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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

OS JUDEUS PORTUGUESES EM NOVA IORQUE

Com a rendiçom e expulsom dos Holandeses na colónia de Pernambuco, temendo serem perseguidos pola inquisiçom, os Judeus que lá estavam decidiram retornar também para a Holanda nos 16 navios disponibilizados em abril de 1654 polo comandante das tropas luso-brasileiras, Francisco Barreto de Menezes.

Os navios deixam Pernambuco, levando os Neerlandeses e os Judeus portugueses. Quinze conseguem chegar ao seu destino, porém, um, chamado Valk, extravia-se, seguindo um périplo curioso.

O Valk enfrenta umha tempestade, tendo que desviar o seu curso entre as ilhas do Caribe, próximo da Jamaica, entom colónia espanhola. Antes de lá aportar foi atacado por piratas que tomaram os seus pertences, mantiveram-nos prisioneiros e negociaram com os espanhóis a sua troca por ouro e prata. Os mercadores espanhóis entregaram os prisioneiros às autoridades eclesiásticas da ilha da Jamaica, onde foram retidos até que umha parte do grupo foi libertada e conseguiram transporte até o importante porto do Cabo de Santo António, próximo de Cuba. Lá encontraram o capitám da fragata Saint Catherine, com o qual negociaram a viagem até Nova Amsterdão. No total, toda a viagem, incluindo a prisom na Jamaica, durou mais de seis meses.

Nova Amsterdão da América do Norte era umha ilha localizada na foz do rio Hudson (hoje conhecida como Manhattan) que tinha sido colonizada pola Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (CIO) a partir de 1625 logo de ser comprada por 24 dólares. 

Em 7 de setembro de 1654 aportaram na ilha de Manhattan 23 Judeus de Recife a bordo do Sainte Catherine, entre os quais havia homens, mulheres e crianças. O grupo estava formado por seis famílias, encabeçadas por quatro homens (Abraão Israel Dias, Moisés Lumbroso, David Israel Faro e Asher Levy) e duas viúvas (Enrica Nunes e Judite Mercado). Salvo A. Levy, três desses homens citados identificam-se como pessoas que assinaram o livro de atas da Congregaçom Zur Israel do Recife, no ano de 1648.

Os Judeus portugueses do Recife nom fundaram Nova Iorque, como vem sendo erroneamente divulgado. O que ocorreu foi que alguns deles fundaram a primeira comunidade judaica daquela que veio a ser a cidade de Nova Iorque e que veio a ser umha das mais importantes, ricas e influentes comunidades judaicas do mundo.

Todavia, antes desse grupo já se encontrava em terras da Nova Amsterdão o judeu asquenazita Jacob Barsimson (Bar Simson), que seria o primeiro judeu a se fixar na que viria a ser a cidade de Nova Iorque, aonde chegou através da Holanda e que também estivera em Pernambuco. Aconteceu que, depois do seu regresso do Brasil, saiu da Holanda, tendo aportado na Nova Amsterdão em 8 de julho de 1654, um pouco antes da chegada dos 23 judeus vindos do Recife.

Na altura de novembro de 1654 a parte do grupo detida na ilha de Jamaica polos espanhóis ainda lá estava, ocasiom em que representantes dos Judeus de Amsterdão intercederam em favor dos Judeus da nação portuguesa que partiram na fragata Valk. A sua petiçom solicitava que os cônsules holandeses de Cadis e San Sebastian interviessem junto ao rei de Espanha a fim de rogar a libertaçom dos prisioneiros judeus-brasileiros. O governo holandês deferiu imediatamente o pedido dos judeus, e no mesmo dia escreveu aos cônsules declarando, entre outras cousas, que considerava muito sério esse caso.

Os Judeus nom encontram em Nova Amsterdão a tolerância que caracterizava as possessões batavas, garantida pola Declaraçom de Utrecht. Ora, o governador holandês de Nova Amsterdão (de 1647-64), Peter Stuveysant, era um calvinista zeloso e considerava que a presença desses judeus desvalidos e da sua “abominável religiom” só traria prejuízo. Procurou entom de toda forma expulsá-los, escrevendo umha carta aos seus superiores da CIO argumentando que "se deixarmos vir os judeus nom tardam a vir os papistas". O desespero de Stuyvesant aumentaria ainda mais quando os Judeus apresentaram umha petiçom à CIO para poder fazer na Nova Amsterdão o que faziam em Pernambuco, isto é, viver livremente. A resposta da companhia foi favorável: “Após muita deliberaçom, resolvemos dar provimento à petiçom apresentada por certos mercadores [judeus] da Nação Portuguesa, julgando-a favorável, para que eles possam viajar e comerciar com e na Nova Holanda e viver dentro dos seus limites.” Na sua petiçom, aqueles judeus alegaram ser israelitas há décadas leais à Holanda e mesmo umha grande parte do capital desta companhia pertencia a judeus portugueses residentes na cidade de Amsterdão.

Mesmo assim, Stuveysant exclui os judeus do serviço da guarda colonial na Casa dos Voluntários e obriga-os a pagar um imposto, porque outros serviam no lugar deles. Diante desta situaçom Asher Levy e Jacob Barsimson encaminham um baixo-assinado para o Tribunal Colonial, objetando as medidas tomadas polo governador. Após dous anos de questom judicial, eles ganham a causa. Mas o governador nom desistiu em dificultar a vida dos Hebreus, após conquistar o território sueco ao longo do rio Delaware proíbe-os de comerciar naquele local. Novamente Asher Levy reclama da distinçom e obtêm a primeira concessom de comercializaçom em 1656.

Com a chegada, em 1655, de mais Judeus, com melhores condições financeiras provenientes dos Países Baixos, pudo-se estruturar umha comunidadeÉ fundada no mesmo ano, a Kahal Shearit Jacob (Congregaçom Portões de Jacó), posteriormente denominada Kahal Kadosh Shearit Israel (Santa Congregaçom o Remanescente de Israel), a primeira comunidade judaica da América do Norte e a única comunidade de Nova Iorque até 1825. Como era proibida a construçom dumha sinagoga as reuniões realizavam-se em casas alugadas.

Em 1664 Nova Amsterdão rende-se aos ingleses e foi cedida para a Inglaterra polo Tratado de Breda (1667), para ser renomeada como Nova Iorque, na qual os Judeus tiveram permissom de residência graças o acordo entre Menasseh ben Israel e Oliver Cronwell. Os Holandeses reconquistaram-na em 1673, rebatizando-a como New Orange, para só retomar o nome de Nova Iorque quando os britânicos recuperaram o assentamento no ano seguinte.

Em 1683 é construído em Manhattan o primeiro cemitério judaico logo de ser concedido polas autoridades britânicas. Segundo comprovaçom de pesquisas junto ao arquivo do campo santo, membros da Congregaçom Zur Israel do Recife aparecem em documentos da época. Um deles, Benjamin Bueno de Mesquita, um dos 172 subscritores do Haskamot, assinado no Recife em 30 de novembro de 1648, tem a sua lousa tumular preservada naquele cemitério.


Primeiro cemitério Shearith Israel. Foto: Wikipedia
55-57 St. James Place, Lower Manhattan, Nova Iorque
Por volta de 1695, apesar de algumhas restrições, os Judeus tinham a sua primeira sinagoga improvisada, mas nom foi até 8 de abril de 1730 que foi erguida a primeira sinagoga de raiz da comunidade em Mill Street. Consistia num simples prédio de tijolos, que devido ao crescimento comunitário mudou de lugar três vezes até se estabelecer em 1897 no local que se encontra até hoje, na Rua 70, esquina com a Avenida Central Park West. Mesmo após o número de sefarditas ter sido suplantado polos asquenazitas, a sinagoga manteve o português como língua dos seus documentos e registos até final do século XIX. Mesmo hoje cânticos e inúmeras palavras usadas nesta sinagoga som em língua portuguesa.
Esnoga Shearith Israel (desde 1897). Foto: David Shankbone
Os Judeus eram ativos no comércio. Atuavam como intermediários entre os nativos e os europeus, eram peritos na navegaçom costeira e no comércio ultramarino, atuavam como lojistas e artesãos, além de vendedores de miudezas e outros utensílios cotidianos. Pouquíssimos eram agricultores ou ricos, embora algumhas famílias dos “da nação” possuíssem patrimônios expressivos (entre os quais os Lopes, Franks, Hayman Levy, Gratz e os Lindo). 


Em termos políticos, sociais e económicos este grupo e os seus descendentes foram muito ativos na sociedade estadounidense, formando umha elite judia. Assim sendo, em 1733, estám entre os primeiros a assinarem a petiçom sobre a questom do chá que desencadeou a Revoluçom Americana. De facto, Gershom Mendes Seixas, foi aliado de George Washington na Guerra da Independência. Em 1768 os judeus portugueses som cofundadores da Câmara de Comércio de Nova Iorque. Em 1792 Benjamim Mendes Seixas, filho de Gershom, foi um dos principais impulsionadores da criaçom da Bolsa de Valores (Wall Street). O rabino português Mendes Seixas fundou a Columbia University e o Hospital Mount Sinai. Benjamim Cardozo, juiz da Suprema Corte dos EUA ligado a Franklin Delano Roosevelt... Os exemplos som muitos da vitalidade desta comunidade de judeus portugueses de Nova Iorque.


Tal como aconteceu na América do Sul, a partir de Recife, foi de Nova Amsterdão, aliás Nova Iorque, que os Judeus da nação portuguesa se dispersaram na América do Norte, estabelecendo-se ao comprido da costa leste, nomeadamente em Nova Jérsia, Montreal, Newport, Filadélfia, Charlotte e Nova Orleães. Em Rhode Island introduzem em 1750 a pesca à baleia, dominada polo português Aaron Lopez, nascido em Lisboa como Duarte Lopez. Em 1759 fundaram em Newport a Sinagoga do Touro, a mais velha sinagoga que ainda resiste na América do Norte. A pesca da baleia foi umha das atividades que levou ao longo dos séculos muitos portugueses para os EUA, em particular os açorianos.


Em 1954, por ocasiom do terceiro centenário da chegada dos primeiros judeus a Nova Iorque, o local do desembarque foi assinalado com marco em pedra colocado polas autoridades estaduais, com os dizeres (em traduçom): “Erguido polo Estado de Nova Iorque em homenagem à memória dos vinte e três homens, mulheres e crianças que aqui desembarcaram em setembro de 1654 e fundaram a primeira comunidade judaica da América do Norte”.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

OS JUDEUS PORTUGUESES EM PERNAMBUCO

Em 1630, com Portugal submetido ao domínio espanhol, as forças holandesas chegaram ao Brasil e ocuparam toda a regiom setentrional do Nordeste brasileiro (território de Pernambuco). O interesse da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (CIO),  responsável pola administración dos territorios da coroa dos Países Baixos nas Américas, achava-se nas plantações de açúcar e nos mais de 120 engenhos existentes em Pernambuco, na altura a maior zona produtora mundial desse produto.


Colónia holandesa que ocupou grande parte da regiom Nordeste do Brasil. Wikipédia
Os colonialistas holandeses trazeram consigo Judeus portugueses de Amsterdão e permitiram, como na metrópole, logo de início e de forma inquestionável, a liberdade de consciência e de culto entre as populações das suas colónias: "A liberdade dos espanhóis, portugueses e nativos, quer sejam católicos romanos ou judeus, será respeitada. A ninguém será permitido que os moleste ou os sujeite a inquirições em matéria de consciência ou nas suas casas privadas; e ningúem os ouse inquietar ou perturbar ou causar-lhes dano sob pena de puniçom arbitrária ou, dependendo das circunstâncis, de severa e exemplar reprovaçom" (Leis e Regimentos das Índias Ocidentais).

Sob a administraçom do príncipe João Maurício de Nassau, a comunidade de refugiados portugueses floresceu. Na altura de 1645 a populaçom judaica da Nova Holanda (nome dado polos holandeses à colónia de Pernambuco) era de 1.630 pessoas, aproximadamente metade da populaçom europeia. Em 1642 produzira-se a chegada de 600 Judeus portugueses que abandonaram Amsterdão. No bairro de Recife, no atual centro histórico da cidade, abriu-se em 1636 umha Rua dos Judeus (Jodenstraat).
Cidade Maurícia e o istmo do Recife em 1665. Wikipédia
Entre 1636-40 os Judeus holandeses de origem portuguesa fundaram a primeira sinagoga brasileira em Recife, a primeira em solo americano: Kahal Kadosh Zur Israel (Rocha de Israel). Posteriormente fundaram a sinagoga Kahal Kadosh Magen Abraham na Cidade Maurícia. As duas foram unificadas em 1648 com as assinaturas de 172 membros tanto de Recife como de Maurícia. A comunidade judaica organizou-se de forma completa segundo a norma da comunidade matriz de Amsterdão: umha sinagoga, as escolas religiosas e um cemitério. 
Esnoga Kahal Zur Israel, a primeira sinagoga na América. Wikipédia
Em 1642 o rabi Isaac Aboab da Fonseca, um conhecido rabi de Amsterdão, juntamente com o estudioso Moses Raphael d'Aguilar chegaram ao Brasil como líderes espirituais para assistir às congregações de Recife e Maurícia. Apesar da tolerância oficial, os Judeus sofreram certa hostilidade por parte dos calvinistas que tentaram restringir as suas liberdades.

Na altura de 1639 a Nova Holanda tinha umha florescente indústria do açúcar com mais de 120 engenhos (6 dos quais eram propriedade de Judeus). Os Judeus também tinham um papel importante no comércio, a taxaçom agrícola e finanças. Os Judeus de Pernambuco também se envolveram no tráfego de escravos, no trabalho agrícola, na milícia holandesa, no artesanato e na medicina. 

O contato com a populaçom local (incluindo muitos cristãos-novos do Sertão) foi permanente devido às atividades económicas. Em geral, durante a ocupaçom holandesa do nordeste muitos cristãos-novos regressaram ao judaismo, assumindo publicamente a sua identidade. Perseguidos pola Inquisiçom, a Nova Holanda aparecia aos olhos dos cristãos-novos brasileiros e portugueses como um oásis de tolerância, libertando-os do receio, constante e real, das torturas inquisitoriais ou da morte nas fogueiras dos autos-da-fé. 

Umha vez libertados de Espanha, em 1642 os portugueses começaram os preparativos para a libertaçom do noreste brasileiro. Em 1645 iniciaram umha guerra que iria durar nove anos. Os Judeus aderiram aos holandeses, morrendo alguns deles na resistência. Em junho de 1649 dous navios holandeses chegaram com suprimentos. Com um ataque final de proporções épicas as tropas portuguesas, comandadas polo general luso-brasileiro Francisco Barreto de Menezes, lançam-se à reconquista de Pernambuco. 

Os termos da rendiçom dos exércitos holandeses, assinados a 27 de janeiro de 1654 em Taborda, perto do Recife, som generosos para com os derrotados, dando aos Holandeses um prazo de três meses (que seria prorrogado por mais três) para se retirarem do território recém conquistado, período durante o qual, segundo os mesmos termos, “nom serám molestados ou vexados e serám tratados com respeito e cortesia.” Mesmo se garantiu que os súditos holandeses que quisessem permanecer com os seus negócios e propriedades no Brasil teriam o mesmo tratamento dos estrangeiros residentes em Portugal.

Relativamente às 150 famílias judias (por volta de 400 pessoas) do Brasil Holandês o general Barreto de Menezes mostra umha tolerância muito pouco habitual ao permitir igualmente (ajudando até) a saída dos Judeus portugueses, apesar destes terem passado a ficar sob a alçada da Inquisiçom, o que lhe teria à partida vedado qualquer possibilidade de clemência. A lei exigia a deportaçom imediata dos judeus para Portugal.

Devido à escassez de embarcações holandesas que possibilitassem uma evacuaçom total, o general Barreto de Menezes ofereceu 16 navios portugueses para transportar os Judeus e assim os ajudar a escapar à Inquisiçom. Este gesto nom seria esquecido, e os anais da história judaica portuguesa registam ainda hoje o nome de Francisco Barreto de Menezes, católico e “cristão-velho”, como um homem de nobre carácter –um hassid umot ha’olam (gentio justo e íntegro do mundo.)

Porém, os cristãos-novos convertidos do judaísmo ao cristianismo passaram a temer os castigos do Tribunal da Inquisiçom. Para este caso Francisco Barreto de Menezes, na sua proclamaçom de 7 de abril, somente admitia a prorrogaçom da permanência daqueles judeus que nunca foram batizados, alegando que “os Judeus que anteriormente haviam sido cristãos, estavam sujeitos à Santa Inquisiçom, um assunto em que nom podia interferir”. No dia seguinte à proclamaçom, um grupo de judeus solicitou, com êxito, às autoridades holandesas, umha provisom de alimentos suficiente para viajar à França no navio português São Francisco, tendo em conta que se tratava aproximadamente de 150 pessoas.

Embora a esmagadora maioria da comunidade judia partiu em direção à Holanda, outros optaram por ficar nas colónias holandesas e britânicas nas Caraíbas onde se dedicaram à indústria do açúcar, fundando novos engenhos e cultivando as mudas de cana que importaram de Pernambuco, bem como no tabaco. Ainda hoje a predominância de nomes de família portugueses (e a linguagem litúrgica) entre os Judeus sefarditas do SurinameCuraçao, Jamaica ou Barbados prova essa ligaçom ancestral.

Um outro grupo rumou para a América do Norte, que, na época, iniciava a colonizaçom da Nova Amsterdão (hoje Nova Iorque).

Enquanto a maioria dos que nom puderam fugir foram assassinados, os que ficaram no Brasil seguiram a praticar o judaismo em secreto como criptojudeus. Estas comunidades de cristãos-novos refugiaram-se nos sertões, interior do Nordeste Brasileiro, território afastado e fora do controlo das autoridades. Dedicados a atividades agrogadeiras, colonizaram a regiom do Seridó, topónimo que em hebraico significaria "sobrevivente" ou "o que escapou".

Duas décadas após a saída dos holandeses a Inquisiçom foi muito repressora dos cristãos-novos que se converteram ao judaismo durante a ocupaçom holandesa. Na segunda metade do século XVII e durante o século XVIII chegaram muitos relatórios à Inquisiçom de Lisboa relativos à existência clandestina de rituais judaicos. A política portuguesa seguida no século XVIII permitiu que os cristãos-novos se misturassem com o resto da populaçom, até a desapariçom das suas tradições judaicas devido à sua completa assimilaçom, apesar de algumhas famílias se terem esforçado por as manter, isolando-se sobretodo no Nordeste brasileiro e praticando casamentos endógenos.

Em 1655 os portugueses fecharam o maior símbolo da judiaria brasileira, a sinagoga de Kahal Zur e a Rua dos Judeus, como noutros locais da cristandade reconquistados, foi rebatizada como Rua da Cruz (hoje Bom Jesus).


A sinagoga de Recife foi reaberta em dezembro de 2001 e agora é a mais velha sinagoga existente na América. Além disto, alberga umha Sinagoga Centro Cultural Judaico de Pernambuco e algumhas cerimónias religiosas, tornando-se num importante símbolo da herança judaica do Brasil. No ano 2005 Recife recebeu de Israel o seu primeiro rabi permanente desde 1654. Em novembro de cada ano um festival judaico oferece dança, cinema e comida que atrai 20.000 visitantes.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

PORTUGAL RESTITUI A NACIONALIDADE AOS PRIMEIROS DESCENDENTES DE JUDEUS SEFARDITAS

Segundo informações do Ministério da Justiça português ao jornal PÚBLICO, em outubro foi concedida, pola primeira vez, a nacionalidade portuguesa a três cidadãos “com o fundamento” de “serem descendentes de judeus sefarditas”.

Umha vez aprovado o seu pedido, essas pessoas poderám obter um passaporte português depois de concluído o registo de nascimento na Conservatória dos Registos Centrais e de obtido o cartão de cidadão. O número de pedidos de nacionalidade que deram entrada no Ministério da Justiça, com o fundamento dumha descendência da comuniade judaica sefardita de origem portuguesa, aumentou muito nos últimos seis meses.

Embora a possibilidade da aquisiçom da cidadania portuguesa já estava prevista desde 2013, só a partir da aprovaçom em fevereiro deste ano dum decreto-lei que regulamenta esse aspecto da lei sobre a aquisiçom da nacionalidade é que se permite a naturalizaçom de pessoas que consigam provar a sua descendência de judeus expulsos de Portugal. Um processo semelhante está em curso no estado do Reino de Espanha, mas menos abrangente e mais restritivo do que o português, pois exige a presença física no país do requerente.

O número de pedidos nom deixa de aumentar. Enquanto na altura junho havia 40 pedidos de nacionalidade portuguesa de descendentes de sefarditas no gabinete da ministra da Justiça, a 1 de outubro, esse número ascendia a 204. Em 20 de outubro o total chegava aos 250.

Neste conjunto, estám mormente nacionais e residentes na Turquia (133), em Israel (55), no Brasil (20) ou nos EUA (14). Até ao momento nom há registo de requerentes nascidos ou residentes em Portugal ou Espanha. A faixa de idade dos requerentes varia entre os 19 e 81 anos.
Fonte: PÚBLICO
A comunidade judaica sefardita de origem portuguesa está formada polos descendentes dos Judeus expulsos de Portugal em 1496/97 "que nom se sujeitassem ao batismo católico". A diáspora levou-os para países como a Turquia, Holanda, Reino Unido e países do Norte de África, onde ainda subsistem apelidos de família de origem galego-portuguesa.

O diploma aprovado em fevereiro deste ano que regulamenta o nº7 do artº 6º da Lei da Nacionalidade, estabelece que “o Governo pode conceder a nacionalidade por naturalização (…) aos descendentes de judeus sefarditas portugueses, através da demonstração da tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa, com base em requisitos objectivos comprovados de ligação a Portugal, designadamente apelidos, idioma familiar, descendência directa ou colateral”. O certificado exigido aos candidatos nos processos de pedido de nacionalidade, que atestam a sua pertença à comunidade judaica sefardita de origem portuguesa som passados polas comunidades israelitas de Lisboa e do Porto.  

As motivações dos requerentes possuem, na sua maioria, um componente emocional e que tem a ver com elementos que conformam a sua identidade de origem e que estám ligadas a história familiar, país de origem, deslocamentos, comida, música,... A seguir mostram-se alguns testemunhos sobre as motivações dos requerentes da nacionalidade portuguesa:
- "A dor a expulsom também nos perseguiu e o reconhecimento da nacionalidade dos Judeus sefarditas para mim é muitos mais que um simples documento; representa a alegria de voltar e sentir umha grande injustiça ser reparada" (requerente do Marrocos).
- "Acredito que isso seja umha forma de minimizar os danos causados polas brutalidades da Inquisiçom" (requerente do Brasil).
- "Poder, finalmente, resgatar os vínculos com a terra de origem" (requerente do Brasil).
- "Umha forma de manter viva a memória de aqueles que foram obrigados a deixar a sua terra (requerente dos EUA).
- "Continuo transmitindo para as minhas filhas essa memória familiar histórica tam rica, da qual me orgulho" (requerente de Israel).
- "A intençom é fortalecer as raizes portuguesas da minha família e reconectar à cultura sefardita à qual se sente ligada" (requerente da Turquia).

Fonte: PÚBLICO e documentário "CAMINHOS" - JUDEUS SEFARDITAS PORTUGUESES da RTP2.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

OS JUDEUS PORTUGUESES NA INGLATERRA


Depois da expulsom dos Judeus dos reinos de Espanha e de Portugal, e do estabelecimento da Inquisiçom, um grupo de Judeus portugueses, aparentemente católicos, estabeleceu-se na Inglaterra, mormente nas cidades de Londres e Bristol, ligada a atividades de comércio marítimo. Na altura de 1550 já havia cerca de umha centena de membros da comunidade judaica portuguesa em Londres que praticavam o judaismo em secreto,  como as famílias Anes, Costa, Lopes, Alvares, Martin, Rebelo,...

Em 1609 os Judeus portugueses foram oficialmente expulsos de Londres acusados de judaizarem. Porém, há evidências de que polo menos umha parcela deles continuaram a viver na capital inglesa e durante todo o século XVII a colónia de cristãos-novos nom deixou de crescer.

Em 1651, Oliver Cromwell, na sua política de colocar a Inglaterra na chefia do comercio mundial, concedeu benefícios aos mercadores judeus sefarditas que se fixassem na Inglaterra. Com certeza, o estadista inglês estava ciente de que a experiência dos cristãos-novos no comércio marítimo e ultramarino contribuiria para tornar a Grã Bretanha numha potência económica mundial, já que os Judeus sefarditas portugueses constituiam umha importante rede comercial tanto nas colónias espanholas e portuguesas quanto no Levante, Índias Orientais, Ilhas Canárias, Brasil e Países Baixos. Em consequência, um considerável número de mercadores cristãos-novos portugueses (judeus) fixaram-se em Londres e formaram umha congregaçom secreta encabeçada por Antonio Fernandes do Carvalhal. A sua posiçom privilegiada permitiu que Cromwell e o seu secretário, John Thurloe, obtivessem importantes informações sobre os planos de Carlos Estuardo na Holanda e dos espanhóis na América.

Em 1656, o Rabino Menasseh ben Israel de Amsterdão (Manuel Dias Soeiro, natural da Ilha da Madeira) fez umha visita a Inglaterra para tentar persuadir o Governo Inglês a autorizar os Judeus a se estabelecerem umha vez mais em solo britânico. Foi entom que conheceu Oliver Cromwell, que se dispunha favorável à ideia. Após a deliberaçom da comissom reguladora, relativamente à questom, foi anunciado que o Decreto de Expulsom dos Judeus da Inglaterra de 1290 já nom tinha relevância. 

Aos Judeus portugueses foram entom concedidas muitas facilidades. O antedito António Fernandes do Carvalhal, natural do Fundão, e o filho dele, foram dos primeiros a fazê-lo, tendo-se tornado amigos íntimos e consultores de Cromwell. A comunidade sefardita portuguesa nom parou de aumentar com a vinda de outros cristãos-novos chegados nom apenas de Portugal, mas também de Amsterdão e Hamburgo. É durante o protecturado de Cronwell (1649-59) que se inicia o comércio do vinho do Porto com a Inglaterra. Seguidamente, em 1657 os mercadores portugueses “criaram” uma esnoga numha habitaçom, e retornaram abertamente ao Judaísmo, chegando o rabino Menasseh a oficiar numha ocasiom um serviço religioso. 

Os Judeus portugueses de Londres nom tardaram a desligar-se de Cromwel, passando a apoiar o regresso da monarquia, tirando disso evidentes benefícios. A renovaçom da Aliança luso-britânica em 1661, bem como o casamento de Dona Catarina de Bragaça com Carlos II dez anos antes foi negociada e assegurada financeiramente por estes judeus portugueses. Assim sendo, em 1664 Carlos II emitiu uma promessa formal por escrito de proteçom dos cristãos-novos portugueses e, em 1674 e 1685, outras declarações reais foram feitas confirmando essa declaraçom. 

Em 1698, a aprovaçom Lei de Supressom da Blasfémia supõe o reconhecimento à legalidade de praticar o judaísmo na Inglaterra. Esta tolerância abriu as portas à fixaçom dumha numerosa comunidade sefardita, com a chegada, ao longo dos anos, de muitos cristãos-novos de Portugal e Espanha, fugidos da Inquisiçom, entre os que se contavam importantes mercadores e médicos (Fernando Mendes, Jacob de Castro Sarmento, António Ribeiro Sanches,...). Muitos destes Judeus portugueses eram bem sucedidos e atingiram posições proeminentes na sociedade britânica, assumindo um lugar destacado na Bolsa de Londres, bem como no comércio ultramarino da Inglaterra.

Em 1690 refugiados judeus asquenazitas da Polónia e Alemanha, em número pouco expressivo, foram ajudados polos sefarditas a emigrarem para a Grã-Bretanha, onde fixaram a primeira comunidade. Nessa altura havia cerca de 400 Judeus na Inglaterra, polo que os sefarditas permaneceram como a maior comunidade por mais dum século.

A comunidade sefardita prosperou e construiu em 1701 a sua primeira esnoga em Londres, chamada Bevis MarksNas suas atas ficaram registados variados nomes de famílias de origem ibérica, tais como: Montefiore, Lindo, Disraeli, Mocatta, Da Costa, etc. Em 1705 abriu-se umha imprenta de língua hebraica.

Grande Esnoga de Londres. Foto: Wikipedia
Os sefarditas portugueses contribuiram para a introduçom na Inglaterra do popular prato de peixe com batatas frias, pois até entom os ingleses nom utilizavam o azeite na comida.

No século XVIII o grupo dos Judeus portugueses tem umha sólida posiçom no comércio marítimo, tráfico de escravos e na alta finança. A sua presença, marcada pola extrema discriçom, tem um papel muito destacado no comércio têxtil, pedras preciosas e do tabaco em Londres. Na altura de 1734 por volta de 6.000 Judeus viviam na Inglaterra.

Os Judeus sefarditas continuaram a exercer cargos de grande importância na sociedade britânica, mas somente no século XIX, após umha gigantesca vaga de refugiados polacos e da Europa de leste, a composiçom demográfica da comunidade judaica britânica foi alterada e famílias asquenazitas, tais como os Rothschilds, se tornaram proeminentes. 

Por volta de 1912, um novo fluxo demográfico de judeus sefarditas chegou à ilha, desta vez desde a Turquia e Grécia, principalmente Salónica. Devido ao declínio do Império Otomano e o controlo de Salónica polos gregos, ocorre um enorme êxodo sefardita, com muitos partindo para os EUA, França e Inglaterra. Aqueles que chegaram a Inglaterra criaram umha nova comunidade separada da histórica de Bevis Marks, aceitando no entanto, autoridade da mais antiga.

Com a ajuda da Sinagoga Bevis Marks e da Fundação David Sassoon, a comunidade sefardita oriental conseguiu construir a sua própria sinagoga em Holland Park (Londres) no ano de 1928. Embora ambas as comunidades tivessem nas suas origens os Judeus de Espanha e Portugal, foi a Sinagoga Holland Park que manteve a sua herança histórica com idioma Judeo-Espanhol e o Ladino. Polo contrário, a Sinagoga Bevis Marks tinha as suas origens quase exclusivamente na língua portuguesa, em vez do Ladino.

Hoje, existem cerca de 10 sinagogas sefarditas na Grã-Bretanha com uma forte vida comunitária, grande parte delas situadas em Londres, mas a Bevis Marks continua a ser a sinagoga sefardita “per se”.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

OS JUDEUS PORTUGUESES DE HAMBURGO

Os primeiros Judeus que assentaram nos arraiais de Hambugo foram Judeus portugueses que chegaram a essa cidade alemã em 1590 depois de passar por Antuérpia e/ou Amsterdão fugindo da opressom do reinado dos filipes nos reinos de Espanha e Portugal. Houve casos de famílias a separarem-se em dous ramos entre a Alemanha e os Países Baixos.
Quando os tripulantes e donos dos barcos que traziam os refugiados portugueses solicitaram autorizaçom de residência, esta foi-lhes concedida. Os registos indicam que em 1595 havia sete famílias portuguesas em Hamburgo.

Embora ao princípio tentaram ocultar a sua origem étnico-religiosa, quando foi descoberta a sua judeidade alguns vereadores (Burgerschaft) e o clero luterano reclamaram em 1603 a sua expulsom ao governo local. Assim sendo, o Senado da cidade consultou a opiniom ao respeito das faculdades de teologia luterana de Jena e Francoforte-do-Oder as quais, após muitas negociações, acordaram que os Judeus portugueses seriam tolerados, em troca do pagamento de impostos pola sua proteçom. Receberiam o estatuto de estrangeiros residentes, nom podendo praticar o culto judaico em público. 

Nesta decisom das autoridades alemãs pairavam os benefícios económicos que a sua presença podia acarretar nom apenas polos impostos, mas também porque o facto de serem comerciantes a sua atividade contribuiria para reforçar as relações internacionais de Hamburgo. Na sua resposta, o Senado destacou a origem portuguesa desses comerciantes estrangeiros que na altura de 1609 abeiravam a centena de pessoas.


No Norte da Europa o termo Português já era comum na designaçom dos Judeus serfarditas conversos, fossem eles de origem espanhola ou portuguesa. 

Como nom estava permitida a abertura de cemitérios próprios a nom luteranos na cidade, em maio de 1611 três Judeus portugueses compraram umha courela em nome das congregações que já existiam na cidade. A terra estava localizada em Heuberg, na atual Königstrasse, no bairro de Altona, nessa altura dependente do condado do Holstein. O cemitério, usado até 1871, seria alargado em várias ocasiões durante os séculos XVII e XVIII. O primeiro enterramento neste cemitério sefardita teve lugar em 1611, data gravurada na campa mais antiga que se conserva.



Ao abrigo de regulamentações comerciais (Kaufmannshantierung) que o Senado concedia a todos os comerciantes estrangeiros, em 1612 o próprio Senado assinou um tratado com a “natio lusitana” que garantia aos Judeus portugueses residência e plena liberdade no exercício das suas profissões, impondo-lhes, todavia, grandes restrições no domínio religioso. Segundo umha lista nessa altura a comunidade sefardita estava formada por 125 adultos, para além de funcionários e crianças. 

Os Judeus portugueses conseguiram a igualdade de direitos para a exportaçom e importaçom,  o que significou que poderiam desenvolver as suas relações comerciais,  nom apenas com familiares e parceiros em Portugal, mas também nas novas colónias. Previamente, no início do século XVI, o rei D. Manuel I concedera privilégios a Hamburgo que, pola sua vez, enviara o seu primeiro cônsul para Lisboa em 1566.

Com as suas atividades, os mercadores portugueses, aliás em sintonia com outros grupos estrangeiros, sobretudo Holandeses e Ingleses, deram novo fôlego a Hamburgo que naquela altura atravessava uha fase difícil em consequência do declínio em que tinha entrado a Liga Hanseática. O porto de Hamburgo ficaria ligado ao novo pivot comercial que já nom era o Mediterrâneo nem o Báltico, mas sim o estuário do rio Tejo.

O tratado assinado com o Senado era renovável a cada cinco anos e em 1617 os cristãos-novos portugueses obtiveram o direito de eleger quatro representantes dentre a comunidade para integrar a Bolsa de Hamburgo (o primeiro mercado de valores da Alemanha), sendo aumentada posteriormente essa representaçom para quinze. Logo a seguir é duplicada a taxaçom que os Judeus deviam pagar à cidade e que em 1612 era de 1000 marcos.

À vez que se estabelece a comunidade sefardita, a partir de 1610 chegam a Hamburgo os primeiros grupos de Judeus asquenazitas, os quais, no entanto, a princípio, apenas podiam trabalhar como empregados nas empresas ou famílias sefarditas. Sem qualquer reconhecimento legal, a congregaçom asquenazita nom se irá formar até a década de 1660. 

Os Judeus portugueses encetaram e impulsionaram o comércio com a Espanha e Portugal e as suas colónias. Por exemplo, em 1621, 85 barcos vindos de Hamburgo aproaram para Lisboa, mais do que para os outros portos ibéricos juntos. E, em 1623, aportaram em Hamburgo 101 navios portugueses, quer dizer, o dobro dos barcos espanhóis. Foi através dos portugueses e das suas actividades comerciais que importaram gêneros coloniais (Kolonialwaren), como várias especiarias, o açúcar de cana, o café, o tabaco, algumas fazendas como a chita, pedras preciosas e corais. A importaçom daqueles artigos luxuosos contribuiu para a formaçom dum estilo de vida mais requintado da burguesia desta metrópole do Elba. Um outro artigo de luxo introduzido polos Judeus portugueses sefarditas foram as faianças, conhecidas de «Hamburger Fayencen», mas que eram feitas por encomenda em Portugal e depois exportadas para Hamburgo. Entre as mercadorias menos luxuosas destaca o sal marinho, preferido ao próprio sal-gema alemão, e a marmelada. Como no caso da comunidade de Bordéus, os Judeus portugueses despontaram no tráfico de escravos, “mercadoria” muito cobiçada polos capitalistas alemães.

Para além do comércio, os Judeus portugueses envolveram-se no comércio grossista, como financeiros, construtores navais, tecelões ou ourives, o que ajudou muito a impulsionar o comércio da cidade. De facto, em 1619 tiveram um papel proeminente na fundaçom do primeiro Banco de Hamburgo, encontrando-se quatro portugueses entre os seus fundadores, entre os quais o abastado António Faleiro.

Registos de 1627 atestam a existência dumha Esnoga (Talmude Torah) frequentada polos Portugueses da Naçom hebreia na casa de Eliah Aboab Cardoso. O imperador Fernando II de Habsburgo encaminhou umha queixa ao senado sobre esta “sinagoga”, já que nom estava permitido que os católicos abrissem umha igreja em Hamburgo nessa altura. Porém, apesar deste protesto e dos ataques violentos do clero luterano, o Senado hamburguês continuou a proteger. O primeiro rabi oficial chegou da Veneza. Também se abriram mais duas sinagogas (Keter Torah e Neveh Shalom). Em setembro de 1652 as três congregações uniram-se na grande Esnoga Portuguesa de Hamburgo sob o nome Beth Israel e cujo Rabi-chefe (rabino da nação) foi erudito David Cohen de Lara.

O fim do armistício entre Espanha e os Países Baixos em 1621 faz com que Judeus portugueses fixados em Amsterdão rumem para Hamburgo e outras cidades do norte (Emden, Stade ou Glückstadt). Em consequência, em 1650 a comunidade judaica sefardita de Hamburgo está formada por 1.200 "portugueses", número muito significante, levando em conta que naquela altura a cidade tinha só 30.000 habitantes. 

Com o intuito de inserir a Dinamarca no comércio de especiarias e diamantes, controlado polos mercadores Judeus portugueses, em 1622 o rei Christian IV, convida aos Judeus conversos Portugueses de Amsterdão estabelecerem-se em grandes centros comerciais do seu reino, como Glückstadt, cidade alemã sob o controlo dele. Em consequência, os Judeus portugueses concentraram-se nos ducados de Holstein e  Schleswig, onde mantinham suas Esnogas.


Entre a comunidade havia elementos distinguidos pola sua riqueza e influência política dentre os quais os reinos da Suécia, Polónia e Portugal nomearam Judeus portugueses como os seus embaixadores em Hamburgo. Outros membros eram responsáveis dos assuntos financeiros de reis. O caso mais notório é o do rico e poderoso Manuel Teixeira, cônsul e conselheiro de finanças da rainha Cristina da Suécia. Foi graças aos seus residentes portugueses que Hamburgo se tornou num lugar de destaque no palco diplomático e na vida mundana.

Entre os proeminentes membros da comunidade sefardita que moravam em Hamburgo estava o físico e autor Rodrigo de Castro (1550–1627), da família de Castro, considerado maior médico do seu tempo, assistindo a doentes que se espalhava por toda a Europa, incluindo vários reis e membros da alta nobreza. Autor de vários livros, nascera em Lisboa no seio de uma família de ilustres médicos e chegou a Hamburgo via Antuérpia.

Os Judeus portugueses fixados em Hamburgo mostraram também um talento especial para as línguas, entre os quais, o lexicógrafo e físico Benjamin Mussafia (1609–72), o gramático e escritor Moses Gideon Abudiente (1602–88), autor da Gramâtica Hebraica, o rabi e escritor Abraham de Fonseca (finado em 1651) e o poeta José Arefati (f. 1680). Samuel Habas, professor e prestigiado dirigente da comunidade portuguesa de Hamburgo, deixou uma biblioteca com mais de 1100 volumes, a qual, após a sua morte, em 1691, foi leiloada em Amesterdão. O judeu de naçom portuguesa Manuel Teixeira, por exemplo, dominava cinco línguas: além de português e alemão, falava espanhol, francês e italiano. E ainda no século XIX, a grande figura dos grémios literários de Berlim, Henriette Herz, filha do médico de origem judia galego-portuguesa de Hamburgo Benjamin de Lemos (1711-89), um médico conhecido que foi diretor do hospital judaico de Berlim, falava nada menos do que dez línguas.

«Die Portugiesen», como eram conhecidos entre a populaçom de Hamburgo foram portadores de nomes bem galego-portugueses como Andrade, Teixeira, Rodrigues, Matos, Faleiro, Dinis, Mendes, da Costa, Cardoso, de Castro, Brandão, para mencionar alguns exemplos. Só para uso interno dentro da comunidade judaica, assumiram nomes hebraicos e para o comércio marítimo deram umha forma germânica aos seus nomes (por exemplo, João Francês foi mudado para Hans Franzen e Paulo de Milão para Paul Dirichsen). Tratou-se dumha manobra para ludibriar a Inquisiçom o que, aliás, nom resultou devido a traidores, e por isso os arquivos da Inquisiçom na Torre do Tombo são a fonte de informaçom mais exaustiva sobre os portugueses de Hamburgo.

Naturalmente falavam português entre si e essa língua continuou a ser meio de comunicaçom até ao séc. XVIII. Ainda em 1785, Abraão Meldola publicou a sua Nova Grammatica Portugueza, enquanto as inscrições nas lápides das campas do cemitério na Königstraße, tal como os registos e a correspondência da comunidade, são em português durante grande parte do séc. XIX.

Quando os Judeus portugueses começaram a construir umha sinagoga, em 1673, espalhou-se uma onda antissemita e o Senado da cidade-estado mandou arrasar o edifício, que ainda estava em obras. Nos fins 1697 os editais municipais puseram em causa  a liberdade religiosa obtida polos Judeus portugueses ao serem submetidos a umha taxaçom anual muito elevada (6.000 marcos). Em consequência  muitas das ricas famílias judaico-portuguesas começaram a deixar a cidade rumando para Amsterdão ou o bairro de Altona (desde 1640 enclave dependente da Dinamarca e onde já existia o cemitério judaico). As brigas internas e especialmente a retirada de Jacob Abensur, ministro residente de Augusto II o Forte, bem como dos seus seguidores provocaram o declínio da comunidade sefardita de Hamburgo. 

A severa regulamentaçom anti-judaica tornou Hamburgo numha cidade hostil para os Judeus portugueses e foi preciso esperar pela liberalização do século XIX para a vida regressar à normalidade.

Nos inícios do século XVIII inicia-se o declínio cultural e social da comunidade sefardita de origem portuguesa, em parte devido à ascensom dos judeus asquenazitas. Em 1710 umha comissom imperial fixou o estatuto dos Judeus asquenazitas e sefarditas de Hamburgo através do "Reglement der Judenschaft in Hamburg sowohl portugiesischer als hochdeutscher Nation" (Regulamento da Judiaria de Naçom portuguesa e alto-alemã de Hamburgo), promulgado em nome do Imperador José I. Doravante este édito tornou-se na legislaçom fundamental que regulou o tratamento dos Judeus em Hamburgo. 

No entanto, os Portugueses, orgulhosos da sua nobre linhagem, rejeitaram terem sido colocados no mesmo nível que os Judeus alemães e isolaram-se a cada vez mais, o que contribuiu para o declínio referido. Umha outra parcela, constituida por treze famílias, migrou em 1703 para Altona, onde construiram em 1770 a comunidade de Neveh Shalom. Em Altona os judeus asquenazitas, diferentemente dos Judeus Portugueses, eram obrigados a visto e pagamento de impostos para viverem sob a coroa dinamarquesa.

Com a anexaçom de Hamburgo em 1810 ao primeiro Império Francês, os habitantes tornaram-se em cidadãos franceses com igualdade de direitos, salvo os Judeus, discriminados polo chamado decreto infame. A congregaçom sefardita Beth Israel passou a depender do Consistório Judaico Francês. Em 1814 Hamburgo recuperou a sua independência como cidade-estado, sendo restaurado o velho Regulamento da Judenschaft consoante a Confederaçom Germánica.

Em 1842 a principal Esnoga portuguesa em Alter Wall foi queimada no grande incêndio da cidade. Entre 1855 e 1935 os sefarditas possuiram um pequeno prédio comunitário em Markusstrasse 36. 

As reformas liberais de fevereiro de 1849 trouxeram o reconhecimento dos direitos de cidadania para os Judeus de Hamburgo (Emancipaçom judaica) ao adoptar a cidade-estado a legislaçom da Assembleia Nacional de Francoforte. Em Altona, dependente da Prússia desde 1866, os Judeus conseguiram a cidadania em 1863 através dumha lei dinamarquesa. Porém, em 1887 a comunidade foi dissolvida devido à falta de membros.

No decorrer dos séculos XVIII e XIX produziu-se umha diminuiçom da influência portuguesa em Hamburgo e no Reino de Dinamarca. Enquanto na Judiaria de Hamburgo os Judeus portugueses perderam peso com a chegada de judeus asquenazitas, no Reino de Dinamarca as poucas familias judaicas portuguesas migraram para Amsterdão, Londres, Hamburgo e Américas. Assim sendo, no ano de 1900, nom haviam mais que 400 pessoas da Naçom Portuguesa entre os Judeus residentes em Hamburgo.


No início da era nazista os descendentes dos Judeus portugueses, entre 150-200 pessoas,  começaram a deixar a Alemanha, muitas delas em direçom a Portugal. Lisboa e o Porto tornaram-se verdadeiros portos de abrigo. Ainda durante a guerra, muitos destes Judeus saíram de Portugal em direçom à Palestina, a Inglaterra ou aos Estados Unidos. Mas nem todos conseguiram sair a tempo de Hamburgo, e a derradeira centena que nom conseguiu fugir foi deportada para os campos de concentraçom nazis de Theresienstadt, de Auschwitz, Dachau e Lodz, onde foi morta.


Durante o nazismo a comunidade sefardita de Hamburgo tornou-se na única da súa espécie na Alemanha. Enquanto todas as discriminações antissemitas abrangeram os seus membros com a mesma dureza que aos asquenazitas, a congregaçom nom foi o principal alvo de agressões ativas. Em 1935 a comunidade portuguesa deslocou-se para um prédio de Innocentiastrasse #37, em Harvestehude, deixando a velha esnoga à congregaçom asquenazita. A Esnoga nom foi atacada na noite do pogrom de novembro.

Quando Hamburgo foi  libertado em 3 de maio de 1945 polas tropas britânicas já nom havia comunidade portuguesa em Hamburgo. Ficou o cemitério da Koenigsstrasse, que sobreviveu por milagre aos bombardeamentos aliados, mas foi repetidamente profanado e as sinagogas demolidas polo regime nazi.

No pós-guerra os Judeus portugueses de Hamburgo cairam em completo esquecimento e, quando em 1989 foi comemorado o 800º aniversário do seu porto, ninguém se lembrou deles e do contributo valioso que deram ao desenvolvimento económico e cultural da cidade-estado.


Entre as pesquisas realizadas relativamente ao cemitério sefardita de Hamburgo destaca a realizada por Michael Halévy, que fez um exaustivo levantamento das suas lápides e inscrições funerárias, permitindo reconstruir as grandes linhagens da "nação portuguesa" em Hamburgo. Hoje pode ser visitado apenas por convite. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

OS JUDEUS PORTUGUESES DE AMSTERDÃO

Após se independizar de Espanha, em 1581 a República das Sete Províncias Unidas foi o primeiro estado a estabelecer legalmente a liberdade religiosa. De acordo com os Estatutos da nova República, ninguém em território neerlandês devia ser importunado por motivos religiosos, desde que nom perturbassem a ordem social, fossem estes os seus habitantes ou simplesmente visitantes. Destarte, este país oferecia perspectivas para umha vida em liberdade aos cristãos-novos perseguidos em Portugal, assinalando-lhes a possibilidade de retornarem ao judaismo. Portugal vivia sob ocupaçom espanhola desde 1580.
Amsterdão no século XVII
Assim sendo, por volta de 1590-93, isto é, nos primeiros anos da ocupaçom espanhola de Portugal, famílias portuguesas de ascendência hebraica começaram a fixar-se em Amsterdão, criando umha importante comunidade. Embora a maioria procedia diretamente de Portugal, muitos outros vieram de Antuérpia logo depois de esta cidade flamenga cair em mãos dos espanhóis. Nom só os Judeus portugueses se refugiaram em Amsterdão, mas também os Judeus procedentes dos reinos de Espanha, que se chamaram de "Portugueses" para evitar a identificaçom com a Espanha que entom estava em guerra com a República Holandesa no quadro da Guerra dos Oitenta Anos. De resto, muitos destes Judeus portugueses tinham as suas origens nos diferentes reinos de Espanha.

Tratava-se dumha elite sefardita, portadora de contatos comerciais em redes internacionais, mantidas sobretudo por elos familiares, nom só através da Europa, Próximo Oriente e África do Norte, mas também com aqueles centros da Península Ibérica que abandonaram. Porém, o facto de se terem fixado em Amsterdão responde a que estes refugiados portugueses nom foram admitidos em centros comerciais como Middelburg ou Haarlem. Sob a influência desta elite judaico-portuguesa Amsterdão, cidade portuária e comercial, nom apenas cresceu rapidamente tornando-se no principal porto europeu, mas contribuiu para a consolidaçom da República das Províncias Unidas e a expansom marítima holandesa. 

Muitos Judeus apoiaram a Casa de Orange e em troca foram protegidos polas autoridades e receberam apoio para combaterem no exterior os espanhóis. Estes portugueses conduziram os holandeses ao cerne do Império espanhol e do Império português dominado nessa altura pola Espanha. A experiência, capitais e trabalho dos Judeus portugueses em 1602 criou-se a conhecida Companhia das Índias Orientais que procurou ocupar e conquistar as principais colónias espanholas e portuguesas e outras regiões do mundo.

A Judiaria de Amsterdão fixou-se a leste do centro da cidade (Centrum), na ilha de Vlooienburg, rodeada polo rio Amstel e os canais. O bairro judeu (Jodenbuurt) estava limitado polo río Amstel (a SO), os canais de Zwanenburgwal e Oudeschans (a NO) e a Rua Rapenburg (NL). A principal rua da ilha, Breestraat, rapidamente tornou-se em Jodenbreestraat (Grande Rua Judaica). Lá eles começaram a se estruturar económicamente (ligados principalmente ao comércio e os maiores, aos negócios do açúcar) e religiosamente. Os Judeus deram ao seu novo lar, Amsterdão, o nome hebraico de Mokum para mostrar o seu conforto na cidade holandesa.

Em 1599 há registos de que haveria cerca de 100 Judeus portugueses em Amesterdão. Em 1610 seriam perto de 200, 500 em 1612, 1.000 em 1620 e 2.500 em 1672. 

Em 1616, a República Holandesa incumbe ao jurista Hugo Grotius, alcunhado como “pai da legislaçom internacional”, a definiçom do estatuto legal dos Hebreus no seu território. Este reafirmara a presença daqueles como benéfica e até mesmo desejável para o desenvolvimento socioeconómico da naçom, ressaltando a preeminência da liberdade religiosa e objetando a utilizaçom de qualquer símbolo que viesse a os denegrir ou o seu confinamento em guettos como noutras partes da Europa. Destarte, as decisões relativas aos Judeus ficavam a cargo dos governantes de cada cidade especificamente. 

Assim sendo, por decisom do Conselho Protestante da Cidade de Amsterdão, abriram-se possibilidades para o desenvolvimento livre, aberto e público da identidade etno-religiosa judaica. Contodo foi-lhes negado o casamento com cristãos ou terem filhos com eles, bem como a conversom de cristãos ao Judaísmo ou o acesso dos israelitas a cargos governativos. Esta última condiçom, na verdade, fora generalizada a todos os que nom pertenciam a Igreja Reformada. 

Em 1621 os Judeus portugueses de Amsterdão contribuiram grandemente para a fundaçom da Companhia Holandesa das Índias OcidentaisEsta companhia, fundada por calvinistas refugiados na República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos para fugir das perseguições religiosas no mundo católico, recebeu, pouco depois, um alvará de monopólio do comércio com as colónias ocidentais do Caribe, bem como do tráfico de escravos com o Brasil, o Caribe e a América do Norte, podendo operar na África, entre o trópico de Câncer e o Cabo da Boa Esperança, e em toda a regiom das Américas, incluindo o Pacífico.

O principal objetivo da Companhia era o de eliminar a concorrência espanhola e portuguesa nas principais rotas do comércio. Apesar de o envolvimento dos Judeus sefarditas no seu capital ser mínimo, por relaçom à totalidade do investimento, nom há dúvidas de que o seu envolvimento favoreceu as relações entre a Holanda e as colónias da América Latina. O judeu português Isaac de Pinto foi no século XVIII um dos 19 administradores, os Heeren XIX, e teve, junto ao seu pai David, umha grande influencia no governo da República das Sete Províncias Unidas.

A ocupaçom de Pernambuco (Brasil), em 1630, foi financiada e assegurada por um grupo de Judeus portugueses, entre os quais sobranceam Manuel Mendes de Castro, Issac Aboab da Fonseca, Abraão e Isaac Pereira, David de Aguiar, Moisés Rafael de Aguilar,... Em 1642 por volta de 600 judeus portugueses de Amsterdão rumaram para colonizar a colónia de Pernambuco, tornando-se nos proprietários dos engenhos de açúcar que lá foram instalados. Em muitos outros locais a situaçom era idêntica.

Numha carta de novembro de 1622, o rei Cristião IV da Dinamarca convida os Judeus de Amsterdão para se fixar em Glückstad, onde estaria garantido o livre exercício da sua religiom.

Muitos judeus portugueses financiaram a causa independentista de D. João IV e a guerra contra a Espanha, graças à açom diplomática do padre António Vieira que bem defenderia, sem qualquer sucesso, a nom perseguiçom e o regresso dos Judeus a Portugal. Nessa altura Amsterdão associava-se à banca e comércio dos cristãos-novos de Hamburgo e de Londres.

Essa proveniência de famílias de empreendedores, comerciais, abastadas e de estilos de vida correspondentes a círculos mais privilegiados da sociedade portuguesa explica que ganharam na Holanda um rótulo de gente de cultura, de dinheiro e influência política.

Para além de mercadores, entre os Judeus portugueses de Amsterdão havia um grande número de físicos/médicos. Os Judeus foram admitidos como estudantes na universidade, onde estudaram medicina como o único ramo da ciência que era de uso prático para eles, pois eles nom tinham permissom para exercer a advocacia. Em 1632 umha resoluçom aprovada pola cidade de Amsterdão impediu os Judeus de fazerem parte dos grémios de mercadores. Porém, foram feitas exceções no caso de comércios ligados à sua religiom (impressom, venda de livros, venda de carne, aves, alimentos e medicamentos) ou atividades como o corte de diamantes, finanças. Excecionalmente, em 1655 um judeu foi autorizado para estabelecer umha refinaria de açúcar.

Os cristãos-novos portugueses, embora nom formalmente reconhecidos como cidadãos, desfrutaram da liberdade religiosa e proteçom das suas vidas e propriedades, especialmente relativamente às potências estrangeiras.

Os cristãos-novos praticaram os seus cultos primeiramente em casas de comerciantes, em especial portugueses. Em 1610 construiu-se a primeira sinagoga, em 1612 a segunda e em 1618 a terceira, localizada nuns armazéns adquiridos por José Pinto. Quatro anos antes a comunidade israelita obteve umha área em Ouderkerk aan de Amstel, nos arredores de Amsterdám, para a construçom do seu cemitério (Beth Haim). O cemitério português de Amsterdão é outro exemplo da dimensom social, económica e cultural da judiaria portuguesa. Nele foram sepultados mais de 27.500 Judeus portugueses e os seus descendentes. Muitas campas ainda ostentam brasões portugueses testemunhando o elevado estatuto social destas famílias.
 Cemitério judaico-português de Amsterdão Fonte
Fonte: Sepharad Jewish Heritage
Em 1639 as très congregações uniram-se, sendo inaugurada em 1675 a Esnoga Portuguesa de Amsterdão. A Torah que aí existe, datada do início do século XIV e que veio de Hamburgo para Amsterdão em 1604, é portuguesa. A sinagoga possui umha excecional biblioteca (Ets Haim), criada em 1615, para a formaçom dos rabis da comunidade.

 Esnoga judeu-portuguesa de Amsterdão Fonte
A Sinagoga portuguesa de Amsterdão, conhecida de Esnoga, juntamente com a Velha Sinagoga de Praga, é o mais antigo templo judaico que funciona no mundo.

A comunidade portuguesa iria inspirar a fundação de comunicadades judaicas semelhantes em Recife, Nova Amsterdão (agora Nova Iorque), Londres e Curação. Isto pode-se ver claramente no Mikvé Israel-Emanuel da sinagoga de Willemstad, cujo interior é umha cópia da Esnoga de Amsterdão.

Os Judeus da naçom portuguesa implantaram mesmo um dialeto próprio, conhecido por judeu-português, umha língua escrita em caracteres hebraicos, utilizada nos registos da esnoga, que nom sobreviveu em Portugal mas foi falada e escrita na Holanda até ao século XIX. Na atualidade a língua portuguesa ainda é utilizada nos assuntos nom religiosos da comunidade.


Paralelamente à chegada dos Judeus portugueses, produziu-se a dos judeus dos territórios da Europa do Leste (os chamados Asquenazitas), mais numerosos e normalmente mais pobres do que os portugueses, contribuindo os dous grupos para a conformaçom da judiaria holandesa. Em 1672 havia em Amsterdão 5.000 judeus asquenazitas contra 2.500 sefarditas.

No século XX depois da invasom pola Alemanha na Segunda Guerra Mundial mais de 80% dos Judeus holandeses foram exterminados polos nazistas. Na altura em que os Países Baixos foram ocupados polos nazistas, a populaçom judaica de Amsterdão era de 75.000 pessoas (79.000 em 1942). Os Judeus representavam menos de 10% da populaçom total da cidade. 

Os sobreviventes da Shoa e os seus descendentes trabalharam duramente para reconstruir a comunidade portuguesa de Amsterdão. Hoje o número de membros, embora lentamente, está a crescer e por volta de 250 famílias integram umha comunidade de quase 630 pessoas. No entanto, os muito poucos nomes de família portugueses na Holanda, têm ainda uma aura de prestígio, intimamente ligado ao afluxo de Judeus portugueses nos séculos XVI e XVII.