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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O HOLOCAUSTO E O ANTISSEMITISMO

Por Jon Iñarritu

RECENTEMENTE, com motivo do convite ao ato de comemoraçom no Dia da Lembrança do Holocausto, que se celebra a 27 de janeiro, surgiu um debate com um amigo sobre a persistência ou nom do antissemitismo na Europa, já que ele defendia que era algo do passado, já superado salvo por algum grupo marginal. É o antissemitismo na Europa algo do passado ou segue a existir?

A Agência Europeia de Direitos Fundamentais (FRA) da Uniom Europeia, publicou em novembro um relatório sobre o antissemitismo após ter realizado umha sondagem a milhares de cidadãos judeus que vivem em vários Estados da UE. Segundo esse relatório, os 66% dos inquiridos acha que o antissemitismo segue a ser um problema na Europa, os 76% acham que aumentou nos últimos anos, os 21% encararam um ou vários incidentes antijudaicos relacionados com insultos, assédio ou agressom. Existem razões objetivas para a preocupaçom?

No ano passado, convidado pola direçom do Consistório Israelita de Baiona, assisti à celebraçom do Rosh Hashaná (ano novo). Lembro que me chocou a presença policial e ao perguntar aos meus anfitriões se era precisa a proteçom, retorquiram que lamentavelmente sim. Seis meses depois, quatro cidadãos judeus eram assassinados à saída da escola Ozar Hatorah de Toulouse. Mas nom foi um facto isolado. Durante os últimos meses observamos como em Sarcelles (França), umha loja de comida kosher foi atacada à bomba, em Offenbach (Alemanha), Sheerness (Reino Unido) ou Melilha, entre outras, produziram-se agressões contra pessoas que levavam kipás, na Hungria a formaçom política Jobbik solicitou a criaçom de listas de Judeus no Parlamento e o Governo húngaro. De igual forma, a apariçom de pintadas ameaçadoras e ataques a propriedades judaicas foi crescendo. Factos que nos indicam que a velha aversom irracional aos Judeus segue a estar presente no nosso continente. A UE deu o alarme e de forma especial chamou para o controlo da incitaçom ao ódio na internet, instrumento de difusom rápida e, em ocasiões anónima, de todos os mitos e falsidades nas que se sustém o antissemitismo. Estamos conscientes que na Europa do século XXI há cidadãos que devem ocultar a sua identidade e que as sinagogas, escolas e instituições judaicas devem ser protegidas?

A ausência de Judeus durante cinco séculos e a existência atual dumha reduzida e discreta comunidade nom foi atranco para que Espanha seja um dos Estados mais antissemitas da Europa. Assim o indicam tanto o inquérito encargado polo Ministério de Negócios Estrangeiros em 2010 como a realizada pola Anti-Defamatioin League em 2009. Os 58,4% da populaçom espanhola acha que "os Judeus têm muito poder porque controlam a economia e os meios de comunicaçom", e mais dum terço (34,6%) têm umha opiniom negativa deles. As origens devem ser procuradas, sem dúvida, na história moderna e na difusom por parte da Igreja Católica de libelos como o da acusaçom do deicídio até o Concílio Vaticano II (1965). Anualmente, o Observatório de Antissemitismo em Espanha realiza um informe sobre a questom e no do passado ano destaca que as ameaças e pintadas aparecem com assiduidade e que mesmo se produziram agressões. Mas o mais surpreendente é o facto de encontrar nos meios de comunicaçom afirmações sobre o mito do "lobby judeu", libelo segundo o qual os Judeus som um ente homogéneo que age coordenadamente a nível mundial e que é poderoso e influente. Como vemos, este mito conspiracionista promovido polo fac-símile falso elaborado pola polícia czarista e chamado "Os Protocolos dos Sábios de Sion" (1902) com o objetivo de justificar os pogroms na Rússia, e que foi repetido e alargado pola Alemanha nazista, chegou até os nossos dias.

Um dos difusores desse mito e doutros é o ultimamente conhecido humorista francês Dieudonné. Este mordaz artista foi condenado em várias ocasiões por incitaçom ao ódio e por banalizar o holocausto na República que se tem pola impulsionadora dos direitos do homem e que considera um capítulo negro da sua história que no seu território, décadas atrás, 75,721 Judeus, entre os quais 11.000 crianças, foram deportados a campos de concentraçom e apenas sobreviveu 3% deles. No caso do humorista francês, o dilema nom radica em se ultrapassou os limites do humor ou em se faz piadas sobre Árabes, Judeus ou Chineses. O problema acha-se em que faz troça sobre o que também defendem a sério junto aos seus amigos: o ultra Le Pen, o negacionista Roger Faurisson ou o revisionista Mahmud Ahmadinejad. Um facto destacável é que, este trocista de extrema direita tem o curioso mérito de ter logrado unir entre os seus fãs três sectores, opostos em todo, salvo no antissemitismo, como som a extrema direita, o islamismo e sectores de extrema esquerda. Um curioso fenómeno que o professor Pierre-Andre Taguieff destacou no seu livro "La Nouvelle judéophobie" ao analisar os focos de difusom atual desta fobia. Mençom especial, se calhar, merece a estranha existência de sectores de extrema esquerda que, levados pola denúncia do drama palestiniano ou por críticas legítimas ao governo israelita, acabam abraçando mitos conspiracionistas quando nom diretamente os libelos clássicos da judeufobia. Um facto que já foi denunciado por Ignacio Ramonet no artigo "Antissemitismo na Galiza?" (4/7/2007) em El Pais.

Como se viu, o Holocausto nom foi um caso isolado de ódio pontual ao povo judeu, mas a materializaçom dum facto violento, impulsado por um ódio acumulado durante séculos, umha animadversom irracional e obsessiva, com base em mitos que, alastrado por confissões religiosas, por instituições e por ideologias políticas que foi gerador de expulsões, discriminações e massacres. Umha antipatia que segue a existir e que é perigosa. Como escreveu Émile Zola há um século, na sua denúncia do Caso Dreyfus, para combater este defeito social a chave está na educaçom.

Por isto, neste momento de auge da xenofobia e a extrema direita na Europa, quando ressurgem velhos ódios e outros novos como homofobia, a ciganofobia, a islamofobia e o antissemitismo, é importante lembrar o facto mais terrível da história recente para prevenir a comisom de atos semelhantes e educar as nossas sociedades na igualdade e na dignidade humana assim como no combate a qualquer tipo de discriminaçom. Nunca mais!

O autor é deputado de AMAIUR e membro da Ligue International contre le Racisme et l'Antisémitisme (LICRA)

Artigo publicado no jornal DEIA e traduzido por CAEIRO.

sábado, 9 de novembro de 2013

O ANTISSEMITISMO ESTÁ A CRESCER NA EUROPA

Segundo um inquérito realizado pola Agência europeia dos Direitos Fundamentais a cerca de 6000 Judeus o anti-semitismo está a crescer na Uniom Europeia, sobretudo através da Internet. Essa é a opiniom dos 76% participantes nesta iniciativa e cujo resultado foi divulgado esta sexta-feira. E a versom maniqueísta do conflito israelo-árabe alastrada por setores que vam da extrema direita nazista até à extrema esquerda dita de antissistémica está a alimentar o sentimento antijudaico.

O inquérito, realizado em 2012 através da Internet em oito países que reúnem cerca de 90% da atual comunidade judaica europeia (Alemanha, Bélgica, França, Hungria, Itália, Letónia, Suécia e Reino Unido), foi divulgado nesta altura para coincidir com os 75 anos da Noite de Cristal, o dia 9 de novembro de 1938, em que o regime nazi enviou as suas forças especiais (vestidas à civil) para as ruas para destruir as casas, lojas e sinagogas dos Judeus na Alemanha e também na Áustria recém-anexada. No que foi um primórdio do Holocausto/Shoah, naquela noite os homens jovens e saudáveis foram enviados para campos de concentraçom.

Kristallnacht

Duas em cada quatro pessoas inquiridas consideram o antissemitismo como um verdadeiro problema. Esse sentimento é mais forte em países onde está a crescer a extrema direita como a Hungria (91%) ou França, mas também na Bégica (ambas com 88%). Quase metade dos inquiridos teme ser alvo dumha agressom verbal por ser judeu num lugar público, e um terço receia um ataque físico.

No caso da França, 78% dos participantes relatam que o antissemitismo se expressa frequentemente em atos de vandalismo contra edifícios, cemitérios, locais de culto. Segundo umha participante francesa “dizem-nos para nos dispersarmos rapidamente à saída da sinagoga, que tem um serviço de segurança imponente, que nom é necessário à saída das igrejas, nem das mesquitas”.

Mas é ao navegar pola Internet que mais esperam encontrar ataques à sua religiom ou à sua identidade. Os fóruns de discussom na Internet, os comentários no YouTube “estám cheios de mensagens antissemitas”, diz outra participante francesa no inquérito, citada também pola AFP. Umha britânica de 50 anos, que a BBC cita, afirmou que tinha visto mais comentários antissemitas desde que está no Facebook “do que em toda a [sua] vida”.

Nos media, 59% estám também habituados a verem-se confrontados com afirmações que os agridem. Na Hungria, 84% dos inquiridos reconhecem a presença do discurso antissemita no discurso político, de facto é um dos cavalos-de-batalha do partido de extrema-direita Jobbik, que dispõe de 43 deputados no Parlamento de 386 eleitos e é abertamente antijudaico. A média europeia da constataçom do antissemitismo no discurso político europeu é de 44%, abaixo dos valores da Hungria.

Mas há um cambiante no que é o discurso antissemita entre a Europa de Leste e a Europa Ocidental, marcado pola perceçom do conflito israelo-árabe. Na Letónia, apenas 8% da populaçom judaica disse que a disputa pola Palestina tinha um grande impacto na forma como a comunidade em que estavam inseridos a via. Mas na Alemanha, 28% disseram que o conflito entre Israel e a Palestina influía na sua própria segurança, e na França 78% disseram o mesmo.

No Reino Unido, os comentários mais frequentes feitos por pessoas nom judias, segundo o inquérito, som: “Os israelitas comportam-se ‘como nazis’ com os palestinianos” (já agora, expressom tam parva como dizer que "os Catalães estám a fazer com o espanhol o mesmo que fazia Franco com a língua catalã") e “os judeus exploram a vitimizaçom do Holocausto para os seus próprios fins”. Isto dá umha ideia de como velhos preconceitos se misturam com a política atual, para dar novo fôlego a umha intolerância muito antiga.

“Em toda a Europa há umha forma tradicional de antissemitismo que remonta há muito tempo”, comentou Morten Kjaerum, diretor da Agência Europeia dos Direitos Fundamentais, citado pola BBC. 

Informações tiradas do jornal Público.

terça-feira, 25 de junho de 2013

ASSOCIAÇOM JUDIA QUER RECONHECER A CÓRSEGA COMO "ILHA DOS JUSTOS"

Na sequência da ofensiva de setores do nacionalismo francês para apresentar os corsos como racistas (aproveitando o facto de na Córsega existir nalguns setores um sentimento nacional diferenciado à identidade francesa), umha associaçom judaica quer reconhecer que os corsos nom som racistas com respeito aos judeus.


A associaçom Homenagem às Povoações da França (HVF, siglas em francês), que reúne descendentes de famílias de judeus cujos membros foram salvados durante a Segunda Guerra mundial do extermínio, comunicou que a Córsega é o único território do Estado francês em que os judeus nom foram perseguidos. Nengum judeu, salvo um, capturado acidentalmente, foi deportado, apesar das ordens emanadas do chamado governo de Vichy, colaboracionista com o regime nazista.

O Jerusalem Post explica que um primeiro reconhecimento oficial da Córsega como terra de acolhimento e de salvaguarda dos judeus teve lugar em outubro de 2010 ao ser proposta pola antedita associaçom toda a ilha de Córsega. A proposta foi realizada perante a entidade judia Yad Vashem, a Autoridade de Recordaçom dos Mártires e Heróis do Holocausto, localizada em Israel, que tem por finalidade emitir um veredito oficial sobre os pedidos realizados pola HVF. Mas o Yad Vashem esclareceu em 2010 que as suas distinções de Justos entre as Nações eram dadas apenas a pessoas individuais nom judias que salvaram judeus durante o período do Holocausto arriscando as suas vida e que nom estava a estudar, como se tinha dito, a entrega dum mérito coletivo ao povo corso.

Agora a HVF tornou a cursar o seu pedido, especificando que quer referir-se concretamente à povoaçom de Canari, um dos referentes emblemáticos. A história também está recolhida num documentário emitido recentemente na França.

Embora a iniciativa tem os seus detratores, sobretodo pola generalizaçom que contém a solicitude e porque consta que na Córsega houve colaboradores com o governo de Vichy, diversos testemunhos, recolhidos em boa parte polo HVF, achegaram provas no sentido de que a solidariedade com os judeus foi esmagadora. Com a precisom que a solidariedade com os judeus nom representa umha excepçom, mas um caso entre muitos, demonstrativo de que os corsos sentem como partes integrantes do seu povo àqueles que com ele se identificarem, por sobre as próprias diferenças. Os judeus corsos eram considerados, simplesmente, corsos e como tais eram dignos da solidariedade absoluta perante qualquer açom que os discriminasse.

Umha atitude que responde a umha longa tradiçom. De facto, o ideólogo do independentismo corso, Pasquali Paoli, e o mesmo Napoleom Bonaparte, de origem corsa, eram favoráveis a dar um estatuto de cidadania plena a todos os judeus que moravam na Córsega, depois de ter-se exilado ao cabo das perseguições que sofreram na Europa desde o século XVI.

Cabe referir que, em 1915, por volta de 800 judeus expulsos da Palestina polos turcos aportaram em Bástia e em Ajácio foram acolhidos com mostras extraordinárias de bom acolhimento, lembra o jornal israelita. Um gesto compensado pola rapidez com que estes judeus se identificaram com os corsos.

Artigo tirado de NATIONALIA. Traduzido por CAEIRO.


quarta-feira, 29 de maio de 2013

O RESGATE BASCO

O papel dos exilados bascos na emigraçom clandestina judia cara Palestina


As relações e contactos entre o nacionalismo basco e o sionismo som antigas. Existem muitas semelhanças entre os dous povos: língua própria, carácter étnico, umha simbologia, umha longa história, umha profunda identidade nacional e, acima de todo, umha situaçom de opressom e marginalizaçom.

Durante a ocupaçom nazista da França a Resistência Basca, através dos seus contatos, os chefes de cadeia de passagens fronteiriças e em relaçom com os aliados, consegue passar pola muga (fronteira) muitos judeus. Mesmo som realizadas operações de resgate, como a realizada no campo de concentraçom de Gurs que permite a libertaçom dalguns hebreus lá detidos através dum túnel subterrâneo escavado por bascos do exterior.

Depois da Segunda Guerra mundial, Venia Hadari, agente do Mossad Aliya Bet, o organismo encargado de organizar a emigraçom clandestina dos refugiados judeus desde a Europa para a Palestina, recruta o capitám da Marinha Mercante Rafael Inda, de Las Arenas. Esta contrataçom tem o visto bom do Governo Basco no exilo sediado em Paris, através de Javier de Gortázar. Realizam-se através da Sociedad Ginesta, que durante a guerra civil serviu como fachada da rede de apoio à República espanhola e que agora se iria tornar num pano para a atividade do Mossad.

Rafael Inda, oficial da armada republicana durante a guerra, saiu dum campo de concentraçom (de “accueil”) francês em Bizerta para mandar um barco que transportava muniçom para o Afrika Korps desde o Pireu. Em Marselha entra em contato com Víctor Gangoitia, um antigo oficial da ANV e   entre 1947-53 subdelegado do Governo Basco para assuntos de refugiados.  Víctor Gangoitia aceitou a proposta porque “nessa altura tínhamos muitas cousas em comum com o povo judeu: éramos comunidades perseguidas que combatiam pola identidade nacional”.  

Pola sua vez, o representante do governo basco contatou com outros fugidos do regime franquista, entre os quais, Hilario Erkiaga (gudari antes de formar-se o Euzko Gudarostea, que fugira para a França e trinado em Paris pola OSS após aderir-se ao Batalhom Gernika), Hilario Zarragoitia (cozinheiro de barco que, após fugir dum campo de concentraçom em Prat de Mollés e ser internado polos franceses em Argelès sur Mer acabara num campo nazista em Fecamp, no Canal da Mancha), Santi Zumaran (marinho que fizera parte da tripulaçom do “Vita”, o iate que levou fundos da República espanhola para México), Mariano de Lekeito (que já transportara anteriormente judeus para a Palestina), Alejandro Coto (ajudante de máquinas de Algorta exilado em Marselha), um Txomin de Bermeo, e Esteban Zubiaga Ernandorena (capitán comunista). No total, até 26 marinhos bascos deviam fazer parte da tripulaçom dos navios que levariam os refugiados judeus.

Esteban Ernandorena (Captain Steve)
A Agência Judaica queria repetir o golpe de efeito como o produzido com o navio “Exodus” no verão de 1947 e para isso alvejou levar quase 16.000 sobreviventes do Holocausto (na sua maioria refugiados da Roménia) para o porto de Haifa. Os navios eram o Pan York e o Pan Crescent, dous grandes navios de 470 toneladas comprados polo Haganah e o Mossad em Nova Iorque à UFCo para esse fim.  

O "Pan Crescent" e o "Pan York" sairam para o Mediterrâneo em maio de 1947 com umha tripulaçom professional americana. Cada navio estava preparado para levar 7.000 refugiados (Ma'apilim). 

Com esse fim, o Pan York, que seria tripulado por bascos, foi enviado para Marselha. Enquanto Esteban Ernandorena foi o primeiro imediato deste navio, o capitám Inda foi requerido polo Mossad para pilotar um motoveleiro com refugiados que encalhou em Haifa. Completavam a chefia da  tripulaçom Gad Hilb como capitám e os oficiais Efraim Tzuk como engenheiro chefe e Werner Salomon. O resto da tripulaçom estava composto polo grupo referido  de seis exilados bascos contatados, sete judeus americanos voluntários e tres homens do Mossad Aliá Bet e 7 do Palmach.




O Pan Crescent, foi enviado para Veneza, na Itália e a sua tripulaçom americana foi substituída por umha equipa italiana.




Já que os navios nom estavam prontos para acolher pessoas, era preciso realizar trabalhos para preparar os porões e o seu acabamento interior (catres, casas de banho,...). Umha vez arranjados, os navios deviam partir rumo para o porto de Constanza, na Roménia, país com o qual a Agência Judaica chegara a um acordo para facilitar a saída dos refugiados judeus. 

Porém, a pressom britânica sobre a França e a Itália forçou o abandono dos portos de Marselha e Veneza antes de os trabalhos de condicionamento estarem finalizados. O Pan York aportou em Constanza nos finais de agosto, atrasando-se um mês a chegada do Pan Crescent por causa dumha sabotagen dos serviços secretos britânicos, que queriam evitar que os navios chegassem ao Mar Negro.

Os britânicos colocaram os navios sob observaçom desde que entraram no Mediterrâneo. Eles estavam cientes do propósito da operaçom e exerceram umha forte pressom pressionaram os americanos para que usassem a sua influência sobre os governos dos EUA e a Roménia. Na sua desesperaçom chegaram a alegar que "toda umha brigada de bolchevistas estava a ser levara para a Palestina".

Como o governo americano era da opiniom de que a Yishuv na Palestina nom tinha a menor oportunidade contra os árabes, também disponibilizou-se a ajudar os britânicos a limitar a Aliya. Assim semdo, os norte-americanos colocou  umha tremenda pressom sobre Moshe Sharet, chefe da Agência Judaica, e outros dirigentes da Yishuv para que suspendessem a partida dos dous navios para a Palestina, com o argumento de que prejudicaria os esforços para implementar a resoluçom da ONU de 29 de novembro da Partiçom da Palestina. Sharet aceitou os argumentos dos EUA e visou parar a saída da embarcações, solicitnado que Ben Gurion desse a ordem. Ben Gurion tendia a concordar com a visom da situaçom de Sharet da situação mas, antes de chegar a umha decisom, Shaul Avigur -o chefe do Mossad Aliya Bet-, deslocou-se para a Palestina em 9 de dezembro para tentar dissuadi-los de travar a operaçom. Ele retorquiu que havia milhares de sobreviventes que ficaram sem abrigo ou roupas para o inverno, e um atraso na sua chegada à Palestina seria uma catástrofe para eles. Em consequência, Ben Gurion mudou de ideia. Na sequência destas pressões a Roménia recua o seu acordo para permitir a saída dos navios de Constanza. 

Logo a seguir umha equipa encabeçada por Yankale Salomon, antigo Comandante do 4º Batalhom do Palmach, organizou os comboios que levaram 15.200 sobreviventes do Holocausto de toda a Roménia para o porto de Burgas, na Bulgária.

Segundo Alejandro Coto, ao recolher a “carga” no porto búlgaro “havia umha multidom. Todos eles levavam às costas o pouco que lhes restava. Lembro perfeitamente que a maioria tinha as suas cousas dentro de lençóis atados polas pontas”. Nom suspeitavam que todo ia ficar lá. “Os da Agência Judaica foram muito duros com isso, obrigando-os a abandonar todo no cais porque apenas podíamos levar pessoas. Nom podem imaginar as cenas dramáticas que vivemos lá, como choravam; deviam deixar os seus pertences, toda a sua vida, atrás. E depois, havia alguns que estavam em condições precárias, muito fracos, mal podiam subir sozinhos pola passagem, assim que tínhamos de ajudá-los... Aquilo foi muito duro, muito duro”.

O Pan York e Pan Crescent  sairam do porto de Burgas em 26 de dezembro levando  7.557 e 7.612 passageiros, respetivamente. Havia mais de mil crianças menores de cinco anos, 4.000 crianças de máis idade sozinhas e 6.000 jovens. Umha equipa de 55 médicos estava na lista de passageiros, nascendo seis bebés no caminho. 

No caminho, à saída do estreito de Dardanelos, foram interceptados e bloqueados por três fragatas britânicas. De súbito, o buque escora perigosamente: “Nom havia mau mar, nom sabíamos o que se passava, -disse A. Coto-. Quando subimos a coberta ficamos assombrados: os judeus estavam todos do lado por onde apareceram os britânicos, insultando-os e ameaçando-os com os punhos para que nos deixassem passar”. 

Alcançou-se um acordo com os britânicos, a teor do qual os dous navios iriam diretamente para o Chipre. As tripulações dos dous navios nom seriam presas e o capitão de cada navio, Gad Hilb e Ike, iriam continuar a atendê-los com a ajuda de uma pequena equipa enquanto eles permaneceram ancorados perto de Famagusta. 

Durante a travessia segundo A. Coto “os passageiros saiam à cobertura para tomar o sol de inverno e respirar, fugindo da superlotaçom. Alguns pediam-nos que lhes deixássemos os chuveiros, mas era proibido porque eram milhares de pessoas, um problema real.  Nós dissemos: Olhe, eis a porta, eu nom vi nada”. 

Em 31 de dezembro os dous navios aportam no Chipre.

Os judeus ficaram confinados num campo de refugiados de Famagusta, onde estiveram até que meses mais tarde foram trasladados para o Estado de Israel. Relativamente à tripulaçom, os responsáveis dos barcos foram retidos (no caso de Hilario Erkiaga era o quarto campo em que entrava) até que puderam escapar utilizando nomes falsos. Os bascos, prisioneiros dos britânicos, entregaram os seus salvo-condutos franceses para poder serem usados na emigraçom clandestina.

Em 15 de maio de 1948 é proclamado o Estado de Israel, incorporando-se Ernandorena e Gangoitia ao ZIM (a Marinha Mercante Israelita). Os outros regressaram à França e outros, como Hilario Erkiaga, exilaram-se na Venezuela.

Com efeito, Vítor Gangoitia decide ficar de vez em Israel, fazendo parte desde 1948 até 1959 da ZIM . Lá conhece a sua mulher e nasce umha das suas duas filhas. Anos depois ele conta a sua participaçom no Resgate basco nos seguintes termos: "Eu sou basco. O meu nome completo é Víctor Gangoitia Zurzanazavalazagoitia e sou um republicano espanhol. Quando perdemos a guerra e Franco dominou toda Espanha com a ajuda dos vizinhos nazis e fascistas, abandonei o meu país num barco com bandeira panamense que fora alugado pola Agência Judaica. Durante três anos passamos pioneiros para Palestina sem ninguém dar conta. Ainda estava sob o Mandato Britânico e o nosso navio tinha que viajar durante a noite para evitar o seu bloqueio. Isso, até que fomos apanhados e toda a tripulaçom juntamente com os imigrantes "ilegais" fomos enviados para um campo de concentraçom na Turquia". 

O capitám Esteban Ernandorena Ernandura, mais conhecido de “Captain Steve”, instala-se em 1948 em Haifa com a sua mulher e os seus quatro filhos, obtendo toda a família a cidadania israelita. Amigo de Walter Eytan, o “Captain Steve” tornou-se num dos membros mais importantes da ZIM. Depois da sua morte em 1965 umha placa na sua lembrança e homenagem na parede da casa dos marinheiros de Haifa diz (em hebraico e inglês): “1905-1965, nascido em Biscaia; capitám de mar, ativo na frota “ilegal”; um dos cofundadores da Marinha Mercante Israelita, residente em Haifa”. Nessa cidade vivem ainda hoje alguns dos seus descendentes com apelido euskaldun e no seu cemitério o “Captain Steve” está soterrado junto da sua mulher.


Alejandro Coto passou um mês no Chipre à espera de arranjas os impressos e regressou a Marselha, partindo para novas aventuras que o levaram a Austrália e Singapura.

O Pan York e o Pan Crescent, rebatizados como Kibbutz Galuyot e Atzmaut, respetivamente, realizaram posteriormente mais viagens como a descrita, deslocando a maioria dos refugiados dos campos de concentraçom do Chipre para o novo Estado de Israel.

O Pan York aportando em Haifa

Durante a operaçom Aliá Bet, coordenada polo Mossad Aliá Bet, 120 barcos realizaram até 142 viagens clandestinos ou “ilegais” (do ponto de vista das restrições britânicas) que trasladaram 70.000 judeus. Metade deles foram apanhados por patrulhas britânicas. Os seus esforços intensificaram-se com as perseguições dos judeus da Europa sob o nazismo.  Neste quadro, os “Pans” foram os maiores navios.

quinta-feira, 7 de março de 2013

PORQUE DEVEMOS LEMBRAR O HOLOCAUSTO?


Por Jon Iñarritu

No dia 27 de janeiro comemora-se o 67º aniversário da libertaçom de Auschwitz-Birkenau; jornada estabelecida como Dia Internacional da memória das vítimas do holocausto. Relembraremos a maior das barbáries cometidas na história; o extermínio programado em modo industrial de milhões de pessoas: judeus, ciganos, homossexuais, deficientes,... O caso dos judeus merece, se calhar, especial atençom porque, como assinala o nóbel Eliese Wiesel, "nom todas as vítimas eram judias, mas todos os judeus eram vítimas". Seis milhões de pessoas apagadas sob o plano Endlösung der Judenfrage (Soluçom final ao problema judaico). A pior das atrocidades sucedeu mal há umhas décadas, aqui na Europa, no berço do humanismo.
Jon Inarritu
Cada ano, ao chegar esta data ou as comemorações do Porraimos (genocídio cigano), o Iom Ha Shoah (dia do genocídio arménio), surgem vozes advogando por reduzir a celebraçom destes atos ou que defendem que houve um excesso de dedicaçom à questom. Amiudadamente expõe-se que já sabemos todo o acontecido, que é história afastada, e exprime-se, malvadamente, que "a Shoah tem um uso propagandístico". Mesmo alguns representantes institucionais negaram-se a celebrar estes atos. Mas o mais terrível é quando se ouve, no século XXI, que se exagerou o holocausto ou que nom existiu. A negaçom, a revisom e a banalizaçom seguem de atualidade, defendidas desde postulados ideológicos diversos.

Ao contrário, o sobrevivente do holocausto, o catalám de origem húngara Jaime Vandor, acha que "nom se falou avondo do acontecimento mais terrível da história". Conhecemos o acontecido, vimos as imagens, os documentos, as câmaras de gás, visitado os campos, ouvido e lido desde os carrascos a muitas vítimas, como Primo Levi, Simone Veil, Elie Wiesel,... mas milhões de testemunhos de sobreviventes ou descendentes de vítimas desapareceram transformados em fumo ou cinza. Estamos perante a última geraçom que pode relatar as suas terríveis experiências. Quantos relatos de vítimas ficam por conhecer? Em setembro de 2011, estando em Jerusalém, acompanhei umha velha amizade ao Yad Vashem. Na seçom de documentaçom descobrimos a certidom da desapariçom dumha irmã do seu avó. Ao contrário, nom havia certidom nem qualquer rasto do resto dessa numerosa família, gaseada e incinerada, aqui na Europa. Esse dia fui testemunha de como, sete décadas depois, famílias vindas de todos os continentes preenchiam certidões, achegavam fotos, documentos e testemunhos enquanto outras procuravam informações sobre os seus familiares.

Aqui, em Euskal Herria, centos de pessoas foram apresadas e deportadas, umhas ao tentar fugir através do Estado espanhol; outras, nas suas casas. Duas regressaram vivas. Quem o teria pensado na Repúblia da liberté, égalité et fraternité? Ainda estamos a tempo de ouvir a Jackeline Pinede contar como sobreviveu à matança de Oradour-sur-Glane, onde desapareceu a sua família; a senhora Mesplé-Lassallé pode-nos narrar a sua experiência nos campos de concentraçom, podemos ouvir a George Dalmeyda a sua fugida e estância oculta nos Alpes; ou a história da senhora Lates, que sobreviveu escondida no Bearn. Todos sobreviventes da maior barbaridade. Tantas histórias por saber!

Devemos lembrar o acontecido porque devemos-lho aos assassinados, aos sobreviventes, aos seus familiares, aos "Justos entre as Nações" conhecidos e desconhecidos. De igual forma, num período no que vemos o apogeu da extrema direita na Europa; em concreto na República francesa, onde observamos com inquietaçom que um partido para o qual os campos de concentraçom "foram detalhes da história ou balneários", conta com um apoio altíssimo; num Estado espanhol, em que o TC decidiu que a negaçom da Shoah nom é delito. Perante uns índices preocupantes de racismo, anticiganismo, islamofóbia e judeufóbia na UE, devemos lembrar! Para que nom volte a acontecer e para que a discriminaçom e o ódio nom tenham lugar na Europa nem no mundo. Nunca mais!

Jon Iñarritu é um político independentista basco militante do partido Aralar. Desde 2011 é deputado no Parlamento espanhol eleito pola candidatura Amaiur.

Artigo publicado no jornal DEIA e traduzido por CAEIRO.

sábado, 19 de janeiro de 2013

A QUESTÃO DA PALESTINA

L. Vatolina

Palestina é um país agrário. É franco raco seu desenvolvimento industrial. Aproximadamente 67% de sua população (1.912.000 habitantes, dos quais 1.143.000 Árabes e 600.000 Judeus)(1) ocupam-se na agricultura. Entretanto, a superfície de suas terras de cultura é muito restrita, não ultrapassando 8.000 quilômetros quadrados numa extensão total de 26.000 quilômetros quadrados. A densidade média da população é de 73 habitantes por quilômetros quadrado.

A quem pertencem as terras? Perto de 45% dessas terras estão concentradas nas mãos dos senhores feudais árabes, mais de 20% pertencem aos fundos de colonização judaicos, que os cedem em arrendamento a longo prazo aos colonos individuais e às cooperativas agrícolas judaicas(2); uma outra parte é controlada pelas grandes sociedades judaicas e pela comunidade religiosa muçulmana dos Vecufs.

Assim, os camponeses árabes, em sua grande massa, só dispõem de pequenos pedaços de terra, que obtêm, por arrendamento, dos grandes proprietários árabes os quais lhes impõem uma espécie de servidão. Quanto aos camponeses sem terra, esses são também explorados nas plantações da burguesia judaica.

No que se refere aos fundos de colonização judaica, a revista "Eretz Israel" publicou índices relativos à atividade do mais importante entre eles, o "Kerem Hassoyed", órgão financeiro da Agência Judaica(3) que, em 24 anos de existência, recolheu 13 milhões de libras esterlinas entre os Judeus da Europa e sobretudo da América, para a compra de terras na Palestina. Atualmente, dos 170.000 hectares aproximadamente, de que dispõe a população judaica na Palestina, 30% pertencem ao "Kerem Hassoyed". E contam-se por dezenas de milhares os proprietários árabes que perderam suas terras, devido à aquisição das mesmas pelas sociedades de colonização judaica, ligadas ao Banco Rothschild de Londres, assim como a outros bancos internacionais.

Além disso, graças aos créditos de que dispõem, em razão dessas ligações, as plantações judaicas são munidas de equipamento técnico moderno enquanto que as pequenas explorações árabes empregam, na sua maioria, métodos primitivos de lavoura. Estas últimas cultivam principalmente cereais, que servem para o consumo interno do país; aquelas cultivam especialmente ameixa principal produto comercial do país e que é exportado para os Estados Unidos.

Já vimos que é fraco o desenvolvimento industrial da Palestina. A indústria existente é sustentada por capitais ingleses, americanos, e, em pequena parte, judeus, investidos principalmente na produção de potassa, de soda e de energia elétrica, assim como na transformação do petróleo.(4) Quanto às empresas industriais médias, essas pertencem, em grande parte, à burguesia judaica imigrada. Graças à imigração dos operários judeus, que se produziu principalmente durante os últimos anos, a experiência dos métodos modernos de produção difundiu-se nessa indústria, ao mesmo tempo em que se ampliava o mercado interno.
A Imigração Judaica

Foi no período compreendido entre as duas guerras que se tornou mais forte a imigração judaica na Palestina. Nos vinte anos que decorreram após a obtenção do mandato sobre a Palestina, pela Inglaterra, de 1919 a 1939, 400.000 imigrantes judeus instalaram-se naquele país. Foi assim que a composição da população modificou-se da seguinte maneira no decorrer desse período: em 1919, contavam-se 65.000 judeus num total de 648.000 habitantes; em 1939, contavam-se já 446.000 judeus num total de 1.502.000 habitantes; em 1946, 600.000 em 1.800.000.

Ao mesmo tempo, aumentava consideràvelmente o afluxo dos capitais. Em 20 anos, 575 milhões de dólares foram investidos na Palestina, dos quais três quarta partes a favor da burguesia judaica, sendo uma parte utilizada na compra, para os imigrantes, das terras dos "felahs", enquanto a maior parte era investida no comércio e na indústria. Como essa colonização das terras árabes pelos Judeus poderia ter deixado de agravar consideràvelmente a tensão árabe-judáica? Depois da ida de Hitler ao poder, do aguçamento da perseguição aos judeus na Alemanha e das conseqüências da crise econômica na Europa, o número dos imigrantes passou de 5.200 em 1929, 4.900 em 1930, 4.000 em 1931, 9.500 em 1932, a 33.300 em 1933, 42.300 em 1934 e 61.800 em 1936(5). Nessas condições, como poderiam os Árabes deixar de temer a possibilidade de se tornarem, um dia, minoria? Tanto mais que a Inglaterra excitava artificialmente e explorava, para seus próprios fins imperialistas, a discórdia árabe-judáica.

Indústria, Comércio e Finanças

Por mais fraca que seja, a indústria da Palestina, que trabalhou durante a guerra, para as necessidades militares da Grã-Bretanha, desenvolveu-se, então, consideravelmente. Foi assim que o valor global da produção passou de 10 milhões de libras esterlinas em 1939 a 36 milhões em 1943. A percentagem da população empregada na indústria passou, em conseqüência, de 14 em 1931, a 25 em 1942. Várias indústrias novas, trabalhando em parte para a população, foram, além disso, criadas no decorrer destes últimos anos: indústrias químicas, farmacêutica, de silicatos, de conservas, etc.

Isso não altera o fato de que é muito fraco o capital nacional árabe. Algumas pequenas empresas de transformação dos produtos agrícolas (indústria do vinho, do sabão, etc.) são as únicas que se acham concentradas nas mãos da burguesia árabe. É a burguesia judia quem controla a maior parte da pequena indústria e da média, em particular a indústria de lapidação de diamantes, que utiliza a matéria prima da União Sul-Africana, e que recentemente tomou especial desenvolvimento, com a exportação dos diamantes lapidados para os Estados Unidos. Dessa maneira, segundo os cálculos da Agência Judaica, a produção das empresas judaicas passou de 9 milhões de libras, em 1937, a 20,7 milhões em 1942, e o número dos operários que elas empregam passou ao mesmo tempo de 30.000 para 56.000. (6)

O comércio exterior, aliás, representa um papel importante na economia da Palestina, economia essa que depende, em conseqüência da situação colonial do país, da importação dos produtos manufaturados. (A balança comercial da Palestina sempre foi passiva e acha-se coberta pelo produto das exportações invisíveis, imigração, turismo, peregrinações). O volume total desse comércio exterior passou, de 1939 a 1944, de 19,7 milhões de libras esterlinas, para 50 8 milhões(7). É conveniente observar, a esse respeito, que, enquanto que antes da guerra a parte da Inglaterra atingia a perto de 20% nas importações e 50% nas exportações da Palestina, e o segundo lugar era ocupado pela Alemanha, foram os Estados Unidos e os países árabe que, durante a guerra, se beneficiaram com um aumento da sua parte.

Do ponto de vista financeiro, a Palestina depende do capital inglês e americano (Barclay's Bank, Banco de Hipotecas da Palestina, Banco central das cooperativas, etc.), com o qual o capital judeu se acha ligado intimamente, assumindo com frequência o papel de intermediário. Além disso, a Palestina, durante a guerra, foi, como o Egito e a Índia, credora da Inglaterra. A dívida inglesa para com a Palestina é de 120 milhões de libras.

Uma História de Esperanças Malogradas e de Violências

O período compreendido entre a primeira e a segunda guerra mundiais, foi marcado, na Palestina, por uma agravação brusca das contradições internas, por atritos e choques contínuos entre as autoridades britânicas e a população, por um lado, e por outro lado entre Judeus e Árabes. A história da Palestina, nos últimos anos, é uma história de promessas não cumpridas, de esperanças Malogradas de violências e de ultrajes aos sentimentos nacionais dos dois povos.

Até 1939, a Inglaterra contava principalmente com a burguesia judaica, encorajando-lhe as aspirações sionistas. Ao mesmo tempo, fazia tentativas de aproximação junto aos senhores feudais árabes, e provocava conflitos entre a burguesia judaica e a grande massa dos camponeses árabes explorados por essa burguesia e pouco a pouco eliminados de suas terras pela força do capital judaico.

Assim, longe de criar no país as condições propícias à organização de uma administração democrática, longe de estimular o desenvolvimento de órgãos administrativos autônomos, como havia sido previsto pelo mandato, as autoridades britânicas aplicaram na Palestina uma verdadeira política colonial imperialista, usando de medidas arbitrárias e pouco se importando com o direito. O fato de que as despesas com a polícia eram, sem termo de comparação, as mais importantes do orçamento (18 milhões de dólares americanos para a "manutenção da ordem", contra 2 milhões, apenas, para a saúde pública e outro tanto para a educação) dá, aliás, uma idéia dessa política. E se os ingleses sempre procuraram justificar suas medidas policiais invocando a "discórdia" nacional e a dificuldade e fazer co-habitar Árabes e Judeus, isso não passa de uma ironia, pois eram eles que, fieis à sua divisa: "divide et impera" excitavam o antagonismo e o ódio, açulando os Árabes contra os Judeus e os Judeus contra os Árabes e provocando periodicamente massacres e progroms.

Grandes levantes antiimperialistas marcaram, também, a história da Palestina nessa época, em 1920-21, 1929-33, 1936-38.

Esses levantes foram cruelmente reprimidos pela Inglaterra. Entretanto, esse desejo de se libertar do domínio da Inglaterra, que persistia na grande massa dos Judeus assim como nas dos Árabes, constituía o fator principal da aproximação entre esses dois povos e representava, portanto, uma ameaça suplementar para a Inglaterra.
Por isso, o imperialismo inglês perseguia todos os elementos democráticos e progressistas, apoiando-se ora na direita judia, ora nos meios reacionários árabes, política que foi seguida tanto pelos governos trabalhistas quanto pelos conservadores. E as comissões enviadas periodicamente pelo governo britânico à Palestina, para "examinar a situação" só podiam pretender, nessas condições, redigir projetos e propor paliativos incapazes de resolver o verdadeiro problema.

O Livro Branco

Às vésperas da segunda guerra mundial, a Inglaterra reforçou seus preparativos militares e estratégicos no Oriente-Próximo. Temendo uma agressão por parte da Itália fascista, assinou um pacto militar com o Egito e se viu obrigada, em certa medida, a fazer a revisão de sua política relativamente aos Árabes da Palestina. No Livro Branco, publicado por ela em 1939, tornou-se visível, com mais precisão, que ela se propunha a adotar uma política "que levaria em conta os desejos da maioria árabe" e se apoiaria nas camadas sociais superiores dessa maioria. Acabavam de se realizar, nessa época, importantes manifestações anti-imperialistas, ao mesmo tempo em que se tinham agravado as relações árabe-judáicas, em conseqüência da intensificação da imigração judaica.

Em novembro de 1937, os líderes árabes tinham exigido do comissário inglês na Palestina a formação de uma administração árabe autônoma, a interdição da venda das terras árabes aos colonos judeus e a interrupção imediata da imigração judaica. Essas exigências tendo provocado a indignação da população judia, o governo britânico instituiu uma comissão especial, dirigida por Lord Pill, para o exame do problema da Palestina. A comissão recomendou, então, a divisão do país em três partes sendo que uma formaria o Estado Judaico, outra o Estado Árabe e a terceira ficaria sob controle inglês. Mas o governo britânico julgou quimérico esse plano e anunciou a convocação da conferência da Mesa Redonda de 1939, conferência a que tanto os líderes políticos árabes quanto os líderes políticos judeus recusaram comparecer.

O Livro Branco fixava da seguinte maneira os planos ingleses a respeito da Palestina:
1.° Criação, num prazo de 10 anos, de um Estado Palestino independente, se fosse realizado o acordo entre os Judeus e os Árabes;
2.° Limitação da imigração judaica, ficando esta fixada, durante 5 anos, em 75.000 pessoas por ano, e, a partir de 1944, submetida ao consentimento dos Árabes;
3.° Atribuição, ao alto comissário para a Palestina, do direito de regulamentar e de proibir a transferência das terras de um proprietário para outro.

A publicação do Livro Branco foi interpretada, não só pelos Judeus da Palestina, mas também por numerosos ingleses, como o repúdio, por parte da Inglaterra, dos compromissos assumidos outrora e relativos à criação do Lar Nacional Judaico. Durante os debates no Parlamento, vários líderes conservadores e trabalhistas tomaram posição, resolutamente, contra a política proclamada pelo Livro Branco. O governo britânico anunciou, então, sua intenção de submeter esse caso ao Conselho da SDN mas o início da segunda guerra mundial forneceu o pretexto para adiar ainda uma vez a solução desse problema.

O Problema de Biltmore e a Ação Judaica

Mais tarde, o governo britânico confirmou sua intenção de limitar estritamente a imigração de judeus, e, a 28 de fevereiro de 1940, foram publicadas na Palestina novas regras aplicáveis à colonização das terras. O país era dividido em três partes; numa delas, era proibida a venda da terra aos Judeus pelos Árabes; em outra, essa venda era limitada e, na terceira, era admitido o livre povoamento das terras pelos Judeus. Entretanto, essa terceira zona representava apenas 5% da superfície total do país.

Enquanto isso, a segunda guerra mundial tinha dado muito maior acuidade ainda ao problema da criação de um lar nacional judaico. O fascismo escrevera novas páginas sangrentas na história trágica do povo Judeu. Nas câmaras de tortura e nos campos de concentração hitleristas milhões de Judeus tinham sofrido tormentos desumanos e tinham sido exterminados.

Com o início da guerra, afluirá para a Palestina uma imigração judaica clandestina, com o apoio ativo da população judaica do país. Em face do perigo representado pela Alemanha fascista, essa população judaica abandonara provisoriamente a palavra de ordem de luta contra a política formulada no Livro Branco. Ela contava apresentar novamente suas reivindicações à Inglaterra após o fim da guerra. De 20.000 a 30.000 judeus serviam em destacamentos das forças armadas inglesas.(8)

Depois, à medida que ia diminuindo a ameaça da agressão fascista, a maioria dos judeus de Palestina travou a luta não só contra a administração britânica mas também contra a Agência Judaica, que representava, naquela época, o papel de intermediário entre a população judaica e a Inglaterra. Além disso, em 1942, a maioria dos sionistas da Palestina havia formulado suas reivindicações no programa de Biltmore. Esse programa pode ser resumido em três pontos:
- Imigração ilimitada;
- Venda ilimitada das terras;
- Criação de um Estado judaico como objetivo final.

Esse programa se destinava a ganhar, para os sionistas, a massa dos judeus médios da Palestina.

Entretanto, diante da penetração cada vez mais profunda dos Estados Unidos no Oriente-Próximo, e diante da resistência reforçada da população judaica da Palestina ao domínio inglês, tornava-se cada vez mais difícil para a Inglaterra continuar a política exposta no Livro Branco. Nessas condições, no momento em que a imigração de judeus só deveria ser admitida com o consentimento dos Árabes, após haver expirado o período de 5 anos fixado pelo Livro Branco para a entrada dos imigrantes, a administração inglesa, levando em conta a situação criada pela guerra, autoriza a continuação da imigração. Isso se passava na primavera de 1944 e foi no outono do mesmo ano, na véspera das eleições americanas, que os Partidos Republicano e Democrata dos Estados Unidos adotaram, com o fim de atrair eleitores, uma resolução a favor, igualmente, na imigração judaica ilimitada.

Liga Árabe e Congresso Sionista

Na mesma época, ainda, que a perspectiva próxima do fim da guerra e da vitória dos Aliados gerou entre os povos dependentes do Oriente árabe a esperança de ver realizadas as promessas de independência que lhes haviam sido feitas. Espelhou-se amplamente nesses países o movimento de libertação nacional. Os meios nacionalistas árabes exigiam com determinação cada vez maior a evacuação de seus territórios pelas forças inglesas, o reconhecimento de sua soberania e a instauração de sua independência.

Mas as tendências ultra-nacionalistas, pan-islamistas e pan-arábicas predominavam entre os nacionalistas árabes, nas camadas superiores da população, e foram exatamente essas tendências que a diplomacia inglesa decidiu explorar em seu próprio interesse.

Foi então que se fundou, com o apoio da Inglaterra, a Liga dos países árabes, por decisão da conferência dos ministros e dos representantes dos Estados árabes. Tratava-se, no caso, de uma manobra da diplomacia britânica, que garantira sua influência na Liga, graças aos sentimentos pró-inglêses de seus membros como Nouri-Said, primeiro ministro do Iraque e secretário geral da Liga, Azzam-Pacha, representante do Egito. Por intermédio da Liga, a Inglaterra ficou doravante capacitada a controlar e dirigir a política exterior dos países árabes.

Sabe-se que a finalidade oficial da Liga é a de coordenar a política estrangeira dos Estados membros e realizar sua colaboração, em vista de salvaguardar sua independência nos setores econômico, cultural, social e outros. Sob essa máscara, entretanto, ela desenvolveu, desde o início, uma política favorável aos interesses da Inglaterra. No que se refere ao problema da Palestina, em todo caso, sabe-se como a Liga que é — tomemos nota disso — uma emanação das camadas sociais superiores dos diferentes Estados árabes, proclamou sem tardar que a Palestina era um país exclusivamente árabe e tomou posição contra a imigração dos judeus. Por outro lado, decidiu fortalecer a imigração na Palestina dos árabes da África do Norte, e tomou, com uma celebridade que não lhe é habitual, várias medidas tendentes a boicotar as mercadorias vendidas pelos judeus e a unir os partidos políticos árabes da Palestina.

Sem dúvida, o imperialismo britânico se vê obrigado a fazer certas concessões na política que desenvolve a respeito do Oriente-árabe. Mas tenta incessantemente reduzir a nada essas concessões, introduzindo-lhes toda espécie de restrições e de emendas, no sentido de modificar apenas as formas exteriores de seu domínio. Foi assim que, em seguida à conferência do Partido Trabalhista na primavera de 1945, conferência de preparação das eleições, durante a qual foi decidido abandonar inteiramente a política do Livro Branco (um dos líderes trabalhistas, M. Dalton, pronunciou-se, então, a favor da criação de um Estado Judaico) o Congresso sionista, que se realizou em Londres no verão do mesmo ano, adotando uma resolução que exigia a criação, na Palestina, de um Estado Judaico "uno e indivisível", preveniu a Inglaterra contra qualquer espécie de "meias-medidas e adiamentos". Apresentava também várias reivindicações urgentes:
— Imigração ilimitada dos Judeus na Palestina;
— Concessão de um empréstimo internacional para auxiliar a transferência do primeiro milhão de judeus nesse país;
— Auxílio Internacional para a organização do transporte dos imigrantes para a Palestina, etc...

Por seu lado, Mr. Truman exigia do governo britânico, pouco tempo depois do Congresso sionista, a autorização da entrada, na Palestina, de 100.000 Judeus europeus, isso com a finalidade de assegurar o apoio dos judeus tanto nos Estados Unidos quanto na Palestina, país que o imperialismo americano conta submeter à sua influência.

Foi então que o governo britânico, sem dar resposta à nota de Truman, enviou reforços militares para a Palestina, o que provocou, nesse país, uma nova onda de indignação e de vários atos de terrorismo. Na data aniversaria da declaração Balfour (9), por exemplo, o "Haganah" organizou greves, dinamitou trens e provocou perturbações em Tel-Aviv. Em Jerusalém, os terroristas judeus dinamitaram, nessa época, o grande hotel "O Rei David", onde se encontrava hospedado o estado-maior das tropas inglesas, e produziram-se, no Cairo, em Trípoli e em outras cidades árabes, excessos anti-semitas.

Quanto à polícia inglesa, foi também contra a população judaica que, auxiliada por um exército de 80.000 homens, ela se encarniçou com extrema crueldade, multiplicando batidas, prisões e perseguições. Não pôde, entretanto, destruir os grupos terroristas clandestinos, que desfrutavam o apoio da população .

O Relatório da Comissão Anglo-Americana de 1948

Diante de tal situação, o governo britânico propôs aos Estados Unidos a organização de uma comissão mista anglo-americana, com o objetivo de examinar as condições políticas, econômicas e sociais da Palestina. Os Estados Unidos que, conforme já dissemos, manifestam um interesse todo especial pelo Oriente árabe em geral e, mais particularmente, pela Palestina, aceitaram. Essa comissão publicou seu relatório em Londres, a 30 de Abril de 1946.

Convidando o mundo inteiro a "compartilhar da responsabilidade da sorte dos Judeus vítimas da perseguição fascista" e notando que as manifestações do anti-semitismo são uma herança direta do fascismo, propunha autorizar a imediata imigração de 100.000 Judeus na Palestina, e assegurar a autonomia de toda a população desse país.

Pode-se observar, entretanto, que ela se abstinha de mencionar a esse respeito, que nem a Inglaterra nem os Estados Unidos combatiam realmente, eles próprios, o anti-semitismo. O relatório constava ainda que a hostilidade existente entre os Judeus e os Árabes, e a tendência de cada um desses povos de assegurar seu domínio pela força, só podia destinar à falência o plano que visava criar um ou vários Estados independentes, por que esses ficariam expostos ao perigo da guerra civil. Por essas razões, a comissão recomendava prolongar o mandato até o estabelecimento da tutela da ONU sobre a Palestina.

Tendo assim reduzido a questão da Palestina à hostilidade entre Judeus e Árabes, a comissão anglo-americana guardou silêncio sobre a causa principal dessa tensão: o domínio inglês sobre a Palestina e a existência do sistema do mandato. Melhor ainda: embora reconhecendo a existência, na Palestina, de uma "atmosfera de extrema tensão", a recrudescência da imigração clandestina e o desenvolvimento "sinistro" das formações militares judias, recomendava prolongar o mandato, o que não podia deixar de exasperar ainda mais tanto, os Árabes quanto os judeus; os sionistas ficaram descontentes porque o relatório não preconizava a criação do Estado judeu e os Árabes protestaram porque a comissão não levara em conta seu desejo de criar uma Palestina árabe.

A conseqüência aliás foi clara: o terrorismo continuou, a administração inglesa reprimiu sempre com a mesma dureza a imigração clandestina dos judeus; a população judaica armou-se clandestinamente para sua autodefesa e os Árabes aplicaram de forma sistemática a decisão da Liga relativa ao boicote das mercadorias judias, enquanto iam por sua vez preparando formações armadas.

O Ponto de Vista Soviético

Como se vê, a luta diplomática que se travou em torno da questão da Palestina sempre foi extremamente completa. A Inglaterra e os Estados Unidos, com efeito, mascaram constantemente suas verdadeiras intenções nesse setor, com declarações solenes de toda espécie e com promessas. Essas duplicidade foi, aliás, relevada em parte, no que se refere à política americana, pelos documentos confidenciais citados por Burtley Cram em seu livro: "Atrás da Cortina de Seda". Foi assim que — conforme provam esses documentos — cada vez que eram feitas promessas aos Judeus, no sentido de resolver o problema da Palestina, o Departamento de Estado nunca deixava de prevenir imediatamente aos líderes árabes que não tomassem em consideração essas promessas.

Ao contrário, é muita nítida a posição da União Soviética quanto ao problema da Palestina. E a União Soviética, país multinacional, onde foi resolvido com sucesso o difícil problema das nacionalidades, pode falar com conhecimento de causa. Graças aos sábios princípios da política leninista-stalinista, sessenta nacionalidades diferentes vivem nos territórios soviéticos, fraternalmente unidas, substituindo a velha Rússia czarista onde se sucediam os progroms de judeus e os massacres dos Armênios. Existe, aliás, na URSS, uma região autônoma judaica.

Tendo dado ao mundo inteiro o exemplo do triunfo de uma justa e eficaz política das nacionalidades, a URSS não pode permanecer indiferente à sorte dos povos que estão ainda oprimidos pelo imperialismo. Por isso mesmo, ela sempre lutou com conseqüência e continua a lutar pelo reconhecimento da independência dos Egípcios, dos Indonésios e dos outros povos dependentes e escravizados. E a sorte do infeliz povo judeu, tão maltratado pela guerra, não pode deixar de despertar sua simpatia.

Em sua intervenção na sessão especial da Assembléia geral da ONU, A. Gromyko, representante da União Soviética, examinou várias possibilidades relativas à futura organização da Palestina. Indicou os seguintes projetos:
- Formação de um único Estado árabe-judáico, sendo que os dois povos devem gozar de direitos iguais;
- Divisão da Palestina em dois Estados democráticos independentes, um árabe e outro judeu.

A. Gromyko fez ressaltar, a esse respeito, que tanto os Árabes quanto os Judeus possuem raízes históricas na Palestina e ocupam um lugar importante na vida econômica e cultural desse país. Qualquer outra solução, desprezando os direitos legítimos de um ou de outro povo, não poderia, portanto, dar uma solução eqüitativa ao problema da Palestina, e só traria conseqüências desastrosas.

Tomando esse fato em consideração, isto é, que a Palestina se tornou a Pátria dos dois povos, a delegação soviética tinha chegado à conclusão de que "a solução mais realista do problema seria a criação de um único Estado duplo, árabe-judáico, independente e democrático". Nesse Estado, que garantiria, efetivamente, partindo dos princípios democráticos, a igualdade dos direitos e a colaboração econômica pacífica dos Árabes e dos Judeus, os povos veriam abrir-se ante seus olhos perspectivas ilimitadas de desenvolvimento cultural e econômico, para o máximo benefício de toda a população do Estado democrático bi-nacional. Como o fez ainda notar A. Gromyko, a criação de um Estado assim constituiria, além de tudo, um fundamento sólido para a co-habitação pacífica e a colaboração dos Árabes e dos Judeus, não só no interesses dos dois povos, mas também no da paz em todo o Oriente-Próximo.

Mas a brutal agravação das relações árabe-judaicas, a que hoje assistimos, por culpa da intervenção estrangeira, só permitiu que fosse encarada a segunda solução proposta pela delegação soviética, isto é, a divisão da Palestina em dois Estados, dos quais um, o Estado de Israel, já está formado e reconhecido pela URSS.

Mas, de um ou de outro modo, e apesar da forte opressão exercida sobre a opinião pelos agrupamentos ultra-nacionalistas, tanto árabes quanto judeus, e apesar, também, de toda sorte de subtilezas jurídicas, a União Soviética repele resolutamente qualquer projeto de organização da Palestina que não quisesse levar em consideração os direitos legítimos quer dos Árabes, quer dos Judeus.

Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 14 - Outubro de 1948 (órgão do Partido Comunista do Brasil). 
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, Julho 2007.
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Notas:
(1) "Bulletin of Current Statistics" — Maio de 1947.
(2) Segundo os índices da Agência Judaica, 25% dos imigrados judeus fixaram-se nos campos, 75% residem nas cidades.
(3) A função da Agência Judaica foi prevista pelo art. 4, do mandato palestino de 1922 . Sua finalidade é a de tomar, sob o controle da administração inglesa, todas as medidas necessárias à criação do lar nacional judaico.
(4) A grande refinaria do "Irak Petroleum Co.", em Haifa, transforma cerca de dois milhões de toneladas por ano.
(5) John Marlowe "Rebellion in Palestine" — 1946.
(6) "Great-Britain and Palestine, 1915-1945" Royal Institute of International affaírs, London, 1946, pág. 79.
(7) Obra citada, pág. 80.
(8) Segundo as informações do representante oficial da Agência Judaica, o Dr. Haim Weizman, e o líder do Partido Sionista da Palestina, David Ben-Hurion, mais de 30.000 judeus auxiliaram a Grã-Bretanha a combater o fascismo.
(9) Declaração pela qual, em 1917, o governo inglês prometia a criação de um lar nacional judaico na Palestina.