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terça-feira, 29 de março de 2016

O SISTEMA DE SAÚDE ISRAELITA

AMIR SZUSTER | CONEXÃO ISRAEL
Um sistema de saúde de qualidade e barato. Acessível a todos os cidadãos do país. Utopia?
O sistema de saúde israelita (SSI) nom é perfeito, mas ele está muito próximo do que imaginamos ser um sistema de saúde justo e eficiente. Entenda como ele funciona.  
SSI é um sistema público, financiado por impostos e polo orçamento nacional, e está composto basicamente por quatro “convênios de sáude” (em hebraico, Kupot Cholim) e dezenas de hospitais.
Os convênios de saúde som licenciados e financiados polo governo para atender a um plano básico para todos os cidadãos ou residentes permanentes. Eles atuam de forma similar a umha parceria público-privada.
Todo cidadão israelita é obrigado por lei a ter um plano de saúde básico, oferecido por um dos convênios. A Lei do Seguro de Saúde Nacional, que entrou em vigor em 1995, também estipula que o convênio, no seu plano básico, deve atender gratuitamente umha cesta de serviços e medicamentos, anualmente definida polo Ministério da Saúde.
Todo ano há umha discussom sobre o que será incluído nesta cesta. Em 2016, foram adicionados remédios recém-lançados contra o cancro, aparelhos auditivos para adultos, remédios abortivos para mulheres que sofreram violência sexual, alimentaçom especial para doentes com ALS e rémedios contra défice de atençom em crianças.
Convênios de saúde
Historicamente, os convênios de saúde foram criados com base nas organizações de trabalhadores. Três dos quatro convênios existentes (Clalit/כללית, Leumit/לאומית e Macabi/מכבי) já estavam ativos antes mesmo da criaçom do Estado de Israel, sendo criados em 1913, 1933 e 1941, respetivamente. Em 1974 foi criado o convênio Meuchedet/מאוחדת.

O convênio Clalit abrange mais de metade da populaçom (52%), seguido por Macabi (25%), Meuchedet (14%) e Leumit (9%).

Todo cidadão tem direito de trocar de convênio duas vezes por ano,
e por lei, nengum convênio pode recusar recebê-lo.
Os convênios têm a possibilidade de propor pacotes “premium” que incluem itens nom incluídos no plano básico. Em geral, estes pacotes oferecem descontos em remédios excluídos da cesta básica, serviços de medicina alternativa, nutricionista, fisioterapia e tratamentos dentários por preços mais baixos. Em relaçom a estes pacotes, os planos atuam de forma exclusivamente privada, competindo entre si em questões de preço, qualidade e serviços.
As tarifas dos planos “premium” também som muito acessíveis, e variam de acordo com a idade. Veja a tabela abaixo com os preços mensais (em shekels, ₪1 é aproximadamente R$ 1) de acordo com o grupo de idade:
Idade* / PlanoClalit ‘Platinum’Macabi ‘Sheli’Mehuchedet ‘Si’Leumit ‘Zahav’
25-30 anos75.0695.5882.5055.87
31-4096.01116.27107.5069.90
41-50105.52119.99125.5087.80
51-60116.24119.99146.00109.83
* A divisom de preços por grupo de idades nom é igual para todos os planos. Nalguns casos, foi feita uma média ponderada para chegar a estes resultados. 
Além disso, hoje em dia já existem planos ainda mais avançados de empresas exclusivamente privadas que cobrem serviços mais específicos (e caros!), como o acesso a cirurgias no exterior, transplante de orgãos e remédios para doenças raras.  
Financiamento
O Instituto de Seguro Nacional (equivalente ao INSS brasileiro) coleta o imposto da saúde, tributado de forma progressiva, ou seja, contribuintes de maior renda pagam proporcionalmente mais do que os de menor renda.
Ele redivide as contribuições entre os quatro convênios de saúde de acordo com uma fórmula que leva em consideraçom: 
a) número de associados, 
b) distribuiçom de idade dos associados, 
c) regiom geográfica, 
d) outros fatores. 
Além disso, os convênios também recebem um complemento proveniente do orçamento do governo.
E funciona?
O SSI ficou em sétimo lugar numa lista elaborada pela Bloomberg, em 2014, que avaliou a eficiência dos sistemas de saúde de 51 países.
Serviços básicos, como visitar um clínico geral, ou algum médico especialista (ortopedista, ginecologista, dermatologista,etc..), apesar de pequenas variações de acordo com o convênio e a regiom, nom som tarefas complicadas. Assim como realizar exames básicos, como exames de sangue, fezes, urina e raio-x.
Exames um pouco mais avançados, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, assim como tratamentos de alto custo, podem demorar mais tempo para serem aprovados, e devem passar por um processo burocrático um pouco mais tedioso. Mas, cedo ou tarde, e se realmente necessário, será possível fazê-los – com a certeza de que serão realizados em aparelhos modernos e em excelentes condições.
Obviamente, se o caso é urgente, é possível agilizar quaisquer procedimentos e fazê-los todos em questom de apenas uma semana, talvez tendo que se deslocar para outras regiões do país.
Os hospitais públicos tem nível de hospitais privados do Brasil. O nível dos médicos também nom fica nem um pouco atrás. O país está na vanguarda da pesquisa científica em diversas áreas da medicina, com destaque para as pesquisas oncológicas.
Em caso de doenças graves, como cancro por exemplo, praticamente todos os tratamentos som completamente cobertos polo plano básico – incluindo tratamentos quimioterápicos, radioterápicos, internações, cirurgias, entre outros.
Nem tudo está tão bem
Apesar dos bons indicadores, todos os convênios tem apresentado saldos negativos de bilhões de shekels nos últimos anos (1).
O sistema tem enfrentando dificuldades financeiras, e precisa ser sustentado, de forma constante, por novas transferências do governo. O mesmo ocorre com grandes hospitais (ex: Hadassa e Shaarei Tzedek), que têm sofrido com dívidas causadas, entre outros motivos, por má administraçom.
Há quem diga também que a qualidade do serviço está a diminuir gradativamente, muito por conta do aumento do número de hospitais e planos de saúde privados, onde literalmente os mesmos médicos presentes no sistema público, oferecem o mesmo atendimento, com exceçom de um detalhe: filas, burocracias e tempo de espera menores, mas preços mais altos.    
Os convênios de saúde foram criados com base no princípio da igualdade e da ajuda mútua entre seus associados (2), muito inspirados nos ideais socialistas do início do século XX.
Por outra perspectiva, mas com significado similar, a famosa frase “Todo o povo de Israel é responsável um polo outro”, expressa na tradiçom judaico-religiosa presente no Talmud (3), reafirma a importância da ajuda mútua entre as pessoas.
Isso faz com que o SSI seja uma daquelas poucas “esquinas” em que socialistas laicos e religiosos ultraortodoxos podem concordar entre si. O SSI é um patrimônio da sociedade israelita e, por isso, todos os esforços possíves devem ser feitos para a manutençom do sistema.
Notas:
  1. http://www.themarker.com/markets/ifrs/1.2303200 ↩
  2. http://www.gertnerinst.org.il/health_policy/technology/technolog_publications/HTA_management/&mod=download&me_id=2716.↩
  3. http://www.myjewishlearning.com/article/all-of-israel-are-responsible-for-one-another/ ↩

    terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

    O NASCIMENTO DUM BLOCO GEOPOLÍTICO: O EIXO ISRAEL-GRÉCIA-CHIPRE

    Ayre Mekel

    Na semana passada vimos umha vaga sem precedentes de atividade diplomática que culminou com umha cimeira dos líderes israelita, grego e chipriota em Nicósia. Para Israel, este é um acordo win-win, que cria um novo bloco geopolítico no Mediterrâneo oriental em que as relações mais estreitas com a Grécia e Chipre contrarrestam até certo ponto a Turquia. O acordo também tem algum significado militar e de segurança.
    Cimeira grego-israelita de Nicósia a 28 de janeiro de 2016. Foto: AP
    Na terça-feira o ministro da Defesa israelita Moshe Ya'alon efetuou umha visita oficial a Atenas como convidado do seu homólogo grego Panos Kammenos. Na quarta-feira, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e vários colegas de gabinete reuniram-se em Jerusalém com o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, e com umha dúzia de membros do seu governo. Na quinta-feira, os líderes dos três países reuniram-se em Nicósia.

    A visita de Ya'alon à Grécia serviu para acompanhar a intensa cooperaçom em matéria de defesa entre os dous Estados nos últimos anos, consistente principalmente na realizaçom de manobras conjuntas da força aérea e marinha. Desde 2014 um adido das Forças de Defesa de Israel está postado em Atenas, com a responsabilidade também para o Chipre.

    Numha declaraçom na conferência de imprensa com o ministro da Defesa grego, Ya'alon disse que a Turquia apoia o terrorismo e compra petróleo da organizaçom Estado Islâmico. Na conclusom da cimeira de Nicósia, que Netanyahu qualificou de histórica, Netanyahu, Tsipras e o presidente chipriota Nicos Anastasiades emitiram umha declaraçom conjunta dizendo que sua cooperaçom nom era exclusiva, deixando claro que a Turquia poder-se-ia juntar ao grupo. Os líderes da Grécia e do Chipre salientaram que a cooperaçom nom é dirigida contra qualquer um outro estado, insinuando Turquia.

    A sombra turca pairou sobre todas as reuniões da semana passada. Os relatórios respeitantes à existência de negociações de Israel com a Turquia para alcançar um acordo de reconciliaçom, com o incentivo dos Estados Unidos, empurrou os gregos e chipriotas para alargar a sua cooperaçom com Israel. Embora a Grécia afirme que as suas relações com a Turquia sejam normais e apesar de as conversações entre os líderes turcos e gregos do Chipre para tentar resolver a crise de 40 anos, Atenas e Nicósia ainda vêem a Turquia como um potencial inimigo.

    A Grécia acusa à Turquia da movimentaçom deliberada de massas de refugiados árabes para o seu território a fim de a prejudicar, e o Chipre ainda está parcialmente sob ocupaçom turca desde 1974.

    A política de Tsipras em relaçom a Israel é surpreendente e impressionante. Tsipras, cujo partido esquerdista Syriza era muito crítico de Israel, está a levar a cabo umha política centrista tanto dentro da Grécia quanto em assuntos externos. De facto, ele continua a melhorar as relações do seu país com Israel iniciadas em 2010.

    Desde que as relações começaram a melhorar, a Grécia temia que umha reconciliaçom israelo-turca seria às suas expensas. Israel está a fazer esforços para dissipar esse medo. Tsipras quer provar que a Grécia tem o seu próprio estatuto no Mediterrâneo oriental e mesmo anunciou o seu desejo de ajudar a resolver o conflito israelita-palestiniano.

    A Grécia está preparada para ajudar Israel nas instituições da Uniom Europeia e, de facto, já provou isso quando recentemente [18 de janeiro] encabeçou os adversários [Chipre, Bulgária, Hungria e Roménia] para marcar os produtos feitos nos assentamentos da Cisjordânia.

    Esta é umha guinada na política grega na UE. Até 2010, a Grécia foi um dos Estados menos amigos de Israel, ao lado de Portugal e da Irlanda. O Chipre apoia quase automaticamente as posições da Grécia, de modo que dá à Grécia um voto duplo nas instituições da UE. Umha outra vantagem israelita é que pode incentivar a Síria para ser mais flexível nas negociações com Israel sobre a normalizaçom das relações.

    O Chipre, com certeza, tem a sua própria pontuaçom com a Turquia e também está interessado em demonstrar a sua independência aos turcos. Israel e Chipre têm laços militares próximos, que começaram a ser forjados há alguns anos durante o mandato do Presidente Comunista Demetris Christofias. Esta política está a ser confirmada polo conservador Anastasiades.

    A declaraçom conjunta em Nicósia após a cimeira tripartida disse que a cooperaçom dos estados iria concentrar-se em sete áreas: energia, turismo, investigaçom e tecnologia, ambiente, água, migraçom e combate ao terrorismo. Também se decidiu examinar o relançamento do projeto do gasoduto East Med, que poderia encaminhar gás natural de Israel para a Europa via Chipre e Grécia.

    Esta última questom está longe de ser concluída. Israel desconhece quanto gás terá, se será capaz de exportá-lo, a quem e como. Houve conversações com a Grécia e o Chipre sobre este assunto durante vários anos sem alcançar resultados reais. Deitar um gasoduto é possível, mas é tecnicamente muito complicado e vai custar vários milhares de milhões de dólares. Empresas turcas também estám interessadas ​​no gás israelita, criando mais um incentivo para a Grécia e Chipre avançar nesta área.

    A via terrestre mais direta seria através da Turquia, mas Israel quer evitá-la.

    O autor, embaixador de Israel na Grécia entre 2010-14, é pesquisador associado sênior do Centro de Estudos Estratégicos Begin-Sadat da Universidade Bar-Ilan.

    Postagem elaborada a partir de informações do jornal Haaretz, traduzidas para o galego-português por CAEIRO.

    terça-feira, 7 de julho de 2015

    O SIONISMO É UM DIREITO, NÃO UM MAL

    JOÃO K. MIRAGAYA | CONEXÃO ISRAEL

    "Sou contrário ao nacionalismo, mas estou a favor do sionismo"
    A frase citada acima é de Albert Einstein, em 1919. O famoso físico judeu alemão, ao mesmo tempo, opôs-se à visita do então ativista sionista Menachem Begin aos EUA em 1948, e emprestava seu nome e prestígio à Universidade Hebraica de Jerusalém. Einstein negava o nacionalismo como uma ideia geral, mas era um entusiasta do sionismo. Podemos compreender a frase citada como mais um produto da retórica do pilpul judaico (quem nunca escutou a expressão: “dois judeus, três opiniões”?), ou analisá-la profundamente, e perceber que ela pode fazer total sentido. Convido o leitor a fazê-lo junto a mim.

    O sionismo já foi alvo de inúmeras (e infelizes) analogias: tratado como sinônimo de imperialismo, comparado a racismo, e até mesmo considerado genocida, o sionismo não é essencialmente nada disso. O significado negativo atribuído a tal conceito é, algumas vezes por ignorância, outras por má fé, confundido equivocadamente com sua própria essência. Isto, na maioria das vezes, prova-se uma grande injustiça, e incoerência por parte da maioria dos que o fazem.

    Antes de tudo, definamos o conceito: sionismo nada mais é do que a realização do princípio de autodeterminação dos povos pela nação judaica. Sim, caro leitor. Nação judaica. O judaísmo sempre foi uma nação, ao longo de toda a sua história. O conceito de nação se modificou bastante desde a época do Rei David até os dias de hoje, mas uma constante prevalece: os judeus sempre se enquadraram nela.

    Os judeus foram uma nação durante a época do seu reinado, e quando estiveram sob domínio babilônio, persa, helenista e romano. Não deixaram este status no norte da África, na Península Ibérica e na Península Arábica, sob domínio muçulmano, tampouco na Europa cristã medieval. Por mais que os conceitos de Estado nacional e cidadania não existissem tal qual hoje em dia, os judeus não gozavam dos mesmos direitos que os povos que dominavam tais regiões. A situação não mudou durante a modernidade. Só durante um momento da história houve uma discussão se o judaísmo de fato era uma nação ou apenas uma religião, restringida ao âmbito privado da escolha individual: a conjuntura que se sucedeu após a Revolução Francesa. Foi oferecida aos judeus a possibilidade de inserir-se a nações estrangeiras, abdicando do judaísmo como nacionalidade. Deste momento entra em vigor a questão judaica.

    Parte dos judeus decidiu emancipar-se, apostar na filosofia “judeu em casa, cidadão na rua”, e transformar o judaísmo apenas em uma religião. O problema que demanda desta decisão foi o surgimento do antissemitismo nacional. Ao judeu sempre pairam as dúvidas: em uma guerra entre França e Alemanha, o judeu combateria outro judeu? Por que mesmo os judeus emancipados resistem a matrimônios com não judeus? O judeu realmente tem fidelidade à pátria não-judaica? O resultado de tal desconfiança foi a perseguição aos judeus de ponta a ponta da Europa: dos pogroms na Rússia e na Europa Oriental, tratando os judeus como culpados pelos males da nação, ao Caso Dreyfus e casos similares na França e na Europa Ocidental, demonstrando a recusa em receber os judeus como verdadeiros cidadãos.

    Os problemas que afetaram a esta parcela do povo judeu, que optou por emancipar-se e não foi realmente aceita como esperavam, compõem apenas metade da questão judaica. A outra metade emana da parte dos judeus que se recusaram a aceitar outra nacionalidade, reafirmando o judaísmo como sua identidade nacional. Este grupo se divide em três: o primeiro, dos judeus religiosos, que fecharam-se ainda mais para evitar as influências da modernidade, negando-se ao contato tanto com a sociedade maior quanto com judeus liberais. A este movimento chamamos ultra-ortodoxia judaica. O segundo foi de um grupo de judeus socialistas que exigiam o status de minoria nacional nos países onde viviam, uma vertente do austro-marxismo (1), e chegaram a criar um partido em todos os países onde se encontravam: o Bund. A história do Bund tem um final extremamente infeliz: perseguido pelo stalinismo e exterminado pelos nazistas, sucumbiu ao terceiro grupo sobre o qual falaremos: os sionistas. Um grupo de judeus que reafirmou o judaísmo como nacionalidade, e reivindicou um Estado nacional.

    O sionismo, portanto, surgiu como uma possibilidade de resolução da questão judaica. Os judeus buscavam uma forma de continuarem sendo judeus em sua plenitude, sem sofrer antissemitismo e gozando de todos os seus direitos. Criando-se um Estado para o povo judeu, onde o judaísmo fosse uma nacionalidade, o antissemitismo nacional não existiria. O sionismo é um movimento libertador, de independência do povo judeu, justamente o contrário de racismo, imperialismo e muito menos genocídio. São os judeus exercendo o seu direito ao princípio de autodeterminação como povo.

    Os judeus são uma nação a partir do momento em que se veem como uma. Quando os antissemitas enxergam os judeus da mesma forma, facilita-se muito a autodeterminação: negar direitos aos judeus, ou desconfiar de sua fidelidade ao Estado é praticamente empurrá-los à sua autodeterminação. Isso foi basicamente o que aconteceu na história recente judaica. O sionismo foi a forma que parte grande dos judeus encontrou para viver de forma independente e autônoma, algo que lhes foi negado no resto do mundo, e até hoje é dificultado em parte do globo. Vejam, por exemplo, esta notícia do ano de 2010: nos EUA, um dos países mais tolerantes com os judeus no mundo, o número de crimes contra judeus por intolerância religiosa foi de 887 em todo o ano, enquanto contra os muçulmanos foi de 107 (oito vezes menor). Se levarmos em conta que a população judaica nos EUA é aproximadamente o dobro da muçulmana, concluímos que há proporcionalmente mais que quatro vezes mais crimes contra judeus do que contra muçulmanos neste país.

    Alguns alegam que o sionismo é por definição colonialista e racista, pois nega ao povo palestino o seu próprio direito de autodeterminação nacional. Isso não é verdade. Existem, sim, correntes dentro do sionismo, que negam aos palestinos este direito, mas que não possuem o monopólio do termo nem representam a maioria dos sionistas. O princípio libertador sobre o qual o sionismo foi criado, de fato, não combina com ocupação, com bombardeios, nem com colonização. Não combina com exploração, com restrição de direitos dos palestinos, nem com expansão de território às custas da expulsão de outro povo. Estes não são os princípios básicos do sionismo. Nunca foram. E não podem passar a ser.

    Como disse Einstein em seu tempo, é correto ser a favor de um sionismo libertador, que dá direitos a um povo oprimido e lhe garante sobrevivência. Por outro lado, é necessário ser contra um outro sionismo, expansionista, colonizador e belicista. Opor-se à ideia sionista como um todo só ajuda a definir o sionismo como algo negativo, tirando força dos que lutam contra a opressão e a favor da liberdade dos povos. É necessário opor-se a estas práticas, não à ideia sionista, que na sua essência não tem absolutamente nada de racista, imperialista ou genocida, pelo contrário: opõe-se justamente a isso.

    Notes:

    (1) Teoria desenvolvida principalmente por Otto Bauer, Karl Renner e Max Adler, de que só as nações divididas a princípio, com autonomia cultural, chegariam à revolução socialista.

    FONTE: CONEXÃO ISRAEL

    sexta-feira, 8 de maio de 2015

    SOLIDARIEDADE ISRAELITA COM O NEPAL

    Estima-se que o terramoto que atingiu o Nepal no dia 25 de abril deixará um saldo de 10 mil mortos. Israel foi o primeiro país a oferecer ajuda humanitária e a enviar o primeiro aviom de resgate, já no dia seguinte à tragédia. O voo levou uma delegaçom de médicos e paramédicos e trouxe de volta mais de 200 cidadãos israelitas resgatados.

    Na segunda-feira, dous dias depois do terramoto, dous aviões da companhia aérea israelita El Al levaram ao Nepal outros 200 israelitas, entre médicos, sanitaristas e engenheiros, assim como 90 toneladas de medicamentos e equipamentos médicos.

    Nas próximas semanas, Israel manterá as suas equipas de resgate para encontrar sobreviventes e prover-lhes tratamento médico. 

    Um hospital de campanha foi montado (e doado), com 80 camas, duas salas de operaçom, 4 salas de UTI e especialistas em medicina neonatal.

    segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

    O MERETZ DEVERIA ADERIR-SE AO BLOCO HERZOG-LIVNI

    Uri Avnery, ativista da esquerda israelita, neste artigo de opinom defende a criaçom dum amplo bloco de centro-esquerda que evite a reeleiçom de Benyamin Netanyahu nas eleições antecipadas o vindouro 17 de março de 2015. 
    Uri Avnery

    Eu nom sou um membro do Meretz. Mas eu votei no Meretz nas últimas eleições, porque foi o partido que representava mais de perto os meus pontos de vista. É por isso que me permito fazer algo que abeira o cara de pau: apelo para o Meretz se aderir ao bloco de partidos que poderiam dar aos eleitores umha alternativa realista face Benjamin Netanyahu nas eleições de março.

    Meretz é um partido puro, e sua tendência natural é preservar essa pureza. No entanto, aqui estou eu, a lhe pedir um compromisso sobre um monte de coisas. Por quê?

    Porque eu vejo diante de mim um país em estado de emergência, um país em que a democracia está a morrer, os direitos humanos estam a ser pisoteados e a justiça social está a desaparecer. Um país em que os colonos e os seus emissários estám a destruir tudo de bom. Um país que está a caminhar para o abismo, um abismo do qual nom há retorno.

    A eleiçom que vem deve deter este louco galope em direçom à direita endoidecida e restaurar umha medida de sanidade para o Estado. Só após conseguirmos isso podemos dedicar-nos ao maior problema de todos: fazer a paz.

    Eu poderia compilar umha lista de todas as falhas de Isaac Herzog e Tzipi Livni, separadamente e em conjunto, a partir de agora até o fim dos tempos. Eles nom som a minha equipa de sonho. Mas eles fizeram uma grande coisa; a sua fusom despertou o centro-esquerda dum coma terminal. Eles restauraram a esperança para umha possível mudança. O público entende que um governo de direita radical nom é um fado inevitável, como se pensava apenas recentemente. O público entende que tem o poder de derrotar Netanyahu.

    A base política formada pode ser aproveitada. Para isso, Herzog e Livni merecem os nossos sinceros agradecimentos. Mas nom podemos parar aqui. O impulso que foi criado deve continuar a ganhar força. Os próximos parceiros naturais som o Meretz e Yesh Atid.

    Yair Lapid nom tem nada a perder. Se ele correr sozinho, vai sofrer um golpe humilhante. Mas num grande bloco, pode ser dissimulada a sua queda. A sua honra será salva e o seu futuro assegurado. Meretz tem mais de um problema. Mas Zahava Gal-On e os seus colegas devem considerar se eles vam correr como um pequeno partido ou fazer parte dum grande campo. Se o Meretz permanecer separado, vai manter a sua força, e pode até mesmo adicionar um mandato ou dous. Mas com isso? Como evitará isso afundar-nos no esquecimento?

    Se Yesh Atid e Meretz fizerem parte do grande bloco, eles vam equilibrar-se na opiniom pública. Este campo unido nom ficará muito de esquerda ou de direita. Afinal, nos Estados Unidos da América os equivalentes de todos esses partidos encontram-se num só partido, o Partido Democrata, e ainda há espaço.

    E o que dizer Moshe Kahlon? Sob tais circunstâncias, seria umha mágoa que ele nom se juntasse também. Enfrentado a um bloco centrista unido, cuja popularidade será esmagadora, as chances de sucesso para umha entidade independente som reduzidas. Como Lapid, Kahlon também poderia concluir que vale a pena a sua adesom ao grande bloco.

    O que irá alcançar este grande bloco? Na verdade, há uniões cujos custos excedem os seus benefícios, porque perdem votos nas margens, e existem combinações que valem muito mais do que a soma das suas partes. Estou completamente convencido de que, neste caso, este último é o caso. O público está ansioso para algo novo, grande e poderoso.

    É melhor caçar um urso juntos do que o dilacerar separadamente, um após o outro. O surgimento de tal bloco vai mudar todas as regras. Hordas de eleitores que perderam a esperança, que dizem "o que faz diferença?" e que podem ficar em casa, irám levantar-se das suas cadeiras e votarám. Essa é a massa crítica que vai mudar o equilíbrio. De repente, emergerá que a direita é umha minoria. Este bloco, juntamente com os ultra-ortodoxos e os Árabes, será capaz de formar o próximo governo.

    Nom vai ser umha simples viragem. Será umha revoluçom. Fomentar a revoluçom requer entusiasmo e autoconfiança. Exige a fé que podemos salvar o estado que fundamos. Os pessimistas nom fazem a história.

    Opiniom tirada do jornal Haaretz, traduzida para o galego-português por CAEIRO.

    terça-feira, 2 de dezembro de 2014

    A PROPÓSITO DO VOTO SOBRE O RECONHECIMENTO UNILATERAL DA PALESTINA NA ASSEMBLEIA NACIONAL FRANCESA

    A resoluçom sobre o reconhecimento unilateral da Palestina, apresentada polo Partido Socialista, foi aprovada por 339 votos contra 151 e 16 abstenções. A proposta, de tipo simbólico, "convida" o governo francês a reconhecer oficialmente o Estado palestiniano "a fim de obter um arranjo definitivo do conflito".

    A quase totalidade dos socialistas, o conjunto dos ecologistas e da Frente de esquerda, os dous terços dos radicais de esquerda e umha punhada de UMP (9) e da UDI (4) votaram em favor proposta, enquanto a grande maioria da UMP e metade da UDI votaram em contra. Entre as abstenções estám os dous representantes da FN. Até 48 deputados da UMP, 8 da UDI e 6 radicais de esquerda nom participaram na votaçom.

    A seguir reproduz-se o bloco de notas de BHL, publicado esta semana em "Le Point", no que mostra, quam frívolo, vão e, acima de todo, contrário às exigências dumha paz justa é este voto. Que o voto que se acaba de produzir este meio-dia na Assembleia Nacional desvendasse, quase mecanicamente, a oposiçom entre a "direita" e a "esquerda" é ainda mais absurdo. Poucas vezes temos visto um debate tam complexo e trágico quanto reduzido a votos piedosos, proclamações vácuas e de boa consciência e análises sumárias. Dou a palavra a Bernard-Henri Lévy.
    O filósofo Bernard-Herni Lévy
    Eu sou um partidário, desde há quase cinquenta anos, da soluçom dos dous Estados. Mas eu acho que este "reconhecimento unilateral" da Palestina polo Parlamento francês é umha má ideia por tres razões:

    1. O Hamas

    A carta de princípios e o programa do Hamas.

    O facto de o Hamas gerir um dos dous territórios constitutivos desse Estado que se quer reconhecer com grande barulho e sem demora, bem como o facto de aquele movimento ter por doutrina a necessária destruiçom de Israel.

    Nom se reconhece, embora simbolicamente, um Estado cuja metade do governo pratica a negaçom do Outro.

    Nom se reconhece, sobretudo simbolicamente, um governo cuja metade de ministros sonham com aniquilar o Estado vizinho.

    Com certeza, abra-se a mão ao seu povo. Ajudemo-lo. Sustente-se e reforce-se à outra parte, a de Mahmud Abbas, e encoraje-se para quebrar a aliança contra natura que ele ateou. Mas a soluçom adia-se enquanto esta aliança nom se quebrar, enquanto o Hamas for umha parte desse Estado que se apressa a reconhecer e que na sua carta ordena todos os muçulmanos de "vier" até "por detrás de árvores e pedras" onde se "abriguem" para "matar" os "Judeus" (artigo 7 da carta) ou enquanto esta professar (artigo 13) que "as iniciativas" e "soluções pacíficas" existentes para "resolver o problema palestiniano", como o projeto francês de hoje, se acham em contradiçom com "a fé islâmica".


    2. O momento

    O avanço mundial do jihadismo.

    E o facto de a sociedade política palestiniana se mostrar, por desgraça, para além do Hamas, de novo pouco certa sobre esta questom.

    Eu nom falo em Mahmud Abbas que condenou o atentado que acaba de causar cinco mortos a 18 de novembro numha sinagoga de Jerusalém-Oeste.

    Mas eu falo nos seus aliados da FPLP que o reivindicaram.

    Eu falo na Jihad Islâmica e, também, do Hamás que o aprovaram.

    E eu penso nesses milhares de jovens que, tam pronto conheceram a notícia, desceram à rua para lançar os foguetes e se regozijarem.

    Talvez haverá um dia em que umha maioria de israelitas acredite que a menos má das proteções contra esta situaçom seja a separaçom a seco. Mas será a sua decisom; nom a dum Parlamento espanhol, inglês, sueco ou, agora, francês, a improvisar umha resoluçom desleixada, mal suportada e, acima de tudo, inconsistente.

    Nom nos podemos horrorizar com as decapitações no Iraque e considerar negligenciáveis as mortes à faca ou ao machado em Israel.

    Nom podemos rejeitar aqui a retórica da desculpa ("os jihadistas que partiram para a Síria estám completamente perdidos, vítimas do mal-estar social ...") e, lá, consentir ("o assassino é umha vítima humilhada da ocupaçom... ").

    Nom podemos, da mão direita, reforçar o arsenal legislativo que permite na Europa combater a violência indiscriminada e, da esquerda, passar umha resoluçom que significa "eu entendo-te" aos que sonham com umha terceira intifada.

    Haverá um estado em Gaza e Ramallah. É do interesse de Israel e é o direito dos Palestinianos. Mas a nossa ingerência no assunto apenas se justifica em pedir tantos esforços a umha parte e à outra (do CNA da África do Sul ao PKK curdo, passando polo Irgun de Begin, a história está cheia organizações terroristas que se moderaram) espera-se que os grupos palestinianos sigam a mesma rota, e é também por isso que precisamos que na França ajam os homens e mulheres de boa vontade.

    3. Porque todo o problema acha-se lá

    Qualquer observador honesto nom ignora que existe caminho a trilhar polas duas partes. Qualquer partidário da paz nom nega os erros som compartilhados, por um lado, entre os governos de Jerusalém que, de Rabin a Netanyahu, nunca renunciaram à política de assentamentos e, por outro, a liderança palestiniana que oscila entre a aceitaçom do facto israelita e a rejeiçom de qualquer presença judaica em terra árabe.

    Mas é precisamente o que negam os partidários deste reconhecimento unilateral.

    É muito exatamente o que esquecem quando vam por toda a parte a repetir que "já nom se pode mais" e que "é urgente que as cousas se mexam" ou que é preciso um "ato forte" que permita "pressionar" e "desbloquear a situaçom", e que apenas encontrem como "ato forte" a imposiçom a Netanyahu o seu Estado palestiniano nom negociado.

    E o último reproche que se deve fazer é este: o seu razoamento pressupõe que apenas existe um bloqueio, o israelita, e um ator ao que é preciso pressionar, Israel, e que, no entanto, do lado palestiniano nom há nada a esperar, literalmente nada (nom se movam, nom tomem qualquer iniciativa, nom demandem sobretudo que seja declarada caduca, por exemplo, umha carta do Hamas que ressuma em cada alínea ódio aos Judeus e o desprezo do direito internacional).

    O que nom se sabe o que provoca a hostilidade a Israel, o desprezo polos palestinianos ou, simplesmente, a leveza. Mas umha cousa é certa: sem responsabilidades partilhadas, nom haverá partilha da terra e, ao isentar umha das partes da sua missom histórica e política, acreditando querer a paz, na realidade, perpetua-se a guerra.

    Artigo tirado da web de Bernad-Herni Lévy, traduzido para o galego-português por CAEIRO.

    sábado, 29 de novembro de 2014

    QUANDO A UNIOM SOVIÉTICA PATROCINAVA ISRAEL

    MICHEL RÉAL

    Em 17 de maio de 1948 a URSS reconhecia o Estado de Israel, criado três dias antes [1]. Este gesto, considerado umha grande vitória polo movimento sionista, marcava o resultado de vários anos de esforços. Os primeiros contatos tiveram lugar em Londres, nos inícios de 1941. Por enquanto, a URSS continuava a ser aliada da Alemanha nazista, o presidente da Organizaçom Sionista Mundial, Chaim Weizmann, reunia-se com o embaixador soviético Ivan Maiski. De súbito, os dous referiram-se ao futuro da Palestina. Weizmann militava pola criaçom dum Estado judeu. David Ben Gurion, dirigente do Yishuv, a comunidade judaica na Palestina, e futuro primeiro-ministro de Israel, continuaria com as trocas umhas semanas mais tarde. Apesar da oposiçom histórica do movimento comunista ao projeto sionista, o novo Estado nom iria em contra dos interesses soviéticos; porém, até 1946, Moscovo evitou o seu apoio.


    O apoio inicial da URSS foi fulcral para a criaçom do Estado de Israel

    A mudança produziu-se em maio de 1947. O Reino Unido, que conseguira da Sociedade das Nações (SDN) em 1922, o mandato sobre a Palestina, decidiu reencaminhar a questom para a ONU. Encargada de decidir sobre o futuro desse território, esta entom deu os primeiros passos. Andrei Gromyko, novo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros soviético, anunciou que a URSS poderia apoiar a divisom da Palestina em dous Estados, um judeu e um outro árabe, se a soluçom binacional resultasse impossível de implementar.

    Desde entom e até 1949 Israel contou com o suporte político, militar e demográfico da URSS de Estaline, mesmo quando o dirigente soviético iniciou umha campanha de repressom contra os Judeus, devida em grande parte à luta polo poder no cimo do partido-estado.

    Na cena diplomática, a URSS desempenhou um papel central na adopçom do Plano de Partilha da Palestina por parte da ONU, a 29 de novembro de 1947. Para além do seu, contribuiu com o voto dos seus países satélites, com a exceçom, nunca explicada, da Jugoslávia. Assim mesmo, forneceu a Israel dos recursos que mais precisava: homens e armamento.

    A batalha demográfica foi vital para o sucesso do projeto das lideranças sionistas. A populaçom judaica em Palestina representava 600.000 pessoas em 1946, quer dizer, um terço do total. Deviam, portanto, modificar a relaçom de forças. A URSS contribuiria para isso de maneira decisiva.

    Em primeiro lugar, forneceu candidatos para que viajassem à Palestina. Ao longo de 1946 permitiu a saída de mais de 150.000 judeus polacos para as zonas de ocupaçom estado-unidense e britânica na Alemanha, onde se sumaram aos campos de pessoas deslocadas. Ora bem, esses sobreviventes dos campos nazis, ou essas pessoas que, ao finalizar a guerra, se achavam sem lar nem família, nom tinham outra alternativa que a Palestina. Moscovo agravou deliberadamente este problema, pondo ao Reino Unido numha difícil situaçom. Londres sofreu umha forte pressom nom apenas do movimento sionista, mas também dos Estados Unidos. Os americanos nom a queriam receber estes refugiados no seu território, e temiam o efeito na opiniom pública das imagens desses barcos de imigrantes ilegais rumo para a Palestina expulsos sem consideraçom polas forças britânicas.

    Antes de 1948 a URSS apoiou direta ou indiretamente as operações da imigraçom clandestina organizadas pola Agência Judaica desde os países da Europa do Leste, especialmente desde Romênia e Bulgária. Dous terços dos Judeus chegaram à Palestina entre 1946 e 1948 provenientes destes dous paises.

    Após o 15 de maio de 1948 e a proclamaçom da Independência de Israel, a questom da imigraçom tornou-se ainda mais vital. Doravante, era preciso fornecer recrutas ao novo exército. Noutras palavras, alimentar os fluxos migratórios significava participar no esforço bélico israelita. Destarte, entre 1948 e 1951, mais de 300.000 Judeus da Europa do Leste chegaram a Israel, isto é, metade do total de imigrantes ao longo desse periodo.

    Aliás, Moscovo apoiou o novo Estado hebraico noutra frente da batalha demográfica: o da homogeneizaçom da sua populaçom, que acarretou a saída, e acima de todo a expulsom, de mais de 700.000 árabes-palestinianos. A URSS eximiu a Israel de qualquer responsabilidade e acusou a Londres. Em dezembro de 1948, Moscovo votou em contra a Resoluçom 194 da Assembleia Geral da ONU, que previa a possibilidade dum regresso.

    No âmbito militar, a URSS brindou a sua ajuda à causa sionista mesmo antes da criaçom de Israel. A partir do mês de maio de 1947, a compra de armas tornou-se umha prioridade para Ben Gurion. Após as pressões sovieticas, Checoslováquia tornou-se no seu principal fornecedor. Entre 1948 e 1951, Praga entregou armas ligeiras e pesadas, mesmo tanques e aviões de combate, e forneceu treino militar. Em 1968, Ben Gurion estimou que essas armas "salvaram o país": "Constituiram a ajuda mais importante que obtivemos. (...) Duvido muito que sem elas tivéssemos podido sobreviver o primeiro mês".

    Durante este primeiro período, que abrange a década de 1941-51, Israel obteve da URSS, em todos os âmbitos, um apoio que superou as suas expetativas, sem por isso poupar os seus apoios ocidentais, encabeçados polos EUA. No entanto, vários episódios iriam mais tarde semear a discórdia, chegando mesmo à ruturra das relações diplomáticas em fevereiro de 1953.

    Em primeiro lugar, produziu-se a interrupçom total da imigraçom de Judeus da Europa do Leste, onde as campanhas antissemitas alastravam. Logo a seguir, teve lugar o Processo de Praga, em novembro de 1952. Em consequência do divórcio entre Estaline e a Jugoslávia do marechal Tito, em 1948, as "democracias populares" da Europa do Leste viveram grandes expurgos. Na Checoslováquia, o secretário geral do Partido Comunista, Rudolf Slansky, detido em novembro de 1951, foi acusado de ter tramado um complô "imperialista sionista". Durante o processo, 11 dos 14 acusados eram Judeus e explicitamente foram designados como tais.

    A tudo isto acrescentar o caso das "batas brancas". Em 13 de janeiro de 1953, o Pravda publicou um comunicado no que se acusava a um grupo de "médicos sabotadores", na sua maioria judeus, de ter assassinado lideranças soviéticas por ordem dumha organizaçom judaica internacional. Vários vultos foram detidos, entre os quais, Polina Zhemchuzhina, a mulher de Vyacheslav Molotov, braço direito de Estaline; Ivan Maiski, ex-diplomático que desempenhara um papel chave nos contatos com o movimento sionista; ou mesmo Maria Weizmann, irmã do presidente israelita, Chaim Weizmann.

    A morte de Estaline, a 5 de março de 1953, deu cabo das tensões entre os dous países e marcou o fim da campanha contra os judeus soviéticos. As relações diplomáticas foram restelecidas em julho. Iniciava-se umha nova era. Porém, nom houve um retorno para a idade de ouro dos anos 1947-49. A guerra de junho de 1967, na que Moscovo apoiou o Egito e os seus aliados árabes, conduziu a umha nova rutura das relações diplomáticas. Nom seriam restabelecidas até 1991, poucas semanas antes da desapariçom da URSS.

    Michel Réal é historiador.

    [1] Sobre o período 1948-53, cf. Laurent Rucker, "Staline, Israël et les Juifs", Presses universitaires de France (PUF), Paris, 2001.

    [2] Citado em Uri Bialer, "Between East and West: Israel Foreign Policy Orientation 1946-56", Cambridge University Press, 1990.

    Texto tirado do nº 227 de Le Monde Diplomatique (setembro de 2014), traduzido para o galego-português por CAEIRO.