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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

JUDEUS PORTUGUESES NAS GUIANAS

A regiom denominada das Guianas, "terra de muitas águas" em língua aruaque, estende-se da foz do rio Amazonas à do rio Orinoco. Também conhecida como Costa Selvagem, esta regiom da América do Sul está formada pola atual Guiana (ex-colónia inglesa), por Suriname (ex-Guiana Holandesa) e pola Guiana Francesa, sendo que apenas esta última permanece como umha colónia. As demais ficaram independentes ao longo do século XX. 


A regiom faz parte do continente sul-americano, todavia, as barreiras geográficas, políticas e culturais entre essas colónias e o restante do continente fizeram com que essa regiom se integrasse mais à geopolítica do Caribe. 

Durante os inícios da colonizaçom desta área no século XVII, altura em que se produz a chegada dos Judeus portugueses, as potências europeias (Holanda, Inglaterra e França) disputavam o controlo destes territórios que em consequência mudaram várias vezes de mãos.


Judeus portugueses em Suriname

A primeira chegada de populaçom judaica ao territorio da antiga Guiana Holandesa (hoje Suriname) tem lugar na década de 1620 com Judeus portugueses oriundos da Holanda ou Pernambuco. Este grupo funda em 1629 a cidade de Thorarica/Torarica (de Torá Rica), que se tornaria na capital do território até 1667. Na beira ocidental do rio Suriname esta comunidade fundou várias plantações de açúcar.

Um segundo grupo de Judeus chegou da Inglaterra em 1652 sob os auspícios de Francis Lord Willoughby of Parham, entom governador geral das Índias Ocidentais, que conseguiu ocupar a área e estabelecer alguns colonatos permanentes. Segundo algumhas fontes Willoughby promoveu a chegada de Judeus para reforçar a economia das plantações de cana de açúcar e de tabaco.

Em 1659/60 as autoridades britânicas aceitam criaçom dumha vila judia autónoma em Cassipora abrangendo 5 hectares perto do rio Suriname. A ideia de criar este colonato é promovida por Paulo Jacomo Pinto, representante dos Judeus de Livorno em Amsterdão, com o objeto de albergar os Judeus sefarditas expulsos de Oran polos espanhóis. Embora se desconheça o local desta comunidade, o achado do seu cemitério (o mais antigo cemitério judaico da colónia) permite a sua localizaçom. A lápide mais antiga data de 1666 e conta com várias centenas de túmulos.

Em 1664 chega ao território um terceiro grupo de 200 Judeus portugueses após a sua expulsom de Pernambuco e de Caiena (Guiana Francesa), neste caso liderado por José Nunes de Fonseca, também conhecido de David Cohen Nassi, um abastado judeu português da cidade de Amsterdão. 

Este grupo, juntamente com os Judeus de Torarica e de Cassipora deslocaram-se para um novo assentamento nas margens do rio Suriname, cerca de 50 km a sul de Paramaribo, ao que chamaram de Jodensavanne (A Savana dos Judeus).


Jodensavanne. Desenho de 1830
Em 1665 os Judeus recebem importantes privilégios por parte do governo colonial inglês, desconhecidos nessa altura, tais como a liberdade de judaizarem publicamente e a permissom para construir umha sinagoga, a liberdade de propriedade da terra e de exercer o comércio, o direito a ter os seus próprios órgãos judiciários, um sistema educativo e o direito a contar com umha milícia própria.


Vestígios da sinagoga de Jodensavanne
Com o Tratado de Breda que pôs fim à segunda guerra anglo-holandesa em 1667, Essequibo-Pauroma e o Suriname som entregues à Holanda enquanto a cidade de Nova Amsterdão à Inglaterra. Os holandeses renovam o estatuto acordado aos colonos judeus polos ingleses. Esta política visa nom apenas reter a populaçom judaica, mas também a atrair outros Judeus. Os holandeses parecem estar satisfeitos dos serviços da populaçom judaica, tal como testemunha o governador Cornelis Van Aerssen quem refere: "Devo exprimir a imensa satisfaçom que tiro e continuo a tirar cada dia da diligência, do zelo, da solicitude e da honestidade dos membros da naçom judia [...], e desejaria poder dizer a quarta pare dos nossos cristãos".

Judensavane torna-se desde entom no centro da comunidade judaica da Costa Selvagem. Esta comunidade é por muitos aspetos totalmente inédita e excecional na história do povo judeu. A Savana dos Judeus constitui a mais importante povoaçom agrícola judaica do seu tempo e os seus habitantes usufruiram privilégios desconhecidos no resto de ocidente. Além disso, a comunidade sefardita contou com um governo autónomo (Mahamad).


Sob a infuência de Samuel Nassi, filho de David Cohen Nassi, Judensavane ganha autonomia, obtém umha representaçom no seio das instâncias da colónia e dota-se de navios que permitem desenvolver um comércio fluvial no rio Suriname, a principal artéria de comunicaçom da colónia.

Jodensavane tornou-se no pilar da Guiana holandesa. A populaçom da comunidade judaica passou de 232 pessoas em 1684 para 570 em 1694, que possuiam por volta de 40 plantações e 9.000 escravos. A comunidade continuou a florescer e nos inícios do século XVIII os Judeus possuiam 115 das 400 plantações da colónia. 

Em 1685 foi construída umha sinagoga (Beracha Ve Shalom). Mostra da riqueza alcançada pola comunidade judaica é o cemitério de Jodensavane. O cemitério tem aproximadamente 450 túmulos, muitos dos quais construídos com mármore importado da Europa ou com tijolos. As inscrições estám em português, espanhol, holandês e hebraico.

Cemitério judaico de Jodensavanne
Em 1712 piratas e franceses invadem a Guiana Holandesa, demandando pagamentos muito elevados. Os Judeus tiveram de pagar a maior parte deles em açúcar, dinheiro, perdendo usinas inteiras de açúcar e muitos escravos (96% da populaçom da colónia). Judensavane nunca se recuperou complemamente destes acontecimentos. 

No final do século XVIII Jodensavane é abandonada pola sua populaçom. Os conflitos incessantes com os negros marrons e a crise financeira que afeta à bolsa de Amsterdão arruinam a economia da plantaçom na que se alicerçava a subsistência desta comunidade. Além disso, para este desfecho contribuiu grandemente a reduçom do valor da cana de açúcar pola introduçom do açúcar de beterraba na Europa ou a recusa da banca a financiar a reconstruçom das plantações que foram queimadas polos escravos libertos. Estima-se que por volta do século XVIII e XIX dous terços dos Judeus da Guiana Holanesa viviam na pobreza.

Após o abandono de Jodensavane os Judeus sefarditas deslocaram-se para Paramaribo, principal cidade da colónia. Lá fundaram em 1735 umha sinagoga (Zedek ve Shalom), um teatro, umha sociedade literária em 1785 (Decando Docenur) e outras instituições que testemunham o grande dinamismo desta comunidade da diáspora.

Porém, os Judeus continuaram a retornar a Judensavane para celebrar as suas festas até 1832, altura em que um umha revolta de escravos e o fogo deu cabo da vila, incluindo a sinagoga de 147 anos. Em poucos anos a selva tragou os restos de Judensavane.

A partir de 1998 a Fundaçom Jodensavanne (JSF) promoveu inúmeros projetos e comandou várias expedições com o intuito de proteger e fomentar a herança de Jodensavanne e Cassipora, realizando trabalhos de manutençom e impedir que seja envolvido polo mato. Em 2009 o Governo de Suriname declarou Monumento Nacional a Jodensavanne e o Cemitério de Cassipora. Em 2011 implementou-se um projeto de conservaçom financiado polos Países Baixos a fim de restaurar a sinagoga e 13 túmulos do cemitério.



Judeus portugueses na Guiana Francesa

Em 1654 os Judeus portugueses expulsos do Pernambuco ocupam a regiom de Caiena onde introduzem o cultivo e exploraçom da cana de açúcar.

Em setembro de 1659 produz-se a chegada dum segundo grupo de Judeus portugueses vindos de Pernambuco a partir do acordo travado um ano antes entre David Cohen Nassi e a Companhia das Índias Ocidentais (CIO) para a criaçom dumha vila judaica em Remire-Montjoly ou Irmire, na parte ocidental da ilha de Caiena.


Em julho de 1660 produz-se a chegada dum outro grupo de mais de 150 Judeus sefarditas de Livorno (Itália). A permissom da fixaçom deste grupo e possível a partir das negociações estabelecidas entre Paulo Jacomo Pinto com as autoridades holandesas em Amsterdão.

Nesse território os Judeus tinham liberdade religiosa e podiam aceder à propriedade da terra e, destarte, desenvolver as suas próprias plantações de cana de açúcar, atividade que conheciam a partir da sua experiência em Pernambuco.

De viagem em Caiena, em 1661 o capitão Languillet encontra entre 15 e 20 famílias judias à cabeça de plantações que cultivam a cana de açúcar e o tabaco, plantam o uruco e a erva anil, bem como entre 30-40 cristãos europeus e 120 escravos. A comunidade judaica chegou mesmo a fundar umha sinagoga.

Porém, em fevereiro de 1664 produz-se umha mudança da sua situaçom quando umha frota de cinco navios franceses aporta no território com 1.200 colonos a bordo. Os franceses apossam-se facilmente do território, já que os holandeses se rendem sem combater. Apesar de os Judeus terem recebido a garantia do livre exercício da sua religiom (facto excecional e incomum nas colónias francesas), os dous terços dos Judeus de Remire-Montjoly, isto é, por volta de 300 pessoas, partem rumo para Suriname, nessa altura em mãos dos ingleses. O resto de Judeus partiram ao longo das décadas seguintes.

Em 1667 o resto da comunidade judaica foi capturada polas forças de ocupaçom britânicas e deportada para o Suriname ou Barbados para trabalhar na produçom de cana de açúcar. Assim sendo, nas pesquisas realizadas nos cadastros do Suriname encontram-se muitas famílias hebraicas vindas da Guiana, entre os quais os Nassi.


Judeus portugueses na Guiana

Os primeiros assentamentos judaicos na Guiana tiveram lugar em 1613 durante o período de ocupaçom holandesa do território.

Em 1657, um acordo entre Paulo Jacomo Pinto (em representaçom dos Judeus portugueses de Livorno/Leghorn) e Filipe de Fuentes (em nome dos refugiados judeus do Pernambuco e das cidades holandesas de Middleburgh, Flushing e Vere), permitiu a fixaçom dumha comunidade de judeus sefarditas na colónia chamada de Nova Zeelandia ou Essequibo, na altura dependente da CIO. Aos Judeus vindos de Amsterdão e de Leghorn (Livorno) sumou-se posteriormente um outro grupo de Judeus de Hamburgo e Salé (Marrocos). 

Entre 50 e 60 famílias judias estabeleceram-se na vila de New Middleburg, à beira do rio Pauroma, especializando-se nas plantações de cana sacarina e vaunilha.

Porém, em 1660 um ataque inglês deu cabo do assentamento fazendo com que os Judeus se espalhassem polo Caribe, mormente refugiando-se em Curaçao.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

OS JUDEUS PORTUGUESES DE CURAÇÃO

A chegada dos Judeus portugueses a Curação, ilha pertencente ao conjunto das Antilhas Holandesas situada perto da costa venezuelana, tem lugar no primeiro terço do século XVII, altura em que se produz a expansom colonial da Holanda na América através da Companhia das Índias Ocidentais (CIO).
Curação nos fins do sec. XVII. Wikipedia
Em 1634 é que a CIO, comandada por Johan van Walbeeck para a conquista da ilha aos espanhóis, traz consigo, como intérprete, o judeu português Samuel Cohen (ou Coheno). Samuel Cohen nasceu em Portugal, onde viveu como cristão-novo até a sua fugida para Amsterdão. Em 1630 participou na conquista holandesa de Pernambuco. Ele permaneceu em Curação por cerca de oito anos. Morreu em Angola em 1642 ao serviço da CIO contra a retomada desse entreposto colonial polos portugueses. Embora Samuel Cohen nom chegou a fundar umha congregaçom judaica, parece que durante a sua estada na ilha animou a chegada de mais judeus portugueses de Amsterdão. 

Em 1651 produz-se a chegada dum primeiro grupo Judeus portugueses a estabelecerem oficialmente um assentamento em Curação. O grupo, formado por dez famílias sefarditas de origem portuguesa de Amsterdão, estava comandado por  João d'Yllan e recebera umha carta da CIO para estabelecer lá um colonato agrícola. 

Em 1652 chega um outro grupo de Judeus portugueses holandeses chefiados por David Cohen Nassi após receber a autorizaçom da CIO para que estes colonos cultivassem a terra, reijeitando, todavia, a liberdade religiosa plena bem como a autorizaçom para exercer o comércio. David Cohen Nassi (1612-85), era um cristão-novo português chamado José Nunes da Fonseca e Cristovão de Távora que viveu em Pernambuco antes de se tornar um experiente colonizador ao serviço dos holandeses.

Em 1659/60 Isaac da Costa, judeu português de Amsterdão e parente de Uriel da Costa que estivera no Pernambuco, liderou um outro grupo de 70 Judeus portugueses da capital holandesa. Este grupo trouxe consigo um rolo da Torá da Esnoga de Amsterdão, que é usado ainda hoje na esnoga de Curaçao. 

Na década de 1660 forma-se umha congregaçom religiosa e que ainda existe na atualidade, o que a torna na mais antiga congregaçom judaica de existência continuada e interrupta no Ocidente.

Embora os colonos originalmente tentaram trabalhar na agricultura, os seus esforços frustraram-se pola aridez do solo. Em consequência, os Judeus concentraram-se na cidade murada de Willemstad por volta de 1660 e, aproveitando as suas ligações familiares, abriram lá lojas a partir das quais estabeleceram umha rede de troca comercial entre a Europa e a América do Sul.

A comunidade sefardita portuguesa nom tardou a crescer e em 1674 fundaram umha sinagoga de madeira em Willemstad sob o nome de Snoa (esnoga) de Mikve Israel. O nome escolhido está muito ligado ao nome dado à sua primeira plantaçom "De Hoop" (A Esperança). 

Em 1685 Curaçao serve de território de refúgio após a expulsom dos judeus das colónias francesas de Martinica e da Guadalupe. Entre eles chega Benjamim da Costa de Andrade, judeu nado em Portugal em 1651 que trouxe consigo os conhecimentos do cultivo do cacau e da preparaçom de bebidas. Ele chamava de "chocolate" os derivados comercializados sob forma de pílulas médicas.

A partir de 1693 Curaçao torna-se no centro mundial do comércio do cacau. Nessa altura, num período de trégua entre a Holanda e Espanha, as autoridades coloniais de Venezuela aceitam a fixaçom de judeus de Curação no porto de Tucacas e que efetuem compras importantes de cacau aos Ameríndios do interior.

A partir do enclave de Tucacas os neerlandeses obtinham quantidades consideráveis de cacau e de tabaco, produtos que eram exportados polos Judeus para Amsterdão. Os hebreus também participavam no comércio entre Curaçao e outras partes da América importando têxteis da Holanda, tecidos de linho da Alemanha, vinho da Madeira e de Bordéus, canela e pimenta das Índias Orientais. Os Judeus sefarditas utilizaram os seus conhecimentos de português e de espanhol para comercializar, legal ou ilegalmente, com as colónias espanholas vizinhas. 

A situaçom manteve-se até 1720, altura em que as autoridades coloniais espanholas, sob pressom da igreja católica, decidem varrer os Judeus de Tucacas. Numha ofensiva apossam-se da cidade provocando um êxodo dos Judeus para Curaçao depois de eles próprios destruir as suas casas.

Em 1722 os Judeus portugueses som tolerados, permitindo-se a sua estada em Tucacas apenas nas duas feiras comerciais, participando na colheita nos vales do cacau, sendo acolhidos nas quintas polos populares. Para travar o tráfico de cacau organizado polos mercadores judeus de Curaçao através do porto de Tucacas, em 1728 Espanha cria a Companhia Real Guipuscoana, à que confere o monopólio das importações e exportações, do desenvolvimento, a exploraçom das matérias primas na colónia de Venezuela. Entre 1730-33 os judeus portugueses apoiaram a Revolta de Andresote, um antigo escravo, que conseguiu a adesom de pequenos camponeses brancos, Indígenas e Negros no vale do rio Yaracuy para organizar um contrabando com os navios holandeses. Depois de várias vitórias, a revolta é derrotada em 1733, encontrando Andresote refúgio em Curaçao. 


A comunicade judaica cresceu e em 1703 a sinagoga inicial foi substituida por um templo muito maior, no mesmo local onde a Snoa está hoje. Esta nova sinagoga rapidamente se tornou pequena para abrigar a florescente comunidade, sendo inaugurada umha nova em 1732. Em 1864, os membros da congregaçom Mikve Israel construiram o magnífico Templo Emanuel que abriga a Congregaçom Unida de Mikve Israel-Emanuel. 

Sinagoga Mikvé Israel-Emanuel de Curaçao. Wikipédia
Em 1659, com a chegada do segundo grupo de colonos judeus, consagrou-se o cemitério judaico de Beth Haim, repleto de inscrições em língua portuguesa. A lápide mais antiga data de 1668, tornando-se um dos primeiros cemitérios no Novo Mundo. Para além do português, as inscrições deste cemitério, que contém 2.500 sepulturas, estám redigidas em hebraico, espanhol, inglês, holandês, francês, bem como um em iídiche. Pola sua antiguidade, arte e património histórico trata-se dum monumento extraordinário.

Doravante, os judeus de Curaçao floresceram em atividades como o comércio, transporte, e banca, deixando a sua pegada em praticamente todas as facetas da vida na ilha. Os Judeus chegaram a desenvolver várias empresas multinacionais, proporcionando umha combinaçom de serviços comerciais, marítimos, industriais e financeiros a nível internacional. A partir dessas empresas comerciais iniciais fundaram-se três instituições bancárias comerciais. Hoje, as empresas e lojas comerciais judaicas continuam a ser precursores na economia da ilha, embora o número de entidades comerciais judaicas tenha diminuído ao longo dos anos.

Em meados do século XVIII os Judeus constituiam metade da populaçom branca da ilha. Até 1869 todas as cerimónias judaicas eram inteiramente dirigidas em português. De facto, a língua nacional falada polos indígenas, o papiamento, é um crioulo com umha forte influência portuguesa e que incorpora empréstimos do hebraico.

No início do século XIX os Judeus de Curaçao desenvolveram um papel fulcral na luta do libertador Simon Bolivar pola independência das colónias de Venezuela e Colômbia contra o Reino de Espanha. Assim sendo, em 1812, o Libertador e a familia dele receberam asilo e suporte económico das lideranças da comunidade judaica de Curaçao. O seu primeiro refúgio foi a casa dos irmãos Ricardo e Abraão Mesa. Também era amigo de Mordechai Ricardo, um comerciante judeu, em cuja biblioteca Bolívar passou dias inteiros consultando livros e documentos até escrever o Manifesto de Cartagena. Há mesmo referências a Judeus como Juan Bartolomé de Sola, Benjamim Henriques e Samuel Henriques, que se alistaram no Exército Patriota e lutaram ao lado de Bolívar.

Como agradecimento polas boas relações mantidas com os Judeus de Curaçao,  a Venezuela Livre concedeu o direito de fixaçom de Judeus nas costas do Caribe, especialmente em Coro. Essa cidade recebeu em 1821 o primeiro grupo de Judeus a entrar oficialmente na Venezuela independente. Em 1830, a comunidade judaica de Coro era composta de 19 famílias que, vindas de Curaçao, formaram a primeira comunidade judaica na América Latina libertada.

Em 1832 Joseph Curiel, um outro amigo e colaborador de Bolívar, constrói o Cemitério Judaico de Coro, que se iria tornar no cemitério judaico mais antigo da América ainda em atividade (a última lápide data do início da década de 1990), sendo declarado Monumento Nacional em 2004. Na atualidade o cemitério é aberto diariamente para visitaçom. 
Entrada do cemitério judaico de Coro. Wikipédia
Em 1852 David Abraham Senior, próspero comerciante da cidade vindo de Curaçao, funda na sua casa a primeira sinagoga da Venezuela, que funcionou até a década de 1880. Em 1986 o prédio da Sinagoga de Coro foi adquirido polo governo venezuelano, e desde 1997 funciona nele a Casa de Oraçom Hebraica dentro do Museu de Arte Alberto Henriques.

Porém, em 1855, no quadro dumha crise económica, produz-se um surto de violento antissemitismo. A cidadania, que culpabilizava os judeus pola crise, expulsou toda a populaçom hebraica (168 pessoas), que se refugiou em Curaçao. Trata-se da primeira vez em que um grupo de Judeus som expulsos dum território na América. Após um acordo, em 1858 permitiu-se o retorno dos judeus exilados, regressando um número inferior aos que partiram. Em 1902 houve umha recidiva do surto antissemita em Coro, dando cabo da comunidade judaica dessa cidade que deveu refugiar-se novamente em Curaçao. Apenas ficaram uns poucos para proteger as propiedades dos exilados.


Mais tarde, durante a Segunda Guerra mundial, desempenhou um papel marcante George MaduroComo oficial na reserva do exército holandês, Maduro lutou heroicamente na Holanda. Após à capitulaçom holandesa, ele aderiu à resistência, ajudando os pilotos aliados derrubados para escapar via Espanha. Ele foi finalmente preso pelos alemães e morreu em fevereiro de 1945 no campo de concentraçom de Dachau. Em Haia o parque de Madurodam foi construído na sua memória.

Porém, a influência dos Judeus sefarditas de Curação em Venezuela perdura até hoje. Nas últimas eleições presidenciais venezuelanas enfrentaram-se dous candidatos com apelidos de origem hebraica ligada a Curaçao: Nicolás Maduro Moros e Henrique Capriles Radonski. Enquanto a chegada a Venezuela do apelido Maduro se produziu em 1824 com Judeus vindos de Curação, a chegada do apelido Capriles remonta-se a meados de 1800.

Na atualidade a comunidade judaica de Curação mal alcança as 350 pessoas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

OS JUDEUS PORTUGUESES EM NOVA IORQUE

Com a rendiçom e expulsom dos Holandeses na colónia de Pernambuco, temendo serem perseguidos pola inquisiçom, os Judeus que lá estavam decidiram retornar também para a Holanda nos 16 navios disponibilizados em abril de 1654 polo comandante das tropas luso-brasileiras, Francisco Barreto de Menezes.

Os navios deixam Pernambuco, levando os Neerlandeses e os Judeus portugueses. Quinze conseguem chegar ao seu destino, porém, um, chamado Valk, extravia-se, seguindo um périplo curioso.

O Valk enfrenta umha tempestade, tendo que desviar o seu curso entre as ilhas do Caribe, próximo da Jamaica, entom colónia espanhola. Antes de lá aportar foi atacado por piratas que tomaram os seus pertences, mantiveram-nos prisioneiros e negociaram com os espanhóis a sua troca por ouro e prata. Os mercadores espanhóis entregaram os prisioneiros às autoridades eclesiásticas da ilha da Jamaica, onde foram retidos até que umha parte do grupo foi libertada e conseguiram transporte até o importante porto do Cabo de Santo António, próximo de Cuba. Lá encontraram o capitám da fragata Saint Catherine, com o qual negociaram a viagem até Nova Amsterdão. No total, toda a viagem, incluindo a prisom na Jamaica, durou mais de seis meses.

Nova Amsterdão da América do Norte era umha ilha localizada na foz do rio Hudson (hoje conhecida como Manhattan) que tinha sido colonizada pola Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (CIO) a partir de 1625 logo de ser comprada por 24 dólares. 

Em 7 de setembro de 1654 aportaram na ilha de Manhattan 23 Judeus de Recife a bordo do Sainte Catherine, entre os quais havia homens, mulheres e crianças. O grupo estava formado por seis famílias, encabeçadas por quatro homens (Abraão Israel Dias, Moisés Lumbroso, David Israel Faro e Asher Levy) e duas viúvas (Enrica Nunes e Judite Mercado). Salvo A. Levy, três desses homens citados identificam-se como pessoas que assinaram o livro de atas da Congregaçom Zur Israel do Recife, no ano de 1648.

Os Judeus portugueses do Recife nom fundaram Nova Iorque, como vem sendo erroneamente divulgado. O que ocorreu foi que alguns deles fundaram a primeira comunidade judaica daquela que veio a ser a cidade de Nova Iorque e que veio a ser umha das mais importantes, ricas e influentes comunidades judaicas do mundo.

Todavia, antes desse grupo já se encontrava em terras da Nova Amsterdão o judeu asquenazita Jacob Barsimson (Bar Simson), que seria o primeiro judeu a se fixar na que viria a ser a cidade de Nova Iorque, aonde chegou através da Holanda e que também estivera em Pernambuco. Aconteceu que, depois do seu regresso do Brasil, saiu da Holanda, tendo aportado na Nova Amsterdão em 8 de julho de 1654, um pouco antes da chegada dos 23 judeus vindos do Recife.

Na altura de novembro de 1654 a parte do grupo detida na ilha de Jamaica polos espanhóis ainda lá estava, ocasiom em que representantes dos Judeus de Amsterdão intercederam em favor dos Judeus da nação portuguesa que partiram na fragata Valk. A sua petiçom solicitava que os cônsules holandeses de Cadis e San Sebastian interviessem junto ao rei de Espanha a fim de rogar a libertaçom dos prisioneiros judeus-brasileiros. O governo holandês deferiu imediatamente o pedido dos judeus, e no mesmo dia escreveu aos cônsules declarando, entre outras cousas, que considerava muito sério esse caso.

Os Judeus nom encontram em Nova Amsterdão a tolerância que caracterizava as possessões batavas, garantida pola Declaraçom de Utrecht. Ora, o governador holandês de Nova Amsterdão (de 1647-64), Peter Stuveysant, era um calvinista zeloso e considerava que a presença desses judeus desvalidos e da sua “abominável religiom” só traria prejuízo. Procurou entom de toda forma expulsá-los, escrevendo umha carta aos seus superiores da CIO argumentando que "se deixarmos vir os judeus nom tardam a vir os papistas". O desespero de Stuyvesant aumentaria ainda mais quando os Judeus apresentaram umha petiçom à CIO para poder fazer na Nova Amsterdão o que faziam em Pernambuco, isto é, viver livremente. A resposta da companhia foi favorável: “Após muita deliberaçom, resolvemos dar provimento à petiçom apresentada por certos mercadores [judeus] da Nação Portuguesa, julgando-a favorável, para que eles possam viajar e comerciar com e na Nova Holanda e viver dentro dos seus limites.” Na sua petiçom, aqueles judeus alegaram ser israelitas há décadas leais à Holanda e mesmo umha grande parte do capital desta companhia pertencia a judeus portugueses residentes na cidade de Amsterdão.

Mesmo assim, Stuveysant exclui os judeus do serviço da guarda colonial na Casa dos Voluntários e obriga-os a pagar um imposto, porque outros serviam no lugar deles. Diante desta situaçom Asher Levy e Jacob Barsimson encaminham um baixo-assinado para o Tribunal Colonial, objetando as medidas tomadas polo governador. Após dous anos de questom judicial, eles ganham a causa. Mas o governador nom desistiu em dificultar a vida dos Hebreus, após conquistar o território sueco ao longo do rio Delaware proíbe-os de comerciar naquele local. Novamente Asher Levy reclama da distinçom e obtêm a primeira concessom de comercializaçom em 1656.

Com a chegada, em 1655, de mais Judeus, com melhores condições financeiras provenientes dos Países Baixos, pudo-se estruturar umha comunidadeÉ fundada no mesmo ano, a Kahal Shearit Jacob (Congregaçom Portões de Jacó), posteriormente denominada Kahal Kadosh Shearit Israel (Santa Congregaçom o Remanescente de Israel), a primeira comunidade judaica da América do Norte e a única comunidade de Nova Iorque até 1825. Como era proibida a construçom dumha sinagoga as reuniões realizavam-se em casas alugadas.

Em 1664 Nova Amsterdão rende-se aos ingleses e foi cedida para a Inglaterra polo Tratado de Breda (1667), para ser renomeada como Nova Iorque, na qual os Judeus tiveram permissom de residência graças o acordo entre Menasseh ben Israel e Oliver Cronwell. Os Holandeses reconquistaram-na em 1673, rebatizando-a como New Orange, para só retomar o nome de Nova Iorque quando os britânicos recuperaram o assentamento no ano seguinte.

Em 1683 é construído em Manhattan o primeiro cemitério judaico logo de ser concedido polas autoridades britânicas. Segundo comprovaçom de pesquisas junto ao arquivo do campo santo, membros da Congregaçom Zur Israel do Recife aparecem em documentos da época. Um deles, Benjamin Bueno de Mesquita, um dos 172 subscritores do Haskamot, assinado no Recife em 30 de novembro de 1648, tem a sua lousa tumular preservada naquele cemitério.


Primeiro cemitério Shearith Israel. Foto: Wikipedia
55-57 St. James Place, Lower Manhattan, Nova Iorque
Por volta de 1695, apesar de algumhas restrições, os Judeus tinham a sua primeira sinagoga improvisada, mas nom foi até 8 de abril de 1730 que foi erguida a primeira sinagoga de raiz da comunidade em Mill Street. Consistia num simples prédio de tijolos, que devido ao crescimento comunitário mudou de lugar três vezes até se estabelecer em 1897 no local que se encontra até hoje, na Rua 70, esquina com a Avenida Central Park West. Mesmo após o número de sefarditas ter sido suplantado polos asquenazitas, a sinagoga manteve o português como língua dos seus documentos e registos até final do século XIX. Mesmo hoje cânticos e inúmeras palavras usadas nesta sinagoga som em língua portuguesa.
Esnoga Shearith Israel (desde 1897). Foto: David Shankbone
Os Judeus eram ativos no comércio. Atuavam como intermediários entre os nativos e os europeus, eram peritos na navegaçom costeira e no comércio ultramarino, atuavam como lojistas e artesãos, além de vendedores de miudezas e outros utensílios cotidianos. Pouquíssimos eram agricultores ou ricos, embora algumhas famílias dos “da nação” possuíssem patrimônios expressivos (entre os quais os Lopes, Franks, Hayman Levy, Gratz e os Lindo). 


Em termos políticos, sociais e económicos este grupo e os seus descendentes foram muito ativos na sociedade estadounidense, formando umha elite judia. Assim sendo, em 1733, estám entre os primeiros a assinarem a petiçom sobre a questom do chá que desencadeou a Revoluçom Americana. De facto, Gershom Mendes Seixas, foi aliado de George Washington na Guerra da Independência. Em 1768 os judeus portugueses som cofundadores da Câmara de Comércio de Nova Iorque. Em 1792 Benjamim Mendes Seixas, filho de Gershom, foi um dos principais impulsionadores da criaçom da Bolsa de Valores (Wall Street). O rabino português Mendes Seixas fundou a Columbia University e o Hospital Mount Sinai. Benjamim Cardozo, juiz da Suprema Corte dos EUA ligado a Franklin Delano Roosevelt... Os exemplos som muitos da vitalidade desta comunidade de judeus portugueses de Nova Iorque.


Tal como aconteceu na América do Sul, a partir de Recife, foi de Nova Amsterdão, aliás Nova Iorque, que os Judeus da nação portuguesa se dispersaram na América do Norte, estabelecendo-se ao comprido da costa leste, nomeadamente em Nova Jérsia, Montreal, Newport, Filadélfia, Charlotte e Nova Orleães. Em Rhode Island introduzem em 1750 a pesca à baleia, dominada polo português Aaron Lopez, nascido em Lisboa como Duarte Lopez. Em 1759 fundaram em Newport a Sinagoga do Touro, a mais velha sinagoga que ainda resiste na América do Norte. A pesca da baleia foi umha das atividades que levou ao longo dos séculos muitos portugueses para os EUA, em particular os açorianos.


Em 1954, por ocasiom do terceiro centenário da chegada dos primeiros judeus a Nova Iorque, o local do desembarque foi assinalado com marco em pedra colocado polas autoridades estaduais, com os dizeres (em traduçom): “Erguido polo Estado de Nova Iorque em homenagem à memória dos vinte e três homens, mulheres e crianças que aqui desembarcaram em setembro de 1654 e fundaram a primeira comunidade judaica da América do Norte”.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

OS JUDEUS PORTUGUESES EM PERNAMBUCO

Em 1630, com Portugal submetido ao domínio espanhol, as forças holandesas chegaram ao Brasil e ocuparam toda a regiom setentrional do Nordeste brasileiro (território de Pernambuco). O interesse da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (CIO),  responsável pola administración dos territorios da coroa dos Países Baixos nas Américas, achava-se nas plantações de açúcar e nos mais de 120 engenhos existentes em Pernambuco, na altura a maior zona produtora mundial desse produto.


Colónia holandesa que ocupou grande parte da regiom Nordeste do Brasil. Wikipédia
Os colonialistas holandeses trazeram consigo Judeus portugueses de Amsterdão e permitiram, como na metrópole, logo de início e de forma inquestionável, a liberdade de consciência e de culto entre as populações das suas colónias: "A liberdade dos espanhóis, portugueses e nativos, quer sejam católicos romanos ou judeus, será respeitada. A ninguém será permitido que os moleste ou os sujeite a inquirições em matéria de consciência ou nas suas casas privadas; e ningúem os ouse inquietar ou perturbar ou causar-lhes dano sob pena de puniçom arbitrária ou, dependendo das circunstâncis, de severa e exemplar reprovaçom" (Leis e Regimentos das Índias Ocidentais).

Sob a administraçom do príncipe João Maurício de Nassau, a comunidade de refugiados portugueses floresceu. Na altura de 1645 a populaçom judaica da Nova Holanda (nome dado polos holandeses à colónia de Pernambuco) era de 1.630 pessoas, aproximadamente metade da populaçom europeia. Em 1642 produzira-se a chegada de 600 Judeus portugueses que abandonaram Amsterdão. No bairro de Recife, no atual centro histórico da cidade, abriu-se em 1636 umha Rua dos Judeus (Jodenstraat).
Cidade Maurícia e o istmo do Recife em 1665. Wikipédia
Entre 1636-40 os Judeus holandeses de origem portuguesa fundaram a primeira sinagoga brasileira em Recife, a primeira em solo americano: Kahal Kadosh Zur Israel (Rocha de Israel). Posteriormente fundaram a sinagoga Kahal Kadosh Magen Abraham na Cidade Maurícia. As duas foram unificadas em 1648 com as assinaturas de 172 membros tanto de Recife como de Maurícia. A comunidade judaica organizou-se de forma completa segundo a norma da comunidade matriz de Amsterdão: umha sinagoga, as escolas religiosas e um cemitério. 
Esnoga Kahal Zur Israel, a primeira sinagoga na América. Wikipédia
Em 1642 o rabi Isaac Aboab da Fonseca, um conhecido rabi de Amsterdão, juntamente com o estudioso Moses Raphael d'Aguilar chegaram ao Brasil como líderes espirituais para assistir às congregações de Recife e Maurícia. Apesar da tolerância oficial, os Judeus sofreram certa hostilidade por parte dos calvinistas que tentaram restringir as suas liberdades.

Na altura de 1639 a Nova Holanda tinha umha florescente indústria do açúcar com mais de 120 engenhos (6 dos quais eram propriedade de Judeus). Os Judeus também tinham um papel importante no comércio, a taxaçom agrícola e finanças. Os Judeus de Pernambuco também se envolveram no tráfego de escravos, no trabalho agrícola, na milícia holandesa, no artesanato e na medicina. 

O contato com a populaçom local (incluindo muitos cristãos-novos do Sertão) foi permanente devido às atividades económicas. Em geral, durante a ocupaçom holandesa do nordeste muitos cristãos-novos regressaram ao judaismo, assumindo publicamente a sua identidade. Perseguidos pola Inquisiçom, a Nova Holanda aparecia aos olhos dos cristãos-novos brasileiros e portugueses como um oásis de tolerância, libertando-os do receio, constante e real, das torturas inquisitoriais ou da morte nas fogueiras dos autos-da-fé. 

Umha vez libertados de Espanha, em 1642 os portugueses começaram os preparativos para a libertaçom do noreste brasileiro. Em 1645 iniciaram umha guerra que iria durar nove anos. Os Judeus aderiram aos holandeses, morrendo alguns deles na resistência. Em junho de 1649 dous navios holandeses chegaram com suprimentos. Com um ataque final de proporções épicas as tropas portuguesas, comandadas polo general luso-brasileiro Francisco Barreto de Menezes, lançam-se à reconquista de Pernambuco. 

Os termos da rendiçom dos exércitos holandeses, assinados a 27 de janeiro de 1654 em Taborda, perto do Recife, som generosos para com os derrotados, dando aos Holandeses um prazo de três meses (que seria prorrogado por mais três) para se retirarem do território recém conquistado, período durante o qual, segundo os mesmos termos, “nom serám molestados ou vexados e serám tratados com respeito e cortesia.” Mesmo se garantiu que os súditos holandeses que quisessem permanecer com os seus negócios e propriedades no Brasil teriam o mesmo tratamento dos estrangeiros residentes em Portugal.

Relativamente às 150 famílias judias (por volta de 400 pessoas) do Brasil Holandês o general Barreto de Menezes mostra umha tolerância muito pouco habitual ao permitir igualmente (ajudando até) a saída dos Judeus portugueses, apesar destes terem passado a ficar sob a alçada da Inquisiçom, o que lhe teria à partida vedado qualquer possibilidade de clemência. A lei exigia a deportaçom imediata dos judeus para Portugal.

Devido à escassez de embarcações holandesas que possibilitassem uma evacuaçom total, o general Barreto de Menezes ofereceu 16 navios portugueses para transportar os Judeus e assim os ajudar a escapar à Inquisiçom. Este gesto nom seria esquecido, e os anais da história judaica portuguesa registam ainda hoje o nome de Francisco Barreto de Menezes, católico e “cristão-velho”, como um homem de nobre carácter –um hassid umot ha’olam (gentio justo e íntegro do mundo.)

Porém, os cristãos-novos convertidos do judaísmo ao cristianismo passaram a temer os castigos do Tribunal da Inquisiçom. Para este caso Francisco Barreto de Menezes, na sua proclamaçom de 7 de abril, somente admitia a prorrogaçom da permanência daqueles judeus que nunca foram batizados, alegando que “os Judeus que anteriormente haviam sido cristãos, estavam sujeitos à Santa Inquisiçom, um assunto em que nom podia interferir”. No dia seguinte à proclamaçom, um grupo de judeus solicitou, com êxito, às autoridades holandesas, umha provisom de alimentos suficiente para viajar à França no navio português São Francisco, tendo em conta que se tratava aproximadamente de 150 pessoas.

Embora a esmagadora maioria da comunidade judia partiu em direção à Holanda, outros optaram por ficar nas colónias holandesas e britânicas nas Caraíbas onde se dedicaram à indústria do açúcar, fundando novos engenhos e cultivando as mudas de cana que importaram de Pernambuco, bem como no tabaco. Ainda hoje a predominância de nomes de família portugueses (e a linguagem litúrgica) entre os Judeus sefarditas do SurinameCuraçao, Jamaica ou Barbados prova essa ligaçom ancestral.

Um outro grupo rumou para a América do Norte, que, na época, iniciava a colonizaçom da Nova Amsterdão (hoje Nova Iorque).

Enquanto a maioria dos que nom puderam fugir foram assassinados, os que ficaram no Brasil seguiram a praticar o judaismo em secreto como criptojudeus. Estas comunidades de cristãos-novos refugiaram-se nos sertões, interior do Nordeste Brasileiro, território afastado e fora do controlo das autoridades. Dedicados a atividades agrogadeiras, colonizaram a regiom do Seridó, topónimo que em hebraico significaria "sobrevivente" ou "o que escapou".

Duas décadas após a saída dos holandeses a Inquisiçom foi muito repressora dos cristãos-novos que se converteram ao judaismo durante a ocupaçom holandesa. Na segunda metade do século XVII e durante o século XVIII chegaram muitos relatórios à Inquisiçom de Lisboa relativos à existência clandestina de rituais judaicos. A política portuguesa seguida no século XVIII permitiu que os cristãos-novos se misturassem com o resto da populaçom, até a desapariçom das suas tradições judaicas devido à sua completa assimilaçom, apesar de algumhas famílias se terem esforçado por as manter, isolando-se sobretodo no Nordeste brasileiro e praticando casamentos endógenos.

Em 1655 os portugueses fecharam o maior símbolo da judiaria brasileira, a sinagoga de Kahal Zur e a Rua dos Judeus, como noutros locais da cristandade reconquistados, foi rebatizada como Rua da Cruz (hoje Bom Jesus).


A sinagoga de Recife foi reaberta em dezembro de 2001 e agora é a mais velha sinagoga existente na América. Além disto, alberga umha Sinagoga Centro Cultural Judaico de Pernambuco e algumhas cerimónias religiosas, tornando-se num importante símbolo da herança judaica do Brasil. No ano 2005 Recife recebeu de Israel o seu primeiro rabi permanente desde 1654. Em novembro de cada ano um festival judaico oferece dança, cinema e comida que atrai 20.000 visitantes.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

PORTUGAL RESTITUI A NACIONALIDADE AOS PRIMEIROS DESCENDENTES DE JUDEUS SEFARDITAS

Segundo informações do Ministério da Justiça português ao jornal PÚBLICO, em outubro foi concedida, pola primeira vez, a nacionalidade portuguesa a três cidadãos “com o fundamento” de “serem descendentes de judeus sefarditas”.

Umha vez aprovado o seu pedido, essas pessoas poderám obter um passaporte português depois de concluído o registo de nascimento na Conservatória dos Registos Centrais e de obtido o cartão de cidadão. O número de pedidos de nacionalidade que deram entrada no Ministério da Justiça, com o fundamento dumha descendência da comuniade judaica sefardita de origem portuguesa, aumentou muito nos últimos seis meses.

Embora a possibilidade da aquisiçom da cidadania portuguesa já estava prevista desde 2013, só a partir da aprovaçom em fevereiro deste ano dum decreto-lei que regulamenta esse aspecto da lei sobre a aquisiçom da nacionalidade é que se permite a naturalizaçom de pessoas que consigam provar a sua descendência de judeus expulsos de Portugal. Um processo semelhante está em curso no estado do Reino de Espanha, mas menos abrangente e mais restritivo do que o português, pois exige a presença física no país do requerente.

O número de pedidos nom deixa de aumentar. Enquanto na altura junho havia 40 pedidos de nacionalidade portuguesa de descendentes de sefarditas no gabinete da ministra da Justiça, a 1 de outubro, esse número ascendia a 204. Em 20 de outubro o total chegava aos 250.

Neste conjunto, estám mormente nacionais e residentes na Turquia (133), em Israel (55), no Brasil (20) ou nos EUA (14). Até ao momento nom há registo de requerentes nascidos ou residentes em Portugal ou Espanha. A faixa de idade dos requerentes varia entre os 19 e 81 anos.
Fonte: PÚBLICO
A comunidade judaica sefardita de origem portuguesa está formada polos descendentes dos Judeus expulsos de Portugal em 1496/97 "que nom se sujeitassem ao batismo católico". A diáspora levou-os para países como a Turquia, Holanda, Reino Unido e países do Norte de África, onde ainda subsistem apelidos de família de origem galego-portuguesa.

O diploma aprovado em fevereiro deste ano que regulamenta o nº7 do artº 6º da Lei da Nacionalidade, estabelece que “o Governo pode conceder a nacionalidade por naturalização (…) aos descendentes de judeus sefarditas portugueses, através da demonstração da tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa, com base em requisitos objectivos comprovados de ligação a Portugal, designadamente apelidos, idioma familiar, descendência directa ou colateral”. O certificado exigido aos candidatos nos processos de pedido de nacionalidade, que atestam a sua pertença à comunidade judaica sefardita de origem portuguesa som passados polas comunidades israelitas de Lisboa e do Porto.  

As motivações dos requerentes possuem, na sua maioria, um componente emocional e que tem a ver com elementos que conformam a sua identidade de origem e que estám ligadas a história familiar, país de origem, deslocamentos, comida, música,... A seguir mostram-se alguns testemunhos sobre as motivações dos requerentes da nacionalidade portuguesa:
- "A dor a expulsom também nos perseguiu e o reconhecimento da nacionalidade dos Judeus sefarditas para mim é muitos mais que um simples documento; representa a alegria de voltar e sentir umha grande injustiça ser reparada" (requerente do Marrocos).
- "Acredito que isso seja umha forma de minimizar os danos causados polas brutalidades da Inquisiçom" (requerente do Brasil).
- "Poder, finalmente, resgatar os vínculos com a terra de origem" (requerente do Brasil).
- "Umha forma de manter viva a memória de aqueles que foram obrigados a deixar a sua terra (requerente dos EUA).
- "Continuo transmitindo para as minhas filhas essa memória familiar histórica tam rica, da qual me orgulho" (requerente de Israel).
- "A intençom é fortalecer as raizes portuguesas da minha família e reconectar à cultura sefardita à qual se sente ligada" (requerente da Turquia).

Fonte: PÚBLICO e documentário "CAMINHOS" - JUDEUS SEFARDITAS PORTUGUESES da RTP2.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

OS JUDEUS PORTUGUESES NA INGLATERRA


Depois da expulsom dos Judeus dos reinos de Espanha e de Portugal, e do estabelecimento da Inquisiçom, um grupo de Judeus portugueses, aparentemente católicos, estabeleceu-se na Inglaterra, mormente nas cidades de Londres e Bristol, ligada a atividades de comércio marítimo. Na altura de 1550 já havia cerca de umha centena de membros da comunidade judaica portuguesa em Londres que praticavam o judaismo em secreto,  como as famílias Anes, Costa, Lopes, Alvares, Martin, Rebelo,...

Em 1609 os Judeus portugueses foram oficialmente expulsos de Londres acusados de judaizarem. Porém, há evidências de que polo menos umha parcela deles continuaram a viver na capital inglesa e durante todo o século XVII a colónia de cristãos-novos nom deixou de crescer.

Em 1651, Oliver Cromwell, na sua política de colocar a Inglaterra na chefia do comercio mundial, concedeu benefícios aos mercadores judeus sefarditas que se fixassem na Inglaterra. Com certeza, o estadista inglês estava ciente de que a experiência dos cristãos-novos no comércio marítimo e ultramarino contribuiria para tornar a Grã Bretanha numha potência económica mundial, já que os Judeus sefarditas portugueses constituiam umha importante rede comercial tanto nas colónias espanholas e portuguesas quanto no Levante, Índias Orientais, Ilhas Canárias, Brasil e Países Baixos. Em consequência, um considerável número de mercadores cristãos-novos portugueses (judeus) fixaram-se em Londres e formaram umha congregaçom secreta encabeçada por Antonio Fernandes do Carvalhal. A sua posiçom privilegiada permitiu que Cromwell e o seu secretário, John Thurloe, obtivessem importantes informações sobre os planos de Carlos Estuardo na Holanda e dos espanhóis na América.

Em 1656, o Rabino Menasseh ben Israel de Amsterdão (Manuel Dias Soeiro, natural da Ilha da Madeira) fez umha visita a Inglaterra para tentar persuadir o Governo Inglês a autorizar os Judeus a se estabelecerem umha vez mais em solo britânico. Foi entom que conheceu Oliver Cromwell, que se dispunha favorável à ideia. Após a deliberaçom da comissom reguladora, relativamente à questom, foi anunciado que o Decreto de Expulsom dos Judeus da Inglaterra de 1290 já nom tinha relevância. 

Aos Judeus portugueses foram entom concedidas muitas facilidades. O antedito António Fernandes do Carvalhal, natural do Fundão, e o filho dele, foram dos primeiros a fazê-lo, tendo-se tornado amigos íntimos e consultores de Cromwell. A comunidade sefardita portuguesa nom parou de aumentar com a vinda de outros cristãos-novos chegados nom apenas de Portugal, mas também de Amsterdão e Hamburgo. É durante o protecturado de Cronwell (1649-59) que se inicia o comércio do vinho do Porto com a Inglaterra. Seguidamente, em 1657 os mercadores portugueses “criaram” uma esnoga numha habitaçom, e retornaram abertamente ao Judaísmo, chegando o rabino Menasseh a oficiar numha ocasiom um serviço religioso. 

Os Judeus portugueses de Londres nom tardaram a desligar-se de Cromwel, passando a apoiar o regresso da monarquia, tirando disso evidentes benefícios. A renovaçom da Aliança luso-britânica em 1661, bem como o casamento de Dona Catarina de Bragaça com Carlos II dez anos antes foi negociada e assegurada financeiramente por estes judeus portugueses. Assim sendo, em 1664 Carlos II emitiu uma promessa formal por escrito de proteçom dos cristãos-novos portugueses e, em 1674 e 1685, outras declarações reais foram feitas confirmando essa declaraçom. 

Em 1698, a aprovaçom Lei de Supressom da Blasfémia supõe o reconhecimento à legalidade de praticar o judaísmo na Inglaterra. Esta tolerância abriu as portas à fixaçom dumha numerosa comunidade sefardita, com a chegada, ao longo dos anos, de muitos cristãos-novos de Portugal e Espanha, fugidos da Inquisiçom, entre os que se contavam importantes mercadores e médicos (Fernando Mendes, Jacob de Castro Sarmento, António Ribeiro Sanches,...). Muitos destes Judeus portugueses eram bem sucedidos e atingiram posições proeminentes na sociedade britânica, assumindo um lugar destacado na Bolsa de Londres, bem como no comércio ultramarino da Inglaterra.

Em 1690 refugiados judeus asquenazitas da Polónia e Alemanha, em número pouco expressivo, foram ajudados polos sefarditas a emigrarem para a Grã-Bretanha, onde fixaram a primeira comunidade. Nessa altura havia cerca de 400 Judeus na Inglaterra, polo que os sefarditas permaneceram como a maior comunidade por mais dum século.

A comunidade sefardita prosperou e construiu em 1701 a sua primeira esnoga em Londres, chamada Bevis MarksNas suas atas ficaram registados variados nomes de famílias de origem ibérica, tais como: Montefiore, Lindo, Disraeli, Mocatta, Da Costa, etc. Em 1705 abriu-se umha imprenta de língua hebraica.

Grande Esnoga de Londres. Foto: Wikipedia
Os sefarditas portugueses contribuiram para a introduçom na Inglaterra do popular prato de peixe com batatas frias, pois até entom os ingleses nom utilizavam o azeite na comida.

No século XVIII o grupo dos Judeus portugueses tem umha sólida posiçom no comércio marítimo, tráfico de escravos e na alta finança. A sua presença, marcada pola extrema discriçom, tem um papel muito destacado no comércio têxtil, pedras preciosas e do tabaco em Londres. Na altura de 1734 por volta de 6.000 Judeus viviam na Inglaterra.

Os Judeus sefarditas continuaram a exercer cargos de grande importância na sociedade britânica, mas somente no século XIX, após umha gigantesca vaga de refugiados polacos e da Europa de leste, a composiçom demográfica da comunidade judaica britânica foi alterada e famílias asquenazitas, tais como os Rothschilds, se tornaram proeminentes. 

Por volta de 1912, um novo fluxo demográfico de judeus sefarditas chegou à ilha, desta vez desde a Turquia e Grécia, principalmente Salónica. Devido ao declínio do Império Otomano e o controlo de Salónica polos gregos, ocorre um enorme êxodo sefardita, com muitos partindo para os EUA, França e Inglaterra. Aqueles que chegaram a Inglaterra criaram umha nova comunidade separada da histórica de Bevis Marks, aceitando no entanto, autoridade da mais antiga.

Com a ajuda da Sinagoga Bevis Marks e da Fundação David Sassoon, a comunidade sefardita oriental conseguiu construir a sua própria sinagoga em Holland Park (Londres) no ano de 1928. Embora ambas as comunidades tivessem nas suas origens os Judeus de Espanha e Portugal, foi a Sinagoga Holland Park que manteve a sua herança histórica com idioma Judeo-Espanhol e o Ladino. Polo contrário, a Sinagoga Bevis Marks tinha as suas origens quase exclusivamente na língua portuguesa, em vez do Ladino.

Hoje, existem cerca de 10 sinagogas sefarditas na Grã-Bretanha com uma forte vida comunitária, grande parte delas situadas em Londres, mas a Bevis Marks continua a ser a sinagoga sefardita “per se”.