relato alguns dos temas do antissemitismo socialista e varia muito de acordo com os crimes das finanças judaicas:

“Se o Sr. Drumont tivesse tido a clarividência que atribui a si mesmo todas as manhãs, ter-se-ia limitado a denunciar na açom judaica um caso particularmente agudo de açom capitalista. Tal como Marx, que outro dia citou no sentido contrário, ele teria mostrado que a conceçom social dos Judeus, baseada na ideia de tráfico, estava em perfeita harmonia com os mecanismos do capital. E poderia ter acrescentado, sem excessos, que os Judeus, habituados por especulações seculares à prática da solidariedade e moldados durante muito tempo ao manejo das riquezas móveis, exerceram na nossa sociedade umha açom desproporcional e formidável. Este socialismo tingido de antissemitismo dificilmente teria levantado quaisquer objeções entre os espíritos livres. »

Embora os socialistas devessem ter repudiado completamente o antissemitismo dos círculos anti-dreyfusistas, o emblemático socialista Jaurès fez tais concessões ao presumível adversário (Édouard Drumont) que parecia alinhar-se com posições anti-judaicas. Este artigo poderia, de facto, apenas legitimar a associaçom entre o judeu e o “tráfico”, e reforçar o estereótipo do malvado judeu financeiro. Em suma, podemos considerar, com Winock, como estabelecido que, “até 1898, o antissemitismo nom era percebido por toda a esquerda –e particularmente polos socialistas– nem como um opróbrio nem como uma ameaça séria”.


O caso Dreyfus parecia, portanto, ter posto fim à judeofobia nos círculos socialistas, e o antissemitismo genocida dos nazis, condenado consensualmente a partir de 1945, deu a ilusom de que o ódio aos Judeus estava fixado na extrema direita e continuaria a ser assim. Daí a crença amplamente partilhada, após a queda do Terceiro Reich, de que a esquerda se tinha tornado judeófila, ou mesmo que sempre o foi, porque era anti-racista, e que a judeofobia era umha prerrogativa da extrema direita. Umha ilusom retrospectiva, se é que algumha vez existiu. O ódio aos Judeus só poderia ser um fenómeno do ressurgimento do antissemitismo nazi.


Reinvençom da judeofobia na esquerda: antissionismo radical e islamizaçom do discurso antijudaico 

Desde a década de 1950, assistimos à lenta reinvençom, há muito despercebida, dumha visom antijudaica do mundo, cuja principal característica é que ocorreu em terras de esquerda e especialmente da extrema esquerda, no nome do “anti-racismo”, através da demonizaçom do sionismo e do Estado de Israel, e a suspeita de que todo judeu era um “sionista aberto ou oculto”. A criaçom do Estado de Israel em 14 de maio de 1948 foi imediatamente denunciada como umha “catástrofe” ou um crime inexpiável polos inimigos do projeto sionista, tanto da direita como da esquerda. Mas, a partir da década de 1950, o antissionismo radical, cujo objetivo é a erradicaçom do Estado de Israel, tornou-se um dos componentes fundamentais da visom revolucionária do mundo, comum a todas as extremas esquerdas, dos estalinistas aos trotskistas e anarquistas, depois para os maoístas. O processo acelerou após a Guerra dos Seis Dias (5 a 10 de junho de 1967). A redemonizaçom dos Judeus ocorreu com base na criminalizaçom e demonizaçom de Israel e do “sionismo”, denunciado como “umha forma de racismo” e fantasiada de forma conspiratória como “sionismo global”.

> Ver: ANTISSIONISMO SOVIÉTICO E ANTISSEMITISMO DE ESQUERDA CONTEMPORÂNEO


Correlativamente, enquanto os palestinianos foram mitificados como um povo mártir, vítimas do colonialismo e do racismo supostamente consubstancial ao nacionalismo judaico, os sionistas foram criminalizados pola propaganda antissionista, tanto a dos países árabes como a do império soviético, antes de desempenhar o papel de inimigo absoluto na propaganda de vários grupos islâmicos e da maioria dos movimentos de esquerda. Os estrategistas culturais do antissionismo, em todas as suas formas, continuaram a nutrir e explorar a imaginaçom e a retórica vitimizadora, em torno da figura da vítima palestiniana, que gradualmente se tornou a da vítima muçulmana, sendo o Islão definido como “a religiom dos pobres” ou dos “oprimidos”. A “causa palestiniana”, estabelecida como umha “causa universal”, foi islamizada. Esta grande fusom de vitimizaçom permitiu articular o antissionismo radical e a “luta contra a islamofobia”, em nome da luta contra o “racismo” e o “colonialismo”, temas mitificados que mobilizam a esquerda e a extrema-esquerda.

O padrom maniqueísta que opõe as vítimas palestinianas aos carrascos sionistas faz parte do chamado discurso antissionista, que, substituindo as críticas à política israelita pola denúncia dum alegado "apartheid" ou dum imaginário "genocídio" dos palestinianos, desviou-se para questionar a própria existência do Estado de Israel. O tratamento demonológico do conflito israelo-palestiniano eliminou qualquer abordagem política ao mesmo. Este antissionismo gnóstico globalizado, que funciona como um método de salvaçom e umha promessa de redençom –destruindo Israel para salvar a humanidade– está no cerne da nova Judeofobia. Podemos considerar que substituiu em grande parte o antigo antissemitismo, que no entanto sobrevive em círculos extremistas de direita, sejam cristãos fundamentalistas ou neonazis.

É nas opiniões de esquerda que hoje é mais visível o legado de numerosos preconceitos antijudaicos mais ou menos reciclados: o judeu explorador, dominador, racista, manipulador e parasita social. Considerados carrascos polimorfos, os Judeus podem assim ser acusados ​​de fazer vítimas de diversas categorias: os explorados, os dominados, os “racializados”, os manipulados e os parasitados. A isto soma-se a figura do assassino ritual judaico, que supostamente renasce na do soldado israelita que bombardeia a Faixa de Gaza após o megapogromo de 7 de outubro de 2023.

Umha parte das elites ocidentais, situadas à esquerda e que se autodenominam “progressistas”, converteram-se à religiom política baseada no culto da vítima palestiniana e na criminalizaçom do judeu dominador e genocida. Os seus reflexos ideológicos ditam que defendam os supostamente “dominados” contra os supostamente “dominantes”. As elites “progressistas” já internalizaram há muito tempo as evidências que giram em torno da oposiçom “dominante/dominado”. A inversom vitimizada que esta conversom implica resulta na nazificaçom dos “sionistas” e, mais amplamente, dos Judeus. A mensagem transmitida é: os Judeus sionistas são os novos nazis, enquanto os palestinianos são os novos Judeus. A conclusom desta grande inversom ideológica consiste em acusar os “sionistas” nazificados de perpetrarem um “genocídio dos palestinianos”.


É desta mitologia política que herdaram os partidos e movimentos neo-esquerdistas contemporâneos, cujo discurso de propaganda encontra umha ilustraçom impressionante nas intervenções públicas do caricaturado demagogo islamo-esquerdista Jean-Luc Mélenchon e os seus associados, principalmente do trotskismo ou do descolonialismo. A ofensiva decolonial, marcada em janeiro de 2005 pola criaçom do movimento Povos Indígenas da República por iniciativa de “ativistas da imigraçom pós-colonial”, contribuiu fortemente para banalizar os temas do decolonialismo na extrema esquerda e no antissionismo radical e para conferir aos Judeus, percebidos como “sionistas” ou “cripto-sionistas”, os status repulsivos de “dominadores” e “opressores”, “islamófobos” e, portanto, “racistas”. Em 31 de março de 2012, após a morte do jihadista Mohamed Merah, Houria Bouteldja, porta-voz do Partido Indígena da República (PIR), escreveu este elogio ao assassino de Judeus, transmitido alguns dias depois:

“Mohamed Merah sou eu. O pior é que é verdade. Tal como eu, ele é de origem argelina, tal como eu cresceu num bairro, tal como eu é muçulmano. (…) Tal como eu, ele sabe que será tratado como um antissemita se apoiar os palestinianos colonizados, como um fundamentalista se apoiar o direito de usar o véu. Mohamed Merah sou eu e eu sou ele. Somos da mesma origem, mas sobretudo da mesma condiçom. Somos sujeitos pós-coloniais. Somos nativos da república (…) Digo esta noite que sou umha muçulmana fundamentalista.»

Houria Boutldja (n. 1973) ativista anticolonial franco-argeliana

Num discurso proferido em Oslo, em 3 de março de 2015, intitulado “Racismo(s) e filosemitismo de Estado ou como politizar o anti-racismo em França?», a mesma ativista “anti-racista” declarou que “os Judeus são os escudos, os fuzileiros da política imperialista francesa e da sua política islamofóbica”, ao mesmo tempo que apela ao “ataque ao filosemitismo estatal”. É difícil nom interpretar este conjunto de declarações como componentes dumha nova versom da visom dumha França “judaica” ou “judaizada”, dumha França dominada por Judeus. Em 5 de novembro de 2017, Danièle Obono, ex-ativista do NPA e deputada do La France insoumise (LFI) de Paris, nom hesitou em declarar, a falar da porta-voz do PIR e apresentando-a como umha “camarada” de luta: “Eu respeito a militante anti-racista. Foi no movimento antirracista que a conheci, foi nessas lutas que lutamos. (…) E neste movimento lutamos pola questom da igualdade. »


Uma esquerda sempre divina

Em 30 de novembro de 2017, durante “L'Émission politique” na France 2, Jean-Luc Mélenchon, querendo defender a sua emblemática deputada Obono, infelizmente declarou: “Danièle Obono é umha ativista anti-racista e antissemita.» O chefe do LFI, claro, corrigiu imediatamente o gafe. Mas, para um decifrador de pistas esfregado na psicanálise, a tribuna inflamada do povo poderia assim ter expressado, apesar de si mesmo, umha verdade escondida e cuidadosamente reprimida. É de facto em nome do anti-racismo, portanto da luta contra a discriminaçom e pola igualdade, digamos mais precisamente em nome de um anti-racismo pervertido que esconde a ausência dumha visom de futuro que caracteriza umha esquerda intelectualmente estéril, que o ódio aos Judeus está mais umha vez a tornar-se hoje umha paixom política comum. Se for verdade, nas palavras (erroneamente) atribuídas a August Bebel, um dos principais líderes da social-democracia alemã, que o antissemitismo é “o socialismo dos imbecis”, entom devemos concluir que há muitos imbecis entre os socialistas de todas as persuasões. Hoje, a fórmula deveria ser atualizada da seguinte forma: “Antissionismo é o anti-racismo dos imbecis” ou “Antissionismo é o anti-imperialismo dos imbecis”.

Porque é precisamente em nome dum universalismo abstrato equivocado que os Judeus são criticados por terem preservado as suas particularidades ou a sua identidade, em suma, por terem permanecido Judeus, a ponto de terem fundado um Estado judeu, suposta prova da sua inexpiável capacidade imperialista e nacionalismo colonialista.

Confortavelmente instalada nos territórios do Bem, a esquerda, empoleirada na sua ignorância deliberada do lado negro da sua pré-história e da sua história, pode cultivar sem consciência pesada o seu ódio aos Judeus enquanto denuncia ritualmente o "antissemitismo", atribuído exclusivamente a partido do Mal, “a extrema direita” (ou a “direita extrema”, entendendo-se que toda direita tende a se tornar extremista), cujos infelizes representantes devem exibir permanentemente sinais do seu arrependimento e fornecer provas do seu arrependimento, sem nunca deixar de ser suspeito de esconder as suas verdadeiras convições e as suas paixões indizíveis. Enquanto, embalado pola sua inocência nativa, a esquerda amnésica pode dormir em paz, a direita está condenada a umha hipermnésia dolorosa que os condena a sentirem-se eternamente culpados.


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