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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

PRESENÇA JUDAICA NA LÍNGUA PORTUGUESA

EXPRESSÕES E DIZERES POPULARES EM PORTUGUÊS DE ORIGEM CRISTÃ-NOVA OU MARRANA

Jane Bichmacher de Glasman

O objetivo do presente trabalho é apresentar alguns exemplos de influência judaica na língua portuguesa, a partir de uma ampla pesquisa sócio-lingüística que venho desenvolvendo há anos. A opção por judaica (e não hebraica) deve-se a uma perspectiva filológica e histórica mais abrangente, englobando dialetos e idiomas judaicos, como o ladino (judeu-espanhol) e o iídiche (alemão), entre os mais conhecidos, além de vocábulos judaicos e expressões hebraicas que passaram a integrar o vernáculo a partir de subterfúgios e/ou corruptelas, cuja origem remonta à bagagem cultural de colonizadores judeus, cristãos-novos e marranos.

Há uma significativa probabilidade estatística de Brasileiros descendentes de ibéricos, principalmente portugueses, terem alguma ancestralidade judaica. A base histórica para tal é a imigração maciça de judeus expulsos da Espanha, em 1492, para Portugal, devido à contigüidade geográfica e às promessas (não cumpridas) do Rei D. Manuel I, que traziam esperança de sua sobrevivência judaica como tal. Mesmo com a expulsão de Portugal em 1497, os judeus (além dos cristãos-novos e dos cripto-judeus ou marranos) chegaram a constituir 20 a 25% da população local.

Sefaradim (de Sefarad, Espanha, da Península Ibérica) procuraram refúgio em países próximos no Mediterrâneo, norte da África, Holanda e nas recém-descobertas terras de além-mar nas Américas, procurando escapar da Inquisição. Até hoje é controversa a origem judaica ou criptojudaica de descobridores e colonizadores do Brasil, para onde imigraram incontáveis cristãos-novos, alternando durante séculos uma vida como judeus assumidos e marranos, praticando o judaísmo secretamente (fora os que permaneceram efetivamente católicos), de acordo com os ventos políticos, sob o domínio holandês ou a atuação da Inquisição, variando de um clima de maior tolerância e liberdade à total intolerância e repressão.

Comparando apenas sob o ponto de vista cronológico, nem sempre lembramos que, enquanto o Holocausto na Segunda Guerra Mundial foi tão devastador, especialmente nos quatro anos de extermínio maciço de judeus, a Inquisição durou séculos, pelo menos três dos cinco da história “oficial” do Brasil, isto é, após o descobrimento. Tantos séculos de medo, denúncias, processos e mortes, geraram, por um lado, um ambiente psicológico de terror para os judeus e cristãos novos no Brasil; por outro, um antissemitismo evidente ou subliminar que permaneceu arraigado na população, inclusive como autodefesa e proteção.

Uma característica do comportamento de cristãos-novos “suspeitos” foi procurar ser “mais católicos do que os católicos”, buscando sobreviver à intolerância e determinando práticas sócio-culturais e lingüísticas.

A citada alternância entre vidas assumidamente judaicas e marranas, praticando judaísmo em segredo, com costumes variados, unificados pela “camuflagem” de seu teor judaico, gerou comportamentos e aspectos culturais (abrangendo rituais, superstições, ditados populares, etc.) que se arraigaram à cultura nacional. A maioria da população desconhece que muitos costumes e dizeres que fazem parte da cultura brasileira têm sua origem em práticas criptojudaicas. Apresentarei alguns exemplos bem como suas origens e explicações, a partir da origem judaica “marrana”.

“Gente da nação” é uma das denominações para designar marranos, judeus, cristãos-novos e cripto-judeus, embora existam diferenças entre termos e personagens.

Cristãos-novos foi denominação dada aos judeus que se converteram em massa na Península Ibérica nos séculos XIII e XIV; é preconceituosa devido à distinção feita entre os mesmos e os “cristãos-velhos”, concretizado nas leis espanholas discriminatórias de “Limpieza de Sangre” do século XV.

Criptojudeus eram os cristãos-novos que mantiveram secretamente seu judaísmo. Gente da nação era a expressão mais utilizada pela Inquisição e Marranos, como ficaram mais conhecidos. Embora todos fossem descendentes de judeus, só poucos voltaram a sê-lo, e em países e épocas que o permitiram.

O próprio termo “marrano” possui uma etimologia diversificada e antitética. Unterman (1992: 166), conceitua de forma tradicional, como “nome em espanhol para judeus convertidos ao cristianismo que se mantiveram secretamente ligados ao judaísmo. A palavra tem conotação pejorativa” geralmente aplicada a todos os cripto-judeus, particularmente aos de origem ibérica. Em 1391 houve uma maciça conversão forçada de judeus espanhóis, mas a maioria dos convertidos conservou sua fé. Já Cordeiro (1994), com base nas pesquisas de Maeso (1977), afirma que a tradução por “porco” em espanhol tornou-se secundária diante das várias interpretações existentes na histografia do marranismo.

Para o historiador Cecil Roth (1967), marrano, velho termo espanhol que data do início da Idade Média que significa porco, aplicado aos recém-convertidos (a princípio ironicamente devido à aversão judaica à carne de porco), tornou-se um termo geral de repúdio que no século XVI se estendeu e passou a todas as línguas da Europa ocidental.

A designação expressa a profundidade do ódio que o espanhol comum sentia pelos conversos com quem conviviam. Seu uso constante e cotidiano carregado de preconceito turvou o significado original do vocábulo. Em “Santa Inquisição: terror e linguagem”, Lipiner (1977) apresenta as definições: “Marranos: As derivações mais remotas e mais aceitáveis sugerem a origem hebraica ou aramaica do termo. Mumar: converso, apóstata. Da raiz hebraica mumar, acrescida do sufixo castelhano ano derivou a forma composta mumrrano, abreviado: Marrano. Tratar-se-ia, pois de um vocábulo hebraico acomodado às línguas ibéricas. Marit-áyin: aparência, ou seja, cristão apenas na aparência. Mar-anús: homem batizado à força. Mumar-anus: convertido à força. Contração dos dois termos hebraicos, mediante a eliminação da primeira sílaba”. Anus, em hebraico, significa forçado, violentado.

Antes de exemplificar a contribuição lingüística marrana, convém ressaltar que a vinda dos portugueses para o Brasil trouxe consigo todos os empréstimos culturais e lingüísticos que já haviam sido incorporados ao cotidiano ibérico, desde uma época anterior à Inquisição, além de novos hábitos e características; muitas palavras e expressões de origem hebraica foram incorporadas ao léxico da língua portuguesa mesmo antes de os portugueses chegarem ao Brasil. Elas encontram-se tão arraigadas em nosso idioma que muitas vezes têm sua origem confundida como sendo árabe ou grega. Exemplo: a “azeite”, comumente atribuída uma origem árabe por se assemelhar a um grande número de palavras começadas por “al-” (como alface, alfarrábio, etc.), identificadas como sendo de origem árabe por esta partícula corresponder ao artigo nesta língua. O artigo definido hebraico é a partícula “a-” e “azeite” significa, literalmente, em hebraico “a azeitona” (ha-zait).

Apesar da presença judaica por tantos séculos, em Portugal como no Brasil, as perseguições resultaram também em exclusões vocabulares. A maior parte dos hebraísmos chegou ao português por influência da linguagem religiosa, particularmente da Igreja Católica, fazendo escala no grego e no latim eclesiásticos, quase sempre relacionados a conceitos religiosos, exemplos: aleluia, amém, bálsamo, cabala, éden, fariseu, hosana, jubileu, maná, messias, satanás, páscoa, querubim, rabino, sábado, serafim e muitos outros.

Algumas palavras adotaram outros significados, ainda que relacionados à idéia do texto bíblico. Exemplos: babel indicando bagunça; amém passando a qualquer concordância com desejos; aleluia usada como interjeição de alívio.

O preconceito marca palavras originárias do hebraico usadas de forma depreciativa, como: desmazelo (de mazal – negligência, desleixo), malsim (de mashlin – delator, traidor), zote (de zot / subterrâneo, inferior, parte de baixo – pateta, idiota, parvo, tolo), ou tacanho (de katan – que tem pequena estatura, acanhado; pequeno; estúpido, avarento); além de palavras relacionadas a questões financeiras, como cacife, derivada de kessef = dinheiro.

Dezenas de nomes próprios têm origem hebraica bíblica, como: Adão, Abraão, Benjamim, Daniel, Davi, Débora, Elias, Ester, Gabriel, Hiram, Israel, Ismael, Isaque, Jacó, Jeremias, Jesus, João, Joaquim, José, Judite, Josué, Miguel, Natã, Rafael, Raquel, Marta, Maria, Rute, Salomão, Sara, Saul, Simão e tantos outros. Alguns destes, na verdade, são nomes aramaicos, oriundos da Mesopotâmia, como Abraão (Avraham), que se incorporaram ao léxico hebraico no início da formação do povo hebreu.

Podemos citar centenas de nomes e sobrenomes de judaizantes e números de seus dossiês, desde a instalação da Inquisição no Brasil, a partir dos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, e de livros como Wiznitzer (1966), Carvalho (1982), Falbel (1977), Novinsky (1983), Dines (1990), Cordeiro (1994), etc. Sobrenomes muito comuns, tanto no Brasil como em Portugal, podem ser atribuídos a uma origem sefardita, já que uma das características marcantes das conversões forçadas era a adoção de um novo nome. Muitos conversos adotaram nomes de plantas, animais, profissões, objetos, etc., e estes podem ser encontrados em famílias brasileiras, até hoje, em número tão grande que seria difícil enumerá-los. Exemplos: Alves, Carvalho, Duarte, Fernandes, Gonçalves, Lima, Silva, Silveira, Machado, Paiva, Miranda, Rocha, Santos, etc. Não devemos excluir a possibilidade da existência de outros sobrenomes portugueses de origem judaica.

Porém é importante ressaltar que não se pode afirmar que todo brasileiro cujo sobrenome conste dos processos seja descendente direto de judeus portugueses; para se ter certeza é necessária uma pesquisa profunda da árvore genealógica das famílias.

Há ainda algumas palavras e expressões oriundas do misticismo judaico, tão desenvolvido na idade média. O estudo do Talmud e da Cabalá trouxe também contribuições do aramaico, como a conhecida expressão “abracadabra”, que é tida pela nossa cultura como uma “palavra mágica” (num sentido fabuloso), mas que, na realidade pode ser traduzida como “criarei à medida que falo” (num sentido real e sólido para a cultura judaica).

Algumas palavras também designam práticas judaicas ou formas de encobri-las, especialmente observável nos costumes alimentares. Por exemplo: os judeus são proibidos pela Torá de comer carne de porco, porque tem os cascos fendidos e não rumina, sendo, portanto, impuro. Para simular o abandono desse princípio e enganar espiões da Inquisição, os cristãos-novos inventaram as alheiras, embutidos à base de carne de vitelo, pato, galinha, peru – e nada de porco. Após algumas horas de defumação já podem ser consumidos. Da mesma forma, peixes “de couro” (sem escamas) não serviam para consumo.

Passando às expressões, apresento alguns exemplos, sua origem e explicação:


Pensar na morte da bezerra
frase tão comumente dita por sertanejos quando querem referir-se a alguém que está meditando com ares de preocupação: “está pensando na morte da bezerra”. Registram as denunciações e as confissões feitas ao Santo Oficio, a noção popular, naquele distante período, do que seria o livro fundamental do judaísmo: a Torá. De Torá veio Toura e depois, bezerra, havendo inclusive quem afirmasse ter visto em cara de alguns cristãos-novos, o citado objeto, com chifres e tudo.

Passar a mão na cabeça
com o sentido de perdoar ou acobertar erro cometido por algum protegido, é memória da maneira judaica de abençoar de cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto pronunciava a bênção.

Seridó
região no Rio Grande do Norte, tem seu nome originário da forma hebraica contraída: Refúgio dele. Porém, não é o que escreve Luís da Câmara Cascudo, indicando uma origem indígena do nome da região, de “ceri-toh”. Em hebraico, a palavra Sarid significa sobrevivente. Acrescentando-se o sufixo ó, temos a tradução sobrevivente dele. A variação Serid, “o que escapou”, pode ser traduzido também por refúgio. Desse modo, a tradução para o nome seridó seria refúgio dele ou seus sobreviventes.

Passar mel na boca
quando da circuncisão, o rabino passa mel na boca da criança para evitar o choro. Daí a origem da expressão: “Passar mel na boca de fulano”.

Para o santo
o hábito sertanejo de, antes de beber, derramar uma parte do cálice, tem raízes no rito hebraico milenar de reservar, na festa de Pessach (Páscoa), um copo de vinho para o profeta Elias (representando o Messias que virá, anunciado pelo Profeta Elias).

Que massada!
usada para se referir a uma tragédia ou contra-tempo, é uma alusão à fortaleza de Massada na região do Mar Morto, Israel, reduto de Zelotes, onde permaneceram anos resistindo às forças romanas após a destruição do Templo em 70 d.C., culminando com um suicídio coletivo para não se renderem, de acordo com relato do historiador Flávio Josefo.

Pagar siza
significando pagar imposto vem do hebraico e do aramaico (mas = imposto, em hebraico de misa, em aramaico).

Vestir a carapuça
ou “a carapuça serve para ...” vem da Idade Média inquisitorial, quando judeus eram obrigados a usar chapéus pontudos (ou com três pontas) para serem identificados.

Fazer mesuras
origina-se na reverência à Mezuzá (pergaminho com versículos de DT.6, 4-9 e 11,13-21, afixado, dentro de caixas variadas, no batente direito das portas).

Deus te crie
após o espirro de alguém é uma herança judaica da frase Hayim Tovim, que pode ser traduzido como tenha uma boa vida.

Pedir a bênção
aos pais, ao sair e chegar em casa, é prática judaica que remonta à benção sacerdotal bíblica, com a qual pais abençoam os filhos, como no Shabat e no Ano Novo.

Entrar e sair pela mesma porta traz felicidade
bem como o costume de varrer a casa da porta para dentro, costume arraigado até os dias de hoje, para “não jogar a sorte fora” é uma camuflagem do respeito pela Mezuzá, afixada nos portais de entrada, bem como aos dias de faxina obrigatória religiosa judaica, como antes do Shabat (Sábado, dia santo de descanso semanal) e de Pessach.

Apontar estrelas faz crescer verrugas nos dedos
era a superstição que se contava às crianças para não serem vistas contando estrelas em público e denunciadas à Inquisição, pois o dia judaico começa no anoitecer do dia anterior, ao despontar das primeiras estrelas, dado necessário para identificar o início do Shabat e dos feriados judaicos.

Para concluir, gostaria de mencionar um tema polêmico decorrente deste intercâmbio cultural-religioso: sua influência no português, em vocábulos que adquiriram uma conotação pejorativa e negativa. Os mais discutidos são:
- judeu, significando usurário, 
- o verbo judiar (e o substantivo judiação) com o sentido de maltratar, torturar, atormentar. 

Seja sua origem a prática de “judaizar” (cristãos-novos mantendo judaísmo em segredo e/ ou divulgando-o a outros), seja como referência ao maltrato e às perseguições sofridas pelos judeus durante a Inquisição, o fato é que, sem dúvidas, sua conotação é negativa, e cabe a nós estudiosos do assunto e vítimas do preconceito, esclarecer a população e a mídia, alertando e visando à erradicação deste uso, não só pelo desgastado “politicamente correto”, que leva a certos exageros, mas para uma conscientização do eco subliminar de um longo passado recente, Pelo qual não basta o pedido de perdão, se não conduzir a uma mudança no comportamento social.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A LÍNGUA DOS JUDEUS NA GALIZA

No próximo dia 4 de setembro é celebrado o XVII Dia Europeu da Cultura Judaica. Nesta ocasiom, as atividades e eventos agendados estám ligados às línguas dos Judeus. Por este motivo, a seguir reproduz-se, na íntegra, um artigo sobre a Língua dos Judeus na Galiza de X. L. Méndez Ferrín, um dos escritores mais representativos da literatura galega contemporânea.
X.L. Méndez Ferrín
Xosé Luis Mendez Ferrin

Os Judeus da Galiza falavam a língua das cidades e vilas nas que moravam, ou seja, a galega. Os nomes pessoais dos varões eram bíblicos (Isaque, David, Abrahám) mas eles tinham a atençom de nomear as suas mulheres de jeito galego e meliorativo: Clara, Rica, Ouro, Alegria. No tocante aos nomes de família e alcunhas, parece que na sua maioria eram galegos (Mendes, Pereira, Espinhosa, Sanches). Certo que Peres é muito numeroso entre Judeus, também pode ter umha procedência hebraica coincidente com o patronímico galego. Podiam levar os nossos Judeus apelidos hebraicos ou de escura fasquia semítica (escura para mim); assim: Cohén, Benveniste (como o linguista) Mardochai (V. Risco dizia ser este o verdadeiro apelido de Marx), Calvasan. Chamam a atençom, polo carácter hebraico deliberado, os nomes de Ioseph Ibn Hayyim e de Moisés Ibn Zabarah, iluminador e calígrafo, respetivamente, da Torá ou Bíblia de Kennicott, ambos os dous artistas corunheses, que fazem ostentaçom da sua vizinhança galega.

Seguiram falando galego os Judeus dispersados e expulsos de fins de século XV? –pergunta-me Lucia Pereira Espinosa. Vou-lle responder com unha hipótese.

Logo do édito de expulsom lançado pola intolerância dos bem chamados Reis Católicos en 1492, é fama que a maioria dos Judeus da Galiza passaram para Portugal. Gozariam do benefício dumha rede social de apoio nas judiarias daquele reino. Mas, poucos anos depois (1496-1497), o rei Dom Manoel ordenou a conversom obrigatória ou, alternativamente, o exilo de todos os Hebreus de Portugal.

Penso eu que os conversos e cristãos-novos que ficaram na Galiza foram-se confundindo com o resto da populaçom e nom parece que existissem verdadeiros núcleos criptojudaicos. Contodo, sabemos que um acusado de judaísmo foi queimado en auto-da-fé que se celebrou na Praça Maior de Madrid no final do século XVII e presidido por Carlos II. Esta vítima levaba o apelido muito galego de Carballo/Carvalho.

O contingente de Judeus galegos, Portugueses e Catalães que se assentou no Mediterrâneo Oriental foi absorvido linguisticamente polo contingente maioritario dos Judeus que falavam o castelhano. E conformou-se de tal modo a língua e a cultura sefardita: sobre a base dumha preponderância castelhana. Reproduziu-se nesta Diáspora, pois, o fenómeno da hegemonia e dominaçom castelhana na Península Ibérica sobre as línguas galega e catalã, e, aínda depois, da portuguesa.

Entendo que houve umha parcela de Judeus galegos e portugueses que enrraizaram nos Países Baixos. Nesse assentamento, a língua dos Judeus galegos e portugueses reunificou-se. Passar-se-ia, assim, para umha sorte de novo galego-portugués, neste caso sefardita. Tal lingua foi usada polas famílias de ascendência galega e portuguesa nos Países Baixos até a Idade Contemporânea muito avançada. Documentos en língua sefardita galego-portuguesa conservam-se em arquivos de Amsterdão, tenho entendido. O sefardita galego-portugués utilizou-se como lingua oral e escrita nos Países Baixos até a segunda metade do século XIX ou ainda mais adiante. Suponho que por esses tempos as nossas comunidades judias dos Países Baixos se achegariam ao asquenazismo e adoptariam como lingua própria o neerlandés. Nom conheço estudos nos que se esclareça o elemento galego deste galego-portugués dos Países Baixos nen que falem no elemento galego presente no judeo-castelhano sefartita.

E bem, tanto na Europa Ocidental como na Oriental e no N. da África, perdida a língua galega ou nom, os sefarditas de origem galega mantiveram muitos dos seus apelidos até os nossos días, aínda que seja nalguns casos difícil diferenciar o que é galego de aquilo que é português. Na Galiza orgulhamo-nos muito da possivel origem galega de certos sefarditas. Por exemplo: Francisco Sanches, teorizador extremo do cepticismo no século XVI; Baruch Spinosa (Espinhosa, suponho, na origem), filósofo revolucionário e único do século XVII; Pierre Mendès-France, o político perfeito do radicalismo pequeno-burguês.

Observaçom
Hoje os curiosos da história dos Judeus na Galiza podem aproveitar-se da leitura dumha obra muito documentada e compendiosa de Gloria de Antonio Rubio: Los judíos en Galicia (Fundación Barrié, Corunha 2006). Gostaríamos de precisar que os Hebreus que aparecem mencionados em dous documentos do ano 1044 que se incluem no Tombo de Cela Nova, sendo os primeiros de tal naçom que figuram localizados na Galiza, nom viveram, segundo a informaçom que chegou a nós, em Cela Nova. Mal aparecem localizados (nem sequer fixados) no vale do Arnoia e nas proximidades das aldeias de Fechas e Souto-Mel, como dependente dum feudal e para nada do abade de Cela Nova. Em 1044 Cela Nova nom era um núcleo urbano, mas só um convento. Em todo o caso, a vila de Alhariz acha-se a uns 12 quilómetros do teatro dos acontecimentos nos que se mencionam estes primeiros Judeus advertidos na documentaçom galega. E Alhariz sim que teve judiaria bem povoada e documentada anos mais tarde.

O artigo do autor foi publicado no jornal FARO DE VIGO a 29/12/2007.
O texto foi transcrito para a ortografia galego-portuguesa por CAEIRO.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A LÍNGUA DOS JUDEUS DE PORTUGAL

O Judeu-português ou judeo-português é umha língua extinta, que era falada polos Judeus sefarditas de origem portuguesa. Essa forma linguística era vernacular e de uso corrente aos Judeus de Portugal antes do século XVI, quando as comunidades judias foram expulsas por causa da pressom política exercida polos reis católicos espanhois, e sobreviveu em muitas comunidades da diáspora dos Judeus da Nação Portuguesa.
Judiaria de Castelo de Vide
Embora seja muito desconhecida a língua falada polos Judeus antes do édito de expulsom, o léxico do judeu-português era composto basicamente por palavras portuguesas, acrescentando-se palavras hebraicas. Também recebeu empréstimos do ladino ou judeu-espanhol por influência da língua dos Judeus espanhóis, mas era muito distinta dessa, já que os Judeus lusos nunca foram expulsos do seu país, antes forçados à conversom.

A existência dalguns de textos anteriores à expulsom permite fazer umha análise. Os textos eram escritos em letras hebraicas (aljamiado português) ou latinas. O documento mais antigo conhecido (1262) é um tratado sobre a arte do manuscrito iluminado, escrito em português com caracteres hebraicos, "O livro de como se fazem as cores". Trata-se dum documento de grande importância para a história do iluminismo manuscrito hebraico, sendo utilizadas as instruções contidas no texto para a iluminaçom da Bíblia Kennicott escrita na Corunha em 1476.

O texto litúrgico mais antigo é um Mahzor espanhol escrito em hebraico e publicado em Portugal por volta de 1485 que inclui instruções rituais em português aljamiado. Entre outros documentos, destacam um tratado médico de oftalmologia de 1300, localizado na Biblioteca Pública Municipal do Porto, um livro de pregações espanhol do século XV com instruções em português, localizado na Biblioteca Bodleian de Oxônia e um tratado de astrologia médica que contém umha parte em português do século XV, localizado no Seminário Teológico Judaico de Nova Iorque.

Relativamente a fontes nom judias dos séculos XV-XVI, Gil Vicente, considerado o primeiro grande famoso dramaturgo português, apresenta umha passagem judeu-portuguesa na sua obra o "Auto da Barca do Inferno": "Alça manim dona, o dona, ha", onde "manim" parece umha mistura da palavra espanhola mano com o sufixo habitual hebraico do plural -im. Destarte, Gil Vicente apresentava numha só frase a influência de duas palavras nom portuguesas na língua dos Judeus portugueses.

Muitos dos Cristãos-novos continuaram secretamente a observar o judaísmo e preservar a língua até que Inquisiçom se estabeleceu em Portugal em 1536, provocando umha vaga onda migratória dos conversos para Flandres, o norte da Alemanha, Holanda, França, Itália, Inglaterra e as Américas. 

Assim sendo, o judeu-português na diáspora desenvolveu-se a partir do século XVI nos locais onde os cristãos-novos portugueses regressaram ao judaismo e desenvolveram florescentes comunidades judaicas. O judeu-português foi conhecido como a língua dos Judeus da Nação Portuguesa e foi a língua oficial falada e escrita nas comunidades da Diáspora. Na Europa ocidental foi usado en inúmeros âmbitos: doméstico, transações comerciais, administraçom, cerimónias formais, cumprimentações, pregações, discursos, intercâmbios legais, registos, inscrições funerárias, relatórios comunitários,... Apenas depois de meados do século XIX, com a introduçom das escolas públicas, foi que diminuiu o seu uso, limitando-se ao uso familiar ou às celebrações religiosas.

Em geral, nas comunidades judias portuguesas exiladas as traduções dos textos litúrgicos do hebraico faziam-se para o espanhol. Mas no século XVII apareceram muitos textos seculares judeu-portugueses nos campos da filosofia, literatura moral, drama e poesia. Estes textos foram publicados na Itália e Alemanha, bem como em Amsterdão, que se tornou num centro judeu da actividades literária e científica. Mendes dos Remédios fez umha coletânea dos textos judeu-portugueses publicados em Amsterdão.

Apesar das escassas investigações feitas sobre as características lingüísticas do judeu-português da diáspora, segundo um estudo de Germano realizado aos textos de Amesterdão e Hamburgo entre os séculos XVIII e XX, a variedade judia do português incluia formas mais arcaicas do que o padrom da época. O linguista português B.N. Teesma (1975) chama à linguagem do século XVIII de Mendes-Franco de "português fossilizado". O texto de Mendes-Franco, escrito em letras latinas, inclui numerosos empréstimos hebraicos, mormente nos campos semânticos da tradiçom judaica e vida comunitária. As palavras hebraicas aparecem tanto em caracteres hebraicos quanto em transliterações.

Na América foi a língua habitual das comunidades sefarditas de origem portuguesa em Recife, Nova Iorque, Aruba, Curação, Bonaire e Costa do Estado venezuelano de Falcón. Nos Estados Unidos da América a variante judeu-portuguesa foi apoiada principalmente após a migraçom dos Judeus do Brasil Holandês.

Devido à sua similaridade, o Judeu-Português morreu logo em Portugal, mas sobreviveu na Diáspora como língua do dia-a-dia até os princípios do século XIX. Também sobrevive em forma de substrato no papiamento e saramaca, já que alguns dos donos portugueses de escravos eram Judeus.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

AS LÍNGUAS DOS JUDEUS

O vindouro 4 de setembro celebra-se o XVII Dia Europeu da Cultura Judaica. Esta ediçom, a organizaçom e difusom de atividades relacionadas com a cultura judaica visam revelar as línguas dos Judeus. Com esse fim este dia têm organizado eventos em muitos países europeus. Fala-se em temas como os bairros judeus/judiarias ou a coexistência cultural, mostrando o património cultural e histórico do povo judeu.

Do hebraico para o grego, do ladino para o aramaico, do iídiche para o judeu-árabe, dos dialetos judeu-italianos para o russo, os Judeus, esse povo criado a partir da Palavra ouvida no Monte Sinai, sempre teve umha forte e felizmente contraditória relaçom com as línguas.

A seguir reproduz-se, na íntegra, o texto elaborado para promover e sensibilizar o público da realidade da cultura judia na sociedade dos países onde estám agendados eventos.


Hanna Lorer

A origem das línguas é umha questom fundamental em linguística. Umha das explicações religiosas da formaçom das línguas e da alfabetizaçom é que elas foram criadas por um homem santo, amado por D-us, alguém justo e confiável. A questom tem sido objeto de muitas discussões ao longo dos séculos. Devido à falta de fontes autênticas de informaçom, a descoberta de evidências sólidas tem sido incrivelmente difícil. Os investigadores antigos referem-se a sinais, gravados em fósseis vegetais ou animais ou em cerâmicas arqueológicas. Os dados derivados a partir destas fontes nom som o suficiente credíveis para fornecer respostas. Os investigadores que estudam o comportamento entre os primatas concluem que se comunicam, mas apenas através de sons inarticulados. Como resultado da evoluçom, os macacos tornaram-se progressivamente em humanos. A linguagem evoluiu junto com a evoluçom dos primatas para os seres humanos modernos. Em 1861, Max Müller publicou umha teoria especulativa sobre a origem da linguagem falada, supondo que se formou na imitaçom de sons, produzidos por animais ou aves, ou como resultado de exclamações, provocadas por reações emocionais a sentimentos de satisfaçom, surpresa, dor física,... Segundo ele os sons possuem umha vibraçom natural, ressonância, que acarreta um eco.

Atualmente existem cerca de 6900 línguas faladas identificadas no mundo, agrupadas em cerca de 20 famílias. Supõe-se que as diferentes línguas procedem dumha haste ou protolíngua pai. A identificaçom desta língua básica comum tem sido estudada há milhares de anos. Atualmente há 225 línguas locais faladas na Europa.

Os estudos de gênese das línguas estabeleceram umha tendência comum. Foi provado que várias línguas resultam da transformaçom das antigas línguas básicas, como a semita, iraniana, latina, grega, eslava, fenícia, etrusca,... Há também umha necessidade de explicar como antigos pictogramas, que descrevem os símbolos das letras (cuneiforme, padrom, geométrica ou outra) gradualmente formaram as novas letras modernas sistematizadas num alfabeto.

O grupo linguístico mais difundido hoje é a família indoeuropeia, que vai desde o hindi e persa para o norueguês e inglês. Por volta de 2000 a.d.n.e. os utentes indoeuropeus atravessaram toda a Europa até chegar às costa do Atlântico e Mediterrâneo, o planalto iraniano e partes da Índia.

A família línguística semítica foi muito relevante para a história da humanidade inicial e continua a ser hoje. Por volta de 3000 a.d.n.e. as línguas semitas espalharam-se entre os nômades que habitavam partes do deserto da Arábia, abrangendo a Síria, Babilônia, Assíria e a Fenícia. O aramaico era também umha língua semítica e foi considerada como a língua do Próximo Oriente. O grupo semita contém polo menos duas comunidades (Judeus e Árabes) que desempenharam um papel significativo na civilizaçom humana. O alfabeto árabe é generalizado entre as nações muçulmanas, nom apenas entre os de língua árabe.

Os alfabetos foram modificados ao longo do tempo, sendo necessárias novas letras para descrever novas palavras ligadas a operações militares, acordos comerciais ou denominações religiosas.


Outro grupo de línguas formou-se como resultado de modificações do latim, a língua dos antigos Romanos. O latim pertence à família indoeuropeia, mas nom é tam flexível quanto o grego antigo. No início falava-se em Roma, mas depois o latim tornou-se na língua oficial de todos os territórios conquistados. Até o século XIX os trabalhos científicos e filosóficos foram escritos principalmente em latim. Embora seja umha língua morta hoje, ainda é a língua oficial da Igreja Católica. A origem do alfabeto latino permanece a ser determinada. Acredita-se que se alicerçou no alfabeto grego, adotado e modificado polos Etruscos e adaptado polos Romanos. As línguas românicas foram criadas com base no alfabeto latino (italiano, francês, espanhol, português). As línguas germânicas, usando o alfabeto latino, levaram ao atual inglês, holandês, flamengo, alemão, sueco e islandês. O alfabeto latino foi modificado ao longo dos anos, a fim de satisfazer as necessidades fonéticas das línguas que o adotaram. Ao longo dos últimos 500 anos este alfabeto espalhou-se para outros continentes durante o período de colonizaçom. Em meados do século XIX os Romenos adotaram-no como alfabeto principal da sua língua nacional. Após a queda da URSS em 1991, alguns dos novos países que utilizam línguas túrquicas adotaram o alfabeto latino. Muitos manuscritos latinos redigidos por autores antigos e mais de 270.000 inscrições em latim permanecem preservadas até hoje.

As línguas aramaica, cananita e hebraica som semitas. Alguns dos livros bíblicos posteriores e do Talmude foram redigidos principalmente em aramaico antigo. No século VII a.d.n.e. a língua aramaica alastrou para outras nações da regiom e foi mesmo utilizada pola administraçom persa.

Para além do hebraico, o aramaico e grego som consideradas como línguas bíblicas, mas o Antigo Testamento foi escrito na língua hebraica sagrada. A língua dos rabinos (aramaico talmúdico) deriva dele e foi usada para a literatura talmúdica, contendo todas as tradições do judaísmo e é considerada como a primeira enciclopédia antiga.

A populaçom de Israel é linguística e culturalmente muito heterogénea. Estudos etnológicos de Israel sugerem que a comunidade que vive no território conta com 33 idiomas e dialetos. O hebraico tornou-se dominante novamente no final do século XIX com base na ideologia movimento sionista a forma de usá-la como umha língua comum moderna. Eliezer Ben-Yehuda e os seus seguidores criaram as primeiras escolas onde hebraico foi falado e ensinado, os livros também foram impressos em hebraico. De acordo com Ben-Yehuda, no período 1905-14, como resultado da imigraçom em massa, o hebraico tornou-se na língua dominante e quando, em 1948, Israel se tornou um Estado independente, foi proclamada como língua oficial, juntamente com o árabe. O esforço de Eliezer Ben-Yehuda teve um enorme impato sobre o desenvolvimento do hebraico. Ele escreveu vários volumes do dicionário contendo palavras hebraicas antigas e modernas para adaptar esta muito antiga língua com as necessidades e exigências modernas. O objetivo de Ben-Yehuda era desenvolver literatura hebraica em Israel, mas também respeitar as especificidades do hebraico religioso escrito. Esta ideia foi recebida com oposiçom por outros estudiosos que mantiveram que a língua nom se devia desviar dos textos sagrados da Torá e que nom devia ser adaptada para um uso de conversas diárias nas ruas. Há muitas línguas informais em Israel: iídiche (a língua dos Judeus asquenazitas na diáspora); o Ladino usado polos Judeus sefarditas com raízes espanholas; o Polaco; Ucraniano; Francês; os dialetos judeu-italianos; Húngaro, Turco e até mesmo Persa, Grego e outras.

O alfabeto original hebraico deriva do fenício, com base nos hieróglifos egípcios. Foi o sistema de escrita mais amplamente utilizado polos comerciantes fenícios em torno dos países do Mediterrâneo. O alfabeto aramaico (siriaco) também teve as suas origens no fenício e foi a base do alfabeto árabe moderno.

O hebraico é o meio de comunicaçom entre os Judeus, é a língua da religiom, é usada para a educaçom e a criaçom literária. Apesar de todas as migrações forçadas em tempos antigos e as perseguições durante o Holocausto, a língua manteve-se viva até hoje. De acordo com a Torá, as línguas semíticas existem como criações de D'us. O alfabeto hebraico nom é apenas umha coleçom de elementos linguísticos abstratos, cada letra tem o seu nome e identidade, e também têm valores numéricos. As letras tornaram-se marcadores da identidade judia e da religiom judaica, diferenciando diferentes nomes de D'us. Alguém pode dizer por que a primeira letra é Aleph e a segunda Beyt; todas estas perguntas provocam interesse justificado. Cada letra hebraica carrega um significado específico, por exemplo Aleph nom é apenas a primeira letra, mas também significa "boi" como boi sacrificial, Beyt está para casa, mas é também a letra de início da Torá (Bereshit, o início). Além disso, é a primeira letra de todas as bênçãos judaicas, como Baruch (abençoado), Baruch Hashem (abençoado por D'us). A letra Ayin significa olho, fonte ou centro, e cujo significado espiritual sugere o olho espiritual.

A língua hebraica carece do verbo auxiliar "ser" e as perguntas som colocadas com umha palavra pergunta ou apenas modificando a entonaçom do falante. Foi modificada por escribas, talmudistas e massoretas. Os especialistas em línguas antigas, como Ezra, Neemias ou os escribas da Grande Assembleia, o chamado Soferim, som conhecidos polos seus notáveis esforços. Os massoretas corrigiram com precisom os erros involuntários, contaram as letras e as palavras de cada livro e seus cuidados pedantes impediram qualquer outra cópia de erros. Os Soferim e Talmudistas tomaram muito cuidado com os delicados pergaminhos deteriorados por anos de uso, arrumando-os em genizah (quartos de arrecadaçom) das sinagogas ou mesmo enterraram-nos no chão como seres humanos. O hebraico dos Manuscritos do Mar Morto é a língua da Torá e representa um fenômeno marcante na cultura e história do Estado judeu. Apenas a tradicional oraçom em hebraico une mais de 14 milhões de Judeus em todo o mundo. Antigos nomes hebraicos como Jacobe, José, Sara e Miriam e palavras hebraicas antigas, como Amém, Aleluia, Shabat ou Messias foram adotadas por outras línguas sem ser traduzidas, por exemplo em corais de igrejas cristãs ou em orações muçulmanas.

Mendele Moycher Sforim (1836 -1917) foi o primeiro escritor moderno a combinar com seu estilo diferentes elementos do hebraico e iídiche. O seu trabalho contribuiu para a modificaçom do hebraico transformando-o numha língua literária moderna, contribuindo, destarte, para elevar o status da cultura judia.

Umha língua é um sistema de sinais para codificar e decodificar informações. Há umha diferença entre a língua e a fala. Enquanto a fala é o uso da língua, a língua em açom, a própria língua, como um sistema de regras, é a matéria-prima para a fala. As linguagens de programaçom som linguagens formais, que som usadas ​​polos computadores modernos para transmitir informações. A linguagem e pensamento estám ligados. A língua, sendo um meio de comunicaçom, é também um meio de troca de ideias. Quando duas pessoas se comunicam, esta é feita através da língua, que também representa as suas ideias, pois a lingua é um meio de representar os pensamentos. Outra característica da linguagem é a sua funçom estética como poesia. Encontra-se geralmente na fiçom e no folclore oral. O efeito estético é conseguido com a cuidado escolha das palavras, expressões e construções acaídas, enfatizando a dimensom estética. Infelizmente, a linguagem pode ser usada com a sua funçom manipuladora, ou seja, como propaganda, doutrinaçom e efeito negativo sobre os movimentos e valores religiosos. A manipulaçom da linguagem é usada dumha forma especulativa para criar a discriminaçom racial, a xenofobia e, especialmente, o antissemitismo, o que foi bem comprovado na política nazista.

Existem vários tipos de línguas (literária, nacional, regional, materna, estrangeira, infantil, jargom,...). Em consequência de acontecimentos históricos, alguns grupos humanos podem desaparecer ou ser assimilados, o que muitas vezes acarreta a perda da sua língua. Portanto, quando falarmos sobre a morte dumha língua, o que geralmente compreendemos é o seu desaparecimento, quer através dum extermínio ou absorçom violenta dum grupo humano, quer através dumha assimilaçom nom-violenta por outro grupo humano.

O professor August Schleicher é o autor dumha teoria da existência dumha protolíngua comum, que se teria transformado em diferentes línguas nacionais. Ele também lançou a ideia da árvore dumha família linguística.

Pensa-se geralmente que os livros som conhecimento e o conhecimento é poder. A humanidade teria sido espiritualmente mais elevada, se apenas os livros perdidos tivessem sido preservados. Os mitos sobre o conhecimento perdido e os livros nom lidos ilustra o nosso anseio pola espiritualidade. É mágoa imaginar que enquanto algumas pessoas estavam a recolher livros em bibliotecas, outros foram queimá-los. Perdeu-se a Grande Biblioteca de Alexandria, esse símbolo respeitado dos conhecimentos adquiridos na Antiguidade. Perderam-se os livros queimados polo imperador chinês Qin Shi Huang. Perderam-se os livros Sybilline, queimados no templo de Júpiter segundo a lenda. Perderam-se os livros pagãos, destruídos polo fanatismo cristão. Foram queimados os 5000 manuscritos árabes logo depois da conquista de Granada polo Cardeal Cisneros. Também foram queimados os livros de escritores judeus conhecidos por causa das queimas de livros nazistas.

Existe, com certeza, o mito da Torre de Babel recolhido na Torá para explicar a origem das diferentes línguas. De acordo com a história, umha humanidade unida das gerações após o Grande Dilúvio falava umha única língua. Em Babel eles concordaram em construir umha torre "de altura suficiente para alcançar o céu"; vendo isso, o Senhor confundiu as suas falas de modo que já nom podiam entender uns aos outros e espalhou-os por todo o mundo.


A importância fundamental das línguas foi confirmada em 2001, quando em 26 de setembro foi proclamado polo Conselho da Europa como o Dia Europeu das Línguas e desde entom tem sido organizado conjuntamente com a Uniom Europeia. Os estudos de línguas estrangeiras melhora nom só a comunicaçom entre as pessoas, mas também supera as barreiras intelectuais e as diferenças interculturais.

O termo hebraico "leshon hara" (má língua) é um termo utilizado para identificar o discurso depreciativo sobre outra pessoa e é considerado como um dos piores pecados. De acordo com o judaísmo é um dos pecados mortais, e se nom se arrepender, nom será admitido no Reino de D'us. "Leshon hara" difere de difamaçom em que se focaliza no uso dum discurso verdadeiro para um fim ilícito, em vez de falsidade e danos resultantes. Um discurso é considerado "leshon hara" se diz algo negativo sobre umha pessoa, nom é previamente conhecido do público, nom é seriamente destinado para corrigir ou melhorar umha situaçom negativa e é verdade. Falar dessa maneira é contra o mandamento da Torá de amar o próximo. Aqueles que expressarem ou escreverem cousas más muitas vezes nom som pessoas más, mas nom percebem que nom é a única falta que entra a boca, mas o que sai dela, como se viesse direta do coraçom. Como o filósofo alemão Lessing disse: "Saber que as árvores cortadas por um machado terá novos brotos que se tornarám novas árvores. A carne e os ossos feridos por umha espada curam novamente, mas umha ferida causada pola língua nom pode ser curada. A ponta dumha flecha mergulhada em más palavras atinge o coraçom e nom podem ser recuperados e deixa um buraco sangramento, como as más palavras nom podem ser esquecidas. A misericórdia nom nos ensina a esquecer o mal recebido, mas para evitar a raiva e sede de vingança".

Num arco-íris colorido feito de sons de oraçom, emergendo do sagrado "shofar", diversas línguas voam para o céu. No colorido e brilhante arco-íris, contodo, nom há lugar para a escuridom das palavras do mal. Este som do "shofar" tornou-se o meio de comunicaçom entre as diferentes nações, usando um ou outro alfabeto ou língua, uma forma de conectar as pessoas em nome da compreensom e da tolerância mútua.

"Tudo o que for feito com intervalos de raiva e palavras más, como os joios que dificultam a existência das plantas úteis, assim som as línguas; de forma que as pessoas devem dirigir os seus esforços para a erradicaçom destas ervas daninhas". (Passagem do Talmude)


terça-feira, 30 de agosto de 2016

A VER NAVIOS...

Ficar a ver navios é umha expressom ou dizer popular da língua portuguesa que tem a sua origem na presença judaica. 

Em março 1492 foi determinado que os Judeus que nom se convertessem teriam de deixar os Reinos de Espanha até ao fim de julho. Centenas de milhares entom fixaram-se em Portugal. O casamento do rei D. Manuel com umha filha dos Reis Católicos em 1496, levou-o a aceitar a exigência espanhola de expulsar todos os Judeus residentes em Portugal que nom se convertessem ao catolicismo, num prazo que ia de janeiro a outubro de 1497. 

Porém, o rei Dom Manuel precisava dos Judeus portugueses, pois eram toda a classe média e toda a mão-de-obra, além da influência intelectual. Se Portugal os expulsasse logo como fez Espanha, o país passaria por umha crise terrível. Na realidade D. Manuel nom tinha qualquer interesse em expulsar a comunidade hebraica, que entom constituía um destacado elemento de progresso nos setores da economia e das profissões liberais. A sua esperança era que, retendo os Judeus no país (nessa altura por volta de 15% da populaçom), os seus descendentes pudessem eventualmente, como cristãos, atingir um maior grau de aculturaçom. 

Para obter os seus fins lançou mão de medidas extremamente drásticas, como ter ordenado que os filhos menores de 14 anos fossem tirados aos pais a fim de serem convertidos. Entom fingiu marcar umha data de expulsom na Páscoa e fechou todos os portos para que ninguém saisse. Quando chegou a data do embarque dos que se recusavam a aceitar o catolicismo, alegou que nom havia navios suficientes para os levar e determinou um batismo em massa dos que se tinham concentrado em Lisboa à espera de transporte para outros países. No dia marcado, estavam todos os judeus no porto esperando os navios que nom vieram. Todos foram convertidos e batizados à força, em pé. Daí a expressom: “ficaram a ver navios”. O rei entom declarou: nom há mais Judeus em Portugal, som todos cristãos (cristãos-novos). Muitos foram arrastados até a pia batismal polas barbas ou polos cabelos, outros preferiram cometer suicídio antes de renegar da sua cultura religiosa.

Posteriormente a expressom ligou-se aos Portugueses que ficavam a ver navios, na esperança de que um dia voltasse à pátria o rei Dom Sebastião, protagonista da batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos, em que tropas portuguesas foram derrotadas polos marroquinos em violento combate em 1578. Após o desaparecimento de Dom Sebastião na luta, difundiu-se a crença que um dia regressaria a Portugal, para levar o país de volta a umha época de conquistas. Multidões que frequentavam algum dos altos de Lisboa, confiantes no regresso do rei, ficavam a ver os navios que chegavam. Esta história originou o termo sebastianismo, tipo de messianismo à portuguesa que serve para indicar situaçom ou pessoa em cujo retorno se deposita a expetativa dumha naçom.

Hoje esta expressom é utilizada como expressom dumha expetativa frustrada, de espera por algo que nom vem ou, simplesmente, como sentimento de desilusom e deceçom.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O SIONISMO E O NACIONALISMO IRLANDÊS

Umha longa e estranhamente historia interligada: o nacionalismo irlandês e o sionismo

Aidan Beatty

Na Páscoa de 1903, na cidade de Quichinau, no que é hoje a República da Moldávia, durante quatro dias teve lugar um motim anti-judeu. No grande esquema da história judaica, o Pogrom de Kishinev nom foi o mais violento dos acontecimentos; apenas 47 de Judeus foram mortos. Na história política moderna judaica, no entanto, o Pogrom de Quichinau (Kishinev na altura) foi de grande importância, já que sua violência acarretou um enorme aumento no apoio ao sionismo, movimento que, desde a sua fundaçom na década de 1880, pôs em causa a tese de que os Judeus podiam ter futuro na Diáspora. O Pogrom também se tornaria num grande evento internacional, confirmando, para muitos ocidentais, umha visom estereotipada da barbárie russa, bem como a visom de que os Judeus russos estavam nuhma situaçom perigosa enfravam um futuro incerto.

O Pogrom de Kishinev de 1903 converteu muitos Judeus ao sionismo e também convenceu o radical irlandês e jornalista Michael Davitt da justiça da causa do nacionalismo judaico.


Foi neste contexto de atençom internacional generalizada que o jornal "New York American" de William Randolph Hearst anunciou, em maio de 1903, que "Michael Davitt vai para a Rússia como comissário especial do "American's" para investigar os massacres dos Judeus." A alegaçom do jornal foi que "nengum homem está melhor equipado do que este irlandês amante da liberdade para dar ao mundo a verdadeira história da carnificina que já foi feita e da ruína que foi forjada polos fanáticos." [1] No seu livro subsequente sobre o Pogrom de Quichinau, "No Pale: a verdadeira história das perseguições antissemitas na Rússia" (1903), Davitt declarou "eu regressei da viagem através do Pale judeu como crente convicto na soluçom do sionismo." [2]

Nas suas pesquisas jornalísticas, Davitt também afirmou ter visto algo muito familiar entre a populaçom judaica das regiões do sul do Império Russo. Ele comparou a polícia czarista com a RIC e falou em como os Judeus russos estão "encurralados e cercados de leis penais," [3] um termo de uso inequívoco para um nacionalista irlandês! Davitt projetou claramente as suas próprias crenças nacionalistas irlandesas sobre a situaçom da Judiaria russa, e viu as duas nações, Irlandeses e Judeus, perante umha opressom compartilhada e umha compartilhada falta de soberania política.

De facto, o sionismo e o nacionalismo irlandês tiveram umha longa e estranhamente interligada história. Quando o governo britânico anunciou o seu apoio ao sionismo no início de novembro de 1917, foi sob a forma dumha carta do ministro dos Negócios Estrangeiros, Sir Arthur Balfour, a Lord Rothschild, um dos principais membros da comunidade judaica britânica. Balfour fora Secretário-Chefe para a Irlanda e era um acérrimo opositor de qualquer autonomia política irlandesa. Pouco tempo após a emissom da Declaraçom de Balfour, o governo britânico invadiu a Palestina e, em 25 dezembro, apossou-se de Jerusalém, garantindo o que David Lloyd George chamou de "presente de Natal para o povo britânico."

Porém, este brilho em breve se desgastou, enquanto escalou a oposiçom palestiniana ao domínio britânico e ao sionismo, começando com os tumultos Nebi Musa da Páscoa de 1920. Encontrando-se no controlo dum país cada vez mais volátil, os Britânicos chamaram Hugh Tudor. Veterano da Segunda Guerra Boer, Tudor tinha terminado recentemente a sua postagem na Irlanda como chefe dos Black and Tans e muitos ex-Tans juntaram-se a ele na Palestina, ao se estabelecer a força policial da Grã-Bretanha lá. Estes homens, provavelmente, sentiram umha sensaçom estranha de déjà vu durante a Revolta Árabe de 1936-39, quando umha campanha de guerrilha popular fez com que os britânicos perdessem o controlo de grande parte do país. De facto, um dos melhores estudos sobre a Palestina britânica chama apropriadamente este o período de "Irlanda na Palestina, "[4], e essa sensaçom de déjà vu em breve iria intensificar-se.

Em 1939, quando a guerra pairava na Europa, o governo britânico, desesperado para pacificar esta exploraçom imperial estrategicamente importante, publicou um Livro Branco que limitava muito a imigraçom para a Palestina. Tal suspensom da imigraçom sionista foi umha exigência central palestiniana, mas da perspectiva judaica isso era abominável; enquanto o controlo de Hitler lastrava pola Europa, o acesso a um dos últimos refúgios judeus estava a ser cortado.

Muitos membros da polícia britânica no Mandato da Palestina eram veteranos da contra insurgência na Irlanda.


Enquanto a liderança sionista dominante achou que nom tinha escolha mas para o lado dos britânicos durante a guerra contra o nazismo, elementos nacionalistas mais radicais sentiram que a Grã-Bretanha devia ser atacada independentemente. Muitas destas últimas forças uniram-se em torno de Avraham Stern, e ficou conhecido como LEHI (Lochamei Herut Yisrael, Combatentes pola Liberdade de Israel).

Quando os guerrilheiros sionistas confrontaram as forças britânicas na Palestina no final da década de 1930 e de 40, foi na Irlanda e no IRA que se inspiraram


Os paralelos com a Irlanda durante e antes da guerra mundial eram claros, e Stern devidamente passou a traduzir "A Vitória do Sinn Féin" de P.S.O'Hegarty para o hebraico. [5] A influência involuntária de O'Hegarty nos sionistas é talvez mais insinuada polo fato de Yitzhak Shamir, futuro primeiro-ministro israelense, mas ativista clandestino do LEHI na década de 1940, escolheu o nome de guerra 'Michael', em homenagem a Michael Collins. [6] Do mesmo modo, Avsahlom Haviv, membro do ETZEL (Irgun Tzvai Leumi, a Organizaçom Militar Nacional), um grupo sionista um pouco mais moderado do que o LEHI, citou George Bernard Shaw durante o seu julgamento por ações anti-britânicas violentas, e acusou os britânicos de "afogamento do Levante irlandês em rios de sangue ... a Irlanda é agora livre apesar de vocês'. [7] Que um sionista radical de direita estivesse tam atraído polo nacionalismo irlandês deveu ter sido mais umha experiência ímpar para aqueles veteranos da Guerra da Independência Irlandesa agora servindo na Polícia Palestina.

Nom foi apenas os sionistas mais radicais, porém, que viram um paralelo com a Irlanda. Os sionistas moderados também se interessaram com isso. Isto foi em parte por causa da presidência irlandesa da Liga das Nações, sob cujos auspícios o controlo britânico sobre a Palestina foi supostamente concedido. Mesmo que a Liga das Nações permaneceu como umha organizaçom de papel, esta criou umha situaçom divertida, ao fazer com que a Grã-Bretanha fosse, na teoria, responsável perante um órgão chefiado por umha liderança nomeada por de Valera. Também significou que Ze'ev Jabotinsky, um sionista de direita, embora aquele que nunca foi tam radical como os seus seguidores, estava em Dublim no início de 1938 em busca de apoio diplomático para o seu movimento.

Ele foi apresentado a de Valera por Robert Briscoe, ele próprio de origem judaica, bem como um defensor do sionismo revisionista. Jabotinsky visitou o Dáil, reuniu-se com os principais membros da pequena comunidade judaica de Dublim e no final de sua visita pronunciou num discurso que "eu sempre fui um admirador" de de Valera ', e eu acho que ele tem umha personalidade mais marcante." [8] De facto, Robert Briscoe, na sua autobiografia de 1958, fornece um relato fantasioso da reuniom de Jabotinsky com de Valera. O Taoiseach aparentemente era cético quanto à justeza do projeto sionista, umha situaçom para a qual o visitante teve uma resposta:

"Senhor de Valera" -disse Jabotinsky- "Eu tenho lido a história da Irlanda. Como resultado da grande fome de 1847 e 1848, eu acho que a populaçom caiu de 8 para 4 milhões. Agora supondo que a populaçom irlandesa tivesse sido reduzida a cinquenta mil e o país tivesse sido reassentado por Galeses, Escoceses e Ingleses, o senhor, entom, teria desistido do pedido dumha Irlanda para os irlandeses? "

O Taoiseach irlandês Eamon de Valera reuniu-se com o ativista sionista Zeev Jabotinsky através do ativista judaico do Fianna Fail Robert Briscoe em 1938


Quando de Valera retorquiu que os Irlandeses nunca iriam abandonar a Irlanda, Jabotinsky disse que nem os Judeus poderiam desistir da sua reivindicaçom para a Palestina. Briscoe registra que "eu nom tenho certeza, mas acho que o Chefe estava convencido por estes argumentos. Certo é que eu era. " [9]

Quando a Comissom Real de 1937 sobre a Palestina recomendou a partilha da Palestina, os sionistas tinham outro motivo para se interessar com o curso da história irlandesa. Judah Leb Magnes, chefe da Universidade Hebraica de Jerusalém e vulto  da tese da binacionalidade, umha vertente utópica do sionismo que procurava criar um Estado Judeu-Árabe harmonioso, foi tam longe para buscar os pensamentos de Eamon de Valera sobre a partiçom. A carta original Magnes nom parece ter sobrevivido (nom está incluída tanto nos papéis de de Valera em UCD nem nos papéis de Magnes no Arquivo Central para a História do Povo Judeu na Universidade Hebraica de Jerusalém), mas na resposta que se conserva de de Valera, ele dá umha ótica íntima dos seus pontos de vista sobre partiçom, traça umha comparaçom explícita entre a Irlanda e na Palestina e sugere que Magnes via as cousas da mesma forma:

"Eu nom conheço o problema da Palestina como o senhor, mas a partir do conhecimento do que significa a partiçom na Irlanda agora, e do que estou convencido de que vai significar no futuro, eu cheguei à mesma conclusom que o senhor tem, ou seja: somente por negociaçom e livre acordo livre entre Judeus e Árabes... pode haver uma soluçom satisfatória. Considero que a partiçom é talvez a pior das muitas soluções que foram propostas". [10]

Na verdade, quando de Valera foi visitado nesta altura polo líder britânico sionista, Prof. Selig Brodetsky, Robert Briscoe alertou-o para "nom defender a divisom da Palestina, explicando-lhe como o Chefe reagiria diante dessa palavra." [11]

Usando umha analogia com a Irlanda, de Valera desaconselhou a partilha da Palestina entre Árabes e Judeus


Seja como for, a Palestina foi dividida pouco mais de umha década depois, e no ano seguinte o entom ministro dos Negócios Estrangeiros, Sean McBride, anunciou ao Dáil: "O nosso sofrimento comum de perseguiçom e certas semelhanças nas histórias das duas raças cria um vínculo especial de simpatia e compreensom entre os povos irlandês e judeu." [12]

Mas, com certeza, assim como existem comparações a serem feitas entre sionismo e nacionalismo irlandês, existem também muitas diferenças. O puritanismo sexual do nacionalismo irlandês, diretamente influenciado polo catolicismo conservador, foi o grande ausente no sionismo. Além disso, o sionismo nos seus anos de formaçom foi muito mais próximo da ideologia socialista. Assim sendo, o início da história do movimento sionista é salpicado com nomes como Poalei Tzion [Trabalhadores de Siom] e Achdut HaAvoda [Unidade do Trabalho], bem como o movimento Kibbutz. Isso está em contraste gritante com o nacionalismo irlandês contemporâneo, que muitas vezes gostava de afirmar estar acima das ideologias (embora tal afirmaçom seja, com efeito, inerentemente ideológica!).

O sionismo estava desprovido do puritanismo sexual comum no nacionalismo irlandês do início do século XX e foi mais influenciado polas ideias socialistas. Teve também muito mais sucesso em reviver o hebraico do que os nacionalistas irlandeses em reviver a língua irlandesa.


É irônico, entom, que desde o final da década de 1960, enquanto a corrente principal do sionismo se foi movendo cada vez mais para a direita, o republicanismo irlandês foi indo na direçom oposta, assumindo tons mais explicitamente socialistas e anti-imperialistas, e descobrindo um suporte para o nacionalismo palestino. Em 2002, por exemplo, durante o auge da Segunda Intifada, An Phoblacht, declarou que: "O presidente do Sinn Féin Gerry Adams expressou o apoio aos palestinianos sitiados e o seu líder ... O tempo de Ariel Sharon no poder tem sido marcado por ações repressivas semelhantes aos piores anos da opressom britânica na Irlanda". [13] Isto dista muito longe, de facto, do apoio de Michael Davitt ao sionismo cem anos atrás ou da declaraçom dos tempos em que "Israel representa o triunfo do Sinn Féin". [14]

Talvez a diferença mais óbvia, porém, é o sucesso que teve o renascimento da língua hebraica, em contraste com a falha gritante do renascimento da língua irlandesa. Por volta de 1940, nom apenas havia umha relativamente rica cultura da língua hebraica impressa na Palestina, mas o hebraico também se tornara numha próspera língua nacional, com umha gíria bem desenvolvida, muitas vezes grafada, surpreendentemente, em iídiche ou árabe. Num certo momento, os líderes sionistas aceitaram que umha língua vernácula nom podia conservar-se gramaticalmente pura ou livre de palavras de empréstimo ou de influência estrangeira (a partir dumha perspectiva sionista nom importa a problemática dainfluência estrangeira) e esta foi umha das principais razões para o sucesso do renascimento da língua hebraica.

Desde a década de 1960 os republicanos irlandeses identificam-se mais com a causa palestiniana, acusando Israel de "ações repressivas parecidas com os piores anos de opressom britânica na Irlanda"


O fracasso dos nacionalistas irlandeses a aceitar algo como isto, antes ou depois de 1922, foi um dos elementos chave do seu fracasso para reviver a língua irlandesa. Eles continuaram a ver o irlandês como o repositório dumha cultura gaélica pura, livre de influências inglesas, e assim continuou a obcecar sobre noções de pureza linguística. Mas a pureza linguística, como pureza racial ou nacional, é um mito. Os nacionalistas irlandeses nom conseguiram reconhecer que todas as línguas vernáculas estám em movimento constante, pegando constantemente de empréstimos doutras línguas, e raramente se conservam gramaticalmente puras. Ao invés de proteger e revitalizar a língua, o Estado irlandês, portanto, em última análise, sufocou-a.

Texto tirado de The Irish History, traduzido para o galego-português por CAEIRO.

O autor, PhD na Universidade de Chicago, explora a partir do seu doutoramento as ligações entre o nacionaliso irlandês e judaico.

NOTAS:
[1] New York American, 13 maio 1903, em TCD Michael Davitt Papers MS9670 Press Cuttings, September 1902-May 1903.

[2] Michael Davitt. Within the Pale: The True Story of Anti-Semitic Persecution in Russia (New York: Barnes and Noble, 1903) 86.

[3] Ibid, 233-234, 82.

[4] Tom Segev.  One Palestine, Complete: Arabs and Jews Under the British Mandate (New York: Henry Holt, 2001) 415

[5] Colin Shindler. The Land Beyond Promise: Israel, Likud and the Zionist Dream (London: I.B. Tauris, 2002) 31

[6] Colin Shindler. Letter: ‘Sinn Fein [sic] and the Zionists’ The Guardian, 23 May 2003.
http://www.guardian.co.uk/theguardian/2003/may/23/guardianletters

[7] Shindler, ‘Land Beyond Promise’ (2002) 31.

[8] Irish Independent, 8 & 12 janeiro 1938.

[9] Robert Briscoe; Alden Hatch. For the Life of Me (Boston MA: Little, Brown & Co., 1958) 264-265.

[10] CAHJP Judah Leb Magnes Papers P3/2424, Letter to Judah Leb Magnes from Eamon De Valera, 10 September 1937.

[11] Briscoe, ‘For the Life of Me’ (1958) 266.

[12] Shulamit Eliash, The Harp and the Shield of David: Ireland, Zionism, and the State of Israel (London: Routledge, 2007) 102. Quoted in Peter Hession. ‘Advanced Nationalism and Zionism: Contradictions and Explanations’, paper presented at Irish and Jewish Identities: Links and Parallels, Conference, University of Chicago, 22 February 2011.

[13] ‘Defend Palestine’, An Phoblacht, 4 abril 2002. http://www.anphoblacht.com/contents/8600

[14] Sinn Féin, 16 Mar. 1912, p. 2.  Quoted in Hession ‘Advanced Nationalism’ (2011).