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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

ANTISSEMITISMO E NACIONAL-SOCIALISMO

Moishe Postone

Moishe Postone
Qual é a relaçom do antissemitismo com o nacional-socialismo (1)? O debate público deste problema na República Federal Alemã tem sido caracterizado por umha dicotomia entre liberais e conservadores, por um lado, e a Esquerda, polo outro. 

Os liberais e conservadores tendem a enfatizar a descontinuidade entre o passado nazista e o presente. Relativamente a esse passado eles focalizaram a sua atençom na perseguiçom e extermínio dos Judeus e tendem a negligenciar outros aspetos centrais do nazismo. Para remarcar umha suposta rutura total entre o Terceiro Reich e a República Federal, esta classe de ênfase no antissemitismo tem contribuido, paradoxalmente, para evitar um confronto fundamental com a realidade social e estrutural do nacional-socialismo. Com certeza, esta realidade nom sumiu certamente em 1945. A condenaçom do antissemitismo nazista, por outras palavras, também tem servido como umha ideologia de legitimaçom do sistema presente. Esta instrumentalizaçom apenas foi possível porque o antissemitismo foi tratado mormente como umha forma de preconceito, enquanto ideologia dum "bode expiatório", obscurecendo desse modo a relaçom intrínseca entre o antissemitismo e outros aspectos do nacional-socialismo. 

Por outro lado, a Esquerda tende a concentrar-se na funçom do nacional-socialismo para o capitalismo, enfatizando a destruiçom das organizações das classes trabalhadoras, as políticas sociais e económicas nazistas, o rearmamento, o expansionismo e os mecanismos burocráticos da dominaçom do partido e do estado. Os elementos de continuidade entre o Terceiro Reich e a República Federal foram realçados. O extermínio dos Judeus nom foi, é claro, ignorado. Todavia, foi rapidamente subordinado às categorias gerais do preconceito, discriminaçom e perseguiçom (2). Ao compreender o antissemitismo como um elemento periférico ao invés de central do nacional-socialismo, a esquerda ocultou também a relaçom intrínseca entre os dous. 

Estas posições entendem o antissemitismo moderno como um preconceito anti-judeu, como um exemplo particular do racismo em geral. A sua ênfase na natureza psicológica de massas do antissemitismo separa as considerações do Holocausto das investigações socioeconómicas e socio-históricas do nacional-socialismo. Porém, o Holocausto, nom pode ser entendido enquanto o antissemitismo for visto como um exemplo de racismo em geral e enquanto o nazismo for concebido apenas em termos do grande capital e dum estado burocrático policial e terrorista. Auschwitz, Belzec,  Chelmno, Maidanek, Sobibor e Treblinka nom devem ser tratados fora do quadro dumha análise do nacional-socialismo. Eles representam um dos seus fins lógicos, e nom apenas o seu mais terrivel epifenómeno. Nengumha análise do nacional-socialismo que nom seja capaz de explicar o extermínio da Judiaria europea será completamente adequado. 

(1) O autor agradece a Bárbara Brick, Dan Diner e Jeffrey Herf polos seus comentários a umha versom anterior deste ensaio.
(2) Na RDA todos os Judeus, independentemente dos seus antecedentes políticos, recebiam umha pensom do governo. Porém, nom é como Judeus que a recebiam, mas como "antifascistas".
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Este ensaio foi publicado por Moishe Postone em 1986 (em "Germans and Jews since the Holocaust: The Changing Situatin in West Germany", edições Holmes&Meier, pp. 302-314).

Pode-se acessar a este ensaio na sua versom original em inglês ou na sua traduçom para o francês. Também se pode aceder à versom em português (traduçom de Nuno Miguel Machado).


sábado, 27 de setembro de 2014

PROJETO DE LEI DO RETORNO DO PS PARA OS JUDEUS SEFARDITAS PORTUGUESES

A seguir reproduz-se, na íntegra, o projeto de alteraçom à lei da nacionalidade apresentado a 7 de março de 2013 polo Grupo parlamentar do Partido Socialista (PS) para conceder a naturalizaçom portuguesa aos descendentes de Judeus expulsos de Portugal, nos séculos XV e XVI, promover o seu retorno e reabilitar a sua imagem.

O projeto de alteraçom à Lei da Nacionalidade visa acrescentar um ponto ao artigo 6.º, no qual deverá constar que “o Governo pode conceder a nacionalidade por naturalização, com dispensa dos requisitos previstos (…) aos descendentes de judeus sefarditas portugueses, através da demonstração da tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa, com base em requisitos objectivos comprovados de ligação a Portugal, designadamente apelidos, idioma familiar, descendência directa ou colateral”.

No seu projeto, os socialistas recordam a “antiguidade” da presença no território peninsular – designado Sefarad – de Judeus que foram expulsos de Portugal depois de D. Manuel I ter assinado, em 1496 o “Decreto de Expulsão dos Hereges”.

No início do século XIX, regressaram a Portugal alguns judeus sefarditas originários de Marrocos e de Gibraltar, e instalaram-se numha comunidade em Lisboa que, durante a II Guerra Mundial, viria a dar um “apoio notável” aos “refugiados fugidos à barbárie hitleriana que daqui partiram para uma nova vida em novos lugares, nomeadamente para os Estados Unidos e Brasil”.

Também a partir da sinagoga do Porto, edificada pelo capitão Barros Basto, milhares de judeus conseguiram reconstruir a suas vidas com a ajuda da seçom que ficou conhecida como “Amparo dos Desterrados” e que forneceu os respectivos documentos de identificaçom ao Museu do Holocausto em Washington.


PROJECTO DE LEI N.º 373/XII/2ª
Quinta alteração à Lei n.º 37/81, de 3 de Outubro (Lei da Nacionalidade)


Exposição de motivos

Embora se desconheça em que época chegaram os primeiros judeus ao território que hoje se designa como Sefarad e constitui “grosso modo” a Península Ibérica, julga-se que a sua presença nesta região se relacione com o estabelecimento de feitorias fenícias ao longo da orla marítima. Existem, no entanto, em território português dois achados arqueológicos que atestam a antiguidade da sua presença. O primeiro é uma lápide funerária do séc. V existente no Museu Municipal de Mértola. O segundo é uma pedra de anel datada do séc. II encontrada na antiga cidade de Aramenha nos arredores de Marvão.

Durante toda a Idade Média estes mesmos judeus sefarditas desempenharam, em conjunto com os conquistadores árabes um papel cultural importantíssimo, promovendo entre outros factos a divulgação da filosofia e das culturas clássicas. Frequentemente, para além de se dedicarem fundamentalmente aos ofícios, os judeus peninsulares foram também “físicos” (médicos), filósofos, teólogos, astrónomos, cosmógrafos, poetas, escritores e comerciantes.

Já muito cedo, no alvorecer do Reino de Portugal, é um judeu de nome Iehudah ben Iaish ibn Iahia (ou Yahia ben Yahia) companheiro de Afonso Henriques na conquista de Santarém, Lisboa, Mértola e Alcácer do Sal (onde morreu em combate) que, como recompensa pelos serviços prestados, o nosso primeiro rei nomeia Mordomo Real, Cavaleiro-Mor, lhe concede o direito de uso de brazão, o nomeia primeiro grão Rabino de Portugal e o presenteia com vastas propriedades quer nos arrabaldes de Lisboa, quer na fronteira do Alentejo. 

No período que decorre entre os séculos IX e XVI, a Península Ibérica atinge em termos culturais um dos seus momentos áureos. Aqui têm o seu berço figuras como Shmuel ibn Negrela, Shlomo ibn Gabirol, Ibn Paquda, Moshe ibn Ezra, Yehuda Halevi, Avraham ibn Ezra, Moshe bem Maimon (Maimonides), Moshe bem Nachman (Nachmanides), Avraham Zacuto, Itzchak Abravanel, entre outros. Consequência de uma tão vasta e diversificada sabedoria é, sem dúvida, a criação da Escola de Tradutores de Toledo por Afonso X de Castela, avô de D. Diniz, a qual permitiu um renascimento filosófico, teológico e científico das culturas clássicas que, na época se repercutiu por toda a Europa.

Com alguma segurança é possível afirmar que neste período da primeira dinastia e parte da segunda, se consolidou a presença de judeus e da cultura judaica no território nacional. Através da sua poesia é possível acompanhar a evolução e a intensificação do amor dos judeus peninsulares por Sefarad. Não é, portanto, de estranhar que quando D. Manuel assinou o Decreto de Expulsão dos Hereges em 1496, os judeus portugueses tal como os espanhóis o tinham feito anteriormente em 1492 considerassem a expulsão de Espanha e Portugal como uma “segunda expulsão de Jerusalém”. 

Não há muitos anos, Sam Levy, figura notável da Comunidade Israelita de Lisboa, historiador, colecionador (grande parte do seu espólio museológico foi doado ao Museu Nacional de Arqueologia), comerciante e grande amigo de Portugal, natural de Esmirna na actual Turquia, possuía na sua magnífica colecção uma chave de ferro que afirmava ser a chave da porta da casa dos seus antepassados em Portugal antes da expulsão dos judeus. Este facto não é raro entre os judeus sefarditas de origem portuguesa que procuraram refúgio e se estabeleceram naquela região quando da sua expulsão de Portugal. 

Por outro lado, estes descendentes de judeus portugueses mantém viva uma língua, o ladino (“El djudeo-espanyol, djidio, djudezmo o ladino es la lingua favlada por los sefardim, djudios arrondjados de la Espanya en el 1492 i de Portugal en 1496. Es una lingua derivada del kastilyano i del portugues i favlada por 150.000 personas en komunitas en Israel, la Turkiya, antika Yugoslavia, la Gresia, el Marroko i las Amerikas, entre munchos otros”) que, como acima ficou bem expresso nessa mesma língua: o judeu-espanhol, o “djidio”, “judezmo” ou ladino é a língua falada pelos sefarditas, judeus expulsos de Espanha em 1492 e de Portugal em 1496. É uma língua derivada do castelhano e do português e falada por 150.000 pessoas em comunidades em Israel, Turquia, antiga Jugoslávia, Grécia, Marrocos e nas Américas entre muitos outros locais.

Com a “conversão em pé”, denominação pela qual ficou conhecida a conversão forçada dos judeus decretada por D. Manuel em 1497, deixaram de existir oficialmente judeus em Portugal, apenas cristãos-velhos e cristãos-novos. Esta nova nomenclatura de cristãos-novos escondia, ainda que oficializasse, o desejo do desmembramento da cultura judaica no Reino, assim como proporcionava a apropriação, pelo clero e pela nobreza, dos seus bens móveis e imóveis.

Tal situação agravou-se com a “matança dos judeus de Lisboa” em 1506 e posteriormente com a introdução da Inquisição em Portugal.

Instituída definitivamente de Évora em 1536 pela Bula “Cum ad nihil magis” de Paulo III, a Inquisição em Portugal perseguiu ferozmente os então considerados hereges, nomeadamente os cristãos-novos de origem judia, por razões que se devem, não só à divergência de motivos religiosos, mas fundamentalmente e até onde pudemos apreciar, ao desejo de se apoderar do seu espólio e da sua capacidade económica e financeira.

A perniciosa actividade inquisitorial foi anulada com o Alvará de 2 de Maio de 1768, do Marquês de Pombal, promulgado por D. José, que punha fim aos “Rois de Fintas” confirmando no seu preâmbulo: “…Sendo o sangue dos Hebreus o mesmo idêntico sangue dos Apóstolos, dos Diáconos, dos Presbíteros e dos Bispos por eles ordenados e consagrados. (…) Não pude deixar de fazer as assíduas indagações para investigar e descobrir a causa com que nos meus Reinos e Domínios se introduziu e fez grafar a dita distinção de Cristãos Novos e Cristãos Velhos (…), que por aquele longo período de tempo tem infamado e oprimido um tão grande número dos Meus fiéis Vassalos.” E relembra algumas Bulas, nomeadamente de Bonifácio IX e Clemente VI: “(…) Que nenhum Cristão violentasse os Judeus a receberem o Baptismo; Que lhes não impedissem as suas festas e solenidades; Que lhes não violassem os seus cemitérios; E que se lhes não impusessem tributos diferentes e maiores daqueles que pagassem os Cristãos das respectivas províncias”. E conclui o Alvará de D. José: “Mando que todos os Alvarás, Cartas, Ordens e mais Disposições, maquinadas e introduzidas para separar, desunir e armar os Estados e Vassalos destes Reinos uns contra os outros em sucessivas e perpétuas discórdias, com o pernicioso fomento da sobredita distinção entre Cristãos Novos e Cristãos Velhos, fiquem desde a publicação desta abolidos e extintos, como se nunca tivessem existido e que os registos deles sejam trancados, cancelados e riscados em forma que mais não possam ler-se; para que assim fique inteiramente abolida até a memória deste atentado cometido contra o Espírito e Cânones da Igreja Universal, de todas as Igrejas Particulares e contra as Leis e louváveis costumes destes Meus Reinos, oprimidos com tantos, tão funestos e tão deploráveis estragos por mais de Século e meio, pelas sobreditas maquinações maliciosas.”

Ironicamente este Alvará trouxe, “a posteriori”, aos cripto-judeus portugueses um grave problema de identificação dos seus ascendentes anteriores ao Marquês de Pombal. Situação criada pela destruição de todos os registos dos cristãos novos é de tal forma grave que, apenas esporadicamente, a genealogia consegue articular factos anteriores com os posteriores àquela data e, quase sempre, por via indirecta.

No entanto, a Inquisição em Portugal só foi extinta formalmente com o advento do Liberalismo, após o pronunciamento de 24 de Agosto de 1820, por votação unânime nas Cortes Constitucionais da proposta apresentada pelo Deputado Francisco Simões Margiochi na sessão de 31 de Março de 1821.

Durante o período inquisitorial, os cristãos-novos e os judeus portugueses que conseguiram escapar à sua rede e sair do Reino, fizeram-no para algumas regiões do Mediterrâneo (Gibraltar, Marrocos, Sul de França, Itália, Croácia, Grécia, Turquia, Síria, Líbano, Israel, Jordânia, Egipto, Líbia, Tunísia e Argélia), norte da Europa (Londres, Nantes, Paris, Antuérpia, Bruxelas, Roterdão, Amsterdão), Brasil, Antilhas e Estados Unidos da América entre outras.

No início do século XIX, começaram a regressar a Portugal alguns judeus sefarditas originários de Marrocos e Gibraltar e em 1801 cria-se o primeiro cemitério judeu moderno junto ao cemitério inglês em Lisboa. Porém, só em 1868, um Alvará de D. Luís concede aos “judeus de Lisboa a permissão de instalar um cemitério para a inumação dos seus correligionários”, o actual cemitério da Rua D. Afonso III, em Lisboa. 

Contudo a instalação da Comunidade vai-se efectuando muito lentamente pelo que, só em 1897 se elege o primeiro Comité Israelita de Lisboa e uma comissão que tem em vista a edificação de uma Sinagoga em Lisboa, a actual Sinagoga “Shaarei Tikva” (Portas da Esperança), junto ao Largo do Rato.  

É com a implantação da República que por despacho de um Alvará do Governo Civil de Lisboa, de 9 de Maio de 1912, a comunidade judaica passa a ser reconhecida legalmente em Portugal.

Porém, ao longo de todo o século XX, apesar da magnitude dos seus problemas e das perseguições anti-semitas muito frequentes em todo o mundo, em Portugal vai-se consolidando a estabilidade da comunidade israelita. Durante a Guerra de 1939-45, foi notável o apoio dado pela comunidade de Lisboa aos refugiados fugidos à barbárie hitleriana que daqui partiram para uma nova vida em novos lugares, nomeadamente para os Estados Unidos e Brasil. Por essa razão, com alguma frequência, a Sinagoga Shaarei Tikva é visitada por familiares e descendentes desses refugiados que por aqui passaram com o intuito de agradecer, de alguma forma, o apoio recebido.

Neste largo período de dois séculos que medeia entre os alvores de oitocentos e a actualidade, alguns descendentes de judeus portugueses fugidos das perseguições inquisitoriais, regressaram a Portugal, aqui se instalaram e criaram novos laços familiares, intelectuais, culturais, políticos, profissionais e comerciais. No entanto, os seus antepassados tinham criado algumas comunidades de grande renome, nas terras por onde tinham passado ou estabelecido fugindo da ignomínia do Tribunal da Inquisição e dos seus sequazes, e fundado sinagogas notabilíssimas tais como a Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, a Sinagoga Shearith Israel de Nova York, a Sinagoga Bevis Marks de Londres, a Sinagoga de Touro em Newport (Rhode Island – USA), a Sinagoga Portuguesa de Montreal, a Sinagoga Tzur Israel em Recife, entre outras.

Por outro lado, no primeiro quartel do século XX, Samuel Schwarz desvenda ao mundo a existência de uma comunidade judia escondida nas faldas da Serra da Estrela em Belmonte. Graças ao isolamento da vila e a uma certa cumplicidade dos seus habitantes, foi ainda possível observar que um grupo muito restrito de pessoas mantinha, em segredo, algumas tradições de um longínquo passado judeu. Este facto, para além de ter criado um pólo de referência fortíssimo para a diáspora judaica, desencadeou novas pesquisas e estimulou o espírito incansável e empreendedor de um militar, o Capitão Barros Basto (reabilitado unanimemente pela 1ª Comissão da Assembleia da República Portuguesa em 29 de Fevereiro de 2012) a criar estruturas de suporte à reabilitação de outros cripto-judeus existentes em Portugal. A Assembleia da República na sua Resolução nº 119/2012 de 10 de Agosto recomendou ao Governo que “proceda à reabilitação e reintegração no Exército do capitão de infantaria Artur Carlos Barros Basto, que foi alvo de segregação político-religiosa no ano de 1937”.

Na sequência de muitos estudos e trabalhos elaborados por alguns dos nossos mais notáveis historiadores descobrem-se, ainda no século XX, algumas outras comunidades que vivendo semi-isoladas mantém a convicção da sua ascendência judia, nomeadamente nas regiões fronteiriças da Beira interior e Trás-os-Montes.

O apogeu dos judeus sefarditas portugueses verificou-se em 1989, em Castelo de Vide, quando o então Presidente da República, Dr. Mário Soares apresentou publicamente o seu pedido de desculpas, em nome do Estado português, aos descendentes dos judeus perseguidos pela Inquisição pelos danos então causados, reabilitando assim a sua imagem e condição social.

De igual modo foi da maior importância para os judeus sefarditas ibéricos a “Sessão Evocativa dos 500 anos do Decreto de Expulsão dos Judeus de Portugal” promovida pela Assembleia da República, em Dezembro de 1996, na qual foi votada, por unanimidade, a revogação do Decreto de D. Manuel, numa sessão carregada de simbolismo e emoção. Este acto de homenagem à capacidade de resistência, perseverança, luta, fé e esperança do povo judeu, foi, também, patrocinado pelo Presidente da República, o Dr. Jorge Sampaio.

Como corolário deste percurso de reabilitação de uma imagem e uma cultura fortes quase destruídas pela Inquisição portuguesa com a conivência da coroa, faz todo o sentido promover o retorno dos descendentes dos judeus expulsos ou dos que fugiram do terror da Inquisição ao seio do seu povo e da sua nação portuguesa. Mas faz também todo o sentido que seja aos descendentes judeus de sefarditas portugueses que demonstrem objectivamente a tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa possibilitada a aquisição da nacionalidade portuguesa por naturalização.

Este é o objecto do presente Projecto de Lei:

Artigo 1.º
Alteração à Lei n.º 37/81, de 3 de Outubro

O artigo 6.º da Lei n.º 37/81, de 3 de Outubro, alterada pela Lei n.º 25/94, de 19 de Agosto, pelo Decreto-Lei n.º 322-A/2001, de 14 de Dezembro, na redacção dada pelo Decreto-Lei n.º 194/2003, de 23 de Agosto, pela Lei Orgânica n.º 1/2004, de 15 de Janeiro, e pela Lei Orgânica n.º 2/2006, de 17 de Abril, passa a ter a seguinte redacção:


«Artigo 6.º
[…]
1- […]
2- […]
3- […]
4- […]
5- […]
6- […]
7- O Governo pode conceder a nacionalidade por naturalização, com dispensa dos requisitos previstos nas alíneas b) e c) do n.º 1, aos descendentes de judeus sefarditas portugueses, através da demonstração da tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa, com base em requisitos objectivos comprovados de ligação a Portugal, designadamente apelidos, idioma familiar, descendência directa ou colateral.»

Artigo 2.º
Regulamentação
O Governo procede às necessárias alterações do Regulamento da Nacionalidade Portuguesa, aprovado pelo Decreto-Lei n.º237-A/2006, de 14 de Dezembro, no prazo de 30 dias a contar da publicação da presente lei.


Artigo 3.º
Entrada em vigor
A presente lei entra em vigor na data de início de vigência do diploma referido no artigo anterior.




Assembleia da República, 7 de Março de 2013

Os Deputados,

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

SIONISMO, ANTISSEMITISMO E A ESQUERDA

Moishe Postone é um académico marxista radicado na Universidade de Chicago. Para além de escrever abundantemente acerca da crítica da economía política de Marx, tem sido fundamental no desenvolvimento de teorias sobre o "antissemitismo de esquerda", analisando a forma como posições assumidas por grupos de esquerda, particularmente no que se refere ao conflito Israel/Palestina, podem tornar-se ou ser baseadas, numha hostilidade para com os Judeus. Martin Thomas falou com ele.
Q. Para muitas pessoas na esquerda de hoje, o antissemitismo parece ser apenas mais outra forma de racismo, indesejável mas por enquanto francamente marginal, e que é proeminente nas discussões apenas porque o governo israelita utiliza as acusações de antissemitismo para defletir as críticas que enfrenta. O senhor argumenta, contudo, que o antissemitismo é diferente das outras formas de racismo, e que o mesmo nom é marginal hoje em dia. Porque?
Moishe Postone: É verdade que o governo israelita utiliza as acusações de antissemitismo para se proteger das críticas. Mas isso nom significa que o próprio antissemitismo nom seja um problema sério.
A forma como o antissemitismo se distingue, e deve ser distinguido, do racismo, está ligada ao tipo e poder imaginário, atribuído aos Judeus, ao sionismo e a Israel, que está no âmago do antissemitismo. Os Judeus som vistos como constituindo umha forma global de poder imensamente poderosa, abstrata e intangível que domina o mundo. Nom existe nada semelhante a esta ideia no cerne das outras formas de racismo. O racismo, por aquilo que conheço, raramente constitui um sistema integral que procura explicar o mundo. O antissemitismo é umha crítica primitiva do mundo, da modernidade capitalista. A razom porque o considero particularmente perigoso para a esquerda é precisamente porque o antissemitismo possui umha dimensom pseudo-emancipatória que as outras formas de racismo raramente apresentam.
P. Em que medida considera que o antissemitismo de hoje está ligado com atitudes face Israel? Parece-nos que umha corrente na atitude de algumhas forças da esquerda em relaçom a Israel tem implicações antissemitas. Essa é a corrente que deseja nom apenas criticar e mudar a política israelita face os palestinianos, mas a aboliçom de Israel enquanto tal, e um mundo onde os outros estados-naçom possam existir, mas nom Israel. Deste ponto de vista, ser um judeu, sentir qualquer identidade comum com outros Judeus e, portanto, com os Judeus de Israel, significa ser "sionista", algo que será tam aberrante como ser um racista.
R. É preciso desagregar muita cousa neste âmbito. Existe umha espécie de convergência fatal dum número de correntes históricas na forma contemporânea de antissionismo.
Umha, cujas origens nom som necessariamente antissemitas, tem as suas raízes nas lutas entre membros da intelligentsia judaica na Europa do Leste no início do século XX. Umha maioria de intelectuais judaicos, incluindo intelectuais secularizados, sentiam que algumha forma de identidade colectiva fazia parte da experiência judaica. Esta identidade tornou-se crescentemente definida como nacional, em virtude do colapso das anteriores formas imperiais de coletividade; isto é, a medida que os impérios antigos, os impérios dos Habsburgo, Romanov e Prússia se desmembravam. Os Judeus na Europa do Leste, ao contrário dos Judeus na Europa Ocidental, viam-se a si mesmos como umha coletividade, e nom simplesmente como umha religiom.
Existiam várias formas desta auto-expressom nacional judaica. O sionismo foi umha delas. Havia outras, como os autonomistas culturais judaicos e o Bund, um movimento socialista autónomo dos trabalhadores judeus, muito maior do que quaisquer outro movimento e que saiu Partido Operário Social-Democrata Russo nos primeiros anos do século XX.
Por outro lado, havia Judeus, muitos deles membros de Partidos Comunistas, que viam qualquer expressom da identidade judaica como um anatema para as suas noções do que eu chamaria noções iluministas abstratas de humanidade. Por exemplo, Trotsky, numha fase inicial, referiria-se ao Bund como "sionistas enjoados". Note-se que a crítica do sionismo aqui nada tinha a ver com a Palestina ou a situaçom dos Palestinianos, umha vez que o Bund se focava na autonomia no Império russo e rejeitava o sionismo. Ao invés, a equaçom de Trostky do Bund e o sionismo implicava a rejeiçom de qualquer forma de autoidentificaçom comunitária judia. Trotsky, acho, mudou de opiniom posteriormente, mas essa atitude era francamente típica. As organizações comunistas tendiam a se opor fortemente ao nacionalismo judeu, quer se tratasse do nacionalismo cultural, nacionalismo político ou sionismo. Esta é umha das correntes do antissionismo. Nom é necessariamente antissemita, mas rejeita a autoidentificaçom coletiva judia em nome dum universalismo abstracto.
Todavia, frequentemente, esta forma de antissionismo é inconsistente, pois visa conceder a autodeterminaçom nacional à maioria de povos, salvo aos Judeus. É neste ponto que aquilo que se apresenta como universalismo abstrato torna-se ideológico. Para além disso, o próprio significado desse universalismo muda com o contexto histórico. Após o Holocausto e o estabelecimento do Estado de Israel, este universalismo abstrato serve para velar a história dos Judeus na Europa. Isto cumpre umha dupla funçom "purificadora": a violência historicamente perpetrada polos Europeus sobre os Judeus é apagada; ao mesmo tempo, os horrores do colonialismo europeu agora som atribuídos aos Judeus. Neste caso, o universalismo abstrato expressado por muitos antissionistas hoje torna-se numha ideologia de legitimaçom que ajuda a constituir umha espécie de anésia relativamente à longa história de ações, políticas e ideologias europeias face os Judeus, enquanto essa história, no essencial, continua. Os Judeus, mais umha vez, tornaram-se no objeto singular da indignaçom europeia. A solidariedade que a maioria de Judeus sentem em relaçom a outros Judeus, incluindo em Israel, compreensível depois do Holocausto, é agora criticada. Esta sorte de antissionismo tornou-se numha das bases para um programa com vista a erradicar a autodeterminaçom judia existente. Converge com algumhas formas de nacionalismo árabe, agora codificada como singularmente progressista.
Outra corrente da esquerda antissemita, esta vez fondamente antissemita, foi introduzida pola Uniom Soviética, particularmente nos julgamentos fantoche na Europa Oriental após a Segunda Guerra mundial. Isto foi particularmente dramático no caso do julgamento de Slansky, quando a maioria dos membros do Comité Central do Partido Comunista Checoslovaco foram julgados e depois fuzilados. Todos os cargos contra eles eram cargos antissemitas: eles careciam de raízes, eram cosmopolitas e faziam parte dumha conspiraçom global geral. Já que a Uniom Soviética nom podia oficialmente usar a linguagem do antissemitismo, a palavra "sionista" começou a ser utilizada com o mesmo significado ao do "judeu" utilizado polos antissemitas. Esses líderes do PC Checoslovaco, que nada tinham a ver com o sionismo, pois a maioria deles eram veteranos da Guerra Civil espanhola, foram afuzilados como sionistas.
Esta corrente de antissionismo antissemita foi importada para o Próximo Oriente durante a Guerra Fria, em parte polos serviços de inteligência de países como a Alemanha Oriental. Foi introduzida umha forma de antissemitismo que era considerada "legítima" pola esquerda, e designada por antissionismo.
As suas origens nada têm a ver com o movimento contra o estabelecimento de Israel. Com certeza, a populaçom árabe da Palestina reagiu negativamente e resistiu à imigraçom judia. Isto é bastante compreensível e, em si mesmo, nom é certamente antissemita. Mas estas correntes de antissionismo convergeram historicamente.

Em relaçom à terceira corrente, houve umha mudança nos últimos dez anos, começando polo próprio movimento palestiniano, relativamente à existência de Israel. Durante anos, a maioria de organizações palestinianas rejeitaram aceitar a existência de Israel. Porém, em 1988 a OLP decidiu que iria aceitar a existência de Israel. A segunda intifada, que começou em 2000, foi politicamente muito diferente da primeira, e implicou umha reversom dessa decisom.

Considero que esse foi um erro político fundamental, e acho que é extraordinário e lamentável que a esquerda tenha sido apanhada pola onda e esteja, a cada vez mais, a exigir a aboliçom de Israel. Porém, hoje no Próximo Oriente há quase tantos Judeus quanto Palestinianos. Qualquer estratégia baseada em analogias a situações como a Argélia ou a África do Sul simplesmente nom funciona, tanto a nível demográfico como a nível político e histórico.

Porque é que as pessoas nom conseguem apreender a situaçom tal como ela é atualmente, e tentam descobrir se existe algum tipo de resoluçom para aquilo que é essencialmente um conflito nacional que poderia libertar umha política progressista? Subordinar o conflito à categoria de colonialismo é desconhecer a situaçom. Ao contrário daqueles que limitaram a política progressista a umha luta nacional, eu penso que enquanto a luta estiver centrada na existência de Israel e na existência da Palestina, as lutas progressistas permanecem indeterminadas. As pessoas que consideram a luta contra a existência de Israel progressista estám a aceitar algo reacionário.

Na última década tem havido umha campanha concertada por parte dalguns Palestinianos, e conduzida no Ocidente pola esquerda, no sentido de colocar a existência de Israel novamente em cima da mesa. Entre outras cousas, isto tem como efeito o fortalecimento da direita em Israel.

Entre 1967 e 2000 a esquerda em Israel argumentou sempre que os palestinianos queriam a autodeterminaçom e que a noçom propagada pola direita de que eles pretendiam erradicar Israel era umha fantasia. Infelizmente, essa fantasia revelou no ano 2000 nom ser umha fantasia de todo, o que fortaleceu incomparavelmente a direita nas suas tentativas de impedir a criaçom dum Estado palestiniano. A direita israelita e a direita palestiniana estám a reforçar-se mutuamente, e a esquerda ocidental está apoiar aquilo que considero ser a direita palestiniana, os ultranacionalistas e os islamistas.

A ideia de que a cada naçom, excetuando os Judeus, deve ser permitida a autodeterminaçom conduz-nos de volta à Uniom Soviética. Basta apenas ler Estaline acerca da questom das nacionalidades.

P. Outra cousa invulgar nalgumhas atitudes atuais das correntes de esquerda em relaçom a Israel é a sua projeçom sobre Israel dum poder enorme e misterioso. Por exemplo, é frequentemente assumido como axiomático que Israel é a potência dominante do Próximo Oriente, e é igualmente argumentado que Israel possui um enorme poder nas camadas dirigentes dos EUA e do Reino Unido.
R. Israel é de longe ser tam forte como assumido. Porém, existe gente como o meu presente e antigos colegas na Universidade de Chicaco, John Mearsheimer e Stephen Walt, fortemente apoiados por círculos britânicos, que defendem que o único elemento que dirige a política americana no Próximo Oriente é Israel, medida polo lobby judeu. Eles realizam esta afirmaçom veemente na ausência de qualquer tentativa séria de analiar a política americana no Próximo Oriente desde 1945, que seguramente nom pode ser adequadamente compreendida estando assente em Israel. Assim sendo, por exemplo, eles ignoram completamente a política americana relativamente ao Irám nos últimos 75 anos. Os alicerces reais da política americana no Próximo Oriente após a Segunda Guerra mundial foram a Arábia Saudita e o Irám. Isto mudou nas últimas décadas, e os americanos nom têm a certeza hoje em dia acerca de como lider com isso e assegurar o Golfo para a prossecuçom dos seus objetivos. Todavia, há um livro escrito por esses dous académicos mencionados que alega que a política americana no Próximo Oriente foi conduzida mormente polo lobby judeu, sem se preocuparem em analisar seriamente as políticas das grandes potências em relaçom ao Próximo Oriente no século XX.

Já sustentei noutro lugar que este tipo de argumentaçom é antissemita. Isto nom tem nada a ver com as atitudes pessoais do povo envolvido, mas a sorte de enorme poder global atribuido aos Judeus (como, neste caso, o de manipularem ocultadamente o gigate, bondoso e ingénuo Tio Sam) é típico do pensamento antissemita moderno.

Dum modo mais geral, essa ideologia representa aquilo que eu chamo de forma fetichizada de anticapitalismo. Isto é, o poder misterioso do capital, que é intangível, global e que desestabiliza nações, regiões e a vida das pessoas, é atribuído os Judeus. O domínio abstrato do capitalismo é personificado no judeu. O antissemitismo é umha revolta contra o capital global, falsamente entendido como os Judeus. Esta abordagem pode também ajudar a explicar o crescimento do antissemitismo no Próximo Oriente nas últimas duas décadas. Nom penso que mencionar apenas o sofrimento dos Palestinianos seja umha explicaçom suficiente. Economicamente, o Próximo Oriente tem declinado significativamente nas últimas três décadas. Apenas a África Subsariana se encontra em piores condições. E isto ocorreu num momento em que os outros países e regiões, tidos como parte integrante do Terceiro Mundo há cinquenta anos, se desenvolveram rapidamente. Penso que o antissemitismo no Próximo Oriente, hoje em dia, é umha expressom nom apenas do conflito israelo-palestiniano, mas também dum sentimento geral de impotência exacerbado à luz destes desenvolvimentos globais.

Na direita alemã de há cem anos, a dominaçom global do capital costumava ser considerada como dos Judeus e da Grã Bretanha. Hoje em dia a Esquerda encara esse domínio como o de Israel e os EUA. O padrom de pensamento é o mesmo. Temos agora umha forma de antissemitismo que parece ser progressista e "anti-imperialista"; o que constitui um verdadeiro perigo para a esquerda.


O racismo raramente constitui um  perigo para a esquerda. A esquerda tem de ter cuidado para nom se tornar racista, mas isso nom é um perigo permanente porque o racismo nom possui a dimensom aparentemente emancipadora do antissemitismo.

P. A identificaçom do poder capitalista global com os Jueus e o Reino Unido remonta a umha época anterior aos nazis, as seções da esquerda britânica durante a Guerra dos Bóeres, condenada como sendo umha "guerra judaica", e ao movimento populista nos EUA, no final do século XIx.
R. Sim, e está a voltar nos EUA atualmente. Os chamados "tea parties", a denominada fúria popular (grass-roots) de direita acerca da crise financeira, possui traços marcadamente antissemitas.
P. O senhor defende que a URSS e os sistemas similares nom eram formas de emancipaçom do capitalismo, mas formas de capitalismo de Estado. Assim, a atitude geral da esquerda ao colocar-se do lado da URSS, por vezes dum modo bastante crítico, contra os EUA foi autodestrutiva. O senhor tem realçado a analogia entre o tipo de anti-imperialismo que se coloca do lado do Islám político, enquanto contrapoder dos EUA, e a velha Guerra Fria. Quais som as características comuns entre estas duas polarizações políticas? E as diferenças?
R. As diferenças som que a forma anterior de antiamericanismo estava ligada à promoçom das revoluções comunistas no Vietname, em Cuba,... O que quer que pensássemos disso na altura, ou como o encaremos retrospetivamente, a sua própria autocompreensom era a de que promovia um projeto emancipador. Os EUA eram severamente criticados nom apenas por serem umha grande potência, mas também porque estavam a impedir a emergência dumha ordem social mais progressista. Essa era a autocompreensom de muitos dos que solidarizavam com o Vietname ou com Cuba.

Hoje em dia, duvido que mesmo as pessoas que proclamavam "somos todos Hezbollah" ou "somos todos Hamas" acreditem que esses movimentos representam umha ordem social emancipadora. No melhor dos casos está envolvida umha reificaçom orientalista dos Árabes e/ou Muçulmanos enquanto Outro, mediante a qual o Outro, desta vez, é afirmado. Trata-se doutra indicaçom do sentimento histórico de impotência por parte da esquerda, da incapacidade para desenvolver um imaginário acerca de como poderia ser um futuro pós-capitalista. Nom possuindo qualquer visom dum futuro pós-capitalista, muitos substituíram qualquer conceçom de transformaçom por umha noçom reificada de "resistência". Qualquer cousa que "resista" aos EUA é encarada positivamente. Considero esta forma de pensamento extremamente questionável.

Mesmo no período anterior, quando predominava a solidariedade com o Vietname, Cuba,..., penso que a divisom do globo em dous campos teve consequências bastante negativas para a esquerda. A esquerda encontrou-se frequentemente numha posiçom em que era o espelho dos nacionalistas ocidentais.

Muitos elementos de esquerda tornaram-se nacionalistas do outro lado. A maior parte deles, com algumhas exceções significativas, era extremamente apologética do que se estava a passar nos países comunistas. O seu olhar crítico estava distorcido. Em vez de desenvolver umha forma de internacionalismo que fosse crítico de todas as relações existentes, a esquerda tornou-se apoiante dum dos lados numha outra versom do Grande Jogo.

Isto teve efeitos desastrosos nas faculdades críticas da esquerda, e nom apenas no caso dos comunistas. É absurdo que Michel Foucault tenha ido ao Irám e considerado a revoluçom dos mullahs como possuidora de aspectos progressistas.

Umha cousa que tornou a divisom em dous campos sedutora foi o  facto dos comunistas ocidentais tenderem a ser pessoas bastante progressistas, pessoas muito corajosas, frequentemente, que sofriam em virtude das suas tentativas, no seu próprio entendimento, de criar umha sociedade mais humana e progressista, e talvez mesmo umha sociedade socialista. Essas pessoas foram completamente instrumentalizadas; mas, por causa do duplo carácter do comunismo, era muito difícil para algumhas pessoas constatar isso. Os segmentos da esquerda social-democrata que se opunham a esses comunistas, e viam como eles eram manipulados, tornaram-se eles mesmos ideólogos do liberalismo  durante a Guerra Fria.

Julgo que a esquerda nom deveria ter apoiado nengum dos dous lados da divisom. Mas penso igualmente que a situaçom da esquerda é pior hoje em dia.

Entrevista original: "Zionism, anti-semitism and the left", in Solidarity, Vol. 3, Nº 166, fevereiro 2010, PP. 21-22.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

SOBRE O ANTISSIONISMO ANTISSEMITA DOS ANTI-IMPERIALISTAS

Moishe Postone

UM OUTRO OUTONO ALEMÃO. PARA A MANIFESTAÇOM CONTRA O ANTISSEMITISMO EM HAMBURGO A 13 DE DEZEMBRO DE 2009


Várias dezenas de grupos alemãos aderiram ao apelo de condena dos atos antissemitas feitos por uns grupos de esquerda durante a projeçom em Hamburgo no passado 25 de outubro de 2009 do filme de Claude Lanzmann "Pourquoi Israel": Parar os agressores antissemitas, mesmo os de esquerda! Umha manifestaçom a 13 de dezembro contra estes atos antissemitas teve lugar em Hamburgo.

MOISHE POSTONE
Eu acho que é politicamente importante que o máximo número de pessoas na esquerda leve a sério as expressões de antissemitismo que mostram os grupos que se consideram de anti-imperialistas. Talvez isto possa também levar para um longo e seródio esclarecimento teórico. A questom nom é que se possa ou nom criticar as políticas israelitas. As políticas israelitas deveriam ser criticadas, particularmete aquelas que visam atrancar qualquer possibilidade de criar um Estado palestiniano viável na Cisjordânia e em Gaza. Porém, a crítica do "sionismo" espalhada em muitos círculos anti-imperialistas vai além dumha crítica das políticas israelitas. Esta atribui a Israel e aos "sionistas" umha maldade única e um poder global conspirador. Israel nom é criticado como outros países som criticados, mas como a corporificaçom do que é profundamente e fundamentalmente o mal. Assim sendo, a representaçom de Israel e dos "sionistas" para esta forma de "anti-imperialismo", de "antissionismo", é essencialmente a mesma que a dos Judeus no antissemitismo virulento que encontrou a expressom mais dura no nazismo. Nos dous casos, "a soluçom" é a mesma: a eliminaçom no nome da emancipaçom.

A representaçom convencional estalinista e social-democrata do nazismo e do fascismo como simples ferramentas da classe capitalista, utilizada para quebrar as organizações operárias, omitia sempre umha das suas dimensões centrais: estes movimentos em termos de autocompreensom deles próprios e o seu apelo às massas, eram as revoltas. O nazismo apresentou-se como umha luta pola libertaçom (e apoiou movimentos "anti-imperialistas" no mundo árabe e na Índia). O fundamento desta autocompreensom era umha compreensom fetichizada do capitalismo: a dominaçom abstracta, intangível, global do capital foi entendida como a dominaçom abstracta, global, intangível dos Judeus. Longe de ser simplesmente um ataque contra umha minoria, o antissemitismo dos nazistas é concebido como anti-hegemónico. O seu fim era libertar a humanidade da dominaçom omnipresente e desapiedada dos Judeus. É do facto do seu carácter anti-hegemónico que o antissemitismo coloca um problema particular para a Esquerda. É a razom pola qual há um século o antissemitismo podia ser caracterizado como "o socialismo dos imbécis". Hoje pode ser caracterizado como o "anti-imperialismo dos imbécis".

Infelizmente esta forma antissemita de "antissionismo" nom é nova. Acha-se no centro dos processos espetaculares estalinistas do início dos anos 1930, particularmente na Checoslováquia, quando os Comunistas internacionalitas que amiúde eram os Judeus, foram acusados de "agentes sionistas" e executados por isso. Esta forma codificada de antissemitismo, cujas origens nom têm qualquer relaçom com as lutas do Próximo Oriente, foi entom para lá transportada pola Uniom Soviética e os seus aliados durante a Guerra Fria, particularmente polos serviços secretos da RDA que travalhavam com os seus clientes Ocidentais e do Próximo Oriente (por exemplo, a RDA e os grupos palestinianos "radicais" diversos).

Esta forma de antissionismo "esquerdista" convergeu com o nacionalismo árabe radical e o islamismo radical, que nom é mais progressista do que qualquer umha outra forma de nacionalismo radical, como o nacionalismo radical albanês ou croata, e para que a impulsom eliminadora face os Judeus de Israel se justifique como dirigida contra os colonizadores "europeus". Cada vez que a impulsom eliminadora face os Judeus de Israel for mais forte, a legitimidade de Israel é posta em causa, com argumentos que vam da afirmaçom de que a maior parte dos Judeus europeus nom som biologicamente do Próximo Oriente (umha afirmaçom feita em 1947 polo Alto Comité Árabe e agora retomada como umha "nova descoberta" por Shlomo Sand) à ideia de que eles simplesmente som colonizadores europeus que, como o "pied noir", deveriam ser reencaminhados para casa. É mágoa e surpreendente que estes nacionalistas radicais no Próximo Oriente vejam a situaçom nestes termos. No entanto, isto torna-se perverso quando os Europeus, mormente os Alemãos, identificam os Judeus, o grupo mais perseguido e massacrado polos Europeus durante um milênio, com esses europeus. Ao identificar os Judeus com o seu próprio passado assassino, estes Europeus podem esquivar o tratamento desta pesada carga. O resultado é um discurso que pretende combater o passado, mas que na realidade o continua e prolonga. Esta forma de antissionismo faz parte dumha campanha que ganha em força desde o início da Segunda Intifada, para eliminar Israel. O seu posicionamento sobre a fraqueza dos Palestinianos cobre esta intençom suprema. Esta forma de antissionismo faz parte do problema e nom dumha parte da soluçom. Longe de ser progressista, alia-se com os nacionalistas árabes radicais e os islamistas, quer dizer, a direita radical do Próximo Oriente e, assim, reforça a direita israelita. É constitutivo dumha guerra a cada vez mais definida em termos de suma zero, que mina qualquer soluçom política possível, é a receita para umha guerra infinita. O ódio exprimido por este antissionismo faz quebrar as fronteiras da política, por ser tam ilimitada como o seu objeto imaginado. Semelhante facto de ser ilimitado indica um sonho de eliminaçom. Os Alemãos, como muitos outros Europeus, conhecem muito bem este sonho de eliminaçom. É chegado o tempo de acordar.

Moishe Postone (n 1942) é teórico crítico e professor de história na Universidade de Chicago. Ele é conhecido tanto pola sua interpretaçom do antissemitismo moderno quanto pola sua reinterpretaçom da teoria crítica marxiana. É o autor de "Time, Labor and Social Domination: A reinterpretation of Marx’s critical theory" (1993).

Fonte: PALIM PSAO, traduzido para o galego-português por CAEIRO.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O BURRINHO DO MESSIAS

Por Uri Avnery



Se é para vivermos juntos em um único Estado, nom faz sentido lutar contra os assentamentos.


 “A soluçom de dous estados está morta!”




Este mantra é tam repetido ultimamente, e por tantos comentaristas com autoridade, que virou umha moda intelectual. Parece ser verdadeiro, mas nom é. Ele faz-me lembrar umha das frases mais citadas de Mark Twain: “A notícia da minha morte foi um exagero.”

Hoje, defender a soluçom dos dous estados, um israelita, outro, palestiniano, significa que o senhor é antiquado, fora de moda, cheira a mofo, é quase um fóssil.  Erguer a bandeira da “soluçom dum único Estado” quer dizer que o senhor é jovem, olha para a frente, é maneiro.

Isso apenas prova que as ideias se movem em círculos. Quando declaramos, logo no início de 1949, assim que terminou a primeira guerra contra os países árabes, que a única saída para a nova situaçom era o estabelecimento dum Estado palestiniano lado a lado com Israel, a “soluçom dum  Estado único”  já estava caduca.

A ideia dum “Estado binacional” andou em voga nos anos 1930. Os seus principais defensores eram intelectuais bem intencionados, muitos deles luminares da nova Universidade Hebraica, como Judah Leon Magnes e Martin Buber. Recebiam apoio do movimento kibutziano Hashomer Hatzair, o qual mais tarde virou o partido Mapam.

Mas, na verdade, jamais ganhou força. Os árabes a consideravam uma artimanha dos judeus. O binacionalismo apoiava-se no princípio da paridade entre as duas populações na Palestina –metade judia, metade árabe.  Mas, como naquele tempo os judeus eram muito  menos do que 50% da populaçom, havia razom nas suspeitas dos árabes.

Do lado dos judeus, a proposta soava ridícula. A essência mesma do sionismo era  criar um Estado no qual os judeus fossem senhores de seu destino, preferencialmente em toda a Palestina. Na época, nom se chamava “soluçom dum Estado” porque já havia um Estado único ‒o Estado da Palestina, regido polo Mandato britânico. A “soluçom” foi chamada de  “Estado binacional” e morreu, sem choro nem vela,  na guerra de 1948.

Entom, o que causou a milagrosa ressurreiçom desta ideia?

Critério


Nom foi o aparecimento de nengum novo amor entre os dous povos. Isso seria maravilhoso e até mesmo um milagre. Se israelitas e palestinianos houvessem descoberto os seus valores comuns, as raízes comuns das suas histórias e línguas, o seu amor comum por este país, claro que seria absolutamente esplêndido!

No entanto, infelizmente, a renovada “soluçom dum Estado único” nom nasceu dumha concepçom imaculada. O seu pai é a ocupaçom, a sua mãe, o desespero.

A ocupaçom já criou um Estado único de facto –um Estado perverso de opressom e brutalidade, no qual metade da populaçom, ou um pouco menos,  priva a outra metade de quase todos os seus direitos– humanos, económicos e políticos.  Proliferam os assentamentos judaicos, e a cada dia sobrevêm novas narrativas de desgraças.

Gente boa de ambos os lados perdeu a esperança.  Mas a desesperança nom conduz à açom. Ao invés, estimula a resignaçom. Voltemos ao ponto de partida: “A soluçom de dous estados está morta!”  Como pode? Quem disse? E qual critério científico serviu para atestar o óbito?

Dum modo geral, a expansom dos assentamentos é apontada como o sinal da morte. Nos anos 1980, o respeitado historiador israelita Meron Benvenisti declarou que a situaçom tornara-se “irreversível”.  Na época, nom chegavam a 100 mil os colonos nos territórios ocupados (tirando Jerusalém Oriental, que é comumente considerada umha questom à parte).  Agora, dizem que som 300 mil, mas quem os está contando?  Quantos colonos marcam a irreversibilidade? Cem, trezentos, quinhentos, oitocentos mil?

A história do mundo é um poço de reversibilidades. Impérios crescem e decaem.  Culturas desenvolvem-se e fenecem.  O mesmo se dá com os modelos económicos e sociais. Somente a morte é irreversível.

Podemos imaginar umha dezena de fórmulas diferentes para resolver o problema dos assentamentos, desde a remoçom forçada à troca de territórios e à cidadania palestina. Quem poderia imaginar que os assentamentos no norte do Sinai seriam removidos com facilidade? Ou que o mesmo acabaria por se dar com os da Faixa de Gaza?

Ao final, haverá provavelmente uma mistura de fórmulas, de acordo com as circunstâncias. Todas as questões hercúleas do conflito podem ser resolvidas. O problema verdadeiro é a vontade política.

África do Sul


Os defensores da fórmula dum único Estado gostam de se basear na experiência sul-africana.  Para eles, Israel é um Estado do apartheid, tal qual a antiga África do Sul.  Daí, buscam uma soluçom assemelhada.

A situaçom nos territórios ocupados e, em parte, em Israel mesmo, de fato guarda uma forte semelhança com o regime do apartheid. Dá para citar o exemplo do apartheid no debate político, mas, na realidade, entre os dous países as diferenças som muito grandes.

David Ben-Gurion deu, certa vez, aos líderes sul-africanos um conselho: recorram à partilha.  Concentrem a populaçom branca no sul, na regiom do Cabo, e cedam aos negros o resto do país.  Ambas as partes  rejeitaram furiosamente a ideia, porque acreditavam –ambas– num país único e unido. Dum modo geral, falavam as mesmas línguas, seguiam a mesma religiom, estavam integrados na mesma economia. A briga devia-se à relaçom senhor-escravo, com umha pequena minoria dominando uma maciça maioria.

Nada comparável ao que ocorre em nosso país. Aqui temos duas nações diferentes, duas populações de tamanhos praticamente iguais, duas línguas, duas religiões (ou melhor, três), duas culturas, duas economias totalmente diversas.

Uma proposiçom falsa leva a falsas conclusões.  Umha é que Israel, à semelhança da África do Sul do apartheid, pode ser posto de joelhos por um boicote internacional.  Mesmo no caso da África do Sul, isso é umha arrogante ilusom imperialista. Nom foi o boicote, apesar de moral e importante, que fez o serviço.  Foram os próprios africanos, com o apoio de alguns idealistas brancos locais, que mudaram o regime com seus corajosos levantes e greves. Sou um otimista e espero que, no fim do túnel, israelitas judeus e árabes palestinianos constituam nações irmãs, umha ao lado da outra, vivendo em harmonia.  Mas, para tanto, deverá haver um período de vida pacífica em dous estados vizinhos, com a expectativa de fronteiras abertas.

A única soluçom


As pessoas que hoje falam na “soluçom dum Estado único” som idealistas. Mas causam um grande dano. E nom apenas porque elas afastam a si e as outras da luta pola única soluçom que se mostra realista. Se é para vivermos juntos num único Estado, nom faz sentido lutar contra os assentamentos. Se Haifa e Ramala ficarem num mesmo Estado, que diferença faz um assentamento próximo a Haifa ou um próximo a Ramala? No entanto, a luta contra os assentamentos é absolutamente essencial, é o principal campo de batalha na luta pola paz.

Com efeito, a soluçom dum único Estado tornou-se o objetivo comum tanto da extrema direita sionista como da extrema esquerda antissionista. E como a direita é incomparavelmente mais forte, a esquerda é que está ajudando a direita, e nom o contrário.

Em teoria, é assim que funciona. Os direitistas partidários do Estado único acreditam que  estám somente preparando o terreno para o seu futuro paraíso. A direita está unificando o país e pondo um fim à possibilidade de se criar um Estado palestiniano independente. Vam submeter os palestinos a todos os horrores do apartheid e mais alguns -lembremos que os racistas sul-africanos nom tinham a intençom de deslocar e tomar o lugar dos negros, mas, sim, a de segregá-los. Até o momento, talvez em poucas décadas ou meio século, em que o mundo obrigará o Grande Israel a conceder plenos direitos aos palestinianos, e Israel tornar-se-á a Palestina.

De acordo com essa teoria ultraesquerdista, a direita, que está criando o Estado único, racista, é, na realidade, o burrinho do Messias, o lendário animal em cujo lombo o Messias chegará triunfante. 

Uma bela teoria. Mas quem garante que isso efetivamente acontecerá?  E antes que se chegue ao estágio final, o que se vai passar com o povo palestiniano? Quem é que vai obrigar os dirigentes do Grande Israel a aceitar os ditames da opiniom pública mundial? 

Se hoje Israel se recusa a se curvar perante a opiniom do mundo inteiro e a permitir que os palestinianos tenham o seu próprio Estado em 28% da Palestina histórica, por que cederia no futuro e desmontaria definitivamente a sua  estrutura?

Quem ousaria ter certezas sobre um processo que durará uns cinquenta anos (ou talvez mais)? Quais mudanças ocorrerám no mundo nesse meio tempo?  Que  guerras e outras catástrofes desviarám as mentes do mundo da “questom palestiniana”?

Dá para jogar com  o destino dumha naçom baseado numha teoria tam forçada quanto esta?

Supondo-se, por um momento, que a soluçom dum único Estado realmente venha a se apresentar, como é que funcionaria?

Judeus israelitas e árabes palestinianos servirám no mesmo exército, pagarám os mesmos impostos, obedecerám às mesmas leis, militarám lado a lado nos mesmos partidos políticos?  Haverá relações sociais entre eles?  Ou o Estado se afundará numha guerra civil interminável?

Outros povos descobriram ser impossível conviver num mesmo Estado. Tomemos vários exemplos: Uniom Soviética, Jugoslávia, Sérvia, Tchecoslováquia, Chipre, Sudám.  Os escoceses querem separar-se do Reino Unido; bascos e catalães, da Espanha. Os franceses no Canadá e os flamengos na Bélgica sentem-se desconfortáveis. Até onde sei, em nengumha parte mundo dous povos diferentes concordaram em manter um Estado unificado por décadas.

Nom. A soluçom de dous estados nom está morta. Nom pode morrer, porque é a única que existe.

O desespero pode ser conveniente e tentador. Mas nom é umha soluçom.

* Traduzido do site do Gush Shalom por Renato Mayer.

Documento tirado da ASA (Associação Scholem Aleichem)

domingo, 21 de julho de 2013

O SIONISMO

Francisco Letamendia

O grupo judeu é um coletivo religioso espalhado polos quatro cantos do mundo, tam pluriétnico quanto as sociedades das que faz parte, ao que apenas etnificou a perseguiçom histórica sofrida a mãos dos cristãos. 

Os judeus sumam hoje em dia por volta de 13 milhões de pessoas, das quais 5,5 milhões moram nos EUA, 4 milhões no Estado de Israel e 1,5 milhões nos Estados que faziam parte da antiga URSS.

A sua extrema diversidade reflete-se hoje na presença no Estado de Israel de judeus Asquenazes, originários da Europa central e oriental e que representam 85% da populaçom judia (e que, pola sua vez, constitui os 80% da populaçom estatal); os judeus Sefarditas, os castelhano-falantes descendentes dos expulsos polos Reis Católicos do “Sefarad” espanhol (5%) e judeus “orientais”, palestinianos e etíopes entre outros (10%). 

A pluralidade linguística resultante obrigou a ressuscitar como oficial umha língua litúrgica, o aramaico.

O sionismo político nasceu como resposta ao antissemitismo europeu, alentado por ideologias como o pan-germanismo-antissemitismo cuja existência fora posta de relevo polo “Cao Dreyfus” na França de finais do século XIX.

Theodor Herzl, autor húngaro, escreveu em 1886 “O Estado judeu, procura dumha solución à questom judaica”, no que constatava que a integraçom dos judeus nos Estados-Nações nom fizera desaparecer, mais bem ao contrário, o antissemitismo polo que era preciso agrupar o povo judeu num território, criando o Estado judeu; e esse território era Palestina. Chegou a haver dúvidas sobre o local onde os judeus se deviam estabelecer sendo sugeridas as pampas argentinas ou Uganda, por exemplo. 

Após dous mil anos de os hebreus que viviam no reino de Judeia terem sido espalhados polos babilónicos, assentou-se finalmente a teoria do regresso para a Palestina. Herzl admitia que se conferisse aos Santos Lugares da cristandade um estatuto de extraterritorialidade, mas nom fazia qualquer mençom, desde umha fechada perspectiva ocidentalo-centralista, nem dos árabes habitantes dessas terras nem da religiom islâmica. Naquele momento os árabes eram 92% da populaçom contra 8% de judeus.

O sionismo nasceu oficialmente en 1897 no Congresso Constituinte Mundial de Bâle. A comunidade judia mesma contestou as ideias de Herzl, mas os campos de extermínio nazistas dissiparam as reservas.

A criaçom judia do Estado de Israel através do ato físico de ocupaçom das terras bíblicas ocupadas até entom polos árabes (ocupaçom cuja justificativa sionista nom som muito distintas das que animaran os puritanos ingleses a estabelecer a “Terra Prometida” nos territórios norte-americanos), constitui o modelo da fundaçom dum “lar nacional” de novo cunho.

A necessidade de sagrar o território como israelita explica a política de compra e colonizaçom do solo palestiniano levada a cabo pola organización sionista Keren Kayemeth Leisval (KKL), que negava expressamente aos judeus a possibilidade de vender as terras adquiridas, que passavam a ser propriedade nacional, evitando deste modo a sua reversom a mãos árabes. Até 1947 a compra-venda voluntária nom deu o fruto desejado, já que a KKL nom conseguiu comprar até ese momento mais que os 6,6% do solo palestiniano.

Após a criaçom do Estado de Israel, porém, e até a guerra de 1967, a proibiçom de vender as “terras nacionais” aplicou-se aos 92% do território do novo Estado. Promociounou-se assim mesmo o trabalho agrícola para vincular os colonos judeus á terra; o KKL exclui nestas terras o traballo assalariado, previsivelmente árabe, a fim de impedir a revinculaçom das terras aos palestinianos. Tal era a significación política, mais que a do socialismo, do trabalho agrícola coletivo dos kibutz, que renunciaram á propriedade privada das suas terras.

Israel nom foi concebido como o Estado dos seus cidadãos judeus ou árabes, mas como o dum povo judeu indeterminado que na sua grande maioria nom habitava nele. Daí que se privilegiasse os imigrantes judeus e se discriminasse, em troca, os cidadãos árabes. Os sionistas de esquerda aplicaram essa lógica ao âmbito do trabalho. A central sindical sionista Histadrut apenas aceitava a filiaçom de judeus e fazia pressom sobre as indústrias para que importassem maquinaria, o que tornaria desnecessário o trabalho manual árabe. Isto acompanhou-se dumha divisom social do trabalho pola que os labores cualificados foram reservados para os judeus e os nom qualificados para os palestinianos.

Os trabalhistas impulsaram até 1977 umha política de assentamentos judeus na Galileia, parte norte de Israel na que vivia a maioria da populaçom árabe, a fim de “a judaizar”; bem como a criaçom dumha cadeia de assentamentos nas cidades que se achavam no eixo norte-sul da margem ocidental (Nablus, Jerusalém, Belém, Hebrom), como meio de impedir a homogeneidade dum futuro Estado palestiniano em Gaza e Cisjordânia (eventualidade que nom defendiam, mas que também nom descartavam). 

Porém, o sionismo de direitas, o de Begin e Aaron, nom aceitava esta alternativa; as terras ocupadas em 1967 pertenciam também ao povo judeu de acordo cum principio de legitimidade divina: o direito bíblico-histórico a habitar em Eretz Israel. Jerusalém, o núcleo sagrado de Israel, era também inalienável; polo que em 1967 foi anexada a sua parte árabe.

O Governo de Begin interpretou, pois, os Acordos de Camp David de 1978 no sentido de que as “pessoas” palestinianas podian chegar a ser autónomas da administraçom militar; mas nom as “terras” nas que viviam, que seguiriam abertas aos assentamentos judeus. Esta conceçom era compatível com o estabelecimento dum “bantustám” palestiniano dotado de autonomia cultural, ao que o Estado judeu abandonaria em todo caso em matéria de prestações sociais e assistência; o exército ficaria nele defendendo os assentamentos judeus e garantindo o acesso destes às reservas de água da ribeira ocidental do rio Jordám.

Porém, as grandes necessidades de financiamento a fim de manter a estrutura sionista do Estado, favorecer a imigraçom judia, evitar a sua emigraçom, criar postos de trabalho e colonizar a terra tornam o Estado de Israel muito dependente dos capitais ocidentais. Isto converteu-se num arma de duplo gume, que colocou em mãos de Ocidente, mormente dos EUA, a possibilidade de fazer pressom sobre ele. Os acordos de Oslo de 1993 foram consequência destas pressões.

Persistem porém as incertezas sobre se a autonomia de Gaza e Cisjordânia dará tam só lugar a um “bantustám” árabe controlado por Israel ou será o germe dum Estado palestiniano justaposto ao judeu.

De resto, a dialéctica do reconhecimento recíproco, cujos alicerces foram postos polos acordos, pode sofrer recuos; o que é de temer à vista da atitude adoptada polo Estado judeu depois do triunfo recente do direitista Likud sobre os trabalhistas nas eleições [de 1996].


Texto tirado de "Juego de espejos" (1996)