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terça-feira, 21 de março de 2017

ISRAEL E A PULSOM ETNOCENTRISTA

Shlomo Ben Ami

Netanyahu está a fazer recuar a qualidade democrática dum país que tem umha ligaçom vital com Ocidente. Os seus ataques à liberdade de imprensa ou o seu assédio à cultura nom som muito diferentes ao doutros países que recebem sanções.

Após meio século ocupando o território palestiniano, Israel está a sucumbir às suas mais profundas pulsões etnocentristas e está a rejeitar progressivamente as fronteiras reconhecidas. E agora acha-se no caminho de aderir o clube das democracias iliberais graças ao primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu.

No decurso dos seus onze anos como primeiro-ministro, Netanyahu reformou a psyché coletiva do país. Exaltou o isolado, traumatizado "judeu" (que se opõe ao "gentio", por nom dizer aos "árabes") sobre o laico, global e globalizado "israelita" enxergado polos pais fundadores do país.

Netanyahu mesmo é um cínico hedonista laico que encara umha investigaçom sobre a sua pressumível aceitaçom de generosas prendas ilegais por parte dum multimilionário de Hollywood. Mais gosta de jogar a "carta judia" no seu proveito. Em 1996 a sua promesa de ser "bom para os Judeus" levou-o ao poder. Em 2015, a sua advertência de que os Judeus deviam correr a votá-lo ou o seu destino ficaria em mãos de "rebanhos" de Árabes presumivelmente acarretados até os colégios eleitorais.

E ao igual que apelar para o elemento judeu do povo ganha eleições, bloqueia as negociaçõs para umha soluçom ao conflito israelo-palestiniano. A teimosia de Netanyahu de que os palestinianos reconheçam a Israel como um Estado judeu em 2014 foi a gota que rebordou o copo num processo de paz agonizante.

Netanyahu prefere muito mais o palavreado de Trump do que o liberalismo profissional de Obama

Em muitos sentidos, o perfil político de Netanyahu liga-se ao dos republicanos estado-unidenses mais duros. A mulher dele umha vez vangloriou-se de que, como ele nascera nos EUA, poderia ter sido presidente desse país. Provavelmente ele teria preferido essa vida, sobretodo polo poder absoluto que lhe proporcionaria. Também ter-lhe-ia evitado oito frustrantes anos de raiva pessoal com o presidente Barack Obama.

Seja como for, agora Netanyahu sente-se aliviado ao ter a Donald Trump na Casa Branca, um republicano que pensa como ele e que é, praticamente em tudo, o posto a Obama. O anterior presidente dos EUA mostrou empatia polas minorias e os imigrantes, defendeu os direitos civis e humanos, conseguiu progressos diplomáticos com o Irão, procurou a paz na Palestina e, o mais problemático de tudo, tentou que o líder israelita agisse responsavelmente. Um dos últimos atos de Obama como presidente foi fazer com que os EUA se abstivessem numha votaçom dumha resoluçom do Conselho de Segurança das Nações Unidas contra a construçom de assentamentos israelitas nos territórios ocupados em vez de a vetar.

Netanyahu prefere muito mais o palavreado de Trump ao liberalismo profissional de Obama. Com efeito, Trump e Netanyahu têm muitas cousas em comum, tanto entre eles como com outros líderes iliberais como o presidente turco Recep Tayyip Erdogan. Os três acham a aberta hostilidade contra a mídia como um meio para se assegurar e consolidar o seu poder. Noutras palavras, Trump lançou umha "guerra contra os meios". Pola sua parte, Erdogan reprimiu a liberdade de imprensa detendo jornalistas sob a acusaçom de cumplicidade com o golpe militar fracassado do passado julho. 

Netanyahu age como ministro de comunicações de Israel desde finais de 2014. Nom é difícil seguir o fio. Supõe-se que a mídia fiscaliza aos que estám no poder. De modo que estes tentam calá-los. Umha maneira de o fazer é amplificar as vozes que espalham alternativas mais favoráveis, como Israel Hayom, um jornal gratuito em hebraico dedicado a cantar loubanças a Netanyahu.

O objetivo deste folheto ao estilo norte-coreano nom é obter lucros. Em 2014 Sheldon Adelson, umha magnata estado-unidense dos casinos que durante muito tempo apoiou Netanyahu e também ajudou a financiar a campanha de Trump, investiu 50 milhões de dólares em Israel Hayom, que perdeu mais de 250 milhões de dólares desde o seu lançamento em 2007. Netanyahu adiantou umhas eleições em 2014 para proteger o seu alti-falante, que agora ostenta a maior tiragem da imprensa israelita, dumha iniciativa parlamentar que ameaçava com dificultar-lhe as cousas. Netanyahu sempre negou que tivesse algo a ver com Israel Hayom, ainda que ele é praticamente o seu diretor. Em qualidade de que outro cargo poderia ter discutido com o proprietário do seu principal concorrente, Yedioth Ahronot, a possibilidade de reduzir a distribuiçom de Israel Hayom em troca dum tratamento mais favorável?

Mas, por suposto, Netanyahu nom está a fazer todo o trabalho sujo ao empurrar Israel cara o iliberalismo e a censura e o assédio nom estám reservados exclusivamente à mídia. Naftali Bennet, líder do partido Casa Judaica, um aliado chave na coaligaçom de extrema-direita de Netanyahu e a voz cantante da anexaçom das terras palestinianas, agora ordena às escolas que "estudar o judaismo é mais importante do que as matemáticas ou ciências". Um romance que narra um namoro entre um garoto palestiniano e umha gaja judia foi banido do programa escolar. À ministra de Justiça, Ayelet Shaked, também militante de Casa Judaica, nom a supera ninguém no seu ardor ultrassionista. Agora encabeça um ataque contra a última fronteira da democracia israelita, o Supremo Tribunal, criticando-o por decisões como a declaraçom de inconstitucionalidade do passado abril respeitante à política israelita sobre o gás natural. Mais recentemente, Shaked aprovou a Lei de Lealdade na Cultura, que estabelece na "lealdade" do receptor ao Estado judeu o baremo do financiamento cultural governamental. Por enquanto, grupos de extrema direita que apoiam a anexaçom seguem a receber um chorudo apoio tanto do Governo quando de doadores judeus estrangeiros. A noçom de lealdade nom apenas é usada como arma de arremeso contra os artistas. Umha nova lei, claramente encaminhada aos reprsentantes árabe-israelitas no Parlamento (Knesset), permitiria demitir os parlamentares por deslealdade ao Estado. As ONGs centradas nos direitos humanos e na procura da paz som investigadas como se fossem agentes estrangeiros.

Para Israel a democracia foi sempre um bem estratégico porque um Israel democrático tem um encaixe natural na aliança de Ocidente. Enquanto este nom perde o tempo em impor sanções à Rússia de Vladimir Putin pola anexaçom da Crimeia, nom castigou a ocupaçom israelita de terras palestinianas. Seja como for, quanto mais abraçar Israel práticas inspiradas em Putin, mais fraco se torna na sua ligaçom com a sua retaguarda estratégica em Ocidente. Haveria que ver se o imprevisível Trump irá cumprir as expectativas de Israel. O que é certo é que enfraquecendo as suas credenciais democráticas Israel põe em causa a sua ligaçom vital com Ocidente, incluindo os EUA pós-Trump.

Shlomo Ben Ami foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel e é vice-presidente do Centro Internacional Toledo para a Paz

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

TRUMP, DIOCLECIANO E O PORQUEIRO

Bernard-Henri Lévy

É possível que Obama tivesse abandonado Israel. Mas o que é certo é que Trump vai treiçoar Israel.

Como é possível? Nom está a dar múltiplos sinais de boa vontade? O nomeamento dum embaixador amigo, o anúncio do deslocamento da embaixada para Jerusalém, o nomeamento do genro dele, Jared Kushner, como assessor, nom som acenos enérgicos dos que Israel se deveria alegrar?

Sim e nom.

Existe umha lei formulada por Gershom Scholem quando, durante o processo de Eichmann, censurou Hannah Ardent alegando que carecia de Ahavat Israel "o amor ao povo judeu". Ardent retorquiu que, quando se tratar de Israel, as provas de amor som menos importantes do que o amor. Para sermos exatos, disse que os gestos de amizade, quando nom ligados a um conhecimento e um apego sincero, tornam-se, num dado momento, em tudo o contrário.

Na atualidade, o perigo é, em Israel, que se reforce a faixa mais radical da sociedade, um má sinal dirigido aos que, no outro bando, se alegram de que os Estados Unidos comecem a tomar decisões unilaterais que, um dia, possam ser desfavoráveis aos Judeus; e nos Estados Unidos, a proximidade dum presidente instável (que muda segundo o negócio do dia) e impopular para meio pais (com a rotura do consenso entre os dous partidos que sempre reforçou Israel).

Nom tenho nem ideia, como é natural, do amor que Donald Trump sente, ou nom, polo povo judeu. Mas dá-nos algumha pista o livro de John O'Donnel sobre ele: "O único tipo de gente que conte o meu dinheiro som pequenos homens cobertos com a kipá". Esteve nos twitts com os que empezinhou em arrancar ao jornalista John Stewart, a máscara atrás da que se ocultava Jonathan Leibowitz, o seu verdadeiro nome. Estiveram as palavras que encaminhou, em plena campanha, a umha reuniom de doadores judeus: "Sei por que nom me vam apoiar! Porque nom procedo do seu dinheiro!".

Ou, para sermos mais precisos, essa variedade de desprezo que funciona, segundo Freud, como um mecanismo antecipado de defesa contra o pressumível desprezo do outro. Pouco importa que esse desprezo seja real ou imaginário.

Que John Stewart ou os doadores judeus republicanos desdenhassem verdadeiramente ao construtor kitsch da Trump Tower, tilintante com os seus acrescimos capilares, mobiliários e imobiliários nom é o importante. O fundamental é que Donald Trump acredita nisso. O fundamental é que, para ele, os Judeus som a caricatura dessa elite nova iorquina que sempre o considerou um marionetista vulgar e sem alma. E aí surge o típico caso desse desprezo de autodefesa, quando os Judeus som os representantes dumha elite que o olhou com desdém e da que, agora que ele tem o poder, se pode vingar.

Existe um relato talmúdico que exprime bem esta lógica. O rabi Yehuda tem umha escola por diante da que passa, cada dia, um jovem porqueiro romano do que os alunos se troçam das alturas da sua sabedoria. Um dia, o rabi recebe umha ordem de acudir ao oeste do reino de Edom, perante o imperador Diocleciano; e ao chegar, com grande espanto, reconhece o porqueiro convertido em rei. À primeira vista, este recebe-o com todas as considerações. Quando chega, ordena que lhe preparem um banho para que se purifique das miasmas da viagem. Com umha salvidade: teve a maldade de convocá-lo numha sexta-feira, justo antes do Sabbat. O banho está quente de mais e, se nom tivesse intervido um anjo no último minuto, vertendo grandes quantidades de água fria, teria morto escaldado. E quando o rabi, salvo polo anjo, aparece perante o antigo porqueiro, este diz-lhe: "Como o teu Deus faz milagres, permites-te desprezar o imperador!".

Esta história é umha boa metáfora dos Estados Unidos de hoje, onde, como em Edom, o nilismo triunfante tornou um porqueiro em imperador.

É um bom exemplo também da prudência do judeu, que retorque: "Desdenhávamos o Diocleciano porqueiro, mas debruçamo-nos perante o imperador Diocleciano, sempre que, como Saul, que antes de rei cuidara burras, transcendesse pola sua funçom e a sua metamorfose". E, especialmente, é umha boa alegoria dos banhos e as prendas poçonhentas que pode outorgar um porqueiro humilhado que decide vingar-se.

Perante esta situaçom, o mais importante é nom cair na armadilha da boa vontade de duplo gume. Os Judeus nom devem esquecer que, por muito que Trump multiplicar as declarações de amor, sempre será um mal pastor que apenas respeita o poder, o dinheiro, os estuques e os ouros dos seus palácios. E devem estar cientes de que, na atmosfera populista atual, neste momento em que se ataca o pensamento e as mentiras brotam com umha arrogância, neste mundo que está a alastrar e no que, dos plutócratas estado-unidenses aos oligarcas russos, os porqueiros mostram sem vergonha a sua linhagem nas fachadas dos seus palácios imperiais, a pequena naçom judia nom tem espaço.

Aliar-se com isso é treiçoar a sua vocaçom. É entregar-se, nom a Pompeu ou a Asuero, mas a Diocleciano; é arriscar-se a perder a identidade. Para os herdeiros dum povo cuja longevidade através do tempo foi devida à milagre dum pensamento constantemente revivido, sacrificar essa vocaçom de excelência, renunciar ao dever de exceçom que foi o lêvedo -desde Aquiba até Kafka, de Rashi até Proust- dumha resistência quase incompreensível, em resumo, rendir-se ao nilismo de Trump, seria a mais terrível das capitulações e equivaleria a um suicídio.

Bernard-Henri Lévi, é filósofo

Fonte: BHL Traduçom livre de CAEIRO para o galego-português.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A RESOLUÇOM DO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU PROMOVE A GUERRA

Os Estados Unidos nom abandonaram Israel pola sua abstençom de vetar a resoluçom do Conselho de Segurança da ONU condenando os colonatos aprovada em 23 de dezembro de 2016.
Quem abandonou Israel foi o presidente dos EUA, Barack Obama -e nom pola primeira vez. Durante os seus oito anos no cargo, Obama deixou Israel em polo menos três vezes em questões que comprometeram a sua segurança:

Umha das primeiras consequências da sua iniciativa da "Primavera árabe" de 2011 foi a derrubada de Hosni Mubarak como presidente egício e facilitar a tomada direta do poder pola Irmandade Muçulmana no Cairo.

Quatro anos mais tarde, Obama deu as costas a Israel ao conceder ao Irã o estatuto de país favorecido. O Irã foi autorizado a manter a infraestrutura do seu programa nuclear militar, bem como continuar a desenvolver mísseis balísticos, com a ajuda de uma infusom de 250 bilhões de dolares em sanções americanas e europeias.

O horror da carnificina na Síria ofuscou o fato de o presidente Obama ter permitido às forças da Guarda Revolucionária bombardearem o país a partir do Iraque  e combater em prol do brutal regime de Assad. O presidente nom fez qualquer esforço para deter a afluência de grupos xiitas pró-iranianos na Síria, incluindo o Hezbollah libanês, como se fosse perfeitamente natural e as suas políticas nom pouparam em levar os arqui-inimigos de Israel às portas do Estado hebreu.

Em 2015, quando Obama tentou lavar as mãos no Próximo Oriente em geral, ele desengajou-se na guerra síria para que o Estado Islâmico e o seu líder, Abu Bakr Al-Baghdadi, entrassem e conquistassem grandes áreas do Iraque e da Síria praticamente sem oposiçom. Desse ponto de vista, os jiadistas abriram um tentáculo no Sinai egípcio -perto doutra fronteira israelita. Nos últimos tempos, Obama afirmou nom estar ciente do potencial de expansom do ISIS, o que implica que a inteligência dos EUA estava em falta.

Mesmo assim, Obama nunca se cansou de enfatizar que ele fizera mais do que qualquer outro presidente dos EUA anterior para apoiar a segurança de Israel, principalmente na forma dos avançados sistemas de armamento norte-americanos fornecidos para a sua defesa. Por causa dos estreitos laços militares e de inteligência entre os dous países, nengumha voz foi levantada para contradizê-lo.

Agora é hora de apontar a hipocrisia da postura do presidente em exercício: Se ele tivesse investido menos na concessom de benefícios e da entrada livre aos inimigos mais próximos do Estado judeu, Israel talvez tivesse sido menos dependente do hardware americano.

Na última resoluçom do Conselho de Segurança da ONU, Israel foi repreendido com o argumento de que "todas as atividades de assentamento israelitas no território palestiniano ocupado, incluindo Jerusalém Oriental, som ilegais ao abrigo do direito internacional e constituem um grande obstáculo à consecuçom da paz com base na soluçom de Dous Estados".

Antes de qualquer outra pessoa, Barack Obama e o seu Secretário de Estado, John Kerry, estám numha posiçom para atestar a falsidade desta equaçom.

Em 25 de novembro de 2009, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu anunciou que Israel iria impor um congelamento de dez meses na construçom na Cisjordânia e no leste de Jerusalém como umha concessom para facilitar a iniciativa de paz dos EUA. Israel deu mais espaço à sua exigência de negociações diretas, quando o líder palestiniano Mahmoud Abbas opôs-se ao encontro com autoridades israelitas cara a cara. John Kerry viu-se forçado a travar umha diplomacia do vaivém.

Mesmo depois dessas concessões para a paz, a iniciativa de Obama caiu perante a resistência palestina.

O presidente norte-americano sainte parece pronto a usar as suas últimas semanas no governo para ensinar ao primeiro-ministro israelita umha dolorosa liçom que ele nom esquecerá com pressa após a saída da Casa Branca no dia 20 de janeiro.

Mas ele está errado mais umha vez. A resoluçom da ONU em breve será reduzida a um pedaço de papel. Os palestinianos reagirám com alegria diante da comunidade internacional, mas Israel nom removerá um só assentamento nem parará a construçom de novos bairros residenciais em Jerusalém. O ministério do primeiro-ministro deixou claro que Israel nom está vinculado pola resoluçom e rejeita-a.

O único resultado concreto será tornar a paz mais difícil do que nunca.

A ideia de que Donald Trump virá a cavalo para o resgate de Israel assim que ele se mudar para o Salom Oval é uma tolice. Ele foi eleito para reconstruir a América como umha potência global. Isso incluiria necessariamente a restauraçom da influência dos EUA no Próximo Oriente, mas desconhece-se como ele propõe realizar isso.

Se ele decidir oferecer apoio e assistência a Israel, é lógico que irá introduzir mudanças radicais nos passos de Obama, especialmente respeitante ao acordo nuclear com o Irã e o processo de paz com os palestinianos.

Nem todas essas mudanças podem ser alcançadas pacificamente. Podem muito bem implicar o uso da força militar polos Estados Unidos e Israel. Neste sentido, a Resoluçom 2334 do Conselho de Segurança pode vir a ser o verdadeiro obstáculo à paz, tendendo a promover a beligerância no Próximo Oriente, porque os palestinianos e outros grupos radicais e rejeicionistas usarám a resoluçom como justificativa para atacar Israel e mais atos de terrorismo.

Fonte: Análise exclusiva de DEBKA. Traduçom livre para o galego-português de CAEIRO

sábado, 26 de novembro de 2016

COMO ISRAEL ENCARA A VITÓRIA DE TRUMP

A conferência do movimento "alt-right" no fim de semana passado deixou claro: há um espírito de otimismo entre os radicais de direita dos Estados Unidos. Após gritos de Heil Trump! e declarações antissemitas, seguiu-se na plateia a saudaçom nazista.


Enquanto, nos Estados Unidos, os Judeus, que votaram maioritariamente na candidata democrata (75%), mostraram-se chocados com a eleiçom de Donald Trump no passado dia 9 de novembro e a nova vaga de crimes antissemitas, poucas reações foram registradas em Israel.

Mas agora políticos de oposiçom reagiram. A ex-ministra do Exterior Tzipi Livni, do partido de centro-esquerda Uniom Sionista, afirmou estar profundamente perturbada e acrescentou que políticos de todo mundo precisam dizer que "nom há lugar para isso" nas suas sociedades.

Já o presidente do partido liberal Yesh Atid, Yair Lapid, apelou aos políticos americanos para que condenem tais "expressões de simpatia por nazistas".

Trump distanciou-se do movimento de extrema direita "alt-right", ao qual o seu futuro conselheiro-chefe, Steve Bannon, ofereceu umha plataforma com seu site Breitbart News. Mas a nomeaçom de Bannon é apenas um exemplo dumha série de incidentes com conotações antissemitas. Eles incluem, por exemplo, a publicaçom dumha ilustraçom contra Hillary Clinton durante a campanha, trazendo notas de dólar e umha estrela semelhante à de Davi. Durante a campanha eleitoral Trump também chegou a dizer às grandes organizações sionistas "eu sei que nom vam votar em mim, porque eu nom quero o vosso sujo dinheiro".
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O clima político e social nos Estados Unidos é tenso. "Desde os anos 30 que a comunidade judaica americana nom experimentava tamanho grau de antissemitismo no discurso político e público", alertou a influente Anti-Defamation League (ADL), organizaçom ativa nao combate à discriminaçom dos Judeus.

Mas entre os políticos governantes em Israel, enfrentados com o governo Obama, predomina uma compreensom tácita de que se deve aceitar o resultado das eleições democráticas nos EUA e que nom se deve melindrar o maior parceiro estratégico do país. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu saudou oficialmente a eleiçom de Trump. Na coalizom de direita de Netanyahu há pessoas que veem um parceiro ideológico no novo presidente dos Estados Unidos. Nacionalistas esperam obter agora sinal verde dos americanos para a continuação dos assentamentos na Cisjordânia ou para que a embaixada norte-americana em Israel seja deslocada de Televive para Jerusalém.

Um ministro do partido nacional-religioso Casa Judaica até mesmo expressou seu apoio explícito a Bannon. E Naftali Bennett, ministro da Educaçom e presidente do mesmo partido, reuniu-se recentemente com assessores de Trump para discutir alternativas para a soluçom de dous Estados. Netanyahu respondeu com umha repreensão considerada atípica, afirmando que nengum membro do seu gabinete deve fazer contato com assessores de Trump antes que as linhas políticas do futuro governo dos EUA estejam claras.

Bom para Israel, ruim para os judeus nos EUA?

O próprio Trump até agora mostrou-se ao lado de Israel. Por isso, ele goza da aprovaçom da direita do país. Para ela, é mais importante o apoio do presidente dos Estados Unidos, por exemplo, em questões de segurança –tais como a prevençom dum Irão com tecnologia nuclear– do que as preocupações dos Judeus nos Estados Unidos. E isso inclui fazer vista grossa para o antissemitismo nos EUA.

A jornalista Tal Shalev, da editoria de política do site de notícias israelense Walla, vê essa situaçom com preocupaçom, temendo que as relações entre Israel e os Judeus americanos sejam prejudicadas. "É um dilema para Israel: o que é bom para o país pode ser ruim para os Judeus nos EUA. É importante que Israel demonstre mais solidariedade com a comunidade judaica americana", afirma.

O jornal liberal Haaretz também vê nessa situaçom como umha ameaça, mas também umha oportunidade. "Nunca houve tamanha oportunidade, para os Judeus liberais em ambos os países, de se entenderem e terem umha causa comum, de apoiarem uns aos outros em tempos difíceis", escreve a publicaçom.

Postagem elaborada a partir de informações da DWBRASIL e Bernard-Henri Lévy

sábado, 15 de outubro de 2016

SEM CARROS, EM ISRAEL A CONTAMINAÇOM TOMBA OS 90%

A contaminaçom caiu polo menos 90% na quarta-feira (12 de outubro) em todas as grandes cidades de Israel enquanto o trânsito rodoviário estava totalmente interrompido por causa da festa do Kippur, segundo noticiou no dia 13 a Agência para a Proteçom do Ambiente.
Engarrafamento em Telavive. FOTO: AFP/Archives
Como habitual, o Estado hebreu parou totalemente durante o Kippur, a festa mais solene do calendário judaico. Durante o intervalo entre a tarde da terça e a da quarta-feira todas as viaturas cessaram de circular, sendo substituídas polos peões e os ciclistas que invadiram as ruas das cidades.

Em Telavive e Jerusalém e nas aglomerações circundantes a poluiçom de óxidos de enxofre, emitidas polos veículos, baixou de forma drástica até alcançar entre 7 e 17 ppm, fridou a Agência num comunicado. Antes do Kippur, os níveis de óxidos de enxofre eram de 178 ppm em Jerusalém e 95 ppm na área metropolitana de Telavive.

"A melhoria significativa da qualidade do ar durante o Yom Kippur demonstra o impato dos transportes, principal fonte de contaminaçom do ar nas grandes cidades", referiu a antedita Agência para a Proteçom do Ambiente.

Em Israel, onde a rede dos caminhos-de-ferro está pouco desenvolvida, faz parte dos países da OCDE com o número mais elevado de veículos por habitante e com umha das taxas mais importantes de perda de tempo nos engarrafamentos.

Fonte: Sciences et Avenir, traduzido para o galego-português por CAEIRO.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O MELHOR INVESTIMENTO NA VIDA SOM OS AMIGOS

Na altura do 93º aniversário de Shimon Peres (2 de agosto), o Prémio Nobel, ex-Presidente e ex-primeiro-ministro de Israel falou com a RADIO JAI em temas como o terrorismo internacional, o mundo árabe, a ciência e a tecnologia ou a Europa e o mundo em geral. Até a sua morte o último sobrevivente dentre os fundadores do Estado de Israel desenvolveu um inesgotável trabalho no Centro Peres para a Paz.



RADIO JAI: Em Auschwitz, o Papa Francisco decidiu realizar unicamente umha prece em silêncio. No seu regresso formularam-lhe perguntas sobre o terroristmo e a violência na Europa. Respondeu que quando a gente nom encontra outra opçom, adere-se ao terrorismo. Também disse que o mundo está em guerra, mas que nom se trata dumha guerra entre religiões. O que o senhor pensa disto?

-SHIMON PERES: Acho que o terrorismo no mundo árabe é o alma dum protesto difícil de resolver. Eles sentem que o mundo os insultou; sentem que os mergulharam na pobreza, na ignorância, num local de cidadãos de segunda... Essa luta começou com as cruzadas. Eles dizem: vocês submeteram-nos, nós cortaremos-lhes a cabeça umha e outra vez e voltaremos a ser esse grande califado. Por isso resulta tam dificil combatê-los. Porque nom têm um senso de vida fora da guerra. O que têm é um protesto.

- Que tipo de protesto?
- Um protesto porque a cultura árabe e muçulmana foi colocada num local inferior, quando noutra altura eles foram a grande cultura e cimo do mundo. Entom todo o que nom é muçulmano é visto como o seu inimigo a destruir. Mas, por outro lado, nom som tantos como se acredita. Dos 400 milhões de Árabes no Próximo Oriente, estimamos que 50 ou 60.000 som terroristas. Muitos querem estudar ou som estudantes, querem entrar no novo mundo. O problema é quando se graduam nom arranjam onde trabalhar porque nesses países nom ha desenvolvimento nem alta tecnologia. Nós tentamos persuadi-los e ajudá-los para que façam o que nós fazemos. Nas nossas universidades os estudantes som estimulados para serem empreiteiros, nom apenas a estudar, mas a criar o trabalho. Temos 30.000 companhias nas nossas universidades de gente nova. Esta manhã estive com umha turma de jovens de 14 e 15 anos, que têm novas metodologias de comunicaçom como Snapchat; dous deles, de apenas 14 anos, criaram as suas próprias empresas. A inovaçom e a criatividade som estimuladas em Israel. Acho que em geral a ideia e paradigmas do aprendizado estám pouco claros e desatualizados, porque os especialistas falam no que já sucedeu. Nom temos especialistas nem docentes que falem no futuro, que possam ensinar o que irá acontecer. Existe algo na história judia; os Judeus nom gostaram dos reis, gostaram dos profetas, porque estes encararam o futuro. E por que? Porque o futuro sim pode ser mudado, o passado nom. Por isso, se quiseres ser um inovador e se quiseres melhorar o mundo, deixa o passado e concentra-te no futuro. Dedica-te a sonhar, projetar, criar e começa e recomeça umha e outra vez.

- E que se passa com o islám moderado?
- Nom se trata dos moderados. Trata-se dos velhos e dos novos. Os sunitas e os xiítas som velhos. Produzem um grande dano sobre eles próprios. Por exemplo, se decidem discriminar a mulher, decidem nom deixar sair os Arabes da miséria, deixam metade da popularçom mergulhada na ignorância e a pobreza. Se a mãe nom contar com educaçom ou nom educar os filhos, as crianças som as vítimas. Metade da populaçom está a tentar fugir dessa realidade de pobreza. A gente nova, nom os terroristas. Há mudanças significativas dentro do mundo árabe. Hoje, os 60% dos estudantes som mulheres jovens. De modo que há umha tendência à mudança. O problema é a imprensa, som os especialistas, eles som os que vivem permanentemente no passado. Nom se interessam com o futuro porque é desconhecido e a gente prefere lembrar o que previsível face o imprevisíbel. Lembrar em vez de pensar. Nom há nada a lembrar, nom digo a repeito dos aspetos espirituais que som tam importantes. O pessoal diz: se conhecermos os factos do passado nom cometeremos os velhos erros, mas isso é umha falsidade, porque, existe garantia de que se conhecemos os erros do passado nom iremos cometer novos erros e que estes sejam piores? Por isso o que se deve fazer é nom repetir, é criar, é ser umha startup nation, um país de inovaçom e criatividade.

- O senhor fala no futuro. Como ve o futuro da Europa e do mundo em geral?
- Estamos num momento de transiçom, dumha era para outra era. Antes, se um queria viver melhor e ser mais rico, precisava mais terra, mais território, porque a terra fornecia alimentos e a riqueza. A terra nom se conseguia debalde. Havia que lutar por ela e proteger as fronteiras. Terra e sangue eram elementos inseparáveis. Vivíamos na Era da Terra, porque a terra forncia alimento. A mistura da história da terra e a história do sangue som inseparáveis e a humanidade pagou um alto preço por ela. Agora, se tiveres muita terra e recursos naturais nom és grande cousa; podes ter recursos naturais, mas isso nom te torna rico. Agora estamos a entrar numha segunda era, a era da ciência. A ciência nom se conqusita com exérctios. É criada polo individuo. Podes ser um grande cientista sem pegar nada de ningúem, sem que o outro deva ser pobre. Os cientistas podem gerar umha revoluçom. E nom precisam pelejar. Nom precisam pegar nada de ningúem. A ciência pode ser criada por umha pessoa de maneira individual, nom depende de quem fores ou onde morares. Nom precisam de organizações. Olha, por exemplo, o que fez Mark Zukerberg, um garoto judeu de apenas 21 anos com boa cabeça: introduziu umha revoluçom mais poderosa do que a Revoluçom Russa ou a Revoluçom Francesa. Nom matou a ninguém, nom pegou nada de ninguém, nom tinha mapas, nem partido político, nem exérctiso, apenas umha boa cabeça. Quem pode saber com antecipaçom onde e quando nascem crianças assim? Os cientistas nom precisam pelejar. Mas necessitam fundos que os financiem. A ciência baseia-se na confiança muito mais do que na fortuna e os fundos. A ciência nom pode ser controlada por ninguém, já que a ciência é neutral. Por isso se precisa umha ciência que contenha moral para que nom caia nas mãos erradas. A ciência sem moral é um grande perigo. Acho que o mundo atravesa um período de mutaço, estamos a pagar um preço pola velha era e um preço pola nova era. Quanta mais gente no mundo árabe se envolver com o futuro, os resultados ver-se-ám mais claramente. Quando houver 60% de jovens inseridos no futuro, com 140 ou 160 de smartphones, eles verám o futuro dumha maneira absolutamente distinta aos seus pais.

- Os governos -e as suas lideranças- estám a ser questionados em todo o mundo. O que nos pode dizer do fenômeno Donald Trump e a possibilidade de ele se tornar em presidente dos Estados Unidos?
- Nom creio que essa seja umha eleiçom. Acho que é um modo de protesto contra os políticos dos dous lados, de direita e de esquerda. É mais um protesto do que um processo eleitoral. Donald Trump diz as asneiras mais grandes que eu jamais ouvi. Polo outro lado, Bernie Sanders é apenas um senhor judeu agradável que propõe ideias socialistas; se as tivesse dito há dez anos, teria sido enforcado. De modo que é um protesto. Os Estados Unidos vam transitar esse processo. Estados Unidos nom é umha ampla maioria, recebeu de mãos dadas muitos imigrantes. É um país de minorias que criou umha maioria democrática. Historicamente existem dous tipos de países: os que dam e os que tiram. Os Estados Unidos cresceram porque deram. A Europa foi destruída porque tirou. Os Estados Unidos nunca criaram um império. Lutaram por outros, sustentaram outros. Construiram pontes. A Europa construiu impérios e guerra. Os Estados Unidos tornaram-se num grande país porque souberam dar, isso está gravado profundamente no seu ADN. Agora a China vai-se tornar numha grande potência e tem hoje um debate interno invisível. Quando se tornarem grandes politicamente, nom apenas economicamente, farám-no dando ou tirando? Procurarám a harmonia ou o confronto? Se um tirar, cria-se inimigos. O melhor investimento na vida som os amigos. O maior esbanjamento, o ódio. Custa muito. E paga-se, paga-se, paga-se muito caro.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

MORRE O EX-PRESIDENTE ISRAELITA SHIMON PERES

Morreu o ex-presidente israelita Shimon Peres (nascido em 1923 como Szymon Persky em Vishneva, nessa altura território polaco, hoje Bielorrússia). Quem liderizou o Estado hebreu entre 2007 e 2014 finou esta manhã à idade de 93 anos. Duas semanas atrás ingressara num hospital de Israel logo depois de ter um ictus. Nas últimas horas o seu estado de saúde piorara consideravelmente.


Sendo criança as línguas maternas dele foram o hebraico, iídiche e russo, aprendendo o polaco na escola. Em 1934 a família emigrou para a  Palestina (entom colónia britânica), fixando-se em Telavive. Embora de origem asquenazita, como muitas lideranças sionistas assumiu o apelido sefardita Peres. O resto de familiares que ficaram na Polónia em 1941 foram exterminados durante a Shoah. 

Antes de ser presidente, Peres também ocupou o cargo de primeiro-ministro durante três períodos (1977, 1984-86 e 1995-96) bem como o de ministro dos negócios estrangeiros (1986-88, 1992-95 e 2001-02). Precisamente recebeu o prémio Nobel da paz em 1994 quando ocupava este cargo.

Foi um companheiro de rota de Yitzhak Rabin (primeiro-ministro israelita) e Yasser Arafat (líder da OLP). Em 1993, com o presidente norte-americano Bill Clinton, fez parte dos acordos de Oslo, as negociaçõe que iriam trazer a paz entre Israel e Palestina. Durante o depoimento de recolha do prémio, Shimon Peres disse que o Próximo Oriente encarava numha nova fase. Neste novo futuro para a área, nom esqueceu a importância de respeitar todas as culturas religiosas.

Os acordos de Oslo marcaram os primeiro encontros bilaterais entre as duas partes. Peres agradeceu que Israel e Palestina aceitassem dialogar.

A carreira política de Peres esteve estreitamente ligada à criaçom do Estado de Israel. Em 1948 fez parte do círculo de pessoas de confiança do primeiro-ministro Ben Gurion. Durante 48 anos foi deputado do Parlamento de Israel e durante 15 anos (1977-92) foi presidente do Partido Trabalhista de Israel/Mapai.

A partir de setembro de 2016 a saúde de Peres, de 93 anos, piorou por causa dumha hemorragia cerebral, até o ponto de os doutores alertarem da irreversibilidade do seu estado. Era a terceira vez que ingressava este ano. Como dado curioso, Peres era primo da atriz Lauren Bacall (nascida em Nova Iorque como Betty Joan Perskie e filha de judeus polaco-rumenos emigrados).

sábado, 23 de julho de 2016

OS RESCALDOS DO RELATÓRIO BITON SOBRE A CULTURA MIZRAHI

Recentemente foi apresentado perante o ministro da educaçom, Naftali Bennet, o chamado Relatório Biton, realizado polo poeta Erez Biton, o primeiro judeu mizrahi que recebeu o Prémio Israel de Literatura.


N. Benet e Erez Biton na aprsentaçom do Relatório
Biton recebera o encargo governamental de elaborar um relatório de recomendações sobre como devem ser introduzidos mais conteúdos sobre a história e herança mizrahi e sefaradita no sistema educativo israelita. 

O relatório surgiu em resposta à pressom de organizações israelitas que representam os Judeus vindos de países árabes. Os representantes desta comunidade, que constitui mais de 50% da populaçom de Israel, acham que o sistema escolar israelita é eurocêntrico, espelhando as origens ocidentais dos fundadores do sionismo moderno. Destarte, o Relatório Biton aponta as medidas necessárias para corrigir esse desequilíbrio.

O Relatório causou um amplo leque de reações. Para Gidi Orsher, crítico da Rádio do Exército de Israel (IAR), referiu que se tratava dumha vitória da superstiçom oriental e do obscurantismo por sobre a ciência e a tecnologia. O ministro da cultura de Israel, Miri Regev, de origem marroquina, nom demorou em qualificar Orsher como um elitista, fazendo com que perdesse o emprego.

Polo contrário, o jornal Haaretz recebeu com elógios o Relatório Biton, com um manchete intitulado "A judeidade árabe sai fora do armário". Para o autor do artigo, Zvi Barel, trata-se de pôr fim da "discriminaçom" histórica estatal contra a língua e a cultura árabe. Linhas abaixo reproduz-se, na íntegra, o artigo publicado polo Haaretz.

Mas como os formadores de opiniom asquenazitas recorrem a clichês velhos sobre "discriminaçom", -reforçados polo Relatório Biton, ao recomendar que o alunado na escola sejam ensinadas sobre a movimentaçom cívica dos Panteras Negras, os motins de Wadi Salib e o "sequestro" das crianças iemenitas-, ninguém parece ter inquirido sobre o que pensavam os Mizrahim de si próprios. Umha sondagem realizada polo Instituto da Democracia de Israel descobriu que apenas 1,4% dos inquiridos pensavam que a discriminaçom asquenazita dos mirzrahi era um ponto de atrito. A desigualdade econômica e a falta de perspectivas de emprego foram questões muito mais urgentes.

Embora as lideranças mizrahi reconheçam que o Relatório Biton é um primeiro passo importante, pola sua vez, estám desiludidos. "É um escândalo", disse um deles. A coligaçom de órgãos representativos Mizrahi encaminharam umha carta mordaz aos membros da comissom Biton, com cópia para o ministro Naftali Bennett. A razom para a sua deceçom é que o Relatório nom reflete adequadamente a "tragédia" dos Judeus Mizrahi, isto é, a expulsom e expropriaçom dos Judeus de países árabes e muçulmanos. Enigmaticamente, o Relatório Biton promete que "os Árabes e o Islã nom serám apresentados apenas em relaçom aos Judeus (como subjugadores ou prestadores dum bom tratamento), mas como a si mesmos." Nom está suficientemente claro o que os autores do relatório querem dizer com isto, mas ressaltar os pontos culturais de ligaçom entre Judeus e Árabes enquanto se encobrem um dos piores exemplos de limpeza étnica em massa do século XX seria como gavar o grande contributo judaico à cultura da Europa de Leste sem apenas mencionar o Holocausto.


É essencial para as crianças aprenderem o contexto de por que os seus pais e avós tiveram que vir para Israel sem exagerar o contributo Mizrahi ao sionismo. Para a maior parte, chegaram como refugiados, e o estudo do grande poeta al-Mutanabbi pode obscurecer este facto.

A judeidade árabe de Israel sai do armário



O relatório do Comité Biton sobre "o fortalecimento da herança da Judiaria Sefardita e Mizrahi no sistema de ensino" é um dos documentos mais importantes na história do país. Apesar das suas falhas, sobre as quais rios de tinta, sem dúvida, vam ser derramados, em essência, é um documento sobre a definiçom de identidade - nom sobre a identidade cultural, histórica e nacional dos judeus de origem sefaradita e oriental, mas sobre de israelidade e do Estado de Israel.

Na sua essência, envolve a reabilitaçom e correçom dumha narrativa expondo umha história que tem sido ocultada, bem como a tentativa de sandar umha das discriminações que umha sociedade conflitouosa como a israelita criou. Nom se pode permitir que este relatório se torne mais numha letra morta enterrada pola máquina da burocracia, ou que sirva como umha bandeira usada polos políticos para demonstrar a grandeza de seus espíritos e a abertura dos seus corações.

O documento, de 360 páginas, é em si um bocado da história que deveria ser ensinada e estudada umha vez que constitui um testemunho escrito, embora certamente nom completo, sobre a frágil estrutura em cujos deformados alicerces foi construída a narrativa israelita. É umha estrutura a partir da qual umha das partes da sociedade foram deliberadamente excluída e condenanda a se dissolver num "melting point" fictício.

O documento consta de dous pisos espaçosos. Um é construído com os tijolos do passado; onde se mapeia o lugar dos Judeus Mizrahi vindos dos países árabes e de Sefarad (Espanha e Portugal). O segundo oferece umha visom para o futuro que situa Israel dentro da cultura regional do Próximo Oriente.

Este relatório coloca-se, pola primeira vez, sem constrangimentos e sem desculpas, perante umha demanda bem documentada: 
  • o reconhecimento da língua árabe; 
  • a história dos Estados árabes e o Islã; 
  • os laços indissolúveis entre a poesia árabe e judia; 
  • os papéis que os principais Judeus Mizrahi jogaram nas histórias dos povos do Próximo Oriente; 
  • os movimentos árabes, a educaçom e o nacionalismo. 

Em suma, exige que se estude e compreenda a cultura judia mizrahi como parte dum contexto muito mais amplo, e nom como umha curiosidade antropológica ou umha tribo com um folclore comum.

"Os Árabes e o Islã nom serão apresentados apenas face os Judeus (geralmente quer como subjugadores ou como proporcionando um bom tratamento), mas como a si mesmos e, a partir disso, os estudantes judeus também podem obter benefício imediato; e a história dos Judeus dos paises islâmicos serám colocados num contexto histórico mais apropriado", refere o capítulo sobre o ensino da história.

Sem usar tantas palavras, este relatório "sai do armário" ao tomar a ideia da arabicidade judaica, que acende o terror entre muitos Judeus Mizrahi e serve como pretexto para a condescendência dos judeus "europeus". Numha entrevista fascinante que Almog Behar realizou com o Prof. Sasson Somekh em 2008 (e que foi publicada na revista literária "Iton 77"), Somekh explicou que "para ser um Judeu árabe, umha pessoa tem de satisfazer três critérios: a sua língua materna deve ser um dos dialetos do árabe; deve ter nascido e crescido numha comunidade judaica cuja língua é o árabe e num país de língua árabe; e a maior parte da sua educaçom básica deve ter sido através da cultura árabe. Nesse sentido, mesmo que exagerado, eu diria que, para umha pessoa ser um judeu árabe, o primeiro poeta que deveu ter lido na sua vida é Al-Mutanabbi, o maior poeta árabe da Idade Média. "

A cultura Mizrahi de Israel nom se pode reabilitar unicamente através dum aumento das verbas ou com a indigitaçom de membros do Conselho de Educaçom Superior proporcionalmente com base nas suas origens étnicas. Sem a difusom e reforço da língua árabe, sem o conhecimento da história dos estados árabes e da literatura árabe canônica, e quando tudo o arabe é considerado inaceitável por razões nacionalitárias, os mananciais nos quais se desenhou a Judiaria Mizrahi, também serão considerados envenenados.

O Relatório Biton, que convida Israel a se reconciliar com umha cultura judaica considera inferior, também pode abrir um canal para umha cultura considerada hostil. O relatório legitima o fim do nosso medo da cultura árabe-mizrahi, porque se mergulha no anseio polo orgulho cultural que foi roubado aos Judeus Mizrahi.

Mas antes de se deixar levar polas suas boas novas, devemos lembrar quem som os ministros responsáveis ​​pola educaçom e cultura, e que está sentado no governo ao que se pede que estabeleça a narrativa Mizrahi.

Fonte: Haaretz

quinta-feira, 21 de julho de 2016

O MITO DO COLONIALISMO JUDEU

Em boa parte dos discursos sobre o Próximo Oriente, há um mito muito espalhado de que os Judeus são intrusos da Europa e dos EUA -brancos ocidentais que vieram para "colonizar" e "roubar a terra" do povo palestino "nativo" a quem pertence por direito. Este mito, com base na terminologia marxista, ganhou a cada vez mais legitimidade depois de 1967, quando Israel anexou Jerusalém Oriental e "conquistou" a Cisjordânia. A noçom de "ocupaçom" e o uso da palavra "colonos" reforçam o conceito de "colonizaçom" israelita da terra "árabe".

Para além de assumir que os Palestinos devem ser os verdadeiros nativos porque parecem autenticamente "marrões", o mito do colonialismo suporta um outro mito: os Judeus nom são um povo, com direito à autodeterminaçom, mas umha religiom. Assim sendo, os antissionistas habitualmente falam em cidadãos norte-americanos de fé judaica, alemães de fé judaica e até mesmo em árabes de fé judaica. Na época da Revoluçom Francesa, Clermont-Tonnerre disse da emancipaçom dos Judeus: "Temos de recusar tudo para os Judeus como umha naçom e conceder-lhes tudo como indivíduos." A comunidade judaica de algumha forma iria desaparecer, deixando apenas cidadãos franceses de religiom ou ascendência judia.

Ultimamente, a noçom de que os Judeus nom são um só povo, mas umha comunidade heterogênea de conversos recebeu um impulso polo Professor Shlomo Sand de Telavive, através do livro best-seller intitulado "A Invençom do Povo Judeu". As teorias de Sand baseiam-se na obra de Arthur Koestler, quem popularizou a ideia de os Judeus Asquenazitas serem descendentes da tribo túrquica dos Khazares. Ao inferir que os Judeus nom têm qualquer ligaçom à Palestina estes autores minam a legitimidade de Israel. Porém, os estudos genéticos desacreditaram a teoria de Koestler, já que demonstraram que os Judeus orientais e ocidentais têm mais em comum uns com os outros e são geneticamente mais próximos dos nom-judeus originários do Próximo Oriente -dos Curdos em particular- do que das populações nom judaicas entre as que viveram.

Em junho de 2009 o Presidente Obama articulou um outro mito: Israel foi criado em consequência da Shoah na Europa. Este mito oculta a verdade de que cada Estado árabe é igualmente umha criaçom do colonialismo ocidental. Também ignora o facto de as instituições estatais do Estado judeu estabeleceram-se decênios antes da leitura por Ben Gurion da Declaraçom de Independência de Israel.

Amiudadamente ouvimos ou lemos que Israel está a ser povoado por comedores de porco russos e colonos nom judeus do Brooklyn. Mas esses grupos são marginais. Quase nunca se ouve dizer que mais de metade dos Judeus de Israel são originários de terras muçulmanas e árabes. A grande maioria desses Judeus foram movidos dum canto do mundo "árabe" para a faixa costeira do Proximo Oriente conhecida como Israel.
Fonte: Judeus dos Países Árabes
Até à sua expulsom há 50 anos, os Judeus viveram no Iraque, por exemplo, desde que os babilônios os expulsaram de Jerusalém quase 3.000 anos atrás. No início do século XX, Bagdá era a cidade mais judaica do mundo, depois de Salonica e Jerusalém. Pode dizer-se que os Judeus têm umha reivindicaçom tam legítima sobre Bagdá como a dos Palestinos sobre Jerusalém.

Os Árabes são relativamente novos na regiom; o mundo "árabe" é um termo impróprio. No momento em que os Árabes conquistaram a terra habitada por Judeus e cristãos no século VII, os judeus estabeleceram-se lá 1000 anos antes. A gente no Ocidente tende a aplicar um equívoco comum a todos os Judeus, assumindo a noçom cristã de que os Judeus foram punidos para errar de terra em terra sem qualquer país que possam chamar de seu. Mas nom só os Judeus viveram sempre na Palestina, houve umha continuidade de comunidades judias no Próximo Oriente e Norte da África durante 2.000 anos. Se apenas os habitantes nativos são titulares de direitos políticos, os Judeus são tam indígenas como quaisquer povos que vivem no Próximo Oriente.

Essa presença judaica chegou ao fim nos últimos 50 anos. A Liga Árabe determinou vingar nos indefesos cidadãos judeus em terras árabes logo depois da partilha da Palestina. No dia em que cinco exércitos árabes invadiram o novo Estado judeu, o secretário da Liga Árabe, Azzam Pasha, anunciou: "Esta será umha guerra de extermínio e de um massacre importante no qual se falará como dos massacres mongóis e as Cruzadas".

Os governos árabes na verdade declararam duas guerras em 1948. A guerra militar contra o incipiente Estado judeu de Israel que eles perderam, mas também declararam uma segunda guerra, contra um milhom de cidadãos judeus. Esta guerra ganharam-na com facilidade, através de umha política de intimidaçom, repressom, perseguiçom e surtos esporádicos de violência. O resultado é que mal restam 5.000 Judeus nos países árabes.

O "roubo de terra árabe" alegadamente realizado polos Judeus é umha inversom ofensiva da realidade. Os Judeus em dez países árabes foram despojados de seus direitos e na maioria dos casos despojados dos seus bens. A Organizaçom Mundial dos Judeus de Países Árabes estima que os Judeus nos países árabes perderam muitos mais milhares de milhões de ativos do que os Palestinos, e quatro vezes mais terra do que o tamanho do próprio Israel.

Visto nestes termos, o antissemitismo árabe contribuiu para a criaçom de Israel nom menos do que a Shoah. Os Árabes têm umha grande dívida com os Judeus. É hora de o mundo parar de olhar o conflito através de umha lente distorcida e eurocêntrica.

Fonte: Point of No Return. Traduzido para o galego-português por CAEIRO.

terça-feira, 31 de maio de 2016

POR QUE "ISRAEL"?

O seguinte post, tirado do site CONEXÃO ISRAEL, explica a história do surgimento de Israel como nome desse Estado Judeu que devia criar-se logo depois da Resoluçom 181 de 29 de novembro de 1947 da ONU relativa à partilha do que restava da Palestina (nessa altura colónia britânica).


João K. Miragaya 

Ontem à noite começou o feriado de Yom Haatzmaut, o Dia da Independência do Estado de Israel. O país inteiro está em festa. Hoje será feito o concurso de Tanach para adolescentes, a maioria dos parques do país já é palco de churrascos, e a alegria marca o aniversário (de 68 anos) do país, como sempre. O Estado de Israel foi declarado por David Ben-Gurion, presidente da Agência Judaica, no dia cinco de Yiar (curiosamente, meu aniversário no calendário hebraico) do ano de 5708, ou 14 de maio de 1948, véspera do fim do Mandato Britânico na Palestina. O que poucas pessoas sabem é que apenas dois dias antes da declaração formal do Estado judeu, foi decidido que seu nome seria Israel. A história do surgimento deste nome é interessante, e eu vou contar um pouco para vocês como isso se sucedeu.

No aniversário de 18 anos do Estado de Israel, perguntaram a David Ben-Gurion de quem teria sido a ideia do nome “Estado de Israel”. O ex-primeiro-ministro, já residente no kibutz Sde Boker, disse não se lembrar. Alguns estudiosos do tema acusaram Ben-Gurion de difamar Moshe Sharett, seu adversário (quase inimigo) político no Partido dos Trabalhadores Israelenses (Mapai) nesta época, quem teria sugerido o nome ainda em 1946. O jornalista Moshe Brilliant afirmou em 1949 que o autor do nome foi o próprio Ben-Gurion. Na verdade, a primeira aparição do termo “Estado de Israel” é de 1896, de alguns meses antes de Theodor Herzl publicar sua obra “O Estado Judeu”, pelo escritor Isaac Parnhof. Não há como saber, no entanto, quem influenciou a quem. A história é confusa.

No dia cinco de dezembro de 1947, seis dias após a ONU aprovar o Plano de Partilha da Palestina (no auge da euforia pela criação do Estado judeu), o jornal Maazanim publicou uma lista de nomes sugeridos para o futuro país. Surgiram aí os nomes Judá (ou Judeia), Sião, Hebraica, Eretz Israel (Terra de Israel), Sabra, Estado dos Judeus, e outros. Podemos traçar este momento como o marco do início do debate moderno sobre o nome do futuro Estado, mas que não teve a devida atenção por conta da guerra civil entre os judeus e os árabes na Palestina ainda britânica, iniciada no dia 30 de novembro do mesmo ano.

O dia 15 de março de 1948 era a data limite para a saída das forças britânicas na Palestina. A ONU já havia dado a sua aprovação à divisão da terra em dois estados, mas os países fronteiriços à Palestina (Egito, Líbano, Síria e Transjordânia) somados ao Iraque já haviam prometido guerra, caso a liderança sionista declarasse o Estado judeu. A liderança do Ishuv (pré-organização do Estado judeu na Palestina durante o período otomano e o Mandato Britânico) não sabia se teria como lutar contra cinco exércitos somados aos árabes palestinos. Por outro lado, julgava que não declarar o Estado judeu neste momento poderia adiar para sempre a oportunidade. Além disso, declarar o estado aceleraria a recepção da imigração judaica, especialmente de refugiados sobreviventes do Holocausto, e de judeus perseguidos nos países árabes. Ben-Gurion decidiu por correr o risco e declarar o Estado judeu. Mas tínhamos um problema: como se chamaria o Estado judeu?

Em 12 de maio de 1948, dois dias antes da famosa Declaração de Independência, reuniram-se a Moetzet Ha’am (Executivo da Agência Judaica) e a Minhelet Ha’am (gabinete do Ishuv formado às pressas para decidir sobre a Declaração de Independência), para uma tarefa de suma importância: decidir o nome do primeiro Estado judeu em 1900 anos.

Judá (Iehudá)

Segundo Moshe Brilliant, o primeiro nome sugerido e tido como natural foi Judá (Iehudá) [1]. O termo Judá (ou Judeia) era adequado por ter sido o nome do último Estado judeu na história, existente desde a separação dos reinos (segundo a narrativa bíblica), por volta de 900 AEC até o fim da dinastia dos Hasmoneus, em 37 AEC (com uma interrupção de cerca de 400 anos, entre o exílio à Babilônia – 586-538 AEC) até a conquista dos Hasmoneus (140 AEC). Mesmo após as conquistas da região por babilônios, persas, helenístas e romanos, o nome da região não se alterou (até a revolta de Bar-Kochba, em 131-135, quando os romanos passaram a chamá-la Syria-Palestina). 

Após longo debate, o nome foi descartado. As razões não são poucas: 
  • a primeira, geográfica. Judá representa apenas uma parcela do território da Terra de Israel (Eretz Israel), e justamente sua maior fração não seria território do futuro Estado judeu, de acordo com a Partilha da Palestina (1947). 
  • Além disso, Judá, em 722 AEC, não recebeu a todos os exilados de Israel (outro reino judaico na Idade Antiga) quando este fora atacado pelos assírios, e essa não era a mensagem que o sionismo desejava transmitir. 
  • A terceira razão foi a nomeclatura: quem nasce em Judá é… judeu (Yehuda-yehudi)! Seria impossível separar os não-judeus que nasceriam em judá dos judeus. Imaginem vocês: os árabes nascidos em Judá seriam árabes-judeus. Para piorar, os judeus nascidos fora de Judá seriam confundidos com os judeus de Judá. Nome descartado.


Sião

Outra ideia era inevitável: uma vez que o nome do movimento de ressurgimento nacional do povo judeu é conhecido como sionismo, por que não Sião (Tzion em hebraico)

Seria natural, mas após longo debate seus contras o fizeram ser descartado. Sião é referente a Jerusalém, território que não faria parte do Estado judeu de acordo com a Partilha. Além disso, quem nascesse em Sião seria, em hebraico, tzioni, ou seja, sionista. Mais uma vez geraria uma confusão com os árabes “sionistas”, e com os judeus de fora do Estado judeu, que se considerariam ideologicamente sionistas, mas não teriam esta nacionalidade… Resultado: outro nome descartado.

Hebraica

Então falou-se em Hebraica (Ever, em hebraico). O sionismo realizador sempre considerou seus feitos como feitos hebreus. Por ser um movimento primordialmente laico, seus membros afastaram-se da concepção “judeu” sempre que podiam. 

O nome “judeu” foi atrelado a todo o povo quando os babilônios invadiram Judá em 586 AEC e exilaram aos seus habitantes. Como o Reino de Israel já estava extinto, o nome do povo passou a ser “judeu”. Durante o exílio, surgiram os primeiros fundamentos da religião judaica rabínica, tal qual conhecemos hoje, como resultado da necessidade do povo viver sem o Templo Sagrado, e o termo “judeu” foi associado pela primeira vez à cultura (religião, no caso) judaica. O sionismo repudiava o judaísmo não nacional, e por isso evocava ao termo “hebreu”, que era referente, sobretudo à língua hebraica. Tudo o que os hebreoparlantes faziam era considerado hebraico: Tel-Aviv foi a primeira cidade hebraica moderna, a Universidade Hebraica de Jerusalém, e etc. 

Mas o termo foi descartado novamente, por duas razões. 
  • A primeira, pela concepção de povo: os patriarcas Abraão, Isaac e Jacó eram hebreus. Os filhos de Jacó já não eram mais hebreus. Apesar de a Bíblia referir-se ao “povo hebreu”, os hebreus nunca foram um povo. 
  • Além disso, Abraão era um hebreu porque Ever era como se chamava o avô de seu avô. Esta concepção é inclusiva demais: os árabes, por exemplo, também seriam hebreus, e teriam direito à mesma terra. Opção, portanto, descartada.


Sabra

Outros nomes que surgiram foi Sabra (Tzabar em hebraico), nome de uma planta típica da região, e como eram denominados os judeus nascidos na Palestina. Não pegou. 

Eretz Israel

Eretz Israel (que significa Terra de Israel), um conceito bíblico sobre a terra prometida a Abraão, também foi descartada por ser demasiadamente abrangente: o Estado, na prática, não abarcaria toda a região prometida a Abraão segundo nenhuma das interpretações existentes. 

Estado dos Judeus

Estado dos Judeus (Medinat HaYehudim), nome do livro de Theodor Herzl, também foi sugerido, mas foi rejeitado porque confrontaria o ideal de um Estado democrático: se o Estado é dos judeus, seria dos não-judeus também? Esta discussão se perpetua até hoje, mas, segundo Brilliant, foi a razão pela qual descartaram este nome.


Por fim, Estado de Israel

Então, por fim, Ben-Gurion sugeriu Estado de Israel (Medinat Israel, em hebraico). O processo aí foi inverso: primeiro criticaram. O nome seria grande demais, se confundiria com Eretz Israel, e não representava o principal reino judaico na história (Judá). Aos poucos começaram a convencer-se. 
  • De certa forma, Israel dava nome àquela terra, ao menos biblicamente. 
  • Além disso, não soava tão estranho dizer “árabe-israelense”, “judeu-israelense”, e o termo não criaria incongruência com judeus de outras nacionalidades. O cidadão seria chamado de israelense, não de “estadodeisraelense”. 
  • Mas o mais relevante para a sua escolha é a origem do nome: segundo a tradição judaica bíblica, “Israel” foi o nome recebido por Jacó (Yaakov) após lutar contra um anjo. Jacó, como sabemos, é o último dos patriarcas (pais do povo), e de seus filhos nasceram as 12 tribos de Israel. Sua descendência é chamada de bnei Israel (filhos de Israel). Segundo a tradição judaica, todos os judeus são descendentes de alguma destas 12 tribos, e, portanto, são filhos de Israel. 


O Estado judeu, portanto, seria a casa de todos os “filhos de Israel” que desejassem viver sua vida como israelenses. O nome dá uma ideia de inclusão aos judeus da diáspora, mas não associa diretamente seus cidadãos ao judaísmo como outros nomes o fazem. E bateu-se o martelo!

David Ben-Gurion, então, no dia 14 de maio de 1948, pronunciou a seguinte frase: “Por meio desta, declaramos a criação do Estado judeu na Terra de Israel, o Estado de Israel”.

[1] O termo em hebraico é traduzido hoje como Judá, mas no passado foi traduzido como Judeia.