quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

OS JUDEUS DE BELMONTE

Belmonte é umha vila interior de Portugal localizada entre a Covilhã e a Guarda aos pés da Serra da Estrela. Por ali passaram os romanos e deixaram a Torre Centum Cellas, um dos mais representativos e enigmáticos monumentos da época romana na Beira Interior. Posteriormente, em 1496, Fernão Cabral, pai de Pedro Álvares Cabral, o grande navegador português descobridor do Brasil, recebeu por doaçom a Vila de Belmonte.


Mas outra grande história de Belmonte é a da existência dumha comunidade judaica viva e ativa. Marranos, criptojudeus, judeus secretos ou simplesmente judeus. Desde os finais do século XIII que os judeus tiveram algumha importância em Belmonte fruto da situaçom geográfica desta vila. Mas a presença de judeus nesta vila nom foi um facto isolado pois som conhecidas antigas judiarias em cidades, aldeias e vilas da regiom.

No caso concreto de Belmonte, a presença de Judeus desde os tempos medievos foi atestada, nom só pola referência documental à sisa judenga como por umha Lápide com inscriçom em hebraico (“E ADONAI (DEUS) ESTÁ NO SEU TEMPLO SAGRADO/EMUDECE PERANTE ELE TODA A TERRA”), datada de 1297 encontrada nos princípios do século XX numha capela da Vila, que existia no atual Largo António José de Almeida (Capela de São Francisco). Esta lápide pertencera a uma Antiga Sinagoga que depois foi adaptada para o culto cristão. A existência dumha Antiga Sinagoga faz supor que em Belmonte haveria umha comunidade judaica organizada que terá atraído judeus quando estes foram expulsos de Castela, em 1492, polos Reis Católicos.

Contudo, esta situaçom de segregaçom e tolerância gozada polos judeus até aí em Portugal, acabou também por se alterar nos finais do século XV, quando no reinado de D. Manuel I, os judeus som forçados ao Baptismo ou, no caso de recusa, a saírem do país.

Apesar desses factos, em 1496, as fontes documentais atestam a existência de judeus nesta regiom pois estes continuavam a pagar 400 Reais. Muitos ficaram e foram baptizados à força. Esses, os chamados Cristãos-Novos, viram-se, a partir dessa época, obrigados à dissimulaçom religiosa.

A Pia Baptismal Manuelina que hoje se pode observar no átrio de entrada da Câmara Municipal de Belmonte é, tradicionalmente, relacionada com estes baptismos e terá pertencido também à Capela de Sam Francisco.

A permanência desses judeus, que apesar de convertidos à força, continuavam a praticar o judaísmo, torna-se evidente quando se fazem investigações na Torre do Tombo e se descobrem diversos processos inquisitoriais de naturais ou moradores no Concelho de Belmonte nos séculos XVI, XVII e XVIII.

Estes factos reforçam a ideia de que sempre houve judeus em Belmonte e que a atual comunidade nom descende apenas do casal Maria Caetana e João Diogo Henriques que se instalou aqui em 1782.

Na realidade Judeus e Cristãos-Novos viveram aqui, ocultando a sua verdadeira fé, praticando atos e ritos católicos por medo, mantendo, paralelamente, em segredo as tradições e costumes judaicos. Alguns estudiosos costumam afirmar, a propósito da transmissom das suas tradições, que os judeus de Belmonte detinham uma "religiom de patriarcas mantida por mulheres" pois estas foram, ao longo dos tempos, o verdadeiro repositório de todas as orações, calendário, ritos e festas. Manteve-se, assim, secretamente a tradiçom, (mesmo depois da extinçom definitiva da Inquisiçom, em 1821) que se foi transmitindo de geraçom em geraçom, com maior ou menor abertura, dependendo das circunstâncias políticas.

Por causa da sua fé, superaram provas como perseguições, baptismos forçados, 285 anos de Inquisiçom, regimes autoritários como o do Estado Novo, etc. Vivendo também momentos de aparente desocultaçom de identidade religiosa dos quais se salienta a Primeira República portuguesa (1910).

Neste período, talvez, fruto do anti-clericalismo, os judeus gozaram dumha espécie de ambiente de renascimento do judaísmo na Beira que se traduziu, por exemplo, pola ascensom dalguns dos seus membros à Comissom Municipal Republicana Electiva de Belmonte.

Até a sua descoberta, por volta de 1910, esta comunidade acreditava serem os últimos judeus do mundo.

Reduzidos à Comunidade de Belmonte, e a algumhas famílias na regiom da Covilhã nos anos de 1910, som "descobertos" e tornados públicos polo Capitão de Barros Basto, ele próprio um marrano convertido, nos anos 1920. Até entom, esta comunidade acreditava ser os últimos judeus do mundo.

O medo enraizado acabou por ser paulatinamente vencido tendo para isso contribuído a presença de Samuel Schwarz. O seu estudo "Os Cristãos-Novos em Portugal no Século XX" acabou por contribuir significativamente para o início da desocultaçom religiosa permitindo conhecer, pola primeira vez, o modus vivendi desta comunidade criptojudaica, cuja sobrevivência se ficou a dever a estratégias como a ocultaçom da verdadeira identidade religiosa e a prática da endogamia como garante da sua continuidade.

A integraçom dos marranos de Belmonte e da Covilhã, e as suas relações com a Comunidade Israelita nom foram fáceis; e o processo de intregraçom das duas comunidades teria ainda um caminho longo a percorrer, até à abertura da Sinagoga.

Hoje, a Comunidade Judaica de Belmonte cuja constituiçom legal teve lugar em 1988, tem um Rabi para as cerimónias principais, Nova Sinagoga, inaugurada em 1996, Cemitério próprio, conta ainda com um Museu e viu o seu estatuto de criptojudeus reconhecido por Israel.

A Nova Sinagoga
A Sinagoga foi projetada polo arquiteto Neves Dias e tem o nome Bet Heliahu, homenageando o pai do judeu benfeitor que a mandou edificar.


As estrelas de David nos portões, os castiçais na porta e no gradeamento legendam e identificam este templo judaico. No exterior, descobrem-se pormenores interessantes como as várias canleiras que sobressaem das paredes recolhendo a água da chuva para o Mikvé (espécie de tanque interior onde se tomam os banhos de purificaçom).

Como todas as sinagogas encontra-se orientada para Jerusalém, obedecendo, no seu interior, à regra de separaçom entre homens e mulheres na sala de orações (a galeria destinada a estas situa-se no piso superior).

Entre os objetos de culto que se encontram no interior do templo contam-se a Tora (o Livro) guardado num armário fechado com uma cortina, o Kéter Tora (coroa), o Yad (indicador de leitura), cálices, castiçais, recipientes para as especiarias, etc.

As tradições judaicas incluem um calendário festivo bastante influenciado polo tempo e polos ciclos da Natureza. Os Sábados/Sabbat, por exemplo, som dias de renascimento espiritual e de festa que pontuam regularmente o tempo. Nesses dias celebra-se o sétimo e último dia da Criaçom e o fim da escravidom no Egito. Os judeus acendem as candeias, recitam orações sobre o vinho, cheiram as especiarias, comem o Chalá (pam confecionado sem objetos cortantes, muitas vezes com forma de trança).

Museu Judaico
O Museu permite saber mais sobre os hábitos e ritos dos judeus, nomeadamente no que se refere à alimentaçom, vestuário, profissões, utensílios e habitações. O lema aqui é estudar e recordar a História do Judaísmo em Portugal.


Sinais da presença judaica
Para além da Sinagoga, os sinais da presença desta comunidade judaica estám presentes na História e no Património da Vila Histórica de Belmonte. Na antiga Judiaria e na vila vários são os locais e testemunhos da sua história.

As Lajes da Lã e do Sebo, por exemplo, testemunham algumas atividades desenvolvidas por esta comunidade na Vila. A primeira situa-se na encosta do castelo e seria onde estendiam a lã que tratavam para vender. A segunda encontra-se no local da Antiga Judaria e o seu tom rosáceo reflete o seu uso uma vez que nela se faziam bolas de sebo para transacionar na regiom ou, mais recentemente, vender à Indústria.

Depois de visitar a Sinagoga continue pola Rua da Fonte da Rosa e observe mais à frente, do lado esquerdo, uma Casa de pedra em ruínas. Foque a sua atençom nas ombreiras das portas e descubra as duas cruzes incisas.

Mais à frente, numha espécie de largo, observe na descida, uma fonte de mergulho, a Fonte da Rosa.

Seguindo, de novo a Rua da Fonte da Rosa, poderá descobrir ainda várias casas com cruzes. A casa de pedra logo a seguir à fonte, à esquerda, é umha delas. Os números 20 e 12, desta rua, ostentam também cruzes visíveis. Esta última tem a data de 1764 gravada junto à cruz.

Outras casas som ainda sobejamente conhecidas pola ligaçom que tiveram e têm esta comunidade:
- O n.º 10 da Travessa da República que foi um dos locais onde funcionou a Sinagoga, antes da sua Construçom em 1996.
- O n.º 98 da Rua do Olival, local de reuniom de muitos membros da comunidade que apresenta ainda incrustado na parede o armário mais fotografado da vila, onde colocavam as candeias de Sábado.
- O n.º 18 da Rua do Inverno, onde sempre viveram membros da comunidade e onde se pode observar mais uma cruz.
- Os n.º 151 e 153 da Rua Pedro Álvares Cabral apresentam uma cruz gravada, uma porta mais larga e outra mais estreita, polo que se pensa ter pertencido a famílias de Cristãos-Novos.

Arquitetura popular
O modo de viver dos judeus refletiu-se na arquitectura das suas habitações, uma vez que estes eram artesãos e comerciantes. As suas casas apresentam, por isso, um piso inferior destinado à oficina ou loja, razom pola qual apresentam, por vezes duas portas. Diferem ligeiramente da arquitetura tradicional cristã na qual o piso inferior se destina ao gado e o superior à habitaçom, ao qual se acede por meio de escadas que compõem os famosos balcões ou varandas alpendradas que ainda se descobrem nesta regiom.

Onomástica
No que se refere à onomástica da comunidade judaica da vila, esta surge associada aos sobrenomes: Sousas, Dias, Henriques, Fernandes, Mendes, Diogo, Rodrigues.

Gastronomia
Quanto à gastronomia salienta-se que a dieta judaica nom inclui carne de porco, devendo ser uma alimentaçom Kasher (com princípios vários referentes à purificaçom dos alimentos, especialmente à presença de sangue na carne). O vinho é também fabricado de forma diferente. Recentemente a Adega Cooperativa da Covilhã lançou uma marca de vinho -Terras de Belmonte- que é produzido segundo os preceitos judaicos.

Os judeus, querendo cumprir o preceito dietético de não comer carne de porco corriam o risco de serem facilmente identificados pola Inquisiçom, por isso, criaram as alheiras secas também no fumeiro.

A alheira é um enchido que na sua origem era confecionado sem carne de porco. Durante séculos estes petiscos foram uma máscara para enganar os inquisidores, pois, como se sabe, a cozinha tradicional portuguesa é rica em enchidos feitos de carne de porco e a ausência de fumeiro numa habitaçom era estranhada.


Calendário Festivo-Rosh Hashaná (Início do Ano Judaico - Setembro/Outubro),
-Yom Kippur (Dia do Perdão - marca o final dos dez dias de penitência iniciados em Rosh Hashaná),
-Sukot (Festa das Cabanas),
-Hanuká (Festa das Luzes - Novembro/Dezembro),
-Pessah (Páscoa - Março/Abril),
-Purim de Ester (Festa da Rainha Ester),
-Sim'hath Tora (Alegria da Lei, aquando da conclusão anual da leitura da Tora - Setembro/Outubro),
-Tu Bishebat (Ano Novo das Árvores - Janeiro/Fevereiro)
-Shavuot (Festa das Colheitas - Maio/Junho)
-Tish'a Beab (Destruiçom do Templo - Julho/Agosto)

Confirma aqui mais informações sobre a Judiaria de Belmonte neste blogue.

Sem comentários:

Enviar um comentário