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domingo, 5 de maio de 2013

TESE 4ª: ISRAEL É UM POSTO AVANÇADO, UMHA CONSEQUÊNCIA DO IMPERIALISMO AMERICANO

Nom contente com receber o dinheiro e utilizar o melhor possível as fontes humanas dos judeus da Diáspora, Israel recebe a acusaçom de ser um produto do imperialismo ianque. Pior ainda, um autor de origem judia (*) mesmo chegou a estigmatizar Israel como um facto colonial.  O sionismo seria umha aventura colonial do povo judeu à custa dos palestinianos e outros países árabes. Outra variante desta tese: empresa da burguesia judia que liga imperialismo e colonizaçom.

A fragilidade desta tese é tam evidente que apenas pode enganar aqueles que já fizeram a sua escolha perante qualquer argumento racional. A menos que se jogue com a palavra, como faz o nosso autor, nom existem no caso israelita nengumha das características da colonizaçom no senso contemporâneo
  • nem umha exploraçom económica dumha maioria indígena por umha minoria de colonos, 
  • nem a utilizaçom dumha mão-de-obra barata, enquadrada polos colonizadores, reservando-se para eles os postos altos, 
  • nem a existência dumha metrópole, tendo por consequência aquilo que se chama de pacto colonial (troca de matérias primas contra produtos manufacturados), 
  • nem um poder político e militar, direta ou indiretamente saído desta metrópole, 
  • nem umha alienaçom cultural em proveito exclusivo da cultura do colonizador. 

Neste sentido é curioso notar que som os mesmos que afirmam à vez que o povo judeu nom existe e que falam no imperialismo e de metrópole judias. Eis portanto umha metrópole sem povo, e um imperialismo sem naçom e sem império! Boa mostra sócio-histórica, abofé! É verdade que eles nom se envergonham de fazer deles o posto avançado do imperialismo norte-americano e, à vez, a vanguarda do expansionismo judeu. Mas já se sabe que nada pode surpreender os judeus, que chegam a acumular todos os males contraditórios. Os que acreditam n'Os Protocolos dos Sábios de Siom e os que provam que eles ainda som mal absoluto... ou que a confusom se acha na cabeça dos seus acusadores.

* Maxime Rodinson, em Os Tempos Modernos, nº 253 sobre as relações israelo-árabes.

Trecho tirado de "O sionismo, Israel e o Terceiro Mundo: semelhanças, especificidades e afirmações nacionais", de Albert Memmi (1972).

TESE 3ª: ISRAEL DESENVOLVE-SE MAIS RAPIDAMENTE

Diz-se que a industrializaçom de Israel é mais rápida porque dispõe dos capitais judeus e de quadros judeus mais numerosos e  eficazes. Entom há que excluir do Terceiro Mundo os países que descolam mais rápido, como o Uruguai ou a Argentina? Existe umha prima de moralidade para os que têm os maiores atrasos? O Terceiro Mundo é um clube no qual virtude é medida com a miséria?

De todas as formas, como referem alguns israelitas, as características do desenvolvimento israelita nom som europeias, mas as dos países em vias de desenvolvimento: ajuda exterior indispensável, cérebros e investimentos injectados do estrangeiro. Que os conselhos e este dinheiro venham de judeus do exterior nom muda fundamentalmente a natureza económica do facto israelita: ainda é a dum país subdesenvolvido.

Seriam precisos aqui estudos comparativos sérios e nom declarações lapidárias, que apenas têm valor táctico. E mesmo umha revisom destes conceitos em voga, utilizados do direito e do revés. O conceito de Terceiro Mundo, por exemplo, que, ao lado dalguns serviços, causou estragos e que é vago e mal definido, muito elástico ou nem tanto. É verdade, eu preferia um conceito mais flexível: aquele das nascenças e renascenças nacionais, no qual Israel se situaria numha escala, indo dos países de industrializaçom lenta aos países de rápida industrializaçom. Num extremo achar-se-iam os países pobres do Terceiro Mundo e no outro o Canadá ou a Austrália, que seriam colónias de povoamento, mas sempre sem metrópole e sem exploraçom dum povo autóctone, e que seria absurdo excluir, pois haveria entom de condenar os franco-canadianos, por exemplo, e toda iniciativa de pioneiros.

Trecho tirado de "O sionismo, Israel e o Terceiro Mundo: semelhanças, especificidades e afirmações nacionais", de Albert Memmi (1972).

sábado, 4 de maio de 2013

TESE 2ª: ISRAEL RECEBE DINHEIRO AMERICANO

Mas, quem no Terceiro Mundo nom o recebe? E de diversas fontes? O Egipto recebe dinheiro russo e dinheiro americano; a Transjordânia (hoje Jordânia) recebe dólares americanos e dinheiro dos emirados petroleiros; o Marrocos e a Tunísia beneficiam-se dum plano de ajuda americano, bem como o Paquistám e a Índia. A Argélia, que se vangloria de pureza revolucionária, sabem que comercia 80% com o Ocidente e nom com a URSS?

A maioria das ex-colónias francesas recebem umha ajuda da França; o governo francês orgulha-se muito disso. Porque apenas se fala nos americanos? É que o dinheiro francês será mais inocente? Sim, mas, retorque-se, Israel recebe dinheiro sobretodo americano, enquanto os países árabes recebem principalmente dinheiro russo, o qual é oferecido sem contrapartidas. Isto é: a contrapartida procurada e obtida polos russos é polo menos política e estratégica. No início da descolonizaçom, persuadi-me, ao ver mais de perto o contencioso económico entre a França e as suas colónias, que as vantagens militares, estratégicas e políticas eram mais importantes que as económicas, as quais foram abandonadas aos grandes colonos e a algumhas sociedades. 

De resto, Israel recebe acima de todo dinheiro judeu, quer americano ou nom, isto é, do seu próprio povo para o qual foi fundado. Isto nom é um indício dum mistério escuro, como se tem sugerido, mas sim a garantia dumha independência relativa. Nom se repete, com efeito, que a independência económica é o signo mais seguro da liberdade dumha jovem naçom?

Trecho tirado de "O sionismo, israel e o Terceiro Mundo: semelhanças, especificidades e afirmações nacionais", de Albert Memmi (1972).

quinta-feira, 2 de maio de 2013

TESE 1ª: O SIONISMO É UM MOVIMENTO REACCIONÁRIO E IMPERIALISTA


Quem isto defende está errado e erram as pessoas por razões evidentes. É muito cómodo criar um inimigo único, quase mítico, perante o qual se pode colocar umha unidade ilusória, com a esperança de que se torne real nalgum dia. Nasser percebeu-o admiravelmente, -e que os meus amigos árabes me perdoem-, Hitler também. Contra Israel tornado em diabo, apenas o Egito (apenas a Alemanha!) à cabeça do mundo árabe, unificado sob a sua direçom e ao seu proveito (petróleo incluído), podia responder vitoriosamente. É o que confirma com honesta franqueza um sociólogo nasserista(1): "Para o Egito, esta unidade parece ser o único caminho para criar umha unidade regional árabe, dotada das fontes de matérias primas indispensáveis para o desenvolvimento dos territórios árabes, de complementar as economias...".

Mas Israel nom ameaça o mundo árabe mais do que a judeidade no tempo do Reich. O mito apenas é umha ajuda relativa e a realidade acaba impondo-se tarde ou cedo. O Egito nom conseguiu a unidade do mundo árabe, cuja realidade atual é provavelmente a constituiçom de várias nações. Na altura da sua morte o próprio Nasser achava em se ocupar mais seriamente do seu próprio país. 

(1) Anouar Abdel Malek (1965)


Trecho tirado de "O sionismo, israel e o Terceiro Mundo: semelhanças, especificidades e afirmações nacionais", de Albert Memmi (1972).

terça-feira, 30 de abril de 2013

TESES E ANTÍTESES SOBRE O SIONISMO


Albert Memmi

Embora negligenciado, eu sempre teimei num dos elementos fulcrais do movimento sionista: a sua dimensom nacional. Apesar da sua importância, a dimensom nacional foi obscurecida polos primeiros sionistas. Colonos ou ideólogos, eles eram ardentes socialistas e consideravam-se internacionalistas e universalistas, sem  reparar em que um rigoroso internacionalismo nom era muito compatível com a existência de diferentes nações. Muitas vezes russos de origem, eles possuíam as mesmas convições do que os revolucionários do seu país natal, os quais sempre foram ambíguos relativamente à questom nacional, mesmo após o triunfo da revoluçom e os massacres de tantos povos ansiosos por se tornarem nações. Enfim, a existência dumha asa direita no movimento sionista, à cabeça da qual se achavam homens ativos, corajosos e nom desprovidos de valor intelectual, como V. Jabotinski, mas que misturavam o problema social, irritava-os e confirmava-os na sua desconfiança dumha afirmaçom nacional acentuada de mais. 

Na verdade, desde os seus inícios o sionismo nom só foi um movimento de classes pobres, mas acima de todo a reivindicaçom de todo um povo oprimido, alienado e com estruturas gravemente perturbadas. A sua forte filosofia social era mais exigente e teoricamente mais estruturada do que a maior parte dos países do Terceiro Mundo. Mas antes de mais foi explicitamente um movimento de renascença e de normalizaçom nacional.

De resto, tenha sido dito ou nom claramente polos sionistas, tudo confirmava este carácter. Negativamente: umha opressom coletiva profunda, pondo periodicamente em perigo a existência mesmo do povo (o período nazista nom é excepcional, veja-se a simbologia da festa do Purim na que se celebra a salvaçom dum extermínio). Apresenta  constantemente todos os efeitos da opressom global: alienações institucionais, culturais e psicológicas. A este fado histórico responderam incessantes tentativas, parciais e abortadas. Seria preciso fazer algum dia umha história de todas elas e ver-se-ia que a saudade nacional nunca cessou de existir nos judeus.

Entom, um dia, surge a resposta global e decisiva: a decisom dumha transformaçom radical do corpo e do espírito coletivos, reconstituiçom dumha economia independente, emergência dum poder político autónomo, renascença dumha única língua de preferência, retomada dumha tradiçom, procura dumha cultura específica. Eis o sionismo, isto é, o movimento de libertaçom e de reconstruçom do povo judeu, que logo foi atualizado na naçom israelita.

Indiscutivelmente Israel faz parte dessas nações novas contemporâneas que surgiram como cogumelos por volta do mundo. Tanto no terreno no que assenta, a desgraça judia, como polos problemas que o afligem e as soluções que dolorosamente tenta resolver. Por exemplo, esta procura ansiosa da sua identidade, surpreende num povo que possui umha tradiçom cultural prestigiosa. Isto nom lhe poupou o incansável debate sobre "quem é Judeu?", o qual, apesar das aparências, nom é específico deles. É a mesma procura da identidade coletiva que faz com que um jovem árabe se pergunte "o que é um árabe?", já que o Islám religiom, e mesmo o Islám cultura nom o enche todo, um jovem negro sobre "o que é a negritude?" ou um jovem latino-americano de origem índia. Os períodos de mutaçom, (o que é mais importante na vida dum povo mas quando se torna em naçom?) obrigam a este regresso sobre si próprio, a um balanço do passado, a umha avaliaçom da suas forças. Porque os velhos hábitos, os velhos ritos e as velhas técnicas têm o risco de nom ser eficazes para encarar um futuro relativamente desconhecido. Em suma, qualquer adaptaçom gera ansiedade, vemo-lo mesmo na Europa.


Reparemos nas argumentações anti-israelitas: "Israel recebe dinheiro americano", "Israel é umha excrescência do imperialismo", "Israel é umha aventura colonial", "Israel nom é um povo nem umha naçom", "Nom é do Terceiro Mundo", "Ao contrário, trata-se do agressor dum povo oprimido"... Quem isto defende ignora que o sionismo é o movimento de libertaçom nacional dos judeus, do mesmo jeito que outros movimentos de libertaçom nacional no Magrebe, na África e no mundo. Porque, se concordamos em considerar o sionismo como um movimento nacional, ele deve receber o respeito e a legitimidade devidas a todos os movimentos de libertaçom nacional. Mas é precisamente isto o que nom se vê por nengures, cada um polas suas razões ou a sua tática. Ao contrário, ao estigmatizá-lo como um facto colonial ou imperialista, é marcá-lo com a culpa e a condenaçom universal e prepara-se o mundo para o justo castigo que ele merece: ao desnaturalizá-lo, ao destrui-lo simbolicamente prepara-se a sua destruiçom real.

Porque a aparência objetiva da demonstraçom nom deve ocultar a motivaçom e o fim disso: todo o mundo hoje concorda em que as situações coloniais devem desaparecer. De resto, é raro que o partidário desta caracterizaçom do Estado de Israel nom acabe por concordar em que ele é, de facto, pola sua liquidaçom. Sejam quais forem as precauções verbais com as que se envolver, ao reclamar apenas a transformaçom ou o abandono das suas estruturas estatais, a sua integraçom imediata num governo democrático sob liderança árabe... Todo isto, tendo em conta o estado atual das populações, som fantasia sociológica, tolice ou utopia. Polo contrário, no imediato isto levaria certamente à destruiçom do sionismo.


Apresso-me a acrescentar que eu nom condeno essas soluções de integraçom, de federaçom ou de confederaçom. Prematuras hoje, significariam, com efeito, a morte do movimento nacional judeu, jovem de mais e ainda frágil. No entanto, estas soluções nom se excluiriam para o futuro quando estes povos diferentes, definitivamente transformados em nações, possam procurar juntamente como associar os seus destinos para a melhor exploraçom do ambiente circundante.

Em resumo, cabe lembrar obstinadamente esta tripla evidência:

- O judeu é um dos mais antigos oprimidos da história e ele sofre, em consequência disto, umha opressom mais tenaz, mais variada e mais estendida que a de muitos povos, árabes incluídos.

- O sionismo é o único esforço específico para pôr fim a este drama global, social e histórico, sofrido polo judeu.

- Nom existe diferença de natureza, mas de matizes, entre o sionismo, movimento de revolta e de afirmaçom nacional dos judeus, e os outros movimentos contemporâneos com a mesma origem ou de igual desenho.

Desta perspectiva, o que cabe pensar entom das relações entre judeus e árabes? Aceitar as evidências que se teimam em nom aceitar! Os árabes também procuram a sua libertaçom e abordam a sua reconstruçom no meio de muitas dificuldades, muitas delas no seu próprio seio. Um sionista, ciente da natureza da sua própria causa, só pode compreender a aprovar as aspirações sociais e nacionais dos povos árabes, embora ele esteja em conflito com eles. Ao invés, está em direito de reclamar aos povos árabes que reconheçam as suas próprias reivindicações de liberdade e de reconstruçom nacional. Ser sionista nom é nem infame nem contra-revolucionário; ao contrário, é a única maneira de um judeu contribuir para libertar coletivamente o seu povo. Em suma, é hoje a única maneira para um judeu de ser progressista como judeu. É fazer um fraco favor aos progressistas do mundo inteiro, árabes incluídos, negligenciar isto, como, por tática, fazem alguns dos meus camaradas políticos, porque o termo lhes parece queimado. É fazer um fraco favor aos próprios árabes, porque é contribuir para os fazer viver na ilusiom de que, ao nom ser um movimento nacional, será fácil dar cabo do sionismo. O sionismo, como expressom coletiva do povo judeu, é agora inextirpável, mas com a morte deste povo (bem é certo que este pensamento nom faz tremer todo o mundo).


Este texto é os seguintes som tirados de três textos do autor intitulados "Por umha soluçom socialista do problema judeu-árabe" (Élements, Paris, 1968), "Por um franco reconhecimento do facto nacional" (Éléments, Paris, 1971) e "Verbalismo e socialismo" (Cahiers Bernard Lazare, 1973, nº40-41).

domingo, 14 de abril de 2013

VOLUNTÁRIOS JUDEUS NA GUERRA CIVIL ESPANHOLA


Durante a guerra civil espanhola as tropas nazi-fascistas comandadas por Francisco Franco receberam o apoio do Terceiro Reich, a Itália fascista e do Portugal governado por Salazar. Ao contrário, o bando republicano contou com o apoio da URSS e o México. Para maior vergonha do mundo democrático, países como o Reino Unido ou a França, entom governada pola Frente Popular de L. Blum, praticaram umha política oficial de nom-intervençom.

Nessa altura umha parte significativa da populaçom judaica, especialmente na Europa, estava ativa em organizações socialistas e comunistas em entre-guerras.

Os partidos da esquerda europeia promoveram as Brigadas Internacionais para lutar ao lado dos republicanos, chamado ao que acorreram muitos judeus, chegando a constituir umha parte considerável dos voluntários socialistas, aproximadamente 10 por cento.

A seguinte tabela mostra a origem dos voluntários judeus nas Brigadas Internacionais.

País
Número de voluntários
Voluntários judeus
% de voluntários judeus
Polónia
3.000
2.250
73,3
EUA
2.800
1.250
44,6
França
7.500
1.043
13,9
Palestina

500

Alemanha
3.000
400
13,3
Reino Unido
2.000
200-400
10-20
Bélgica
1.600
200
12,5
Checoslováquia – Hungria
3.000
120-150
4-4
Canadá
1.500
71
4,7
URSS
2.000
53
2,7


No total, foram entre 6000 e 8000 os judeus de diversas orgiens que participarom no combate ao levante militar de Franco.


Mesmo a liderança das Brigadas Internacionais chegou a considerar formaçom dumha brigada inteiramente judaica, hipótese descartada perante a oposiçom do Komintern a formar unidades militares étnicas. No entanto, uma companhia judaica, a Companhia Naftali Botwin foi formada dentro do Batalhom Palafox da Brigada Dombrowski (a XIII Brigada Internacional) e que combateu na Batalha do Ebro.

Esta Companhia tiña um hino próprio, Der March der Botvin-soldaten, composta por Olek Nuss, quem sobreviveu a guerra mas foi executado polos nazistas na França; e o seu próprio jornal, "Botwin", redigido em iídiche. O seu ânimo combatente, apesar dos adversos resultados bélicos, fizeram-lhes merecer o apelativo de Dei royte teyvelonim, (os diabos vermelhos). O seu nome era em homenagem a Naftali Botwin, um judeu polaco executado em 1925 por abater um delator à polícia.

Na sua Declaraçom fundacional, esta companhia manifestava:
"Todos nós, antifascistas, sem distinçom de nacionalidade ou convições políticas, estamos firmes na nossa conviçom de lutar duramente contra o fascismo, o racismo e o antissemitismo; de esforçar-nos por libertar o povo de Espanha e à humanidade da bestialidade fascista e a escravatura. Os antifascistas de todos os países assistem-vos nesta luta pola vossa liberdade e a nossa". 

Junto dos voluntários das Brigadas Internacionais, e em especial os da Brigada Dombrowski, os voluntários judeus distinguiram-se polo seu heroísmo, o seu espírito de luta e a sua devoçom por combater o fascismo. Em Madrid, Guadalajara, Brunete e Saragoça, onde quer que a brigada se encontrar, lutou sempre contra o inimigo mortal da humanidade: o fascismo. Os voluntários judeus sempre estiveram em primeira linha, dando exemplo com o seu heroísmo e consciência anti-fascista.

O compromisso da comunidade judia com a legitimidade democrática naquela guerra, para além do apoio material que enviava desde todo o mundo, reflectiu-se no papel protagonista dum deles, Gershon Dua-Bogen, Secretario Geral do Partido Socialista dos Traballadores de Israel (MOPS) e chefe do Departamento judeu no Secretariado Nacional do Partido Comunista Polaco (PCP). Delegado do comité Central do PCP para Espanha, foi o comissário político-partidário das Brigadas Internacionais na súa sede de Albacete. 

Além disso, a maioria dos Corpos Médicos das Brigadas eram judeus. Muitos jornalistas do jornal iídiche parisiense "Naye Presse" foram à frente espanhola a combater o fascismo. De facto, a última baixa das Brigadas Internacionais foi dum dos "diabos vermelhos", Haskel Honigstein, quem recebeu um funeral de Estado por parte do Governo constitucional espanhol. 

Por enquanto, as forças golpistas contaram com o brutal apoio dentre 80.000 e 100.000 estrangeiros árabe-muçulmanos, enquadrados fundamentalmente nas Forças Regulares de indígenas do protectorado que já tinha ajudado na cruel repressom das revoltas das Astúrias de 1934, e que durante a guerra espanhola e o posterior esmagamento da Resistência guerrilheira (os maquis) tinham reconhecido o "direito de pilhagem" com o monstruoso exercício, caracterizado por violações e feminicídios cruéis. Aquele colectivo foi recompensado com a elevaçom do seu cruel, mas muito condecorado mando marroquino Mohamed Ben Mizziam Bel Kasem como Comandante Geral de Ceuta e depois mesmo Capitám Geral da Galiza, acabada a guerra. Em 1937 Franco chegou a dizer "a nossa guerra é umha guerra religiosa. Nós, todos os que combatemos, cristãos e muçulmanos, somos soldados de Deus e nom lutamos contra homes, mas contra o ateísmo e o materialismo".

Nom por acaso, Dolores Ibárruri La Pasionaria remeteu em  1948 à Associaçom de Voluntários de Israel nas Brigadas Internacionais umha proclamaçom saudando o novo Estado de Israel e comparando os exércitos invasores árabes com o levante fascista que tinha destruído a República.

Em 2007 Eran Torbiner realizou o documentário Madrid before Hanita em que fez umha crónica do combate ao fascismo de 300 judeus comunistas, provenientes da Palestina e integrados nas Brigadas Internacionais. O filme inclui entrevistas com os últimos sobreviventes, bem como bocados das suas cartas e diários durante o conflito. Também as brigas que tiveram na hora de se alistar com os líderes sionistas e os camaradas que nom compreendiam a necessidade de intervir num conflito tam alheio.

Artigo de elaboraçom própria a partir das informações fornecidas na Wikipédia (artigo "Jewish volunteers in the Spanish Civil War") e textos de José Luis Prieto.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A ESQUERDA E O CONFLITO ISRAELO-ÁRABE


Albert Memmi

Contra Israel existem acusações de direita e de esquerda. Eu vou deixar de lado as acusações das pessoas de direita... som em geral tanto oposições nacionalistas quanto  místicas. Às primeiras nada tenho a responder: trata-se, com efeito, dumha luta de interesses. Às segundas nom sei o que responder, já que nom falamos na mesma linguagem, nom vivemos no mesmo mundo e nom temos o risco de nos encontrar. Na verdade, apenas me importo com as críticas das pessoas de esquerda: som os meus, compartilhamos ética e desejo construir com elas um mundo comum; é entre eles onde se acha o maior número de intelectuais judeus; e é bom. Os intelectuais devem impedir que a consciência do grupo adormeça e a juventude é o fermento das sociedades.

Muitas pessoas de esquerda fazem umha interpretaçom do conflito israelo-árabe como um antagonismo entre o socialismo (representado polos árabes) e o imperialismo (representado polos judeus).

Há pouco dous delegados dum partido socialista francês, o PSU, assinaram, no congresso de Kuwait, umha aberrante declaraçom reclamando mais umha vez a destruiçom pura e simples do Estado de Israel. Acreditarám eles próprios nisso? Podemos pensá-lo apesar da leveza e gravidade desta posiçom. Mas, entom, a que realidade se referem, a que equilíbrio de forças? E se se tratar dumha táctica, como  me sugeriu um deles, Serge Mallet, para o chamar polo seu nome, quantos sem sentidos e crimes se realizaram em nome da táctica!!

Ou ainda, mais umha vez, a explicaçom é tam trivial e contrária a um simples exame dos factos que um se pergunta por que umha tam grande parte da opiniom de esquerda assume padrões claramente tam inadequados. O inventário de forças socialistas árabes é eloquente: Hussein de Jordânia, apoiado também polos americanos? O rei Fayçal da Arábia? O coronel Boumediene, ditador militar que derrubou Ben Bella, no mínimo mais socialista do que ele? O rei do Marrocos? Bourguiba? Mesmo o Egito e a Síria som mais socialistas do que Israel?

É certo que aqui acha-se a pirueta famosa: objetivamente os árabes, mesmo feudais, som socialistas porque eles vam no senso da história. Quantas vezes mudou o vento da história nos últimos tempos! A Jugoslávia, contra a qual soprou tam forte, encontrou-se na boa posiçom; a Checoslováquia pareceu hesitar perigosamente; a Hungria, preste esteve de ser esmagada para fazê-la calar; a China, esperança da revoluçom mundial, nom é hoje o entrave principal, diz-se, para a unifircaçom do mundo comunista? E amanhã o Vietname? E Cuba? A verdade mais mundana nom é o sentido próprio da história, e o do vento nom seria o indicado polas pancartas russas, seja qual for a realidade da história e da meteorologia? O mundo árabe foi batizado socialista simplesmente porque a URSS assim o quis, a mesma razom pola que Israel é chamada de imperialista. E a questom suplementária que nos colocamos entom foi a mesma que nós colocamos acima: porque os russos apoiam os Árabes e condenam Israel? A verdadeira razom, está nesse padrom simplista e manifestamente falso do socialismo árabe contra imperialismo israelita, ou nos interesses atuais russos de tomar posições no Mediterrâneo? Porque, alguém pode afirmar seriamente que a URSS nom procura os seus interesses nacionais? A URSS apoiou Israel quando achava poder contar com o Estado hebraico para a sua penetraçom no Próximo Oriente; agora apoia os países árabes porque acha que esta táctica é hoje melhor. Eu nom estou desesperado polas minhas posições socialistas; acho simplesmente ter em conta os egoísmos espontâneos dos povos, os quais nom irám desaparecer tam cedo.

O que pode desejar um socialista judeu ou nom judeu de Israel?

Relativamente a Israel

No interior do país, três cousas, acho eu: a justiça social, umha paz justa com os vizinhos, o reconhecimento dos direitos dos palestinianos como umha das minorias nacionais na procura dumha integraçom mais completa. Mas é preciso que este socialista considere as condições concretas dum programa desse tipo: nom existe dúvida de que o esforço de guerra prolongado, a tensom entre Israel e os seus vizinhos, a perturbaçom que esta suscita na vida das minorias árabes, a desconfiança contra todos os habitantes dos campos tornam caótica e desaceleram consideravelmente a construçom do socialismo. Negligenciar estas dificuldades é cair nesse virtuoso verbalismo que nom deixa de causar destruiçom. Eis por que dizemos: é preciso começar por fazer a paz; o resto talvez virá depois, mas se nom houver paz, o resto é ilusório. Eis por que dizemos: um socialista deve combater pola paz; caso contrário, o socialismo nom encontrará a sua conta.

Os minoritários som, dumha certa maneira, dominados, sim, dominados, nunca tive o medo de o dizer. Como que nom? Eu notei-o na minha primeira viagem a Israel, há muito tempo. Mas nom é umha conjuntura especificamente israelita; ao contrário, infelizmente é o fado de todas as minorias. Nós, os judeus, sabemos algo disso. No Egito existe umha minoria cristã copta: os recentes incidentes, com incêndios de igrejas, revelam aos que nom o sabiam que existe um problema copto. Sem esquecer a terrivel maneira e com a que a Nigéria resolveu o problema da Biafra. Nós somos socialistas, isto é, queremos lutar pola plena igualdade da minoria árabe no seio da naçom israelita. Mas nom podemos dissimular que esta empresa vai ser longa, na medida em que a naçom israelita, como naçom ainda nova receia das suas minorias e, talvez merecidamente, precisa afirmar a sua identidade, etc, bem como a Argélia ou a Líbia, que saquearam simplesmente todas as minorias. A maneira em que agiu Israel nom me parece a pior, comparada à da maior parte das nações jovens. Nom devemos considerar-nos satisfeitos, devemos zelar sem cessar ao que a moral política, isto é, em definitiva, o socialismo. Mas seria absurdo exigir a Israel mais do que a qualquer outra naçom nova.

Relativamente aos refugiados

Por outro lado, no exterior, para os habitantes dos campos: nós devemos lutar naturalmente polo reconhecimento dos seus direitos nacionais. Mas é preciso reconhecer e ter em conta que é difícil lutar polos direitos nacionais de pessoas que negam os vossos. Existe umha ocupaçom israelita? Claro que sim! Mas a Rússia também ocupou territórios como resultado da guerra e mesmo sem guerra! Nom se pode demandar aos israelitas que sejam totalmente invisíveis e que tudo o suportem. Nengum exército no mundonom pode nem deve consentir isso. Nós simplesmente desejamos e lutamos para que cesse um dia esta ocupaçom, como todas as ocupações, ou seja, que devemos lutar para que cessedm as condições globais desta ocupaçom: caso contrário é falar para nada dizer.

Conclusões


Relativamete aos outros países árabes os palestinos nom contêm no seu seio elementos sociais mais avançados. Do ponto nacionalitário eles também nom som mais instáveis, o que os tornaria mais susceptíveis de contribuir para a transformaçom do mundo árabe (embora, já agora, discreta mas com firmeza, os diferentes governos árabes se defendam deles). Porém, nom existe qualquer dúvida de que o seu maior desejo é antes de mais realizar-se nacionalmente; e apenas depois disto é que eles contribuirám para a construçom eventual do socialismo. O sionismo é também um movimento de reconstruçom social e cultural dum povo; talvez mais socialista do que a grande maioria dos regimes árabes. O que estes mesmos homens de esquerda negam ou minimizam com a mesma fixidez nos seus padrões esclerosados; como nom vem que se o sionismo fosse destruído, seria um golpe ao socialismo nom apenas nesta regiom, mas no mundo?

Mais umha vez o que nos parece ser a única interpretaçom correta dos acontecimentos atuais:
  1. Os movimentos de libertaçom nacional som, como tais, progressistas, já que tendem a suprimir umha opressom.   
  2. Os povos árabes iniciaram, para completar, as suas libertações nacionais. E isto, como tal, parece-nos legítimo. Do mesmo jeito que encontramos legítimas as descolonizações como movimentos nacionais. Nom é preciso as baptizar como socialistas para reconhecer os seus méritos. Basta com que devolvam aos povos a sua livre disposiçom.
  3. O sionismo é igualmente o movimento de libertaçom nacional dos judeus. E nós achamo-lo também legítimo. Por isto, longe de suspeitar dele ou de o condenar por imperialista, achamos que deve ser defendido como tal por todos os progressistas do mundo. Porque, nom é o sionismo mas que o esforço mais coerente jamais realizado para responder à opressom sofrida polos Judeus no mundo?


Este texto, redigido na língua dumha minoria, é o resultado da fusom de quatro textos do autor: "Por umha soluçom socialista do conflito israelo-árabe" (Élements, Paris, dezembro 1968), "Por um franco reconhecimento do facto nacional" (Élements, Paris, março 1971), "Verbalismo e socialismo" (nº 40-41 dos Cadernos Bernard Lazare, maio 1973) e "A terra reencontrada " (recolha de fotografias, janeiro de 1974).

quinta-feira, 7 de março de 2013

PORQUE DEVEMOS LEMBRAR O HOLOCAUSTO?


Por Jon Iñarritu

No dia 27 de janeiro comemora-se o 67º aniversário da libertaçom de Auschwitz-Birkenau; jornada estabelecida como Dia Internacional da memória das vítimas do holocausto. Relembraremos a maior das barbáries cometidas na história; o extermínio programado em modo industrial de milhões de pessoas: judeus, ciganos, homossexuais, deficientes,... O caso dos judeus merece, se calhar, especial atençom porque, como assinala o nóbel Eliese Wiesel, "nom todas as vítimas eram judias, mas todos os judeus eram vítimas". Seis milhões de pessoas apagadas sob o plano Endlösung der Judenfrage (Soluçom final ao problema judaico). A pior das atrocidades sucedeu mal há umhas décadas, aqui na Europa, no berço do humanismo.
Jon Inarritu
Cada ano, ao chegar esta data ou as comemorações do Porraimos (genocídio cigano), o Iom Ha Shoah (dia do genocídio arménio), surgem vozes advogando por reduzir a celebraçom destes atos ou que defendem que houve um excesso de dedicaçom à questom. Amiudadamente expõe-se que já sabemos todo o acontecido, que é história afastada, e exprime-se, malvadamente, que "a Shoah tem um uso propagandístico". Mesmo alguns representantes institucionais negaram-se a celebrar estes atos. Mas o mais terrível é quando se ouve, no século XXI, que se exagerou o holocausto ou que nom existiu. A negaçom, a revisom e a banalizaçom seguem de atualidade, defendidas desde postulados ideológicos diversos.

Ao contrário, o sobrevivente do holocausto, o catalám de origem húngara Jaime Vandor, acha que "nom se falou avondo do acontecimento mais terrível da história". Conhecemos o acontecido, vimos as imagens, os documentos, as câmaras de gás, visitado os campos, ouvido e lido desde os carrascos a muitas vítimas, como Primo Levi, Simone Veil, Elie Wiesel,... mas milhões de testemunhos de sobreviventes ou descendentes de vítimas desapareceram transformados em fumo ou cinza. Estamos perante a última geraçom que pode relatar as suas terríveis experiências. Quantos relatos de vítimas ficam por conhecer? Em setembro de 2011, estando em Jerusalém, acompanhei umha velha amizade ao Yad Vashem. Na seçom de documentaçom descobrimos a certidom da desapariçom dumha irmã do seu avó. Ao contrário, nom havia certidom nem qualquer rasto do resto dessa numerosa família, gaseada e incinerada, aqui na Europa. Esse dia fui testemunha de como, sete décadas depois, famílias vindas de todos os continentes preenchiam certidões, achegavam fotos, documentos e testemunhos enquanto outras procuravam informações sobre os seus familiares.

Aqui, em Euskal Herria, centos de pessoas foram apresadas e deportadas, umhas ao tentar fugir através do Estado espanhol; outras, nas suas casas. Duas regressaram vivas. Quem o teria pensado na Repúblia da liberté, égalité et fraternité? Ainda estamos a tempo de ouvir a Jackeline Pinede contar como sobreviveu à matança de Oradour-sur-Glane, onde desapareceu a sua família; a senhora Mesplé-Lassallé pode-nos narrar a sua experiência nos campos de concentraçom, podemos ouvir a George Dalmeyda a sua fugida e estância oculta nos Alpes; ou a história da senhora Lates, que sobreviveu escondida no Bearn. Todos sobreviventes da maior barbaridade. Tantas histórias por saber!

Devemos lembrar o acontecido porque devemos-lho aos assassinados, aos sobreviventes, aos seus familiares, aos "Justos entre as Nações" conhecidos e desconhecidos. De igual forma, num período no que vemos o apogeu da extrema direita na Europa; em concreto na República francesa, onde observamos com inquietaçom que um partido para o qual os campos de concentraçom "foram detalhes da história ou balneários", conta com um apoio altíssimo; num Estado espanhol, em que o TC decidiu que a negaçom da Shoah nom é delito. Perante uns índices preocupantes de racismo, anticiganismo, islamofóbia e judeufóbia na UE, devemos lembrar! Para que nom volte a acontecer e para que a discriminaçom e o ódio nom tenham lugar na Europa nem no mundo. Nunca mais!

Jon Iñarritu é um político independentista basco militante do partido Aralar. Desde 2011 é deputado no Parlamento espanhol eleito pola candidatura Amaiur.

Artigo publicado no jornal DEIA e traduzido por CAEIRO.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

LÉON BLUM, O SIONISMO E ISRAEL



Léon Blum (1872-1950) foi o primeiro judeu a dirigir umha potência ocidental e o primeiro socialista na França a ocupar o cargo de primeiro-ministro. Dirigente da Secçom Francesa da Internacional Operária (SFIO, Partido Socialista), foi presidente do Conselho de Ministros francês por 3 vezes: em 1936-1937, em 1938 e em 1946. As reformas levadas a cabo no seu segundo primeiro governo marcaram socialmente a Europa, nomeadamente a atribuiçom do direito a férias pagas, as primeiras mulheres a exercerem funções governamentais, fixaçom da jornada de trabalho, etc.


Constantemente absorvido pola política interior francesa, Léon Blum foi, ao longo da sua vida política, um simpatizante ativo do sionismo, nom vendo nisso "qualquer choque possível na sua tripla qualidade de Socialista, de Francês e de Judeu". 

Em 1919 el intervém para influenciar a posiçom diplomática francesa sobre o "Lar Nacional Judeu" autorizado na Palestina polas autoridades inglesas.

Desde a década de 1920 ele estava ligado ao líder sionista Haïm Weizmann que se iría tornar no primeiro Presidente do Estado de Israel em 1948. Ao pedido de Weizmann, ele amiúde interviu para favorecer a imigraçom judia para esta terra que se chamava entom Palestina durante o mandato britânico. 

Em 1925 ele aderiu ao Comité França-Palestina, sucessor da Liga dos Amigos do Sionismo criada oito anos antes, juntamente com figuras políticas como Raymond Poincaré, Aristide Briand. 

Em 1928 em cooperaçom com grandes dirigentes inspirados como Arthur Rubinstein e Eduard Bernstein, ele cria o "Comité Socialista para a Palestina".

Em 1929, durante o XVI Congresso Sionista em Zurique, comemorando o 25º aniversário da morte de T. Herzl, fundador do movimento sionista, Léon Blum entra no Comité alargado da Agência Judaica como represenante da Esquerda nom sionista e toma a palavra para fazer um discurso muito aclamado no que exalta o espírito do povo judeu.

Em 1937 aceita que o seu nome seja dado a um kibbutz da Galileia: Kfar Blum (a vila de Blum) em homenagem ao contributo à causa sionista do Presidente do Conselho da Frente Popular.

Em novembro de 1938, ao pedido das organizações sionistas, ele pronuncia perante a LICA umha acusaçom contra a doutrina hitleriana.

Depois da Segunda Guerra mundial, ele é, nas suas funções políticas e governamentais, um artífice ativo do reconhecimento de Israel no plano internacional.

Durante umha viagem oficial que ele fez aos EUA em 1946, Léon Blum pronuncia um discurso de grande importância perante a comunidade judia de Nova Iorque.

"... Para mim, eu sou velho, e nom irei tocar a terra prometida. Eu nom verei a uniom perfeita dos povos na justiça e na paz. Eu nom vou ver, segundo a imagem do poeta, as nações sentadas à volta do seu lar comum, "como irmãs ao redor do coraçom", mas o que faz a nobreza do home é prever, é esperar, é antecipar, é travalhar para umha obra que ele nom vai contemplar acabada e da que ele nom tirará proveito...".

Em 1947 intervém perante os dirigentes trabalhistas ingleses para obter na Palestina umha decisom favorável aos sionistas. Em 24 de novembro de 1947 escreve-lhe umha carta a Georges Bidault, ministro dos Negócios Estrangeiros francês, para demandar um voto favorável da França para a criaçom do Estado judeu.

Ele participa também na construçom da estreita aliança diplomática, económica, militar e tecnológica que liga a França da IV República com o Estado hebraico.


No fim da sua vida ele confiou aos seus próximos que três homens o impressionaram particularmente: Jean Jaures, Lucien Herr e Haïm Weizmann. Numha homenagem a este estadista israelita Léon Blum disse:

"Judeu francês, nascido na França duma longa série de antepassados franceses, que apenas fala a língua do meu país, alimentado principalmente da sua cultura, tendo recusado a deixá-la no momento em que eu corria o maior dos perigos, porém, eu participo no esforço admirável milagrosamente transportado do plano do sonho para o plano da realidade histórica, que assegura umha pátria digna, igualmente livre para todos os judeus que nom tiveram como eu a boa sorte de a encontrar no seu país de origem. Eu segui esse esforço desde que o Presidente Weizmann mo fez entender. Eu sempre me senti orgulhoso disso e sou mais do que nunca solidário com isso".

Retrato de Léon Blum num selo dedicado a ele polo Serviço Filatélico de Israel



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

1967. JEAN-PAUL SARTRE E ISRAEL



Durante a Guerra dos Seis Dias o filósofo e escritor Jean-Paul Sartre opôs-se à política de suporte aos Árabes pregoada polos partidos comunistas de todo o mundo (salvo o regime da Roménia), mostrando que existe umha outra óptica democrática e de esquerdas de encarar o conflito israelo-árabe.

Entre os intelectuais progressistas, Nasser era visto sem dúvida nengumha como um dos líderes do movimento dos nom alinhados. Como tal, ele recebe o suporte da intelligentsia. Maxime Rodinson, no célebre artigo publicado nos "Tempos Modernos" tenta demonstrar que Israel é de facto um "facto colonial" que "se insire perfeitamente no grande movimento de expansom euro-americano dos séculos XIX e XX para povoar ou dominar economicamente e politicamente os outros povos"


Mas os apelos nom apenas antissionistas, mas também antissemitas, que se ouvem nas capitais árabes dissuadem alguns intelectuais de esquerda de dar o seu total suporte ao combate "anti-imperialista". Jean-Paul Sartre, Claude Roy e Pablo Picasso assinam a 31 de maio de 1967 um apelo, juntamente com outros cem intelectuais franceses, que estipula em substância:
  1. A segurança e a soberania de Israel, incluindo a livre circulaçom nas águas internacionais som umha condiçom necessária para o estabelecimento da paz.
  2. Esta paz apenas pode ser alcançada e reforçada através de negociações diretas entre Estados soberanos no interesse mútuo dos povos implicados.

Na sua declaraçom, Sartre opôs-se à tentativa da destruiçom do Estado de Israel polos exércitos árabes e faz um chamado a fortalecer os sectores anti-imperialistas de ambas as partes como a única forma de chegar a umha paz justa e ao socialismo.

Umha segunda declaraçom sobre o mesmo assunto foi publicada nesse dia, também assinada mormente por intelectuais de esquerdas, chamado de "O Grupo dos Vinte e Nove", dirigido por Emmanuel d'Astier de La Vigerie, um amigo da filha de Estaline, Svetlana.

No número especial de um milhar de páginas que consagra a revista "Les Temps Modernes" ao conflito israelo-árabe, a introduçom de Jean-Paul Sartre testemunha as desavenças e o mal-estar da esquerda. Escrita antes da Guerra dos Seis Dias, mas publicado justamente depois, mostra umha esquerda tomada sobre o duplo fogo do seu combate contra o imperialismo e da lembrança do genocídio judeu da Segunda Guerra mundial. Mesmo o título da sua introduçom "Pour la verité", testemunha a atitude perplexa e prudente do filósofo. No tocante a qualificar Israel de imperialista, Sartre recua subitamente, como se as certidões ideológicas nom fossem claramente definíveis ou aplicáveis a este conflito, como se o peso da Historia e a força das paixões pudessem fazer descarrilar a aguilhoada da razom. Portanto Sartre nom toma partido. Figura emblemática do intelectual engajado, ele hesita nesta ocasiom para deixar a voz aos protagonistas, esperando tirar do seu confronto os elementos da verdade.

Em 27 de maio de 1967, menos de dez dias antes do desencadeamento das hostilidades, Jean-Paul Sartre escreve: 

"A história nom se limita a nos fazer descobrir, nuns tempos misturados de sudor e de sangue, as nossas ligações fundamentais com os Israelitas, ela fez-nos tomar consciência alguns anos mais tarde quando a FLN combatia pola independência da Argélia (...) E, francamente, se o racismo feder no nariz, os aromas do imperialismo nom nos lisonjean mais: e eu nom digo aqui que Israel seja imperialista ou "a criatura do imperialismo", mais exatamente eu nom digo nada, exceto que os árabes acusam-no disso e que, nalguns casos, como a agressom de 1956, os factos parecem dar-lhes a razom. Assim, estamos perante exigências rigorosas e contraditorias -as nossas exigências: "O imperialismo é um todo que há que combater em todo lugar e sob todas as formas no Vietname, na Venezuela, em Santo Domingo, na Grécia e também em todos os seus esforços por se estabelecer ou ficar no Próximo Oriente"

"A ideia que os Árabes destruam o Estado judeu e que lancem os seus cidadãos para o mar nom se pode suportar nem um instante, salvo que eu seja racista"

"Aflitos, nom ousamos fazer nada e dizer qualquer cousa ou, se tentarmos qualquer aproximaçom, é com tais pensamentos do passado que os deixamos muito cedo..."

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

HOSANNA ISRAEL !!


(Salmo de Alegría)

He aquí por fin - hosanna! - la tierra prometida,  
 la cuna de la sangre, ganada con la vida...

La misteriosa lámpara que alienta en las visiones,  
 peregrina del sueño de las generaciones.

La estrella que una noche cerró en cada ventana  
 y hoy la retorna abierta la luz de la mañana.

Israel de los llantos, Israel de las penas.  
 Paraíso encontrado, libre y ya sin cadenas.

Jardín para los tristes, sol de los desterrados,  
 madre de los perdidos corazones hallados.

Frente para la angustia delgada de fatiga,  
 pecho para la lágrima que subirá en espiga.

Mano para la dura mano de las labores,  
 pies para los doblados ojos sin resplandores.

Lengua para los labios consumidos sin fuente,  
 viento del alma, río de palabra ferviente.

Valle de la victoria, monte del triunfo, altura  
 conquistada en la noche de tanta desventura.

Pradera del reposo, panal del corazón,  
pañuelo de los largos lamentos de Sión.

Joven escudo al brazo de los verdes varones.  
Israel, primavera de las nuevas naciones.

Arco iris después de la tormenta,  
arca de paz, la quilla todavía sangrienta...

Oye, Israel, escucha: Hoy por ti desempaña  
sus ojos un poeta desterrado de España.

Destierra de su voz los crespones, destierra  
de sus amargos pozos el grito de la guerra.

De su profunda noche saca a la luz del día  
y de sus duras arpas un salmo de alegría.

Alabado Israel con la garganta entera:  
a son de alma, a sones de lengua verdadera.

Alabado Israel con todo encendimiento:  
a son de cuerda, a sones de las bocas del viento...

En su noche cerrada, abierta en melodía.  
Alegría! Alegría! Alegría! Alegría!

O poeta e comunista espanhol, Rafael Alberti, escreveu este Salmo em 1948, inspirado na criaçom do Estado Judeu. Nessa altura toda a esquerda (a comunista também) era solidária com o movimento de libertaçom nacional judeu.

O poema foi publicado na Revista Literária "Davar", Buenos Aires, em dezembro de 1948.

A parte aqui reproduzida corresponde às estrofes: 1-13, 24-28 e 37.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

ALBERT MEMMI, O SIONISMO E ISRAEL



Albert Memmi


P: Tal como tens demonstrado, o sionismo nom é um fenómeno colonial, mas pura e simplesmente um movimento de libertaçom nacional. E ainda, como é que explica que a crítica a israel tam visível na Europa pareça cada vez mais encontrar alimento numha espécie de ideologia anti-imperialista, como está hoje encarnada num movimento que alguns, entre os quais P. H. Taguief e A. Finkielkraut, consderam de neo-esquerdismo?

Albert Memmi: Porque a esquerda europeia permanece impregnada com o maniqueismo soviético e estalinista. Os árabes, porque foram dominados polo Ocidente e ainda nom estám fora do seu alcance, parecem ser as vítimas. A mesma cousa acontece com Israel. Deparamos com os sistemas feudais árabes (que por algum milagre considerados como progressistas) e o dinheiro do petróleo irá pesar cada vez mais fortemente na política da Europa.

P: A soluçom que a esquerda intelectual israelita durante tanto tempo defendeu -refiro-me à partilha da terra em "dou estados para dous pvos" com Jerusalém como capital tanto do estado Palestiniano no leste e para o Estado hebraico no oeste- ainda acha que é operativa depois da falência dos acordos de Oslo concebidos com essa base?

Albert Memmi: Enquanto os povos nom se tornarem mais razoáveis, eu sou em favor da partilha da Palestina em dous estados e dous povos. Mas eu nom tenho a certeza de que o sonho sionista tenha realmente desaparecido, nem se os árabes se resignam com a existência no seu seio dumha entidade nacional judaica ou israelita.

Entrevista com Albert Memmi por Dov Maimon em destinada ao suplemento cultural do semanário israelita (Centro) Makor Rishon, 20-21 de abril de 2007



P: Que retrato poderia fazer, hoje, do colonizado palestiniano, iraquiano ou afegão?

Albert Memmi: Tratando-se dos casos que enuncia, vou falar só do palestiniano e do iraquiano, porque desconheço o caso do afegão. Para o palestiniano, ele está realmente dominado polo israelita e é preciso que isso acabe. É o meu profundo sentimento de humanista. Mas é certo também que o mundo árabe sobrevalora a questom palestiniana. E na minha humilde opiniom, se o Estado de Israel desaparecesse, os problemas do mundo árabe continuariam a existir. É preciso, em consequência, parar de tomar a Palestina como álibi. Hoje a realidade é a seguinte, estamos perante um conflito entre dous nacionalismos. É preciso portanto chegar a um acordo e, acima de todo, que o mundo árabe se invista menos. Relativamente ao Iraque pensava-se que eliminando Saddam afastar-se-ia o perigo deste país e do Ocidente. Mas foi o efeito inverso, é hoje som o caos e a anarquia que imperam. Era precisa a guerra para isso? Acho que nom. Sobre este terreno as Nações Unidas desengajaram-se, mas é certo que som os lucros do petróleo que regem tudo nessa regiom. E o mundo ocidental aflige-se perante a perspectiva de nom ter petróleo, o que conduz ao que sabemos.

P: Amiudadamente diz-se no ocidente que os mussulmanos nom estám prontos ao debate contraditório, à crítica e à autocrítica, mas com os judeus -e sobretodo os israelitas-, nom acontece o mesmo? Noutras palavras, pode-se, hoje, no Ocidente, criticar o Estado de Israel?

Albert Memmi: Devemos criticar o governo israelita e nom a existência do Estado de Israel. Eu tomei muitas vezes posturas contra os governos israelitas, nós, "os intelectuais judeus", nom vamos comprometer a nossa crítica sobre certos governos israelitas. Mas o problema real do mundo árabe é que ele faz mal ao absorver as suas minorias. Entom, é preciso ser cuidadoso com a totalizaçom, como "os judeus som usurários" ou que "os negros cheiram mal" ou "que os  mussulmanos som terroristas" ou "que as mulheres som sorrateiras"... Estas observações som os resultados dum erro de lógica, som acusações implícitas que geram a heterofobia.

P: Numha intervençom durante um recente colóquio em Paris sobre a paz no Próximo Oriente você disse que um dos problemas do mundo árabe atual é a sua incapacidade de "reter" as suas minorias. É que a Europa, os EUA e Israel, nom têm também eles o mesmo problema com as suas minorias árabe, turca, africana,...?

Albert Memmi: Todas as maiorias têm tendência a desconfiar das minorias e às "fechar" mas para o resto, é apenas umha questom de grau.

P: Que significa, para Israel e os Árabes, "renunciar a certos mitos"? Quais som esses mitos que acha anacrónicos nos dous lados?

Albert Memmi: Para Israel som chegados os tempos de abandonar a ideia dum Grande Israel demográfico e territorial e é preciso deixar de acreditar, igualmente, que é a única soluçom para o mundo judeu. Para os árabes, é preciso que aceitem as suas minorias tanto como eles precisam delas. O Ocidente precisa do mundo árabe e vice-versa.

Entrevista acordada expresivamente para a "Expression Tunisie" (2008). Tirada de Palestine Solidarité 


"O Estado de Israel nom é umha entidade colonial cuja destruiçom seria legítima, tal como tentam de fazer acreditar os Estados árabes. Salvo a dominaçom dos Palestinianos, o que já é inaceitável, Israel nom possui nengumha das características dum regime colonial. Israel nom é um Reino cruzado, umha excrescência religiosa da Europa, destinada cedo ou tarde a ser varrido do mapa após a fadiga da cristandade. Israel, como a Palestina para os Palestinianos, é um facto nacional que responde a umha condiçom difícil de viver e a umha aspiraçom coletiva, com o seu próprio imaginário, que o liga, com razom ou sem ela, a esta Terra.

É assim que o perceberam as Nações Unidas quando decidiram a constituiçom de dous Estados sobeanos. Nom possuindo metrópole detrás dele, para superar o Estado hebraico, este deveria ser destruido. Israel, entom, defender-se-ia contra a parede e o custo da sua destruiçom seria terrivelmente caro para todos os seus parceiros. A sua eventual destruiçom mereceria tal cataclismo? Sem esquecer a vergonha indelével na história dos árabes, como o genocídio nazista na história dos alemães ou o genocídio arménio na história turca.

P: Albert Memmi sempre militou com grande entusiasmo para o estabelecimento dumha paz justa entre Israel e o mundo árabe. Nom resulta desesperançador observar o estado das relações, muito amargas, que agora prevalecem entre Israel e os Palestinianos?

Albert Memmi: É verdade que eu trabalhei duro por muitos anos para o estabelecimento dumha paz real entre Israel e o mundo árabe. Mas temo que hoje ninguém quer realmente essa paz por razões que levariam muito tempo decrever. Isso nom nos impede de continuar a procurar essa paz. Eu preciso que no meu livro "Judeus e Árabes", publicado em 1974 polas Edições Gallimard, eu mostrei que era necessário agir nom apenas sobre a relaçom entre Israel e os Palestinianos, mas também em todo o mundo árabe-muçulmano e a sua xenofobia. Desta forma, eu perguntei aos sionistas, que eu era e sigo a ser, para fazer um exame de consciência".

Entrevista com Albert Memmi de Elias Levy, "The Canadian Jewish News", 13/5/2012