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quarta-feira, 10 de julho de 2013

SOBREVIVENTES

O papel dos judeus em Maio de 1968

O enorme papel desempenhado polos judeus nos eventos de Maio de 1968 em Paris e suas consequências é impressionante. Todas as correntes da extrema esquerda, anarquistas, trotskistas, maoístas tinham judeus entre seus líderes principais. Alain Geismar, Alain Krivine, Pierre Victor (nado Benny Lévy), Henri Weber, Roland Castro, André Glucksmann, e, claro, Daniel Cohn-BenditMuitos dos rostos mais conhecidos e os nomes eram os de judeus. Embora eles nom agiram como os judeus, eram judeus, e ocuparam um lugar especial na sociedade francesa do pós-guerra, por isso, nom se pode deixar considerar a sua participaçom. 

Daniel Cohn-Bendit, líder estudantil protagonista da massiva
movimentaçom popular em 
maio de 1968
Os rostos e os nomes mais conhecidos de maio de 68 eram de judeus.

De fato, a presença judia na esquerda francesa foi historicamente relevante. Os comunistas foram umha parte importante da comunidade judia anterior à Segunda Guerra mundial, e o papel judeu na Resistência esteve acima da su proporçom na populaçom do país, nomeadamente através dos combatentes armados da FTP-MOI e o seu mais famoso avatar, o Grupo Manouchian. Mas os judeus também tinham desempenhado um grande papel em grupos mais à esquerda, em particular entre os trotskistas. Na década de sessenta, aos judeus trotskistas acrescentaram-se os judeus maoístas surgidos ao abrigo das aulas ministradas polo filósofo comunista Louis Althusser na École Normale Supérieure. Entre eles estava Robert Linhart, líder na época da revolta da Uniom da Juventude Comunista Marxista-Leninista (UJCML). A UJCML, na linha maoísta, negligenciou a importância da revolta estudantil. Amargamente atacado polos membros do grupo por causa do seu fracasso, Linhart teve um colapso nervoso e foi substituído por Pierre Victor, bem como polo grupo reformado da Esquerda Proletária (Gauche Proletaire, GP). Linhart foi, como outros membros do GP, trabalhar numha fábrica, período na sua vida que produziu umha das obras-primas políticas da época, L'Etabli. A filha de Linhart, Virginie, no seu livro "Le jour où mon père s'est tu"(O Dia em que meu pai calou) tentou explicar as razões da considerável presença judaica no movimento.


Na assombrada história dos judeus assimilados, que tinha acontecido sem terem aceitado esse fato, de súbito vislumbrei o que o ano 68 poderia ter de luminoso, brilhante, libertador, tam diferente do que constituía o quotidiano, o que era permitido em casa, o que, na verdade era praticamente bonito para além do trabalho e família. Perguntei Claudia [Senik, outra filha de veteranos do 68], na sua opiniom, por que houve tantos participantes judeus no movimento de 68?.  "A guerra contra o nazismo, tendo sido vencido pela URSS, os judeus sentiram-se necessariamente atraídos para o Partido Comunista. O meu pai disse-me que quando ele tinha sete anos perguntou-se a si próprio como é que ele poderia ser comunista e internacionalista ao mesmo tempo ... A vitória de Estaline sobre Hitler permitiu-lhe mergulhar-se nos seus ideais, e como ele havia muitos. Os judeus demoraram um pouco a perceber os estragos do comunismo. Quanto ao 68, eu acho que os judeus queriam mudar, eles nom queriam derreter-se na ordem da era Pompidou: eles estavam na situaçom, pois eles estavam lá, eles estavam prontos. Depois ... pensei numha coisa: ser um judeu após a guerra, sem o 68, teria sido muito triste. Quando eu era criança fui de férias para os campos de comunistas judeus, lembro todos aqueles pequenos judeus nas plataformas de trem. Na verdade, somos sobreviventes, os meus avós, os meus pais e eu, somos sobreviventes! E aí tem você. É verdade, pode viver desse jeito. Mas o 68 foi para aqueles que nom queriam permanecer nessa vida de sobreviventes; foi para aqueles que queriam passar para o outro lado, o lado da vida. O 68 significou deixar para trás a sobrevivência para a vida. A sobrevivência significa ter de tentar nom morrer. A vida é quando umha pessoa tiver certeza de viver e tiver de decidir como viver, o que se escolhe como uma vida, e com quem. E o 68 é o rebento de vida, em vez de sobrevivência. Quando eu penso nos judeus que nom fizeram o 68, eles fizeram coisas sérias: direito, medicina ... Eles estám tristes, voltados para o passado, é ainda o shteltl. Porém, o 68 que é umha tábula limpa. E fazer umha tábula rasa do passado que nos define como sobreviventes significa escolher a liberdade, a fala, a sexualidade, a exuberância. Significa brincar, viver contrário aos seus pais. Os meus avós nunca se divertiram, nunca gastaram um centavo a mais do que o necessário, nunca tiveram casos, nunca vestiram bem, nunca foram de férias com os seus filhos, e sempre mantiveram o seu dinheiro nos seus bolsos. Nada poderia estar mais longe da sua forma de vida do que a dos meus pais, sempre de férias, música todo o tempo,  corpos o tempo todo, festas o tempo todo. E eu sou o herdeiro disso. Sabemos donde viemos, e nom queremos ficar lá! "




O Maio de 68 como o caminho para os fugitivos judeus deixarem atrás a sua condiçom de sobreviventes, para afirmar a sua pertença ao mundo dos vivos. Eu olho para o meu pai nas suas fotos de infância em preto e branco, o ar grave e triste que tinha quando ele era um raparigo. Eu conheço o angustiado silêncio familiar sobre a Shoah que o acompanhava: umha geraçom mais tarde, persegue-me também. Imagino, entom, a exaltaçom que deveu ter sido entrar na École Normale Supérieure da rue d'Ulm aos 19 anos, para escapar de si próprio e para descobrir que tudo pode ser dito, pensado, que o futuro nom estava apenas a ser o melhor na sua classe e ganhar a vida, mas refazer o mundo do jeito que se sonha que este seja. Sonhar significava deixar para trás a sua condiçom de sobrevivente. A luta e a política significou isso. E acima de tudo, falar. Os sobreviventes nom falam. Os meus avós nom falavam, igual que o meu pai, mais tarde, e eu também por um longo tempo e dumha forma diferente. De repente eu vejo de novo todas aquelas pessoas que eu conheci ao longo da minha vida, como gostavam de dizer-me que o meu pai era um orador fascinante, o melhor, o mais forte, imbatível no plano retórico. Nunca poderias interrompê-lo, nom poderias ter a última palavra. Foi doloroso ouvi-los. Agora entendo que, nos anos em torno de 68, o meu pai viveu plenamente no mundo dos vivos, e que isso foi bom, divertido e emocionante. Acho agora que nessa altura o meu pai falou como ninguém na sua família jamais se permitiu falar. Deveu de ter sido grande falar tanto, embebedar-se nas palavras levantadas do silêncio. Mas, entom, o seu status como um sobrevivente pegou nele e literalmente fechou a sua boca. E a nossa com ele.

Fonte: Virginie Linhart,  Le Jour où mon père s’est tu. Seuil Paris, 2008
Traduçom: CAEIRO

Documento tirado do portal MARXISTS.

domingo, 30 de junho de 2013

ESQUERDA JUDIA HOJE (E IV)

À medida que a classe operária judaica foi sumindo nos anos após a Segunda Guerra mundial, também o fizeram as suas instituições e movimentos políticos. O Arbeter Ring na Inglaterra, por exemplo, esmoreceu e o sindicalismo judeu nos EUA deixaram de ser uma força importante nos finais da década de 1950.

Os judeus continuaram a ser proeminentes apenas nos movimentos socialistas da França e do Reino Unido, país onde se viu incrementada a participaçom judia no movimento trabalhista, tanto nos governos (mormente em 1945-51 e 1964-70), quanto no número de deputados trabalhistas judeus eleitos no Parlamento (4 em 1935, 26 em 1945, 36 em 1966 e 30 em 1970). Ao contrário, a Shoah e a tomada comunista de parte da Europa do Leste reduziram grandemente a participaçom judia nas políticas socialistas, salvo o caso de Bruno Kreisky, Chanceler da Áustria entre 1970-83.

Apesar deste esmorecimento ainda existem alguns vestígios da classe trabalhadora judia hoje, entre os quais o Comité Trabalhista Judeu e o jornal Forward em Nova Iorque, o Bund em Melbourne (Austrália) ou os Amigos Trabalhistas de Israel no Reino Unido.

Enquanto isso, as décadas de 1960 e de 1980 viram um ressurgimento do interesse na herança cultural e na identidade étnica judia, renovando-se o interesse entre os judeus assimilados ocidentais pola cultura da classe trabalhadora judia e polas tradições radicais do passado judeu. Isso levou a um crescimento dum novo tipo de organizações judaicas radicais, interessadas ​tanto na cultura iídiche, como na espiritualidade judia ou a justiça social. Por exemplo, na década de 1980-1992 uma organizaçom, A Nova Agenda Judia, funcionou como umha organizaçom progressista com a missom de atuar como umha "voz judia na esquerda e umha voz de esquerda na comunidade judaica”. O Grupo de Socialistas Judeus no Reino Unido ou e Tikkun do rabino Michael Lerner continuaram esta tradiçom, embora mais recentemente grupos como Jewdas e Heeb Magazine tomaram umha abordagem ainda mais eclética e radical da judeidade. Na Bélgica, a Union des Progressistes Juifs de Belgique é, desde 1969, o herdeiro do movimento Judeu Comunista e Solidariedade Bundista da Resistência belga, acolhendo a causa dos desertores israelitas ou imigrantes ilegais na Bélgica.

Na última década no EUA o voto judeu foi para os democratas por 76-80% em cada eleição, pondo em destaque que a maioria dos judeus norte-americanos estám mais encorajados com posturas avançadas do que com o conservadorismo.


A África do Sul é também um país cuja comunidade judia é aderente à esquerda, sendo Helen Suzman a mais famosa dos seus membros. No entanto, tem havido importantes militantes comunistas no seio do movimento de libertaçom africano anti-apartheid (Denis Goldberg, Lionel Bernstein e Arthur Goldreich).

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sexta-feira, 28 de junho de 2013

ESQUERDA JUDIA: DOS SOVIETES AO RADICALISMO (III)

Nos sovietes e contra o fascismo

Tal como aconteceu com a Revoluçom Americana de 1776, a Revoluçom Francesa de 1789 e a revoluçom alemã de 1848, muitos judeus em todo o mundo saudaram a revoluçom russa de 1917, celebrando a queda dum regime tam antissemita e acreditando que a nova ordem que viria a ser a URSS iria trazer melhorias na situaçom dos judeus naquelas terras. Graças ao trabalho político do bundismo, os judeus, após a revoluçom bolchevique foram reconhecidos como umha das nacionalidades da URSS. Os Batalhões Borochov, milícias judias vermelhas, após auxiliarem na derrota dos exércitos brancos e dos intervencionistas estrangeiros no sul da Rússia, propõem a continuidade da marcha rumo ao Próximo Oriente alvejando implantar um Estado socialista na Palestina, onde será reelaborada a cultura judia, retomando o hebraico e a Ásia como opçom histórica.


Um cartaz propaganda branco (anti-revolucionário) representando um demoníaco Leon Trotsky usando um pentagrama e sentado sobre umha pilha de esqueletos. A legenda diz "Paz e Liberdade na Rússia Soviética."

Muitos judeus envolveram-se em partidos comunistas, chegando a constituir umha grande proporçom da sua militância em muitos países, incluindo o Reino Unido e os EUA. Mesmo houve seções especificamente judias de muitos partidos comunistas, como o Yevsektsiya (יבסקציה) no seio do Partido Bolchevique. O regime comunista na Uniom Soviética implementou o que poderia ser caracterizado como umha política ambivalente em relaçom aos judeus e à cultura judaica, quer apoiando o seu desenvolvimento como umha cultura nacional (por exemplo, o patrocínio significativo da escolarizaçom em língua iídiche, a manutençom da estrutura partidária do Poalei Sion até 1928 e a criaçom dum território autônomo judeu em Birobidjan), quer promovendo expurgos antissemitas, entre os quais a trama dos médicos na URSS ou a eliminaçom dos dirigentes comunistas de origem judaica na Checoslováquia.

Entre 1918 e 1939, com o advento do fascismo em boa parte da Europa, muitos judeus reagiram tornando-se ativos na esquerda e, particularmente, nos partidos comunistas, na vanguarda do movimento revolucionário (comunismo de conselhos) e anti-fascista. Por exemplo, muitos voluntários judeus lutaram nas Brigadas Internacionais na Guerra Civil espanhola (por exemplo, na Brigada Abraham Lincoln norte-americana ou mesmo na companhia judia Naftali Botwin). Judeus e esquerdistas ingleses lutaram os fascistas britânicos de Oswald Mosley na Batalha de Cable Street (Londres). Este movimento de massa foi influenciado polo Comitê Antifascista Judeu (CAJ) na Uniom Soviética.


Solomon Mikhoels num encontro do CAJ
Nesse período alguns judeus ocuparam posições proeminentes nalguns países europeus, sendo esta circunstância exagerada polos antissemitas de toda a parte. Por exemplo, na Alemanha os nazisas sobrevaloraram propositadamente a influência dos judeus na República de Weimar ao abrigo da presença judia na esquerda social-democrata e comunista.

Nessa altura o estereótipo antissemita ou antijudaico, sob diferentes nomes pejorativos (Yid-Commie nos países anglossaxões, Yidish communiste ou judéo-bolchévisme na França, Żydokomuna na Polónia,...) acusavam os judeus de gerar o comunismo, identificando esta ideologia como parte dum complô judeu mais amplo que visa a tomada do poder mundial.


Cartaz de propaganda antissemita na Polónia visando identificar o
povo judeu com  o comunismo

Léon Blum foi primeiro-ministro da França eleito pola Frente Popular e socialistas judeus tiveram responsabilidades nos governos da Checoslováquia, Países Baixos e Reino Unido.


Apesar do contexto de crescimento do antissemitismo na Europa,
Léon Blum acede ao governo da França eleito pola Frente Popular.


Durante a Segunda Guerra Mundial, a esquerda judia desempenhou um importante papel na resistência ao nazismo. Por exemplo, bundistas e sionistas de esquerda foram fundamentais na Organizaçom de Combate Judia (Zydowska Organizacja Bojowa - ZOB) e no Levante do Gueto de Varsóvia.

Bandeira da Organizaçom de Combate Judia - ZOB


Judeus radicais na Europa Central e Ocidental


Bem como os movimentos enraizados na classe trabalhadora judaica, judeus de classe média relativamente assimilados na Europa Ocidental e Central começaram a procurar fontes de radicalismo na tradiçom judaica. 

Assim sendo, Martin Buber ligou o hassidismo com a filosofia anarquista; Gershom Scholem foi um anarquista e estudioso da cabala; Walter Benjamin foi igualmente influenciado polo marxismo e messianismo judaico; Gustav Landauer era um judeu religioso e um comunista libertário; Israël Jacob de Haan combinou o socialismo com o judaísmo ortodoxo (haredim), enquanto o esquerdista libertário Bernard Lazare tornou-se num judeu apaixonadamente sionista. Na República alemã de Weimar, Walther Rathenau foi uma figura de destaque do liberalismo judeu.

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quinta-feira, 27 de junho de 2013

ESQUERDA JUDIA: DO ILUMINISMO À REVOLUÇOM RUSSA (II)

Iluminismo e emancipaçom

A esquerda judia tem as suas raízes filosóficas no Iluminismo Judaico, ou Haskalá, movimento liderado por pensadores como Moses Mendelsohn, bem como o apoio de muitos judeus europeus, como Ludwig Börne, aos ideais republicanos na sequência da Revoluçom Francesa e as guerras napoleônicas. Nos séculos XVIII e XIX alastrou por toda Europa um movimento para a emancipaçom dos judeus fortemente associado com o surgimento do liberalismo político, alicerçado nos princípios iluministas dos direitos e da igualdade perante a lei. Muitos dos precursores do socialismo moderno (Saint-Simon ou Robert Owen) defenderam a igualdade dos judeus, considerando a emancipaçom dos Judeus como umha das pré-condições para a libertaçom da humanidade.

Admitidos nas sociedades burguesas da Europa ocidental, os judeus emancipam-se crescentemente da antiga condiçom de povo-classe, rompem co o mundo do gueto e integram-se na moderna economia de mercado. Já que nessa altura os liberais representavam a esquerda política, os judeus emancipados, enquanto entraram na cultura política dos países onde moravam, tornaram-se muito associados com partidos liberais. Assim, muitos judeus apoiaram a Revoluçom Americana de 1776, a Revoluçom Francesa de 1789 e as revoluções europeias de 1848.

Jean Czynsky, um refugiado polaco na Inglaterra de origem judaica escreveu que a liberdade para a Polónia e a emancipaçom dos judeus polacos eram conceitos polos que deviam lutar todos os socialistas. Em março 1871 os judeus desempenham também um papel proeminente no levante operário da Comuna de Paris.


Em 1896 um militar francês de origem judaica, Alfred Dreyfus, vê-se injustamente acusado como espiom do Império alemão. Ainda que extremadamente assimilado, a origem judaica dele foi utilizada polos círculos reacionários antirrepublicanos e claricais franceses como referência no seu julgamento. Destarte, o rumoroso caso serviu para que esses grupos reocupassem espaços que pretendiam seus na política francesa. 

O mundo judeu viu-se profundamente abalado polo impacto da propaganda e das manifestações antissemitas decorrentes do processo do Caso Dreyfus.


O surgimento dumha classe trabalhadora judaica

Na Europa Oriental, pola sua vez, o antissemitismo era um elemento constitutivo das culturas eslavas. O Império russo dos czares realizava pogroms, ataques organizados desde o poder contra a minoria judaica nos quais eram cometidas toda sorte de violências. Levadas a cabo por autênticos bandidos e desqualificados sociais, os pogroms constituiam-se umha importante válvula de escape à opressom sofrida polo povo no regime czarista que, assim, encontrou umha forma de desviar as atenções da classe trabalhadora para um alvo que nom afetasse o status quo.

Na era da industrializaçom no final do século XIX surgiu umha classe trabalhadora judaica nas cidades da Europa Central e Oriental, mormente na Rússia, Bielorrúsia, Polónia, Ucrânia e Lituânia.

Em 1897 também surgiu um movimento operário judeu, Federaçom Geral de Operários Judeus da Rússia, Polônia e Lituânia ou BUND Judeu, constituido em Vilna, Lituânia. Constituiu-se no primeiro partido marxista da Rússia, o primeiro a desafiar as trevas do czarismo e o mais importante elemento de divulgaçom do socialismo entre o proletariado judeu. Membro fundador do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), chegou a representar um terço da sua militância.

Diversas organizações anarquistas e socialistas judias formaram-se e espalharam-se pola zona de Assentamento Judeu do Império Russo (Pale).

Houve também um número significativo de pessoas de origem judia e que nom se identificavam explicitamente como judias, mas que foram muito ativas nas organizações, movimentos e partidos de tipo anarquista, socialista e social-democrata e comunistas.

Todas estas forças democráticas e socialistas combateram a manipulaçom ideológica antissemita do czarismo.

Consoante o sionismo cresceu como movimento político, formaram-se partidos sionistas marxistas socialistas, como o Poalei Sion de de Ber Borochov. Houve formas de esquerda nom sionista do nacionalismo judeu, tais como o territorialismo (que exigia um lar nacional judeu, mas nom necessariamente na Palestina), o autonomismo (que exigia direitos nacionais nom-territoriais para os judeus em impérios multinacionais) e o folkismo de Simon Dubnow  (que defendia a cultura judaica das massas de língua iídiche).

Consoante os judeus do Leste Europeu emigraram para Ocidente (principalmente para os EUA) a partir da década de 1880, essas ideologias enraizaram nas crescentes comunidades judias, como a do East End de Londres, o Pletzl de Paris, a de Lower East Side de Nova Iorque ou em Buenos Aires.

Houve um ativo movimento anarquista judeu em Londres cuja figura central foi, paradoxalmente, o pensador e escritor alemão nom-judeu Rudolf Rocker.

O importante movimento socialista judeu nos Estados Unidos, com o seu diário em língua iídiche (The Forward) e sindicatos como a Uniom Internacional de Trabalhadoras de peças de Vestuário (ILGWU) ou as Trabalhadoras Amalgamadas de Roupa da América (ACW). Figuras importantes nestes movimentos incluíam Rose Schneiderman, Abraham Cahan, Morris Winchevsky e David Dubinsky.

No final do século XIX e início do XX, período da II Internacional, os judeus desempenharam um papel importante nos partidos social-democratas da Alemanha, Rússia, Áustria-Hungria e Polônia.

Na Alemanha, onde o SPD era a mais forte das organizações socialistas europeias, em 1912 havia 12 judeus entre os 100 deputados social-democratas no Parlamento alemão. Nas condições após a Primeira Guerra mundial, socialistas judeus ocuparam postos de governo nos ministérios socialistas da Alemanha, Áustria, Hungria e Rússia.

O historiador Enzo Traverso usou o termo "judaico-marxismo" para descrever as formas inovadoras de marxismo associadas a estes socialistas judeus, cujas posições variavam dum forte cosmopolitismo hostil a todas as formas de nacionalismo (caso da Rosa Luxemburgo e, em menor medida, de Leon Trotsky) para posições mais próximas do nacionalismo cultural (como acontece com os austromarxistas ou os bundistas de Vladimir Medem).



É provável que a maioria destas figuras nom se considerassem parte explícita dumha esquerda judia, mas é relevante o número significativo de pessoas de cultura judaica que foram ativos nestes partidos e movimentos.

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quarta-feira, 26 de junho de 2013

ESQUERDA JUDIA: CARACTERIZAÇOM (I)

Historicamente os judeus desenvolveram um papel muito importante no seio do socialismo e do movimento operário em geral. 

Por múltiplas razões os judeus foram atraídos por esta ideologia libertadora desenvolvida na Europa Ocidental. Enquanto uns viram nela a construçom da “sociedade justa” das ensinamentos da Bíblia ou dos Profetas, outros sentiram-se atraídos pola sua natureza revolucionária. Assim, enquanto alguns judeus viram no socialismo umha resposta ao antissemitismo, houve também judeus que viram nele umha forma de se livrar da sua herança judaica e servir à causa maior da “Irmandade humana”. Com efeito, o socialismo foi particularmente atraente para os judeus ansiosos para deixar o gueto atrás.


Com o termo "esquerda judaica" pode-se descrever o facto de muitos judeus se identificarem ou apoiarem a esquerda (causas liberais nos EUA) de forma individual ou através de organizações. Embora nom exista umha organizaçom ou movimento definido de “esquerda judia”, os judeus foram as principais forças na história do movimento operário, do “settlement movement” (nos EUA e Reino Unido), o movimento polos direitos das mulheres, o combate ao racismo, as organizações antifascistas que surgiram na Europa, Estados Unidos e no Israel moderno.

O povo judeu tem uma rica história de envolvimento com o socialismo, o marxismo e o liberalismo ocidental. 
Embora o conceito "esquerda" abranja um amplo leque de políticas, começando por K. Marx, muitos vultos conhecidos de esquerda foram judeus (nascidos no seio de famílias judias e com vários graus de ligaçom com as comunidades judaicas, a cultura judaica, a tradiçom judaica ou a religiom judaica nas suas diversas variantes), quanto pessoas seculares e cosmopolitas (assimiladas) desligadas da cultura judaica. 

A visom sobre o movimento de libertaçom nacional judeu (sionismo) entre aqueles identificados ou autoidentificados como esquerda judia pode ser bastante variada, e muitas vezes independente dos seus pontos de vista político-sociais.

Embora exista um ligeiro aumento de judeus de esquerda ligando as suas políticas com a sua espiritualidade, este é um fenómeno relativamente novo, comparado com a longa história de ativismo judeu socialista e comunista secular (por exemplo, o Círculo de Trabalhadores / Arbeter Ring), bem como do ativismo anarquista judeu que nom era apenas explicitamente secular, mas que amiudadamente rejeitou a religiom. Desde o final dos anos 1880 até meados da década de 1950 houve uma série de jornais de esquerda judeus (e outras publicações) em iídiche que abrangiam a esquerda política e a expressom cultural judia tanto na Europa Oriental e Central, como na América do Norte e Sul, bem como na comunidade judaica no Mandato da Palestina (Yishuv) e nos primeiros anos do Estado de Israel.

Valores religiosos judaicos e justiça social


Uma série de valores de esquerda sobre a justiça social podem ser atribuídos aos textos religiosos judaicos, que incluem um forte endosso da hospitalidade com o "estrangeiro", o princípio da redistribuiçom da riqueza, bem como uma tradiçom de desafio à autoridade. Alguns teólogos judeus no século XX enfatizaram esses aspectos da religiom de justiça social.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A GUERRA NA PALESTINA


Quando escrevemos estas linhas, por fim, o Conselho de Segurança da ONU adotou a resoluçom de propor a judeus e árabes a cessar-fogo na Palestina durante trinta e seis horas. Será aceite esta trégua? A Síria votou contra a proposta dos Estados Unidos, à que se aderiram absolutamente todas as outras nações.

É outro motivo de inqueitaçom as discrepâncias observadas entre os Estados Unidos e os outros grandes, mormente, Inglaterra, a quem se supõe ligada de mais aos Estados árabes.

Ao contrário, a URSS, com todos os seus satélites, colocou-se resolvidamente de lado do novo Estado de Israel. Era cousa sabida que a Rússia manejava certos fios no terrorismo judeu, para conseguir molestar à Gram Bretanha na sua política de harmonizaçom dos interesses de árabes e judeus na Palestina.

León blum enviou um telegrama de felicitaçom ao Chefe do Estado de Israel, que conta entre os seus membros representativos alguns operários e socialistas.

Pola sua parte, a ONU destacou, para que aja e a represente na Palestina, um dos seus altos funcionários, D. Pablo de Azcárate, ex-embaixador em Londres da República espanhola.

Em nome da Cruz Vermelha Internacional aceitou a missom de mediador na Palestina o Conde Bernadotte, da Suécia.

Serám capazes todos estes esforços de conter esta guerra que ameaça de novo à Humanidade?



EL SOCIALISTA, nº 5414, Año V, 27/5/1948, pág. 2

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A ESQUERDA FRANCESA E A FORMAÇOM DO ESTADO DE ISRAEL


Como o resto da esquerda mundial, a esquerda francesa acolheu de braços abertos a fundaçom do Estado de Israel.

Em 15 de maio, no dia depois da criaçom do Estado de Israel, l'Humanité, o jornal do Partido Comunista Francês, informava:


"O Partido Comunista, numha decisom do seu Comité Central, disse hoje: 

O mandato [britânico] lixado de sangue foi liquidado pola heróica luta do povo judeu pola sua independência e pola ajuda da Uniom Soviética e de todas as forças democráticas do mundo. Mas esta luta pola independência ainda nom acabou. Os exércitos ingleses permanecem sobre o solo de Israel e a Legiom Árabe ataca. Devemos mobilizar todas as forças do povo judeu para a luta pola sua liberdade.



Quanto ao Populaire, o órgão da SFIO, escrevia a 15 de maio de 1948:

"Demorou muito em fazer perdoar aos seus olhos para disputar-lhe aos judeus o direito a se agrupar e viver de acordo com as suas tradições e a possibilidade de nom se sentir jamais umha minoria entre os outros. A Sociedade das Nações reconheceu-lhes este direito e esta possibilidade. Eles ganharam-no polo esforço extraordinário que os levou a umha vitória à vez sobre si mesmos e sobre umha natureza hostil. A comunidade judia da Palestina era um facto. Ela entra, desde esta noite, na realidade jurídica. Da Europa, onde eles ainda som mantidos em campos, milhares de judeus vam agora dirigir-se para os seus camaradas que os vam acolher de braços abertos. Este novo Estado, desejamos-lhe boa sorte. Porque sabemos que é essencialmente democrático e que o socialismo lá estabeleceu fortes raízes. Apenas na medida em ele perseverar no caminho do socialismo é que se poderá consolidar. A maioria das posições chave do Governo Provisório som realizadas polos trabalhadores, os membros socialistas da nossa Internacional, O mundo deve acolher o Estado de Israel polo mesmo desejo que é a "felicidade" dos judeus da Palestina: "A paz esteja consigo" (Carriche)"

O PSOE PERANTE A CRIAÇOM DO ESTADO DE ISRAEL




Desta maneira "El Socialista", boletim oficial do PSOE, dava conta da criaçom do Estado de Israel e do início da primeira guerra árabe-israelita.

A atualidade internacional apresenta-se sobrecarregada de acontecimentos nom-isentos, infelizmente, de drama.

Os ingleses, em 15 de maio, de acordo com as promessas feitas repetidamente, deixaram o território da Palestina. E mal se embarcou o Alto Comissário, as tropas árabes invadiam o território degenerando em guerra feroz, com ataques de aviaçom, a luta incansável que vinham realizando árabes e judeus.

O Estado judeu foi proclamado coincidindo com a saída da Terra Santa de Sir Alan Cunningham. Eis a sua primeira declaraçom: "Nós, membros do Conselho Nacional, representantes do povo judeu na Palestina e do movimento sionista mundial, juntamo-nos em Assembleia solene no dia em que finda o Mandato britânico sobre a Palestina, e em virtude do direito natural e histórico do povo judeu e da resoluçom da Assembléia Geral das Nações Unidas, proclamamos a criaçom do Estado judeu da Palestina, que leva o nome de Israel".

O Conselho Nacional até a eleiçom da Assembleia Constituinte que deve entrar em vigor antes do primeiro de outubro, atuará como Governo Provisório. A declaraçom, feita em Telavive, abre as suas portas a todos os judeus, e alicerçar-se-á nos princípios da liberdade, da justiça e da paz, com plena igualdade social e política de todos os cidadãos, sem distinçom de raça, credo, sexo, assegurando a plena liberdade de educaçom e cultura. Além disso, os fundadores do novo Estado afirmar o seu compromisso com a Carta das Nações Unidas e oferecem a paz aos árabes residentes no Estado de Israel, que abrange as províncias de Telavive, Haifa, Galileia e Negev.

Dez minutos após a proclamaçom da Constituiçom do novo Estado foi reconhecido polo presidente Truman, ganhando, com a mão, à República dos Sovietes. Inglaterra, mais comprometida com os Estados árabes, irá demorar para fazer esse reconhecimento, e poderá operar, de forma eficaz, para localizar o conflito.

Na verdade, o rei da Transjordânia, que é um dos mais ferrenhos soberanos árabes da Grã-Bretanha, disse, entretanto, que considerava anuladas todas as promessas feitas aos judeus pola Declaraçom de Balfour. "Declaro,   disse ele, que os judeus nom têm qualquer direito na Palestina". E as tropas de todos os Estados árabes, polas diferentes fronteiras, começaram a invadir o país, que está em guerra. Intervirá a ONU? O Estado de Israel tem feito um apelo a este organismo, com efeito, mas os governos dos países árabes querem exterminar os judeus da Palestina. A guerra, seja qual for a sua dimensom, é sempre um gravíssimo perigo. O socialismo, infelizmente, ainda nom tem força moral suficiente no Mundo para evitar esses cruéis e inúteis derramamentos de sangue.

Com razom os ingleses podem acusar de injustiça à imprensa mundial, que tem esbanjado frivolidades ao lidar com a política da Grã-Bretanha na Palestina e na Índia. Os ingleses, nem na Índia nem na Palestina, serviam apenas aos seus interesses imperialistas. A sua presença, aliás, e por vezes dumha maneira singular, evitava conflitos sangrentos. Nom lembram já os monstruosos massacres de judeus? Nom está em constante guerra a Índia uma vez que os ingleses deixaram a sua direçom e deixaram os seus respectivos governos o delicado problema da ordem pública? Um nacionalismo exaltado é extremamente perigoso entre populações sem preparaçom cultural e sem educaçom política.

Da Índia e da Palestina terá de se ocupar em mais dumha ocasiom, no futuro, a Sociedade das Nações, mesmo assumindo, e esse é o nosso desejo, que os conflitos possam ser rapidamente encauzados.

Nº 5.413 de El Socialista, Ano V, 20 de maio de 1948, pág. 2.

Texto tirado do arquivo da Fundación Pablo Iglesias. Traduzido por CAEIRO.

terça-feira, 14 de maio de 2013

INVASOM ÁRABE NA PALESTINA

A obra dos imperialistas britânicos


Na Palestina arde a guerra. O novo Estado de Israel está a lutar bravamente contra a invasom dos exércitos de quatro Estados árabes. Este é o trabalho dos imperialistas ingleses. As tropas da Grã-Bretanha tiveram de se retirar da Palestina em 15 de maio, pola pressom internacional e o compromisso assumido na ONU. Mas, ao mesmo tempo o imperialismo inglês preparou e iniciou a guerra na Palestina. Armou e organizou os elementos árabes reacionários. Pôs em movimento todos os seus agentes com o objetivo de esmagar o novo Estado. Os tanques, canhões e aviões que utilizava na Palestina o exército britânico, estám agora nas mãos dos exércitos árabes que ao serviço do imperialismo inglês invadem a Palestina. Estas forças de invasom som comandadas por oficiais ingleses e as suas operações comandadas polo estado maior imperial.

Cinicamente um representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros disse em 18 de maio que o governo britânico pretende continuar a fornecer armas para os árabes.

Enquanto isso, o governo de Washington estabeleceu um embargo de armas sobre Israel. Reconhece o novo Estado, mas permite que os cidadãos judeus sejam assassinados impunemente por aviões ingleses, porque eles nom têm armas para a sua defesa.

Deve pôr-se fim a esta situaçom. É preciso evitar que o novo Estado de Israel seja esmagado polos agentes do imperialismo. O mundo democrático deve mobilizar-se em prol da posiçom mantida energicamente na ONU pola Uniom Soviética. O delegado soviético Gromyko afirmou perante o Conselho de Segurança: "Há uma guerra na Palestina e o Conselho de Segurança deve agir. Deve tomar a decisom de parar a guerra."

É necessária a intervençom urgente da ONU para dar cabo desta agressom injusta, com essa guerra contra um povo que tem lutado heroicamente para alcançar a sua independência e a sua liberdade.



Nº 118 de Mundo Obrero - 20 de maio de 1948 - pág. 4

A FORMAÇOM DO ESTADO DE ISRAEL


Umha vitória dos povos contra a dominaçom imperialista


No 15 de maio foi proclamado o Estado judeu de Israel.

O novo estado nasceu depois de longos anos de luta do povo judeu para conseguir um lar nacional. E logrou-o através dumha luta dura e tenaz contra todas as manobras do imperialismo, contra toda a violência e arbitrariedade. A partir de 1917, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, lorde Balfour, prometeu a lorde Rothschild, entom presidente da Federaçom Sionista Britânica, que "os esforços da Inglaterra seriam usados para dar aos judeus um lar na Palestina" até hoje, os judeus, apesar da promessa solene dos imperialistas ingleses tiveram de tomar umha dura luta por conseguir a sua pátria.

Inglaterra usou o seu mandato na Palestina para transformar o país numha base militar, e um local estratégico para a sua expansom colonial. Para isso fez o seu melhor para enfrentar árabes contra judeus, a fim de ter um pretexto para impedir a liberdade de ambos os povos.

Nom sendo possível manter a sua dominaçom sobre a Palestina com o acordo das Nações Unidas, o imperialismo inglês favoreceu a  agressom árabe à Palestina.

Os exércitos dos Estados árabes armados e dirigidos polos ingleses invadiram a Palestina. E as primeiras salvas do novo Estado foram as explosões de bombas inglesas, lançadas por aviões ingleses sobre as cidades de Israel.

Muitos e difíceis problemas enfrenta o novo estado. Nom é só o imperialismo inglês que nom se resigna à sua existência. O imperialismo ianque tem grandes interesses no Próximo Oriente  e visa alargá-los, fez o seu melhor para evitar a criaçom normal do Estado judeu, conforme o aprovado pola ONU. Foi cúmplice do imperialismo britânico contra a independência da Palestina.

A firmeza do povo judeu e a valiosa ajuda da Uniom Soviética na ONU frustraram todas as manobras.

Mas isso nom significa que os trustes e os círculos militaristas ianques têm abandonado os seus planos. E a independência e soberania de Israel está em perigo.

No movimento sionista houve sempre certos sectores partidários do compromisso com o imperialismo que nom enfrentavam resolutamente a luta por umha naçom judia independente. Sobre estes setores vai tentar exercer a sua influência o imperialismo ianque para manter o novo Estado sob sua hegemonia.

Poderá evitar-se isso através da unidade do povo judeu e da participaçom das massas populares através dos seus partidos e organizações na direçom do novo Estado de Israel. Sem dúvida que, igualmente, irá afirmar ao Estado judeu umha política inteligente e justa relativamente aos árabes, criando condições para o convívio com o outro povo escravizado polos imperialistas e polos indígenas feudais, de respeito polas minorias árabes do território judeu e de reconhecimento dos seus direitos.

O povo judeu tem ao seu lado a Uniom Soviética, campeom da causa da autodeterminaçom dos povos e às massas populares e democráticas do mundo inteiro que saúdam a formaçom do novo Estado de Israel como um passo em frente na luta da libertaçom dos povos da opressom imperialista.

Já tem hoje as primeiras demonstrações de solidariedade através do clamor que se eleva a cada país pedindo que se ponha fim à agressom dos países árabes contra o Estado de Israel. Parar esta agressom dirigida a partir de Londres com a cumplicidade de Washington é de interesse para a liberdade de todos os povos e para a causa da paz.

Nº 118 de Mundo Obrero - 20 de maio de 1948 - pág. 4

ISRAEL POR ALBERT MEMMI


- Um número de leitores criticaram-me por ter realizado até o momento o inventário da condiçom judia na Diáspora. Embora eu acredite ter amiudamente mostrado que o sionismo estava na encruzilhada nesta condiçom, eis é o que eu acho que é o papel e a importância de Israel no destino dos judeus.



Querem saber o que é Israel? 
Antes de mais, perguntem-se o que é um judeu.

Mas, o que é um judeu?

Umha religiom? Nom somente;
Umha naçom? Nom possui nem Estado nem território;
Um povo? Está espalhado através do universo; 
Umha língua? Eles falam centenas; 
Umha cultura? Ele tem a doutros povos... 
Quem, judeu ou nom judeu, nom tem tentado acertar este jogo intrincado, abandonando-o depois, derrotado por esta constante dificuldade que supõe compreender o judeu clara e distintamente?

O que um judeu é nom se define apenas polo que ele é, mas também por aquilo que ele nom é: o judeu nom é exatamente daqui, nem o é exatamente de acolá, nom completamente deste povo, nem inteiramente daquele. Goste ou nom, com ou sem o seu consentimento, ele é também referência a um outro lugar e, o mais inquietante: um outro lugar de nengures. Um outro lugar que é acima de tudo ausência, vácuo impossível a encher, fantasma impossível a exorcizar.

Claro, existe o Livro, sagrado ou nom, extraordinariamente inspirado em todo caso, mas a vertigem retoma-se imediatamente: mesmo este livro, referência do judeu, é também referência de outros: a que terra esmorecida, a que templo desaparecido, a que frutos estranhos é que o meu pai, umha vez no ano, ia procurar um exemplar onde eu nom sei?

Mas agora este vácuo, este fantasma, subitamente se torna-se carne em cheio e chama-se Israel; este pais imaginário, estes frutos desconhecidos, Israel a minha face de sombra, a minha ausência nas nações, Israel a minha nostálgica referência, Israel a minha diferença, põe-se a viver -com efeito- é o que eu sonho - nalgures no mundo, beirado por um verdadeiro mar e um rio, um lago com peixes vivos, colinas florescentes e um deserto onde se pode morrer de sede. Ah! se soubesse o que significa, em toda realidade, para um judeu, esta reencarnaçom, esta renascença à história do seu ser coletivo, até entom aéreo, nublado, efémero que se põe a coagular, a endurecer, a existir extraordinariamente! No fundo, vou-vos confiar algo: ele nom acredita ainda muito com os olhos.

Alguns mesmo afirmam que Israel entrou na sua vida por arrombamento. Talvez, mas, logo entrou, eles reconheceram-no: reconheceram-se nele; daí a sua violência por vezes: sem que eles o tivessem demandado, som apresentados por um espelho exato; mas, sabemos, ele nunca está cómodo ao se olhar. Já, eles tiveram de se reconhecer com vergonha e dor, medo e pena, nos fantasmas dos abatidos e dos calcinados; aqui eles confrontados com o seu retrato de trabalhadores-soldados. E se eles rejeitam isso, que o mundo inteiro confirme o testemunho do seu espelho, os parabenize ou os insulte. E, no fundo deles próprios, nom sentem um orgulho confuso que aumenta o seu estupor e a sua cólera?

Eu digo que nengum judeu hoje nom pode pensar em Israel sem problemas.

Mas eu nom cito aqueles que por memória e porque a sua excepçom confirma esta imensa descoberta: Israel devolveu ao judeu a quase totalidade do seu ser.

Retomemos esse jogo intrincado do início, que bem poderia ser chamado de jogo da alcachofra... Portanto, o judeu nom tinha Estado, nem naçom, nem bandeira, nem terra, nem língua, nem cultura; a sua religiom, à que ele desesperadamente se apegava, nunca era maioritária, a memória que cultivava obstinadamente apenas lhe contava sofrimentos. Sabem como se chama isso? Isso descreve-se, vive-se e tem um nome: a opressom. O judeu era um dos mais velhos oprimidos da história universal: Israel quase pôs fim à opressom do judeu.

Texto escrito por Albert Memmi para umha recolha fotográfica, comandada polas edições Albin Michel; reproduzido por "A terra reencontrada" em 20 de janeiro de 1974.

sábado, 11 de maio de 2013

TESE 6ª: ISRAEL OCUPA TERRITÓRIOS ÁRABES E EXISTEM REFUGIADOS


Sim, é verdade, e temos de falar nisso sem complacência ou demagogia. Correndo o risco de ofender, eu diria primeiro que as questões fronteiriças com o Egito e a Síria nom podem ter a importância que recebem comummente. Eu também nom vejo nisso socialismo por nengures. As fronteiras som a concretizaçom geográfica das relações reais e globais entre estados, isto é, o seu traçado deve exprimir interesses e necessidades de segurança recíprocas. Eu nom acho que a URSS ou a China, ou a Argélia ou o Marrocos, por nom falar de nações ditas imperialistas, as concebam doutro jeito, já que o mostraram em múltiplas ocasiões. Caso contrário, como interpretar as diferenças fronteiriças entre a China e a URSS? Quem tem umha conduta socialista e quem umha conduta imperialista? Eu nom sou um militar nem um técnico da geopolítica e desconheço o que é indispensável para a segurança do Israel, colinas de Golám, Charm el Cheikh ou um outro ponto da ribeira do Jordám. Desconheço se o Egito vai estar gravemente ameaçado pola perda de Charm el Cheikh ou a Síria pola perda do Golám. Sim compreendo as feridas ao amor póprio nacional. No estado atual de guerra larvada entre estas nações pode existir verdade na tese de cada umha; por isso apenas é legítimo e irá ter algumha chance de sucesso umha negociaçom em que cada parte encontre um benefício relativo. Sobre o plano da segurança como o da psicologia ou da paixom e, mesmo, sobre o do mito. 

É preciso, acima de todo, que cada um se persuada de que existe mais interesse na paz do que na guerra (o qual nom é, por desgraça, o mais evidente). Em suma, todo isto é um assunto de negociaçom, de relaçom de forças e nom som os marxistas que me irám contradizer. Os povos som o que som, todos nós, mal saídos da barbárie, devemos evitar enganar-nos facilmente uns aos outros. Eu acrescento, como mediterrâneo que sou, que estou profundamente convencido que um acordo medíocre vale mais do que umha guerra contínua, mesmo aparentemente beneficiosa. Todo o resto ou é tagarelice ou acocha outros fins, ou, pior, é a expressom de neuroses coletivas de medo e de agressom.

E vaiamos à populaçom propriamente palestiniana. É o ponto mais doloroso e o máis difícil a resolver e nom é seguro que possa encontrar rapidamente umha soluçom satisfatória sem sacrifícios graves para as duas partes. Os palestinianos estám infelizes, é um fato. Estám infelizes porque as famílias estám separadas por causa do estado de guerra que isola as regiões, porque têm muitas incertezas sobre o seu futuro, porque nom têm a plenitude dos seus direitos políticos, económicos e culturais, porque têm reivindicações nacionais insatisfeitas, porque som minoritários e esta condiçom nunca é confortável. Nós, judeus, sabemo-lo melhor do que ninguém.

Procurar a quem corresponde a culpa do seu deslocamento -os países árabes, as ameaças judias ou a sua ansiedade- já nom tem muito interesse. Discutir sobre o seu número exacto também é secundário. Lembrar que esta populaçom nem sempre foi autóctone nom serve de grande cousa. É verdade que muitos deles som vindos da Síria ou doutras partes, que foram atraídos pola prosperidade do país, fertilizado polos sionistas. É verdade que eles nem sempre tiveram umha consciência nacional. Mas, agora, estám lá, eles esqueceram donde vieram, a sua consciência colectiva afirmou-se e estám infelizes. Os palestinianos vivem um drama, eis o que os israelitas devem admitir e nunca esquecer. E eu sei que um grande número entre eles o sabe e o dizem, e muitos calam apenas porque temem pola sua própria segurança.

Dito isto seria absurdo pôr em questom a existência de Israel por causa da infelicidade dos palestinianos, é querer resolver um drama por um crime. Desde algum tempo tomam-se algumhas precauções da linguagem, é certo, nom deixa de ser um progresso: fala-se apenas em "transformar as estruturas do Estado sionista", "de des-sionizar Israel", de fundar no seu lugar um "Estado laico e democrático"... árabe. Eu disse que é preciso pensar nisto: nas condições atuais das populações isso seria a destruiçom do sionismo, isto é, do Estado judeu.

Entom? Entom é precisa umha soluçom política. Para além de dar algumha razom aos palestinos muito antes que os árabes, desde há muito tempo eu também teimo em lhes pedir que abandonem os seus excessos, os seus desenhos catastrofistas para os judeus e para eles próprios. Enquanto nom abandonem esta perspectiva romântica por umha conduta propriamente política nom se avançará um passo. É preciso que os palestinianos, e os árabes, admitam e nunca esqueçam que os judeus têm um Estado, ao lado deles, entre eles e que haverá de contar, tarde ou cedo, com ele para umha coexistência pacífica. Isto é, na prática e na ideologia, cessar de procurar a sua destruiçom porque entom nom haverá fim nem saída.

É preciso, em suma, umha pátria a cada umha das duas partes: Israel para os judeus, um Estado palestiniano para os palestinos com ou ao lado da Jordânia, a examinar.

Trecho tirado de "O sionismo, Israel e o Terceiro Mundo: semelhanças, especificidades e afirmações nacionais", de Albert Memmi (1972).

TESE 5ª: ISRAEL É UM GUERREIRO AGRESSOR COM O MELHOR EXÉRCITO DO MUNDO


Sim, de facto, Israel mantém cuidadosamente um exército e vence as suas guerras; mas se ele cessasse um instante de manter este exército, se fosse vencido umha só vez, o que seria dele? Eis de novo o senso autêntico da objeçom: qualquer um que desejar que Israel baixe a guarda sem oferecer uma alternativa deseja que ele desapareça. Sim, há guerra e violência entre judeus e árabes. Mas é isto tam surpreendente no Terceiro Mundo? Há pouco a Argélia e o Marrocos, duas nações tam irmãs, mesma língua, mesma religiom, que reivindicam umha unidade mítica, lutaram por um limite fronteiriço, deixando algumhas centenas de mortos sobre o terreno. Nom houve umha guerra entre a Tunísia e a Argélia, também por umha questom fronteiriça, apenas porque os tunisianos sabiam que eles nom resistiriam duas horas perante o exército argelino. É inútil dizer que ainda é culpa do colonizador francês, o que traçou as fronteiras artificiais: é preciso corrigir os erros da colonizaçom fazendo a guerra? Por que nom arranjar o assunto em família? Houve umha guerra entre o Egito e o Sudám, o Egito e o Iémen, entre a Transjordânia (hoje Jordânia) e os palestinianos, entre os curdos e os iraquianos. Esquecemos o Biafra? E o Bangladesh?

Relativamente à definiçom do agressor, vejam a que dam os russos: nom existe agressom, afirmam eles, caso se defenda a sua existência. É preciso tirar o primeiro? Sim, porque, insistem os russos, é a melhor maneira de se preservar: atacando. Quando um conflito parece insolúvel pola discusom e o discurso, pola diplomacia, é a violência a que se impõe sendo, portanto, secundário saber quem inicia. Ninguém se importou com saber se foi a Argélia ou o Marrocos quem abriu primeiro o fogo. Relembremos que foi a França quem atacou a Alemanha nazista em 1939 e nom ao invés. Mesmo ainda lamentamos que nom o tivesse feito antes, de maneira que Munique parece a muitos historiadores um erro que deu à Alemanha tempo de pôr a ponto a sua máquina de guerra, que esteve preste a esmagar o mundo.

A verdade é que o problema da violência é um dos mais complexos e difíceis que existem. [...] Ninguém pensa em reprovar a Argélia, o Marrocos, por manter exércitos, os quais, aconselhados e formados polos franceses nom som desdenháveis, aos indochineses de combater há trinta anos, aos guerrilheiros da América Latina, os seus atentados, amiudamente atrozes e cegos. Temo que a condenaçom da violência seja a condenaçom da violência do outro.

Nom é que os árabes, particularmente os palestinianos, nom sofrem este conflito e nom recolhem os frutos da violência. Mas os judeus também sofrem e morrem nele, e mais em proporçom. E nom apenas em Israel. Depois de tudo o que eu disse, e confirmado sem cessar, sobre as minhas ligações com os árabes, relembro mais umha vez, sem complacência, que nos países islâmicos os judeus sempre viveram na insegurança e a humilhaçom e, no mínimo, nisso que um termo de moda chama de violência fria, que ocasionalmente se torna em violência quente. Isto nom seria suficiente para explicar, do lado judeu, que eles estariam prontos à guerra para nom retornar a esse estado? A verdade enfim é que nom é a violência a que é um escândalo no mundo humano que continuamos a viver (ah, como desejaria, com todo o meu coraçom e com o meu espírito, que todos os conflitos algum dia entre indivíduos ou entre povos possam ser arranjados pola negociaçom!), o que escandaliza é a significaçom da violência. Mas se há conflito e violência entre os judeus e os árabes, esta nom é do modelo colonizador-colonizado, sendo os judeus os colonizadores e os árabes os colonizados. Os judeus acabam de libertar-se do colonizador inglês, de escapar dum extermínio quase bem sucedido, no qual um judeu em cada três perdeu a vida e nalguns países a totalidade das comunidades! Um número de judeus, igual  a esses refugiados árabes, mal acabam de abandonar os países árabes e os que ainda lá ficaram vivem na angústia. Do lado árabe existem nações já constituídas, para os quais a questom israelita nom tem qualquer relaçom com os seus problemas reais. Trata-se dumha assimilaçom muito absurda e cómoda. 

Existe violência entre árabes e judeus porque existe um conflito histórico entre duas aspirações nacionais poderosas e parcialmente concorrentes, e nom entre um movimento social e revolucionário (árabe) e um movimento nacionalista e imperialista (judeu). Igualmente, o conflito entre a URSS e Israel nom é de todo um conflito entre um país socialista e um país que nom o é, mas entre dous interesses nacionais, entre o que a URSS considera como as suas necessidades nacionais no Mediterrâneo e o entrave que Israel supõe à sua realizaçom.

É por isto que eu nom estou certo de que os regimes socialistas árabes, mesmo realmente e nom ficticiamente socialistas, teriam trilhado mais facilmente o caminho da paz com Israel. Nem que os socialistas em Israel seriam mais partidários a fazer a paz: uns e outros têm um problema nacional a resolver, que absorve momentaneamente o melhor das suas forças, que eles deveriam normalmente consagrar aos problemas sociais, os quais precisam da paz. Porém, esta dificuldade considerável nom terá sido sem proveito, pois tem a vantagem de mostrar que a luta que opõe judeus e árabes nom é umha contradiçom, mas um conflito. Em termos marxistas, isso significa que o sucesso de cada movimento nom passa pola necessária eliminaçom do outro, como na contradiçom proletário-patrom, ou opressor-oprimido, na que o opressor deve mudar de natureza e mesmo desaparecer para que o poder passe ao oprimido.

Portanto é exacto que o sionismo, o movimento de libertaçom nacional do povo judeu, acha-se em conflito com as aspirações nacionais das populações árabes, sobretodo imediatamente vizinhas do Estado de Israel. Aspirações árabes, pouco distintas na origem, mas que se afirmaram progressivamente, o que nom diminui a sua legitimidade atual. É um azar histórico que se deve tentar de solucionar. Além disso, eu já demosntrei que é falso achar que todas as justas causas estám automaticamente em harmonia entre elas. Existem conflitos amiúdo inevitáveis mesmo entre reivindicações e interesses. Em consequência nom serve para nada escolher um campo, de forma arbitrária ou seguindo umha linha política alheia ao assunto, a baptizar de socialista, colocando o outro no campo do nacionalismo chauvinista.

Em vez de nos resignar ao apocalipse, às guerras fratricidas e loucas nos povos que carecem de tudo, devemos procurar pacientemente as soluções, forem estas pobremente satisfatórias para todas as partes envolvidas.

Trecho tirado de "O sionismo, Israel e o Terceiro Mundo: semelhanças, especificidades e afirmações nacionais", de Albert Memmi (1972).