segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

OS JUDEUS PORTUGUESES E OS PIRATAS DO CARIBE

Este post conta como foi que os judeus sefarditas de origem portuguesa foram dar às ilhas da Jamaica e Barbados e como alguns deles se tornaram em corsários ou piratas do Caribe.

Jamaica

A Jamaica foi umha colónia espanhola desde a sua "descoberta" em 1494 até 1655. Sob o domínio espanhol a ilha passou a ser considerada umha propriedade particular da família Colombo. Assim sendo, em novembro de 1509, Diogo Colombo (português, filho de Cristovão Colombo e de Filipa Moniz), autoriza Juan de Esquivel para conquistar e povoar a ilha, o que fez de jeito bárbaro. A maioria dos primeiros cerca de 1.500 habitantes europeus da Jamaica eram portugueses, provenientes sobretodo dos Açores e da Madeira, tendo-se dedicado no inicio à gadaria. 

A partir de 1576 é autorizada a criaçom dumha colónia de Judeus/cristãos-novos, vindos na sua maioria de Portugal. A diferença do resto da populaçom, os Judeus constituem umha comunidade formada principalmente por mercadores e comerciantes. Para ocultar a sua identidade autodenominavam-se como "portugals", independentemente da sua origem portuguesa ou espanhola, forçados a viver umha vida clandestina

Depois de 1580, sob o dominio filipino, os portugueses usaram Jamaica como um ponto de ataque ao Império espanhol, facilitando a penetraçom e os ataques de ingleses, holandeses e franceses nas Antilhas e no continente americano. 

No século XVII as ilhas do Caribe eram conhecidas por "Portugals".

Em 1655 os britânicos tomaram o controlo da ilha constatando os novos ocupantes a presença lá de muitos judeus ("portugueses"), aos que lhe foi concedida a cidadania por Cromwell, sendo confirmada em 1660 polo rei Carlos.

Por conta da perseguiçom na Europa, na altura de 1660 a Jamaica tornou-se um refúgio para os Judeus no Novo Mundo, atraindo também aqueles que tinham sido expulsos de Espanha e Portugal. Depois que os britânicos assumiram o governo da Jamaica, os Judeus da ilha decidiram que a melhor defesa contra umha possível tentativa de reconquista por parte da Espanha era contribuir para que a colónia britânica se tornasse umha base para os piratas do Caribe.

Com os piratas instalados em Port Royal, os espanhóis seriam dissuadidos de atacar. Os líderes britânicos concordaram com a viabilidade desta estratégia para evitar uma agressom externa. 

Os primeiros governadores ingleses da Jamaica enviavam livremente cartas de corso para os bucaneiros, enquanto o crescimento de Port Royal dava a estes bucaneiros um lugar muito mais rentável e agradável para poderem vender o seu espólio. Henry Morgan, um dos mais implacáveis, notórios e bem sucedidos bucaneiros de sempre que assaltava colónias espanholas e conquistou a Cidade do Panamá, foi cavaleiro e governador da Jamaica. Bartolomeu Português foi um dos mais famosos piratas portugueses de todos os tempos. Tinha a patente de corso do governador da Jamaica e na década de 1660 envolveu-se em inúmeras ações contra os espanhóis. Foi responsável polo estabelecimento do primeiro código de regras popularmente conhecido como "O Código da Pirataria".

Moisés Cohen Enriques, conhecido como Don Moisés, sefardita de origem portuguesa, foi o pirata judeu mais afamado que atuou com base na Jamaica atacando os navios espanhóis que ligavam Cuba e Cádis.

O período em que os piratas foram mais bem sucedidos foi de 1660 a 1730, quando começaram a ser combatidos polos britânicos. 

Embora a populaçom judaica da Jamaica nunca foi muito importante, o seu contributo à vida económica e comercial da ilha superou a de qualquer outro grupo étnico e tamanho comparável. Um estudo recente estima que cerca de 424.000 jamaicanos (aproximadamente 15% da populaçom) som descendentes de judeus sefarditas vindos de Portugal e Espanha a partir de 1494. 

A presença portuguesa na Judiaria da Jamaica testemunha-se quer na língua em que estám escritas as lápides dos cemitérios, quer nos registos da sinagoga, quer nos apelidos judaicos comuns, entre os quais, os Lindo, da Silva, Souza, Decosta, Henriques ou Rodriques.

Barbados

Ilha do Caribe descoberta polos espanhóis e batizada em 1538 polos exploradores portugueses, talvez, polo facto de terem entom visto figueiras com longas raízes que lembravam as "barbas".

Colonizada polos britânicos a partir de 1627, logo a seguir produziu-se a chegada dos primeiros judeus sefarditas  de origem portuguesa vindos da Inglaterra, Alemanha ou como refugiados das Guianas ou do Pernambuco (de onde chegaram 300 pessoas a partir de 1654). 

Os refugiados judeus vindos do Brasil trazeram consigo a experiência na produçom e cultivo da cana sacarina e do café, o que contribuiu grandemente para o desenvolvimento de Barbados como um grande produtor de açúcar, fazendo com que a ilha se tornasse num dos territorios europeus mais ricos das Índias Ocidentais. Porém, diferentemente do Suriname (Guiana holandesa), apenas umha pequena parte dos judeus portugueses de Barbados eram proprietários das plantações.  

Dado o pequeno tamanho da ilha, toda a terra disponível já estava ocupada na década de 1660. Em consequência, os Judeus fixaram-se em Bridgetown, a capital da colónia, como mercadores e umha parcela formou umha outra comunidade na vila de Speightstown. Em 1680 os Judeus constituam os 13,3% da populaçom de Bridgetown.

Em 1654 constituiu-se em Bridgetown umha comunidade religiosa, sendo levantada a sinagoga sefardita de Nidhei Israel (Os Dispersos de Israel). Entre os seus rabinos  (1774-77) destaca Rafael Hayyin Isaque Carregal, originário de Hebrom (Palestina).
Esnoga de Bridgetown (Barbados). Wikipédia
Enquanto o governo britânico considerava os Judeus acaídos para o comércio e os negócios, promovendo, de facto, os assentamentos hebraicos, os mercadores britânicos lá fixados nom gostavam dos Judeus, aos que acusavam de comércio ilegal e de preferir os mercadores holandeses em vez dos britânicos.

Em 1661, três comerciantes judeus em Barbados conseguiram travar rotas comerciais com o Suriname (entom colónia britânica e onde tinham redes pessoais). A partir desta empresa os judeus ganharam muita riqueza, mas criou mais irritaçom entre muitos comerciantes britânicos. 

Como no caso da Jamaica, entre os piratas judeus destaca Yacoob Mashaj e a sua esposa Deborah, casal que nos Barbados faziam parte dum grupo de portugueses que mostrava o seu orgulho envolvendo-se em ataques contra os espanhóis. Os seus túmulos no cemitério judaico de Bridgetown ostentam simbolos de piratas.


Logo depois de a colónia britânica do Suriname passar para o domínio holandês em 1667, muitos Judeus deslocaram-se para Barbados a fim de conservar a cidadania britânica. Barbados foi o primeiro território britânico em os Judeus obtiveram igualdade de direitos.

A teor dos atritos entre colonos britânicos e Judeus, em outubro de 1668 os hebreus de Barbados foram proibidos de se envolver no comércio a retalho estrangeiro ou local. Também se proibiu que comprassem escravos e foram forçados a viver num gueto. Todas as leis discriminatórias seriam removidas polo governo colonial de Barbados em 1802.

A comunidade sefardita de origem portuguesa de Barbados esmoreceu grandemente durante todo o século XIX até desaparecer de vez em 1929, altura em que abandonou a ilha o último dos descendentes dos judeus vindos do Pernambuco. Em consequência, a sinagoga da comunidade esmoreceu polo desuso produzido por umha emigraçom maciça para os EUA. 

A presença judaica retomar-se-ia depois da Segunda Guerra mundial com a chegada de 30 famílias de refugiados Judeus asquenazitas vindos da Europa do Leste.

Em 1987, a esnoga de Nidhei Israel foi reedificada num novo local e foi restaurado o velho cemitério judaico de Bridgetown. O antigo edifício do templo Nidhe Israel, considerada umha das sinagogas mais antigas do hermisfério ocidental, é hoje utilizado como biblioteca e museu. O museu exibe um banho ritual (mikveh) do século XVII, descoberto em 2008 durante as obras de construçom dum parque de estacionamento.

O cemitério judaico de Barbados, considerado o cemitério mais antigo do hemisfério ocidental, possui túmulos dos anos 1660 e incluem alguns indivíduos proeminentes, como Samuel Hart, filho de Moisés Hart, e Moisés Neemias (o primeiro judeu a viver na Virginia, EUA).

Umha análise da lista telefônica de Barbados permite testemunhar ainda hoje a presença portuguesa nos apelidos das pessoas descendentes dos judeus sefarditas de origem portuguesa vindos do Pernambuco.

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