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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

TRUMP, DIOCLECIANO E O PORQUEIRO

Bernard-Henri Lévy

É possível que Obama tivesse abandonado Israel. Mas o que é certo é que Trump vai treiçoar Israel.

Como é possível? Nom está a dar múltiplos sinais de boa vontade? O nomeamento dum embaixador amigo, o anúncio do deslocamento da embaixada para Jerusalém, o nomeamento do genro dele, Jared Kushner, como assessor, nom som acenos enérgicos dos que Israel se deveria alegrar?

Sim e nom.

Existe umha lei formulada por Gershom Scholem quando, durante o processo de Eichmann, censurou Hannah Ardent alegando que carecia de Ahavat Israel "o amor ao povo judeu". Ardent retorquiu que, quando se tratar de Israel, as provas de amor som menos importantes do que o amor. Para sermos exatos, disse que os gestos de amizade, quando nom ligados a um conhecimento e um apego sincero, tornam-se, num dado momento, em tudo o contrário.

Na atualidade, o perigo é, em Israel, que se reforce a faixa mais radical da sociedade, um má sinal dirigido aos que, no outro bando, se alegram de que os Estados Unidos comecem a tomar decisões unilaterais que, um dia, possam ser desfavoráveis aos Judeus; e nos Estados Unidos, a proximidade dum presidente instável (que muda segundo o negócio do dia) e impopular para meio pais (com a rotura do consenso entre os dous partidos que sempre reforçou Israel).

Nom tenho nem ideia, como é natural, do amor que Donald Trump sente, ou nom, polo povo judeu. Mas dá-nos algumha pista o livro de John O'Donnel sobre ele: "O único tipo de gente que conte o meu dinheiro som pequenos homens cobertos com a kipá". Esteve nos twitts com os que empezinhou em arrancar ao jornalista John Stewart, a máscara atrás da que se ocultava Jonathan Leibowitz, o seu verdadeiro nome. Estiveram as palavras que encaminhou, em plena campanha, a umha reuniom de doadores judeus: "Sei por que nom me vam apoiar! Porque nom procedo do seu dinheiro!".

Ou, para sermos mais precisos, essa variedade de desprezo que funciona, segundo Freud, como um mecanismo antecipado de defesa contra o pressumível desprezo do outro. Pouco importa que esse desprezo seja real ou imaginário.

Que John Stewart ou os doadores judeus republicanos desdenhassem verdadeiramente ao construtor kitsch da Trump Tower, tilintante com os seus acrescimos capilares, mobiliários e imobiliários nom é o importante. O fundamental é que Donald Trump acredita nisso. O fundamental é que, para ele, os Judeus som a caricatura dessa elite nova iorquina que sempre o considerou um marionetista vulgar e sem alma. E aí surge o típico caso desse desprezo de autodefesa, quando os Judeus som os representantes dumha elite que o olhou com desdém e da que, agora que ele tem o poder, se pode vingar.

Existe um relato talmúdico que exprime bem esta lógica. O rabi Yehuda tem umha escola por diante da que passa, cada dia, um jovem porqueiro romano do que os alunos se troçam das alturas da sua sabedoria. Um dia, o rabi recebe umha ordem de acudir ao oeste do reino de Edom, perante o imperador Diocleciano; e ao chegar, com grande espanto, reconhece o porqueiro convertido em rei. À primeira vista, este recebe-o com todas as considerações. Quando chega, ordena que lhe preparem um banho para que se purifique das miasmas da viagem. Com umha salvidade: teve a maldade de convocá-lo numha sexta-feira, justo antes do Sabbat. O banho está quente de mais e, se nom tivesse intervido um anjo no último minuto, vertendo grandes quantidades de água fria, teria morto escaldado. E quando o rabi, salvo polo anjo, aparece perante o antigo porqueiro, este diz-lhe: "Como o teu Deus faz milagres, permites-te desprezar o imperador!".

Esta história é umha boa metáfora dos Estados Unidos de hoje, onde, como em Edom, o nilismo triunfante tornou um porqueiro em imperador.

É um bom exemplo também da prudência do judeu, que retorque: "Desdenhávamos o Diocleciano porqueiro, mas debruçamo-nos perante o imperador Diocleciano, sempre que, como Saul, que antes de rei cuidara burras, transcendesse pola sua funçom e a sua metamorfose". E, especialmente, é umha boa alegoria dos banhos e as prendas poçonhentas que pode outorgar um porqueiro humilhado que decide vingar-se.

Perante esta situaçom, o mais importante é nom cair na armadilha da boa vontade de duplo gume. Os Judeus nom devem esquecer que, por muito que Trump multiplicar as declarações de amor, sempre será um mal pastor que apenas respeita o poder, o dinheiro, os estuques e os ouros dos seus palácios. E devem estar cientes de que, na atmosfera populista atual, neste momento em que se ataca o pensamento e as mentiras brotam com umha arrogância, neste mundo que está a alastrar e no que, dos plutócratas estado-unidenses aos oligarcas russos, os porqueiros mostram sem vergonha a sua linhagem nas fachadas dos seus palácios imperiais, a pequena naçom judia nom tem espaço.

Aliar-se com isso é treiçoar a sua vocaçom. É entregar-se, nom a Pompeu ou a Asuero, mas a Diocleciano; é arriscar-se a perder a identidade. Para os herdeiros dum povo cuja longevidade através do tempo foi devida à milagre dum pensamento constantemente revivido, sacrificar essa vocaçom de excelência, renunciar ao dever de exceçom que foi o lêvedo -desde Aquiba até Kafka, de Rashi até Proust- dumha resistência quase incompreensível, em resumo, rendir-se ao nilismo de Trump, seria a mais terrível das capitulações e equivaleria a um suicídio.

Bernard-Henri Lévi, é filósofo

Fonte: BHL Traduçom livre de CAEIRO para o galego-português.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

NAZISTAS, JIADISTAS E O ÓDIO DO JUDEU

David Patterson

Na véspera de seu suicídio, Adolf Hitler lançou um apelo à humanidade para continuar a "resistir impiedosamente ao envenenador de todas as nações, a Judiaria internacional". [1] Aqueles que mais fervorosamente prestaram atençom a esse chamado nom foram os neonazistas, mas os jiadistas islâmicos. A ligaçom entre o nacional-socialismo e o jiadismo islâmico remonta Hasan al-Banna, o fundador da Irmandade Muçulmana em 1928, o grupo que geraria a maioria dos principais movimentos jiadistas do nosso tempo. Os slogans exaltando os nazistas faziam parte da campanha de propaganda da Irmandade durante a Revolta Árabe Palestiniana de 1936-39, que foi instigada por Amin al-Husayni, o Mufti de Jerusalém, com o apoio financeiro dos nazistas. [2] Em abril e maio de 1938, a Irmandade liderou manifestações violentas contra as comunidades judaicas egícias. Em outubro de 1938 eles hospedaram a Conferência Parlamentar dos Países Árabes e Muçulmanos no Cairo, onde distribuíram traduções árabes de "Mein Kampf" e "Os Protocolos dos Sábios de Siom".

Com o início da guerra na Europa, os membros da Irmandade tornaram-se ainda nos mais ávidos defensores dos nazistas. Em 1945 eles converteram-se num híbrido de nazismo e do islamismo para formar o jiadismo islâmico, tornando o extermínio dos Judeus nom apenas um objetivo político ou territorial, mas um elemento definidor de sua cosmovisom: nom se podia fazer parte da Irmandade ou de qualquer outro grupo islâmico jihadista, assim como nom se podia ser um nazista, sem defender o extermínio dos Judeus. Quando, em 20 de junho de 1946, o rei Farouk concedeu asilo a al-Husayni, agora procurado como criminoso de guerra nazista, al-Banna aplaudiu a decisom, declarando que "em Berlim, ele [al-Husseini] realizara pura e simplesmente a jihad [como os nazistas tinham feito]." [3] O Mufti assim tornou-se numa fonte de inspiraçom para os jiadistas pola sua identificaçom ao extermínio dos Judeus pelos nazistas. Em al-Husayni, entom, existe umha chave importante para as ligações entre nazistas, jiadistas e o ódio aos Judeus.

Em 8 de maio de 1921, o governador do Mandato Britânico sobre a Palestina, Herbert Samuel, nomeou Amin al-Husayni como Grande Mufti de Jerusalém. Dous meses após a nomeaçom de Hitler como Chanceler da Alemanha em 30 de janeiro de 1933, Al-Husayni teve seu primeiro encontro com o Cônsul geral alemão Heinrich Wolff em Jerusalém. A revolta árabe de Al-Husayni "ocorreu no contexto da suástica: folhetos árabes e sinais nas paredes estavam proeminentemente marcados com este símbolo nazista; as organizações juvenis... desfilaram como "nazistas-escoteiros" e crianças árabes cumprimentavam-se com a saudaçom nazista". [4] Em 2 de outubro de 1937, al-Husayni encontrou-se com Adolf Eichmann na Palestina. Em 13 de outubro, ele fugiu da Palestina, procurado por incitar o levante contra o governo do Mandato britânico. Dous anos mais tarde, agora financiado pola Alemanha nazista, ele montou sua base de operações em Bagdá. Num memorando datado de 5 de fevereiro de 1941, o Alto Comando da Wehrmacht assegurou a al-Husseini que a Alemanha podia prometer "tudo o que [os árabes] queriam" na soluçom da questom judaica na Palestina". [5] Em 3 de abril de 1941, orquestrou um golpe nazista contra o governo iraquiano, com o qual rebentou a matança de 600 Judeus em Bagdá; 911 casas foram destruídas e 586 empresas saqueadas. [6] O golpe falhou, entretanto, e algumas semanas mais tarde o Mufti apareceu em Berlim.
Amin al-Husayni, durante encontro com Hitler em novembro de 1941
Depois do seu encontro inicial com o Führer em 28 de novembro de 1941, ele registou no seu diário a teimosia de Hitler em que os nazistas e os Árabes estavam envolvidos na mesma luta, isto é, exterminar os Judeus. Os nazistas deram a al-Hussein seis estações de rádio para espalhar a sua propaganda ao mundo árabe. Nas suas transmissões ele repetidamente exortava o muçulmanos para matar os Judeus em todos os lugares. Em 11 de dezembro de 1942, ele fez um apelo ao "martírio" como aliados da Alemanha na guerra contra os Ingleses e os Judeus. "O sangue derramado dos mártires", gritava ele, "é a água da vida" e, se a Inglaterra e os seus aliados ganharem a guerra, "Israel governará o mundo inteiro"; se os nazistas ganhassem, "o perigo judeu" seria derrotado. [8] Naturalmente, ele fez mais do que transmissões de rádio: já em janeiro de 1941, Al-Husseini deslocara-se a Bósnia para convencer os líderes muçulmanos de que umha divisão das SS muçulmana traria glória ao Islã. Dalin e Rothman estimam que ele recrutou até 100.000 muçulmanos para lutar pelos nazistas. [9] A maior das unidades de matança muçulmanas foi a 13ª Divisom de Montanha da Waffen SS Handschar de 21.065 homens. Entraram em açom em fevereiro de 1944. [10] Depois da guerra, "a sua associaçom com o Eixo contribuiu para melhorar, em vez de destruir, o seu halo" no mundo muçulmano. [11] Em 1946 abraçou Yasser Arafat, futuro chefe da OLP, como o seu protegido e trouxe um ex-oficial nazista para o treinamento militar do seu sobrinho Arafat.
al-Husayni passa em revista tropas de voluntários muçulmanos da SS (nov 1943)
As sementes plantadas durante o reinado do Terceiro Reich cresceram em todo o mundo jiadista. "Em 1969", por exemplo,"a OLP recrutou dous ex-instrutores nazistas, Erich Altern, líder da seçom de assuntos judaicos da Gestapo, e Willy Berner, que era oficial da SS no campo de extermínio de Mauthausen. Um outro ex-nazista, Johann Schuller, forneceu armas a Fatah". [12] Abraçando a ideologia de Hitler, o Dr. Yahya al-Rakhawi escreveu no jornal egípcio Al-Ahrar em 19 de julho de 1982: "Esse grande homem Hitler, deus tenha misericórdia dele... que, por compaixom pola humanidade, tentou exterminar todos os Judeus" [13]. O estudioso egípcio Ahmad Ragab expressou a única reserva que os Árabes muçulmanos parecem ter sobre Hitler: "Agradecemos ao falecido Hitler, quem operou, antecipadamente, a vingança dos Palestinianos sobre os vilões mais desprezíveis na face da terra. No entanto, repreendemos Hitler polo facto de a vingança ter sido insuficiente". [14] Assim sendo, os intelectuais árabes -e nom apenas as massas muçulmanas "pobres"- adotam a linha ideológica do Führer sobre a "natureza" do judeu. Muito mais do que uma questom de raça, é uma questom de essência. E a essência nom pode ser alterada nem redimida.

Os jiadistas também aprenderam a liçom de Hitler de que "algo da mentira mais insolente sempre permanecerá e ficará", [15] acusando os Judeus de tudo, desde o libelo de sangue até à conspiraçom secreta para dominar o mundo. Num seminário da ONU sobre tolerância religiosa, o representante saudita Dr. Maruf al-Dawalibi, por exemplo, afirmou: "Se um judeu nom beber todos os anos o sangue dum homem nom-judeu, entom ele será condenado por toda a eternidade" [16]. O Grande Xeque da Universidade Al-Azhar, Muhammad Sayed Tantawi, sustenta que os Judeus estavam por trás das revoluções francesa e russa e ambas as guerras mundiais, que eles controlam os meios de comunicaçom do mundo e a economia mundial, que eles tentam destruir a moralidade ou que eles criam bordéis em todo o mundo. Noutras palavras, os Judeus estám por trás de todo mal que ameaça a sociedade [17]. "Nos olhos islâmicos", diz Küntzel, "nom é que tudo o que for judeu é mal, mas que todo o mal é judeu". [18] É por isso que os Judeus devem ser odiados e finalmente exterminados: é umha necessidade moral e religiosa. Assim como a guerra nazista contra os Judeus, a guerra jiadista contra os Judeus é muito mais do que umha guerra contra a "entidade sionista". Transcendendo contingências políticas ou questões de bodes expiatórios, é umha guerra metafísica. Assim, em 17 de janeiro de 2009, na televisom egípia Al-Rahma, Muhammad Hussein Yaqoub declarou: "Se os judeus nos deixassem a Palestina, começaríamos a amá-los?... Eles som os nossos inimigos nom porque ocuparam a Palestina. Eles teriam sido os nossos inimigos mesmo que nom ocupassem nada... A nossa luta com os Judeus é eterna..., até que nengum judeu ficar na face da Terra" [19], - isto é em nome de Deus.

Se a Bíblia Jiadista é o Alcorám e nom o "Mein Kampf", entom o mal Jihadista transcende o mal nazista, na medida em que o Alcorám é a Escritura, umha revelaçom de deus, e nom apenas os pronunciamentos do Führer. Estabelecendo umha base bíblica para as suas ações, os jiadistas podem justificar qualquer açom. Eclipsando deus, os nazistas eclipsam a proibiçom absoluta contra o assassinato imposta do além, de modo que a vontade interior e a imaginaçom de dentro colocavam os únicos limites das suas ações. Em contraste, ao apropriar-se de deus, os jiadistas apropriam-se da autoridade para impor o que eles determinaram ser a vontade de deus, o que nom é umha questom de vontade humana, mas umha obrigaçom absoluta. Entre os estudiosos e intelectuais de hoje o silêncio sobre essas ligações é esmagadora. Muito antes da queixa de John Kerry relativamente a que os meios de comunicaçom som os culpados polo problema terrorista porque falam nele e chateam as pessoas [20], a maioria dos estudiosos do mundo tem ficado calado sobre as ligações entre o nacional-socialismo e o jiadismo islâmico. A ligaçom mais fundamental acha-se no antissemitismo exterminacionista que impulsiona ambos. Até nomearmos o Jiadismo Islâmico e entendermo-lo nos termos desta forma de antissemitismo, seremos impotentes para lidar com ele.

Notas

[1] Citaçom em David Welch, Hitler (London: UCL Press, 1998), 97.

[2] Conferir Ziad Abu-Amr, Islamic Fundamentalism in the West Bank and Gaza: Muslim Brotherhood and Islamic Jihad (Bloomington: Indiana University Press, 1994), 1.

[3] Matthias Küntzel, Jihad and Jew-Hatred: Islamism, Nazism and the Roots of 9/11, trans. Colin Meade (New York: Telos Press, 2007), 46.

[4] Matthias Küntzel, “National Socialism and Anti-Semitism in the Arab World,” Jewish Political Studies Review (17, Spring 2005): http://www.jcpa.org/phas/phas-kuntzel-s05.htm.

[5] Lukasz Hirszowicz, The Third Reich and the Arab East (London: Routledge & Kegan Paul, 1966), 122.

[6] Conferir Bernard Lewis, Semites and Anti-Semites: An Inquiry into Conflict and Prejudice (New York: W. W. Norton, 1999), 158.

[7] Joseph B. Schechtman, The Mufti and the Fuehrer: The Rise and Fall of Haj Amin el-Husseini (New York: Thomas Yoseloff, 1965), 306.

[8] Jeffrey Herf, The Jewish Enemy: Nazi Propaganda during World War II and the Holocaust (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2006), 173.

[9] David G. Dalin and John F. Rothman, Icon of Evil: Hitler’s Mufti and the Rise of Radical Islam (New York: Random House, 2008), 55.

[10] Jeffrey Herf, Nazi Propaganda for the Arab World (New Haven, Conn.: Yale University Press, 2009), 201.

[11] Schechtman, 182.

[12] Dalin and Rothman, 134-35.

[13] Lewis, 232.

[14] Citaçom em Serge Trifkovic, The Sword of the Prophet: Islam: History, Theology, Impact on the World (Boston: Regina Orthodox Press, 2002), 188.

[15] Adolf Hitler, Mein Kampf, trans. Ralph Manheim (Boston: Houghton Mifflin, 1971), 232.

[16] Conferir Lewis, 194.

[17] Conferir Küntzel, Jihad and Jew-Hatred, 94.

[18] Ibid., 5.

[19] Muhammad Hussein Yaqoub, “We Will Fight, Defeat, and Annihilate Them,” Al-Rahma TV, 17 January 2009, http://memri.org/bin/latestnews.cgi?ID=SD227809.

[20] Katie Pavitch, “John Kerry: You Media People Should Stop Reporting on Terrorism So People Don’t Know What’s Going On,” Townhall, 30 August 2016, available at http://townhall.com/tipsheet/katiepavlich/2016/08/30/john-kerry-you-media-people-should-stop-reporting-on-terrorism-n2211810.

Fonte: ISGAP, traduzido livremente para o galego-português por CAEIRO.

David Patterson tem a cátedra Hillel A. Feinberg em Estudos sobre o Holocausto no Centro Ackerman de Estudos sobre o Holocausto na Universidade do Texas em Dallas. Ele é o Series Editor da Série de Antissemitismo para a Academic Studies Press, bem como o coeditor, com John K. Roth, da Weinstein Series nos Estudos sobre o Pós-Holocausto na Universidade de Washington Press. Vencedor do National Jewish Book Award e do Koret Jewish Book Award, ele publicou mais de 35 livros e mais de 200 artigos, ensaios e capítulos de livros. Os seus livros mais recentes incluem "The Holocaust and the Non-Representable" (em breve), "Anti-Semitism and Its Metaphysical Origins" (2015); "Genocide in Jewish Thought" (2012) e "A Genealogy of Evil: Anti-Semitismo from Nazism to Islamic Jihad" (2011).

sábado, 26 de novembro de 2016

COMO ISRAEL ENCARA A VITÓRIA DE TRUMP

A conferência do movimento "alt-right" no fim de semana passado deixou claro: há um espírito de otimismo entre os radicais de direita dos Estados Unidos. Após gritos de Heil Trump! e declarações antissemitas, seguiu-se na plateia a saudaçom nazista.


Enquanto, nos Estados Unidos, os Judeus, que votaram maioritariamente na candidata democrata (75%), mostraram-se chocados com a eleiçom de Donald Trump no passado dia 9 de novembro e a nova vaga de crimes antissemitas, poucas reações foram registradas em Israel.

Mas agora políticos de oposiçom reagiram. A ex-ministra do Exterior Tzipi Livni, do partido de centro-esquerda Uniom Sionista, afirmou estar profundamente perturbada e acrescentou que políticos de todo mundo precisam dizer que "nom há lugar para isso" nas suas sociedades.

Já o presidente do partido liberal Yesh Atid, Yair Lapid, apelou aos políticos americanos para que condenem tais "expressões de simpatia por nazistas".

Trump distanciou-se do movimento de extrema direita "alt-right", ao qual o seu futuro conselheiro-chefe, Steve Bannon, ofereceu umha plataforma com seu site Breitbart News. Mas a nomeaçom de Bannon é apenas um exemplo dumha série de incidentes com conotações antissemitas. Eles incluem, por exemplo, a publicaçom dumha ilustraçom contra Hillary Clinton durante a campanha, trazendo notas de dólar e umha estrela semelhante à de Davi. Durante a campanha eleitoral Trump também chegou a dizer às grandes organizações sionistas "eu sei que nom vam votar em mim, porque eu nom quero o vosso sujo dinheiro".
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O clima político e social nos Estados Unidos é tenso. "Desde os anos 30 que a comunidade judaica americana nom experimentava tamanho grau de antissemitismo no discurso político e público", alertou a influente Anti-Defamation League (ADL), organizaçom ativa nao combate à discriminaçom dos Judeus.

Mas entre os políticos governantes em Israel, enfrentados com o governo Obama, predomina uma compreensom tácita de que se deve aceitar o resultado das eleições democráticas nos EUA e que nom se deve melindrar o maior parceiro estratégico do país. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu saudou oficialmente a eleiçom de Trump. Na coalizom de direita de Netanyahu há pessoas que veem um parceiro ideológico no novo presidente dos Estados Unidos. Nacionalistas esperam obter agora sinal verde dos americanos para a continuação dos assentamentos na Cisjordânia ou para que a embaixada norte-americana em Israel seja deslocada de Televive para Jerusalém.

Um ministro do partido nacional-religioso Casa Judaica até mesmo expressou seu apoio explícito a Bannon. E Naftali Bennett, ministro da Educaçom e presidente do mesmo partido, reuniu-se recentemente com assessores de Trump para discutir alternativas para a soluçom de dous Estados. Netanyahu respondeu com umha repreensão considerada atípica, afirmando que nengum membro do seu gabinete deve fazer contato com assessores de Trump antes que as linhas políticas do futuro governo dos EUA estejam claras.

Bom para Israel, ruim para os judeus nos EUA?

O próprio Trump até agora mostrou-se ao lado de Israel. Por isso, ele goza da aprovaçom da direita do país. Para ela, é mais importante o apoio do presidente dos Estados Unidos, por exemplo, em questões de segurança –tais como a prevençom dum Irão com tecnologia nuclear– do que as preocupações dos Judeus nos Estados Unidos. E isso inclui fazer vista grossa para o antissemitismo nos EUA.

A jornalista Tal Shalev, da editoria de política do site de notícias israelense Walla, vê essa situaçom com preocupaçom, temendo que as relações entre Israel e os Judeus americanos sejam prejudicadas. "É um dilema para Israel: o que é bom para o país pode ser ruim para os Judeus nos EUA. É importante que Israel demonstre mais solidariedade com a comunidade judaica americana", afirma.

O jornal liberal Haaretz também vê nessa situaçom como umha ameaça, mas também umha oportunidade. "Nunca houve tamanha oportunidade, para os Judeus liberais em ambos os países, de se entenderem e terem umha causa comum, de apoiarem uns aos outros em tempos difíceis", escreve a publicaçom.

Postagem elaborada a partir de informações da DWBRASIL e Bernard-Henri Lévy

terça-feira, 16 de agosto de 2016

ASPETOS DO CONSPIRACIONISMO ANTIJUDEU ORDINÁRIO NA FRANÇA

A seguir reproduz-se umha traduçom livre da terceira e última parte em que se dividiu neste blogue o artigo sobre umha aproximaçom histórica do mito da conspiraçom judia do filósofo e historiador das ideias Pierre-André Taguieff, publicada na ediçom de julho-agosto de 2016 da "Revue des Deux Mondes". Os aspetos do conspiracionismo antijudeu ordinário que o artigo desenvolve sobre a França poder-se-iam aplicar a qualquer um outro país europeu.


Na pesquisa de opiniom realizada polo Instituto Francês de Opiniom Pública (IFOP) para a Fundaçom para a Inovaçom Política (Fondapol) a partir de 26-30 setembro de 2014 (33), os resultados da temática conspiracionista som muito significativos:
  • 25% dos entrevistados acreditam que os Judeus têm demasiado poder na economia e finanças (43% de todos os muçulmanos); 
  • 22% que os Judeus têm muito poder nos meios de comunicaçom; 
  • 19% que os Judeus têm muito poder no campo da política (51% de todos os muçulmanos); 
  • 16% de que existe umha "conspiraçom sionista" (44% para todos os muçulmanos: 30% entre as que referiram ter "origem muçulmana", 42% dos "crentes muçulmanos" e 56% de "crentes e praticantes muçulmanos").
O sociólogo Eric Marlière destaca, entre os "jovens das cidades" com os que teve várias entrevistas, "umha simbiose entre sentimentos de injustiça e a existência dumha visom conspiracionista": "Esses jovens, pola sua condiçom de Árabes e de muçulmanos (principalmente), vêem-se como os "novos inimigos internos" face à minoria judia percebida como rica, dominante e manipuladora". (34) Se, em geral, a sociedade francesa lhes parece à vez fechada e hostil, eles parecem estar convencidos de que esta nom é apenas aberta para os Judeus, mas também controlada ou dirigida por eles. O "sionismo" é o nome que eles dam ao poder que domina o mundo. 

Um jovem solteiro de 26 anos vindo da imigraçom marroquina afirma o seguinte: "É eles que dominam. Eles detêm o mundo. Os Estados Unidos som obrigados a segui-los. Olha, eles atacam a Palestina e ninguém diz nada! O sionismo para mim, é isso, é a dominaçom dumha elite judia sobre outros povos". Um outro jovem da imigraçom tunisiana de 27 anos, de formaçom engenheiro, acusa "o ultra-liberalismo" e "o sionismo": "Se hoje dominam a mídia, os grandes financeiros, o ultraliberalismo que possui tudo e atrás acha-se o sionismo. Repare no número de Judeus (jeufs) em posições-chave na mídia, no Estado nas universidades". Um estudante de 26 anos saído da imigraçom argelina indigna-se: "Os sionistas, eles realmente controlam tudo sem nem sequer precisar se escondere!". Indignaçom que ecoa nas palavras de um homem de 33 anos de origem argelina, "Hoje eles já nom se escondem. O sionismo está a ganhar. Olhe, podemos falar nisso aqui numha cidade, mas na televisom, na rádio ou na imprensa você pode perder tudo! Eles dominam quase tudo!"
Segundo o conspiracionismo, o DAESH (ISIS) seria umha criaçom do
sionismo para cometer ataques terroristas sob falsa bandeira 
As histórias conspiracionistas permitem sintetizar estes temas de acusaçom e dar-lhes umha interpretaçom global, com base numha ideia simples: umha pequena minoria de poderosos (dominantes e exploradores) tira proveito da miséria da maioria ("nós", as vítimas da conspiraçom dos poderosos). É umha resposta padrom para a pergunta: "Quem se beneficia do crime? ".

A nova vulgata antijudia que parece ter-se estabelecido definitivamente na França e noutros países europeus pode resumir-se pola articulaçom de três características negativas atribuídas aos "Judeus" ou "sionistas":
  1. eles som "dominadores" no Ocidente ("Eles têm o dinheiro", "eles têm o poder", "eles dominam a America");
  2. eles som "racistas", particularmente no Próximo Oriente, onde eles se comportam "como nazistas" com os Palestinos;
  3. eles conspiram em todo o mundo: eles organizaram os ataques de 11 de setembro, empurram para a guerra e querem lançar umha guerra preventiva contra o Irã, eles estám por trás dos conflitos que rasgam os países árabes (nomeadamente através da manipulaçom do Estado Islâmico, simples espantalho), organizam ataques terroristas sob falsa bandeira para "lixar o Islám" (como os ataques de 7, 8 e 9 de janeiro e 13 de novembro de 2015), e, em geral, manipulam a política internacional .
Fonte: Site do CRIF.

NOTAS
33. Ifop/Fondapol, l’Antisémitisme dans l’opinion publique française. Nouveaux éclairages, novembre 2014, http://www.fondapol.org/wp-content/uploads/2014/11/CONF2press-Antisemitisme-DOC-6-web11h51.pdf.
34. Éric Marlière, La France nous a lâchés ! Le sentiment d’injustice chez les jeunes des cités, Fayard, 2008, p. 135.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

ALGUNS MOMENTOS HISTÓRICOS SIGNIFICATIVOS DA CONSPIRAÇOM JUDIA

A seguir reproduz-se umha traduçom livre da segunda parte em que se dividiu o artigo sobre umha aproximaçom histórica do mito da conspiraçom judia do filósofo e historiador das ideias Pierre-André Taguieff, publicada na ediçom de julho-agosto de 2016 da "Revue des Deux Mondes".

Capa da ediçom portuguesa dos Protocolos dos Sábios de Siom

A conspiraçom judeu-leprosa


O motivo da conspiraçom judia contra a sociedade cristã alicerça-se historicamente em torno da acusaçom de envenenamento das fontes e poços, que apareceu na Aquitânia em 1321 sob a forma da fiçom dumha conspiraçom judeu-leprosa (22). Durante o inverno de 1321, por causa dessa acusaçom conspiratória, os leprosos foram massacrados com o apoio de Filipe V, o Alto, rei da França. Mas a crônica do Mosteiro de St. Catherine de Monte Rotomagi (Mont-Saint-Aignan) lembra os factos caracterizadores, com base nas confissões dos leprosos, as duas acusações contra eles: eles conspiraram ao mesmo tempo para matar os nom leprosos e para dominar o mundo. A prática do assassinato ritual e o instinto de dominaçom: dous temas de acusaçom polos que os Judeus nom deixaram de ser alvejados. 

O mito da conspiraçom judeu-leprosa ressurgiu a partir de 1348, durante a Peste Negra. No século XIV, certamente trata-se de conspirações locais das que som acusadas comunidades judaicas específicas, vítimas em consequência de saques e massacres. Mas a circulaçom de boatos de envenenamentos traz à tona a conviçom de os Judeus, como tais, tramarem a conspiraçom para destruir o cristianismo. Os Judeus começam a serem percebidos como o único povo intrinsecamente conspirador.

As origens da lenda da megaconspiraçom judia: da "carta de Simonini" ao "Discurso do rabino"


Na sua explicaçom da Revoluçom Francesa por umha conspiraçom maçônico-jacobina ou dos Illuminati da Bavária, liderados por Adam Weishaupt (1748-1830) o abade Augustin de Barruel nom deu qualquer importância aos Judeus. É completamente diferente em 1806, quando Napoleom decidiu reunir o Grande Sinédrio, a fim de encontrar umha soluçom para o que era a "questom judaica", iniciativa que inquietou vários círculos antijudeus. A famosa "carta de Jean-Baptiste Simonini" a Barruel, datada de 1 de agosto de 1806 (de facto trata-se dum embuste de origem incerta) (23), testemunha a existência da representaçom dumha perturbadora "seita judaica", apresentada a aliada de todas as outras "seitas infernais que estám a preparar o caminho para o Anticristo ", em particular a dos maçons. Os membros da "naçom judia" nela som acusados ​​de abrigar "projetos terríveis" para se tornarem "donos do mundo". Barruel fez circular esta carta em círculos fechados, sem fazê-la nunca pública. Porém, foi publicada pola primeira vez em julho de 1878, com comentários do Padre Grivel, um próximo de Barruel, na revista católica "Le Contemporain" antes de o ser pola "Civilta Cattolica" a 21 de outubro de 1881, num contexto marcado polas interferências entre a campanha antimaçônica lançada pola Igreja e os primórdios do movimento antissemita, tanto na França como noutros países europeus.

A tese do conluio secreto é também enunciada no "documento Simonini": "Os Judeus, portanto, com todos os outros sectários, formam umha façom, para destruir, se possível, o nome cristão". Os membros da "seita judaica", que corporifica "hoje o poder mais formidável", som acusados ​​de ser movidos polo projeto de tornar-se,"em menos dum século","os donos do mundo", até "abolir todas as outras seitas para fazer reinar a sua".

No final do século XIX, o tema de acusaçom é transmitido por um embuste famoso, tirado dum romance publicado em 1868 em Biarritz: o "Discurso do rabino" (24), que começou a circular em 1872 na Rússia sob o título de "O cemitério judaico de Praga", lugar pressumível da "assembleia das doze tribos de Israel". Este embuste é publicado em francês em 1 de julho de 1881 polo publicitário antijudeu Kalixt de Wolski (1816-85) em Le Contemporain, sob o título "Registro dos acontecimentos político-históricos nos últimos dez anos", e depois retomado polo mesmo Wolski na sua compilaçom antissemita (póstuma), intitulada "A Rússia judia" (25). Nela atribui-se a "um grande rabino" que o teria "pronunciado numha reuniom secreta". Este discurso, acrescentou Wolski, "revela a persistência com que o povo judeu continua, desde tempos imemoriais e por todos os meios, a idéia de dominar sobre a terra". O discurso finda com a mençom de "levantes" e "revoluções" causados polos "filhos de Israel", tornados nos "senhores absolutos" da finança e da imprensa: "Cada um desses desastres dá um grande passo à frente para os nossos interesses particulares e nos aproxima rapidamente do nosso propósito único: o de dominar a Terra, como foi prometido ao nosso pai Abraám".


Apocalipticismo e satanismo


Na França, nom foi até o final dos anos 1860 e 1870 que se viu a tese do conluio judeu-maçónico amplamente espalhado nos círculos católicos. É com a obra de Henri Roger Gougenot des Mousseaux (1805-76), "O Judeu, o judaísmo e a judaizaçom dos povos cristãos" (26), publicada em 1869, que se ofereceu ao público católico umha visom elaborada, de orientaçom apocalíptica, da conspiraçom judia universal. A sua tese central é a seguinte:

"A Maçonaria, saída das doutrinas misteriosas da cabala [...] é a forma moderna e principal do ocultismo, na que o judeu é o príncipe, porque ele foi em todos os séculos o príncipe o grande mestre da cabala. O judeu é, pois, naturalmente [...] o amo, o chefe, o grande mestre real de maçonaria, cujos dignitários conhecidos som, na maioria das vezes, os chefes enganadores e enganosos da ordem".

Mas os "cabalistas judeus" som os "adoradores de Satanás". Gougenot está convencido de que "todas as revoltas sociais e anticristãs" que abalam o mundo som "a obra dos maçons e Judeus" e que, através destes levantes revolucionários, a Maçonaria é um instrumento nas mãos dos Judeus; é "o triunfo do judeu" que se prepara. Gougenot anuncia a vinda do Anticristo e a instalaçom dumha implacável dominaçom judia.

Desde entom os maçons aparecem como aliados, cúmplices ou os instrumentos privilegiados dos Judeus, como afirma Drumont numha passagem da "França judia" onde trata as causas da Revoluçom Francesa: "O que ele fez na Idade Média com os cavaleiros Templários, o Judeu fez com a Maçonaria, no qual ele fundara todas as sociedades secretas particulares, que tinham tanto tempo andado na sombra. [...] Já nom é contestado por ninguém [...] que a direçom de todas as lojas passou em seguida para as mãos dos Judeus". Isto é o que explica a "conquista judia" da França na época da Revoluçom Francesa: os Judeus "retornam em 1790 atrás da maçonaria e tornaram-se donos absolutos dum país, ao que estám a desvincular, de forma gradual e com umha incrível astúcia, de todas as tradições que fizeram a sua grandeza e força". O polemista descreve "o judeu moderno" como um gênio da manipulaçom, "envolvido nas conspirações, fomentando as guerras civis e as guerras estrangeiras, patrocinado, pola sua vez, a Napoleom e a Santa Aliança".

Para o abade Chabauty, em "Os Judeus, o nossos mestres!", a aliança dos "príncipes de Judá" e as sociedades secretas (dominadas, na realidade, polos "Príncipes judeus") visa estabelecer o "domínio universal" dos Judeus, graças ao "formidável exército maçónico" que irá permitir,  através de levantes cuidadosamente planejados como a Reforma ou a Revoluçom francesa, a destruiçom da "ideia cristã" e de "toda a ordem social cristã". Revoluçom, República, maçonaria e judiaria formam segundo Chabauty umha única potência anticristã. Os "grandes chefes de Judá" som apenas os descendentes de Satanás: "A República, é geralmente a bandeira, a etiqueta, o relógio; a Maçonaria é por toda a parte o instrumento, o soldado, o exército; a Judiaria, é sempre a alma, a direçom, o comando". Em suma, conclui Chabauty destacando a declaraçom: "O nosso inimigo é o Judeu!". Na perspectiva apocalíptica Chabauty, o "triunfo do Judeu" significa a instalaçom do Anticristo no trono do "rei do mundo".

Se Gougenot abriu o caminho, é Ernest Jouin (1844-1932), pároco de Saint-Augustin, em Paris (1899), o fundador da Liga Franco-católica em 1913, que irá desenvolver o tema da tripla ameaça representada polos Judeus, maçons e ocultistas. Em janeiro de 1912, Jouin lança a Revista Internacional das Sociedades Secretas (RISS), cujo principal objetivo é combater a "judeu-maçonaria". Na primeira ediçom da sua revista, ele começa por enunciar o princípio orientador da sua visom do mundo: "Hoje em dia, a sociedade secreta é a senhora do mundo" e Maçonaria apenas é "a concentraçom das sociedades secretas", "pode-se chamar a senhora do mundo" (27). Mas a Maçonaria está "em si subordinada a grupos sueriores": "Hoje, a história das sociedades secretas é a página magistral da história judia. [...] Se a Maçonaria é mundial, está naturalmente em contacto com a raça judia, raça cosmopolita por temperamento e expiaçom". Mas os Judeus caracterizam-se por umha "tripla aspiraçom": "A dominaçom do mundo, a revoluçom social e a ruína do catolicismo". No outono de 1920, o polemista publica a primeira versom francesa completa (e comentada) dos "Protocolos dos Sábios de Sião", que ele resume do seguinte jeito em 1921: "O plano judeu-maçónico judaico-maçônico dos Protocolos inclui um fim, a hegemonia mundial; um meio, o ouro; um resultado, o supergoverno judeu. Fim, meio e resultado acham-se nos livros Talmúdicos" (28).

O século dos Protocolos dos Sábios de Siom


As duas versões da conspiraçom judia internacional (judeu-maçônica e judeu-plutocrática) estám combinadas de várias maneiras no famoso embuste antijudeu conhecido como "Os Protocolos dos Sábios de Siom" (29). No século XX, a visom da grande conspiraçom judia tem o seu principal vetor neste suposto documento revelador, publicado pola primeira vez na Rússia, na sua forma abreviada e serializada no jornal de extrema direita Znamia ("a bandeira") dirigido em St. Petesburgo polo agitador antijudeu Pavel A. Krushevan (1860-1909), de 28 de agosto a 7 de setembro de 1903 ("antigo estilo"), portanto, poucos meses após o pogrom em Kishinev (21 de abril de 1903), do que ele fora o organizador e que ele poderia justificar deste jeito. O embuste é entom publicado sob o título "Programa da conquista do mundo polos Judeus", explicado da seguinte forma polo editor: "Protocolos dos encontros da Uniom [ou da Aliança] mundial dos maçons e dos Sábios de Siom". Esta primeira publicaçom dos Protocolos tinha lugar pouco depois da abertura, em 23 de agosto de 1903, do VI Congresso Sionista na Basileia. Os primeiros usos do embuste estavam orientados tanto polo antijudeo-maçonismo quanto polo "antissionismo", que surgiu na Rússia como umha grande história de conspiraçom através da qual os círculos nacionalistas e monarquistas, inimigos declarados tanto do liberalismo como do comunismo, legitimavam o seu antissemitismo. Desde o verão de 1921, sabe-se que os Protocolos som essencialmente um plágio do "Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu ou a política de Maquiavel no século XIX", sátira dirigida contra Napoleom III, publicada em 1864 polo advogado republicano de esquerda Maurice Joly (1829-79), entom exilado em Bruxelas. Nos protocolos, um orador anónimo, um dos Sábios de Sião ou talvez o seu chefe, dirige-se aos seus colegas, durante reuniões nalgum momento nalgures, para expor (ou lembrar) as ideias directoras do seu programa secreto de dominaçom do mundo e informar sobre o  estado atual da sua implementaçom. Os Protocolos som apresentados como as atas destas sessões secretas. O segredo é a força da conspiraçom, lemos nos Protocolos: "Quem poderia derrubar umha força invisível? Porque essa é a nossa força. A maçonaria exterior serve apenas para cobrir os nossos projetos" (30). Este programa de conquista do mundo envolve a destruiçom dos Estados cristãos, realizada com a ajuda da Maçonaria, infiltrada e manipulada polos Sábios e os seus "agentes". Portanto, trata-se claramente dumha conspiraçom mundial, cujo objetivo é o estabelecimento dumha "dominaçom universal" (31). Este plano secreto teria sido definido há muito tempo polos antepassados ​​dos atuais Sábios de Siom: o orador caracteriza-o como "um plano político que ninguém adivinhou durante séculos" (32). Este é o tema desenvolvido no artigo do publicitário nacionalista e antijudeu Mikhail O. Menshikov (1859-1918), "Conspirações contra a humanidade", publicado em 7 (20) de Abril de 1902 no jornal Vremya Novoye monarquista ("Tempos Novos"):

"A partir de 929 a.d.n.e. Jerusalém, no tempo do rei Salomom, um plano secreto foi fomentado por ele e polos sábios judeus contra todo o gênero humano. Os protocolos desta conspiraçom e os seus comentários foram mantidos em grande segredo, transmitindo-se de geraçom em geraçom [...] Os líderes do povo judeu, ao que parece, decidiram sob o rei Salomom submeter ao seu poder toda a humanidade e ancorar no seu seio o reino de David para sempre. [...] Espalhando-se pola a terra, os Judeus comprometeram-se a concentrar nas suas mãos os capitais de todos os países e chupar e escravizar, destarte, como entre os tentáculos, as massas populares".

Encontramos neste artigo a primeira mençom conhecida dos Protocolos. É num contexto marcado pola ameaça dumha revoluçom e o sentimento da chegada de tempos apocalípticos que é publicado polo místico ortodoxo Sergei Nilus A. (1862-1929), no fim de dezembro de 1905, no seu livro "O grande dentro do pequeno "(capítulo XII: "O Anticristo como possibilidade política"), que a versom dos Protocolos se vai tornar canônica. 

Umha segunda versom russa dos Protocolos, devida ao jornalista antijudeu Georgy V. Butmi (1856-1919), cofundador da Uniom do Povo Russo, será publicada em janeiro de 1906 sob o título: "Discurso acusador. Os inimigos do gênero humano", com o subtítulo: "Protocolos extraidos dos arquivos secretos da Chancelaria principal de Siom".

Os "Sábios de Siom", figuras fictícias saídas do mito anti-judeumaçônico reativado, ilustram umha formaçom de compromisso entre os "Antigos Sábios de Israel" (do tempo de Salomom), as lideranças sionistas e os "superiores desconhecidos" da "judeumaçonaria", tomando emprestado o mito construído em torno dos "Illuminati da Bavária", amplamente utilizado no século XIX polos romances populares, entre os quais o mais famoso é José Balsamo de Alexandre Dumas. Mas o escritor religioso místico que é Nilus acrescentou umha dimensom apocalíptica. No final do epílogo do seu livro que contém os Protocolos, ele adapta a lenda do Anticristo na sua visom da conspiraçom judia mundial:

"Hoje, todos os governos do mundo inteiro estám consciente ou inconscientemente sujeitos às ordens deste grande super-governo de Siom, porque todos os valores estám nas suas mãos, porque todos os países som devedores dos Judeus por somas que eles nunca poderám pagar. [...] Com todo o poder e terror de Satanás, o reinado triunfante do rei de Israel está-se aproximando do nosso mundo depravado; o rei saído do sangue de Siom -o Anticristo- está perto de subria ao trono do Império universal".

Este embuste é tanto um best-seller e long-seller da literatura conspiracionista e antijudia. A sua difusom mundial, garantida polos departamentos de propaganda de vários círculos políticos e religiosos, já se observava no período entre guerras. 

Hoje, está garantida principalmente através da Internet, e, desde o início dos anos noventa, têm-se multiplicado os sites, fóruns e blogues chamados extremistas ou radicais de várias tendências, de orientaçom conspiracionista, que retomaram a circulaçom a temática transmitida pola falsificaçom. Mas, em paralelo, os Protocolos, como os textos derivam ou com base neles, continuam a ser objeto de reedições, com comentários atualizadores, em muitos países, dos Estados Unidos aos países árabes, da Europa do Leste ao Irã, à Turquia e ao Japão, passando pola Índia, Paquistám e Malásia.

Os Protocolos som utilizados polos extremistas de todas as cores: supremacistas brancos e antissemitas pretos nos Estados Unidos, católicos e protestantes fundamentalistas na Europa como nas Américas, nacional-tradicionalistas ortodoxos na Rússia, fundamentalistas muçulmanos de todas as obediências, neonazistas pagãos, nacionalistas radicais, adeptos de seitas ou de doutrinas esotéricas, amadores de profecias apocalípticas, negacionistas e conspiracionistas fascinados pola lenda dos Illuminati. Nos países árabe-muçulmanos (mormente no Egito, na Síria e no Líbano), os Protocolos constituem, aliás, um reservório imprescindível de tópicos antijudeus solicitados nas orações da sexta-feira ou nos debates públicos e encenados por programas de televisom, constituindo instrumentos eficazes de propaganda antissionista que visa um público popular. A falsificaçom é o principal vetor do conspiracionismo antijudeu. A corrida internacional dos Protocolos está longe de chegar ao seu fim.

Fonte: Site do CRIF

NOTAS
22. Carlo Ginzburg, le Sabbat des sorcières [1989], traduit par Monique Aymard, Gallimard, 1992, p. 43-69.
23. Le Contemporain, tome XVI, juillet 1878, p. 58-61 ; repris in Nicolas Deschamps, les Sociétés secrètes et la société, ou Philosophie de l’histoire
contemporaine, 4e édition, Oudin Frères & Avignon, Seguin Frères, 1883, tome III, Document annexé B : « Le rôle des Juifs dans la Révolution universelle », p. 658-661.
24. Sir John Retcliffe (pseudonyme de Hermann Goedsche, 1815-1878), Biarritz, 1868, vol. 1, p. 162-193.
25. Kalixt de Wolski, la Russie juive, Albert Savine, 1887, p. 4-19.
26. Henri Roger Gougenot des Mousseaux, le Juif, le judaïsme et la judaïsation des peuples chrétiens, Plon, 1869.
27. Mgr Jouin, « La société secrète. Notre programme », RISS, n° 1, janvier 1912, p. 3-4.
28. Mgr Jouin, Le Péril judéo-maçonnique, tome III, RISS & Librairie Émile-Paul Frères, 1921, p. 53.
29. Sur les Protocoles, voir Norman Cohn, Histoire d’un mythe, op. cit. ; Pierre-André Taguieff, les Protocoles des Sages de Sion, op. cit. ; Cesare G. De Michelis, The Non-Existent Manuscript : A Study of the Protocols of the
Sages of Zion [1998], University of Nebraska Press, 2004 ; Michael Hagemeister, « The Protocols of the Elders of Zion: Between History and Fiction», New German Critique, 35 (1), n° 103, printemps 2008, p. 83-95.
30. « Protocols » des Sages de Sion, traduits directement du russe et précédés d’une introduction par Roger Lambelin, Grasset, 1921 ; nouvelle édition, 1925, p. 31.
31. Idem, p. 72.
32. Idem, p. 87.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

QUATRO FORMAS DO MITO DA CONSPIRAÇOM JUDIA

A seguir reproduz-se umha traduçom livre da primeira parte do artigo sobre umha aproximaçom histórica do mito da conspiraçom judia do filósofo e historiador das ideias Pierre-André Taguieff, publicada na ediçom de julho-agosto de 2016 da "Revue des Deux Mondes".

Pierre-André Taguieff

Entre as grandes histórias de acusaçom onde os Judeus som criminalizados ou demonizados, quer dizer, os principais mitos antijudeus constituem a dimensom ideológica da judeofobia (1), cabe prestar especial atençom para o tema da conspiraçom para dominar, corromper e explorar outros povos. Desde o final do século XIX, o tema do judeu conspirador tornou-se no mais mobilizador dentre os temas antijudeus e, ao mesmo tempo, o mais "integrador" deles. O imaginário da conspiraçom judia internacional está no cerne da nova judeufobia de extensom planetária. A maioria dos tradicionais motivos de acusaçom dos Judeus giram agora em torno do mito da conspiraçom judia mundial, rebatizada como "conspiraçom sionista global" (2). Como observado polo historiador Walter Laqueur, "a ideia dumha conspiraçom judia a escala planetária influiu talvez até mais do que a doutrina racial sobre o desenvolvimento do antissemitismo moderno" (3).

Na visom conspiratória, o povo judeu é essencializado como a personificaçom dumha ameaça permanente, sendo assim construído como inimigo absoluto de todos os povos (4). Ele torna-se no titular por excelência da "causalidade diabólica" (5). Trata-se, portanto, dumha interpretaçom global da história em que o judeu aparece como "umha força satânica, como a fonte de todo o mal no mundo, desde suas origens até os dias de hoje" (6). No imaginário conspiracionista moderno e contemporâneo, os Judeus som acusados ​​de estar na cabeça dumha megaconspiraçom para dominar o mundo (7).

Nom existe pensamento conspiracionista sem acontecimentos desencadeadores (guerras, crises econômicas, revoluções,...), vistos como um ato criminoso ou efeitos de atividades criminosas. Colocar a questom policial "A quem beneficia o crime?" constitui para os ideólogos da conspiraçom um método de adivinhaçom. Isto permite revelar as supostas "verdades ocultas" a partir dumha interpretaçom de pistas e chegar facilmente a conclussões. Durante o século XIX, o argumento apresentava-se da seguinte forma: a Revoluçom francesa emancipou os Judeus, de modo que os judeus fizeram essa revoluçom. Esse era o princípio da argumentaçom antissemita de Edouard Drumont (1844-1917), que no início d'A França judia (1886), colocou como umha evidência: "A quem mais a Revoluçom tem beneficiado é ao judeu. Tudo vem do judeu; tudo volta ao judeu." (8)


O mito da conspiraçom judia apresenta-se historicamente em quatro formas, cuja sucessom cronológica nom exclui que se entrelacem, se metamorfoseiem ou hibridizem(9).

Primeira forma: boatos conspiracionistas

Primeiro, ela apresenta-se sb a forma de rumores de conspirações locais na antiguidade e no tempo medieval. Na origem da crença na conspiraçom judia existe a conviçom, presente na judeofobia antiga (pré-cristã ou pagã), de que os Judeus som solidários entre eles, tema já presente no Pro Flacco, discurso de Cicero pronunciado em outubro do ano 59 a.d.n.e, onde o famoso orador, evocando à vez "o ouro dos Judeus" e a "multidom" que representam em Roma, lança a Laelius, defensor dos Judeus: "O senhor sabe o grande que é a sua tropa, como eles se apoiam, como eles som poderosos nas assembleias" (10). Esta solidariedade interna anda de mãos dadas com umha exclusividade alarmante, como afirma Tácito: "Eles têm entre eles umha ligaçom teimosa, umha comiseraçom ativa, que contrasta com o ódio implacável que recebem do resto dos homens". (11) Julgados insociáveis e separatistas por natureza, os Judeus som acusados ​​de xenofobia ou misoxenia (12). A acusaçom de conspiraçom é parte das calúnias usadas contra os Judeus desde o início da era cristã, durante a qual se articula com a acusaçom de ódio da humanidade (misantropia (13)), à que se irá acrescentar a do ódio de Cristo, isto é, de Deus. A solidariedade interna e o ódio dos outros som os dous componentes da conspiraçom protojudia no espírito dos primeiros inimigos declarados dos Judeus.

Acusados de serem a semente de Satanás, os Judeus som, especialmente depois da Primeira Cruzada (1096-99), considerados como os inimigos de Cristo e dos cristãos. Eles som responsáveis por atividades criminosas. Por exemplo, a partir de meados do século XII, o assassinato de crianças cristãs (morte ritual ou difamaçom/libelo de sangue), erguido como "prova" de que os Judeus conspiram contra o cristianismo. A acusaçom de assassinato e canibalismo rituais já estava presente nos tempos antigos antes da sua reapariçom no século XII como acusaçom de infanticídio ritual que pretende ser umha reproduçom da crucifixom de Jesus, acarretando umha crueldade de grupo ou umha disposiçom para assassinar como traço cultural invariante. A elaboraçom do rumor dumha conspiraçom judaica, a sua transformaçom em narrativa lendária irá operar somente a partir do século XIV. Como observado por Gavin I. Langmuir, a crença de que os Judeus possuem características escondidas, que eles transmitem um ensinamento secreto e constituem uma sociedade secreta de conspiradores anticristãos, está ligada à apariçom da acusaçom quimérica de assassinato ritual (14).

Segunda forma: conspirações locais

Em segundo lugar, o mito da conspiraçom judaica apresenta-se na forma de histórias mais ou menos elaboradas de conspirações nacionais, ou mais precisamente intranacionais, durante o século XIX. Os Judeus, considerados intrinsecamente inassimiláveis, entregues ao nomadismo ou ao cosmopolitismo e fantasiados como parasitas e predadores som, entom, acusados de formar um "corpo estranho" em qualquer estado-naçom, assim, e de desempenhar o papel dum "Estado dentro do Estado". Entre as características negativas que constituem a natureza dos Judeus, acha-se no primeiro plano a vontade de dominar através dum poder financeiro considerado ilegítimo. No estereótipo do Judeu conspirador acrescenta-se o do Judeu "parasita social". Os judeus som denunciados desde entom como os únicos responsáveis polas reações antijudias, que só seriam defensivas. Este modelo explicativo que opera como um modo de legitimaçom acarreta umha essencializaçom demonizante do Judeu, erigido em acategoria trans-histórica que desenvolve o papel dum contratipo. Edouard Drumont dá esta formulaçom em 1898: "Na realidade, o judeu nom mudou durante três mil anos; é sempre o inimigo em casa, o artesão de conspirações e de traições, o ser oblíquo, obscuro, perturbador e nocivo, perigoso, especialmente porque ele usa meios que nom som aqueles dos povos entre os quais ele vive". (15)

Terceira forma: conspiraçom mundial

Em terceiro lugar, o mito da conspiraçom judaica apresenta-se na forma elaborada dumha conspiraçom internacional ou mundial. Entre o final do século XIX e meados do século XX o objetivo dado aos Judeus é a dominaçom mundial. O esquema da megaconspiraçom judia fornece um quadro interpretativo à denúncia da "conquista judia" ea "dominaçom judaica", apresentada como a consequência inevitável da emancipaçom dos Judeus, o efeito catastrófico do individualismo democrático ou o resultado do culto do ouro que supostamente caracteriza as sociedades modernas, dominadas por poderes financeiros nas mãos dos Judeus. Nesta nova configuraçom ideológica, o judeu é Rothschild, ou seja, o novo dono do mundo na idade do capitalismo.

O mito dumha central judia ou judeu-maçônica que organiza secretamente a conquista do mundo foi amplamente espalhada polo panfleto assinado por Osman Bey (16), "A conquista do mundo polos Judeus", publicado em francês e alemão em 1873 (17) e depois traduzido para várias línguas europeias. Os Judeus estariam "dirigidos como umha enorme sociedade secreta", caracterizada por umha "unidade secular de comando e de controlo", tal como afirma em 1882 o abade Emmanuel Augustin Chabauty (1827-1914), em "Os Judeus, os nossos mestres! (18).

Em 1910, o bispo Henry Delassus (1836-1921) publicou a sua obra principal, "A Conspiraçom anticristã" (19), da qual, no ano seguinte, publicou separadamente os anexos dedicados ao judaísmo sob o título "A questom judaica" (20). Ele postula que "durante dois mil anos, os Judeus aspiram conquistar o mundo inteiro", que eles som "os verdadeiros inspiradores de tudo o que a maçonaria concebe e executa" e som "sempre maioria no conselho superior das sociedades secretas".

Após a Primeira Guerra Mundial e a Revoluçom Bolchevique, o mito da conspiraçom judia mundial reaparece, agora veiculizada polos Protocolos dos Sábios de Siom, traduzidos a partir de janeiro de 1920 para a maioria das línguas europeias e amplamente espalhado tanto nos EUA quanto no Próximo Oriente. A falsificaçom, funcionando como umha chave para a história, está maciçamente instrumentalizada por todas as propagandas antijudaicas durante o período entre guerras. Em "Mein Kampf", em que Hitler chamou para levar a sério os Protocolos, encontramos o programa dumha luta final contra o "judaísmo internacional" (Judentum internacional), definido como o inimigo absoluto com muitos rostos, da "finança cosmopolita"ao "bolchevismo judeu" ou "judeu-bolchevismo", corporificaçom dum poder oculto mundial. A partir de 1933, a propaganda do Terceiro Reich orquestra internacionalmente a difusom dos temas de acusaçom conspiracionistas. Durante a Segunda Guerra Mundial, o tema dumha legítima defesa da "Europa" contra a conspiraçom criminosa das forças judeu-bolcheviques e judeu-plutocráticas é colocado no centro de propaganda nazista.

Quarta forma: a conspiraçom sionista

Em quarto lugar, este legado ideológico, umha vez retomado e transformado no período após a criaçom do Estado de Israel (1948), o mito apresenta-se na maioria das vezes sob a forma da "conspiraçom sionista global" ou, a partir dos anos noventa, a da "conspiraçom sionista-americana", cuja "aliança judeu-cruzada" é um equivalente islamita. No seu panfleto intitulado "A nossa luta contra os Judeus", publicado no início dos anos cinquenta e tornado num texto de referência para a maioria dos movimentos islamitas (21), Sayyid Qutb (1906-66) assume que existe umha "conspiraçom judeu-cristã contra o Islã" e refere-se aos Judeus como os inimigos mais antigos e mais ferrenhos ​​do Islã: "os judeus tornaram-se os inimigos do Islã a partir da criaçom dum estado muçulmano em Medina. Eles conspiraram contra a comunidade muçulmana desde que foi criada [...] Esta guerra amarga que os Judeus nos declararam [...] dura continuamente desde há catorze séculos, e incendeia, mesmo agora, a terra até os seus limites". O aiatolá Khomeini em 1980 deu legitimidade à tese conspiracionista de que os Estados Unidos estám dominados polos "malévolos judeus" e que Judeus e Americanos eram, portanto, os inimigos absolutos do Islã: "Os Judeus e seus capangas estrangeiros querem minar os fundamentos do Islã e estabelecer um governo judaico internacional; como som pessoas incansáveis ​​e astutas, temo, Alá nos livre disso, que um dia eles irám consegui-lo".

Em 23 de fevereiro de 1998 o jornal Al-Quds al-Arabi, sediado em Londres, publicou a "Declaraçom da Frente Islâmica Mundial para a Jihad contra os Judeus e os Cruzados", assinada por Osama bin Laden e por Ayman al-Zawahiri. O inimigo satânico compósito foi indicado como a "aliança judaico-cruzada" (e os "seus servos") ou a "coalizom judeu-cruzada". Este tema conspiracionista acha-se também na declaraçom feita em 14 de novembro de 2014 por Abu Bakr al-Baghdadi, o autoproclamado califa do Estado Islâmico: "Os líderes dos Judeus, os cruzados e os apóstatas [...] juntaram-se, refletiram, conspiraram, prepararam a guerra contra o Estado islâmico [...] Ó soldados do Estado islâmico, continuem a recolha dos exércitos, libertem os vulcões de jihad em todos os lugares", a fim de libertar a humanidade do "sistema global baseado na usura" e amarrado polos "Judeus e cruzados".

Fonte: Site do CRIF

NOTAS
1. Pierre-André Taguieff, la Judéophobie des Modernes. Des Lumières au jihad mondial, Odile Jacob, 2008,
p. 247-350 et l’Antisémitisme, Presses universitaires de France, 2015, p. 12-20, 48-59.
2. Pierre-André Taguieff, la Judéophobie des Modernes, op. cit., p. 353-496 et la Nouvelle Propagande antijuive, Presses universitaires de France, 2010.
3. Walter Laqueur, l’Antisémitisme dans tous ses états. Depuis l’Antiquité jusqu’à nos jours [2006], Markus Haller, 2010, p. 125.
4. Pierre-André Taguieff, les Protocoles des Sages de Sion. Faux et usages d’un faux [1992], nouvelle édition refondue, Berg International-Fayard, 2004 et Court traité de complotologie, Mille et une nuits, 2013.
5. Léon Poliakov, la Causalité diabolique [tome I, Essai sur l’origine des persécutions, 1980, tome II, Du joug mongol à la victoire de Lénine, 1985], nouvelle édition, préface de Pierre-André Taguieff, CalmannLévy, 2006.
6. Bernard Lewis, Semites and Anti-Semites: An Inquiry into Conflict and Prejudice [1986], 2e édition, New York, W. W. Norton, 1999, p. 23.
7. Norman Cohn, Histoire d’un mythe. La « Conspiration » juive et les Protocoles des Sages de Sion [1966], traduit par Léon Poliakov, Gallimard, 1967 ; Pierre-André Taguieff, l’Imaginaire du complot mondial. Aspects d’un mythe moderne, Mille et une nuits, 2006.
8. Édouard Drumont, la France juive. Essai d’histoire contemporaine, C. Marpon & E. Flammarion, 1886, introduction, p. vi.
9. Pour une première approche globale, voir Pierre-André Taguieff, la Judéophobie des Modernes, op. cit., p. 151-171, 328-334, 353-374.
10. Cicéron, Pro Flacco, chap. XXVIII, in Théodore Reinach, Textes d’auteurs grecs et romains relatifs au judaïsme, Ernest Leroux, 1895, p. 237-238. Voir Peter Schäfer, Judéophobie. Attitudes à l’égard des Juifs dans le monde antique
[1997], traduit par Édouard Gourévitch, Les Éditions du Cerf, 2003, p. 299-303.
11. Tacite, Histoires, livre V, in Théodore Reinach, op. cit., p. 306-307
12. Peter Schäfer, Judéophobie…, op. cit., p. 280-287.
13. Idem, p. 287-298, 337-343.
14. Gavin I. Langmuir, History, Religion, and Antisemitism, University of California Press, 1990, p. 341.
15. Édouard Drumont, « Plaies d’Égypte », La Libre Parole, 23 février 1898.
16. Pseudonyme de Frederick Millingen (1836-1901 ?).
17. Vladimir Andréjevich Osman Bey, la Conquête du monde par les Juifs, Krüst, 1873.
18. Emmanuel Chabauty, les Juifs, nos maîtres !, Société générale de librairie catholique, 1882, p. 61.
19. Henri Delassus, la Conjuration antichrétienne, Desclée, De Brouwer & Cie, 1910, 3 vol.
20. Henri Delassus, la Question juive. Notes et documents, Desclée, De Brouwer & Cie, 1911.
21. Voir Ronald L. Nettler, Past Trials and Present Tribulations: A Muslim Fundamentalist’s View of the Jews [1987], 2e édition corrigée, Pergamon Press, 1989.