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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

JUDEUS PORTUGUESES EM ANTUÉRPIA

A primeira comunidade judaica de origem portuguesa na Antuérpia, local onde o rei D. Manuel fundara umha feitoria, fixou-se nesta cidade ao abrigo do salvo-conduto geral que o imperador Carlos V emitiu a 30 de março de 1526. 

Em consequência, umha comunidade de cristãos-novos fixaram-se na Rua Nova ou Rua dos Judeus dessa cidade flamenga sob domínio espanhol, entre os quais ricos banqueiros e mercadores (a família Mendes-Nasi).


Apesar de depender de Espanha, umha monarquia católica, os cristãos-novos foram poupados das atividades da Inquisiçom, que nessa altura ainda nom fora autorizada em Flandres (Países Baixos do sul). No entanto nunca deixou de pairar a ameaça da perseguiçom sobre a comunidade, suspeita de judaizar ou de ajudar o movimento da Reforma. De facto, o próprio D. João III chegou a interceder pola libertaçom de Diogo Mendes, denunciado por judaizante, junto de Carlos V.

Entretanto, lá floreceram as famílias Ximenes e Rodrigues d'Évora entre um grupo importante de banqueiros que tiveram relações comerciais com as Índias Orientais e o Brasil. Entre estes Judeus portugueses desenvolveu um papel marcador os irmãos Francisco e Diogo Mendes, pertencentes à família Mendes-Nasi, tornando-se o segundo deles num dos mais importantes banqueiros, empresando dinheiro tanto ao rei de Portugal quanto ao imperador espanhol ou a Henrique VIII da Inglaterra. A companhia "Herdeiros de Francisco e Diogo Mendes" seria administrada, logo após a morte de Diogo em 1543, pola viúva de Francisco, Dona Gracia Mendes (Gracia Nasi) e o seu sobrinho João Miques (Joseph Nasi). 

A enorme riqueza de Gracia Mendes permitiu-lhe influenciar a reis e papas com o intuito de proteger os cristãos-novos, estabelecendo, a partir de Antuérpia umha rede clandestina de fuga de Portugal. O transporte destes refugiados judeus era realizado secretamente nos navios de especiarias de propriedade ou operados pola companhia Mendes-Nasi que regularmente navegavam entre os portos de Lisboa e Antuérpia. Em Antuérpia Gracia Nasi e a sua equipa davam-lhe instruções e dinheiro para viajarem de coche ou a pé através dos Alpes até a cidade portuária de Veneza, onde eram feitos os arranjos para embarcar rumo para o Império otomano. Apesar de contar com umha rota de fuga cuidadosamente planejada, muitos refugiados morreram ao atravessar as montanhas dos Alpes.

Os Judeus portugueses também despontaram nas relações diplomáticas, destacando Diego Teixeira de Sampaio (Abrahão Senior) como cônsul e tesoureiro geral para o governo espanhol, bem como o seu filho Manuel Teixeira (Isaac Hayyim Senior), que o sucedeu como agente financeiro da rainha Cristina da Suecia. Manuel Teixeira foi um membro proeminente da Bolsa de Hamburgo e participou ativamente na transferência de subsidios europeus ocidentais para as cortes alemãs ou escandinavas.

Foi tal o prestígio deste refugiados portugueses de Antuérpia que Thomas Moro escolheu para a personagem principal da sua obra Utopia (1516), um velho e sábio marinheiro português fixado nessa cidade (Rafael Hitlodeu).


A comunidade judaico-portuguesa estabelecida em Antuérpia assistiu a umha progressiva degradaçom das suas condições de segurança e liberdade ao longo da década de trinta, sob a pressom das constantes iniciativas tuteladas pola regente, Maria de Hungria, e polo seu irmão, Carlos V. No final dessa década, ganha forma a intolerância religiosa dos espanhóis e acentua-se um largo movimento de transferência de pessoas e capitais para os estados italianos. 

Esses fatores, combinados com as flutuações políticas e econômicas, influenciaram os soberanos espanhóis para reverem a sua atitude face os cristãos-novos em Flandres várias vezes. Assim sendo, apesar da oposiçom do município neerlandês, em 1543 foi decidida a expulsom da Antuérpia de todos os cristãos-novos, edital renovado em 1550. Estas perseguições fizeram com que Antuérpia se tornasse um local de passagem para outros territórios refúgio (nomeadamente França, Itália e terras turcas), sendo substituída, nos finais do século XVI, por Amsterdám. Em 1544 a família Mendes-Nasi ruma para a República de Veneza.

Apesar disto um grupo de famílias continuou a residir em Antuérpia sem direitos de domicílio. Neste período a populaçom dos Judeus da naçom portuguesa flutuou entre 102 famílias em 1572, 47 famílias em 1591 e 65 pessoas em 1666. 

Após a Paz de Vestefália (1648), os cristãos-novos puderam reassentar em Antuérpia, e mesmo chegaram a estabelecer um modesto local de culto. Porém, a maioria apegou-se à comunidade hebraica de Amsterdám. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

JUDEUS PORTUGUESES NO GOLFO DA GASCONHA

O País Basco do Norte (Iparralde) e a regiom occitana da Gasconha foram uns dos territórios de refúgio escolhidos polos Judeus e cristãos-novos portugueses entre os séculos XV e XVIII na procura de “terras de liberdade”, isto é, regiões nas quais a prática do judaísmo era tolerada ou permitida sem as inquirições e repressom inquisitorial. 

A fixaçom de comunidades judaicas nesses territórios viu-se favorecida por vários factores. Primeiramente, polo aumento da atividade repressiva da Inquisiçom no Reino de Espanha a partir de 1580, altura em que Portugal dependia de Espanha, e onde os estatutos de pureza de sangue proibiam o acesso a funções públicas aos descendentes de Judeus ou muçulmanos. Em segundo lugar, a posiçom geográfica destes territórios, fronteiriços com Espanha, possibilitava a saída dos cristãos-novos por mar ou polas rotas terrestres através dos Pirenéus.

Finalmente, as condições políticas nestes territórios refúgio permitiam certa liberdade e tolerância religiosa. Assim sendo, entre os séculos XV-XVI, as principais comunidades de judeus portugueses estabeleceram-se nos territórios pertencentes a duas unidades políticas: o Ducado da Guiena (integrado no Reino da França desde 1472) e o Reino de Navarra.

O Reino da Navarra foi um estado basco medieval fundado no século IX e que conservou a sua independência até a sua partilha no século XVI. Em 1512 a Alta Navarra é ocupada polo Reino de Aragom e integrada em 1516 no Reino de Espanha. A outra parte (territórios bascos de Baixa Navarra e Zuberoa e território gascom/occitano do Béarn) conservou a sua independência como Reino de Navarra até 1620. 

Durante o reinado de Joana III de Navarra (1555-72), a rainha converte-se em 1560 ao protestantismo. Apesar de decretar a liberdade religiosa no seu reino, a licença papal aos seus súbditos para a desobediência e a ocupaçom de qualquer um território governado por umha rainha excomungada como signo de obediência a Roma, tornaram impossível o convívio que finalizou com a imposiçom da religiom reformada (calvinista) e a proibiçom do catolicismo no Reino de Navarra em 1562. Despois das guerras de religiom, em 1589 o filho dela, Henrique III de Navarra, acede ao trono francês como Henrique IV, selando a paz entre católicos e protestantes.

O Ducado de Guiena foi um domínio hereditário da coroa da Inglaterra entre 1154-1453 que abrangia parte da Gasconha ocidental (zona de Bordéus e Dax) e Iparralde (área de Baiona). Despois do fim da Guerra dos Cem Anos foi integrado definitivamente no reino da França em 1472.

Em consequência, a chegada de refugiados judeus portugueses a esta zona foi auxiliada pola emissom das Cartas de naturalizaçom emitidas pelo rei Henrique II, em outubro de 1550. Essas cartas ficaram conhecidas como cartas patentes "respeitantes aos mercadores e outros portugueses chamados cristãos-novos" aos que som concedidos "todos os direitos e privilégios dos habitantes das cidades onde ficarem". De resto, em caso de expulsom, estas cartas patentes asseguravam um prazo dum ano, o que mostra o carácter eminentemente revogável desta legislaçom. Estas cartas foram confirmadas em 1574 e 1580.

Estas cartas patentes estavam redigidas nos seguintes termos: "Os reis sempre protegeram os comerciantes do reino e deram-lhes bons privilégios... O reino é abundante em trigo, vinho e outras riquezas... o que atrai os estrangeiros. A maneira de viver bem está aberta a todos aqueles que desejarem usar algum tipo. Quanto aos chamados Portugueses, chamados de cristãos-novos, foi desejo deles vir morar no nosso reino, e trazer as suas esposas e famílias e o seu dinheiro e móveis. [Entom o rei] compraz-se de dar-lhes cartas de naturalizaçom e gozar dos privilégios usufruídos por outros estrangeiros do reino. [Respondendo] liberalmente à súplica e procura dos chamados Portugueses, como pessoas às que vemos com bom zelo e carinho que eles têm de viver sob a nossa obediência, para trabalhar ao nosso serviço, para ajudar o reino dos seus bens, manufacturas e indústrias de sorte que isso nos move a tratá-los bem e graciosamente ".

Enquanto as principais comunidades judaicas estabelecidas na Gasconha foram Bordéus e Peira Horada, as fixadas no País Basco do Norte foram Donibane Lohizune, Biarritz, Saint-Sprit/Baiona, Bidache e Bastida.

À sua chegada os refugiados som denominados cristãos-novos que formam a naçom portuguesa. Na aparência cumprem rigorosamente todas as práticas da religiom católica, mas em casa permanecem leais ao judaísmo. 

Após a anexaçom definitiva do Reino de Navarra na França (1620), as cartas patentes foram confirmadas por Luis XIV (1656).


No início do século XVII os cristãos-novos portugueses suavizam a sua observância da religiom cristã, que abandonam completamente em meados de século, retornando abertamente ao judaísmo. Em seguida, som conhecidos como Judeus portugueses.

Em 1722 decretou-se que os Portugueses deviam ser contados e inventariados os seus bens com a proibiçom de os vender. Diante dessa ameaça os Judeus portugueses reagiram perante o rei Luis XV e conseguiram em 1723, através dum novo imposto de 110.000 libras, umhas novas cartas patentes respeitantes "aos Judeus ditos generalizados [de Bordeus e Auch] conhecidos e estabelecidos no nosso reino sob os títulos de Portugueses ou cristãos-novos...". Pola primeira vez os "mercadores portugueses" da França som oficialmente reconhecidos como Judeus. As cartas patentes foram confirmadas por Luis XVII em 1777.

Os Judeus portugueses formaram a comunidade judia mais florescente da França. As explorações agrícolas estám limitadas às vinhas que produzem o vinho casher. A índustria e sobretodo a transformaçom das provisões coloniais som especialidade dos Judeus. Os Gradis estám especializados no açúcar, os da Costa no chocolate, que foi introduzido na França polos Judeus portugueses de Baiona. Outros som principalmente médicos em Bastida.

Os judeus portugueses chegaram a Paris. Em 1780 é aberto um cemitério de judeus portugueses na rue de Flandre, o primeiro cemitério judaico em Paris desde a Idade Média.

Em 28 de janeiro de 1790 a Assembleia nacional reconhece a cidadania plena aos Judeus portugueses, generalizando-se esta medida aos Judeus chamados "alemães", isto é, asquenazitas. Desde entom produz-se umha emigraçom para Paris onde criam Sinagoga de Buffault.

Um membro desta comunidade, Pierre Mendès France, descendente da família judaico-portuguesa Mendes de França, foi presidente do Conselho de 1954-55.

Entre os Judeus portugueses franceses houve pessoas ilustradas, notamente o pintor Camille Pissarro, o financeiro Jules Mirès, o empreiteiro Moïse Millaud, o escritor Georges de Porto-Riche, Eugénie Foa, os poetas Bernard Delvaille, Catulle Mendès e os irmãos Pereire, o pedagogista David Lévi Alvarès, o ideólogo Olinde Rodrigues, os condes de Camondo, o mecenas Daniel Iffla Osiris, o médico Jean-Baptiste Silva,...


Judeus portugueses na Occitânia


Bordéus

A presença judaica está datada desde há vários séculos na metrópole da Gasconha. No século XVI esta comunidade é reforçada com a chegada de cristãos-novos portugueses e espanhóis.


Em consequência de motins antijudeus de 1574, o Parlamento local interdita de incomodar "os espanhóis e portugueses bons católicos". Nessa altura os Judeus beneficiam-se das cartas de naturalidade outorgadas por Henrique III.

Em 1604 e 1612 o tenente-general da Guiena emitiu umha ordenança proibindo às pessoas "falar mal ou danar os mercadores portugueses". 

A comunidade, fixada principalmente nas paróquias de St. Eulalie e St. Eloy, praticou o judaísmo na clandestinidade durante todo o século XVII. Nessa altura reclamaram o sepultamento nos cemitérios das duas paróquias, bem como nos pertencentes às paróquias de St. Projet e St. Michel, e nos cemitérios das ordens religiosas. Em 1710 umha parcela do cemitério católico foi reservada especialmente para os cristãos-novos. Os seus casamentos eram realizados por padres católicos , observando todas as formalidades rituais (mesmo a dispensa papal para os casos de consanguinidade).

Nos finais de seculo XVII produz-se a chegada a Burdéus dumha comunidade de Judeus procedentes de Avignon e Comtat-Venaissin que se declararam como tais mais abertamente.  No início do século XVIII os Judeus portugueses em Bordeus som 327 famílias (1.422 pessoas) enquanto os judeus de Avinhom contavam com 81 famílias (348 pessoas). Por razões de respeitabilidade e outras considerações, os judeus portugueses deliberadamente mantiveram-se afastados dos recém-chegados. 

Contudo, na altura de 1710 produz-se umha mudança de atitude da comunidade cristã-nova de Bordéus. Nom apenas era de conhecimento público que seus os moradores possuíam regulamentos e que na vida privada seguiam as leis mosaicas, os cristãos-novos começam a professar o judaismo mais publicamente. Enquanto os sacerdotes continuaram a registar os seus casamentos, eles geralmente acrescentavam umha nota para o efeito de que o casamento tinha sido ou devia ter sido realizado "de acordo com os ritos habituais da naçom portuguesa".

Em 1731, o administrador municipal opôs-se à regulamentaçom pola qual os "judeus portugueses" de Bordéus tinham que pagar o imposto de proteçom como os judeus de Metz. No entanto, em 1734 este funcionário lembrou aos Judeus de Bordéus que a prática da religiom judaica em público era proibida. Um relatório de 1753 menciona como um "escândalo" que a religiom judaica estava a ser praticada em sete sinagogas; na verdade, tratava-se de salas de oraçom em residências particulares.

O século XVIII foi de esplêndido crescimento para a comunidade. O comércio a escala internacional está em mãos dos Judeus portugueses, particularmente a família Gradis. As suas atividades incluem o comércio, a banca, o armamento de navios, os seguros, o tráfico de pessoas e o trânsito para as colónicas da América (mormente o Canadá francês).

Na altura da Revoluçom francesa (1789) os Judeus saem da clandestinidade e os seus membros participam das eleições para os Estados Gerais, obtendo representaçom, destacando-se como representante o cristão-novo lisboeta Abrão Furtado. Nessa altura em Bordéus residiam 2.400 Judeus.

Sob a iniciativa do Consistório Regional em 1809 é fundada a Grande Sinagoga de Bordéus cujo feitio está inspirado na arquitetura oriental. Nessa altura em Bordeus moravam 2.131 Judeus (77,5% de origem portuguesa, 6,8% de Avinhom e 15,8% procedentes da Alemanha, Polónia ou Holanda).

Durante o século XIX a populaçom judaica de Bordéus esmoreceu por causa da emigraçom, formando umha comunidade de 1.900 pessoas em 1940.

Durante a ocupaçom alemã a sinagoga, assaltada, é utilizada como local de concentraçom dos Judeus que nom conseguiram fugir a tempo. Cerca de 1.600 famílias som lá encadeadas antes de serem deportadas para os campos de Dachau e Auschwitz-Birkenau.

A comunidade de Judeus da naçom portuguesa de Bordeus floresceu durante vários séculos, fornecendo vultos na literatura, as artes (Nunés Pereyra, Péreire), o comércio (Gradis), a banca (Raba) e a politica (Mendes).

Na atualidade, a grande sinagoga, que se eleva numha ruela (R. do Grande Rabi Joseph Cohen) é um dos pulmões da comunidade judaica de Bordéus.


Pèira Horada/Peyrehorade

Nesta localidade fixou-se umha comunidade de cristãos-novos portugueses na altura de 1597. Sob o nome de "mercadores portugueses" formaram umha comunidade na altura de 1628, quando compraram umha quinta para albergar um cemitério.

Em 1648, quando foi decretada umha expulsom parcial, havia 42 famílias judaicas (por volta de 200 pessoas) na vila. No início do século XVIII a populaçom judaica era de 15 famílias. Posteriormente o número de Judeus aumentou, já que em 1747 a comunidade, publicamente conhecida como Judeus, comprou um segundo local para o cemitério.

Em 23 de maio de 1747 a comunidade judaica de Pèira Horada compra um prédio para fazer nele a sua sinagoga. A comunidade, muito organizada, contava cum talho próprio, um banho ritual (mikveh) e suportava até três sociedades dedicadas à actividades de caridade (Sedaca), enterramentos (Hebera) e estudo (Yesiba).

Os Judeus de Pèira Horada desempenhavam um papel ativo durante a Revoluçom francesa. Aquando a criaçom dos consistórios a comunidade inicialmente foi aderida a Bordeus e posteriormermente a Baiona.

Em 1826 foi comprado um terceiro cemitério, que também foi utilizado por Judeus das redondezas (em 1970 ainda existiam os três cemitérios).

A partir dessa altura os Judeus começaram a abandonar a vila. Em 1898 a vila compra a sinagoga ao consistório de Baiona, sendo derrubada em 1899 para abrir a rua da Sinagoga, entre a praça Aristide Briand e a rua Alsácia-Lorena. Posteriormente a sua mobília foi removida para as sinagogas de Biarritz e Baiona. No início da Segunda Guerra mundial ainda havia uns poucos Judeus a morar em Pèira Horada.


Toulouse

A comunidade de Tolosa (Toulouse) foi formada no século XVI por um grupo de portugueses e espanhóis que, conforme documentos notariais e paroquiais, eram suspeitos de judaizar. 

Para além dos cristãos-novos, também residiam na comunidade alguns Judeus declarados que lá permaneceram por um determinado período, pois o parlamento de Toulouse, no ano de 1653, promulgou um decreto determinando que todos os Judeus deveriam ser banidos da cidade, o que fez com que nos anos subsequentes muitos portugueses fugissem de lá, desintegrando tal comunidade. No entanto, em 1685 o Parlamento de Tolosa faz queimar 8 membros dumha comunidade cripto-judaica.

Os Judeus portugueses no País Basco Norte/Iparralde


Saint-Jean-de-Luz/Donibane Lohizune

Nom existe testemunha da presença judaica nesta cidade basca durante a Idade Média; foi apenas a partir do século XVI que se fixaram nela umha parcela de cristãos-novos conversos. De facto, inicialmente foi a cidade que abrigou a maior quantidade de refugiados. 

Em 1612 um funcionário encaminhou um relatório ao Conselho de Estado em que notificava a presença dumha importante colónia de cristãos-novos. As famílias que lá residiam tinham alegadamente relações com famílias de Paris, Amsterdã e de outros lugares.

Essa comunidade desfragmentou-se devido a um acontecimento ocorrido no ano de 1619 na igreja de Saint-Jean-de-Luz. Quando o padre percebeu que a portuguesa Catherine de Fernandes, umha mulher recentemente vinda de Portugal, enbrulhara a hóstia num pano ao invés de degustá-la, houve umha revolta popular e Catherine de Fernandes acabou sendo queimada viva polos populares. Ao mesmo tempo, um padre de origem portuguesa foi também acusado de ser cripto-judeu que fora escolhido como crego por um grande número de cristãos-novos que, de facto, se comportavam mais como Judeus que como cristãos.

Com isso, os demais cristãos-novos que lá residiam foram expulsos de Saint-Jean, refugiando-se em Biarritz e em seguida em Baiona


Biarritz

A comunidade judaica de Biarritz é datada de inícios do século XVII quando em 1619, depois duns tumultos antijudaicos em Saint Jean-de-Luz, por volta de 2.000 cristãos-novos abandonaram essa povoaçom para fixar-se em Biarritz.

No recenseamento de Judeus realizado em 1942 havia 168 famílias judias.

A sinagoga de Biarritz, construída em 1904, contém um candelabro prateado proveniente da antiga sinagoga de Pèira Horada.

Em 1968 a comunidade local tinha 150 membros, muitos deles procedentes da África do Norte.



Saint-Esprit/Baiona

Em meados do século XVI instala-se, a partir de refugiados vindos de Portugal e do Reino de Navarra, umha comunidade judaica em Saint-Esprit-lès-Bayonne, nessa altura município a norte de Baiona e separado da cidade polo rio Adour. Em 1597 a comunidade alarga-se logo depois da expulsom de Bordéus dos cristãos-novos que não tivessem dez anos de residência no local.
Vista do porto de Baiona de Saint-Esprit
Até o início do século XVII o desenvolvimento e prosperidade dessa comunidade é de completa penúria, sobrevivendo muitos membros ao abrigo da caridade local ou da ajuda enviada por membros de comunidades da Inglaterra e Holanda. De facto, apesar de serem polas autoridades, os mercadores locais excluiram os Judeus portugueses de participar no mercado ao retalho.

Mas os Judeus defendem-se e em 1632 um emissário da inquisiçom espanhola em Baiona é arrestado e encadeado acusado de espiom espanhol. Em 1636 algumhas famílias de cristãos-novos foram expulsas, refugiando-se em Nantes (Bretanha). Nessa altura a populaçom da comunidade judaica em Saint-Esprit é de 60 famílias.


A grande maioria de membros observa secretamente as suas crenças, já que o judaismo era proibido na França desde o século XIV. Viviam como criptojudeus, entretanto, nom buscavam esconder essa situaçom, umha vez que, mesmo discretamente celebravam as festas judaicas, recebiam instruções em escolas judaicas informais e frequentavam as diversas esnogas domésticas habilitadas. Apenas a partir de meados do século XVII é que a comunidade de Saint Esprit organiza umha congregaçom sob o nome de Nefusot Yehudad (Dispersom de Judá).  A comunidade de Baiona tinha jurisdiçom sobre as comunidades de Bidache, Pèira Horada e Labastida.

Em 1689 é aberto o cemitério judaico na área de Saint-Etienne, a norte da vila, sendo alargado nos séculos XVIII e XIX. Em 1862 foi construído um depósito de cadáveres em forma de templo antigo. Este cemitério abriga numerosas lápides do século XVII.

Fonte: Victor Guerra
Cemitério judaico de Baiona (Iparralde - Euskal Herria)
A prosperidade econômica de Baiona desata-se a partir de 1615 com a o desenvolvimento da indústria do chocolate. Com certeza, a judiaria de Baiona contribui para introduzir o chocolate na França e tornam a Baiona na capital do chocolate, sendo conhecida ainda hoje pola sua qualidade.


Em 1723 ocorreu um salto gigantesco no seu estatuto, tanto económico como social, pois é reconhecido o direito a observar publicamente o judaismo ao abrigo da carta patente outorgada por Luis XV. Nesse momento, foram abertas mais de treze sinagogas, contrataram-se rabinos de Amsterdão, e foi construído um cemitério e, em 1752, é editado o regulamento da nação judaica, regulamento este que foi confirmado polo rei.

A troca de correspondências com o judaísmo rabínico de Amsterdão deu-se como umha forma de buscar o conhecimento da religiom dos seus ancestrais, pois, devido ao longo período de conversom forçada na península Ibérica, em que o contato com o  judaísmo se deu quase que exclusivamente pola tradiçom oral fazendo com que o conhecimento do judaísmo oficial se fosse perdendo aos poucos. Os conhecimentos sobre a fé judaica que estes cristãos-novos portugueses de Baiona ainda conservavam eram dispersos e soltos. 

O factor decisivo no modo de vida desses portugueses de Baiona foi a relativa liberdade existente na França, pois mesmo o judaísmo sendo proibido, nom havia lá o rigor da Inquisiçom, o que permitiu aos membros dessa comunidade umha liberdade ao menos parcial o que permitira até entom a abertura tanto de esnogas, como escolas informais ou cemitérios. 


Assim sendo, durante a primeira metade do século XVIII a populaçom judaica de Saint-Esprit aumenta consideravelmente, passando de 700 para 3.500 pessoas em 1753, o que representa os 3/4 da populaçom do bairro e mais dumha quarta parte da aglomeraçom de Baiona. 

De resto, pola sua localizaçom, nom cessou a chegada de cristãos-novos vindos de Espanha e Portugal onde ainda operava a inquisiçom. De facto, Baiona é o local em que se estabelece umha etapa a ser transposta polos cristãos-novos que fogem dos reinos ibéricos e também favorece o estabelecimento de relações com os que ficaram na península.


No final do século XVIII a comunidade de Judeus portugueses de Baiona torna-se numha pequena metrópole. O que propiciou esse desenvolvimento foi a localizaçom geográfica privilegiada, pois o acesso, tanto por via marítima quanto terrestre, fez da comunidade um porto para intercâmbio cultural, social e comercial com as demais comunidades da diáspora sefardita.

Os Judeus portugueses de Baiona eram muito ativos no comércio internacional, principalmente com os países de fixaçom doutras comunidades judaicas de origem espanhola ou portuguesa. Entre outros, o comércio é florescente com as Caraíbas, as Antilhas neerlandesas, Amsterdão ou Londres. Aliás, muitos mercadores portugueses, chamados de "retornados habituais", iam e vinham dos reinos de Espanha para fazer negócios. De resto, Baiona servia de local de passagem para os que buscavam as terras de liberdade religiosa, como por exemplo, Amsterdão.

Em geral, os portugueses habitantes eram pequenos negociantes e controlavam as importações de cacau, o sal e da cola, o que permitiu que fossem dos primeiros a estabelecer ligações comerciais com as Índicas Ocidentais francesas. Prova do seu peso económico é até um terço dos ingressos fiscais municipais procedia dos residentes judeus.

No entanto, nos finais do século XVIII a populaçom judia experimenta umha queda. Em 1785 formam umha comunidade de 2.500 pessoas, o que representa metade da populaçom de Saint-Esprit. Embora em 1787 se permite que os Judeus possam morar em Baiona e comprar bens nesa cidade, a maioria continua a residir em Saint-Esprit.


Apesar da oposiçom da vizinhança católica, os Judeus de Baiona participaram nas eleições aos Estados Gerais de 1789. Juntamente com o resto de Judeus "portugueses, espanhóis e avinhonenses" som reconhecidos como cidadãos franceses em 1790.

Durante a Revoluçom as sinagogas de Bidache e de Labastida som encerradas e os Judeus destas duas vilas estabelecem-se em Peira Horada ou em Saint-Esprit. Nesta última vila, o rabi Andrade acocha num alpendre os textos religiosos e diferentes objetos de culto antigos substituindo-os por outros objetos sem valor que serám queimados polos revolucionários. Durante o período do Terror a maioria de membros do Comité de vigilância de Saint-Esprit (entom conhecido como Jean Jacques Rousseau) eram Judeus e nom houve qualquer vítima da guilhotina. 

Durante o período napoleónico a comunidade judaica beneficiou-se do incremento de prosperidade da cidade desenvolvendo atividades como farmaceuticos, armadores ou mercadores que se integram na populaçom local.

Em 1837 foi construída a esnoga de Baiona. Porém, entre o século XIX e o XX a populaçom judaica nom deixou de cair, passando de 1.293 pessoas em 1844 para 45 famílias em 1926.

Na véspera da Segunda Guerra mundial a comunidade judia está formada por 1.000 pessoas. Após o armistício franco-alemão (junho de 1940) Baiona tornou-se numha paragem para dezenas de refugiados judeus, particularmente da Bélgica e Luxemburgo. Como um grande número nom pude chegar a Espanha, o censo oficial da polícia de 15 de março de 1942 registrou 308 famílias judias. O rabi de Baiona, Ernest Ginsburger (1876–1943) dirigiu as atividades religiosas dos Judeus internados nos campos de concentraçom e de trabalho franceses. Ele foi posteriormente deportado e abatido polos alemãos juntamente com 60 membros da comunidade.

Em abril de 1943, quase todos os Judeus de Baiona e das redondezas foram evacuados à força, enquanto as propriedades judaicas eram confiscadas. Por ventura, a arca, com feitio ao jeito de Luis XVI e os escritos antigos foram ocultado no Museu Basco e devoltos à sinagoga após a Libertaçom. Poucos Judeus de Baiona sobreviveram à guerra e em 1945, a comunidade está formada por 240 membros. 

René Cassin, o ganhador do Prémio Nobel da Paz em 1968 polo seu trabalho na elaboraçom da Declaraçom Universal dos Direitos Humanos adoptada pola Assembleia Geral da ONU em 1948, nasceu em Baiona em 1887. Ele também foi Presidente do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (1965-68) e presidente da Aliança Israelita Universal, nasceu em Baiona em 1887.

O decrescimento populacional desacelera-se na década de 1960 com a chegada dos Judeus da África do Norte, conformando umha comunidade de 700 pessoas em 1969. A sinagoga foi restaurada e os serviços religiosos foram desempenhados por um rabi consoante os antigos ritos sefarditas-portugueses da velha esnoga. Aliás, restaurou-se o uso do cemitério.

Atualmente a comunidade judaica de Baiona-Dax-Hendaia está formada por 200 famílias espalhadas.

O Museu Basco conserva duas salas que disponibilizam umha grande quantidade de objetos religiosos judaicos e documentos históricos respeitantes da comunidade judaica de Baiona.


Bidache

Comunidade de Judeus portugueses estabelecida no início do século XVII a partir da comunidade existente de Baiona sob a proteçom do Duque de Gramont através dos estatutos de 1665 e 1668.

Na segunda metade do século XVII um prédio da rua Principale de Bidache foi transformado para abrigar a sinagoga da comuniade judaica. A porta fronteira estava encimada por um conjunto provavelmente vandalizado durante a Revoluçom francesa. Segundo o historiador Gérard Nahon os emblemas martelados poderiam ser as iniciais do nome hebraico dado à comunidade judaica de Bidache na literatura rabínica dos séculos XVII e XVIII (Casa da Paz). O prédio, agora chamado de Capdevielle, foi redesenhado no terceiro quartil do século XX, perdendo a porta de madeira cravejada.

Prédio da Sinagoga de Bidache. Wikipedia
Quando, no início do século XVIII, a autoridade distrital de Auch desejava realizar taxaçom geral sobre os Judeus portugueses na área, o duque de Gramont interveio em nome dos judeus em Bidache, incluindo que todos os Judeus, independente da sua origem,  "desfrutam do privilégio de nom tributaçom".


A comunidade judaica espalhou-se após a Revoluçom francesa e nunca foi restabelecida. 

Em 1665 os senhores de Gramont autorizam a abertura dum cemitério aos Judeus "dits Portugais", localizando-se na Port Road nas redondezas da vila. O cemitério, que contém umha centena de lápides com epitáfios em hebraico e português, foi utilizado desde a segunda metade do século XVII até a segunda metade do XVIII.


Cemitério judaico de Bidache. Wikipedia
Existiu um segundo cemitério judaico cujas inscrições mostram que foi utilizado entre o terceiro quartil do século XVII e o quarto quartil do XVIII.

Bastida/Labastide-Clairence

Comunidade judaica formada no início do século XVII a partir de Judeus portugueses chegados a Baiona.

Conhecidos como "portugueses", em Bastida fixaram-se entre 70-80 famílias hebraicas sob a proteçom dos duques de Gramont, em posse do direito de justiça, e que mantiveram ligações com a comunidade de Amsterdám.

Lá viveram numha comunidade relativamente autónoma designada pola expressom de "naçom judia" nos registos do Corps de Ville e contaram com um cemitério distinto do cemitério cristão que foi aberto logo depois da sua chegada. De facto, talvez se trate do primeiro cemitério adquirido polos Judeus portugueses na França (o primeiro túmulo é de 1620).


Cemitério judaico de Bastida. Wikipedia
Embora numha primeira altura foi um cemitério de cristãos-novos, a partir de 1659 torna-se num cemitério judaico (nomes judaicos gravados nas lápides e dataçom judaica). Abandonado nos finais do século XVIII, o cemitério foi profanado polos alemães em 1941.

As inscrições gravuradas nos túmulos (62) foram reveladas entre 1962-64 polo professor Gérard Nahon. Enquanto a campa mais antiga data de 1620, a mais recente é de 1785. Em 18 a data da morte está escrita no calendário hebraico. A partir de 1659 todos os nomes som bíblicos (Jacob, Isaac, Benjamin, Esther, Sarah, Rebecca). Entre os apelidos figuram Dacosta, Henriquez, Lopez, Nunez, Depas, Alvares.

A partir do século XVIII a importância da comunidade judaica diminui em consequência do declínio de Bastida. Desde meados de século até 1798 o número de famílias passa de 15 para 6. Aproveitando as novas liberdades concedidas pola Revoluçom francesa os Judeus abandonam a vila, esmorecendo a comunidades.

O cemitério judaico pertence ao Consistório israelita de Baiona.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

JUDEUS PORTUGUESES NOS ESTADOS ITALIANOS

As entidades políticas da península itálica, com as suas prósperas cidades, constituiu, num primeiro momento, um local de passagem para os Judeus portugueses que, fugidos da Península Ibérica, se dirigiam para o Império turco em busca dumha maior liberdade religiosa onde podiam voltar ao judaismo sem medo a represálias.

Desde muito cedo, os estados italianos olharam para os cristãos-novos portugueses como um grupo que poderia contribuir ativamente para o fortalecimento e afirmaçom do seu poder, tanto do ponto de vista económico (ligado ao comércio) como do ponto de vista político. Assim sendo, a partir de meados do século XVI, os portugueses começaram a criar bases mais sólidas nas cidades italianas e integraram-se, paulatinamente, na sua vivência e nos seus poderes políticos. 
Estados italianos no século XV-XVI. Fonte: Wikipedia

As condições daqueles refugiados eram muito diferentes no norte e centro da península itálica a respeito dos territórios do sul, dependentes da católica Espanha.

Estados papais

O papa Alexandre VI (1494-1503) acolheu de braços abertos os refugiados cristãos-novos vindos de Portugal e dos reinos de Espanha. A presença dos cristãos-novos nos Estados Pontifícios tornou-se perceptível em Roma e, mormente, no porto de Ancona. Lá prosperaram sob as políticas benevolentes dos papas Clemente VII (1523-34 ) e Paulo III (1534-49). Os cristãos-novos mesmo receberam a garantia de que, se acusados de apostasia, estariam sujeitos apenas à autoridade papal.

Porém, na altura de meados do século XVI e na sequência da Contra-reforma, a igreja católica, nos seus esforços para preservar os católicos de toda possibilidade de contaminaçom religiosa, agiu com grande dureza contra os Judeus. 

O primeiro golpe veio em 1553, quando o papa Júlio III (1550-55) ordenou, sob a acusaçom de blasfémia contra o cristianismo, a confiscaçom e queima de todas as cópias do Talmud em toda a Itália. Mas Paulo IV (1555-59), porta-voz da Contra-Reforma, deu-lhes um golpe irreparável quando, com a sua bula pontifícia Cum nimis absurdum de 14 de julho de 1555, retirou toda a proteçom previamente dada e iniciou umha feroz perseguiçom contra os cristãos-novos. 


Como resultado da campanha anti-judaica, sob as ordens do papa, na primavera de 1556, 25 judeus portugueses foram queimados vivos em Ancona, 26 outros foram condenados às galés e mais 30 previamente presos somente foram libertados após pagarem suborno considerável. A Valedora dos Marranos, Gracia Mendes Nasi, junto do sultão de Constantinopla, mesmo chegou a fazer planos para boicotar Ancona e transferir todos os mercadores cristãos-novos para a vizinha Pesaro, no território mais amigável do duque de Urbino. Porém, o projeto falhou e os cristãos-novos foram expulsos desse território.

Durante o papado de Sisto V (1585-90) os cristãos-novos viram aliviada a sua situaçom ao permitir a retomada das suas atividades nas cidades das que recentemente foram expulsos. No entanto, a política de vacilaçom terminou quando Clemente VIII (1592-1605), numha bula de 25 de fevereiro de 1593, retomou as medidas duras de Paulo IV e Pio V e ordenou que os Judeus abandonassem os domínios papais prazo de três meses, exceto Roma, Ancona e Avinhom.

Durante mais de dous séculos esta legislaçom restritiva continuou a ser aplicada aos Judeus que viviam nos territórios papais e foi adotada, quase sem exceções, polos outros estados italianos.

Ducado da Toscana

Em 1549, o gram-duque Cosimo I elaborava um amplo privilégio no qual convidava os cristãos-novos portugueses a se estabelecerem na cidade de Pisa. O momento era muito significativo, umha vez que coincidia com o perdom geral para os delitos de fé em Portugal (1547) e com a expulsom dos cristãos-novos de Antuérpia (1549). 

Os privilégios oferecidos polo grão-duque eram  bastante numerosos e, entre eles, talvez o mais significativo fosse a promessa de nom serem feitas inquirições sobre a origem religiosa dos portugueses que chegavam a território toscano. Destarte, um documento de 1550 indica a presença de cristãos-novos portugueses e espanhóis em Florença.

Em 1556 o grão-duque manteve o apoio aos cristãos-novos portugueses, concedendo um salvo-conduto a todos os que viviam na Toscana como judeus, coincidindo este privilégio com o momento em que as autoriddes dos estados pontifícios, mormente em Ancona, desencadeavam uma brutal perseguiçom aos marranos aí estabelecidos.  

Em 1591 e 1593, o grão-duque Fernando I promulgou umha legislaçom fundamental para o estabelecimento dos cristãos-novos e judeus portugueses em Pisa e Livorno (chamadas de livornine). Estes dous grupos de leis conferiam amplos privilégios aos portugueses, oferecendo-lhes inúmeros benefícios, mais umha vez também em matéria de fé, que conferiam um carácter mais atrativo ao seu estabelecimento neste porto toscano.

Com o passar dos séculos, Livorno tornou-se no mais proeminente centro judaico de toda a Europa do Sul, apenas contestado por Amsterdám no Norte. Os portugueses gozaram sempre dumha legislaçom muito favorável, sobretudo no tocante às questões do foro religioso. A Santa Esnoga de Livorno tornou-se no lar da Nazione Ebrea (Naçom Judia), umha mistura de judeus portugueses e itálicos. 

Os Judeus e cristãos-novos portugueses contribuiram para a transformaçom de Livorno numha das cidades mais ativas e num dos principais centros comerciais da Europa.

A integraçom dos cristãos-novos portugueses em Livorno foi bastante profunda, apesar dalgumhas vicissitudes. Escudados pola legislaçom granducal que lhes garantia a possibilidade de retornar ao judaísmo e, apesar de alguns momentos em que sentiram o peso da jurisdiçom inquisitorial, esta comunidade manteve umha certa ambiguidade religiosa. 

Desde o final do século XVI, a importância comercial de Livorno aumentou significativamente, sendo este um importante entreposto para a entrada na Europa de produtos de luxo (como os diamantes), oriundos dos mercados asiáticos. As grandes famílias de comerciantes sefarditas portugueses nom perderam esta oportunidade e estabeleceram-se, desde muito cedo, em Livorno. Deste modo, logo após as livornine, acham-se famílias como os Ximenes e os Rodrigues de Évora com amplos interesses em Livorno. Nas décadas seguintes o número de mercadores portugueses naquela cidade aumentaria de forma muito significativa. No século XVII encontram-se membros ou correspondentes de importantes famílias, como os Vila Real, os Mogadouro e os Pinto.

Mas, em meados do século XVII,  Livorno transformou-se num centro importantíssimo para a cultura e para a religiom judaicas. A construçom da sinagoga e a existência de várias oficinas de impressom de obras litúrgicas contribuiu para transformar Livorno num verdadeiro centro de difusom do judaismo para a Península Ibérica. Muitos cristãos-novos portugueses, oriundos sobretudo da Beira Interior e de Trás-os-Montes, dirigiam-se a Livorno em busca de ensinamentos sobre os preceitos da Lei de Moisés e acabavam por retornar a Portugal munidos, em muitos casos, com livros litúrgicos impressos em Livorno em língua portuguesa ou castelhana. 

Em 1635, David Machorro, um judeu cujos antepassados seriam originários de Bragança, apresenta aos inquisidores de Lisboa um memorial com umha análise dos principais fundamentos do judaísmo, exemplificando com a sua vivência de várias décadas em Livorno. Este relato dá umha imagem muito nítida da prosperidade e do esplendor da comunidade judaica de Livorno nas primeiras décadas do século XVII.

No final do século XVIII a comunidade judia portuguesa de Livorno estava formada por 5.000 pessoas. Embora se desconheça a influência portuguesa nos usos e costumes das gentes de Livorno, nom será abusivo pensar que umha presença tam numerosa e prolongada no tempo terá, certamente, deixado as suas marcas.

A língua portuguesa foi de facto a língua franca do comércio, sendo usada em todas as transações até o século XVIII quando foi finalmente removida polo italiano. O último documento conhecido escrito em português é de 1821, umha reediçom dumha publicaçom anterior relativo à dote. A maioria de livros, quer religiosos, quer laicos, eram imprentados em português, sendo ocasionalmente traduzidos para o italiano.

A atual cidade Livorno tem poucos vestígios da época em que os portugueses aí residiam, já que um trágico bombardeamento durante a Segunda Guerra mundial destruiu quase toda a cidade. 


Ducado da Saboia

Emanuel Filiperto concedeu privilégios especiais com o intuito de induzir os Judeus a se fixarem no ducado da Saboia, mormente respeitante à fixaçom de cristãos-novos portugueses e espanhóis em Niza a fim de tornar a cidade num porto central do comércio com o Oriente.

A concessom destes privilégios enfureceu ao rei Filipe II de Espanha, que considerou todo o plano prejudicava seriamente os interesses de Espanha no Mediterrâneo, bem como constituia umha incitaçom para os cristãos-novos retornarem ao judaísmo. A pressom da Espanha levou à rescisom do privilégio e, em 22 de novembro de 1573, o duque ordenou a expulsom do seu território, no prazo de seis meses, dum grupo de cristãos-novos que retornaram ao judaísmo. Este decreto provavelmente nom foi posto em prática até 1581, altura em que Carlos Emanuel I ordenou a expulsom de todos os judeus portugueses do ducado.


Ducado de Ferrara-Módena

Na década de 1530 o Duque de Ferrara, Ercole III, foi o soberano que mais sucesso obteve com a sua política ativa para atrair os mercadores portugueses ao seu ducado. Assim sendo, em Ferrara, em meados do século os cristãos-novos formaram umha grande e próspera comunidade. 

Os duques protegeram-nos até 1581, quando o duque Alfonso II, cedendo à pressom eclesiástica, permitiu a detençom de muitos deles, sendo encaminhados para Roma três deles para serem queimados na fogueira em fevereiro 1583 .

República de Veneza

A chegada dos Judeus portugueses a Veneza produz-se nos finais do século XVI em consequência da sua expulsom dos Estados papais (nomeadamente de Ancona e Ferrara). Ao igual que outras cidades itálicas, e apesar de ter decretado a expulsom dos Judeus em 1497 e 1550, a Sereníssima República de Veneza oferecia aos Judeus portugueses a liberdade de culto e um local relativamente seguro onde fixar-se no gueto, umha área separada da cidade. A palavra gueto foi usada alegadamente pola primeira vez em 1516 em Veneza. 

Veneza oferecia nom apenas local de refúgio seguro, mas também a garantia de impedir a chegada da Inquisiçom. Teólogos como Paolo Sarpi mesmo defenderam que os Judeus estavam fora da jurisdiçom do Santo Ofício porque foram batizados pola força.

A populaçom do gueto venezano estava composta tanto por Judeus sefarditas ocidentais (Ponentini), isto é, Judeus portugueses e espanhóis que chegaram do ocidente, quanto por orientais (Levantini), quer dizer, judeus sefarditas que chegaram a Veneza procedentes do leste (mormente de Constantinopla, Corfu e Salónica). Ambos os grupos, que habitavam no Ghetto Vecchio, envolveram-se profundamente no lucrativo comércio marítimo, tornando o gueto venezano num modelo para as comunidades sefarditas da Diáspora.


A sua majestosa sinagoga, levantada em 1584 e chamada de Spagnola Scuola, a maior de todas as existentes, era umha expressom do papel e prestígio da comunidade judaica sefardita. Durante os seculos XVI a XVII foi originalmente considerada a “Sinagoga Mãe” para a comunidade hispano-portuguesa no mundo. Rabis, doutores, filósofos, escritores, cientistas, bem como abastados mercadores contribuiram para a renascença da judiaria portuguesa fora de Portugal.
A Scola Spagnola de Veneza foi considerada a Sinagoga Mãe da comunidade hispano-lusa
A importância de Veneza como centro dos Judeus e cristãos-novos portugueses começou a esmorecer por causa das medidas tomadas polas autoridades do Ducado da Toscana para atrair os Judeus a cidades como Livorno ou Pisa ou da peste que alastrou por Europa entre 1630-31. Em consequência, a partir do século XVII os judeus asquenazitas (que moravam no Ghetto Nuovo) foram removendo os judeus sefarditas ocidentais do seu papel proeminente em áreas como o comércio marítimo.

Com o declínio na importância de Veneza no século XVIII, o papel na liderança passou a ser dividido entre Livorno e Amsterdám, atuando a primeira na Itália e em parte do Mediterrâneo, e a segunda, na Europa Ocidental e Novo Mundo.


Colónias espanholas (Sardenha, Sicília, Reino de Nápoles e Ducado de Milám)

Aquando o édito de expulsom dos Judeus de Espanha tanto a Sicília como a Sardenha estavam sob o domínio catalano-aragonês, sendo completado o processo de expulsom em janeiro de 1493. Enquanto na Sicília foram expulsas 40.000 Judeus, o número na Sardenha foi mais baixo.

A maioria dos refugiados rumaram para a península itálica, mas um número considerável escolheram terras da África do Norte, Grécia, Turquia, o Levante e o Reino de Nápoles.

Em 1503 o Reino de Nápoles, com umha comunidade judaica de 9.000 pessoas, passa ao domínio espanhol. Apesar dumha certa oposiçom à implementaçom da Inquisiçom espanhola, em 1510 é ordenada a expulsom dos Judeus, fazendo com que a maioria da comunidade judaica abandonasse este território. Todavia, o édito nom é aplicado imediatamente, sendo permitida em 1515 a fixaçom de quotas de famílias abastadas. Finalmente, em 1541 os Judeus som interditos de vez a se fixarem nesta dependência.

Em 1597 foi expulsa a comunidade judaica do Ducado de Milám (900 pessoas).