segunda-feira, 21 de setembro de 2015

JUDEUS GALEGO-PORTUGUESES DE SALÓNICA

Aquando o édito de expulsom de 1492, o sultám Bayezid II, convida os judeus sefarditas dos reinos de Espanha a se transferirem com as suas propriedades para o Império Otomano. Falando na política espanhola referente aos Judeus, o sultão afrma ironicamente: "Pode você chamar esse rei de sábio e inteligente? Ele está a empobrecer o seu país e enriquecendo o meu reino".
Salónica no século XVII. Foto: EternaSefarad
Com certeza, os Judeus receberam a promesa de que no Levante teriam total liberdade de praticar a sua religiom, falar a sua língua, bem como organizar-se e dirigir as suas próprias comunidades. Em consequência, o sultão decreta que os seus governantes deveriam receber os Judeus com todas as facilidades possíveis e condena à morte a qualquer ameaça à sua segurança.

Essa certa autoorganizaçom inseria-se no modelo turco de de millet, ou comunidade étnico-religiosa, forma pola qual os Turcos dirigiam um império pouco centralizado, multiétnico e multirreligioso, oferecendo umha relativa autonomia para cada grupo.

Ao cabo dum ano chegam a Salónica mais de 20.000 Judeus sefarditas procedentes dos distintos reinos hispânicos. 

Estabelecidos na cidade, cada comunidade postou-se em separado no seu próprio bairro, como constituindo pequenos "estados" independentes, consoante as suas origens, ao redor dumha grande praça central comum a todas elas. Essas congregações eram chamadas polos seus nomes ibéricos das cidades, países ou regiões donde provinham, por nomes de famílias ou por algumha homenagem que quisessem prestar ou evento a lembrar. 


A partir de 1497 optaram por Salónica como terra de refúgio, juntando-se às comunidades sefarditas vindas de Espanha, os Judeus expulsos de Portugal num êxodo continuado que se acelera logo depois do ‘pogrom’ de 1506 em Lisboa, que provocou centenas de mortos. 

Assim sendo, em 1510 é fundada a sinagoga Lisboa polas famílias que chegaram de Lisboa, em 1525 a sinagoga Portugal, em 1535 a sinagoga Évora polos que vieram de Évora e em 1536 a sinagoga Lisboa Hadash (nova) para diferenciá-la da fundada em 1510, que doravante passou a ser chamada de Lisboa Yashan (antiga). Em 1560 os judeus portugueses fundaram umha quarta chamada Yahia (ou Leviat Chen ou Seniora) e provavelmente criaçom de Dona Gracia Mendes Nasi (nascida em Lisboa) para judeus de descendência portuguesa convertidos ao catolicismo. Mais tarde tornar-se-ia na sinagoga dos ‘estrangeiros’, que chegaram num período mais tardio e nom pertenciam a nengumha das sinagogas existentes. 

Os Judeus galegos instalaram-se em Salónica a partir dos finais do século XV e fundaram em 1575 a sinagoga Beth Aharon, localizada no distrito de Vardar.


Cada sinagoga também refletia rivalidades pessoais, divergências nos rituais de celebraçom, problemas com os negócios. E consumava-se a separaçom, o que explica, por exemplo, a existência dumha sinagoga Lisboa Yachan (antiga Lisboa), fundada em 1510, e a apariçom em 1536 dumha Lisboa Haddach (nova Lisboa)

Cada sinagoga tinha a sua família relacionada, o que permite identificar alguns apelidos com provável descendência galego-portuguesa. Assim, a sinagoga Lisboa Yashan (antiga), era frequentada polos Afias, Benforado, Benveniste, Eskaloni, entre outras famílias. A Lisboa Hadash (nova) polos Abravanel, Alvo, David ou Saporta. A sinagoga Évora pelos Altaras, Ergas, Bivas, Maloro, Pinto, Ovadia, Attias, Rouvio ou Amarillio e a de Portugal polos Atias, Perera, Medina, Melo, Ferreira, Antunes, Raphael, Pereire, Paraira, Arari, Rangel, Miranda, Boueno, Hernández, Pera, Pérez, Pinto, Preciado, Santo, Vilar, entre polo menos 25 famílias. Na de Dona Gracia, compareciam mais de 40 famílias. A da Galiza era frequentada polas famílias Cassouto, Pardo, Saragoussi, Toledano, Franco, Avayou, Israel, Leal, Sadoc, Zadoq, Cadoc, Cadoche, Cadoches, Cados, Kados, Cadosch, Kadosh ou Qadosh.

Relativamente à presença de Judeus galegos em Salónica existem duas hipóteses. Por um lado a tese, recolhida por Álvaro Cunqueiro num artigo que dava conta do primeiro simpósio de estudos sefarditas celebrado em Madrid em junho de 1964, a comunidade galega era muito fraca em número, e, embora com cum pequeno bairro e praça particular, nom fundaram umha sinagoga chamada de "Galegos", mas ter-se-iam filiado à sinagoga dos aragoneses. Por outro lado, outros estudiosos nom apenas ligam a comunidade judaica galega à referida sinagoga Beth Aharon, mas referem os apelidos das famílias que a frequentavam, entre os quais os Pardo, Cassouto ou Leal.

Os sefarditas espanhóis, catalães ou vindos da península itálica também tinham os seus próprios templos, chamados Aragom, Castilha, Catalão, Itália ou Sicília.  Estes sefarditas, conhecidos de sefarditas orientais, exprimiam-se em ladino ou judeu-espanhol, com origem no castelhano de entom e ao qual foram acrescentando diversas expressões em turco, grego, mesmo em hebraico. Seria a sua língua veicular de comunicaçom até ao século XX.

A chegada de imigrantes foi tam elevada que em 1519 os Judeus constituam os 56% da populaçom, passando para 68% na altura de 1613.

A diferença do que acontecia noutras grandes cidades do Império otomano, nas que comércio estava principalmente en mãos de gregos e arménios, em Salónica eram os Judeus que o controlavam. De facto, o porto e o comércio nom abriam em sábado (festa de shabat). A atividade económica relacionava a Salónica com o resto do Imperio Otomano, mas também com os estados italianos de Veneza e Génova, bem como com todas as comunidades judias do Mediterráneo, Flandres ou Golfo de Gasconha. Prova da grande influência dos judeus de Salónica sobre os negócios da zona foi o boicote, em 1566, ao porto de Ancona, dependente dos Estados Papais, após o auto-da-fé de 25 "marranos" portugueses ordenado polo Papa Paulo IV.

Os Judeus de Salónica faziam parte de todos os setores económicos e nom se limitavam a especializar-se nalgum particular, como ocorria nos locais em que eram minoria. Assim sendo, havia judeus em todos os niveis da escala social, desde portadores até grandes empresários. Caso praticamente unico na diáspora judaica é que em Salónica havia um grande número de pescadores judeus.

Durante o século XVI floresce em Salónica o artesanato têxtil, mormente a indústria dos lanifícios. Por volta desta industria viravam numerosos ofícios: tecedores, tintureiros, prensadores, aprestadores, cardadores e outro operariado especializado ocupado por judeus. Este florescimento económico atraiu rabinos, médicos, poetas, comerciantes, intelectuais de toda cepa e estudantes de todos os cantos, ganhando Salónica a reputaçom de cidade Mãe de Israel. Em 1558 fixa-se em Salónica o médico Amato Lusitano para dar aulas na escola de medicina.


Mas nom apenas como artesãos os judeus progrediam, já que em funçom das suas qualidades e conhecimento umha elite logo passou a ocupar cargos militares e administrativos junto ao Sultám. O crescimento do comércio com a Europa tornou-os embaixadores, emprestadores de dinheiro e banqueiros, ao serviço do Sultám e para os governadores locais. Experiência adquirida em Sefarad, emprestaram os seus dotes como angariadores de impostos, tornando-se imprescindíveis em várias regiões do Império. O exemplo mais notável foi o financeiro e milionário Dom Josef Nasi ou João Mendes, que construiu para os turcos umha eficientíssima rede de coleta de impostos na metade do século XVI. Considerado o maior banqueiro e empresário do Império, a sua eficiência e sucesso econômico fê-lo amigo íntimo de Suleiman e do seu sucessor Selim II, tendo sido nomeado Duque de Naxos em 1566 ou atuado em nome do Império turco em questões diplomáticas junto a Polónia, Itália e Espanha.

A chegada de imigrantes procedentes da Península Ibérica foi esmorecendo ao longo do século XVII, já que estes preferiam instalar-se, em lugar de em Salónica, em cidades da Europa ocidental como Londres, Amsterdám ou Bordéus, o que provocou um afastamento dos judeus sefarditas otomanos a respeito de Ocidente. 

Assim sendo, durante todo o século XVII-XVIII nom apenas se interrompe o fluxo de entrada, mas numerosos judeus de Salónica emigraram para Istambul, Israel e, sobretodo, para Esmirna, cuja atividade económica estava a despontar. Este processo nom foi alheio ao declínio da atividades comerciais que acarretou o declínio progressivo do Império Otomano, que entrou num estado de guerra continuada com vários países e povos. 

Na década de 1720-30 cristãos-novos portugueses, chamados de "francos" emigraram para Salónica. Com um elevado nível educativo, a maioria deles tratava-se de mercadores e banqueiros que se fixaram em Livorno. Considerados como intérpretes dos cônsules, nom pagavam impostos ao sultám. No início eles também recusaram pagar as taxas à comunidade judaica, mas afinal acabaram acedendo às exigências das autoridades comunais.

No século XIX peste e outros andaços (como o cólera que afetou a Salónica a partir de 1823), contribuiram também para a decadência da cidade e da sua comunidade judaica. No início do século XX havia aproximadamete 80.000 Judeus em Salónica (os 46,2% da populaçom total), na sua maioria descendentes dos judeus sefarditas hispano-portugueses.

Em 1912 Salónica deixa de ser turca e passa a ser grega. Com a conquista da cidade polo exército grego e consequente perseguiçom física generalizada aos súbditos otomanos (os sefarditas portugueses eram-no), surgiu um movimento que levou os Judeus da nação portuguesa a requererem a nacionalidade dos seus antepassados. Como «pátrias de acolhimento», selecionaram a Áustria, Espanha e Portugal.

Com autorizaçom do Governo português, o consulado luso em Salónica passou a emitir certificados provisórios de nacionalidade (passaporte com a validade de um ano, renovável) a quem o requeresse com base em prova documental da respetiva ancestralidade, com base nas declarações juramentadas de duas testemunhas ou polo conhecimento pessoal do Cônsul. Foram mais de 300 as famílias assim acolhidas, o que correspondeu a um milhar de pessoas. 

Fizeram parte deste grupo membros das famílias Angel, Amariglio, Almosnino, Abravanel, Benveniste, Barzilai, Covo, Cohen, Florentin, Levy, Molho, Misrahi, Nahmias, Pardo, Pinho, Segura, Saltiel, Strumza, Toron, Uziel e tantas outras. Alfredo de Mesquita, embaixador de Portugal em Istambul foi o grande obreiro desta missom de resgate.

Após as Guerras dos Balcães (1912-13), Salónica, isolada dos territórios interioranos que até entom servia como porto, perde a importância como porto do estados balcânicos, que se transferiu para o Pireu e Istambul. No entanto, durante a Primeira Guerra mundial tornou-se num centro dos soldados aliados.

Em agosto de 1917, um grande incêndio que se prolongou por dous dias e duas noites destruiu parte da cidade, atingindo em particular os bairros judeus. Casas, sinagogas, bibliotecas, arquivos, fábricas, escolas, foram devoradas polo fogo, ficando desalojados cerca de 55.000 judeus. O governo grego, que seguia umha política de helenizaçom da cidade, estava pronto para compensar os Judeus cujas casas foram destruídas, mas rejeitou permitir o regresso dos Judeus a algumhas áreas, o que causou que muitos deles abandonassem o país rumando para os EUA, França, Itália e Alexandria.

A troca de populaçom entre a Grécia e a Turquia fez com que chegassem milhares de refugiados gregos à cidade o que permitiu, desde 1922, a sua hegemonia económica ao aumentar a sua influência no comércio, o artesanato, a banca e os serviços públicos. Em consequência das políticas antissemitas implementadas polo governo grego (sistema eleitoral discriminatório, ataques ao bairro judeu de Campbell,...), na década de 1930 entre 15.000-18.000 Judeus de Salónica emigraram para Israel e um outro grupo de 15.000 para a França. Na altura de 1935, a comunidade judaica estava formada por 60.000 pessoas.

Em 1936, Lencastre e Menezes, o cônsul honorário de Portugal em Atenas é demitido por conceder documentos transformando em cidadãos portugueses judeus fugidos da Alemanha. Embora nom abertamente antissemita, a atitude do Estado Novo de Salazar foi a de dificultar ao máximo a entrada de refugiados judeus, impondo-lhes inúmeras exigências legais que tornavam a imigraçom praticamente impossível.


Na véspera da Segunda Guerra mundial em Salónica havia cerca de 52.000 Judeus, perto de 50.000 em 1941, no início da ocupaçom alemã da Grécia. Segundo documentos alemães, entre 20 de março e 18 de agosto de 1943, partiram de Salónica para Auschwitz-Birkenau 19 transportes com 48.533 Judeus. Porém, parte dos deportados chegaram a outros campos de extermínio, por exemplo a Treblinka. Apenas sobreviveram a Shoá 1.950 Judeus, perecendo os 96% de deportados de fome, doenças ou nas câmaras de gás.


A iminente vitória das forças aliadas levou, a partir de 1943, a umha mudança de postura de Salazar, levando-o a relaxar as exigências e, em 1944, conceder passaportes coletivos de Judeus vindos de Salónica.

A maioria dos poucos sobreviventes nom encontrou nengum familiar vivo na cidade. Alguns lutaram por recuperar parte das tenças familiares e reconstruir as suas vidas na cidade, mas a maioria preferiu reiniciar a sua existência em Israel, os EUA, Canadá, Austrália ou na América do Sul. Os que emigraram para Israel fizeram parte na reconstruçom do país e a sociedade.


Na comunidade judaica de Salónica, hoje com cerca de mil pessoas, ainda há apelidos com origem portuguesa, apesar das dificuldades em determinar a sua ascendência após um século XX de guerras, desastres naturais, deportações e mortes em massa que quase aniquilaram esta populaçom sefardita. 

Por isto é possível que alguns Judeus de Salónica assinalem a recente decisom do governo português e consigam solicitar nacionalidade portuguesa. Segundo Erika Zemour, diretora do Museu Judaico de Salónica  é "muito difícil encontrar referências sobre descendentes de Judeus portugueses". “Os arquivos da comunidade foram consumidos no grande incêndio de 1917, e assim nom temos nada antes dessa data. Os arquivos elaborados pola comunidade entre 1917 e 1941 foram levados polos alemães (durante a Segunda Guerra mundial). Hoje, apenas temos os aquivos pós-guerra. E o que sabemos de antes da guerra é aquilo que os sobreviventes (da Shoá) contaram à comunidade”, precisa. 

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