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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O NASCIMENTO DUM BLOCO GEOPOLÍTICO: O EIXO ISRAEL-GRÉCIA-CHIPRE

Ayre Mekel

Na semana passada vimos umha vaga sem precedentes de atividade diplomática que culminou com umha cimeira dos líderes israelita, grego e chipriota em Nicósia. Para Israel, este é um acordo win-win, que cria um novo bloco geopolítico no Mediterrâneo oriental em que as relações mais estreitas com a Grécia e Chipre contrarrestam até certo ponto a Turquia. O acordo também tem algum significado militar e de segurança.
Cimeira grego-israelita de Nicósia a 28 de janeiro de 2016. Foto: AP
Na terça-feira o ministro da Defesa israelita Moshe Ya'alon efetuou umha visita oficial a Atenas como convidado do seu homólogo grego Panos Kammenos. Na quarta-feira, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e vários colegas de gabinete reuniram-se em Jerusalém com o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, e com umha dúzia de membros do seu governo. Na quinta-feira, os líderes dos três países reuniram-se em Nicósia.

A visita de Ya'alon à Grécia serviu para acompanhar a intensa cooperaçom em matéria de defesa entre os dous Estados nos últimos anos, consistente principalmente na realizaçom de manobras conjuntas da força aérea e marinha. Desde 2014 um adido das Forças de Defesa de Israel está postado em Atenas, com a responsabilidade também para o Chipre.

Numha declaraçom na conferência de imprensa com o ministro da Defesa grego, Ya'alon disse que a Turquia apoia o terrorismo e compra petróleo da organizaçom Estado Islâmico. Na conclusom da cimeira de Nicósia, que Netanyahu qualificou de histórica, Netanyahu, Tsipras e o presidente chipriota Nicos Anastasiades emitiram umha declaraçom conjunta dizendo que sua cooperaçom nom era exclusiva, deixando claro que a Turquia poder-se-ia juntar ao grupo. Os líderes da Grécia e do Chipre salientaram que a cooperaçom nom é dirigida contra qualquer um outro estado, insinuando Turquia.

A sombra turca pairou sobre todas as reuniões da semana passada. Os relatórios respeitantes à existência de negociações de Israel com a Turquia para alcançar um acordo de reconciliaçom, com o incentivo dos Estados Unidos, empurrou os gregos e chipriotas para alargar a sua cooperaçom com Israel. Embora a Grécia afirme que as suas relações com a Turquia sejam normais e apesar de as conversações entre os líderes turcos e gregos do Chipre para tentar resolver a crise de 40 anos, Atenas e Nicósia ainda vêem a Turquia como um potencial inimigo.

A Grécia acusa à Turquia da movimentaçom deliberada de massas de refugiados árabes para o seu território a fim de a prejudicar, e o Chipre ainda está parcialmente sob ocupaçom turca desde 1974.

A política de Tsipras em relaçom a Israel é surpreendente e impressionante. Tsipras, cujo partido esquerdista Syriza era muito crítico de Israel, está a levar a cabo umha política centrista tanto dentro da Grécia quanto em assuntos externos. De facto, ele continua a melhorar as relações do seu país com Israel iniciadas em 2010.

Desde que as relações começaram a melhorar, a Grécia temia que umha reconciliaçom israelo-turca seria às suas expensas. Israel está a fazer esforços para dissipar esse medo. Tsipras quer provar que a Grécia tem o seu próprio estatuto no Mediterrâneo oriental e mesmo anunciou o seu desejo de ajudar a resolver o conflito israelita-palestiniano.

A Grécia está preparada para ajudar Israel nas instituições da Uniom Europeia e, de facto, já provou isso quando recentemente [18 de janeiro] encabeçou os adversários [Chipre, Bulgária, Hungria e Roménia] para marcar os produtos feitos nos assentamentos da Cisjordânia.

Esta é umha guinada na política grega na UE. Até 2010, a Grécia foi um dos Estados menos amigos de Israel, ao lado de Portugal e da Irlanda. O Chipre apoia quase automaticamente as posições da Grécia, de modo que dá à Grécia um voto duplo nas instituições da UE. Umha outra vantagem israelita é que pode incentivar a Síria para ser mais flexível nas negociações com Israel sobre a normalizaçom das relações.

O Chipre, com certeza, tem a sua própria pontuaçom com a Turquia e também está interessado em demonstrar a sua independência aos turcos. Israel e Chipre têm laços militares próximos, que começaram a ser forjados há alguns anos durante o mandato do Presidente Comunista Demetris Christofias. Esta política está a ser confirmada polo conservador Anastasiades.

A declaraçom conjunta em Nicósia após a cimeira tripartida disse que a cooperaçom dos estados iria concentrar-se em sete áreas: energia, turismo, investigaçom e tecnologia, ambiente, água, migraçom e combate ao terrorismo. Também se decidiu examinar o relançamento do projeto do gasoduto East Med, que poderia encaminhar gás natural de Israel para a Europa via Chipre e Grécia.

Esta última questom está longe de ser concluída. Israel desconhece quanto gás terá, se será capaz de exportá-lo, a quem e como. Houve conversações com a Grécia e o Chipre sobre este assunto durante vários anos sem alcançar resultados reais. Deitar um gasoduto é possível, mas é tecnicamente muito complicado e vai custar vários milhares de milhões de dólares. Empresas turcas também estám interessadas ​​no gás israelita, criando mais um incentivo para a Grécia e Chipre avançar nesta área.

A via terrestre mais direta seria através da Turquia, mas Israel quer evitá-la.

O autor, embaixador de Israel na Grécia entre 2010-14, é pesquisador associado sênior do Centro de Estudos Estratégicos Begin-Sadat da Universidade Bar-Ilan.

Postagem elaborada a partir de informações do jornal Haaretz, traduzidas para o galego-português por CAEIRO.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O SIONISMO E O NACIONALISMO IRLANDÊS

Umha longa e estranhamente historia interligada: o nacionalismo irlandês e o sionismo

Aidan Beatty

Na Páscoa de 1903, na cidade de Quichinau, no que é hoje a República da Moldávia, durante quatro dias teve lugar um motim anti-judeu. No grande esquema da história judaica, o Pogrom de Kishinev nom foi o mais violento dos acontecimentos; apenas 47 de Judeus foram mortos. Na história política moderna judaica, no entanto, o Pogrom de Quichinau (Kishinev na altura) foi de grande importância, já que sua violência acarretou um enorme aumento no apoio ao sionismo, movimento que, desde a sua fundaçom na década de 1880, pôs em causa a tese de que os Judeus podiam ter futuro na Diáspora. O Pogrom também se tornaria num grande evento internacional, confirmando, para muitos ocidentais, umha visom estereotipada da barbárie russa, bem como a visom de que os Judeus russos estavam nuhma situaçom perigosa enfravam um futuro incerto.

O Pogrom de Kishinev de 1903 converteu muitos Judeus ao sionismo e também convenceu o radical irlandês e jornalista Michael Davitt da justiça da causa do nacionalismo judaico.


Foi neste contexto de atençom internacional generalizada que o jornal "New York American" de William Randolph Hearst anunciou, em maio de 1903, que "Michael Davitt vai para a Rússia como comissário especial do "American's" para investigar os massacres dos Judeus." A alegaçom do jornal foi que "nengum homem está melhor equipado do que este irlandês amante da liberdade para dar ao mundo a verdadeira história da carnificina que já foi feita e da ruína que foi forjada polos fanáticos." [1] No seu livro subsequente sobre o Pogrom de Quichinau, "No Pale: a verdadeira história das perseguições antissemitas na Rússia" (1903), Davitt declarou "eu regressei da viagem através do Pale judeu como crente convicto na soluçom do sionismo." [2]

Nas suas pesquisas jornalísticas, Davitt também afirmou ter visto algo muito familiar entre a populaçom judaica das regiões do sul do Império Russo. Ele comparou a polícia czarista com a RIC e falou em como os Judeus russos estão "encurralados e cercados de leis penais," [3] um termo de uso inequívoco para um nacionalista irlandês! Davitt projetou claramente as suas próprias crenças nacionalistas irlandesas sobre a situaçom da Judiaria russa, e viu as duas nações, Irlandeses e Judeus, perante umha opressom compartilhada e umha compartilhada falta de soberania política.

De facto, o sionismo e o nacionalismo irlandês tiveram umha longa e estranhamente interligada história. Quando o governo britânico anunciou o seu apoio ao sionismo no início de novembro de 1917, foi sob a forma dumha carta do ministro dos Negócios Estrangeiros, Sir Arthur Balfour, a Lord Rothschild, um dos principais membros da comunidade judaica britânica. Balfour fora Secretário-Chefe para a Irlanda e era um acérrimo opositor de qualquer autonomia política irlandesa. Pouco tempo após a emissom da Declaraçom de Balfour, o governo britânico invadiu a Palestina e, em 25 dezembro, apossou-se de Jerusalém, garantindo o que David Lloyd George chamou de "presente de Natal para o povo britânico."

Porém, este brilho em breve se desgastou, enquanto escalou a oposiçom palestiniana ao domínio britânico e ao sionismo, começando com os tumultos Nebi Musa da Páscoa de 1920. Encontrando-se no controlo dum país cada vez mais volátil, os Britânicos chamaram Hugh Tudor. Veterano da Segunda Guerra Boer, Tudor tinha terminado recentemente a sua postagem na Irlanda como chefe dos Black and Tans e muitos ex-Tans juntaram-se a ele na Palestina, ao se estabelecer a força policial da Grã-Bretanha lá. Estes homens, provavelmente, sentiram umha sensaçom estranha de déjà vu durante a Revolta Árabe de 1936-39, quando umha campanha de guerrilha popular fez com que os britânicos perdessem o controlo de grande parte do país. De facto, um dos melhores estudos sobre a Palestina britânica chama apropriadamente este o período de "Irlanda na Palestina, "[4], e essa sensaçom de déjà vu em breve iria intensificar-se.

Em 1939, quando a guerra pairava na Europa, o governo britânico, desesperado para pacificar esta exploraçom imperial estrategicamente importante, publicou um Livro Branco que limitava muito a imigraçom para a Palestina. Tal suspensom da imigraçom sionista foi umha exigência central palestiniana, mas da perspectiva judaica isso era abominável; enquanto o controlo de Hitler lastrava pola Europa, o acesso a um dos últimos refúgios judeus estava a ser cortado.

Muitos membros da polícia britânica no Mandato da Palestina eram veteranos da contra insurgência na Irlanda.


Enquanto a liderança sionista dominante achou que nom tinha escolha mas para o lado dos britânicos durante a guerra contra o nazismo, elementos nacionalistas mais radicais sentiram que a Grã-Bretanha devia ser atacada independentemente. Muitas destas últimas forças uniram-se em torno de Avraham Stern, e ficou conhecido como LEHI (Lochamei Herut Yisrael, Combatentes pola Liberdade de Israel).

Quando os guerrilheiros sionistas confrontaram as forças britânicas na Palestina no final da década de 1930 e de 40, foi na Irlanda e no IRA que se inspiraram


Os paralelos com a Irlanda durante e antes da guerra mundial eram claros, e Stern devidamente passou a traduzir "A Vitória do Sinn Féin" de P.S.O'Hegarty para o hebraico. [5] A influência involuntária de O'Hegarty nos sionistas é talvez mais insinuada polo fato de Yitzhak Shamir, futuro primeiro-ministro israelense, mas ativista clandestino do LEHI na década de 1940, escolheu o nome de guerra 'Michael', em homenagem a Michael Collins. [6] Do mesmo modo, Avsahlom Haviv, membro do ETZEL (Irgun Tzvai Leumi, a Organizaçom Militar Nacional), um grupo sionista um pouco mais moderado do que o LEHI, citou George Bernard Shaw durante o seu julgamento por ações anti-britânicas violentas, e acusou os britânicos de "afogamento do Levante irlandês em rios de sangue ... a Irlanda é agora livre apesar de vocês'. [7] Que um sionista radical de direita estivesse tam atraído polo nacionalismo irlandês deveu ter sido mais umha experiência ímpar para aqueles veteranos da Guerra da Independência Irlandesa agora servindo na Polícia Palestina.

Nom foi apenas os sionistas mais radicais, porém, que viram um paralelo com a Irlanda. Os sionistas moderados também se interessaram com isso. Isto foi em parte por causa da presidência irlandesa da Liga das Nações, sob cujos auspícios o controlo britânico sobre a Palestina foi supostamente concedido. Mesmo que a Liga das Nações permaneceu como umha organizaçom de papel, esta criou umha situaçom divertida, ao fazer com que a Grã-Bretanha fosse, na teoria, responsável perante um órgão chefiado por umha liderança nomeada por de Valera. Também significou que Ze'ev Jabotinsky, um sionista de direita, embora aquele que nunca foi tam radical como os seus seguidores, estava em Dublim no início de 1938 em busca de apoio diplomático para o seu movimento.

Ele foi apresentado a de Valera por Robert Briscoe, ele próprio de origem judaica, bem como um defensor do sionismo revisionista. Jabotinsky visitou o Dáil, reuniu-se com os principais membros da pequena comunidade judaica de Dublim e no final de sua visita pronunciou num discurso que "eu sempre fui um admirador" de de Valera ', e eu acho que ele tem umha personalidade mais marcante." [8] De facto, Robert Briscoe, na sua autobiografia de 1958, fornece um relato fantasioso da reuniom de Jabotinsky com de Valera. O Taoiseach aparentemente era cético quanto à justeza do projeto sionista, umha situaçom para a qual o visitante teve uma resposta:

"Senhor de Valera" -disse Jabotinsky- "Eu tenho lido a história da Irlanda. Como resultado da grande fome de 1847 e 1848, eu acho que a populaçom caiu de 8 para 4 milhões. Agora supondo que a populaçom irlandesa tivesse sido reduzida a cinquenta mil e o país tivesse sido reassentado por Galeses, Escoceses e Ingleses, o senhor, entom, teria desistido do pedido dumha Irlanda para os irlandeses? "

O Taoiseach irlandês Eamon de Valera reuniu-se com o ativista sionista Zeev Jabotinsky através do ativista judaico do Fianna Fail Robert Briscoe em 1938


Quando de Valera retorquiu que os Irlandeses nunca iriam abandonar a Irlanda, Jabotinsky disse que nem os Judeus poderiam desistir da sua reivindicaçom para a Palestina. Briscoe registra que "eu nom tenho certeza, mas acho que o Chefe estava convencido por estes argumentos. Certo é que eu era. " [9]

Quando a Comissom Real de 1937 sobre a Palestina recomendou a partilha da Palestina, os sionistas tinham outro motivo para se interessar com o curso da história irlandesa. Judah Leb Magnes, chefe da Universidade Hebraica de Jerusalém e vulto  da tese da binacionalidade, umha vertente utópica do sionismo que procurava criar um Estado Judeu-Árabe harmonioso, foi tam longe para buscar os pensamentos de Eamon de Valera sobre a partiçom. A carta original Magnes nom parece ter sobrevivido (nom está incluída tanto nos papéis de de Valera em UCD nem nos papéis de Magnes no Arquivo Central para a História do Povo Judeu na Universidade Hebraica de Jerusalém), mas na resposta que se conserva de de Valera, ele dá umha ótica íntima dos seus pontos de vista sobre partiçom, traça umha comparaçom explícita entre a Irlanda e na Palestina e sugere que Magnes via as cousas da mesma forma:

"Eu nom conheço o problema da Palestina como o senhor, mas a partir do conhecimento do que significa a partiçom na Irlanda agora, e do que estou convencido de que vai significar no futuro, eu cheguei à mesma conclusom que o senhor tem, ou seja: somente por negociaçom e livre acordo livre entre Judeus e Árabes... pode haver uma soluçom satisfatória. Considero que a partiçom é talvez a pior das muitas soluções que foram propostas". [10]

Na verdade, quando de Valera foi visitado nesta altura polo líder britânico sionista, Prof. Selig Brodetsky, Robert Briscoe alertou-o para "nom defender a divisom da Palestina, explicando-lhe como o Chefe reagiria diante dessa palavra." [11]

Usando umha analogia com a Irlanda, de Valera desaconselhou a partilha da Palestina entre Árabes e Judeus


Seja como for, a Palestina foi dividida pouco mais de umha década depois, e no ano seguinte o entom ministro dos Negócios Estrangeiros, Sean McBride, anunciou ao Dáil: "O nosso sofrimento comum de perseguiçom e certas semelhanças nas histórias das duas raças cria um vínculo especial de simpatia e compreensom entre os povos irlandês e judeu." [12]

Mas, com certeza, assim como existem comparações a serem feitas entre sionismo e nacionalismo irlandês, existem também muitas diferenças. O puritanismo sexual do nacionalismo irlandês, diretamente influenciado polo catolicismo conservador, foi o grande ausente no sionismo. Além disso, o sionismo nos seus anos de formaçom foi muito mais próximo da ideologia socialista. Assim sendo, o início da história do movimento sionista é salpicado com nomes como Poalei Tzion [Trabalhadores de Siom] e Achdut HaAvoda [Unidade do Trabalho], bem como o movimento Kibbutz. Isso está em contraste gritante com o nacionalismo irlandês contemporâneo, que muitas vezes gostava de afirmar estar acima das ideologias (embora tal afirmaçom seja, com efeito, inerentemente ideológica!).

O sionismo estava desprovido do puritanismo sexual comum no nacionalismo irlandês do início do século XX e foi mais influenciado polas ideias socialistas. Teve também muito mais sucesso em reviver o hebraico do que os nacionalistas irlandeses em reviver a língua irlandesa.


É irônico, entom, que desde o final da década de 1960, enquanto a corrente principal do sionismo se foi movendo cada vez mais para a direita, o republicanismo irlandês foi indo na direçom oposta, assumindo tons mais explicitamente socialistas e anti-imperialistas, e descobrindo um suporte para o nacionalismo palestino. Em 2002, por exemplo, durante o auge da Segunda Intifada, An Phoblacht, declarou que: "O presidente do Sinn Féin Gerry Adams expressou o apoio aos palestinianos sitiados e o seu líder ... O tempo de Ariel Sharon no poder tem sido marcado por ações repressivas semelhantes aos piores anos da opressom britânica na Irlanda". [13] Isto dista muito longe, de facto, do apoio de Michael Davitt ao sionismo cem anos atrás ou da declaraçom dos tempos em que "Israel representa o triunfo do Sinn Féin". [14]

Talvez a diferença mais óbvia, porém, é o sucesso que teve o renascimento da língua hebraica, em contraste com a falha gritante do renascimento da língua irlandesa. Por volta de 1940, nom apenas havia umha relativamente rica cultura da língua hebraica impressa na Palestina, mas o hebraico também se tornara numha próspera língua nacional, com umha gíria bem desenvolvida, muitas vezes grafada, surpreendentemente, em iídiche ou árabe. Num certo momento, os líderes sionistas aceitaram que umha língua vernácula nom podia conservar-se gramaticalmente pura ou livre de palavras de empréstimo ou de influência estrangeira (a partir dumha perspectiva sionista nom importa a problemática dainfluência estrangeira) e esta foi umha das principais razões para o sucesso do renascimento da língua hebraica.

Desde a década de 1960 os republicanos irlandeses identificam-se mais com a causa palestiniana, acusando Israel de "ações repressivas parecidas com os piores anos de opressom britânica na Irlanda"


O fracasso dos nacionalistas irlandeses a aceitar algo como isto, antes ou depois de 1922, foi um dos elementos chave do seu fracasso para reviver a língua irlandesa. Eles continuaram a ver o irlandês como o repositório dumha cultura gaélica pura, livre de influências inglesas, e assim continuou a obcecar sobre noções de pureza linguística. Mas a pureza linguística, como pureza racial ou nacional, é um mito. Os nacionalistas irlandeses nom conseguiram reconhecer que todas as línguas vernáculas estám em movimento constante, pegando constantemente de empréstimos doutras línguas, e raramente se conservam gramaticalmente puras. Ao invés de proteger e revitalizar a língua, o Estado irlandês, portanto, em última análise, sufocou-a.

Texto tirado de The Irish History, traduzido para o galego-português por CAEIRO.

O autor, PhD na Universidade de Chicago, explora a partir do seu doutoramento as ligações entre o nacionaliso irlandês e judaico.

NOTAS:
[1] New York American, 13 maio 1903, em TCD Michael Davitt Papers MS9670 Press Cuttings, September 1902-May 1903.

[2] Michael Davitt. Within the Pale: The True Story of Anti-Semitic Persecution in Russia (New York: Barnes and Noble, 1903) 86.

[3] Ibid, 233-234, 82.

[4] Tom Segev.  One Palestine, Complete: Arabs and Jews Under the British Mandate (New York: Henry Holt, 2001) 415

[5] Colin Shindler. The Land Beyond Promise: Israel, Likud and the Zionist Dream (London: I.B. Tauris, 2002) 31

[6] Colin Shindler. Letter: ‘Sinn Fein [sic] and the Zionists’ The Guardian, 23 May 2003.
http://www.guardian.co.uk/theguardian/2003/may/23/guardianletters

[7] Shindler, ‘Land Beyond Promise’ (2002) 31.

[8] Irish Independent, 8 & 12 janeiro 1938.

[9] Robert Briscoe; Alden Hatch. For the Life of Me (Boston MA: Little, Brown & Co., 1958) 264-265.

[10] CAHJP Judah Leb Magnes Papers P3/2424, Letter to Judah Leb Magnes from Eamon De Valera, 10 September 1937.

[11] Briscoe, ‘For the Life of Me’ (1958) 266.

[12] Shulamit Eliash, The Harp and the Shield of David: Ireland, Zionism, and the State of Israel (London: Routledge, 2007) 102. Quoted in Peter Hession. ‘Advanced Nationalism and Zionism: Contradictions and Explanations’, paper presented at Irish and Jewish Identities: Links and Parallels, Conference, University of Chicago, 22 February 2011.

[13] ‘Defend Palestine’, An Phoblacht, 4 abril 2002. http://www.anphoblacht.com/contents/8600

[14] Sinn Féin, 16 Mar. 1912, p. 2.  Quoted in Hession ‘Advanced Nationalism’ (2011).

sábado, 29 de novembro de 2014

QUANDO A UNIOM SOVIÉTICA PATROCINAVA ISRAEL

MICHEL RÉAL

Em 17 de maio de 1948 a URSS reconhecia o Estado de Israel, criado três dias antes [1]. Este gesto, considerado umha grande vitória polo movimento sionista, marcava o resultado de vários anos de esforços. Os primeiros contatos tiveram lugar em Londres, nos inícios de 1941. Por enquanto, a URSS continuava a ser aliada da Alemanha nazista, o presidente da Organizaçom Sionista Mundial, Chaim Weizmann, reunia-se com o embaixador soviético Ivan Maiski. De súbito, os dous referiram-se ao futuro da Palestina. Weizmann militava pola criaçom dum Estado judeu. David Ben Gurion, dirigente do Yishuv, a comunidade judaica na Palestina, e futuro primeiro-ministro de Israel, continuaria com as trocas umhas semanas mais tarde. Apesar da oposiçom histórica do movimento comunista ao projeto sionista, o novo Estado nom iria em contra dos interesses soviéticos; porém, até 1946, Moscovo evitou o seu apoio.


O apoio inicial da URSS foi fulcral para a criaçom do Estado de Israel

A mudança produziu-se em maio de 1947. O Reino Unido, que conseguira da Sociedade das Nações (SDN) em 1922, o mandato sobre a Palestina, decidiu reencaminhar a questom para a ONU. Encargada de decidir sobre o futuro desse território, esta entom deu os primeiros passos. Andrei Gromyko, novo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros soviético, anunciou que a URSS poderia apoiar a divisom da Palestina em dous Estados, um judeu e um outro árabe, se a soluçom binacional resultasse impossível de implementar.

Desde entom e até 1949 Israel contou com o suporte político, militar e demográfico da URSS de Estaline, mesmo quando o dirigente soviético iniciou umha campanha de repressom contra os Judeus, devida em grande parte à luta polo poder no cimo do partido-estado.

Na cena diplomática, a URSS desempenhou um papel central na adopçom do Plano de Partilha da Palestina por parte da ONU, a 29 de novembro de 1947. Para além do seu, contribuiu com o voto dos seus países satélites, com a exceçom, nunca explicada, da Jugoslávia. Assim mesmo, forneceu a Israel dos recursos que mais precisava: homens e armamento.

A batalha demográfica foi vital para o sucesso do projeto das lideranças sionistas. A populaçom judaica em Palestina representava 600.000 pessoas em 1946, quer dizer, um terço do total. Deviam, portanto, modificar a relaçom de forças. A URSS contribuiria para isso de maneira decisiva.

Em primeiro lugar, forneceu candidatos para que viajassem à Palestina. Ao longo de 1946 permitiu a saída de mais de 150.000 judeus polacos para as zonas de ocupaçom estado-unidense e britânica na Alemanha, onde se sumaram aos campos de pessoas deslocadas. Ora bem, esses sobreviventes dos campos nazis, ou essas pessoas que, ao finalizar a guerra, se achavam sem lar nem família, nom tinham outra alternativa que a Palestina. Moscovo agravou deliberadamente este problema, pondo ao Reino Unido numha difícil situaçom. Londres sofreu umha forte pressom nom apenas do movimento sionista, mas também dos Estados Unidos. Os americanos nom a queriam receber estes refugiados no seu território, e temiam o efeito na opiniom pública das imagens desses barcos de imigrantes ilegais rumo para a Palestina expulsos sem consideraçom polas forças britânicas.

Antes de 1948 a URSS apoiou direta ou indiretamente as operações da imigraçom clandestina organizadas pola Agência Judaica desde os países da Europa do Leste, especialmente desde Romênia e Bulgária. Dous terços dos Judeus chegaram à Palestina entre 1946 e 1948 provenientes destes dous paises.

Após o 15 de maio de 1948 e a proclamaçom da Independência de Israel, a questom da imigraçom tornou-se ainda mais vital. Doravante, era preciso fornecer recrutas ao novo exército. Noutras palavras, alimentar os fluxos migratórios significava participar no esforço bélico israelita. Destarte, entre 1948 e 1951, mais de 300.000 Judeus da Europa do Leste chegaram a Israel, isto é, metade do total de imigrantes ao longo desse periodo.

Aliás, Moscovo apoiou o novo Estado hebraico noutra frente da batalha demográfica: o da homogeneizaçom da sua populaçom, que acarretou a saída, e acima de todo a expulsom, de mais de 700.000 árabes-palestinianos. A URSS eximiu a Israel de qualquer responsabilidade e acusou a Londres. Em dezembro de 1948, Moscovo votou em contra a Resoluçom 194 da Assembleia Geral da ONU, que previa a possibilidade dum regresso.

No âmbito militar, a URSS brindou a sua ajuda à causa sionista mesmo antes da criaçom de Israel. A partir do mês de maio de 1947, a compra de armas tornou-se umha prioridade para Ben Gurion. Após as pressões sovieticas, Checoslováquia tornou-se no seu principal fornecedor. Entre 1948 e 1951, Praga entregou armas ligeiras e pesadas, mesmo tanques e aviões de combate, e forneceu treino militar. Em 1968, Ben Gurion estimou que essas armas "salvaram o país": "Constituiram a ajuda mais importante que obtivemos. (...) Duvido muito que sem elas tivéssemos podido sobreviver o primeiro mês".

Durante este primeiro período, que abrange a década de 1941-51, Israel obteve da URSS, em todos os âmbitos, um apoio que superou as suas expetativas, sem por isso poupar os seus apoios ocidentais, encabeçados polos EUA. No entanto, vários episódios iriam mais tarde semear a discórdia, chegando mesmo à ruturra das relações diplomáticas em fevereiro de 1953.

Em primeiro lugar, produziu-se a interrupçom total da imigraçom de Judeus da Europa do Leste, onde as campanhas antissemitas alastravam. Logo a seguir, teve lugar o Processo de Praga, em novembro de 1952. Em consequência do divórcio entre Estaline e a Jugoslávia do marechal Tito, em 1948, as "democracias populares" da Europa do Leste viveram grandes expurgos. Na Checoslováquia, o secretário geral do Partido Comunista, Rudolf Slansky, detido em novembro de 1951, foi acusado de ter tramado um complô "imperialista sionista". Durante o processo, 11 dos 14 acusados eram Judeus e explicitamente foram designados como tais.

A tudo isto acrescentar o caso das "batas brancas". Em 13 de janeiro de 1953, o Pravda publicou um comunicado no que se acusava a um grupo de "médicos sabotadores", na sua maioria judeus, de ter assassinado lideranças soviéticas por ordem dumha organizaçom judaica internacional. Vários vultos foram detidos, entre os quais, Polina Zhemchuzhina, a mulher de Vyacheslav Molotov, braço direito de Estaline; Ivan Maiski, ex-diplomático que desempenhara um papel chave nos contatos com o movimento sionista; ou mesmo Maria Weizmann, irmã do presidente israelita, Chaim Weizmann.

A morte de Estaline, a 5 de março de 1953, deu cabo das tensões entre os dous países e marcou o fim da campanha contra os judeus soviéticos. As relações diplomáticas foram restelecidas em julho. Iniciava-se umha nova era. Porém, nom houve um retorno para a idade de ouro dos anos 1947-49. A guerra de junho de 1967, na que Moscovo apoiou o Egito e os seus aliados árabes, conduziu a umha nova rutura das relações diplomáticas. Nom seriam restabelecidas até 1991, poucas semanas antes da desapariçom da URSS.

Michel Réal é historiador.

[1] Sobre o período 1948-53, cf. Laurent Rucker, "Staline, Israël et les Juifs", Presses universitaires de France (PUF), Paris, 2001.

[2] Citado em Uri Bialer, "Between East and West: Israel Foreign Policy Orientation 1946-56", Cambridge University Press, 1990.

Texto tirado do nº 227 de Le Monde Diplomatique (setembro de 2014), traduzido para o galego-português por CAEIRO.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

PROCURANDO A PAZ EM ISRAEL E PALESTINA A PARTIR DA SOCIEDADE CIVIL

Em 19 de novembro em Katakrak (Iruña) e em 20 no salom de atos das JJGG de Biscaia (Bilbau), Anat Ben Nun, representante da organizaçom Paz Agora e Saman Khoury, representante da associaçom Palestinian Peace Coalition, vam oferecer no País Basco duas palestras organizadas pola Fundaçom Ezquerra Berri e moderadas polo deputado de Aralar/Amaiur Jon Iñarritu.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ANTISSEMITISMO E NACIONAL-SOCIALISMO (e Parte IV)

Moishe Postone

O antissemitismo moderno é, portanto, umha forma particularmente perniciosa do fetiche. O seu poder, e o perigo que representa, acha-se em que propõe umha visom do mundo que explica e dá forma a certos tipos de insatisfaçom anticapitalista que deixam o capitalismo incólume, ao atacar as personificações desta forma social. O antissemitismo, assim entendido, permite-nos apreender um momento essencial do nazismo como movimento anticapitalista reduzido, um movimento caracterizado polo ódio ao abstrato, pola hipostasiaçom do concreto existente e por umha missom resoluta e impiedosa, mas nom necessariamente animada polo ódio: libertar o mundo da fonte de todo o mal.

O extermínio da judiaria europeia mostra que é demasiado simplista definir o nazismo como um movimento de massas com elementos anticapitalistas que deixaria cair essa pele, o mais tardar, em 1934 (Röhm Putsch) (13), umha vez alcançado o seu objetivo de conquistar o poder estatal. Em primeiro lugar, as formas de pensamento ideológicas nom som simples manipulações conscientes. Em segundo lugar, esta conceçom nom compreende a essência do "anticapitalismo" nazi, o grau em que estava intrinsecamente ligado a umha visom antissemita do mundo. Auschwitz ilustra essa ligaçom. É certo que o "anticapitalismo" concreto e plebeu de mais das SA foi eliminado em 1934; o mesmo nom sucedeu, contodo, com o impulso antissemita, o "conhecimento" de que a fonte de todo o mal era o abstrato, o Judeu.

A fábrica capitalista é um local onde se produz valor, algo que "infelizmente" deve tomar a forma dumha produçom de bens, de valores de uso. O concreto é produzido enquanto suporte necessário do abstrato. Os campos de extermínio nom eram umha versom terrível dessa fábrica, mas, ao invés, devem ser vistos como a sua negaçom grotesca, ariana, "anticapitalista". Auschwitz era umha fábrica para "destruir o valor", quer dizer, para destruir as personificações do abstrato. A sua organizaçom correspondia a um processo industrial diabólico cujo fim era "libertar" o concreto do abstrato. O primeiro passo para conseguir este fim consistiu em desumanizar os Judeus, isto é, tirar deles a "máscara" de humanidade, de especificidade qualitativa, e revelar os Judeus como aquilo que "realmente som": sombras, cifras e abstrações numéricas. O segundo passo consistiu em exterminar essa abstraçom, transformá-la em fumo, tentando durante o processo despojá-la dos traços remanescentes do "valor de uso" material e concreto: vestimento, ouro, cabelo e sabom.

É Auschwitz, e nom a tomada polos nazis do poder em 1933, foi a verdadeira "revoluçom alemã", a verdadeira tentativa de "derrubar" nom apenas a ordem politica, mas a formaçom social existente. Este ato devia salvar o mundo da tirania do abstrato. Durante este processo, os nazis "libertaram-se" da humanidade.

Os nazis perderam a guerra contra a URSS, os Estados Unidos e a Grã Bretanha. Eles ganharam a sua guerra, a sua "revoluçom" contra os Judeus da Europa. Eles nom apenas conseguiram assassinar seis milhões de crianças, mulheres e homens judeus, conseguiram dar cabo dumha cultura, umha cultura muito antiga, a do judaismo europeu. Esta cultura caracterizava-se por umha tradiçom que incorporava umha tensom complicada entre a particularidade e a universalidade. Esta tensom interna era duplicada numha tensom externa, que caracterizava o relacionamento dos Judeus com o ambiente cristão circundante. Os Judeus nunca formaram umha parte completamente integrante das sociedades em que viviam, nem viveram nunca completamente aparte dessas sociedades. Os resultados desta situaçom foram frequentemente desastrosos para os Judeus. Por vezes revelaram-se frutuosos. Este campo de tensom sedimentou-se na maioria dos indivíduos judeus após a sua emancipaçom. A derradeira resoluçom desta tensom entre particular e universal é, na tradiçom judaica, umha funçom do tempo, da história, da vinda do Messias. Talvez, contodo, em face da secularizaçom e assimilaçom, os Judeus europeus tivessem ultrapassado essa tensom. Talvez a sua cultura tivesse desaparecido gradualmente enquanto tradiçom viva, antes dumha resoluçom entre particular e universal ser alcançada. Esta questom nunca será respondida.

(13) "Röhm Putsch", também conhecido por "Noite das Facas Longas" ou "Noite dos Longos Punhais", foi umha purga que aconteceu na Alemanha, na noite do dia 30 de junho para o dia 1 de julho de 1934, quando o Partido Nazi decidiu executar dezenas dos seus membros, a maioria dos quais pertencentes à chamada Sturmabteilung (SA), umha façom paramilitar liderada por Ernst Röhm. A ocasiom foi tambem aproveitada para perseguir comunistas e sociais-democratas, bem como conservadores olhados com desconfiança.
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Este ensaio foi publicado por Moishe Postone em 1986 (em "Germans and Jews since the Holocaust: The Changing Situatin in West Germany", edições Holmes&Meier, pp. 302-314).

Pode-se acessar a este ensaio na sua versom original em inglês ou na sua traduçom para o francês. Também se pode aceder à versom em português (traduçom de Nuno Miguel Machado).

domingo, 5 de outubro de 2014

ANTISSEMITISMO E NACIONAL-SOCIALISMO (Parte III)

Moishe Postone

Embora a ligaçom íntima entre o tipo de "anticapitalismo" que impregnou o nacional-socialismo e o antissemitismo tenha sido indicada, resta a questom do porque de a interpretaçom biológica da dimensom abstrata do capitalismo se ter centrado nos Judeus. No contexto europeu, esta "escolha" nom foi de jeito algum fruto do acaso. Os Judeus nom poderiam ter sido substituídos por qualquer outro grupo. As razões disso som múltiplas. A longa história do antissemitismo na Europa e a respetiva identificaçom do judeu ao dinheiro som muito conhecidas. A rápida expansom do capital industrial ao longo dos três últimos decênios do século XIX coincidiu com a emancipaçom política e cívica dos Judeus na Europa Central. Assistiu-se a umha verdadeira proliferaçom dos Judeus nas universidades, as profissões liberais, o jornalismo, as belas-artes e o comércio a retalho. Os Judeus tornam-se rapidamente visíveis na sociedade civil, particularmente em esferas e profissões em expansom e que eram associadas à nova forma que a sociedade estava a adoptar.
Com a emancipaçom política e cívica, os Judeus sairam das trevas.
Poder-se-iam referir ainda mais outros factores, mas há um que pretendo realçar. Tal como a mercadoria, entendida enquanto forma social, exprime o seu "duplo carácter" na oposiçom exteriorizada entre o abstracto (dinheiro) e o concreto (mercadoria), também a sociedade burguesa se caracteriza pola divisom entre o Estado e a sociedade civil. Para o indivíduo, esta separaçom apresenta-se como umha entre o indivíduo como cidadão e a pessoa. Como cidadão, o indivíduo é abstrato. Isto exprime-se, por exemplo, na ideia da igualdade de todos perante a lei (abstrato) ou no princípio "um homem, um voto". Como pessoa, o indivíduo é concreto , inserido nas relações de classe reais que som consideradas "privadas", quer dizer, pertencentes à sociedade civil que nom possuem qualquer expressom política. Porém, na Europa o conceito de naçom enquanto entidade puramente política, abstraída da substancialidade da sociedade civil, nunca foi plenamente realizada. A naçom nom era apenas umha entidade política, era também concreta, determinada por umha comunidade de língua, de história, de tradições e de religiom. Neste sentido, o único grupo na Europa que cumpria a determinaçom de cidadania como abstraçom política pura, eram os Judeus emancipados politicamente. Eles eram cidadãos alemãos ou franceses, mas nom eram realmente Alemãos ou Franceses. Eles pertenciam abstratamente à naçom, mas raramente em concreto. Aliás, eles eram cidadãos da maioria dos países europeus. A qualidade de abstraçom, característica nom apenas da dimensom do valor no seu imediatismo, mas também, mediatamente, do Estado e lei burgueses, tornou-se intimamente associada aos Judeus. Numha época em que o concreto era exaltado contra o abstrato, contra o "capitalismo" e o Estado burguês, esta identificaçom tornou-se numha associaçom fatal. Os Judeus eram desenraizados, cosmopolitas e abstratos.
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Este ensaio foi publicado por Moishe Postone em 1986 (em "Germans and Jews since the Holocaust: The Changing Situatin in West Germany", edições Holmes&Meier, pp. 302-314).

Pode-se acessar a este ensaio na sua versom original em inglês ou na sua traduçom para o francês. Também se pode aceder à versom em português (traduçom de Nuno Miguel Machado).

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ANTISSEMITISMO E NACIONAL-SOCIALISMO (Parte II)

Moishe Postone

Estas considerações levam-nos ao conceito marxiano de fetiche, cuja intençom estratégica era de fornecer umha teoria sócio-histórica do conhecimento alicerçada na distinçom entre a essência das relações sociais capitalistas e as suas formas manifestas. Subjazente ao conceito de fetiche está a análise marxiada da mercadoria, do dinheiro e do capital, nom enquanto simples categorias económicas, mas antes como formas de relações sociais específicas que caracterizam essencialmente o capitalismo. Nesta análise, as formas capitalistas das relações socias nom aparecem como tal, mas apenas se exprimem sob umha forma objetivada. No capitalismo, o trabalho nom é apenas umha atividade produtiva social ("trabalho concreto"), mas atua igualmente, no lugar das relações sociais abertas, como mediaçom social ("trabalho abstrato"). Assim sendo, o seu produto, a mercadoria, nom é apenas um produto no qual está objetivado o trabalho concreto; é também umha forma de relações sociais objetivadas. No capitalismo, o produto nom é um objeto mediado socialmente por formas transparentes de relações sociais e de dominaçom. A mercadoria, enquanto objetivaçom das duas dimensões do trabalho no capitalismo, é a sua própria mediaçom social. A mercadoria possui, portanto, um "duplo carácter": valor e valor de uso. Enquanto objeto, a mercadoria expressa e ao mesmo tempo oculta relações sociais que nom possuem qualquer outro modo "independente" de expressom. Este modo de objetivaçom das relações sociais é a sua alienaçom. As relações sociais fundamentais do capitalismo adquirem umha vida própria quase-objetiva. Elas constituem umha "segunda natureza", um sistema de dominaçom e de constrangimento abstratas que, embora social, é impessoal e "objetivo". Estas relações nom parecem ser sociais de todo, mas naturais. Ao mesmo tempo, as formas categoriais exprimem umha concepçom particular, socialmente constituída, da natureza em termos dum comportamento objetivo, regrado e quantificável dumha essência qualitativamente homogênea. As categorias marxianas expressam simultaneamente relações sociais particulares e formas de pensamento. O conceito de fetiche refere-se a formas de pensamento baseadas em percepções que ficam prisioneiras às formas de aparência das relações sociais capitalistas (7).

Quando considerarmos as características específicas do poder atribuido aos Judeus polo antissemitismo moderno (abstraçom, intangibilidade, universalidade e mobilidade) é impressionante que as mesmas sejam todas características da dimensom de valor das formas formas sociais analisadas por Marx. Aliás, esta dimensom, tal como o suposto poder dos Judeus, nom aparece como tal, mas sempre na forma dum veículo material: a mercadoria.

Chegados aqui, gostaria de começar por umha análise breve da maneira como as relações sociais se apresentam. Vou portanto tentar explicar a personificaçom descrita acima e esclarecer o porque de o antissemitismo moderno, que se opôs a tantos aspetos da "modernidade", ser manifestamente omisso, ou mesmo otimista, no tocante ao capital industrial e à tecnologia moderna.

Comecemos com um exemplo da forma-mercadoria. A tensom dialéctia entre valor e valor de uso da forma-mercadoria implica que este "duplo carácter" seja exteriorizado materialmente na forma-valor. Assim sendo, aparece "duplicado" enquanto dinheiro (a forma manifesta do valor) e enquanto mercadoria (a forma manifesta do valor de uso). Embora a mercadoria seja umha forma social que expressa tanto o valor como o valor de uso, o resultado desta exteriorizaçom é que a mercadoria aparece apenas como a sua dimensom de valor de uso, como algo puramente material e "corpóreo". O dinheiro, por outro lado, aparece entom como o único depósito do valor, como a manifestaçom do puramente abstrato em vez de se apresentar como a forma manifesta exteriorizada da dimensom de valor da própria mercadoria. A este nível de análise, a forma de relações sociais materializadas específicas do capitalismo, aparece como a oposiçom entre o dinheiro, a natureza abstrata e a natureza "corpórea".

Um dos aspectos do fetiche é, portanto, o facto de as relações sociais capitalistas nom aparecem como tal e, para além disso, apresentam-se de forma antinómica, como a oposiçom entre o abstrato e o concreto. Dado que, adicionalmente, ambos os lados da antinomia som objetivados, cada um deles parece ser como quase-natural. A dimensom abstrata aparece sob a forma de leis naturais abstratas, "objetivas" e universais; a dimensom concreta aparece como natureza puramente "corpórea". A estrutura das relações sociais alienadas que caracterizam o capitalismo apresenta a forma dumha antinomia quase-natural, na qual o social e o histórico nom aparecem. Esta antinomia acha-se na oposiçom entre o modelo de pensamento positivista e o romântico. A maior parte das análises críticas do pensamento fetichizado tem-se concretado naquela corrente da antinomia que hipostasia o abstracto como trans-histórico, o chamado pensamento positivo "burguês", e, portanto, mascara o carácter social e histórico das relações existentes. Neste ensaio, centrar-me-ei na outra corrente, aquela que inclui as formas romantismo e revolta que, achando-se antiburguesas, na realidade hipostasiam o concreto e, portanto, ficam cativas da antinomia produzida polas relações sociais capitalistas.

As formas de pensamento anticapitalista cativas da imediateza desta antinomia tendem a encarar o capitalismo, e tudo aquilo que é específico a essa formaçom social, apenas em funçom das manifestações da dimensom abstrata da antinomia. Assim, por exemplo, o dinheiro é considerado como a "raíz de todo o mal". A existência da dimensom concreta é-lhe entom positivamente oposta como o "natural" ou ontologicamente humano, que presumivelmente se situa para além da especificidade da sociedade capitalista. Deste modo, tal como sucede em Proudhon, por exemplo, o trabalho concreto é compreendido como um momento anti-capitalista por oposiçom ao carácter abstrato do dinheiro (8). O facto de o próprio trabalho concreto corporificar as relações sociais capitalistas nom é compreendido.

Com a evoluçom posterior do capitalismo, da forma-capital e do fetiche ligado a ele, a naturalizaçom imanente ao fetiche-mercadoria adota novas dimensões. Do mesmo jeito que a forma-mercadoria, a forma-capital é caracterizada pola relaçom antinómica entre o concreto e o abstrato, ambos aparecendo como algo de natural. Mas a qualidade do "natural" é diferente. Ligada ao fetiche-mercadoria está a noçom do carácter de legalidade, em última análise, das relações entre unidades individuais autónomas, tal como som expressas, por exemplo, pola economia política clássica ou pola teoria da lei natural. O capital, consoante Marx, é o valor que se autovaloriza. É caracterizado por um processo contínuo, incessante, de autoexpansom do valor. Este processo submete-se a ciclos rápidos, em grande escala, de produçom e consumo, criaçom e destruiçom. O capital nom possui umha forma definitiva, mas aparece em diferentes etapas do seu percurso em espiral, quer sob a forma de dinheiro, quer sob a forma de mercadorias. Enquanto valor que se autovaloriza, o capital aparece como processo puro. A sua dimensom concreta muda em conformidade. Os trabalhos individuais já nom constituem unidades independentes. Eles tornam-se a cada vez mais componentes celulares dum enorme sistema dinâmico e complexo que abrange as pessoas e as máquinas e que está direcionado para um fim, nomeadamente, a produçom pola produçom. Esta totalidade social alienada torna-se maior do que a soma dos seus indivíduos constituintes e possui um fim externo a si mesma. Esse fim é um processo nom finito. A forma capital das relações sociais tem um carácter cego, processual, quase-orgânico.

Com a crescente consolidaçom da forma capital, a visom do mundo mecanicista dos séculos XVII e XVIII começa a ceder; um processo orgânico começa a suplantar a estase mecânica enquanto forma do fetiche. A teoria orgânica do Estado e a proliferaçom de teorias raciais e a ascensom do darwinismo social no final do século XIX som exemplos desta tendência. A sociedade e o processo histórico som a cada vez mais compreendidos em termos biológicos. Nom vou desenvolver mais este aspecto do fetiche do capital. Para o que nos interessa, o que deve ser notado som as implicações da maneira como o capital é apreendido. Como indicámos anteriormente, no nível lógico da análise da mercadoria, o "duplo carácter" permite à mercadoria aparecer como umha entidade puramente material e nom como a objetivaçom de relações sociais mediadas. Dum modo semelhante, permite ao trabalho concreto aparecer como um processo puramente criativo, material, separável das relações sociais capitalistas. No plano lógico do capital, o "duplo carácter" (processo de trabalho e processo de valorizaçom) permite que a produçom industrial apareça como um processo puramente criativo, material, separável do capital. A forma manfiesta do concreto é agora mais orgânica. O capital industrial pode, portanto, aparece como o descendente linear do trabalho artesanal "natural", como estando "enraizado organicamente", por oposiçom ao capital financeiro "desenraizado" e "parasitário". A organizaçom do primeiro aparece relacionada com aquela da guilda; o seu contexto social é apreendido como umha unidade orgânica superior: Comunidade, Povo, Raça. O próprio capital, ou aquilo que é entendido como o aspecto negativo do capitalismo, é entendido apenas em termos da forma manifesta da sua dimensom abstracta: a finança e o capital que rende juros. Neste sentido, a interpretaçom biológica, que contrapõe a dimensom concreta (do capitalismo), como "natural" e "saudável", à negatividade do que é assumido ser o "capitalismo", nom contradiz a glorificaçom do capital industrial e da tecnologia. Ambos constituem o lado "corpóreo" da antinomia.

Habitualmente todo isto é compreendido de jeito errôneo. Por exemplo, Norman Mailer, ao defender o neo-romantismo (e o sexismo), escreve em "O Prisioneiro do sexo" (9) que Hitler falava em sangue, com certeza, mas construiu a máquina. A questom é que, neste tipo de "anticapitalismo" fetichizado, tanto o sangue quanto a máquina som vistos como os contra-princípios concretos do abstrato. O acento positivo na "natureza", no sangue, no solo, no trabalho concreto e na Comunidade, pode ser facilmente acompanhada por umha glorificaçom da tecnologia e do capital industrial (10). Esta forma de pensamento, portanto, nom se deve conceber como anacrónica, como a expressom dum nom-sincronismo histórico (11), do mesmo jeito que a ascensom das teorias raciais no final do século XIX nom se deve ser encarada como atávica. Historicamente trata-se de formas de pensamento novas que nom representam a renascença dumha forma anterior. É por causa da sua ênfase na natureza biológica que elas aparem como atávicas ou anacrónicas. Porém, este acento na natureza biológica está ligado ao fetiche-capital. A viragem para a biologia e o desejo dum retorno às "origens naturais", combinados com umha afirmaçom da tecnologia, que aparecem em inúmeras formas no início do século XX, devem ser entendidos como expressões do fetiche antinómico que dá origem à ideia de que o concreto é "natural", e que apresenta crescentemente o socialmente "natural" de tal maneira que é apreendido em termos biológicos.

A hipostasiaçom do concreto e a identificaçom do capital com o abstrato manifesto subjaz a umha forma de "anticapitalismo" que procura superar a ordem social existente dum ponto de vista que, na verdade, permanece imanente a essa mesma ordem. Na medida em que esse ponto de vista é a dimensom concreta, esta ideologia tende a apontar para umha forma de síntese social capitalista aberta, mais concreta e organizada. Esta forma de "anticapitalismo", portanto, apenas parece ser um olhar saudosista em relaçom ao passado. Enquanto expressom do fetiche do capital, o seu verdadeiro impulso é para a frente. Surge na transiçom do capitalismo liberal para o burocrático e torna-se virulenta numha situaçom de crise estrutural.

Esta forma de "anticapitalismo", entom, é baseada num ataque unilateral ao abstrato. O abstrato e o concreto nom som vistos como constituintes dumha antinomia em que a superaçom do abstrato, da dimensom do valor, envolve a superaçom histórica da própria antonimia, assim como de cada um dos seus termos. Ao invés, existe um ataque unilateral à razom abstrata, ou, num outro nível, ao dinheiro e ao capital financeiro. Neste sentido, é completamente antinómica ao pensamento liberal, onde a dominaçom abstrata permanece incontestada e a distinçom entre a razom crítica e positiva nom é efectuada.

O ataque "anticapitalista", contodo, nom permaneceu limitado a um ataque contra a abstraçom. Ao nível do fetiche do capital, nom é apenas o lado concreto da antinomia que pode ser naturalizado e biologizado. A dimensom abstrata manifesta foi igualmente biologizada, equiparada aos Judeus. A oposiçom fetichista entre o material concreto e o abstracto, entre o "natural" e o "artificial", traduziu-se na oposiçom racial entre os arianos e os Judeus historicamente conhecida. O antissemitismo moderno envolve a biologizaçom do capitalismo -que apenas é entendido em termos da sua dimensom abstrata manifesta- enquanto Judaísmo Internacional.
Desenho nazi representando o capitalismo judeu (financeiros e banqueiros, sinónimo
de usurários corrutos) como umha aranha que devora a economia alemã (o empresariado
 honrado, sinónimo do trabalhador solidário).
De acordo com esta interpretaçom, os Judeus foram identificados nom apenas com o dinheiro, com a esfera da circulaçom, mas com o próprio capitalismo. Todavia, em virtude da sua forma fetichizada, o capitalismo nom parecia incluir a indústria e a tecnologia. O capitalismo aparecia apenas como a sua dimensom abstrata manifesta que, pola sua vez, era responsável polas vastas mudanças sociais e culturais concretas associadas ao rápido desenvolvimento do capitalismo industrial moderno. Os Judeus nom eram encarados como meros representantes do capital (situaçom em que os ataques antissemitas teriam sido muito mais específicos em termos de classe). Eles tornaram-se personificações do domínio intangível, destrutivo, imensamente poderoso e internacional do capital enquanto forma social alienada. Certas formas de descontentamento anticapitalista foram direcionadas contra a dimensom abstrata manifesta do capital personificado na forma dos Judeus, nom em virtude de os Judeus serem conscientemente identificados com a dimensom do valor, mas porque, dada a antinomia entre as dimensões abstrata e concreta, o capitalismo aparecia-lhes dessa maneira. A revolta "anticapitalista" foi, consequentemente, também umha revolta contra os Judeus. A superaçom do capitalismo e dos seus efeitos sociais negativos foi associada à supressom dos Judeus (12).

(7) A crítica feita por Marx abrange umha dimensom epistemológica que atravessa todo "O Capital" mas que apenas se explicita no quadro da sua análise da mercadoria. A ideia que as categorias exprimem à vez as relações sociais "reificadas" específicas e formas de pensamento difere essencialmente da principal corrente da tradiçom marxista, que concebe estas categorias em termos de "base económica" e o pensamento em termos de superestrutura, derivada de interesses e de necessidades de classe. Esta forma de funcionalismo nom pode, como tenho dito, explicar de maneira adequada a nom-funcionalidade do extermínio dos Judeus. De maneira mais geral, ela nom pode explicar porque umha forma de pensamento -que, com efeito, pode servir o interesse de certas classes ou grupos sociais-, reveste esse conteúdo e nom outro. Isto serve igualmente para a ideia saída do Iluminismo segundo a qual a ideologia (e a religiom) seria o produto dumha manipulaçom deliberada. Para que umha determinada ideologia alastre, é preciso que possua umha resonância cuja origem seja a explicar. De resto, a ótica marxiana, desenvolvida por Lukács, a Escola de Francoforte e Sohn-Rethel, opõe-se às reações unilaterais contra o marxismo tradicional, que renunciaram a qualquer tentativa séria de explicaçom historica das formas de pensamento, e considera qualquer aproximaçom deste tipo como "reducionista".

(8) Proudhon, que na sua perspectiva pode ser considerado como um dos precursores do antissemitismo moderno, achava entom que a aboliçom do dinheiro, da mediaçom fenomenal, bastaria com abolir as relações capitalistas. Mas o capitalismo caracteriza-se polas relações sociais mediatizadas, objetivadas nas formas categoriais das quais o dinheiro é umha das expressões e nom a causa. Noutros termos, Proudhon confundiu a forma fenomenal do capitalismo, o dinheiro como objetivaçom do abstrato, com a essência do capitalismo.

(9) Norman Mailer, Prisioneiro do Sexo, Robert Laffont, 1971.

(10) As teorias que apresentam o nacional-socialismo como "antimoderno" ou "irracionalista" nom podem explicar a interaçom destes dous momentos. A noçom do "irracionalismo" tende a nom pôr em causa o "racionalismo" dominante e nom pode, portanto, explicar a relaçom positiva que umha ideologia "irracionalista" e "biológica" tem com a rácio da indústria e da tecnologia. A noçom de "antimoderna" ignora os aspetos muito modernos do nacional-socialismo e nom pode explicar por que este apenas ataca certos aspectos da "modernidade" e negiglencia outros. Na verdade, estas duas análises som unilaterais e representam apenas umha dimensom, a dimensom abstrata da antinomia/contradiçom descrita acima. Estas tendem a defender de forma acrítica a "modernidade" e a "racionalidade" nom fascistas dominantes. Estas também abrim a porta para o surgimento de novas críticas unilaterais (de esquerda desta vez), como as de Michel Foucault ou de André Glucksmann, que apenas representam a civilizaçom capitalista moderna em funçom do abstrato. Nom apenas todas essas abordagens impedem umha teoria do nacional-socialismo que possa fornecer umha explicaçom adequada da relaçom do "sangue" e da "máquina", mas ainda, som incapazes de mostrar que a oposiçom do concreto e do abstrato, da razom positiva e da "irracionalidade" nom define os parâmetros dumha escolha absoluta, mas que os termos dessas oposições estám interrelacionados como as expressões contraditórias/antinómicas de formas fenomenais duais da mesma essência: as relações sociais características da formaçom social capitalista. (Neste sentido, a destruiçom da Razom, escrita por Lukács sob o choque da brutalidade indizível dos nazistas, mostra umha regressom em relaçom às visões críticas sobre as contradições (antinomias) do pensamento burguês que ele desenvolvera na História e consciência de classe Vinte e cinco anos antes). Essa abordagem mantém a antinomia em vez de a ultrapassar teoricamente.

(11) Este conceito utilizado por Ernst Bloch em "Héritage de ce temps" explica o antissemitismo moderno por um embate entre as formas de consciência atrasadas, arcaicas, inadaptadas à sociedade moderna, por umha parte, e as formas de consciência massificadas, reificadas, típicas da sociedade moderna, por outro lado.

(12) Para explicar por que o antissemitismo moderno alcançou níveis tam diferentes entre um país e outro, e por que se tornou hegemônico na Alemanha, caberia naturalmente substituir a argumentaçom acima desenvolvida no contexto histórico e social de cada país. No que diz respeito à Alemanha, um ponto de partida seria o desenvolvimento extremamente rápido do capitalismo industrial e o crescimento dos deslocamentos sociais que isto causou, bem como a ausência dumha revoluçom burguesa anterior com os seus valores liberais e a sua cultura política. A história da França, do caso Dreyfus ao regime de Vichy, no entanto, mostra que umha revoluçom burguesa precedente da industrializaçom nom parece ser umha condiçom suficiente de "imunidade" contra o antissemitismo moderno. Além disso, o antissemitismo moderno nom alastrou muito na Grã-Bretanha, embora as teorias raciais e o darwinismo social tenham lá sido também dominantes como no continente. Umha das diferenças pode ser o grau e o tipo de dominaçom do abstrato social no início da industrialização. Entom poder-se-ia conceituar a forma de socializaçom na França colocando-o entre a da Grã-Bretanha e a da Prússia. Esta caracteriza-se por umha forma particular de "dominaçom dupla", a da mercadoria e a da burocracia estatal. Embora as duas sejam formas racionalizadas, porém, diferem no nível de abstraçom com que mediatiza a dominaçom. Talvez exista lá umha relaçom entre a concentraçom institucional e a dominaçom concreta, como a burocracia estatal (incluindo militares e policiais) e a Igreja, no primeiro capitalismo e o grau em que a dominaçom abstrata do capital foi entom vista nom apenas como umha ameaça, mas como algo misterioso e estranho.
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Este ensaio foi publicado por Moishe Postone em 1986 (em "Germans and Jews since the Holocaust: The Changing Situatin in West Germany", edições Holmes&Meier, pp. 302-314).

Pode-se acessar a este ensaio na sua versom original em inglês ou na sua traduçom para o francês. Também se pode aceder à versom em português (traduçom de Nuno Miguel Machado).

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

ANTISSEMITISMO E NACIONAL-SOCIALISMO (Parte I)

Moishe Postone

Neste ensaio vou tentar aproximar-me dumha explicaçom do extermínio da Judiaria europeia através dumha interpretaçom do antissemitismo moderno. A minha intençom nom é explicar porque é que o nazismo e o antissemitismo moderno experimentaram um desenvolvimento notável e se tornaram hegemónicos na Alemanha. Umha tal tentativa acarretaria umha análise da especificidade do desenvolvimento histórico alemão, matéria sobre a que já muito se tem escrito. Porém, este ensaio procura determinar mais de perto aquilo que se desenvolveu, ao sugerir umha análise do antissemitismo moderno que salienta a sua ligaçom intrínseca com o nacional-socialismo. Esta aferiçom é umha pré-condiçom necessária para qualquer análise substantiva das razões para o triunfo do nacional-socialismo na Alemanha. 

O primeiro passo deve ser umha especificaçom do Holocausto e do antissemitismo moderno. O problema nom deve ser colocado quantitativamente, quer em termos do número de pessoas assassinadas ou no grau de sofrimento causado. Existem muitos exemplos históricos de assassinatos de massas e de genocídio (por exemplo, foram mortos muitos mais Russos do que Judeus polos nazistas). A questom é, ao invés, de especificidade qualitativa. Aspectos particulares do extermínio dos Judeus europeus polos nazistas ficam inexplicáveis enquanto o antissemitismo for tratado como um exemplo específico dumha estratégia de "bode expiatório" cujas vítimas poderiam ter sido membros de qualquer outro grupo. 

O Holocausto caracterizou-se por um senso de missom ideológica, por umha relativa falta de emoçom e ódio imediatos (ao contrário dos pogroms, por exemplo) e, o que é mais importante, a sua aparente falta de funcionalidade. A exterminaçom dos Judeus nom parece ter sido um meio para qualquer fim. Eles nom foram exterminados por razões militares ou no decurso dum violento processo de aquisiçom de território (como foi o caso dos Índios Americanos e dos Tasmanianos). Nem a política dos nazis relativamente aos Judeus se pareceu com a sua política relativamente aos Polacos e aos Russos, que procurou erradicar aqueles segmentos da populaçom cuja resistência se poderia cristalizar, de modo a explorar a restante populaçom mais facilmente como hilotas. Com efeito, os Judeus nom foram exterminados devido a qualquer objetivo manifesto "extrínseco". O extermínio dos Judeus deveria ter sido nom apenas total, como constituía o seu próprio objetivo, o extermínio polo extermínio, um objetivo que adquiriu prioridade absoluta (3).

Nengumha explicaçom funcionalista do Holocausto e nengumha teoria do antissemitismo como bode expiatório pode sequer começar a explicar o porque de, nos últimos anos da guerra, quando as forças alemãs estavam a ser esmagadas polo Exército Vermelho, umha proporçom significativa de veículos ter sido desviada do apoio logístico e utilizada para transportar os Judeus para as câmaras de gás. Umha vez reconhecida a especificidade qualitativa do extermínio dos Judeus europeus, torna-se claro que as tentativas de explicaçom ligadas ao capitalismo, ao racismo, à burocracia, à repressom sexual ou à personalidade autoritária permanecem num nível demasiado geral. A especificidade do Holocausto requer umha mediaçom muito mais determinada de forma a aproximarmo-nos do seu entendimento.
Mesmo quando estavam prestes a serem derrotados, os nazistas priorizaram
 o apoio logistico para o transporte dos Judeus para as câmaras de gás
O extermínio dos Judeus europeus está, como é óbvio, relacionado com o antissemitismo. A especificidade do primeiro deve ser relacionada com a do segundo. Para além disso, o antissemitismo moderno deve ser entendido com referencia ao nazismo enquanto um movimento -um movimento que, em termos da sua própria autocompreensom, representou umha revolta.

O antissemitismo moderno, que nom deve ser confundido com um preconceito antijudaico quotidiano, é umha ideologia, uma forma de pensamento, que emergiu na Europa no final do século XIX. O seu surgimento pressupôs formas anteriores de antissemitismo, as quais tinham sido umha parte integrante da civilizaçom cristã ocidental durante séculos. Aquilo que é comum a todas as formas de antissemitismo é o grau de poder atribuído aos Judeus: o poder para matar Deus, para desencadear a Peste Bubónica e, mais recentemente, para introduzir o capitalismo e o socialismo. O pensamento antissemita é fortemente maniqueísta, como os Judeus a desempenharem o papel de filhos das trevas.

E nom apenas o grau, mas também a qualidade do poder atribuído aos Judeus que distingue o antissemitismo de outras formas de racismo. Provavelmente, todas as formas de racismo atribuem um poder potencial ao Outro. Este poder, contodo, é usualmente concreto, material ou sexual. É o potencial do oprimido (enquanto reprimido), dos "Untermeschen" (sub-humanos). O poder atribuído aos Judeus é muito maior e é percebido como real ao invés de potencial. Para além do mais, é um tipo diferente de poder, um nom necessariamente concreto. O que caracteriza o poder imputado aos Judeus no antissemitismo moderno é o facto de ser misteriosamente intangível, abstrato e universal. É considerado como umha forma de poder que nom se manifesta diretamente, mas deve encontrar outro modo de expressom. Procura um suporte concreto, politico, social ou cultural, mediante o qual possa funcionar. Em virtude do poder dos Judeus, tal como é concebido pola imaginaçom antissemita moderna, nom estar limitado concretamente, "enraizado", é presumido como sendo dumha imensidom desconcertante e extremamente difícil de contrariar. Considera-se que está por detrás dos fenómenos, mas nom é idêntico aos mesmos. A sua fonte é portanto considerada oculta -conspiratória. Os Judeus representam umha conspiraçom internacional extremamente poderosa e intangível.

Um exemplo gráfico desta visom é providenciado por um poster nazi que ilustra a Alemanha, representada por um trabalhador forte e honesto, ameaçada a oeste por um John Bull [britânico] gordo e plutocrata, e a Leste por um Comissário Bolchevique brutal e bárbaro. Todavia, estas duas forças hostis som meros fantoches. Elevando-se acima do globo, e a manietá-los, está o judeu. Esta visom nom era de forma algumha um monopólio dos nazis. É característica do antissemitismo moderno que os Judeus sejam considerados a força que se esconde por detrás dos antagonistas "aparentes": o capitalismo plutocrata e o socialismo. O "Judaísmo Internacional" é, para além disso, percebido como estando centrado nas "selvas de asfalto" das megalópoles urbanas emergentes, por detrás da "cultura moderna, vulgar e materialista" e, em geral, de todas as forças que contribuem para o declínio dos grupos sociais, valores e instituições tradicionais. Os Judeus representam umha força estrangeira, perigosa e destrutiva que mina a "saúde" social da naçom. O antissemitismo moderno, portanto, é caracterizado nom apenas polo seu conteúdo secular, mas também polo seu carácter sistemático. A sua pretensom é a de explicar o mundo, um mundo que se tornou rapidamente demasiado complexo e ameaçador para muitas pessoas.
Na propaganda nazi o Judeu é considerado como a força que
se esconde por detrás dos inimigos antagonistas da Alemanha
Esta determinaçom descritiva do antissemitismo moderno, embora necessária para diferenciar essa forma do preconceito ou racismo social, nom é suficiente em si mesma para indicar a ligaçom intrínseca ao nacional-socialismo. Ou seja, o objetivo de ultrapassar a separaçom habitual entre umha análise sócio-histórica do nazismo e um exame do antissemitismo ainda nom está, a este nível, cumprido. Ainda é requerida umha explicaçom que possa mediar ambas. Essa explicaçom deve ser capaz de fundamentar historicamente a forma de antissemitismo descrita anteriormente através das mesmas categorias que poderiam ser utilizadas para explicar o nacional-socialismo. A minha intençom nom é negar as explicações sócio-psicológicas ou psicanalíticas (4), mas antes elucidar um quadro de referência histórico-epistemológico dentro do qual possam ser efectuadas especificações psicológicas mais aprofundadas. Esse quadro de referência deve ser capaz de elucidar o conteúdo específico do antissemitismo moderno e ser histórico, isto é, deve contribuir para um entendimento de porque é que essa ideologia se tornou tam prevalecente num dado momento, desde o final do século XIX. Na ausência de tal quadro de referência, todas as outras tentativas explicativas que se centram numha dimensom subjetiva permanecem historicamente indeterminadas. O que é necessário, portanto, é umha explicaçom em termos dumha epistemologia sócio-histórica.

O desenvolvimento completo da problemática do antissemitismo extravasaria os limites deste ensaio. Deve ser realçado, contodo, que umha análise cuidadosa da visom de mundo proposta polo antissemitismo moderno revela que se trata dumha forma de pensamento na qual o rápido desenvolvimento do capitalismo industrial, com todas as suas ramificações sociais, é personificado com o Judeu. Os Judeus já nom som considerados meramente os possuidores do  dinheiro, como sucedia no antissemitismo tradicional,mas antes responsabilizados polas crises económicas e identificados com o espectro de reestruturaçom e desarticulaçom sociais resultantes dumha rápida industrializaçom: urbanizaçom explosiva, declínio das classes e estratos sociais tradicionais, surgimento dum grande proletariado industrial cada vez mais organizado, e assim por diante. Por outras palavras, a dominaçom abstracta do capital, a qual, particularmente com a rápida industrializaçom, apanhou as pessoas numha rede de forças dinâmicas que nom podiam compreender, passou a ser percebida como o domínio do Judaísmo Internacional.

Isto, todavia, nom corresponde a mais do que umha primeira abordagem. A personificaçom foi descrita, mas nom ainda explicada. Já existiram muitas tentativas de explicaçom mas nengumha delas, na minha opiniom, se revelou completa. O problema com essas teorias, tal como as de Max Horkheimer (5), que se concentram na identificaçom dos Judeus com o dinheiro e a esfera da circulaçom, é que elas nom conseguem explicar a noçom de que os Judeus também constituem o poder por trás da social-democracia e do comunismo. À primeira vista, outras teorias, tais como a de George L. Mosse (6), que interpretam o antissemitismo moderno como umha revolta contra a modernidade, parecem mais satisfatórias. Tanto a plutocracia como os movimentos operários foram concomitantes da modernidade, da massiva reestruturaçom social resultante da industrializaçom capitalista. O problema com estas abordagens, contodo, é que o "moderno" teria de incluir certamente o capital industrial. Ora, como é sabido, o capital industrial nunca foi um objeto dos ataques antissemitas, mesmo num período de rápida industrializaçom. Para além do mais, a atitude do nacional-socialismo relativamente a muitas outras dimensões da modernidade, especialmente no que se refere à tecnologia moderna, foi afirmativa ao invés de crítica. Os aspectos da vida moderna que foram rejeitados e aqueles que foram afirmados polos nacional-socialistas formam um padrom. Esse padrom deve ser intrínseco a umha adequada conceptualizaçom do problema. Dado que esse padrom nom era exclusivo do nacional-socialismo, a problemática possui um significado de longo alcance.

A afirmaçom do capital industrial por parte do antissemitismo moderno indica a necessidade dumha abordagem que consiga distinguir entre aquilo que o capitalismo moderno realmente é e a forma como se manifesta, entre a sua essência e a sua aparência. O termo "moderno" nom possui em si mesmo umha diferenciaçom intrínseca que permita tal distinçom. Gostaria de sugerir que as categorias sociais desenvolvidas por Marx na sua crítica de maturidade, tais como "mercadoria" e "capital", som mais adequadas, na medida em que um conjunto de distinções entre aquilo que é aquilo que parece ser som intrínsecas a essas mesmas categorias. Estas categorias podem servir como ponto de partida para umha análise capaz de diferenciar as várias percepções do "moderno". Essa abordagem tentaria relacionar o padrom da crítica social e a afirmaçom que estamos a considerar com características das próprias relações sociais capitalistas.

(3) A única tentativa recente, na média da Alemanha ocidental, de especificar qualitativamente o extermínio dos Judeus polos nazis foi feita por Jürgen Thorwald no Spiegel a 5 de fevereiro de 1979.

(4) Cf. Norman Cohn, História dum mito. A "conspiraçom" judia e os Protocolos dos Sábios de Siom, Gallimard, 1967.

(5) Max Horkheimer, "Die Juden und Europa", em Zeitschrift für sozialforschung, 8º ano (1939-40), págs. 135-137. Existe umha traduçom deste artigo intitulado "Porque o fascismo?" em Esprit, maio 1978.

(6) George L. Mosse, The Crisis of German Ideology, Nova Iorque, 1964.
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Este ensaio foi publicado por Moishe Postone em 1986 (em "Germans and Jews since the Holocaust: The Changing Situatin in West Germany", edições Holmes&Meier, pp. 302-314).

Pode-se acessar a este ensaio na sua versom original em inglês ou na sua traduçom para o francês. Também se pode aceder à versom em português (traduçom de Nuno Miguel Machado).