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terça-feira, 7 de outubro de 2014

NEGACIONISMOS

O negacionismo é umha teoria da conspiraçom antissemita que pretende apagar, dumha penada, os seis milhões de mortos do genocídio judeu executado polos nazistas nos campos da morte durante a Segunda Guerra mundial na sequência da "soluçom final".

Arquivos desconhecidos e a perícia de historiadores permite deconstruir este discurso do ódio, que apareceu no pós-guerra a partir dos nostálgicos do nazismo e da colaboraçom. Para o historiador Henry Rousso, "o extermínio dos Judeus é um dos objetivos da guerra alemã: nom é um dano colateral".
© Talweg / CNRS Images
Quando em 20 de novembro de 1945 se abre em Nuremberga o processo contra umha vintena de dirigentes do III Reich, "muitos investigadores, -lembra o antigo advogado criminalista Robert Badinter-, assignaram-se como tarefa apanhar as provas do genocídio judeu. (...) Todo isto foi submetido ao controlo do procedimento muito contraditório anglossaxom. (...) Neste sentido, Nuremberga fez à história um serviço mais que valioso". Porém, enquanto o processo de Nuremberga acabava de esclarecer as provas esmagadoras do horror, o silêncio impõe-se aos sobreviventes da barbárie.


Num primeiro momento a apariçom das teorias negacionistas surgem a partir de nostálgicos do III Reich e da colaboraçom.

Em 1948 o polemista de extrema-direita Maurice Bardèche, parente do escritor colaboracionista Robert Brasillach afuzilado durante a Libertaçom, publica um artigo inflamatório intitulado "Nuremberga ou a Terra prometida" em favor da Alemanha nazista, contestando o direito legal e moral dos Aliados para julgar os dirigentes do III Reich por atos que eles "talvez" teriam cometido (escreve que "vivimos desde há três anos umha falsificaçom da história") e no que exprime as teses negacionistas cujos argumentos se irám tornar nos clássicos da negaçom do Holocausto.

Em 1950 um ex-deputado socialista deportado em Buchenwald, Paul Rassinier, em "A mentira de Ulisses" exprime as suas dúvidas relativamente à existência das câmaras de gás, declarando nom tê-las visto no campo onde fora deportado. 

Para ouvir o testemunho de 111 sobreviventes do Holocausto será preciso esperar até 1961, com motivo do julgamento em Israel de Adolf Eichmann, antigo dirigente do III Reich e diretor do escritório IV-B4 responsável polo transporte dos Judeus para os campos de extermínio. O processo de Eichmann é a primeira vez em que se narram publicamente a destruiçom dos Judeus como um aspeto distinto dos outros da criminalidade nazista. Apesar disto, o discurso revisionista continua a se desenvolver nos medios neonazis e grupos de extrema-direita.

Porém, constrói-se um discurso movediço, que sabe adaptar habilmente o seu argumentário e ângulos de ataque segundo o contexto e o alvo. Assim sendo, no quadro da Guerra Fria e do conflito israelo-palestiniano, na década de 1970, sob a influência dumha extrema-esquerda antissionista, o negacionismo experimenta umha certa reorientaçom.

Na década de 1980 os negacionistas concentram os seus ataques sobre aspectos "técnicos" da soluçom final. Para a sua defesa, quando colocados perante os tribunais, retorquem que som especialistas do que resta das infraestruturas dos campos de concentraçom. Embora estas argumentações "técnicas" nom resistem o trabalho dos historiadores, a visibilidade conquistada por causa de processos mediatizados faz com que o discurso negacionista alastre. Para muitos historiadores, entre os quais Pierre Vida-Naquez, "dar-lhes a palavra é dar-lhes o único que reclamam". Abrir o diálogo para refutar as teses negacionistas é dar-lhes tempo e protagonismo para serem ouvidos.

Na década de 1990 o negacionismo experimenta umha reorientaçom com a adesom de antigos militantes de esquerda ao abrigo do conflito israelo-palestiniano.

O negacionismo mesmo consegue a adesom de antigos militantes de esquerda. Assim sendo, durante a década de 1990, Roger Garaudy, ex-militante comunista, corporifica esta reorientaçom do movimento negacionista.  O discurso dele, recolhido em "Os mitos fundadores da política israelita" (1996), após pôr em causa a existência das câmaras dem e gás, toma um carácter político alvejando o Estado hebreu, que é acusado de ter inventado/fabricado um mito para justificar a criaçom de Israel e servir aos seus interesses. Defendido por Jacques Vergès, sob a escusa de defesa da liberdade de expressom, Garaudy recebe o apoio inesperado do abade Pierre, umha das personalidades mais estimadas na França.

O discurso negacionista, decididamente antissionista e antissemita, atrai tanto os ativistas pró-palestinianos quanto a umha parte do mundo árabe-muçulmano antissionista, mobilizados contra Israel.


Em 11 de dezembro de 2006, o presidente iraniano Mahmud Ahmadineyad, reúne em Teerám umha conferência pública, "Conferência Internacional para a Revisom da Visom Global do Holocausto", à que som convidados nom apenas proeminentes antissemitas e negacionistas ocidentais, mas também organizações racistas (vários líderes do Ku Klux Klan, entre os quais David Duke) e neonazistas europeias, juntamente com judeus ultraortodoxos antissionistas, cregos e governantes do mundo islâmico. Para além de difamar a Israel e o sionismo em geral, tratou-se dumha reuniom de negacionistas do Holocausto onde os seus protagonistas puseram em causa inúmeras vezes a existência do genocídio judeu e se dedicaram a negar sistematicamente o número de vítimas, a existència das câmaras de gás e os principais campos de extermínio.

Durante essa conferência Robert Faurisson, revisionista francês do Holocausto condenado várias vezes por "contestaçom de crimes contra a humanidade", atreveu-se a pedir "provas". O objetivo é sempre o mesmo: semiar a dúvida sobre os crimes cometidos polos nazistas contra os Judeus. Em 2008, convidado por Dieudonné M'Bala M'Bala, este negacionista francês é aclamado polo público deste pseudo-humorista no Zénith.


À maneira do filme "Autopsie d'un mensonge. Le négationsme" (2001) ou do documentário "Einsatzgruppen, les comandos de la mort" (2009), Michaël Prazan e Valérie Igounet acabam de realizar um documentário de primeira ordem, intitulado "Les faussaires de l'Histoire", no qual vários historiadores desmontam solidamente as teses negacionistas. 

Com base numha multidom de documentos e imagens de arquivos, alguns dos quais desconhecidos ou inéditos, testemunhos durante os processos, dados, relatórios,... mas também nas análises de politólogos ou historiadores, entre os quais Henry Rousso, autor do termo "negacionismo", os autores traçam a trajetória geopolítica deste discurso nojento que visa revisar a história.

Segundo o documentário, emitido pola primeira vez em 28 de setembro em Talweg - France 5, o negacionismo aparece hoje como um movimento, umha SEITA, seguida à sua vez polos neonazistas e a franja antissemita do mundo árabe-muçulmano. As chaves de resposta acham-se, portanto, no passado deste nevoeiro que atrai personalidades de todas as origens. 

Enquanto desaparecem devagarinho as últimas testemunhas do Holocausto, para o diretor do museu de Auschwitz sempre ficará a educaçom e o ensino face ao veneno da falsificaçom.

Minorizado e estigmatizado na Europa Ocidental e na América do Norte, o negacionismo ganha terreno nos países árabes e do Próximo Oriente. Por isso é importante lembrar que, seja qual for a sua forma e cor política, trata-se dumha "forma contemporânea do antissemitismo".

Informações tiradas de CONSPIRACY WATCH. Traduzido para o galego-português por CAEIRO.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ANTISSEMITISMO E NACIONAL-SOCIALISMO (e Parte IV)

Moishe Postone

O antissemitismo moderno é, portanto, umha forma particularmente perniciosa do fetiche. O seu poder, e o perigo que representa, acha-se em que propõe umha visom do mundo que explica e dá forma a certos tipos de insatisfaçom anticapitalista que deixam o capitalismo incólume, ao atacar as personificações desta forma social. O antissemitismo, assim entendido, permite-nos apreender um momento essencial do nazismo como movimento anticapitalista reduzido, um movimento caracterizado polo ódio ao abstrato, pola hipostasiaçom do concreto existente e por umha missom resoluta e impiedosa, mas nom necessariamente animada polo ódio: libertar o mundo da fonte de todo o mal.

O extermínio da judiaria europeia mostra que é demasiado simplista definir o nazismo como um movimento de massas com elementos anticapitalistas que deixaria cair essa pele, o mais tardar, em 1934 (Röhm Putsch) (13), umha vez alcançado o seu objetivo de conquistar o poder estatal. Em primeiro lugar, as formas de pensamento ideológicas nom som simples manipulações conscientes. Em segundo lugar, esta conceçom nom compreende a essência do "anticapitalismo" nazi, o grau em que estava intrinsecamente ligado a umha visom antissemita do mundo. Auschwitz ilustra essa ligaçom. É certo que o "anticapitalismo" concreto e plebeu de mais das SA foi eliminado em 1934; o mesmo nom sucedeu, contodo, com o impulso antissemita, o "conhecimento" de que a fonte de todo o mal era o abstrato, o Judeu.

A fábrica capitalista é um local onde se produz valor, algo que "infelizmente" deve tomar a forma dumha produçom de bens, de valores de uso. O concreto é produzido enquanto suporte necessário do abstrato. Os campos de extermínio nom eram umha versom terrível dessa fábrica, mas, ao invés, devem ser vistos como a sua negaçom grotesca, ariana, "anticapitalista". Auschwitz era umha fábrica para "destruir o valor", quer dizer, para destruir as personificações do abstrato. A sua organizaçom correspondia a um processo industrial diabólico cujo fim era "libertar" o concreto do abstrato. O primeiro passo para conseguir este fim consistiu em desumanizar os Judeus, isto é, tirar deles a "máscara" de humanidade, de especificidade qualitativa, e revelar os Judeus como aquilo que "realmente som": sombras, cifras e abstrações numéricas. O segundo passo consistiu em exterminar essa abstraçom, transformá-la em fumo, tentando durante o processo despojá-la dos traços remanescentes do "valor de uso" material e concreto: vestimento, ouro, cabelo e sabom.

É Auschwitz, e nom a tomada polos nazis do poder em 1933, foi a verdadeira "revoluçom alemã", a verdadeira tentativa de "derrubar" nom apenas a ordem politica, mas a formaçom social existente. Este ato devia salvar o mundo da tirania do abstrato. Durante este processo, os nazis "libertaram-se" da humanidade.

Os nazis perderam a guerra contra a URSS, os Estados Unidos e a Grã Bretanha. Eles ganharam a sua guerra, a sua "revoluçom" contra os Judeus da Europa. Eles nom apenas conseguiram assassinar seis milhões de crianças, mulheres e homens judeus, conseguiram dar cabo dumha cultura, umha cultura muito antiga, a do judaismo europeu. Esta cultura caracterizava-se por umha tradiçom que incorporava umha tensom complicada entre a particularidade e a universalidade. Esta tensom interna era duplicada numha tensom externa, que caracterizava o relacionamento dos Judeus com o ambiente cristão circundante. Os Judeus nunca formaram umha parte completamente integrante das sociedades em que viviam, nem viveram nunca completamente aparte dessas sociedades. Os resultados desta situaçom foram frequentemente desastrosos para os Judeus. Por vezes revelaram-se frutuosos. Este campo de tensom sedimentou-se na maioria dos indivíduos judeus após a sua emancipaçom. A derradeira resoluçom desta tensom entre particular e universal é, na tradiçom judaica, umha funçom do tempo, da história, da vinda do Messias. Talvez, contodo, em face da secularizaçom e assimilaçom, os Judeus europeus tivessem ultrapassado essa tensom. Talvez a sua cultura tivesse desaparecido gradualmente enquanto tradiçom viva, antes dumha resoluçom entre particular e universal ser alcançada. Esta questom nunca será respondida.

(13) "Röhm Putsch", também conhecido por "Noite das Facas Longas" ou "Noite dos Longos Punhais", foi umha purga que aconteceu na Alemanha, na noite do dia 30 de junho para o dia 1 de julho de 1934, quando o Partido Nazi decidiu executar dezenas dos seus membros, a maioria dos quais pertencentes à chamada Sturmabteilung (SA), umha façom paramilitar liderada por Ernst Röhm. A ocasiom foi tambem aproveitada para perseguir comunistas e sociais-democratas, bem como conservadores olhados com desconfiança.
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Este ensaio foi publicado por Moishe Postone em 1986 (em "Germans and Jews since the Holocaust: The Changing Situatin in West Germany", edições Holmes&Meier, pp. 302-314).

Pode-se acessar a este ensaio na sua versom original em inglês ou na sua traduçom para o francês. Também se pode aceder à versom em português (traduçom de Nuno Miguel Machado).

domingo, 5 de outubro de 2014

ANTISSEMITISMO E NACIONAL-SOCIALISMO (Parte III)

Moishe Postone

Embora a ligaçom íntima entre o tipo de "anticapitalismo" que impregnou o nacional-socialismo e o antissemitismo tenha sido indicada, resta a questom do porque de a interpretaçom biológica da dimensom abstrata do capitalismo se ter centrado nos Judeus. No contexto europeu, esta "escolha" nom foi de jeito algum fruto do acaso. Os Judeus nom poderiam ter sido substituídos por qualquer outro grupo. As razões disso som múltiplas. A longa história do antissemitismo na Europa e a respetiva identificaçom do judeu ao dinheiro som muito conhecidas. A rápida expansom do capital industrial ao longo dos três últimos decênios do século XIX coincidiu com a emancipaçom política e cívica dos Judeus na Europa Central. Assistiu-se a umha verdadeira proliferaçom dos Judeus nas universidades, as profissões liberais, o jornalismo, as belas-artes e o comércio a retalho. Os Judeus tornam-se rapidamente visíveis na sociedade civil, particularmente em esferas e profissões em expansom e que eram associadas à nova forma que a sociedade estava a adoptar.
Com a emancipaçom política e cívica, os Judeus sairam das trevas.
Poder-se-iam referir ainda mais outros factores, mas há um que pretendo realçar. Tal como a mercadoria, entendida enquanto forma social, exprime o seu "duplo carácter" na oposiçom exteriorizada entre o abstracto (dinheiro) e o concreto (mercadoria), também a sociedade burguesa se caracteriza pola divisom entre o Estado e a sociedade civil. Para o indivíduo, esta separaçom apresenta-se como umha entre o indivíduo como cidadão e a pessoa. Como cidadão, o indivíduo é abstrato. Isto exprime-se, por exemplo, na ideia da igualdade de todos perante a lei (abstrato) ou no princípio "um homem, um voto". Como pessoa, o indivíduo é concreto , inserido nas relações de classe reais que som consideradas "privadas", quer dizer, pertencentes à sociedade civil que nom possuem qualquer expressom política. Porém, na Europa o conceito de naçom enquanto entidade puramente política, abstraída da substancialidade da sociedade civil, nunca foi plenamente realizada. A naçom nom era apenas umha entidade política, era também concreta, determinada por umha comunidade de língua, de história, de tradições e de religiom. Neste sentido, o único grupo na Europa que cumpria a determinaçom de cidadania como abstraçom política pura, eram os Judeus emancipados politicamente. Eles eram cidadãos alemãos ou franceses, mas nom eram realmente Alemãos ou Franceses. Eles pertenciam abstratamente à naçom, mas raramente em concreto. Aliás, eles eram cidadãos da maioria dos países europeus. A qualidade de abstraçom, característica nom apenas da dimensom do valor no seu imediatismo, mas também, mediatamente, do Estado e lei burgueses, tornou-se intimamente associada aos Judeus. Numha época em que o concreto era exaltado contra o abstrato, contra o "capitalismo" e o Estado burguês, esta identificaçom tornou-se numha associaçom fatal. Os Judeus eram desenraizados, cosmopolitas e abstratos.
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Este ensaio foi publicado por Moishe Postone em 1986 (em "Germans and Jews since the Holocaust: The Changing Situatin in West Germany", edições Holmes&Meier, pp. 302-314).

Pode-se acessar a este ensaio na sua versom original em inglês ou na sua traduçom para o francês. Também se pode aceder à versom em português (traduçom de Nuno Miguel Machado).

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ANTISSEMITISMO E NACIONAL-SOCIALISMO (Parte II)

Moishe Postone

Estas considerações levam-nos ao conceito marxiano de fetiche, cuja intençom estratégica era de fornecer umha teoria sócio-histórica do conhecimento alicerçada na distinçom entre a essência das relações sociais capitalistas e as suas formas manifestas. Subjazente ao conceito de fetiche está a análise marxiada da mercadoria, do dinheiro e do capital, nom enquanto simples categorias económicas, mas antes como formas de relações sociais específicas que caracterizam essencialmente o capitalismo. Nesta análise, as formas capitalistas das relações socias nom aparecem como tal, mas apenas se exprimem sob umha forma objetivada. No capitalismo, o trabalho nom é apenas umha atividade produtiva social ("trabalho concreto"), mas atua igualmente, no lugar das relações sociais abertas, como mediaçom social ("trabalho abstrato"). Assim sendo, o seu produto, a mercadoria, nom é apenas um produto no qual está objetivado o trabalho concreto; é também umha forma de relações sociais objetivadas. No capitalismo, o produto nom é um objeto mediado socialmente por formas transparentes de relações sociais e de dominaçom. A mercadoria, enquanto objetivaçom das duas dimensões do trabalho no capitalismo, é a sua própria mediaçom social. A mercadoria possui, portanto, um "duplo carácter": valor e valor de uso. Enquanto objeto, a mercadoria expressa e ao mesmo tempo oculta relações sociais que nom possuem qualquer outro modo "independente" de expressom. Este modo de objetivaçom das relações sociais é a sua alienaçom. As relações sociais fundamentais do capitalismo adquirem umha vida própria quase-objetiva. Elas constituem umha "segunda natureza", um sistema de dominaçom e de constrangimento abstratas que, embora social, é impessoal e "objetivo". Estas relações nom parecem ser sociais de todo, mas naturais. Ao mesmo tempo, as formas categoriais exprimem umha concepçom particular, socialmente constituída, da natureza em termos dum comportamento objetivo, regrado e quantificável dumha essência qualitativamente homogênea. As categorias marxianas expressam simultaneamente relações sociais particulares e formas de pensamento. O conceito de fetiche refere-se a formas de pensamento baseadas em percepções que ficam prisioneiras às formas de aparência das relações sociais capitalistas (7).

Quando considerarmos as características específicas do poder atribuido aos Judeus polo antissemitismo moderno (abstraçom, intangibilidade, universalidade e mobilidade) é impressionante que as mesmas sejam todas características da dimensom de valor das formas formas sociais analisadas por Marx. Aliás, esta dimensom, tal como o suposto poder dos Judeus, nom aparece como tal, mas sempre na forma dum veículo material: a mercadoria.

Chegados aqui, gostaria de começar por umha análise breve da maneira como as relações sociais se apresentam. Vou portanto tentar explicar a personificaçom descrita acima e esclarecer o porque de o antissemitismo moderno, que se opôs a tantos aspetos da "modernidade", ser manifestamente omisso, ou mesmo otimista, no tocante ao capital industrial e à tecnologia moderna.

Comecemos com um exemplo da forma-mercadoria. A tensom dialéctia entre valor e valor de uso da forma-mercadoria implica que este "duplo carácter" seja exteriorizado materialmente na forma-valor. Assim sendo, aparece "duplicado" enquanto dinheiro (a forma manifesta do valor) e enquanto mercadoria (a forma manifesta do valor de uso). Embora a mercadoria seja umha forma social que expressa tanto o valor como o valor de uso, o resultado desta exteriorizaçom é que a mercadoria aparece apenas como a sua dimensom de valor de uso, como algo puramente material e "corpóreo". O dinheiro, por outro lado, aparece entom como o único depósito do valor, como a manifestaçom do puramente abstrato em vez de se apresentar como a forma manifesta exteriorizada da dimensom de valor da própria mercadoria. A este nível de análise, a forma de relações sociais materializadas específicas do capitalismo, aparece como a oposiçom entre o dinheiro, a natureza abstrata e a natureza "corpórea".

Um dos aspectos do fetiche é, portanto, o facto de as relações sociais capitalistas nom aparecem como tal e, para além disso, apresentam-se de forma antinómica, como a oposiçom entre o abstrato e o concreto. Dado que, adicionalmente, ambos os lados da antinomia som objetivados, cada um deles parece ser como quase-natural. A dimensom abstrata aparece sob a forma de leis naturais abstratas, "objetivas" e universais; a dimensom concreta aparece como natureza puramente "corpórea". A estrutura das relações sociais alienadas que caracterizam o capitalismo apresenta a forma dumha antinomia quase-natural, na qual o social e o histórico nom aparecem. Esta antinomia acha-se na oposiçom entre o modelo de pensamento positivista e o romântico. A maior parte das análises críticas do pensamento fetichizado tem-se concretado naquela corrente da antinomia que hipostasia o abstracto como trans-histórico, o chamado pensamento positivo "burguês", e, portanto, mascara o carácter social e histórico das relações existentes. Neste ensaio, centrar-me-ei na outra corrente, aquela que inclui as formas romantismo e revolta que, achando-se antiburguesas, na realidade hipostasiam o concreto e, portanto, ficam cativas da antinomia produzida polas relações sociais capitalistas.

As formas de pensamento anticapitalista cativas da imediateza desta antinomia tendem a encarar o capitalismo, e tudo aquilo que é específico a essa formaçom social, apenas em funçom das manifestações da dimensom abstrata da antinomia. Assim, por exemplo, o dinheiro é considerado como a "raíz de todo o mal". A existência da dimensom concreta é-lhe entom positivamente oposta como o "natural" ou ontologicamente humano, que presumivelmente se situa para além da especificidade da sociedade capitalista. Deste modo, tal como sucede em Proudhon, por exemplo, o trabalho concreto é compreendido como um momento anti-capitalista por oposiçom ao carácter abstrato do dinheiro (8). O facto de o próprio trabalho concreto corporificar as relações sociais capitalistas nom é compreendido.

Com a evoluçom posterior do capitalismo, da forma-capital e do fetiche ligado a ele, a naturalizaçom imanente ao fetiche-mercadoria adota novas dimensões. Do mesmo jeito que a forma-mercadoria, a forma-capital é caracterizada pola relaçom antinómica entre o concreto e o abstrato, ambos aparecendo como algo de natural. Mas a qualidade do "natural" é diferente. Ligada ao fetiche-mercadoria está a noçom do carácter de legalidade, em última análise, das relações entre unidades individuais autónomas, tal como som expressas, por exemplo, pola economia política clássica ou pola teoria da lei natural. O capital, consoante Marx, é o valor que se autovaloriza. É caracterizado por um processo contínuo, incessante, de autoexpansom do valor. Este processo submete-se a ciclos rápidos, em grande escala, de produçom e consumo, criaçom e destruiçom. O capital nom possui umha forma definitiva, mas aparece em diferentes etapas do seu percurso em espiral, quer sob a forma de dinheiro, quer sob a forma de mercadorias. Enquanto valor que se autovaloriza, o capital aparece como processo puro. A sua dimensom concreta muda em conformidade. Os trabalhos individuais já nom constituem unidades independentes. Eles tornam-se a cada vez mais componentes celulares dum enorme sistema dinâmico e complexo que abrange as pessoas e as máquinas e que está direcionado para um fim, nomeadamente, a produçom pola produçom. Esta totalidade social alienada torna-se maior do que a soma dos seus indivíduos constituintes e possui um fim externo a si mesma. Esse fim é um processo nom finito. A forma capital das relações sociais tem um carácter cego, processual, quase-orgânico.

Com a crescente consolidaçom da forma capital, a visom do mundo mecanicista dos séculos XVII e XVIII começa a ceder; um processo orgânico começa a suplantar a estase mecânica enquanto forma do fetiche. A teoria orgânica do Estado e a proliferaçom de teorias raciais e a ascensom do darwinismo social no final do século XIX som exemplos desta tendência. A sociedade e o processo histórico som a cada vez mais compreendidos em termos biológicos. Nom vou desenvolver mais este aspecto do fetiche do capital. Para o que nos interessa, o que deve ser notado som as implicações da maneira como o capital é apreendido. Como indicámos anteriormente, no nível lógico da análise da mercadoria, o "duplo carácter" permite à mercadoria aparecer como umha entidade puramente material e nom como a objetivaçom de relações sociais mediadas. Dum modo semelhante, permite ao trabalho concreto aparecer como um processo puramente criativo, material, separável das relações sociais capitalistas. No plano lógico do capital, o "duplo carácter" (processo de trabalho e processo de valorizaçom) permite que a produçom industrial apareça como um processo puramente criativo, material, separável do capital. A forma manfiesta do concreto é agora mais orgânica. O capital industrial pode, portanto, aparece como o descendente linear do trabalho artesanal "natural", como estando "enraizado organicamente", por oposiçom ao capital financeiro "desenraizado" e "parasitário". A organizaçom do primeiro aparece relacionada com aquela da guilda; o seu contexto social é apreendido como umha unidade orgânica superior: Comunidade, Povo, Raça. O próprio capital, ou aquilo que é entendido como o aspecto negativo do capitalismo, é entendido apenas em termos da forma manifesta da sua dimensom abstracta: a finança e o capital que rende juros. Neste sentido, a interpretaçom biológica, que contrapõe a dimensom concreta (do capitalismo), como "natural" e "saudável", à negatividade do que é assumido ser o "capitalismo", nom contradiz a glorificaçom do capital industrial e da tecnologia. Ambos constituem o lado "corpóreo" da antinomia.

Habitualmente todo isto é compreendido de jeito errôneo. Por exemplo, Norman Mailer, ao defender o neo-romantismo (e o sexismo), escreve em "O Prisioneiro do sexo" (9) que Hitler falava em sangue, com certeza, mas construiu a máquina. A questom é que, neste tipo de "anticapitalismo" fetichizado, tanto o sangue quanto a máquina som vistos como os contra-princípios concretos do abstrato. O acento positivo na "natureza", no sangue, no solo, no trabalho concreto e na Comunidade, pode ser facilmente acompanhada por umha glorificaçom da tecnologia e do capital industrial (10). Esta forma de pensamento, portanto, nom se deve conceber como anacrónica, como a expressom dum nom-sincronismo histórico (11), do mesmo jeito que a ascensom das teorias raciais no final do século XIX nom se deve ser encarada como atávica. Historicamente trata-se de formas de pensamento novas que nom representam a renascença dumha forma anterior. É por causa da sua ênfase na natureza biológica que elas aparem como atávicas ou anacrónicas. Porém, este acento na natureza biológica está ligado ao fetiche-capital. A viragem para a biologia e o desejo dum retorno às "origens naturais", combinados com umha afirmaçom da tecnologia, que aparecem em inúmeras formas no início do século XX, devem ser entendidos como expressões do fetiche antinómico que dá origem à ideia de que o concreto é "natural", e que apresenta crescentemente o socialmente "natural" de tal maneira que é apreendido em termos biológicos.

A hipostasiaçom do concreto e a identificaçom do capital com o abstrato manifesto subjaz a umha forma de "anticapitalismo" que procura superar a ordem social existente dum ponto de vista que, na verdade, permanece imanente a essa mesma ordem. Na medida em que esse ponto de vista é a dimensom concreta, esta ideologia tende a apontar para umha forma de síntese social capitalista aberta, mais concreta e organizada. Esta forma de "anticapitalismo", portanto, apenas parece ser um olhar saudosista em relaçom ao passado. Enquanto expressom do fetiche do capital, o seu verdadeiro impulso é para a frente. Surge na transiçom do capitalismo liberal para o burocrático e torna-se virulenta numha situaçom de crise estrutural.

Esta forma de "anticapitalismo", entom, é baseada num ataque unilateral ao abstrato. O abstrato e o concreto nom som vistos como constituintes dumha antinomia em que a superaçom do abstrato, da dimensom do valor, envolve a superaçom histórica da própria antonimia, assim como de cada um dos seus termos. Ao invés, existe um ataque unilateral à razom abstrata, ou, num outro nível, ao dinheiro e ao capital financeiro. Neste sentido, é completamente antinómica ao pensamento liberal, onde a dominaçom abstrata permanece incontestada e a distinçom entre a razom crítica e positiva nom é efectuada.

O ataque "anticapitalista", contodo, nom permaneceu limitado a um ataque contra a abstraçom. Ao nível do fetiche do capital, nom é apenas o lado concreto da antinomia que pode ser naturalizado e biologizado. A dimensom abstrata manifesta foi igualmente biologizada, equiparada aos Judeus. A oposiçom fetichista entre o material concreto e o abstracto, entre o "natural" e o "artificial", traduziu-se na oposiçom racial entre os arianos e os Judeus historicamente conhecida. O antissemitismo moderno envolve a biologizaçom do capitalismo -que apenas é entendido em termos da sua dimensom abstrata manifesta- enquanto Judaísmo Internacional.
Desenho nazi representando o capitalismo judeu (financeiros e banqueiros, sinónimo
de usurários corrutos) como umha aranha que devora a economia alemã (o empresariado
 honrado, sinónimo do trabalhador solidário).
De acordo com esta interpretaçom, os Judeus foram identificados nom apenas com o dinheiro, com a esfera da circulaçom, mas com o próprio capitalismo. Todavia, em virtude da sua forma fetichizada, o capitalismo nom parecia incluir a indústria e a tecnologia. O capitalismo aparecia apenas como a sua dimensom abstrata manifesta que, pola sua vez, era responsável polas vastas mudanças sociais e culturais concretas associadas ao rápido desenvolvimento do capitalismo industrial moderno. Os Judeus nom eram encarados como meros representantes do capital (situaçom em que os ataques antissemitas teriam sido muito mais específicos em termos de classe). Eles tornaram-se personificações do domínio intangível, destrutivo, imensamente poderoso e internacional do capital enquanto forma social alienada. Certas formas de descontentamento anticapitalista foram direcionadas contra a dimensom abstrata manifesta do capital personificado na forma dos Judeus, nom em virtude de os Judeus serem conscientemente identificados com a dimensom do valor, mas porque, dada a antinomia entre as dimensões abstrata e concreta, o capitalismo aparecia-lhes dessa maneira. A revolta "anticapitalista" foi, consequentemente, também umha revolta contra os Judeus. A superaçom do capitalismo e dos seus efeitos sociais negativos foi associada à supressom dos Judeus (12).

(7) A crítica feita por Marx abrange umha dimensom epistemológica que atravessa todo "O Capital" mas que apenas se explicita no quadro da sua análise da mercadoria. A ideia que as categorias exprimem à vez as relações sociais "reificadas" específicas e formas de pensamento difere essencialmente da principal corrente da tradiçom marxista, que concebe estas categorias em termos de "base económica" e o pensamento em termos de superestrutura, derivada de interesses e de necessidades de classe. Esta forma de funcionalismo nom pode, como tenho dito, explicar de maneira adequada a nom-funcionalidade do extermínio dos Judeus. De maneira mais geral, ela nom pode explicar porque umha forma de pensamento -que, com efeito, pode servir o interesse de certas classes ou grupos sociais-, reveste esse conteúdo e nom outro. Isto serve igualmente para a ideia saída do Iluminismo segundo a qual a ideologia (e a religiom) seria o produto dumha manipulaçom deliberada. Para que umha determinada ideologia alastre, é preciso que possua umha resonância cuja origem seja a explicar. De resto, a ótica marxiana, desenvolvida por Lukács, a Escola de Francoforte e Sohn-Rethel, opõe-se às reações unilaterais contra o marxismo tradicional, que renunciaram a qualquer tentativa séria de explicaçom historica das formas de pensamento, e considera qualquer aproximaçom deste tipo como "reducionista".

(8) Proudhon, que na sua perspectiva pode ser considerado como um dos precursores do antissemitismo moderno, achava entom que a aboliçom do dinheiro, da mediaçom fenomenal, bastaria com abolir as relações capitalistas. Mas o capitalismo caracteriza-se polas relações sociais mediatizadas, objetivadas nas formas categoriais das quais o dinheiro é umha das expressões e nom a causa. Noutros termos, Proudhon confundiu a forma fenomenal do capitalismo, o dinheiro como objetivaçom do abstrato, com a essência do capitalismo.

(9) Norman Mailer, Prisioneiro do Sexo, Robert Laffont, 1971.

(10) As teorias que apresentam o nacional-socialismo como "antimoderno" ou "irracionalista" nom podem explicar a interaçom destes dous momentos. A noçom do "irracionalismo" tende a nom pôr em causa o "racionalismo" dominante e nom pode, portanto, explicar a relaçom positiva que umha ideologia "irracionalista" e "biológica" tem com a rácio da indústria e da tecnologia. A noçom de "antimoderna" ignora os aspetos muito modernos do nacional-socialismo e nom pode explicar por que este apenas ataca certos aspectos da "modernidade" e negiglencia outros. Na verdade, estas duas análises som unilaterais e representam apenas umha dimensom, a dimensom abstrata da antinomia/contradiçom descrita acima. Estas tendem a defender de forma acrítica a "modernidade" e a "racionalidade" nom fascistas dominantes. Estas também abrim a porta para o surgimento de novas críticas unilaterais (de esquerda desta vez), como as de Michel Foucault ou de André Glucksmann, que apenas representam a civilizaçom capitalista moderna em funçom do abstrato. Nom apenas todas essas abordagens impedem umha teoria do nacional-socialismo que possa fornecer umha explicaçom adequada da relaçom do "sangue" e da "máquina", mas ainda, som incapazes de mostrar que a oposiçom do concreto e do abstrato, da razom positiva e da "irracionalidade" nom define os parâmetros dumha escolha absoluta, mas que os termos dessas oposições estám interrelacionados como as expressões contraditórias/antinómicas de formas fenomenais duais da mesma essência: as relações sociais características da formaçom social capitalista. (Neste sentido, a destruiçom da Razom, escrita por Lukács sob o choque da brutalidade indizível dos nazistas, mostra umha regressom em relaçom às visões críticas sobre as contradições (antinomias) do pensamento burguês que ele desenvolvera na História e consciência de classe Vinte e cinco anos antes). Essa abordagem mantém a antinomia em vez de a ultrapassar teoricamente.

(11) Este conceito utilizado por Ernst Bloch em "Héritage de ce temps" explica o antissemitismo moderno por um embate entre as formas de consciência atrasadas, arcaicas, inadaptadas à sociedade moderna, por umha parte, e as formas de consciência massificadas, reificadas, típicas da sociedade moderna, por outro lado.

(12) Para explicar por que o antissemitismo moderno alcançou níveis tam diferentes entre um país e outro, e por que se tornou hegemônico na Alemanha, caberia naturalmente substituir a argumentaçom acima desenvolvida no contexto histórico e social de cada país. No que diz respeito à Alemanha, um ponto de partida seria o desenvolvimento extremamente rápido do capitalismo industrial e o crescimento dos deslocamentos sociais que isto causou, bem como a ausência dumha revoluçom burguesa anterior com os seus valores liberais e a sua cultura política. A história da França, do caso Dreyfus ao regime de Vichy, no entanto, mostra que umha revoluçom burguesa precedente da industrializaçom nom parece ser umha condiçom suficiente de "imunidade" contra o antissemitismo moderno. Além disso, o antissemitismo moderno nom alastrou muito na Grã-Bretanha, embora as teorias raciais e o darwinismo social tenham lá sido também dominantes como no continente. Umha das diferenças pode ser o grau e o tipo de dominaçom do abstrato social no início da industrialização. Entom poder-se-ia conceituar a forma de socializaçom na França colocando-o entre a da Grã-Bretanha e a da Prússia. Esta caracteriza-se por umha forma particular de "dominaçom dupla", a da mercadoria e a da burocracia estatal. Embora as duas sejam formas racionalizadas, porém, diferem no nível de abstraçom com que mediatiza a dominaçom. Talvez exista lá umha relaçom entre a concentraçom institucional e a dominaçom concreta, como a burocracia estatal (incluindo militares e policiais) e a Igreja, no primeiro capitalismo e o grau em que a dominaçom abstrata do capital foi entom vista nom apenas como umha ameaça, mas como algo misterioso e estranho.
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Este ensaio foi publicado por Moishe Postone em 1986 (em "Germans and Jews since the Holocaust: The Changing Situatin in West Germany", edições Holmes&Meier, pp. 302-314).

Pode-se acessar a este ensaio na sua versom original em inglês ou na sua traduçom para o francês. Também se pode aceder à versom em português (traduçom de Nuno Miguel Machado).

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

ANTISSEMITISMO E NACIONAL-SOCIALISMO (Parte I)

Moishe Postone

Neste ensaio vou tentar aproximar-me dumha explicaçom do extermínio da Judiaria europeia através dumha interpretaçom do antissemitismo moderno. A minha intençom nom é explicar porque é que o nazismo e o antissemitismo moderno experimentaram um desenvolvimento notável e se tornaram hegemónicos na Alemanha. Umha tal tentativa acarretaria umha análise da especificidade do desenvolvimento histórico alemão, matéria sobre a que já muito se tem escrito. Porém, este ensaio procura determinar mais de perto aquilo que se desenvolveu, ao sugerir umha análise do antissemitismo moderno que salienta a sua ligaçom intrínseca com o nacional-socialismo. Esta aferiçom é umha pré-condiçom necessária para qualquer análise substantiva das razões para o triunfo do nacional-socialismo na Alemanha. 

O primeiro passo deve ser umha especificaçom do Holocausto e do antissemitismo moderno. O problema nom deve ser colocado quantitativamente, quer em termos do número de pessoas assassinadas ou no grau de sofrimento causado. Existem muitos exemplos históricos de assassinatos de massas e de genocídio (por exemplo, foram mortos muitos mais Russos do que Judeus polos nazistas). A questom é, ao invés, de especificidade qualitativa. Aspectos particulares do extermínio dos Judeus europeus polos nazistas ficam inexplicáveis enquanto o antissemitismo for tratado como um exemplo específico dumha estratégia de "bode expiatório" cujas vítimas poderiam ter sido membros de qualquer outro grupo. 

O Holocausto caracterizou-se por um senso de missom ideológica, por umha relativa falta de emoçom e ódio imediatos (ao contrário dos pogroms, por exemplo) e, o que é mais importante, a sua aparente falta de funcionalidade. A exterminaçom dos Judeus nom parece ter sido um meio para qualquer fim. Eles nom foram exterminados por razões militares ou no decurso dum violento processo de aquisiçom de território (como foi o caso dos Índios Americanos e dos Tasmanianos). Nem a política dos nazis relativamente aos Judeus se pareceu com a sua política relativamente aos Polacos e aos Russos, que procurou erradicar aqueles segmentos da populaçom cuja resistência se poderia cristalizar, de modo a explorar a restante populaçom mais facilmente como hilotas. Com efeito, os Judeus nom foram exterminados devido a qualquer objetivo manifesto "extrínseco". O extermínio dos Judeus deveria ter sido nom apenas total, como constituía o seu próprio objetivo, o extermínio polo extermínio, um objetivo que adquiriu prioridade absoluta (3).

Nengumha explicaçom funcionalista do Holocausto e nengumha teoria do antissemitismo como bode expiatório pode sequer começar a explicar o porque de, nos últimos anos da guerra, quando as forças alemãs estavam a ser esmagadas polo Exército Vermelho, umha proporçom significativa de veículos ter sido desviada do apoio logístico e utilizada para transportar os Judeus para as câmaras de gás. Umha vez reconhecida a especificidade qualitativa do extermínio dos Judeus europeus, torna-se claro que as tentativas de explicaçom ligadas ao capitalismo, ao racismo, à burocracia, à repressom sexual ou à personalidade autoritária permanecem num nível demasiado geral. A especificidade do Holocausto requer umha mediaçom muito mais determinada de forma a aproximarmo-nos do seu entendimento.
Mesmo quando estavam prestes a serem derrotados, os nazistas priorizaram
 o apoio logistico para o transporte dos Judeus para as câmaras de gás
O extermínio dos Judeus europeus está, como é óbvio, relacionado com o antissemitismo. A especificidade do primeiro deve ser relacionada com a do segundo. Para além disso, o antissemitismo moderno deve ser entendido com referencia ao nazismo enquanto um movimento -um movimento que, em termos da sua própria autocompreensom, representou umha revolta.

O antissemitismo moderno, que nom deve ser confundido com um preconceito antijudaico quotidiano, é umha ideologia, uma forma de pensamento, que emergiu na Europa no final do século XIX. O seu surgimento pressupôs formas anteriores de antissemitismo, as quais tinham sido umha parte integrante da civilizaçom cristã ocidental durante séculos. Aquilo que é comum a todas as formas de antissemitismo é o grau de poder atribuído aos Judeus: o poder para matar Deus, para desencadear a Peste Bubónica e, mais recentemente, para introduzir o capitalismo e o socialismo. O pensamento antissemita é fortemente maniqueísta, como os Judeus a desempenharem o papel de filhos das trevas.

E nom apenas o grau, mas também a qualidade do poder atribuído aos Judeus que distingue o antissemitismo de outras formas de racismo. Provavelmente, todas as formas de racismo atribuem um poder potencial ao Outro. Este poder, contodo, é usualmente concreto, material ou sexual. É o potencial do oprimido (enquanto reprimido), dos "Untermeschen" (sub-humanos). O poder atribuído aos Judeus é muito maior e é percebido como real ao invés de potencial. Para além do mais, é um tipo diferente de poder, um nom necessariamente concreto. O que caracteriza o poder imputado aos Judeus no antissemitismo moderno é o facto de ser misteriosamente intangível, abstrato e universal. É considerado como umha forma de poder que nom se manifesta diretamente, mas deve encontrar outro modo de expressom. Procura um suporte concreto, politico, social ou cultural, mediante o qual possa funcionar. Em virtude do poder dos Judeus, tal como é concebido pola imaginaçom antissemita moderna, nom estar limitado concretamente, "enraizado", é presumido como sendo dumha imensidom desconcertante e extremamente difícil de contrariar. Considera-se que está por detrás dos fenómenos, mas nom é idêntico aos mesmos. A sua fonte é portanto considerada oculta -conspiratória. Os Judeus representam umha conspiraçom internacional extremamente poderosa e intangível.

Um exemplo gráfico desta visom é providenciado por um poster nazi que ilustra a Alemanha, representada por um trabalhador forte e honesto, ameaçada a oeste por um John Bull [britânico] gordo e plutocrata, e a Leste por um Comissário Bolchevique brutal e bárbaro. Todavia, estas duas forças hostis som meros fantoches. Elevando-se acima do globo, e a manietá-los, está o judeu. Esta visom nom era de forma algumha um monopólio dos nazis. É característica do antissemitismo moderno que os Judeus sejam considerados a força que se esconde por detrás dos antagonistas "aparentes": o capitalismo plutocrata e o socialismo. O "Judaísmo Internacional" é, para além disso, percebido como estando centrado nas "selvas de asfalto" das megalópoles urbanas emergentes, por detrás da "cultura moderna, vulgar e materialista" e, em geral, de todas as forças que contribuem para o declínio dos grupos sociais, valores e instituições tradicionais. Os Judeus representam umha força estrangeira, perigosa e destrutiva que mina a "saúde" social da naçom. O antissemitismo moderno, portanto, é caracterizado nom apenas polo seu conteúdo secular, mas também polo seu carácter sistemático. A sua pretensom é a de explicar o mundo, um mundo que se tornou rapidamente demasiado complexo e ameaçador para muitas pessoas.
Na propaganda nazi o Judeu é considerado como a força que
se esconde por detrás dos inimigos antagonistas da Alemanha
Esta determinaçom descritiva do antissemitismo moderno, embora necessária para diferenciar essa forma do preconceito ou racismo social, nom é suficiente em si mesma para indicar a ligaçom intrínseca ao nacional-socialismo. Ou seja, o objetivo de ultrapassar a separaçom habitual entre umha análise sócio-histórica do nazismo e um exame do antissemitismo ainda nom está, a este nível, cumprido. Ainda é requerida umha explicaçom que possa mediar ambas. Essa explicaçom deve ser capaz de fundamentar historicamente a forma de antissemitismo descrita anteriormente através das mesmas categorias que poderiam ser utilizadas para explicar o nacional-socialismo. A minha intençom nom é negar as explicações sócio-psicológicas ou psicanalíticas (4), mas antes elucidar um quadro de referência histórico-epistemológico dentro do qual possam ser efectuadas especificações psicológicas mais aprofundadas. Esse quadro de referência deve ser capaz de elucidar o conteúdo específico do antissemitismo moderno e ser histórico, isto é, deve contribuir para um entendimento de porque é que essa ideologia se tornou tam prevalecente num dado momento, desde o final do século XIX. Na ausência de tal quadro de referência, todas as outras tentativas explicativas que se centram numha dimensom subjetiva permanecem historicamente indeterminadas. O que é necessário, portanto, é umha explicaçom em termos dumha epistemologia sócio-histórica.

O desenvolvimento completo da problemática do antissemitismo extravasaria os limites deste ensaio. Deve ser realçado, contodo, que umha análise cuidadosa da visom de mundo proposta polo antissemitismo moderno revela que se trata dumha forma de pensamento na qual o rápido desenvolvimento do capitalismo industrial, com todas as suas ramificações sociais, é personificado com o Judeu. Os Judeus já nom som considerados meramente os possuidores do  dinheiro, como sucedia no antissemitismo tradicional,mas antes responsabilizados polas crises económicas e identificados com o espectro de reestruturaçom e desarticulaçom sociais resultantes dumha rápida industrializaçom: urbanizaçom explosiva, declínio das classes e estratos sociais tradicionais, surgimento dum grande proletariado industrial cada vez mais organizado, e assim por diante. Por outras palavras, a dominaçom abstracta do capital, a qual, particularmente com a rápida industrializaçom, apanhou as pessoas numha rede de forças dinâmicas que nom podiam compreender, passou a ser percebida como o domínio do Judaísmo Internacional.

Isto, todavia, nom corresponde a mais do que umha primeira abordagem. A personificaçom foi descrita, mas nom ainda explicada. Já existiram muitas tentativas de explicaçom mas nengumha delas, na minha opiniom, se revelou completa. O problema com essas teorias, tal como as de Max Horkheimer (5), que se concentram na identificaçom dos Judeus com o dinheiro e a esfera da circulaçom, é que elas nom conseguem explicar a noçom de que os Judeus também constituem o poder por trás da social-democracia e do comunismo. À primeira vista, outras teorias, tais como a de George L. Mosse (6), que interpretam o antissemitismo moderno como umha revolta contra a modernidade, parecem mais satisfatórias. Tanto a plutocracia como os movimentos operários foram concomitantes da modernidade, da massiva reestruturaçom social resultante da industrializaçom capitalista. O problema com estas abordagens, contodo, é que o "moderno" teria de incluir certamente o capital industrial. Ora, como é sabido, o capital industrial nunca foi um objeto dos ataques antissemitas, mesmo num período de rápida industrializaçom. Para além do mais, a atitude do nacional-socialismo relativamente a muitas outras dimensões da modernidade, especialmente no que se refere à tecnologia moderna, foi afirmativa ao invés de crítica. Os aspectos da vida moderna que foram rejeitados e aqueles que foram afirmados polos nacional-socialistas formam um padrom. Esse padrom deve ser intrínseco a umha adequada conceptualizaçom do problema. Dado que esse padrom nom era exclusivo do nacional-socialismo, a problemática possui um significado de longo alcance.

A afirmaçom do capital industrial por parte do antissemitismo moderno indica a necessidade dumha abordagem que consiga distinguir entre aquilo que o capitalismo moderno realmente é e a forma como se manifesta, entre a sua essência e a sua aparência. O termo "moderno" nom possui em si mesmo umha diferenciaçom intrínseca que permita tal distinçom. Gostaria de sugerir que as categorias sociais desenvolvidas por Marx na sua crítica de maturidade, tais como "mercadoria" e "capital", som mais adequadas, na medida em que um conjunto de distinções entre aquilo que é aquilo que parece ser som intrínsecas a essas mesmas categorias. Estas categorias podem servir como ponto de partida para umha análise capaz de diferenciar as várias percepções do "moderno". Essa abordagem tentaria relacionar o padrom da crítica social e a afirmaçom que estamos a considerar com características das próprias relações sociais capitalistas.

(3) A única tentativa recente, na média da Alemanha ocidental, de especificar qualitativamente o extermínio dos Judeus polos nazis foi feita por Jürgen Thorwald no Spiegel a 5 de fevereiro de 1979.

(4) Cf. Norman Cohn, História dum mito. A "conspiraçom" judia e os Protocolos dos Sábios de Siom, Gallimard, 1967.

(5) Max Horkheimer, "Die Juden und Europa", em Zeitschrift für sozialforschung, 8º ano (1939-40), págs. 135-137. Existe umha traduçom deste artigo intitulado "Porque o fascismo?" em Esprit, maio 1978.

(6) George L. Mosse, The Crisis of German Ideology, Nova Iorque, 1964.
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Este ensaio foi publicado por Moishe Postone em 1986 (em "Germans and Jews since the Holocaust: The Changing Situatin in West Germany", edições Holmes&Meier, pp. 302-314).

Pode-se acessar a este ensaio na sua versom original em inglês ou na sua traduçom para o francês. Também se pode aceder à versom em português (traduçom de Nuno Miguel Machado).

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

ANTISSEMITISMO E NACIONAL-SOCIALISMO

Moishe Postone

Moishe Postone
Qual é a relaçom do antissemitismo com o nacional-socialismo (1)? O debate público deste problema na República Federal Alemã tem sido caracterizado por umha dicotomia entre liberais e conservadores, por um lado, e a Esquerda, polo outro. 

Os liberais e conservadores tendem a enfatizar a descontinuidade entre o passado nazista e o presente. Relativamente a esse passado eles focalizaram a sua atençom na perseguiçom e extermínio dos Judeus e tendem a negligenciar outros aspetos centrais do nazismo. Para remarcar umha suposta rutura total entre o Terceiro Reich e a República Federal, esta classe de ênfase no antissemitismo tem contribuido, paradoxalmente, para evitar um confronto fundamental com a realidade social e estrutural do nacional-socialismo. Com certeza, esta realidade nom sumiu certamente em 1945. A condenaçom do antissemitismo nazista, por outras palavras, também tem servido como umha ideologia de legitimaçom do sistema presente. Esta instrumentalizaçom apenas foi possível porque o antissemitismo foi tratado mormente como umha forma de preconceito, enquanto ideologia dum "bode expiatório", obscurecendo desse modo a relaçom intrínseca entre o antissemitismo e outros aspectos do nacional-socialismo. 

Por outro lado, a Esquerda tende a concentrar-se na funçom do nacional-socialismo para o capitalismo, enfatizando a destruiçom das organizações das classes trabalhadoras, as políticas sociais e económicas nazistas, o rearmamento, o expansionismo e os mecanismos burocráticos da dominaçom do partido e do estado. Os elementos de continuidade entre o Terceiro Reich e a República Federal foram realçados. O extermínio dos Judeus nom foi, é claro, ignorado. Todavia, foi rapidamente subordinado às categorias gerais do preconceito, discriminaçom e perseguiçom (2). Ao compreender o antissemitismo como um elemento periférico ao invés de central do nacional-socialismo, a esquerda ocultou também a relaçom intrínseca entre os dous. 

Estas posições entendem o antissemitismo moderno como um preconceito anti-judeu, como um exemplo particular do racismo em geral. A sua ênfase na natureza psicológica de massas do antissemitismo separa as considerações do Holocausto das investigações socioeconómicas e socio-históricas do nacional-socialismo. Porém, o Holocausto, nom pode ser entendido enquanto o antissemitismo for visto como um exemplo de racismo em geral e enquanto o nazismo for concebido apenas em termos do grande capital e dum estado burocrático policial e terrorista. Auschwitz, Belzec,  Chelmno, Maidanek, Sobibor e Treblinka nom devem ser tratados fora do quadro dumha análise do nacional-socialismo. Eles representam um dos seus fins lógicos, e nom apenas o seu mais terrivel epifenómeno. Nengumha análise do nacional-socialismo que nom seja capaz de explicar o extermínio da Judiaria europea será completamente adequado. 

(1) O autor agradece a Bárbara Brick, Dan Diner e Jeffrey Herf polos seus comentários a umha versom anterior deste ensaio.
(2) Na RDA todos os Judeus, independentemente dos seus antecedentes políticos, recebiam umha pensom do governo. Porém, nom é como Judeus que a recebiam, mas como "antifascistas".
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Este ensaio foi publicado por Moishe Postone em 1986 (em "Germans and Jews since the Holocaust: The Changing Situatin in West Germany", edições Holmes&Meier, pp. 302-314).

Pode-se acessar a este ensaio na sua versom original em inglês ou na sua traduçom para o francês. Também se pode aceder à versom em português (traduçom de Nuno Miguel Machado).


terça-feira, 30 de setembro de 2014

COMPLÓ SIONISTA PARA DESTRUIR O PRÓXIMO ORIENTE

Num discurso retransmitido no passado 8 de setembro no primeiro canal da televisom egícia, o imã de Al-Azhar, o xeque Ahmed al-Tayeb, denunciou um "complô do sionismo mundial para destruir o Próximo Oriente" referindo-se aos jihadistas do Estado Islâmico: "Todos os [grupos terroristas fundamentalistas] som os novos produtos do imperialismo, ao serviço do sionismo mundial na sua nova versom, e o seu complô para destruir o Próximo Oriente e dividir a regiom. A nossa prova disto é a hesitaçom ocidental americana e a sua reticência a enfrentar estas organizações terroristas em relaçom ao assalto do Ocidental ao Estado iraquiano em 2003, por exemplo". Todavia, mais umha vez, a realidade dos feitos, isto é, os ataques aéreos estado-unidenses e franceses, juntamente com aliados árabes (Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Catar) contra as posições do Estado Islâmico no Iraque e na Síria dam cabo dessa nova teoria conspiratória.

Paradoxalmente o autor intelectual dessa asneira, o xeque al-Tayeb, era considerado como um liberal e moderado, antes da sua chegada à chefia da Universidade de Al-Azhar, a mais alta autoridade religiosa do islão sunita.

A questom é que desde a grave crise política originada pola destituiçom do presidente islamita Mohamed Morsi polo exército egício em julho de 2013, é frequente que tanto partidários do marechal Al-Sisi (o atual presidente) quanto simpatizantes da Irmandade Muçulmana acusarem-se mutuamente de conspirar contra o Egito a custa de Israel.

Relativamente ao golpe de estado que deu cabo da primeira experiência de governo -democraticamente eleito- da Irmandade Muçulmana no Egito, surgiram múltiplas teorias.

Para o Movimento de Resistência Islâmica (HAMAS), braço palestiniano da Irmandade Muçulmana, a queda de Morsi responderia a um complô sionista. Em Felesteen, jornal do Hamás, Fayez Abu Shamala alertava "contra o complô através do mundo que abateu o governo democraticamente eleito do Egito" do qual seriam culpados, como habitual, os Judeus. Shamala estipula que o golpe de Estado nom é fruto do povo egício, que está unido e odeia a divisom, mas "o que se passa na terra do Egito é umha iniciativa puramente sionista com o selo judeu e dos EUA". Segundo Shamala, os Judeus "conseguiram encontrar marionetas para ajudar à sabotagem israelita contra a indústria energética do Egito".

Porém, proeminentes arabistas de esquerda consideram que o golpe de Estado no Egito contra o governo da Irmandade Muçulmana respondeu a um movimento popular realizado em contra da vontade dos Estados Unidos. 

Para Santiago Alba Rico, arabista espanhol ligado à organizaçom política Podemos, a esquerda no Egito "faz parte da Frente Nacional de Salvaçom, coaligaçom também da direita neoliberal e dos fulul da ditadura, e o seu máximo representante, Hamdin Sabahi, que ocupou o terceiro lugar nas eleições presidenciais, pediu várias vezes nos últimos dias [na véspera do Golpe militar] a intervençom do exército e saudou os seus "revolucionários" comunicados. O mesmo no caso de Tamarrud, o movimento responsável polas mobilizações de 30 de junho, cujos porta-vozes confessam abertamente ter coordendo os protestos com a cúpula militar, e que responderam à assadiana declaraçom das forças armadas ("daremos as nossas vidas combatendo os terroristas, extremistas e ignorantes") reclamando a imediata detençom do presidente eleito Mohamed Mursi".

Nos mesmos termos se exprimiu Sami Nadir, quem analisou o golpe referindo que "os militares, apoiados por forças civis democratas e mesmo polos islamistas radicais do Partido Nur, perpetraram o seu golpe de Estado e concederam-se oficialmente o poder", alegando que os islamistas "ao tentar islamizar as instituições, nom repararam no carácter maioritariamente laico da sociedade egípcia, provocaram o acordar das forças democráticas e a formaçom ao longo dum ano dum bloco opositor, no que se reagruparom tanto partidários de Mubarak quanto os nasseristas que o rejeitavam, para além dos democratas laicos e umha arte significativa da "maioria" até entom silenciosa".

  
Este artigo realizou-se parcialmente a partir de informações do Conspiracy Watch.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

SIONISMO, ANTISSEMITISMO E A ESQUERDA

Moishe Postone é um académico marxista radicado na Universidade de Chicago. Para além de escrever abundantemente acerca da crítica da economía política de Marx, tem sido fundamental no desenvolvimento de teorias sobre o "antissemitismo de esquerda", analisando a forma como posições assumidas por grupos de esquerda, particularmente no que se refere ao conflito Israel/Palestina, podem tornar-se ou ser baseadas, numha hostilidade para com os Judeus. Martin Thomas falou com ele.
Q. Para muitas pessoas na esquerda de hoje, o antissemitismo parece ser apenas mais outra forma de racismo, indesejável mas por enquanto francamente marginal, e que é proeminente nas discussões apenas porque o governo israelita utiliza as acusações de antissemitismo para defletir as críticas que enfrenta. O senhor argumenta, contudo, que o antissemitismo é diferente das outras formas de racismo, e que o mesmo nom é marginal hoje em dia. Porque?
Moishe Postone: É verdade que o governo israelita utiliza as acusações de antissemitismo para se proteger das críticas. Mas isso nom significa que o próprio antissemitismo nom seja um problema sério.
A forma como o antissemitismo se distingue, e deve ser distinguido, do racismo, está ligada ao tipo e poder imaginário, atribuído aos Judeus, ao sionismo e a Israel, que está no âmago do antissemitismo. Os Judeus som vistos como constituindo umha forma global de poder imensamente poderosa, abstrata e intangível que domina o mundo. Nom existe nada semelhante a esta ideia no cerne das outras formas de racismo. O racismo, por aquilo que conheço, raramente constitui um sistema integral que procura explicar o mundo. O antissemitismo é umha crítica primitiva do mundo, da modernidade capitalista. A razom porque o considero particularmente perigoso para a esquerda é precisamente porque o antissemitismo possui umha dimensom pseudo-emancipatória que as outras formas de racismo raramente apresentam.
P. Em que medida considera que o antissemitismo de hoje está ligado com atitudes face Israel? Parece-nos que umha corrente na atitude de algumhas forças da esquerda em relaçom a Israel tem implicações antissemitas. Essa é a corrente que deseja nom apenas criticar e mudar a política israelita face os palestinianos, mas a aboliçom de Israel enquanto tal, e um mundo onde os outros estados-naçom possam existir, mas nom Israel. Deste ponto de vista, ser um judeu, sentir qualquer identidade comum com outros Judeus e, portanto, com os Judeus de Israel, significa ser "sionista", algo que será tam aberrante como ser um racista.
R. É preciso desagregar muita cousa neste âmbito. Existe umha espécie de convergência fatal dum número de correntes históricas na forma contemporânea de antissionismo.
Umha, cujas origens nom som necessariamente antissemitas, tem as suas raízes nas lutas entre membros da intelligentsia judaica na Europa do Leste no início do século XX. Umha maioria de intelectuais judaicos, incluindo intelectuais secularizados, sentiam que algumha forma de identidade colectiva fazia parte da experiência judaica. Esta identidade tornou-se crescentemente definida como nacional, em virtude do colapso das anteriores formas imperiais de coletividade; isto é, a medida que os impérios antigos, os impérios dos Habsburgo, Romanov e Prússia se desmembravam. Os Judeus na Europa do Leste, ao contrário dos Judeus na Europa Ocidental, viam-se a si mesmos como umha coletividade, e nom simplesmente como umha religiom.
Existiam várias formas desta auto-expressom nacional judaica. O sionismo foi umha delas. Havia outras, como os autonomistas culturais judaicos e o Bund, um movimento socialista autónomo dos trabalhadores judeus, muito maior do que quaisquer outro movimento e que saiu Partido Operário Social-Democrata Russo nos primeiros anos do século XX.
Por outro lado, havia Judeus, muitos deles membros de Partidos Comunistas, que viam qualquer expressom da identidade judaica como um anatema para as suas noções do que eu chamaria noções iluministas abstratas de humanidade. Por exemplo, Trotsky, numha fase inicial, referiria-se ao Bund como "sionistas enjoados". Note-se que a crítica do sionismo aqui nada tinha a ver com a Palestina ou a situaçom dos Palestinianos, umha vez que o Bund se focava na autonomia no Império russo e rejeitava o sionismo. Ao invés, a equaçom de Trostky do Bund e o sionismo implicava a rejeiçom de qualquer forma de autoidentificaçom comunitária judia. Trotsky, acho, mudou de opiniom posteriormente, mas essa atitude era francamente típica. As organizações comunistas tendiam a se opor fortemente ao nacionalismo judeu, quer se tratasse do nacionalismo cultural, nacionalismo político ou sionismo. Esta é umha das correntes do antissionismo. Nom é necessariamente antissemita, mas rejeita a autoidentificaçom coletiva judia em nome dum universalismo abstracto.
Todavia, frequentemente, esta forma de antissionismo é inconsistente, pois visa conceder a autodeterminaçom nacional à maioria de povos, salvo aos Judeus. É neste ponto que aquilo que se apresenta como universalismo abstrato torna-se ideológico. Para além disso, o próprio significado desse universalismo muda com o contexto histórico. Após o Holocausto e o estabelecimento do Estado de Israel, este universalismo abstrato serve para velar a história dos Judeus na Europa. Isto cumpre umha dupla funçom "purificadora": a violência historicamente perpetrada polos Europeus sobre os Judeus é apagada; ao mesmo tempo, os horrores do colonialismo europeu agora som atribuídos aos Judeus. Neste caso, o universalismo abstrato expressado por muitos antissionistas hoje torna-se numha ideologia de legitimaçom que ajuda a constituir umha espécie de anésia relativamente à longa história de ações, políticas e ideologias europeias face os Judeus, enquanto essa história, no essencial, continua. Os Judeus, mais umha vez, tornaram-se no objeto singular da indignaçom europeia. A solidariedade que a maioria de Judeus sentem em relaçom a outros Judeus, incluindo em Israel, compreensível depois do Holocausto, é agora criticada. Esta sorte de antissionismo tornou-se numha das bases para um programa com vista a erradicar a autodeterminaçom judia existente. Converge com algumhas formas de nacionalismo árabe, agora codificada como singularmente progressista.
Outra corrente da esquerda antissemita, esta vez fondamente antissemita, foi introduzida pola Uniom Soviética, particularmente nos julgamentos fantoche na Europa Oriental após a Segunda Guerra mundial. Isto foi particularmente dramático no caso do julgamento de Slansky, quando a maioria dos membros do Comité Central do Partido Comunista Checoslovaco foram julgados e depois fuzilados. Todos os cargos contra eles eram cargos antissemitas: eles careciam de raízes, eram cosmopolitas e faziam parte dumha conspiraçom global geral. Já que a Uniom Soviética nom podia oficialmente usar a linguagem do antissemitismo, a palavra "sionista" começou a ser utilizada com o mesmo significado ao do "judeu" utilizado polos antissemitas. Esses líderes do PC Checoslovaco, que nada tinham a ver com o sionismo, pois a maioria deles eram veteranos da Guerra Civil espanhola, foram afuzilados como sionistas.
Esta corrente de antissionismo antissemita foi importada para o Próximo Oriente durante a Guerra Fria, em parte polos serviços de inteligência de países como a Alemanha Oriental. Foi introduzida umha forma de antissemitismo que era considerada "legítima" pola esquerda, e designada por antissionismo.
As suas origens nada têm a ver com o movimento contra o estabelecimento de Israel. Com certeza, a populaçom árabe da Palestina reagiu negativamente e resistiu à imigraçom judia. Isto é bastante compreensível e, em si mesmo, nom é certamente antissemita. Mas estas correntes de antissionismo convergeram historicamente.

Em relaçom à terceira corrente, houve umha mudança nos últimos dez anos, começando polo próprio movimento palestiniano, relativamente à existência de Israel. Durante anos, a maioria de organizações palestinianas rejeitaram aceitar a existência de Israel. Porém, em 1988 a OLP decidiu que iria aceitar a existência de Israel. A segunda intifada, que começou em 2000, foi politicamente muito diferente da primeira, e implicou umha reversom dessa decisom.

Considero que esse foi um erro político fundamental, e acho que é extraordinário e lamentável que a esquerda tenha sido apanhada pola onda e esteja, a cada vez mais, a exigir a aboliçom de Israel. Porém, hoje no Próximo Oriente há quase tantos Judeus quanto Palestinianos. Qualquer estratégia baseada em analogias a situações como a Argélia ou a África do Sul simplesmente nom funciona, tanto a nível demográfico como a nível político e histórico.

Porque é que as pessoas nom conseguem apreender a situaçom tal como ela é atualmente, e tentam descobrir se existe algum tipo de resoluçom para aquilo que é essencialmente um conflito nacional que poderia libertar umha política progressista? Subordinar o conflito à categoria de colonialismo é desconhecer a situaçom. Ao contrário daqueles que limitaram a política progressista a umha luta nacional, eu penso que enquanto a luta estiver centrada na existência de Israel e na existência da Palestina, as lutas progressistas permanecem indeterminadas. As pessoas que consideram a luta contra a existência de Israel progressista estám a aceitar algo reacionário.

Na última década tem havido umha campanha concertada por parte dalguns Palestinianos, e conduzida no Ocidente pola esquerda, no sentido de colocar a existência de Israel novamente em cima da mesa. Entre outras cousas, isto tem como efeito o fortalecimento da direita em Israel.

Entre 1967 e 2000 a esquerda em Israel argumentou sempre que os palestinianos queriam a autodeterminaçom e que a noçom propagada pola direita de que eles pretendiam erradicar Israel era umha fantasia. Infelizmente, essa fantasia revelou no ano 2000 nom ser umha fantasia de todo, o que fortaleceu incomparavelmente a direita nas suas tentativas de impedir a criaçom dum Estado palestiniano. A direita israelita e a direita palestiniana estám a reforçar-se mutuamente, e a esquerda ocidental está apoiar aquilo que considero ser a direita palestiniana, os ultranacionalistas e os islamistas.

A ideia de que a cada naçom, excetuando os Judeus, deve ser permitida a autodeterminaçom conduz-nos de volta à Uniom Soviética. Basta apenas ler Estaline acerca da questom das nacionalidades.

P. Outra cousa invulgar nalgumhas atitudes atuais das correntes de esquerda em relaçom a Israel é a sua projeçom sobre Israel dum poder enorme e misterioso. Por exemplo, é frequentemente assumido como axiomático que Israel é a potência dominante do Próximo Oriente, e é igualmente argumentado que Israel possui um enorme poder nas camadas dirigentes dos EUA e do Reino Unido.
R. Israel é de longe ser tam forte como assumido. Porém, existe gente como o meu presente e antigos colegas na Universidade de Chicaco, John Mearsheimer e Stephen Walt, fortemente apoiados por círculos britânicos, que defendem que o único elemento que dirige a política americana no Próximo Oriente é Israel, medida polo lobby judeu. Eles realizam esta afirmaçom veemente na ausência de qualquer tentativa séria de analiar a política americana no Próximo Oriente desde 1945, que seguramente nom pode ser adequadamente compreendida estando assente em Israel. Assim sendo, por exemplo, eles ignoram completamente a política americana relativamente ao Irám nos últimos 75 anos. Os alicerces reais da política americana no Próximo Oriente após a Segunda Guerra mundial foram a Arábia Saudita e o Irám. Isto mudou nas últimas décadas, e os americanos nom têm a certeza hoje em dia acerca de como lider com isso e assegurar o Golfo para a prossecuçom dos seus objetivos. Todavia, há um livro escrito por esses dous académicos mencionados que alega que a política americana no Próximo Oriente foi conduzida mormente polo lobby judeu, sem se preocuparem em analisar seriamente as políticas das grandes potências em relaçom ao Próximo Oriente no século XX.

Já sustentei noutro lugar que este tipo de argumentaçom é antissemita. Isto nom tem nada a ver com as atitudes pessoais do povo envolvido, mas a sorte de enorme poder global atribuido aos Judeus (como, neste caso, o de manipularem ocultadamente o gigate, bondoso e ingénuo Tio Sam) é típico do pensamento antissemita moderno.

Dum modo mais geral, essa ideologia representa aquilo que eu chamo de forma fetichizada de anticapitalismo. Isto é, o poder misterioso do capital, que é intangível, global e que desestabiliza nações, regiões e a vida das pessoas, é atribuído os Judeus. O domínio abstrato do capitalismo é personificado no judeu. O antissemitismo é umha revolta contra o capital global, falsamente entendido como os Judeus. Esta abordagem pode também ajudar a explicar o crescimento do antissemitismo no Próximo Oriente nas últimas duas décadas. Nom penso que mencionar apenas o sofrimento dos Palestinianos seja umha explicaçom suficiente. Economicamente, o Próximo Oriente tem declinado significativamente nas últimas três décadas. Apenas a África Subsariana se encontra em piores condições. E isto ocorreu num momento em que os outros países e regiões, tidos como parte integrante do Terceiro Mundo há cinquenta anos, se desenvolveram rapidamente. Penso que o antissemitismo no Próximo Oriente, hoje em dia, é umha expressom nom apenas do conflito israelo-palestiniano, mas também dum sentimento geral de impotência exacerbado à luz destes desenvolvimentos globais.

Na direita alemã de há cem anos, a dominaçom global do capital costumava ser considerada como dos Judeus e da Grã Bretanha. Hoje em dia a Esquerda encara esse domínio como o de Israel e os EUA. O padrom de pensamento é o mesmo. Temos agora umha forma de antissemitismo que parece ser progressista e "anti-imperialista"; o que constitui um verdadeiro perigo para a esquerda.


O racismo raramente constitui um  perigo para a esquerda. A esquerda tem de ter cuidado para nom se tornar racista, mas isso nom é um perigo permanente porque o racismo nom possui a dimensom aparentemente emancipadora do antissemitismo.

P. A identificaçom do poder capitalista global com os Jueus e o Reino Unido remonta a umha época anterior aos nazis, as seções da esquerda britânica durante a Guerra dos Bóeres, condenada como sendo umha "guerra judaica", e ao movimento populista nos EUA, no final do século XIx.
R. Sim, e está a voltar nos EUA atualmente. Os chamados "tea parties", a denominada fúria popular (grass-roots) de direita acerca da crise financeira, possui traços marcadamente antissemitas.
P. O senhor defende que a URSS e os sistemas similares nom eram formas de emancipaçom do capitalismo, mas formas de capitalismo de Estado. Assim, a atitude geral da esquerda ao colocar-se do lado da URSS, por vezes dum modo bastante crítico, contra os EUA foi autodestrutiva. O senhor tem realçado a analogia entre o tipo de anti-imperialismo que se coloca do lado do Islám político, enquanto contrapoder dos EUA, e a velha Guerra Fria. Quais som as características comuns entre estas duas polarizações políticas? E as diferenças?
R. As diferenças som que a forma anterior de antiamericanismo estava ligada à promoçom das revoluções comunistas no Vietname, em Cuba,... O que quer que pensássemos disso na altura, ou como o encaremos retrospetivamente, a sua própria autocompreensom era a de que promovia um projeto emancipador. Os EUA eram severamente criticados nom apenas por serem umha grande potência, mas também porque estavam a impedir a emergência dumha ordem social mais progressista. Essa era a autocompreensom de muitos dos que solidarizavam com o Vietname ou com Cuba.

Hoje em dia, duvido que mesmo as pessoas que proclamavam "somos todos Hezbollah" ou "somos todos Hamas" acreditem que esses movimentos representam umha ordem social emancipadora. No melhor dos casos está envolvida umha reificaçom orientalista dos Árabes e/ou Muçulmanos enquanto Outro, mediante a qual o Outro, desta vez, é afirmado. Trata-se doutra indicaçom do sentimento histórico de impotência por parte da esquerda, da incapacidade para desenvolver um imaginário acerca de como poderia ser um futuro pós-capitalista. Nom possuindo qualquer visom dum futuro pós-capitalista, muitos substituíram qualquer conceçom de transformaçom por umha noçom reificada de "resistência". Qualquer cousa que "resista" aos EUA é encarada positivamente. Considero esta forma de pensamento extremamente questionável.

Mesmo no período anterior, quando predominava a solidariedade com o Vietname, Cuba,..., penso que a divisom do globo em dous campos teve consequências bastante negativas para a esquerda. A esquerda encontrou-se frequentemente numha posiçom em que era o espelho dos nacionalistas ocidentais.

Muitos elementos de esquerda tornaram-se nacionalistas do outro lado. A maior parte deles, com algumhas exceções significativas, era extremamente apologética do que se estava a passar nos países comunistas. O seu olhar crítico estava distorcido. Em vez de desenvolver umha forma de internacionalismo que fosse crítico de todas as relações existentes, a esquerda tornou-se apoiante dum dos lados numha outra versom do Grande Jogo.

Isto teve efeitos desastrosos nas faculdades críticas da esquerda, e nom apenas no caso dos comunistas. É absurdo que Michel Foucault tenha ido ao Irám e considerado a revoluçom dos mullahs como possuidora de aspectos progressistas.

Umha cousa que tornou a divisom em dous campos sedutora foi o  facto dos comunistas ocidentais tenderem a ser pessoas bastante progressistas, pessoas muito corajosas, frequentemente, que sofriam em virtude das suas tentativas, no seu próprio entendimento, de criar umha sociedade mais humana e progressista, e talvez mesmo umha sociedade socialista. Essas pessoas foram completamente instrumentalizadas; mas, por causa do duplo carácter do comunismo, era muito difícil para algumhas pessoas constatar isso. Os segmentos da esquerda social-democrata que se opunham a esses comunistas, e viam como eles eram manipulados, tornaram-se eles mesmos ideólogos do liberalismo  durante a Guerra Fria.

Julgo que a esquerda nom deveria ter apoiado nengum dos dous lados da divisom. Mas penso igualmente que a situaçom da esquerda é pior hoje em dia.

Entrevista original: "Zionism, anti-semitism and the left", in Solidarity, Vol. 3, Nº 166, fevereiro 2010, PP. 21-22.