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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

TEORIA JUDAICA SOBRE A ORIGEM GALEGA DE CRISTÓVÃO COLOMBO

A origem de Cristóvão Colombo é um enigma para muitos estudiosos do tópico. O seu próprio filho, Fernando Colombo (batizado Hernando Colón em Espanha) obscureceu a pátria e origem de Colombo, afirmando que o seu genitor nom queria que fossem conhecidas tais informações. Por este motivo foram surgindo múltiplas teorias sobre a origem e lugar de nascimento de Colombo. Destas, destacam-se a hipótese galega e portuguesa.

Celso Garcia de la Riega (1844-1914), historiador e escritor galego nascido em Ponte Vedra, é considerado o iniciador e impulsor da tese galega de Colom e foi o primeiro a desmontar abertamente a teoria genovesa numha palestra realizada em Madrid em 1898 a pedido da Sociedad Geográfica da capital espanhola. A sua teoria foi prosseguida e reconhecida por outros historiadores galegos.
Celso G. de la Riega foi o primeiro historiador a desmontar a teoria genovesa da origem de Colom
Os seus argumentos para localizar a terra de origem de Colombo na Galiza são os seguintes: 
1. Havia na Galiza vários judeus galegos com o nome de "de Collon", "Collon" e/ou "Colon".
2. A cidade galega de Ponte Vedra tem o maior número de Colóns.
3. O idioma escrito de Colom inclui muitos vocábulos galego-portugueses e expressões da variante galega do diassistema galego-português.
4. A homotoponímia existente entre as localidades da área das Rias Baixas galegas com as das Antilhas.
5. Documentos de Ponte Vedra com o apelido Colon.

A tese galega tem um enorme impulso quando, em 1898, som publicadas umhas "Actas" descobertas na cidade de Ponte Vedra, tendo na altura causado grande impacto. 

A teoria sobre a origem galega de Cristóvão Colom foi publicada por Celso Garcia de la Riega em La Gallega, nave capitá de Colón en el primer viaje de descubrimiento (1899), e que posteriormente alargou no livro intitulado Colón, español. Su origen y patria (Madrid, Sucesores de Rivadeneira, 1914) incluindo 23 documentos antigos e elementos da tradiçom oral que relacionavam os Colons oriundos de Ponte Vedra com o descobridor da América. 

O estudo chega à conclussom de que Cristôvão Colom pôde ter nascido em Ponte Vedra e serem os seus pais Domingos de Colón, O Moço, e Susana Fonterosa.

Impugnações
Logo a seguir a tese de De la Riega foi impugnada com acusações de ter falsificado os documentos que alicerçavam a sua teoria.
  • O primeiro relatório acusatório foi elaborado por Manuel Serrano y Sanz num artigo publicado na revista "Archivos y Bibliotecas" (março-abril de 1914) [De la Riega morre em 4 de fevereiro desse ano], declarando a manipulaçom dos documentos que apareciam no livro "Colón español. Su origen y patria".
  • O seguinte inquérito é realizado em 1917 por Eladio Oviedo Arce, cônego da catedral de Santiago de Compostela, Chefe do Arquivo Regional da Galiza, Correspondente da Real Academia da História e membro de número da Real Academia Galega (RAG). O relatório, intitulado Documentos Pontevedreses, considerados como fonte do tema Colón espanhol, proposto primeiramente por D. Celso García de la Riega e agora renovado polos seus continuadores e apresentado perante a RAG denuncia a falsificaçom e manipulaçom de tais documentos.
  • Posteriormente, em 1928, um relatório da Real Academia Espanhola da Historia, redigido com base nos anteditos relatórios, confirma que na sua quase totalidade eram falsos ou foram falsificados.

Doravante estas impugnações serviram para deslegitimar e descartar perante a comunidade científica e estudiosos a teoria da origem galega de Cristóvão Colom formulada por De la Riega. Segundo Carlos Fontes "os espanhóis que haviam acusado os italianos de falsários estavam a aprender rapidamente a arte da aldrabice.  O assunto acabou por ser esquecido pelos historiadores".

Reaçom portuguesa
Em 1914 um seguidor de Celso Garcia de La Riega, Enrique de Arribas y Turull, fez umha prelecçom na Sociedade de Geografia de Lisboa afirmando que Colombo era galego, baseando-se para o efeito nos documentos encontrados em Ponte Vedra por Celso G. de La Riega.

Na sua comunicaçom, consoante as teses do seu mestre, Arribas y Turull apresenta um rol de topónimos dados por Colombo às terras que descobriu no Novo Mundo e fá-los corresponder a topónimos galegos, pretendendo com isso demonstrar que Colombo teria dado às terras que descobriu os nomes da sua própria terra, afirmando mesmo que nom deu nenhum topónimo português ou italiano às suas descobertas, embora reconhecendo que nom se pode fazer história com base em homonímias.

A "descoberta" causa grande impacto em Portugal e, como reaçom à tese galega, em 1915 Patrocínio Ribeiro defende pola primeira vez a hipótese de Colombo ter sido natural de Portugal numha conferência apresentada à Academia das Ciências de Portugal.

Para demonstrar a fragilidade da argumentaçom da tese galega defendida em Lisboa por Arribas y Turull, Patrocínio Ribeiro repete o mesmo exercício, desta vez com topónimos dados às terras a que os portugueses chegaram no Atlântico anteriores às viagens de Colombo e depois faz o mesmo exercício com terras do Alentejo, concluindo que os nomes atribuídos polo Almirante são alentejanos, e que -pola lógica toponímica- essa seria a terra do navegador.

Admiram, todavia, as brigas existentes entre os defensores quer da teoria galega, quer da portuguesa, a respeito tanto da língua escrita quanto da toponímia utilizada por Cristóvão Colombo polo facto de terem neglicenciado a identidade linguística existente entre as variantes galega e portuguesa da língua comum galego-portuguesa na altura do século XV.

Desagravo histórico
Porém, numha nova análise, os documentos de Celso de La Riega foram analisados em 2013 polo Instituto de Património Cultural Espanhol (IPCE), organismo estatal dedicado ao restauro de materiais (pedra, madeira, pintura e papel). A 23 de maio de 2013, Maria del Carmen Hidalgo Brinquis, Chefa do Serviço de Património Documental do IPCE, fez as seguintes revelações:
  • O papel dos documentos era do século XV, com marca d'água da época.
  • As tintas correspondem com as tintas usadas no século XV.
  • A partir de fotografias comprovou-se que os papéis nom foram raspados nem riscados, com intençom de enganar; isto é, nom havia intençom fraudulenta (dolosa) por parte de Garcia de la Riega.
  • Em colaboraçom com a polícia científica, ficou comprovado que o escrito por acima era o mesmo que aparecia em baixo; quer dizer, o que fez Garcia de la Riega foi avivar ou enfatizar por em cima as letras que já estavam escritas a fim de ressaltar os nomes que apareciam nos documentos, isto é, os apelidos "de Colón".

Origem judaica
Para explicar porque é que o Cristóvão Colom fazia mistério em torno das suas origens, nunca as tendo mencionado, o Prof. José Hermano Saraiva afirmou que o facto de Colombo nom gostar de falar do seu passado só tem uma explicaçom lógica: é que Colombo era de origem judaica e os Judeus já eram perseguidos, precisamente polos Reis Católicos. Se soubessem que ele era judeu nunca o nomeariam Almirante e o seu destino teria sido o Tribunal do Santo Ofício da Inquisiçom Espanhola.

Independentemente da origem geográfica de Colombo, as teorias galega, portuguesa ou mesmo catalã (excluída como hipótese ao abrigo dos estudos de DNA promovidos pola Universidade de Granada), concordam na origem judaica do "descobridor" da América.

Assim sendo, referem umha origem judaica as teorias de muitos estudiosos do assunto (Salvador de Madariaga, Menéndez Pidal, Blasco Ibáñez, J.M. Lacalle, Simon Wiesenthal), entre os quais, De la Riega, as hipóteses portuguesas de Patrocínio Ribeiro (Colombo seria Cristóvão de Colos) ou Mascarenhas Barreto (Colom seria Salvador Fernandes Zarco), bem como a catalá que defende que Colombo nasceu na ilha da Ibiza e era judeu.

Outras teorias galego-portuguesas
A segunda tese galega deve-se a Alfonso Philipot Abeledo. Formulada em 1977 a partir das teorias de Celso G. de La Riega, parte da constataçom que o apelido Colón, no século XV, era muito divulgado na Galiza. Depois que Colombo nom era um plebeu, mas um nobre, ligado a umha família de almirantes galegos e a Portugal. Identifica Cristóvão Colombo com Pedro Alves de Soutomaior, filho bastardo de Eanes de Soutomaior, senhor da casa dos Soutomaior do Toronho (*). Pedro Alves, também conhecido  por Pedro Madruga, entre 1441-46 esteve no Convento de S. Domingos em Tui. Em 1459 andou ao serviço da Casa de Anjou, como mercenário. Em 1463 veio para Portugal, tendo no ano seguinte se casado com D. Teresa de Távora. Muito ligado a Portugal, D. Afonso V deu-lhe o título de Conde de Caminha. Entre 1467-69 andou envolvido em lutas na Galiza durante a Revolta Irmandinha dos populares contra a nobreza feudal. Em 1474 toma o partido de Joana, a Excelente Senhora, dita "a Beltraneja" em Castela, e defende a legitimidade de D. Afonso V de Portugal como soberano dos seus domínios. Em 1476 é preso por ter combatido por Portugal na Batalha de Toro.  D. Afonso V consegue a sua libertaçom tendo regressado a Portugal. Intimamente relacionado com a corte portuguesa, teve acesso ao seus segredos marítimos. Em 1486, no mais completo segredo, apresentou o seu plano, ou melhor dizendo, o segredo de terras a Ocidente, aos reis espanhóis, tendo adoptado nome de Cristobal Colón depois de ter combatido o domínio dos reis espanhóis na Galiza. 

Segundo Carlos Fontes a principal consistência desta tese galega "reside na exploração das ligações de um nobre galego a Portugal e a portugueses. Tantas são as ligações que é a dificuldade consiste em seleccionar qual o nobre que melhor se encaixa". 

A tese portuguesa coerente mais recente é a de Manuel da Silva Rosa, historiador açoriano estabelecido nos EUA. Após trinta anos de pesquisas sobre a vida de Cristóvão Colombo, Silva Rosa publicou os livros O Mistério Colombo Revelado (2006), Colombo Português Novas Revelações (2009), La Historia Nunca Contada (2009) e, mais recentemente,  Portugal e o segredo de Colombo (2019).

De forma paralela a Alfonso Philipot Abeledo a respeito de Pedro Madruga, Manuel Rosa defende a teoria que Cristóvão Colombo era o nome falso de Segismundo Henriques, filho de Henrique Alemão e de sua esposa Senhorinha Annes. 

O pai deste "descobridor" da América teria sido, na realidade, Ladislau III da Polónia, alegadamente morto em Varna (atual Bulgária) combatendo os Turcos. Para afastar os castelhanos da rota portuguesa à Índia o filho dele, Segismundo Henriques, num conluio com o rei D. João II de Portugal, teria reencarnado em Cristóvão Colombo logo após ter sido dado como morto num naufrágio.

Enquanto Alfonso Philipot liga a origem judaica de Pedro Madruga/Cristóvão Colombo ao facto de o nobre galego ter sido filho bastardo de Eanes de Soutomaior com umha judia de Ponte Vedra de apelido Collon/Colon, Manuel Rosa descarta essa hipótese apesar da tradiçom existente nas anteriores teorias portuguesas.


* A Terra de Turonium (em romance, Toronho) é um antigo condado ou reguengo situado no Sudoeste da atual Comunidade Autónoma da Galiza (Reino de Espanha), abrangendo entre o Rio Verdujo e a Ria de Vigo (a Norte) e o Rio Minho (a Sul). Toronho é a única regiom do Convento Bracarense que nom se sumou a Portugal no momento da sua independência (1128 e 1139). Desde os alvores da nacionalidade, Portugal tentou corrigir esta anomalia histórica em diferentes ocasiões ao largo da nossa História (Guerra de Sucessom à Coroa de Castela (1475-79), guerra da Restauração da Independência de Portugal (1640), Guerra de Sucessom Espanhola (1701-13) ou Tratado de Madrid (1750)) sem obter nunca um sucesso duradoiro.

sábado, 10 de agosto de 2019

PRESENÇA GALEGA NO SEGUNDO CONGRESSO TERRA(S) DE SEFARAD

Entre os dias 19 e 23 de junho decorreu no município transmontano de Bragança a segunda ediçom de Terra(s) de Sefarad-Encontros de Culturas Judaico-Sefarditas.

Durante o evento desenvolveram-se atividades ligadas à cultura sefardita: exposições, seminários, cinema judaico, música sefardita, mercado kosher, foro económico e um congresso internacional.

O projeto aproveita os equipamentos culturais da cidade de Bragança, nomeadamente o Centro de Interpertaçom da Cultura Sefardita do Nordeste Transmontano, dependente da Câmara Municipal de Bragança, Memorial e Centro de Interpretaçom Documentaçom "Bragança Sefardita", mas também a herança material e imaterial com vestígios e referências à cultura judaica na regiom transmontana.

A coordenaçom científica foi responsabilidade da Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste da Faculdade de Artes da Universidade de Lisboa.

No quadro das atividades agendadas, sob o título Herança Longínqua, no dia 19 teve lugar um concerto de música e canções sefarditas com Magna Ferreira (voz e percussom), Jed Barahal (violoncelo), a voz da cantora galega Uxia Senlle e a guitarra e percurssões de Sérgio Tannus, músico brasilego de ascendência libanesa.

Sérgio Tannus (1º à esquerda) e Uxia Senlle (2ª à esquerda)

sexta-feira, 5 de julho de 2019

ENCONTRO DE ESCRITORES E JORNALISTAS PORTUGALEGOS


No próximo dia 13 de julho realiza-se o IX Encontro de Escritores e Jornalistas do Alto Tâmega, Barroso e Galiza, em Chaves, no Auditório do GATAT.

No quadro desse encontro, o Prof. Jorge José Alves Ferreira, a convite da Direção do Fórum Galaico Transmontano, apresentará a comunicaçom "Judeus, Cristãos-novos e Marranos no Alto Tâmega", conforme programa.
A participação é livre e gratuita.

terça-feira, 12 de março de 2019

III SIMPÓSIO SOBRE JUDAISMO EM TRÁS-OS-MONTES

Nos próximos dias 15-16 de março celebra-se em Chaves e Valpaços o III Simpósio sobre judaismo em Trás-os-Montes sob o título Os Judeus, cristãos-novos e marranos em (de) Trás-os-Montes: História e património.

Inscriçom grátis, mas obrigatória através deste link ou email para: rotary.cejat@gmail.com

Consulte aqui o programa.

domingo, 6 de janeiro de 2019

CHAVES

Cidade portuguesa da regiom de Trás-os-Montes erguida no vale do rio Tâmega.

À época da invasom romana da península Ibérica, os romanos construíram fortificações, aproveitando alguns dos castros existentes pola periferia. Tal era a importância desse núcleo urbano, que foi elevado à categoria de município no ano 79 d.n.e., advendo daqui a antiga designaçom Aquæ Flaviæ da atual cidade de Chaves, bem como o seu gentílico de flaviense. 

A partir do século III a chegada de Suevos, Visigodos e Alanos deu cabo da colonizaçom romana. O domínio bárbaro durou até que os mouros, oriundos do Norte de África, invadiram a regiom no início do século VIII.

Com os árabes, também o islamismo invadiu o espaço ocupado polo cristianismo, o que causou umha azeda querela religiosa e provocou a fuga das populações residentes para as montanhas a noroeste, com inevitáveis destruições. As escaramuças entre mouros e cristãos duraram até ao século XI. A cidade começou por ser reconquistada aos mouros no século IX, por D. Afonso, rei de Galécia-Leom que a reconstruiu parcialmente. Porém, logo depois, no primeiro quartel do século X, voltou a cair no poder dos mouros, até que no século XI, D. Afonso III, rei de Galécia-Leom, a resgatou, mandou reconstruir, povoar e cercar novamente de muralhas.

Já aqui prosperava umha importante Judiaria, cuja Sinagoga se situava num edifício entre a Travessa da Rua Direita, e a Rua 25 de Abril, onde se lê em antiga inscriçom na soleira da porta o nome "Salomom". O edifício existe, de grande portal encoberto e em degradaçom (aqui chamado "casa de rebuçados da espanhola"), em lugar cimeiro do típico casario das "muralhas novas". Porém, judiaria de Chaves ainda nom foi definitivamente localizada.

Em 1434 a comunidade de Chaves recebeu umha carta de privilégios e pagava à coroa umha taxaçom de 31.000 reis.

Depois da expulsom dos Judeus de Portugal existiu umha importante comunidade "Marrana" em Chaves.

Quando os Marranos de Portugal retomaram o contato com o judaismo no século XX, alguns cripto-judeus de Chaves regressaram ao judaismo. Em 1930 estabeleceu-se um comité de "Novos Judeus" comandado polo antigo marrano Augusto Nunes. Porém, com o estabelecimento da ditadura em 1932 a atividade judaica entre os marranos locais esmoreceu.

Em 25 de julho de 2013 foi apresentado mais um número da revista "Aqua Flaviae" subordinado à temática "A presença cristã-nova em Chaves no período filipino (1580-1640)" autoria de Jorge José Alves Ferreira. Este trabalho fornece umha valiosa informaçom sobre a presença da comunidade judaica em Chaves, retirando-a da penumbra para a tornar atrativa na sua Judiaria da zona histórica onde estaria localizada. Mais concretamente a investigaçom diz respeito a um conjunto de conhecimentos sobre a comunidade judaica de Chaves relativamente à localizaçom geográfica, ao Tribunal do Santo Ofício, à vivência quotidiana dos cristãos-novos, com destaque para práticas religiosas, teias relacionais, família ou mundo do trabalho.


Recentemente a câmara municipal de Chaves estabeleceu um protocolo com entidades israelitas para a fundaçom dum Centro de Estudos Judaicos do Alto Tâmega (CEJAT) que, desde 2015, dependente da Associação Rotary Club de Chaves, se dedica ao estudo da presença judaica nesta regiom transmontana.

Atualizaçom:
A partir do ciclo de investigações levadas a cabo polo historiador Jorge Alves Pereira e do referido CEJAT pudo-se localizar de delimitar a judiaria de Chaves na época medieval. 

Assim sendo, embora se desconheça a abrangência total da judiaria, esta localizar-se-ia na área da Rua Direita, Pr. da República, R. de Santa Maria, Rua do General Sousa Machado (antiga Rua Nova), R. do Poço, Largo do Cavaleiro,  R. Luís de Viacos, Rua do Postigo das Manas e Travessa das Caldas.

A partir da expulsom dos Judeus o arruamento onde se localiza a atual R. do General Sousa Machado passou a chamar-se Rua Nova em alusom à presença judaica existente nessa área, conservando este nome durante quase quatro séculos. Nela localizar-se-ia a escola de estudo das sagradas escrituras, célebre na comunidade científica dessa altura e que tornou a Chaves num centro de irradiaçom de cultura em nível regional.

Na judiaria de Chaves achar-se-ia também uma das capelas à que posteriormente se dirigiriam os cristãos-novos para fazer os seus rituais. Trata-se dum prédio que se distingue dos demais pola fasquia da sua fachada e existência dumha janela para permitir a entrada de luz. 
Edifício onde se localizaria a sinagoga de Chaves
O local da sinagoga de Chaves teria sido por embaixo deste edifício ou nas suas imediações.

A Rua de Luis de Viacos é a única que na toponímia flaviense alude à presença judaica.

Foi a partir de fontes indiretas que se pude delimintar a judiaria flaviense. Em documentos do Abade de Baçal refere-se que no Largo do Cavaleiro teria morado um fidalgo cavaleiro que foi representante das povoações de Chaves nas Cortes e que moraria "em frente da judiaria".

Na atualidade nom existe na toponímia de Chaves qualquer elemento que aluda à presença judaica ou cristã-nova apesar da importância da comunidade judaica para a defesa da cultura na cidade. De facto, com a publicaçom de Sacramental em 14 de abril de 1488, os judeus de Chaves contribuiram para a impresom do primeiro livro em língua portuguesa.


Em Monforte de Rio Livre, antiga vila localizada na atual freguesia de Águas Frias do município de Chaves e que foi sede de concelho até 1853, existem vestígios de presença judaica.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

PORTO

Porto, a capital do Norte de Portugal, é umha cidade com cerca de 238.000 habitantes cuja metrópole, constituída polos municípios adjacentes que formam entre si um único conglomerado urbano, conta com cerca de 1,3 milhões de habitantes, o que a torna a maior do noroeste peninsular.

É a cidade que deu nome a Portugal, quando se designava Portus Cale, vindo mais tarde a tornar-se a capital do Condado Portucalense. Devido ao seu carácter comercial atraiu bem cedo mercadores judeus.

Durante a Idade Média no Porto houve três judiarias: a Judiaria Velha, a Judiaria de Monchique e a Judiaria Nova do Olival que contaram, possivelmente, quatro sinagogas.
Localizaçom das Judiarias do Porto. GoogleEarth
Judiaria Velha

A Judiaria Velha ficava situada na parte alta do Morro da Sé, dentro da "cerca velha", também chamada "muralha suévica", ali por perto da Rua da Aldas (hoje Rua do Arco de Santa Ana) e perto das atuais Rua Escura e Largo do Colégio, onde ainda se pode apreciar a planta medieval das ruas. 
Morro da Sé ou da Pena Ventosa, local da Judiaria Velha
R. do Arco de Santa Ana

Pouco se sabe dela, nem do ponto de vista arqueológico, nem do ponto de vista documental, mas que foi o núcleo mais antigo da fixaçom de comunidades judaicas (século XIII). A “Comuna dos judeus” era, por certo, um agrupamento social de artesãos e comerciantes, tendo, sem dúvida, um pequeno edifício estruturalmente adaptado como sinagoga. 
Localizaçom da Judiaria Velha no alto do Morro da Sé do Porto. Foto: Wikipedia
Todavia, os comerciantes e artesãos judeus estendiam a sua atividade polas ruelas do morro até à baixa da Ribeira e a Rua da Alfândega, junto ao rio Douro e perto da Basílica de São Francisco, onde estava o ancoradouro dos barcos e onde se movimentava o comércio e eles tinham as suas lojas lado a lado com cristãos, sem que haja notícias de tensões entre os dous grupos. Por um aforamento de 1386, sabe-se, de facto, que os Judeus tinham uma sinagoga doméstica na loja do marinheiro Lourenço Peres, situada na Rua da Munhata ou Minhota entre os conventos de S. Domingos e de S. Francisco (agora Rua do Comércio).


R. do Comércio do Porto
Como referido, seria esta a chamada “Judiaria de Baixo” e era ali a segunda sinagoga, que ficava por baixo da encosta da Vitória, onde, mais tarde, se construíu a Judiaria do Olival e a sua sinagoga.

Judiaria de Monchique

Na zona fluvial de Monchique (freguesia atual de Miragaia), extramuros, formou-se posteriormente umha outra judiaria, ocupando umha área que ia das Virtudes até ao Convento de Monchique, Rua da Bandeirinha e Largo do Viriato. 
Vista da zona de Monchique/Miragaia
O facto de os Judeus se terem deslocado para este local foi devido a que, a partir do século XIII foi proibido alugar ou vender-lhes propriedades dentro da Cividade onde se achava a Judiaria Velha.

Nessa zona ainda persistem, ligados à presença dos Judeus, vários topónimos: Monte dos Judeus, Escadas do Monte dos Judeus, Largo dos Judeus ou Rua do Monte dos Judeus. 
Judiaria de Monchique - Porto. GoogleMaps


GoogleMaps


Escadas do Monte dos Judeus



Imagens de A vida em Fotos
É nesta zona que, por volta de 1380, o rabino-mor do rei, D. Fernando Don Yahuda Ibn Maner, funda a terceira sinagoga do Porto.  O local da antiga sinagoga é desde o 1535 o Convento das Clarissas e a capela do Convento da Madre de Deus de Monchique.

Desta sinagoga (aberta entre 1380-86) existe um documento notabilíssimo, que é a inscriçom de inauguraçom, a maior inscriçom conhecida dos judeus em Portugal e que foi encontrada em 1826, agora exibida no Museu Arqueológico do Carmo de Lisboa.
Inscriçom encontrada no local da sinagoga de Monchique
Na lápide, encontrada na parede ocidental da capela do referido convento, pode-se ler:

«1. Alguém poderá dizer: Como nom foi resguardada umha casa de tanta nomeada no interior dumha muralha?
2. Mas esse bem sabe que tenho um conhecido que é reconhecido da alta estirpe.
3. Ele é que me guarda, pois me declara sem sobra de dúvida: Eu sou muralha.
4. O maior entre os Judeus, o mais forte dos heróis, e que se levantam os chefes ali está ele de pé.
5. Benfeitor do seu povo, servo de Deus na sua integridade, edificou umha casa ao seu nome de pedras de talha.
6. Para o Rei ele é segundo, à cabeça é controlado, pola sua grandeza e na presença de reis ele se ergue.
7. Ele é o Rabi Don Yehudah ben Maner, luz de Judá e a ele compete autoridade.

8. Por ordem do Rabi, que ele viva, Don Joseph ibn Arieh, encarregado e chefe para a tarefa».


Extinto convento de Monchique





Imagens de A vida em Fotos
Muito perto da referida sinagoga, no lugar que hoje chamam “Monte dos Judeus” é que teria existido um cemitério judaico (Maqbar). Porém, nom existe unanimidade no tocante à sua localizaçom. Enquanto uns historiadores o situam no local do atual Palácio das Sereias/Mamudas, no fundo da Rua Bandeirinha, outros acham que terá sido muito para oriente nos socalcos do Jardim Municipal do Horto das Virtudes, próximo da Igreja de S. Pedro de Miragaia. 


Monte dos Judeus ou Morro de Monchique
A existência dum curso de água, o Rio Frio, que passa polo Horto, abastecendo a Fonte das Virtudes, indo depois desaguar no Rio Douro, poderá ter sido um apoio logístico para os funerais judaicos, devido à obrigatoriedade religiosa de lavar os corpos dos falecidos antes de se proceder ao enterramento, um ritual de purificaçom que no idioma hebraico se designa de Tahara.



Judiaria Nova do Olival

Em 1386, o rei D. João I mandou instalar os Judeus dispersos polo Porto num espaço intramuros, justificando a medida por questões de segurança (a eminência das guerras de libertaçom com Espanha) e quando o espaço das antigas judiarias se tornara escasso para conter todos os Judeus da cidade. D. João mandou a Câmara do Porto assinalar um lugar apartado dentro dos muros da cidade para construir umha nova judiaria, sendo escolhido o Campo do Olival. 

O bairro judeu ocupava um terreno de 30 courelas e por ele se pagavam anualmente 200 maravedis velhos, tal como estipulava o contrato celebrado com a Câmara a 2 de junho de 1388. O dirigismo subjacente ao processo de urbanizaçom do Campo do Olival, com complemento programático e cronológico na abertura da R. Formosa, fica bem patente no loteamento da R. de S. Miguel, onde os Judeus recebem trinta quadrelas, certamente correspondentes aos trinta lotes ainda perceptíveis no cadastro atual.

Em pouco tempo e de forma muito racional, os Judeus urbanizaram umha zona erma e economicamente desinteressante, edificando eles a sua sinagoga e casas de morada ao longo dumha extensa artéria em L, que se denominou Rua da Judiaria Nova do Olival, pois só anos mais tarde é que se rasgaria a Rua Nova ou Formosa, depois Rua Nova dos Ingleses (atualmente Rua Infante D. Henrique) entre o Convento de S. Francisco e a desembocadura da Rua dos Mercadores, por norma considerada como o primeiro projeto urbanístico moderno do Porto.

A Judiaria do Olival ocupava o ângulo noroeste do intramuros era delimitada por dous eixos urbanos principais (R. de S. Miguel de Cima e o caminho que de S. Domingos vai para Miragaia), que garantiam o essencial das necessidades de circulaçom nos sentidos N-S e L-O. Qualquer umha delas terminava numha das portas da muralha fernandina. 
Maqueta da Judiaria do Olival do Porto. Wikipedia
Esta judiaria construía um autêntico gueto, o que permita controlar a movimentaçom dos Judeus. Lá os Judeus tinham liberdade de açom na cidade, comprando e vendendo, mas estavam obrigados a recolher à judiaria à noite, ao toque de Trindades, na torre da porta do Olival. Segundo o estatuto de “gente de naçom” ou “os meus judeus”, como diziam entom os reis portugueses, a comunidade contava com oficiais próprios, livremente eleitos, sendo a Comuna dos Judeus umha alternativa étnica à Câmara dos Cristãos, uma espécie de concelho dentro do concelho. 

A Judiaria Nova do Olival situava-se no espaço atual do quarteirom da Vitória, nas ruas que hoje rodeiam a igreja de Nossa Senhora da Vitória, entre o Mosteiro de São Bento e a Rua de Belmonte.

Arruamentos da Judiaria do Olival do Porto. GoogleMaps
Este bairro judeu desenvolvia-se em torno dum eixo principal (norte-sul) constituído pola Rua de S. Miguel (que hoje corresponde às ruas de S. Bento da Vitória e de S. Miguel), em torno do qual se abriam travessas perpendiculares, incluindo também a atual R. das Taipas. 
R. S. Bento da Vitória


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                                          Travessa de São Bento                                                             CAEIRO


                     Tr. de São Bento vista da R. dos Taipas               CAEIRO
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R. S. Miguel da Vitória
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Rua das Taipas

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Travessa das Taipas

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Era um burgo dentro do burgo, limitado a norte por uma viela que seguia para as barreiras, ficando no seu exterior o "outão" e o forno do Olival. Tinha duas portas, umha à entrada voltada para o Largo da Porta do Olival (atual R. de São Bento da Vitória) e umha outra de saída situada nas Escadas da Esnoga/Sinagoga (hoje Escadas da Vitória) e onde se colocou umha placa que lembra esse nome.


Escadas da Esnoga



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Escadas da Esnoga do Porto. José Paulo Andrade
A Vida em Fotos
Entroncamento das Escadas na R. Vitória. A Vida em Fotos

A Sinagoga estava situada no topo das Escadas da Vitória. Este local veio depois a ser ocupado pola Igreja de Nossa Senhora da Vitória. 


Igreja de Nossa Senhora da Vitória alegadamente no local da antiga sinagoga. CAEIRO
A igreja vista da Rua da Vitória. A Vida em Fotos
Segundo umha hipótese, um pouco mais a norte, no Passeio das Virtudes, localizavar-se-ia o cemitério judaico do Porto.


Os judeus aqui viveram e prosperaram, tendo assimilado os Hebreus expulsos dos reinos de Espanha. Assim, em 1482 acentua-se a sublocaçom das casas e aforam-se edifícios do lado exterior da porta da judiaria. Aliás, em 1492, quando o édito de expulsom dos Judeus dos reinos de Espanha, o rei português D. João II negociou com o rabino Isaac Aboab, rabino-mor (gaon) de Castela, o estabelecimento de trinta famílias de Judeus expulsos na Judiaria do Olival, dando origem às trinta casas da courela dos judeus, como informa o médico Emanuel Aboab na sua Nomologia.

O édito de expulsom de D. Manuel I de dezembro de 1496 ditou o fim da Judiaria e muitos Judeus abandonaram o reino, enquanto outros se convertiam ao cristianismo. Estes passaram a designar-se cristãos-novos. 

Quer porque muitos abandonaram as suas casas, quer porque os que se converteram nom queriam ficar ligados ao passado judaico, o facto é que a zona desta antiga judiaria ficou quase deserta por volta do século XVI. Entom as casas desabitadas foram entregues a cristãos velhos. Desta Judiaria é oriundo o célebre filósofo Uriel da Costa, que viveu na cidade de Amsterdám (Holanda).

O rei D. João III promulgou duas cartas régias em 1534 e 1539 que obrigaram os cristãos-novos habitantes em varios locais da cidade (como a Praça da Ribeira) a concentrarem a sua morada na Rua de S. Miguel, que na altura, incluia a Rua de São Bento da Vitória. 

No espaço das trinta casas da courela dos judeus ergueu-se, no século XVI-XVII, o Mosteiro de São Bento da Vitória, um mosteiro beneditino. Na padieira da portaria do mosteiro foi colocada uma inscrição latina: "Quae fuerat sedes tenebrarum est regia solis. Expulsis tenebris sol benedictus ovat". Tal levou muito historiadores a suporem tivesse sido aqui a sinagoga. Atualmente crê-se que seria na igreja paroquial da Vitória. 

Posteriormente, nos seus muros foi colocado um Memorial Historiado e Litúrgico de mármore, em língua hebraica e portuguesa, em recordaçom dos Judeus expulsos ou que foram obrigados a se converter ao cristianismo.
A Vida em Fotos
Sabe-se que muitos cristãos-novos continuaram a praticar o judaísmo clandestinamente, no entanto, devido ao seu velho e consistente passado judaico e devido a essa herança estrutural “marrana” do Porto, inconsciente mas pressentida e intuitiva, a Inquisiçom apenas funcionou no Porto durante dous anos e só realizou um auto-de-fé porque o povo do Porto nom a aceitou, nom denunciando aos que se esconderam e acolhendo os que passaram a ser cristãos-novos.


Nos princípios do século XVII, mercadores com as suas lojas, gente de prol, mais tarde os magistrados e funcionários do Tribunal da Relaçom passaram a viver na Rua da Judiaria Nova (agora denominada de S. Miguel, mais extensa que a atual, porque abrangia também a Rua de S. Bento da Vitória de hoje).



Quando em 1920 o militar Artur Carlos de Barros Basto tentou a retomada do judaísmo entre os marranos, Porto tornou-se no centro das suas atividades. A congregaçom "Mekor Haim" foi estabelecida em 1927. Em 1929 abriu-se a Sinagoga Kadoorie, albergando tanto a congregaçom quanto o seminário de estudos religiosos. O templo da comunidade israelita do Porto acha-se no bairro de Boavista, no nº. 340 da R. Guerra Junqueiro. Na década de 1970 a comunidade judaica do Porto contava com 100 pessoas.
Sinagoga Kaddorie Mekor Haim no Porto
Sinagoga secreta
Em 2003, no decurso dumhas obras numha casa da Rua de S. Miguel (n.ºs 9-11) ter-se-á descoberto um Hejal/Ehal (arca santa, ou Aron hakodesh o elemento central dumha sinagoga), onde se guardam os rolos da Lei (Torá), por detrás dumha parede dupla desse prédio. Este armário em nicha foi descoberto após abater umha parede falsa no lado oriental da casa.
CAEIRO
CAEIRO
O armário judaico foi identificado por arqueólogos e historiadores da Faculdade de Letras da Universidade do Porto como um dos quatro existentes em Portugal, datando de finais do século XVI ou inícios do século XVII. 
CAEIRO
O achado descoberto confirma o edifício como o da sinagoga secreta que se sabia ter existido na Rua de S. Miguel, desde meados do séc. XVI. O filósofo e médico Imanuel Aboab, nascido no Porto em 1555, descreveu-a na sua Nomologia (Amsterdám, 1629), porque aí ia orar, em criança.

Como muitos cristãos-novos continuaram a praticar o criptojudaismo em segredo apesar da proibiçom, o edificio da R. de S. Miguel era assim o centro dessa comunidade e oferecia esta entrada nos nºs 9-11 e umha outra, discreta, localizada na traseira, jundo às Escadas da Esnoga (da Vitória).
Traseiras do edificio que alberga a sinagoga secreta do Porto. CAEIRO

Entrada discreta da sinagoga clandestina do Porto. CAEIRO

Desde 2012 o imóvel do achado é considerado Imóvel de Interesse Público, o que nom impede que albergue o Lar e Centro de Dia Nossa Senhora da Vitória.