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terça-feira, 20 de novembro de 2018

ESTUDO GENÉTICO SOBRE JUDEUS SEFARDITAS

Inês Nogueiro, investigadora visitante em genètica das populações no Instituto de Patologia Mulecular e Imunologia da Universidade do Porto (IPATIMUP), está a realizar um projeto de investigação sobre os Judeus sefarditas com o Technion Institute of Technology em Haifa, Israel e o antedito Ipatimup/I3S. 

O nome do projeto é "Portugal: História dos Judeus Sefarditas na Era Genómica: uma abordagem multidisciplinar" e nos próximos meses vai recolher amostras de ADN em Portugal e na Galiza.

A participação é gratuita, todos os dados são confidenciais e o estudo está aprovado pela comissão de ética.

Vai-se proceder à recolha de amostras de ADN durante o mês de novembro em Lisboa, Belmonte e Porto.

1 - Este estudo NÃO tem como objetivos PROVAR a ascendência sefardita ou qualquer outra, através de exames de DNA.

2 - Não há, não existem, nem tão pouco faz sentido geneticamente falar em “B.I. ou Genes Judeus” ou “Raças”. Embora exista variabilidade genética entre as várias populações humanas, biologicamente, o que partilham é muito mais significativo do que as ínfimas diferenças que possam ser detetadas. 

 3 – O principal objetivo deste estudo é a definição de uma “população referencia” de Judeus Sefarditas de origem Ibérica que será posteriormente usada como modelo para futuros estudos das comunidades da Diáspora após o Decreto de Expulsão. 

IMPORTANTE: São apenas elegíveis como dadores de ADN aqueles que têm comprovadamente ascendência Judaica, de pelo menos um dos progenitores, de origem portuguesa ou espanhola (entendendo-se aqui a tradição familiar, ou dados genealógicos, ou dados históricos, ou pertença a uma comunidade, etc.).

NÃO SÃO ELEGÍVEIS, nesta fase da investigação, aqueles que apenas têm uma suspeita/curiosidade sobre a referida ancestralidade Judaica.

Para as amostras é preciso que as pessoas dadoras tenham estado sem comer e beber pelo menos uma hora antes de recolher o ADN.


Texto informativo sobre o projeto “História dos Judeus Sefarditas na Era Genómica: uma abordagemmultidisciplinar”.

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

Agradece-se a tod@s aqueles que queiram participar no estudo que contactem por email:  inogueiro@ipatimup.pt

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

SIMPÓSIO SOBRE JUDAISMO TRANSMONTANO

O diretor do Centro de Estudos Judaicos do Alto Tâmega (CEJAT) - Rotary Clube de Chaves e a comissão organizadora do III Simpósio, que decorrerá em Chaves e Valpaços, nos dias 15 e 16 de março de 2019, convidam ao envio de artigos originais e com validade científica, no âmbito dos estudos sobre a História e o Património dos Judeus, Cristãos Novos e Marranos em (de) Trás-os-Montes para apresentação de comunicações no referido simpósio.

Os artigos devem versar um ou mais aspetos da temática Os Judeus, Cristãos Novos e Marranos em (de) Trás-os-Montes: História e Património que será o título que dará o mote para este III simpósio.

Os investigadores interessados devem enviar, até 14 de dezembro de 2018, um resumo na língua do artigo e outro em inglês, até ao máximo de 20 linhas, formato A4, tipo de letra: Times New Roman e 1,5 de espaçamento entrelinhas, o qual incluirá as palavras-chave, até ao máximo de cinco (5) que não figurem no título; até 10 de janeiro de 2019 os autores/investigadores serão informados dos trabalhos que foram aceites, até ao máximo de 6 (seis) comunicações (1); até 10 de fevereiro devem submeter o texto final das comunicações, que será publicado nas atas do Simpósio. O tempo para cada comunicação será de 30 minutos.

As comunicações não poderão ultrapassar as 25 páginas A4, tipo de letra e espaçamento entrelinhas igual ao que é pedido para o resumo.

Preferencialmente, as comunicações devem ser em Língua Portuguesa, mas também serão aceites as de Língua Espanhola.

As comunicações serão enviadas em documento do Word; alinhamento justificado; margens: superior – 2 cm; inferior – 1,5 cm; interior – 2 cm; exterior – 1,5 cm; margens múltiplas: simétricas.

Os subtítulos a negrito, alinhados à esquerda.

Os artigos devem ser submetidos para o email: rotay.cejat@gmail.com

Todas as referências devem aparecer em forma de nota de rodapé. O texto não terá uma listagem bibliográfica final.

O nome do autor ou outros elementos identificadores não poderão integrar o corpo do texto.

Num ficheiro à parte, devem ser enviadas as informações sobre o autor, nomeadamente o nome, a afiliação institucional, o endereço de email e uma breve nota curricular.

Quadros, figuras, gráficos, mapas, etc. também devem ser enviados em ficheiros à parte. Porém, o texto deve conter a indicação dos locais onde estes materiais devem ser inseridos, bem como a legenda dos mesmos.

Conferir documento sobre Normas de citação.

(1) Desde que lhe seja reconhecida validade científica, as comunicações serão aceites pela ordem de entrada neste Centro de Estudos.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

LEBUÇÃO

Lebução é umha freguesia portuguesa do Concelho de Valpaços que, ao abrigo da reorganizaçom administrativa de 2012/13, foi integrada na freguesia de Lebução, Fiães e Nozelos.

Segundo o historiador Jorge Alves Ferreira para esta freguesia ter-se-ia deslocado umha comunidade de Judeus para poder continuar a prática de forma discreta dos ritos da sua cultura religiosa. De facto, só nesta aldeia foram presas 17 pessoas pola Inquisiçom.

Aqui criou-se umha comunidade muito próspera de cristãos-novos que, para além de liderar o comércio, fixaram talvez a mais importante e ativa rede de passagem de Judeus da regiom de Trás-os-Montes.

Até muito recentemente esta terra era dedicada ao comércio e a agricultura, atividades liderizadas por judeus ou descendentes de judeus, entre os quais destacou Manuel da Fonseca.

A consciência de pertença a esta comunidade foi tam forte que a tradiçom oral conserva o ditado de que, em plena guerra liberal, umha senhora desta terra chegou a dizer que "se soubesse que tinha umha costela que nom fosse judia ou liberal mandava-a arrancar".

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

MONFORTE DE RIO LIVRE

Monforte de Rio Livre foi umha vila e sede de concelho localizada na atual freguesia de Águas Livres no município de Chaves.

A importância da vila esteve ligada ao seu castelo, mandado construír polo rei Afonso III em 1253 aquando visitou a regiom. Em 1273 a povoaçom recebeu foral do mesmo rei, altura em que devem ter-se iniciado as obras de reforma do conjunto que, na sua maior parte, chegou até aos nossos dias.
Castelo de Monforte de Rio Frio. Wikipédia

Logo a seguir Afonso III alçou a vila a cabeça de território, dentro do mesmo processo de organizaçom da fronteira setentrional, e concedeu-lhe umha série de facilidades, entre as quais, um couto de homiziados, sede dumha das 4 judiarias de Trás-os-Montes (junto a Chaves, Mogadouro e Bragança) e instituiu-lhe umha feira na regiom de dous dias, célebre até recentemente.

Estes privilégios, para além dumha localizaçom perto da fronteira com a Galiza, facilitou a instalaçom de Judeus que, como no caso da Judiaria galega de Monte-Rei, moravam nom dentro da fortaleza, mas na área muradada que envolve o castelo, permitindo o desenvolvimento de toda classe de negócios. 

Porém, a zona nunca se desenvolveu muito e pensa-se que muitos dos judeus que moraram aqui no século XIV foram para Chaves. No final do século XVIII habitam junto do castelo 5 famílias judaicas.


No início do século XIX a vila encontrava-se despovoada e, numha reforma administrativa, em 1836 a sede do município é transferida para a freguesia de Lebução, e em 1853 o concelho é extinto, passando parte das suas freguesias para Chaves ou Valpaços. Com a extinçom do Concelho o castelo foi abandonado, assim como a povoaçom.

Artigo redigido a partir de informações do historiador Jorge Alves Ferreira

domingo, 23 de setembro de 2018

A RESISTÊNCIA DOS JUDEUS NO NOROESTE TRANSMONTANO

Hoje apresenta-se, na freguesia de Santa Valha, município de Valpaços, o mais recente trabalho do historiador Jorge Alves Ferreira, intitulado "Os Judeus no Noroeste transmontano: 300 anos a resistir à Inquisição". O estudo inclui, entre outros tópicos, a razia que o Tribunal do Santo Ofício fez nesta freguesia.


sábado, 22 de setembro de 2018

A GALIZA COMEMOROU O XIX DIA EUROPEU DA CULTURA JUDAICA

No passado 2 de setembro foi comemorado na Galiza o XIX Dia Europeu da Cultura Judaica. Nesta ocasiom, a jornada foi dedicada à tradiçom oral das estórias e contos da cultura hebraica. 

No quadro de eventos oficiais foram agendadas atividades nos concelhos de Monforte de Lemos e Tui. Em Ribadávia, um dos municípios galegos de presença judaica mais premente, por segundo ano consecutivo nom foi programado qualquer evento.

A câmara municipal organizou visitas guiadas gratuitas à judiaria em sessões de manhá e tarde. 
Aliás, na Casa da Cultura teve lugar um concerto de música tradicional sefardita a cargo de Paco Diez, considerado um referente do romanceiro ibérico e da música sefardita.


O Concelho que Tui, que nom faz parte da rede espanhola de judiarias, organizou entre os dias 2 e 9, por décimo ano consecutivo, o Dia Europeu da Cultura Judaica com eventos que valorizam a importante herança judaica da cidade.


Assim sendo, entre os dias 4 e 5 de setembro as atividades centraram-se nas redes sociais municipais para dar a conhecer as histórias de Francisco Sanches, o filósofo de origem hebraica de Tui, a prisom de António Saravia e as viagens de Baltasar de Araújo.

Microrrelatos: A dúvida de Francisco Sánches
O filósofo Francisco Sánches era filho de António Sánches. Nasceria em Tui no ano 1550, o pai dele chegaria a ser médico do cabido catedralício entre 1558-64. A sua origem judaica tê-lo-ia forçado a fugira para Bordéus em 1569. Francisco continuaria os seus estudos em Roma e logo depois em Montpellier. Nos seus livros médicos lembrava ao seu tio Adám Francisco, em Valença, dando passeios até Tui quase todos os dias. O seu contributo filosófico radica na sua obra "Quod Nihil Scitur", que nada se sabe, onde pratica um ceticismo total, precedente da dúvida metódica de Descartes. Deste jeito, o filósofo e médico que nasceu e viveu em Tui em meados do século XVI tornou-se num referente da filosofia da renascentista europeia.
Suso Vila

No dia 7 realizou-se umha visita à judiaria medieval. O sábado 8 de setembro houve um concerto de música sefardita a cargo de Ana Alcalde e Bill Cooley na igreja de Santo Domingos. Finalmente, no dia 9 o Concelho organizou, sob o título de "Os nomes da história" umha visita aos "sanbenitos", peças únicas na Europa conservadas em Tui. Suso Vila, historiador local, foi o responsável polas visitas guiadas.

Como referido, nom apenas foi Ribadávia o concelho galego que negligenciou a comemoraçom deste dia embora faça parte da rede de judiarias, mas em todo Portugal nom foi agendado qualquer evento no quadro de eventos organizados pola AEPJ (Associaçom Europeia para a Preservaçom e Promoçom da Cultura e Herança Judaica).

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

LOUROSA DE BESTEIROS

Santiago de Besteiros é umha freguesia portuguesa do concelho de Tondela. Com 1331 habitantes, está situada na Beira Alta, numha regiom que segundo documentos dos séculos X, XI e XII designava-se por Terra de Besteiros.

O lugar de Lourosa de Besteiros, referido nas Inquirições do rei Afonso III, já tinha em 1258 quatro casais, um deles umha honra e os outros três que tinham pertencido a umha quinta. Em 1504 é autorizada a criaçom dumha estalagem a um membro da nobreza pertencente à estirpe de Riba de Vizela.

Pesquisadores portugueses descobriram no cimo das vergas dumha casa de antigos lavradores da povoaçom de Lourosa de Besteiros umha inscriçom formada por 3 frases escritas na pedra que faz referência três figuras da Torá: 
"Quem enfraqueceu a Sansão" 
"e desacreditou a David" 
"e fez néscio a Salomão". 

Este trítico de mensagens parece sintetizar toda a história, cultura e religiom de Israel na Diáspora e, ao mesmo tempo, parece retratar o receio polo fim do Povo Judeu.

O facto que se repetiu em mais casas do lugar levou aos investigadores Luis Filipe Pereira e António Domingos Pereira, professor de história, a levantarem a hipótese de ali ter sido, polo menos ao longo do século XVII, umha importante comunidade judaica assente na existência dum complexo social, comunitário e administrativo composto pola sinagoga, tribunal, cadeia e cemitério judaicos.
Localizaçom da área judaica em Lourosa de Besteiros
A sinagoga, identificada em 2013, apresenta a antedita inscriçom em pedra servindo de torça na porta de entrada e era constituída por dous pisos sem qualquer divisom. O piso superior onde funcionaria como local de culto e reuniom da comuna e o piso inferior onde funcionaria o tribunal e a parte administrativa. 

O edifício, de planta quandrangular conforme a tradiçom sefardita, encontra-se isolado e inserido na área da quinta rodeado dum vasto espaço verde afastado do núcleo habitacional. 
Sinagoga de Lourosa de Besteiros - Tondela
Por iniciativa do seu proprietário, foi objeto de obras de conservaçom, fazendo com que o seu espaço esteja hoje reabilitado e notabilizado, bem como o espaço museológico situado no piso térreo.

No interior do edifício da sinagoga encontra-se um Hechal (também designado por Aron, armário judaico ou simplesmente "Arca"), sendo constituido por 15 blocos de granito, sendo três frontais, que definem dous nichos de contorno retangular.
Armário judaico na sinagoga de Lourosa de Besteiros
Em Lourosa de Besteiros estám referenciadas até vinte marcas cruciformes e 3 monogramas de israel dispersos pola aldeia, compostos pola gravaçom da letra I entrelaçada à letra S.


Cruciformes em Lourosa de Besteiros

O texto e fotografias deste artigo foram tiradas da Candidatura do núcleo judaico de Lourosa para classificação como Conjunto Interesse Público (CIP), elaboradas por Luís Filipe S. Neves S. Pereira no seu Projeto de Mestrado em Gestão Turística dirigido polas Professoras Doutoras Cláudia Seabra e Odete Paiva da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Viseu-Instituto Politécnico de Viseu (maio de 2016).

No livro "O Leão de Judá Rugiu em Lourosa de Besteiros", de características inéditas, os pesquisadores Luis Filipe Pereira e António Domingues Pereira desvendam muitos dos mistérios desta judiaria numha tentativa de interpretar os sinais do passado.

CAEIRO quer exprimir o seu agradecimento a D. Luís Filipe Pereira por tê-lo informado da existência desta judiaria e convidado a aproximar-se deste testemunho da presença judaica em Portugal.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

VIMIOSO

Vila portuguesa com 1285 habitantes situada na regiom da Terra Fria do Alto Trás-os-Montes. Sede do municipio do Vimioso, nas freguesias de Argozelo, Carção e Vimioso existem vestígios de presença judia.

Em 1492 o território do concelho de Vimioso viu chegar grande afluência de Judeus expulsos dos reinos de Leom e Castela. Depois de acamparem durante três anos sem ordem nengumha num local que conservou o nome de Campo das Cabanas, entre as atuais povoações de Caçarelhos e Vimioso, os Judeus foram autorizados a se derramar por essas terras à volta, estabelecendo-se em várias aldeias e vilas da regiom, nomeadamente Argozelo, Carção e Vimioso, evitando vilas como o Algoso (antiga cabeça do município) pola existência de justiças e autoridades católicas.
Campo das Cabanas onde estiveram os Judeus encurralados entre 1492-95
Convertidos à força à religiom católica logo depois do édito de expulsom do rei D. Manuel em 1496, constituiram nessas localidades comunidades importantes que pouco se misturaram com o resto da populaçom até meados do século XX. Os Judeus, assim chamados até hoje, distinguiam-se dos lavradores polos ofícios exercidos, ligados mormente ao artesanato e comércio.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

XVIII DIA EUROPEU DA CULTURA JUDAICA

O XVIII Dia Europeu da Cultura Judaica será celebrado no domingo 3 de setembro. Este ano, está dedicado às Diásporas dos Judeus.

Na Galiza estám agendadas comemorações em Monforte de Lemos e Tui. Esta vila organiza pola primeira vez os eventos no quadro do programa oficial organizado pola Associaçom Europeia para a Preservaçom e Promoçom da Cultura e Herança Judaica (AEPJ).

A diferença de edições anteriores, a esta altura ainda nom está prevista a celebraçom de quaquer ato en Ribadávia.

Monforte de Lemos


Tui


Em Portugal apenas Belmonte organiza um evento comemorativo no quadro da AEPJ

Nesta vila portuguesa habita a única comunidade peninsular herdeira legítima da antiga presença judaica que manteve as suas tradições judaicas quase intattas durante os séculos desde o édito de expulsom dos Judeus de Portugal (1496). Somente na década de 1970 a comunidade judaica de Belmonte estabeleceu contato com os Judeus de Israel, oficializando o judaismo com a sua crença.

Assim sendo, no domingo dia 10 vai ter lugar o Mercado Kosher com produtos e atividades ligadas a aspectos da cultura judaica.


domingo, 30 de outubro de 2016

O SEBASTIANISMO, UMHA FORMA DE MESSIANISMO JUDAICO PORTUGUÊS

José Hermano Saraiva

Em 1530, o rei D. João III deu à vila de Trancoso a um seu irmão mais novo, o infante D. Fernando, que por essa altura casou. Os lavradores e mesteriais da terra amotinaram-se e nom permitiram que o infante tomasse conta da vila. Nom lhes era indiferente estar dependente da administraçom dos funcionários régios, mais ou menos indulgentes na cobrança dos impostos, ou pertencerem a um grande senhor que tinha de viver dos rendimentos e por isso era sempre rigoroso e às vezes cruel na sua exigência. Esta situaçom de rebeldia manteve-se durante alguns anos e o rei entrou em negociações com um representante dos moradores, confiando em que o tempo acabaria por resolver a situaçom. Nom se enganou, porque o infante morreu em 1534 e Trancoso voltou ao património da coroa.

Foi durante os anos da revolta antissenhorial de Trancoso que um sapateiro que lá morava, Gonçalo Annes Bandarra, escreveu umhas trovas que o tempo iria tornar célebres. Era um homem rude ("próprio para ovelheiro", diz um auto do Santo Ofício), que se metera a ler a Bíblia em português e mantinha contato com os cristãos-novos, a quem recorria para que lhe explicassem as passagens que nom entendia. Misturando confusas citações da Bíblia, reminiscências da poesia popular tradicional, mitos espanhóis (o Encoberto, a que faz alusom, é um mito ligado à revolta das comunidades espanholas de 1520-22), profecias que andavam de boca em boca, vestígios de lendas do ciclo arturiano, críticas sociais à corruçom e à prepotência dos grandes, compôs umha espécie de auto pastoril profético, que era inicialmente um protesto contra a doaçom da vila ao infante irmão do rei.

Mas acontecia que o sapateiro era mau escritor. Usava os termos que lhe pareciam bem soantes, mas que nom sabia ao certo o que queriam dizer, reproduzia, embaladas na toada popular da redondilha, palavras, frases e símbolos ouvidos aqui e ali, mas era incapaz de lhes definir um sentido claro. O resultado foi que as trovas podiam-se entender em tantos sentidos quantos se quisessem. Começaram a circular cópias de mão em mão e quando se iniciou a perseguiçom da Inquisiçom aos cristãos-novos estes julgaram ler o anuncio da vinda dum Messias salvador nos versos que, de facto, eram um apelo a D. João III para que defendesse Trancoso da ambiçom do infante. Nessa altura a Inquisiçom interveio e prendeu o sapateiro, que apareceu como suspeito de judaísmo. O Bandarra era porém tam alheio a estes entendimentos que os Judeus lhe faziam das trovas que acabo por ser posto em liberdade e condenado a nom escrever mais versos e a nom se meter em leituras profanas.

Os inquisidores julgaram que a sua sentença punha termo ao processo, mas na realidade este apenas estava a começar. A morte/desapariçom do rei D. Sebastiám em 1578 em condições misteriosas em breve veio dar nova acepçom às trovas do Bandarra. Nascia entom o sebastianismo, um fenómeno de superstiçom coletiva que se tornou célebre a partir das especulações de autores modernos.

As profecias do Bandarra passaram entom a ser lidas com olhos diferentes: o Messias, cujo regresso anunciavam, era D. Sebastião. O público leitor já nom é formado só polos cristãos-novos, mas por nobres saudosistas. Versões sucessivas foram adaptando a redaçom ao seu novo setido, de tal modo que a Restauraçom de 1640 pareceu trazer a confirmaçom das trovas. Considerado o profesta nacional, o sapateiro foi venerado como santo. O arcebispo de Lisboa autorizou a colocaçom dumha imagem do Bandarra num altar da cidade. D. João IV teve de prometer que, se D. Sebastião voltasse, entregar-lhe-ia o trono.

A partir de entom, o sebastianismo mateve-se por muito tempo na consciência popular portuguesa como umha espécie de nacionalizaçom do messianismo judaico, que leva a acreditar, nas épocas de sofrimento coletivo, na vinda de alguém que se nom sabe quem é nem donde virá, mas que há-de salvar o povo português.

Em meados do século XVIII, Alexandre de Gusmão reparou nessa afinidade entre sebastianismo e messianismo, classificando os Portugueses em dous grupos: os que ainda esperam polo Messias (os Judeus) e os que continuam a esperar por D. Sebastião. Mas o mito nom foi só popular e serviu de base a especulações irracionais que chegaram a empolgar espíritos cultos. O melhor expoente do sebastianismo erudito foi o padre António Vieira, que procurou nas trovas do Bandarra argumentos para o seu grandioso projeto dum Quinto Império, no qual Judeus e cristãos aparecem reunidos numha Igreja nova e purificada dos antigos pecados.

O seguinte vídeo, tirado do programa da RTP "Lendas e Narrativas" (1995) recolhe, em palavras do prof. Jose Hermano Saraiva, toda a estória das Trovas do Bandarra:

*José Hermano Saraiva (1919-2012) foi um advogado, professor e historiador português que desenvolveu um imenso trabalho como divulgador em prol da História, da Cultura e da Literatura.

domingo, 18 de setembro de 2016

A INQUISIÇOM PORTUGUESA

José Hermano Saraiva

Foi na sequência da reforma promovida pola Europa contestatária artesã, reformista e revoltada contra Roma que surgiu a Inquisiçom. Portugal, pola sua posiçom geográfica, composiçom social, estado económico e condições políticas (João III era cunhado de Carlos V e este era o grande suporte político da Europa fiel a Roma), alinhou nesse conflito no bloco ocidental contra o bloco protestante. Porém, em Portugal faltava quase completamente o motivo da repressom, pois a heresia luterana nom se fez sentir. Por isso, o objeto da repressom antirreformista foi em Portugal substituído por um outro: a questom judaica.

A questom judaica era umha realidade em Portugal. Muitos Judeus, convertidos à força, continuavam a ser Judeus por dentro, embora ostensivamente praticassem os atos do culto cristão. [Neste sentido] o judeu Maimónides [1138-1204] escrevera a sua "Epístola sobre a Apostasia", na qual defendia o criptojudaísmo, isto é, o direito moral a professar intimamente umha crença e aparentar que se professava outra. A frase feita "o credo na boca" é umha boa síntese desta situaçom.


Ora a prática de judaismo por quem já tivesse sido baptizado era considerada um crime de apostasia, punido com a pena de morte e o confisco da fortuna. Este último aspeto assumiu muito interesse quando se agravaram as dificuldades económicas do Estado, porque muitos homens de ascendência judaica possuíam grandes fortunas. A represssom do criptojudaísmo, isto é, do culto judaico secreto, podia tornar-se umha opotuna fonte de receita.

Em 1531, D. João III pediu ao papa a licença necessária para a organizaçom da Inquisiçom em Portugal. Os cristãos-novos mobilizaram toda a sua força económica para o impedir, afirmando que o que se pretendia era apenas espoliá-los. Existe muita documentaçom sobre essa luta diplomática e a sua leitura obriga a dar razom aos Judeus: a questom do confisco das fortunas teve papel fundamental.

A bula da Inquisiçom foi concedida em 1536 embora já desde 1534 houvesse um inquisidor e seja deste último ano o procedimento contra Gil Vicente [considerado o primeiro grande dramaturgo português, a teor do seu prestígio dirigiu-se ao monarca através dumha carta defendendo os cristãos-novos em 1531]. O primeiro auto-de-fé realizou-se em 1541. Nos 143 anos que vam até 1684 foram queimadas 1379 pessoas. Depois, o ritmo desceu, mas as execuções continuaram até ao tempo do Marquês de Pombal. O maior número de condenados à morte é formado por acusados de judaísmo, mas há muitas condenações por feitiçaria e por depravaçom de costumes.
As fogueiras da Inquisiçom desacreditaram Portugal em toda a Europa
As fogueiras som, dentre as várias formas assumidas pola atividade inquisitorial, o que, pola sua publicidade espetacular, se tornou mais célebre e o que ainda hoje causa maior horror. Mas houve outros aspetos menos visíveis, mas de consequênicas nom menos grave: a dimensom da denúncia e a censura inteletual.

Denunciar um delito contra a fé era considerado um dever religioso, e isso numha época de religiosidade profunda: o dever religioso sobrelevava qualquer outro. O crente era, em consciência, obrigado a denunciar qualquer facto ou aparência de facto que, na sua opiniom, revelasse judaismo ou desrespeito pola fé. Houve denúncias por cousas insignificantes e houve denúncias por má-fé: inveja, vingança, ciúme. Mas o que mais conta é essa inclusom do dever de denuncia no número dos deveres para com Deus; a denúncia deixou de ser umha vileza odiosa e sórdida e foi proclamada como piedosa virtude. Todo o País era religioso, e por isso durante dous séculos todo o País serviu de polícia a si próprio. Foi a operaçom policial de maior duraçom e de maior envergadura que a história portuguesa regista e durante ela toda a gente viveu entre o dever de denunciar e o terror de ser denunciado. Isto explica o número extraordinariamente alto de processos que ainda hoje existem: mais de 20.000, sabendo-se que muitos outros se perderam.


Do rigor e fanatismo com que foi perseguida pode-nos dar ideia este facto anedótico: era perigoso possuir bonecos de barro de Estremoz, porque se podia ser denunciado à Inquisiçom. Entom como agora, esses bonecos representavam muitas vezes bovinos; e o povo confundia a palavra toura (aportuguesamento de Torá, "Pentateuco ou Bíbilia judaica") com a palavra toura, feminino de touro...

Na realidade, o Santo Ofício foi já umha manifestaçom de decadência e prolonga umha linha de intolerância que lhe é anterior, atestando-se, por exemplo, na política antijudaica de D. Manuel. A atividade inquisitorial pôde exercer-se sem fortes reações internas, porque nom existia umha classe média com independência económica e mental, e também esta situaçom lhe é anterior. (...) Foi ela que institucionalizou e interiorizou o espírito de intolerância, que é o lado mau da alma portuguesa. Organizou e forneceu base moral à denúncia e ao genocídio cultural.


Duas causas fundamentais da decadência: a repressom inquisitorial, com o isolamento e paralisaçom das iniciativas culturais que provocou, e a crise económica e política que culminou com a perda da independência e que conduziu a umha situaçom de depressom e de desánimo incompatível com o brilho das letras e das artes.

Embora [o séc. XVII] foi um século decisivo no caminho do conhecimento e da ciência, bem como as letras e as artes, corresponde em Portugal (sob o jugo espanhol e da inquisiçom) umha época apagada. Nom ocorre o nome de algum grande escultor, pintor, dramaturgo, pensador, cuja omissom constitua lacuna imperdoável. Dentre os maiores nomes europeus, alguns tem relaçom com Portugal: Espinosa era filho dum judeu português que a Inquisiçom obrigou a fugir para Holanda. Evitava-se os temas quentes e as inovações que podiam chamar a atençom do inquisidor português ou do governador espanhol e, para poder sobreviver, aninhou-se nos grandes subterfúgios do estilo, da história, do irracionalismo, das artes menores.

Os Jesuitas nom tinham as mesmas ideias que a Inquisiçom acerca dos cristãos-novos e admitiram-nos nas suas escolas. O mais ilustre jesuíta português, o Padre António Vieira, defendeu os Judeus e esteve preso na Inquisiçom.


Em 1640 o poder económico estava concentrado principalmente no clero e na nobreza, classes nom interessadas numha mudança das instituições políticas; os homens de negócios com grandes fortunas eram quase só os cristãos-novos, e esse facto retirava-lhes toda possibilidade de atuaçom política. alguns capitalistas que proporcionaram ajuda a D. João IV foram presos pola Inquisiçom. Assim que a monarquia que se quis "restaurar" foi a monarquia tradicional.

[Por isso, para financiar a guerra de independência contra Espanha (1640-68)] o P. António Vieira defendeu que havia que arranjar dinheiro português que estava em mãos dos Judeus portugueses e cristãos-novos que foram expulsos de Portugal e que estavam na Inglaterra, Holanda, Itália e França e que tinham grandes empresas, grandes companhias e grandes fortunas. Ele achava que era preciso atrair toda essa gente de novo em Portugal e para isso habia que acabar com essa odiosa diferença entre cristãos-velhos e cristãos-novos. Era preciso acabar também com a brutalidade da Inquisiçom que comete crueldades e que desacredita a Portugal em toda a Europa. Era preciso juntar todos os portugueses pola liberdade e pola vitória nacional...

[De resto,] o P. António Vieira representa a tendência e umha literatura com base num puro culto da forma que leva a usar a palavra como algo que vale por si, desligado da ideia. Esgotou o talento a puxar o brilho às palavras e realizou com elas os mais belos espetáculos verbais jamais conseguidos na língua portuguesa.

A única corrente filosófica europeia que teve eco em Portugal foi a cabala que, embora nom seja propriamente umha filosofia, constituiu umha irrupçom de irracionalismo, ocultismo e messianismo que situa a meio caminho entre a gramática e a nigromancia. Os dous homens mais importantes do século XVII, D. Francisco Manuel de Melo e o Padre António Vieira acreditaram firmemente na cabala. A cabala foi o único que veio de fora, nem o método nem os logaritmos (outra profunda meditaçom sobre os números, mas baseada no pensar e nom no crer), nem a física.


Fugidos aos perigos que a Inquisiçom continuava a representar [no século XVIII] para os intelectuais, sobretodo quando pudessem ser acusados de judaizantes (caso de Jacob de Castro Sarmento, de Ribeiro Sanches). A esses intelectuais, consciencializados no estrangeiro e defensores da adopçom de ideias, métodos e correntes literárias estrangeiras, deu-se o nome de estrangeirados.


*José Hermano Saraiva (1919-2012) foi um advogado, professor e historiador português que desenvolveu um imenso trabalho como divulgador em prol da História, da Cultura e da Literatura. Passagens tiradas da "História concisa de Portugal", transcritas para o galego-português.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

PRESENÇA JUDAICA NA LÍNGUA PORTUGUESA

EXPRESSÕES E DIZERES POPULARES EM PORTUGUÊS DE ORIGEM CRISTÃ-NOVA OU MARRANA

Jane Bichmacher de Glasman

O objetivo do presente trabalho é apresentar alguns exemplos de influência judaica na língua portuguesa, a partir de uma ampla pesquisa sócio-lingüística que venho desenvolvendo há anos. A opção por judaica (e não hebraica) deve-se a uma perspectiva filológica e histórica mais abrangente, englobando dialetos e idiomas judaicos, como o ladino (judeu-espanhol) e o iídiche (alemão), entre os mais conhecidos, além de vocábulos judaicos e expressões hebraicas que passaram a integrar o vernáculo a partir de subterfúgios e/ou corruptelas, cuja origem remonta à bagagem cultural de colonizadores judeus, cristãos-novos e marranos.

Há uma significativa probabilidade estatística de Brasileiros descendentes de ibéricos, principalmente portugueses, terem alguma ancestralidade judaica. A base histórica para tal é a imigração maciça de judeus expulsos da Espanha, em 1492, para Portugal, devido à contigüidade geográfica e às promessas (não cumpridas) do Rei D. Manuel I, que traziam esperança de sua sobrevivência judaica como tal. Mesmo com a expulsão de Portugal em 1497, os judeus (além dos cristãos-novos e dos cripto-judeus ou marranos) chegaram a constituir 20 a 25% da população local.

Sefaradim (de Sefarad, Espanha, da Península Ibérica) procuraram refúgio em países próximos no Mediterrâneo, norte da África, Holanda e nas recém-descobertas terras de além-mar nas Américas, procurando escapar da Inquisição. Até hoje é controversa a origem judaica ou criptojudaica de descobridores e colonizadores do Brasil, para onde imigraram incontáveis cristãos-novos, alternando durante séculos uma vida como judeus assumidos e marranos, praticando o judaísmo secretamente (fora os que permaneceram efetivamente católicos), de acordo com os ventos políticos, sob o domínio holandês ou a atuação da Inquisição, variando de um clima de maior tolerância e liberdade à total intolerância e repressão.

Comparando apenas sob o ponto de vista cronológico, nem sempre lembramos que, enquanto o Holocausto na Segunda Guerra Mundial foi tão devastador, especialmente nos quatro anos de extermínio maciço de judeus, a Inquisição durou séculos, pelo menos três dos cinco da história “oficial” do Brasil, isto é, após o descobrimento. Tantos séculos de medo, denúncias, processos e mortes, geraram, por um lado, um ambiente psicológico de terror para os judeus e cristãos novos no Brasil; por outro, um antissemitismo evidente ou subliminar que permaneceu arraigado na população, inclusive como autodefesa e proteção.

Uma característica do comportamento de cristãos-novos “suspeitos” foi procurar ser “mais católicos do que os católicos”, buscando sobreviver à intolerância e determinando práticas sócio-culturais e lingüísticas.

A citada alternância entre vidas assumidamente judaicas e marranas, praticando judaísmo em segredo, com costumes variados, unificados pela “camuflagem” de seu teor judaico, gerou comportamentos e aspectos culturais (abrangendo rituais, superstições, ditados populares, etc.) que se arraigaram à cultura nacional. A maioria da população desconhece que muitos costumes e dizeres que fazem parte da cultura brasileira têm sua origem em práticas criptojudaicas. Apresentarei alguns exemplos bem como suas origens e explicações, a partir da origem judaica “marrana”.

“Gente da nação” é uma das denominações para designar marranos, judeus, cristãos-novos e cripto-judeus, embora existam diferenças entre termos e personagens.

Cristãos-novos foi denominação dada aos judeus que se converteram em massa na Península Ibérica nos séculos XIII e XIV; é preconceituosa devido à distinção feita entre os mesmos e os “cristãos-velhos”, concretizado nas leis espanholas discriminatórias de “Limpieza de Sangre” do século XV.

Criptojudeus eram os cristãos-novos que mantiveram secretamente seu judaísmo. Gente da nação era a expressão mais utilizada pela Inquisição e Marranos, como ficaram mais conhecidos. Embora todos fossem descendentes de judeus, só poucos voltaram a sê-lo, e em países e épocas que o permitiram.

O próprio termo “marrano” possui uma etimologia diversificada e antitética. Unterman (1992: 166), conceitua de forma tradicional, como “nome em espanhol para judeus convertidos ao cristianismo que se mantiveram secretamente ligados ao judaísmo. A palavra tem conotação pejorativa” geralmente aplicada a todos os cripto-judeus, particularmente aos de origem ibérica. Em 1391 houve uma maciça conversão forçada de judeus espanhóis, mas a maioria dos convertidos conservou sua fé. Já Cordeiro (1994), com base nas pesquisas de Maeso (1977), afirma que a tradução por “porco” em espanhol tornou-se secundária diante das várias interpretações existentes na histografia do marranismo.

Para o historiador Cecil Roth (1967), marrano, velho termo espanhol que data do início da Idade Média que significa porco, aplicado aos recém-convertidos (a princípio ironicamente devido à aversão judaica à carne de porco), tornou-se um termo geral de repúdio que no século XVI se estendeu e passou a todas as línguas da Europa ocidental.

A designação expressa a profundidade do ódio que o espanhol comum sentia pelos conversos com quem conviviam. Seu uso constante e cotidiano carregado de preconceito turvou o significado original do vocábulo. Em “Santa Inquisição: terror e linguagem”, Lipiner (1977) apresenta as definições: “Marranos: As derivações mais remotas e mais aceitáveis sugerem a origem hebraica ou aramaica do termo. Mumar: converso, apóstata. Da raiz hebraica mumar, acrescida do sufixo castelhano ano derivou a forma composta mumrrano, abreviado: Marrano. Tratar-se-ia, pois de um vocábulo hebraico acomodado às línguas ibéricas. Marit-áyin: aparência, ou seja, cristão apenas na aparência. Mar-anús: homem batizado à força. Mumar-anus: convertido à força. Contração dos dois termos hebraicos, mediante a eliminação da primeira sílaba”. Anus, em hebraico, significa forçado, violentado.

Antes de exemplificar a contribuição lingüística marrana, convém ressaltar que a vinda dos portugueses para o Brasil trouxe consigo todos os empréstimos culturais e lingüísticos que já haviam sido incorporados ao cotidiano ibérico, desde uma época anterior à Inquisição, além de novos hábitos e características; muitas palavras e expressões de origem hebraica foram incorporadas ao léxico da língua portuguesa mesmo antes de os portugueses chegarem ao Brasil. Elas encontram-se tão arraigadas em nosso idioma que muitas vezes têm sua origem confundida como sendo árabe ou grega. Exemplo: a “azeite”, comumente atribuída uma origem árabe por se assemelhar a um grande número de palavras começadas por “al-” (como alface, alfarrábio, etc.), identificadas como sendo de origem árabe por esta partícula corresponder ao artigo nesta língua. O artigo definido hebraico é a partícula “a-” e “azeite” significa, literalmente, em hebraico “a azeitona” (ha-zait).

Apesar da presença judaica por tantos séculos, em Portugal como no Brasil, as perseguições resultaram também em exclusões vocabulares. A maior parte dos hebraísmos chegou ao português por influência da linguagem religiosa, particularmente da Igreja Católica, fazendo escala no grego e no latim eclesiásticos, quase sempre relacionados a conceitos religiosos, exemplos: aleluia, amém, bálsamo, cabala, éden, fariseu, hosana, jubileu, maná, messias, satanás, páscoa, querubim, rabino, sábado, serafim e muitos outros.

Algumas palavras adotaram outros significados, ainda que relacionados à idéia do texto bíblico. Exemplos: babel indicando bagunça; amém passando a qualquer concordância com desejos; aleluia usada como interjeição de alívio.

O preconceito marca palavras originárias do hebraico usadas de forma depreciativa, como: desmazelo (de mazal – negligência, desleixo), malsim (de mashlin – delator, traidor), zote (de zot / subterrâneo, inferior, parte de baixo – pateta, idiota, parvo, tolo), ou tacanho (de katan – que tem pequena estatura, acanhado; pequeno; estúpido, avarento); além de palavras relacionadas a questões financeiras, como cacife, derivada de kessef = dinheiro.

Dezenas de nomes próprios têm origem hebraica bíblica, como: Adão, Abraão, Benjamim, Daniel, Davi, Débora, Elias, Ester, Gabriel, Hiram, Israel, Ismael, Isaque, Jacó, Jeremias, Jesus, João, Joaquim, José, Judite, Josué, Miguel, Natã, Rafael, Raquel, Marta, Maria, Rute, Salomão, Sara, Saul, Simão e tantos outros. Alguns destes, na verdade, são nomes aramaicos, oriundos da Mesopotâmia, como Abraão (Avraham), que se incorporaram ao léxico hebraico no início da formação do povo hebreu.

Podemos citar centenas de nomes e sobrenomes de judaizantes e números de seus dossiês, desde a instalação da Inquisição no Brasil, a partir dos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, e de livros como Wiznitzer (1966), Carvalho (1982), Falbel (1977), Novinsky (1983), Dines (1990), Cordeiro (1994), etc. Sobrenomes muito comuns, tanto no Brasil como em Portugal, podem ser atribuídos a uma origem sefardita, já que uma das características marcantes das conversões forçadas era a adoção de um novo nome. Muitos conversos adotaram nomes de plantas, animais, profissões, objetos, etc., e estes podem ser encontrados em famílias brasileiras, até hoje, em número tão grande que seria difícil enumerá-los. Exemplos: Alves, Carvalho, Duarte, Fernandes, Gonçalves, Lima, Silva, Silveira, Machado, Paiva, Miranda, Rocha, Santos, etc. Não devemos excluir a possibilidade da existência de outros sobrenomes portugueses de origem judaica.

Porém é importante ressaltar que não se pode afirmar que todo brasileiro cujo sobrenome conste dos processos seja descendente direto de judeus portugueses; para se ter certeza é necessária uma pesquisa profunda da árvore genealógica das famílias.

Há ainda algumas palavras e expressões oriundas do misticismo judaico, tão desenvolvido na idade média. O estudo do Talmud e da Cabalá trouxe também contribuições do aramaico, como a conhecida expressão “abracadabra”, que é tida pela nossa cultura como uma “palavra mágica” (num sentido fabuloso), mas que, na realidade pode ser traduzida como “criarei à medida que falo” (num sentido real e sólido para a cultura judaica).

Algumas palavras também designam práticas judaicas ou formas de encobri-las, especialmente observável nos costumes alimentares. Por exemplo: os judeus são proibidos pela Torá de comer carne de porco, porque tem os cascos fendidos e não rumina, sendo, portanto, impuro. Para simular o abandono desse princípio e enganar espiões da Inquisição, os cristãos-novos inventaram as alheiras, embutidos à base de carne de vitelo, pato, galinha, peru – e nada de porco. Após algumas horas de defumação já podem ser consumidos. Da mesma forma, peixes “de couro” (sem escamas) não serviam para consumo.

Passando às expressões, apresento alguns exemplos, sua origem e explicação:


Pensar na morte da bezerra
frase tão comumente dita por sertanejos quando querem referir-se a alguém que está meditando com ares de preocupação: “está pensando na morte da bezerra”. Registram as denunciações e as confissões feitas ao Santo Oficio, a noção popular, naquele distante período, do que seria o livro fundamental do judaísmo: a Torá. De Torá veio Toura e depois, bezerra, havendo inclusive quem afirmasse ter visto em cara de alguns cristãos-novos, o citado objeto, com chifres e tudo.

Passar a mão na cabeça
com o sentido de perdoar ou acobertar erro cometido por algum protegido, é memória da maneira judaica de abençoar de cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto pronunciava a bênção.

Seridó
região no Rio Grande do Norte, tem seu nome originário da forma hebraica contraída: Refúgio dele. Porém, não é o que escreve Luís da Câmara Cascudo, indicando uma origem indígena do nome da região, de “ceri-toh”. Em hebraico, a palavra Sarid significa sobrevivente. Acrescentando-se o sufixo ó, temos a tradução sobrevivente dele. A variação Serid, “o que escapou”, pode ser traduzido também por refúgio. Desse modo, a tradução para o nome seridó seria refúgio dele ou seus sobreviventes.

Passar mel na boca
quando da circuncisão, o rabino passa mel na boca da criança para evitar o choro. Daí a origem da expressão: “Passar mel na boca de fulano”.

Para o santo
o hábito sertanejo de, antes de beber, derramar uma parte do cálice, tem raízes no rito hebraico milenar de reservar, na festa de Pessach (Páscoa), um copo de vinho para o profeta Elias (representando o Messias que virá, anunciado pelo Profeta Elias).

Que massada!
usada para se referir a uma tragédia ou contra-tempo, é uma alusão à fortaleza de Massada na região do Mar Morto, Israel, reduto de Zelotes, onde permaneceram anos resistindo às forças romanas após a destruição do Templo em 70 d.C., culminando com um suicídio coletivo para não se renderem, de acordo com relato do historiador Flávio Josefo.

Pagar siza
significando pagar imposto vem do hebraico e do aramaico (mas = imposto, em hebraico de misa, em aramaico).

Vestir a carapuça
ou “a carapuça serve para ...” vem da Idade Média inquisitorial, quando judeus eram obrigados a usar chapéus pontudos (ou com três pontas) para serem identificados.

Fazer mesuras
origina-se na reverência à Mezuzá (pergaminho com versículos de DT.6, 4-9 e 11,13-21, afixado, dentro de caixas variadas, no batente direito das portas).

Deus te crie
após o espirro de alguém é uma herança judaica da frase Hayim Tovim, que pode ser traduzido como tenha uma boa vida.

Pedir a bênção
aos pais, ao sair e chegar em casa, é prática judaica que remonta à benção sacerdotal bíblica, com a qual pais abençoam os filhos, como no Shabat e no Ano Novo.

Entrar e sair pela mesma porta traz felicidade
bem como o costume de varrer a casa da porta para dentro, costume arraigado até os dias de hoje, para “não jogar a sorte fora” é uma camuflagem do respeito pela Mezuzá, afixada nos portais de entrada, bem como aos dias de faxina obrigatória religiosa judaica, como antes do Shabat (Sábado, dia santo de descanso semanal) e de Pessach.

Apontar estrelas faz crescer verrugas nos dedos
era a superstição que se contava às crianças para não serem vistas contando estrelas em público e denunciadas à Inquisição, pois o dia judaico começa no anoitecer do dia anterior, ao despontar das primeiras estrelas, dado necessário para identificar o início do Shabat e dos feriados judaicos.

Para concluir, gostaria de mencionar um tema polêmico decorrente deste intercâmbio cultural-religioso: sua influência no português, em vocábulos que adquiriram uma conotação pejorativa e negativa. Os mais discutidos são:
- judeu, significando usurário, 
- o verbo judiar (e o substantivo judiação) com o sentido de maltratar, torturar, atormentar. 

Seja sua origem a prática de “judaizar” (cristãos-novos mantendo judaísmo em segredo e/ ou divulgando-o a outros), seja como referência ao maltrato e às perseguições sofridas pelos judeus durante a Inquisição, o fato é que, sem dúvidas, sua conotação é negativa, e cabe a nós estudiosos do assunto e vítimas do preconceito, esclarecer a população e a mídia, alertando e visando à erradicação deste uso, não só pelo desgastado “politicamente correto”, que leva a certos exageros, mas para uma conscientização do eco subliminar de um longo passado recente, Pelo qual não basta o pedido de perdão, se não conduzir a uma mudança no comportamento social.