domingo, 23 de setembro de 2018

A RESISTÊNCIA DOS JUDEUS NO NOROESTE TRANSMONTANO

Hoje apresenta-se, na freguesia de Santa Valha, município de Valpaços, o mais recente trabalho do historiador Jorge Alves Ferreira, intitulado "Os Judeus no Noroeste transmontano: 300 anos a resistir à Inquisição". O estudo inclui, entre outros tópicos, a razia que o Tribunal do Santo Ofício fez nesta freguesia.


sábado, 22 de setembro de 2018

A GALIZA COMEMOROU O XIX DIA EUROPEU DA CULTURA JUDAICA

No passado 2 de setembro foi comemorado na Galiza o XIX Dia Europeu da Cultura Judaica. Nesta ocasiom, a jornada foi dedicada à tradiçom oral das estórias e contos da cultura hebraica. 

No quadro de eventos oficiais foram agendadas atividades nos concelhos de Monforte de Lemos e Tui. Em Ribadávia, um dos municípios galegos de presença judaica mais premente, por segundo ano consecutivo nom foi programado qualquer evento.

A câmara municipal organizou visitas guiadas gratuitas à judiaria em sessões de manhá e tarde. 
Aliás, na Casa da Cultura teve lugar um concerto de música tradicional sefardita a cargo de Paco Diez, considerado um referente do romanceiro ibérico e da música sefardita.


O Concelho que Tui, que nom faz parte da rede espanhola de judiarias, organizou entre os dias 2 e 9, por décimo ano consecutivo, o Dia Europeu da Cultura Judaica com eventos que valorizam a importante herança judaica da cidade.


Assim sendo, entre os dias 4 e 5 de setembro as atividades centraram-se nas redes sociais municipais para dar a conhecer as histórias de Francisco Sanches, o filósofo de origem hebraica de Tui, a prisom de António Saravia e as viagens de Baltasar de Araújo.

Microrrelatos: A dúvida de Francisco Sánches
O filósofo Francisco Sánches era filho de António Sánches. Nasceria em Tui no ano 1550, o pai dele chegaria a ser médico do cabido catedralício entre 1558-64. A sua origem judaica tê-lo-ia forçado a fugira para Bordéus em 1569. Francisco continuaria os seus estudos em Roma e logo depois em Montpellier. Nos seus livros médicos lembrava ao seu tio Adám Francisco, em Valença, dando passeios até Tui quase todos os dias. O seu contributo filosófico radica na sua obra "Quod Nihil Scitur", que nada se sabe, onde pratica um ceticismo total, precedente da dúvida metódica de Descartes. Deste jeito, o filósofo e médico que nasceu e viveu em Tui em meados do século XVI tornou-se num referente da filosofia da renascentista europeia.
Suso Vila

No dia 7 realizou-se umha visita à judiaria medieval. O sábado 8 de setembro houve um concerto de música sefardita a cargo de Ana Alcalde e Bill Cooley na igreja de Santo Domingos. Finalmente, no dia 9 o Concelho organizou, sob o título de "Os nomes da história" umha visita aos "sanbenitos", peças únicas na Europa conservadas em Tui. Suso Vila, historiador local, foi o responsável polas visitas guiadas.

Como referido, nom apenas foi Ribadávia o concelho galego que negligenciou a comemoraçom deste dia embora faça parte da rede de judiarias, mas em todo Portugal nom foi agendado qualquer evento no quadro de eventos organizados pola AEPJ (Associaçom Europeia para a Preservaçom e Promoçom da Cultura e Herança Judaica).

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

LOUROSA DE BESTEIROS

Santiago de Besteiros é umha freguesia portuguesa do concelho de Tondela. Com 1331 habitantes, está situada na Beira Alta, numha regiom que segundo documentos dos séculos X, XI e XII designava-se por Terra de Besteiros.

O lugar de Lourosa de Besteiros, referido nas Inquirições do rei Afonso III, já tinha em 1258 quatro casais, um deles umha honra e os outros três que tinham pertencido a umha quinta. Em 1504 é autorizada a criaçom dumha estalagem a um membro da nobreza pertencente à estirpe de Riba de Vizela.

Pesquisadores portugueses descobriram no cimo das vergas dumha casa de antigos lavradores da povoaçom de Lourosa de Besteiros umha inscriçom formada por 3 frases escritas na pedra que faz referência três figuras da Torá: 
"Quem enfraqueceu a Sansão" 
"e desacreditou a David" 
"e fez néscio a Salomão". 

Este trítico de mensagens parece sintetizar toda a história, cultura e religiom de Israel na Diáspora e, ao mesmo tempo, parece retratar o receio polo fim do Povo Judeu.

O facto que se repetiu em mais casas do lugar levou aos investigadores Luis Filipe Pereira e António Domingos Pereira, professor de história, a levantarem a hipótese de ali ter sido, polo menos ao longo do século XVII, umha importante comunidade judaica assente na existência dum complexo social, comunitário e administrativo composto pola sinagoga, tribunal, cadeia e cemitério judaicos.
Localizaçom da área judaica em Lourosa de Besteiros
A sinagoga, identificada em 2013, apresenta a antedita inscriçom em pedra servindo de torça na porta de entrada e era constituída por dous pisos sem qualquer divisom. O piso superior onde funcionaria como local de culto e reuniom da comuna e o piso inferior onde funcionaria o tribunal e a parte administrativa. 

O edifício, de planta quandrangular conforme a tradiçom sefardita, encontra-se isolado e inserido na área da quinta rodeado dum vasto espaço verde afastado do núcleo habitacional. 
Sinagoga de Lourosa de Besteiros - Tondela
Por iniciativa do seu proprietário, foi objeto de obras de conservaçom, fazendo com que o seu espaço esteja hoje reabilitado e notabilizado, bem como o espaço museológico situado no piso térreo.

No interior do edifício da sinagoga encontra-se um Hechal (também designado por Aron, armário judaico ou simplesmente "Arca"), sendo constituido por 15 blocos de granito, sendo três frontais, que definem dous nichos de contorno retangular.
Armário judaico na sinagoga de Lourosa de Besteiros
Em Lourosa de Besteiros estám referenciadas até vinte marcas cruciformes e 3 monogramas de israel dispersos pola aldeia, compostos pola gravaçom da letra I entrelaçada à letra S.


Cruciformes em Lourosa de Besteiros

O texto e fotografias deste artigo foram tiradas da Candidatura do núcleo judaico de Lourosa para classificação como Conjunto Interesse Público (CIP), elaboradas por Luís Filipe S. Neves S. Pereira no seu Projeto de Mestrado em Gestão Turística dirigido polas Professoras Doutoras Cláudia Seabra e Odete Paiva da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Viseu-Instituto Politécnico de Viseu (maio de 2016).

No livro "O Leão de Judá Rugiu em Lourosa de Besteiros", de características inéditas, os pesquisadores Luis Filipe Pereira e António Domingues Pereira desvendam muitos dos mistérios desta judiaria numha tentativa de interpretar os sinais do passado.

CAEIRO quer exprimir o seu agradecimento a D. Luís Filipe Pereira por tê-lo informado da existência desta judiaria e convidado a aproximar-se deste testemunho da presença judaica em Portugal.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

VIMIOSO

Vila portuguesa com 1285 habitantes situada na regiom da Terra Fria do Alto Trás-os-Montes. Sede do municipio do Vimioso, nas freguesias de Argozelo, Carção e Vimioso existem vestígios de presença judia.

Em 1492 o território do concelho de Vimioso viu chegar grande afluência de Judeus expulsos dos reinos de Leom e Castela. Depois de acamparem durante três anos sem ordem nengumha num local que conservou o nome de Campo das Cabanas, entre as atuais povoações de Caçarelhos e Vimioso, os Judeus foram autorizados a se derramar por essas terras à volta, estabelecendo-se em várias aldeias e vilas da regiom, nomeadamente Argozelo, Carção e Vimioso, evitando vilas como o Algoso (antiga cabeça do município) pola existência de justiças e autoridades católicas.
Campo das Cabanas onde estiveram os Judeus encurralados entre 1492-95
Convertidos à força à religiom católica logo depois do édito de expulsom do rei D. Manuel em 1496, constituiram nessas localidades comunidades importantes que pouco se misturaram com o resto da populaçom até meados do século XX. Os Judeus, assim chamados até hoje, distinguiam-se dos lavradores polos ofícios exercidos, ligados mormente ao artesanato e comércio.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

XVIII DIA EUROPEU DA CULTURA JUDAICA

O XVIII Dia Europeu da Cultura Judaica será celebrado no domingo 3 de setembro. Este ano, está dedicado às Diásporas dos Judeus.

Na Galiza estám agendadas comemorações em Monforte de Lemos e Tui. Esta vila organiza pola primeira vez os eventos no quadro do programa oficial organizado pola Associaçom Europeia para a Preservaçom e Promoçom da Cultura e Herança Judaica (AEPJ).

A diferença de edições anteriores, a esta altura ainda nom está prevista a celebraçom de quaquer ato en Ribadávia.

Monforte de Lemos


Tui


Em Portugal apenas Belmonte organiza um evento comemorativo no quadro da AEPJ

Nesta vila portuguesa habita a única comunidade peninsular herdeira legítima da antiga presença judaica que manteve as suas tradições judaicas quase intattas durante os séculos desde o édito de expulsom dos Judeus de Portugal (1496). Somente na década de 1970 a comunidade judaica de Belmonte estabeleceu contato com os Judeus de Israel, oficializando o judaismo com a sua crença.

Assim sendo, no domingo dia 10 vai ter lugar o Mercado Kosher com produtos e atividades ligadas a aspectos da cultura judaica.


terça-feira, 21 de março de 2017

ISRAEL E A PULSOM ETNOCENTRISTA

Shlomo Ben Ami

Netanyahu está a fazer recuar a qualidade democrática dum país que tem umha ligaçom vital com Ocidente. Os seus ataques à liberdade de imprensa ou o seu assédio à cultura nom som muito diferentes ao doutros países que recebem sanções.

Após meio século ocupando o território palestiniano, Israel está a sucumbir às suas mais profundas pulsões etnocentristas e está a rejeitar progressivamente as fronteiras reconhecidas. E agora acha-se no caminho de aderir o clube das democracias iliberais graças ao primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu.

No decurso dos seus onze anos como primeiro-ministro, Netanyahu reformou a psyché coletiva do país. Exaltou o isolado, traumatizado "judeu" (que se opõe ao "gentio", por nom dizer aos "árabes") sobre o laico, global e globalizado "israelita" enxergado polos pais fundadores do país.

Netanyahu mesmo é um cínico hedonista laico que encara umha investigaçom sobre a sua pressumível aceitaçom de generosas prendas ilegais por parte dum multimilionário de Hollywood. Mais gosta de jogar a "carta judia" no seu proveito. Em 1996 a sua promesa de ser "bom para os Judeus" levou-o ao poder. Em 2015, a sua advertência de que os Judeus deviam correr a votá-lo ou o seu destino ficaria em mãos de "rebanhos" de Árabes presumivelmente acarretados até os colégios eleitorais.

E ao igual que apelar para o elemento judeu do povo ganha eleições, bloqueia as negociaçõs para umha soluçom ao conflito israelo-palestiniano. A teimosia de Netanyahu de que os palestinianos reconheçam a Israel como um Estado judeu em 2014 foi a gota que rebordou o copo num processo de paz agonizante.

Netanyahu prefere muito mais o palavreado de Trump do que o liberalismo profissional de Obama

Em muitos sentidos, o perfil político de Netanyahu liga-se ao dos republicanos estado-unidenses mais duros. A mulher dele umha vez vangloriou-se de que, como ele nascera nos EUA, poderia ter sido presidente desse país. Provavelmente ele teria preferido essa vida, sobretodo polo poder absoluto que lhe proporcionaria. Também ter-lhe-ia evitado oito frustrantes anos de raiva pessoal com o presidente Barack Obama.

Seja como for, agora Netanyahu sente-se aliviado ao ter a Donald Trump na Casa Branca, um republicano que pensa como ele e que é, praticamente em tudo, o posto a Obama. O anterior presidente dos EUA mostrou empatia polas minorias e os imigrantes, defendeu os direitos civis e humanos, conseguiu progressos diplomáticos com o Irão, procurou a paz na Palestina e, o mais problemático de tudo, tentou que o líder israelita agisse responsavelmente. Um dos últimos atos de Obama como presidente foi fazer com que os EUA se abstivessem numha votaçom dumha resoluçom do Conselho de Segurança das Nações Unidas contra a construçom de assentamentos israelitas nos territórios ocupados em vez de a vetar.

Netanyahu prefere muito mais o palavreado de Trump ao liberalismo profissional de Obama. Com efeito, Trump e Netanyahu têm muitas cousas em comum, tanto entre eles como com outros líderes iliberais como o presidente turco Recep Tayyip Erdogan. Os três acham a aberta hostilidade contra a mídia como um meio para se assegurar e consolidar o seu poder. Noutras palavras, Trump lançou umha "guerra contra os meios". Pola sua parte, Erdogan reprimiu a liberdade de imprensa detendo jornalistas sob a acusaçom de cumplicidade com o golpe militar fracassado do passado julho. 

Netanyahu age como ministro de comunicações de Israel desde finais de 2014. Nom é difícil seguir o fio. Supõe-se que a mídia fiscaliza aos que estám no poder. De modo que estes tentam calá-los. Umha maneira de o fazer é amplificar as vozes que espalham alternativas mais favoráveis, como Israel Hayom, um jornal gratuito em hebraico dedicado a cantar loubanças a Netanyahu.

O objetivo deste folheto ao estilo norte-coreano nom é obter lucros. Em 2014 Sheldon Adelson, umha magnata estado-unidense dos casinos que durante muito tempo apoiou Netanyahu e também ajudou a financiar a campanha de Trump, investiu 50 milhões de dólares em Israel Hayom, que perdeu mais de 250 milhões de dólares desde o seu lançamento em 2007. Netanyahu adiantou umhas eleições em 2014 para proteger o seu alti-falante, que agora ostenta a maior tiragem da imprensa israelita, dumha iniciativa parlamentar que ameaçava com dificultar-lhe as cousas. Netanyahu sempre negou que tivesse algo a ver com Israel Hayom, ainda que ele é praticamente o seu diretor. Em qualidade de que outro cargo poderia ter discutido com o proprietário do seu principal concorrente, Yedioth Ahronot, a possibilidade de reduzir a distribuiçom de Israel Hayom em troca dum tratamento mais favorável?

Mas, por suposto, Netanyahu nom está a fazer todo o trabalho sujo ao empurrar Israel cara o iliberalismo e a censura e o assédio nom estám reservados exclusivamente à mídia. Naftali Bennet, líder do partido Casa Judaica, um aliado chave na coaligaçom de extrema-direita de Netanyahu e a voz cantante da anexaçom das terras palestinianas, agora ordena às escolas que "estudar o judaismo é mais importante do que as matemáticas ou ciências". Um romance que narra um namoro entre um garoto palestiniano e umha gaja judia foi banido do programa escolar. À ministra de Justiça, Ayelet Shaked, também militante de Casa Judaica, nom a supera ninguém no seu ardor ultrassionista. Agora encabeça um ataque contra a última fronteira da democracia israelita, o Supremo Tribunal, criticando-o por decisões como a declaraçom de inconstitucionalidade do passado abril respeitante à política israelita sobre o gás natural. Mais recentemente, Shaked aprovou a Lei de Lealdade na Cultura, que estabelece na "lealdade" do receptor ao Estado judeu o baremo do financiamento cultural governamental. Por enquanto, grupos de extrema direita que apoiam a anexaçom seguem a receber um chorudo apoio tanto do Governo quando de doadores judeus estrangeiros. A noçom de lealdade nom apenas é usada como arma de arremeso contra os artistas. Umha nova lei, claramente encaminhada aos reprsentantes árabe-israelitas no Parlamento (Knesset), permitiria demitir os parlamentares por deslealdade ao Estado. As ONGs centradas nos direitos humanos e na procura da paz som investigadas como se fossem agentes estrangeiros.

Para Israel a democracia foi sempre um bem estratégico porque um Israel democrático tem um encaixe natural na aliança de Ocidente. Enquanto este nom perde o tempo em impor sanções à Rússia de Vladimir Putin pola anexaçom da Crimeia, nom castigou a ocupaçom israelita de terras palestinianas. Seja como for, quanto mais abraçar Israel práticas inspiradas em Putin, mais fraco se torna na sua ligaçom com a sua retaguarda estratégica em Ocidente. Haveria que ver se o imprevisível Trump irá cumprir as expectativas de Israel. O que é certo é que enfraquecendo as suas credenciais democráticas Israel põe em causa a sua ligaçom vital com Ocidente, incluindo os EUA pós-Trump.

Shlomo Ben Ami foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel e é vice-presidente do Centro Internacional Toledo para a Paz

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

TRUMP, DIOCLECIANO E O PORQUEIRO

Bernard-Henri Lévy

É possível que Obama tivesse abandonado Israel. Mas o que é certo é que Trump vai treiçoar Israel.

Como é possível? Nom está a dar múltiplos sinais de boa vontade? O nomeamento dum embaixador amigo, o anúncio do deslocamento da embaixada para Jerusalém, o nomeamento do genro dele, Jared Kushner, como assessor, nom som acenos enérgicos dos que Israel se deveria alegrar?

Sim e nom.

Existe umha lei formulada por Gershom Scholem quando, durante o processo de Eichmann, censurou Hannah Ardent alegando que carecia de Ahavat Israel "o amor ao povo judeu". Ardent retorquiu que, quando se tratar de Israel, as provas de amor som menos importantes do que o amor. Para sermos exatos, disse que os gestos de amizade, quando nom ligados a um conhecimento e um apego sincero, tornam-se, num dado momento, em tudo o contrário.

Na atualidade, o perigo é, em Israel, que se reforce a faixa mais radical da sociedade, um má sinal dirigido aos que, no outro bando, se alegram de que os Estados Unidos comecem a tomar decisões unilaterais que, um dia, possam ser desfavoráveis aos Judeus; e nos Estados Unidos, a proximidade dum presidente instável (que muda segundo o negócio do dia) e impopular para meio pais (com a rotura do consenso entre os dous partidos que sempre reforçou Israel).

Nom tenho nem ideia, como é natural, do amor que Donald Trump sente, ou nom, polo povo judeu. Mas dá-nos algumha pista o livro de John O'Donnel sobre ele: "O único tipo de gente que conte o meu dinheiro som pequenos homens cobertos com a kipá". Esteve nos twitts com os que empezinhou em arrancar ao jornalista John Stewart, a máscara atrás da que se ocultava Jonathan Leibowitz, o seu verdadeiro nome. Estiveram as palavras que encaminhou, em plena campanha, a umha reuniom de doadores judeus: "Sei por que nom me vam apoiar! Porque nom procedo do seu dinheiro!".

Ou, para sermos mais precisos, essa variedade de desprezo que funciona, segundo Freud, como um mecanismo antecipado de defesa contra o pressumível desprezo do outro. Pouco importa que esse desprezo seja real ou imaginário.

Que John Stewart ou os doadores judeus republicanos desdenhassem verdadeiramente ao construtor kitsch da Trump Tower, tilintante com os seus acrescimos capilares, mobiliários e imobiliários nom é o importante. O fundamental é que Donald Trump acredita nisso. O fundamental é que, para ele, os Judeus som a caricatura dessa elite nova iorquina que sempre o considerou um marionetista vulgar e sem alma. E aí surge o típico caso desse desprezo de autodefesa, quando os Judeus som os representantes dumha elite que o olhou com desdém e da que, agora que ele tem o poder, se pode vingar.

Existe um relato talmúdico que exprime bem esta lógica. O rabi Yehuda tem umha escola por diante da que passa, cada dia, um jovem porqueiro romano do que os alunos se troçam das alturas da sua sabedoria. Um dia, o rabi recebe umha ordem de acudir ao oeste do reino de Edom, perante o imperador Diocleciano; e ao chegar, com grande espanto, reconhece o porqueiro convertido em rei. À primeira vista, este recebe-o com todas as considerações. Quando chega, ordena que lhe preparem um banho para que se purifique das miasmas da viagem. Com umha salvidade: teve a maldade de convocá-lo numha sexta-feira, justo antes do Sabbat. O banho está quente de mais e, se nom tivesse intervido um anjo no último minuto, vertendo grandes quantidades de água fria, teria morto escaldado. E quando o rabi, salvo polo anjo, aparece perante o antigo porqueiro, este diz-lhe: "Como o teu Deus faz milagres, permites-te desprezar o imperador!".

Esta história é umha boa metáfora dos Estados Unidos de hoje, onde, como em Edom, o nilismo triunfante tornou um porqueiro em imperador.

É um bom exemplo também da prudência do judeu, que retorque: "Desdenhávamos o Diocleciano porqueiro, mas debruçamo-nos perante o imperador Diocleciano, sempre que, como Saul, que antes de rei cuidara burras, transcendesse pola sua funçom e a sua metamorfose". E, especialmente, é umha boa alegoria dos banhos e as prendas poçonhentas que pode outorgar um porqueiro humilhado que decide vingar-se.

Perante esta situaçom, o mais importante é nom cair na armadilha da boa vontade de duplo gume. Os Judeus nom devem esquecer que, por muito que Trump multiplicar as declarações de amor, sempre será um mal pastor que apenas respeita o poder, o dinheiro, os estuques e os ouros dos seus palácios. E devem estar cientes de que, na atmosfera populista atual, neste momento em que se ataca o pensamento e as mentiras brotam com umha arrogância, neste mundo que está a alastrar e no que, dos plutócratas estado-unidenses aos oligarcas russos, os porqueiros mostram sem vergonha a sua linhagem nas fachadas dos seus palácios imperiais, a pequena naçom judia nom tem espaço.

Aliar-se com isso é treiçoar a sua vocaçom. É entregar-se, nom a Pompeu ou a Asuero, mas a Diocleciano; é arriscar-se a perder a identidade. Para os herdeiros dum povo cuja longevidade através do tempo foi devida à milagre dum pensamento constantemente revivido, sacrificar essa vocaçom de excelência, renunciar ao dever de exceçom que foi o lêvedo -desde Aquiba até Kafka, de Rashi até Proust- dumha resistência quase incompreensível, em resumo, rendir-se ao nilismo de Trump, seria a mais terrível das capitulações e equivaleria a um suicídio.

Bernard-Henri Lévi, é filósofo

Fonte: BHL Traduçom livre de CAEIRO para o galego-português.