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sexta-feira, 30 de maio de 2014

JUDEUS E JUDAIZANTES NA HISTÓRIA DA GALIZA

Prof. Carlos Barros
Historiador da Universidade de Santiago de Compostela

A ocupaçom árabe do século VIII durou 25 anos na Galiza. Houve logo imigraçom desde Al-Andalus para o Reino da Galiza, durante os séculos da Reconquista, mas esta influência muçulmana nom se pode comparar à presença ininterrupta dumha minoria de Judeus ao longo de oitocentos anos, quando menos entre os séculos X e XVIII, públicos durante a Idade Média, mais ou menos clandestinos durante a Idade Moderna. Judeus polo regular nascidos na Galiza, mas também galegos de adopçom na procura de refúgio, fugindo das perseguições árabes (séculos XII-XIII) ou dos inquisidores portugueses (desde finais século XVI).

O objetivo principal desta exposiçom permanente** é recuperarmos a história dos Judeus da Galiza como memória viva, para sabermos mais de nós próprios, para sabermos mais dumha multisecular experiência de convivência frustrada polo Estado moderno e a Inquisiçom. A tolerância entre judeus e cristãos na Galiza medieval como factor distintivo da história do povo galego, tem um valor igualitário, democrático e multicultural, que é preciso relembrar no presente e reivindicar no futuro.

Os primeiros Judeus

Temos evidências de Judeus no reino medieval da Galiza desde os primeiros momentos do repovoamento cristão na Alta Idade Média, primeiro no campo e depois nos pequenos burgos que se formaran na altura do ano 1000, do norte (necrópole judaica da Corunha) até o sul de Ourense [província] e de Portugal, a parte do amplo Reino da Galiza, e mesmo do Reino de Leom, com maior presença judaica nos séculos X-XI, por causa da política repovoadora da nobreza laica e eclesiástica galega, com o apoio da monarquia, que nom diferenciava entre religiões e etnias.

As terras de Cela Nova, entre os rios Minho e Lima, mesmo além, porque as propriedades do mosteiro chegavam até Coimbra, som o melhor paradigma peninsular de convivência rural das “três culturas”, cristãos, mouros e judeus, na Alta Idade Média, o que se reflecte na onomástica, pois abundam os Abrahám, Daniel, Isaías, Moisés, Saul, David, Salomom..., bem como nomes árabes: Habze, Abdella, Cidi ou Muzalha. Foram muçulmanos, convertidos ou sem converter, os que construíram o único resto que fica do mosteiro do século X: a capela de San Miguel de Cela Nova, mostra sobranceira da arte islâmica na Galiza.

Cabe esclarecer, contudo, que os judeus e mudéjares da Galiza do sul trabalhavam entom na sua maioria em atividades agrícolas, como servos ou como homens livres, que incluíam o cultivo do vinho. Os freires de Cela Nova herdam muito cedo, no ano 950, da família aristocrática do seu fundador São Rosendo, fincas trabalhadas por judeus viticultores, perto de Coimbra. Este labor vitivinícola ocupará a parte principal das terras de Cela Nova, que chegavam até as portas de Ribadávia e Ourense, nas ribeiras do Ávia e do Minho; portanto é muito provável que também no Ribeiro os judeus e os mouros agricultores trabalhassem o vinho.

Os Judeus da Galiza alto medieval dedicam-se também ao comércio de teias de seda, que chegavam à Galiza através da rota jacobeia, protegidos pola aristocracia local ligada aos reis leoneses. Temos o exemplo nos mercadores judeus, associados ao nobre galego-português Mendo Gonçalves, assaltados em terras de Cela Nova, no ano de 1044, por um cabaleiro malfeitor, o que provocou umha luta de bandos nobiliários resolvida, em 1047, em prol dos judeus e do seu nobre defensor.

Pacto de convívio

Nos séculos XII e XIII criam-se a maior parte das cidades medievais galegas. Os vassalos de Cela Nova fogem daquela para a Alhariz, Ribadávia e Ourense: com certeza os judeus mercadores o fizeram anteriormente. Constituem-se nas novas urbes comunidades judaicas que começam a ter problemas com a maioria cristã nos finais do século XIII. A modélica resoluçom, através do diálogo, do conflito interétnico em Allariz ilustra o por que na Galiza medieval o antissemitismo popular e o anticristianismo judaico nom terminaram em massacres, como noutros lugares ao longo da Idade Média.

Em 20 de maio de 1289 o Concelho de Allariz, estando presentes o representante do Rei e os párocos da vila, chegam a um acordo com o Judeu Mor, Isaac Ismael, para regular a convivência, quebrada polos agravos dos judeus faziam troça de Jesus e da Virgem Maria nas procissões cristãs, e dos próprios cristãos que prendiam e molestavam os judeus nas suas “rogas e festas”. Pactuam respeitar-se mutuamente as festas religiosas de cada comunidade, bem como viver em harmonia cada umha delas na sua parte da vila, confirmando a autonomia judicial da alfama, e compartindo as portas da cidade muralhada para a passagem de mercadorias e alimentos cara à Judiaria que estava naquele momento fora dos muros, nom longe das freiras de Santa Clara, às quais os judeus cedem, segundo este convénio, terra para fazer o seu cemitério. Favor que o pároco de Sam Estevo “devolveu” em 1487 facilitando terreno para que a alfama pudesse alargar o cemitério judaico. Em 1488, quatro anos antes da expulsom, Alhariz é ainda terra de tolerância para os judeus, porque o ourensão Mosé Péres, cobrador dos impostos reais, traslada para lá a sua morada para evitar o afastamento obrigado na Rua Nova que, desde 1480, os concelhos galegos obedeciam mas nom cumpriam...

Os Judeus de Ribadavia

A perda da documentaçom municipal de Ribadávia faz com que nom tenhamos notícias certas da sua Judiaria até 1386. Damos por feito que a comunidade judaica de Ribadávia se formou nos séculos XII e XIII como nas restantes urbes medievais galegas e peninsulares, beneficiada pola instalaçom de judeus, desde o século X, nas vizinhas terras de Cela Nova, e pola existência dum potente grupo de mercadores em Ribadávia, desde a concessom de foral por parte de Fernando II en 1164, onde se promove justamente a exportaçom de vinhos e a importaçom de tecidos, atividades comerciais ligadas aos Judeus, na diocese de Ourense, desde o século XI, por volta mormente da rota Ribadávia-Ourense-Santiago que ligava com o Caminho francês onde os Judeus monopolizavam o tráfego de mercadorias.

O que aconteceu em 1386? O Duque de Lencastre, casado com a filha mais velha do defunto rei Pedro I, aspirando ao trono de Castela, invade Galiza sem encontrar quase resistência, salvo em Ribadávia, que foi assediada por um exército de mais de 2.000 lanceiros e arqueiros ingleses, que lograram tomar a vila utilizando umha espectacular torre com rodas. Os ingleses entraram a saco, e, segundo a crónica coeva de Froissart, "ce jour occis ungs et autres, parmy les Juifs dont il y avoit assés, plus de quinze cens. Ainsi fut la ville de Ribadave gaignée à force, et eurent ceulx qui y entrèrent, grant butin d'or de d'argent ès maisons des Juifs par espécial". Quer dizer, os testemunhos de Froissart salientam a riqueza em ouro e prata dos judeus de Ribadávia, que foram roubados e assassinados, junto com o resto de vizinhos, polas tropas do Duque de Lencastre.

Exagera Froissart, com toda evidência, quando nos fala em “quinze cens” (quince centos, 1.500) Judeus de Ribadávia em 1386. Este tipo de cifras medievais nas crónicas sobre batalhas som, em geral, pouco confiáveis. O cronista francês erra em vários sítios no tocante a lugares e datas, embora ofereça um bom relato dos factos graças às suas fontes orais e diretas. Sabendo que, no século XV e inícios do século XVI, havia aproximadamente em Ribadávia uns 500 vizinhos, poucos mais podiam existir nos finais do século XIV. Por outro lado, os Judeus raramente superam os 10-15 % dos vizinhos nas cidades medievais da Coroa de Castela, percentagem máxima com a que podemos jogar na Galiza, onde as judiarias som pequenas, consoante a informaçom das listas de impostos que os Judeus pagavam a el-Rei. Na Ribadávia de 1386 podia haver, logo, nom muito mais de 50 judeus, unha dúzia de famílias na sua maior parte vivendo nas casas da Rua da Judiaria, depois Merelles Caula, que, sem lugar a dúvida, tinham umha influência económica na vila do Ribeiro muito superior ao seu número, como se decataram os assaltantes ingleses.

Fraternidade judaico-cristã

Diferentemente doutros locais das Coroas de Castela e Aragom, no Reino da Galiza nom houve durante a Idade Média motins populares antissemitas. O mais parecido foi o assalto da sinagoga de Ourense, em 1442, que resultou “destroyda”, polo bando nobiliário dos Cadórnigas, que levaram consigo “as arbores” (rolos da Torá) e mesmo roubaram depois 50 maravedis velhos... Tanto o Concello como a Igreja de Ourense condenaram o atentado à “casa de oraçon” dos Judeus. O mais duro foi o representante do bispo que excomungou a Pedro Dias de Cadórniga e os seus homens, quer dizer, tratou o delito antijudaico como se fosse um sacrilégio cometido em igreja cristã.

É próprio da Galiza pré-irmandinha este sentimento de agravo de todas as vítimas contra os cabaleiros malfeitores e as suas fortalezas, vítimas expiatórias dumhas tensões sociais que noutros lugares descarregam contra os Judeus.

A amizade entre cristãos e judeus mostra-se novamente em 1457 num casamento de fidalgos de Ourense onde se acordou, estando Judeus e regedores presentes, reconciliarem a duas donas judias que se zangaram, que som libertadas polo Concelho da sua cadeia a fin de que pudessem comparecer perante os juízes da alfama. Desde as Partidas de Afonso X era “proibido” que judeus e cristãos fizessem banquetes juntos, mas o Reino da Galiza ia a contracorrente, e a 25 de abril de 1467, iniciada a grande revolta contra os nobres malfeitores, um coengo da catedral de Ourense relata como “os da Santa Yrmandade avian lançado un pregon que leigos e clerigos, xudeus e mouros, fosen derribar o castelo Ramiro”.

A tradicional e secular tolerância entre judeus e cristãos da Galiza medieval, desde o século X, torna-se pois, no fim da Idade Média, em amizade judaico-cristã, defensiva enquanto vítimas de agravos (assalto de Ribadávia, 1386), ofensiva na hora da revolta social, quando os cabaleiros passam de protetores (Mendo Gonçalves, 1044) a agressores provocando a revolta da Santa Irmandade 1467-1469, no momento histórico de maior desfasamento entre a situaçom dos Judeus na Galiza e no resto da Coroa de Castela: nesses anos têm lugar matanças de judeus e conversos em Toledo (1467), Sepúlveda (1468) e Tolosa (1469); enquanto na Galiza a Santa Irmandade junta camponeses e coengos, judeus e mouros, para ruir fortalezas.

Afastamento e expulsom

A inexistência na Galiza dum antissemitismo popular e violento e dumha igreja que o predique, dificulta a aplicaçom das leis discriminatórias da Coroa unificada de Castela e Aragom que precedem o desterro de 1492. Em 1480 as Cortes de Toledo acordam afastar os judeus em bairros separados. Em 1481 o Tribunal da Inquisiçom, criada em 1478, ordena queimar 2.000 judeus em Sevilha. Aliás, na Galiza, os concelhos seguiam com a sua política de tolerância, às vezes filojudaica. Em 1483, o Concelho de Ourense convoca umha juntança na sinagoga, atuando como testemunhas e possíveis instigadores dous cónegos, e convoca os Judeus a respeitarem a lei de Toledo, devendo afastar-se portanto numha parte da cidade que nom definem... Um novo Concelho, em 1487, critica os anteriores por nom ter levado a cabo a lei de Toledo, obrigando em nome dos Reis Católicos aos arrecadadores das rendas reais, Mosé Péres e Yudá Péres, a morarem na Rua Nova, os quais para safar a ordem mudam o seu domicilio para outros concelhos, acusando aos alcaldes “por nos ser odiosos como lo sois”, ou seja, traidores à tradicional amizade judaico-cristã.

Que reaçom houve na Galiza das “duas culturas” ao édito de expulsom de 31 de março de 1492? Temos para nós que a maioria converteu-se, seguindo muitos deles a praticarem o judaísmo com a conivência dos seus vizinhos cristãos, sem que ninguém os amolasse durante quase um século.

Outros tomaram o caminho do exilo como o ourives da Corunha Isaac que, em 1493, com a cumplicidade de armadores e oficiais reais, foge por mar levando consigo 2,5 milhões de maravedis em moedas de ouro e prata, alfaias “e outras cousas de valor”, entre as que bem podia estar a “Biblia Kennicott”, elaborada na Corunha em 1476 por um judeu abastado chamado Isaac quem marchou com ela para o exilo: assim foi como perdemos os galegos unha das nossas joias medievais.

Tempos de Inquisiçom

A Inquisiçom moderna bate, portanto, com mais de cinco séculos de convívio pacífica medieval entre galegos de diferente etnia e religiom. Quando se quer impor, no século XVI, deparam-se os primeiros inquisidores com umha difusa resistência popular e múltiplos conflitos jurisdicionais com os concelhos, com a Igreja e com os oficiais reais. Até 1574 nom começará a funcionar realmente o Tribunal de Santiago, cem anos mais tarde que em Castela e três séculos depois que Aragom. Mesmo assim, os judaizantes galegos nom serám molestados até princípios do século XVII. Para isso contribuiu a imigraçom portuguesa (por vezes descendente de galegos) que se instala no sudoeste da Galiza quando se agrava a perseguiçom em Portugal, anexada por Filipe II em 1581. No século XVII produz-se deste jeito umha “rejudeizaçom” da Galiza que aviva comunidades judeuconversas que, como no caso de Ribadávia, tinham já mais de cem anos de história.

O ponto de inflexom da ofensiva inquisitorial contra os Judeus clandestinos na Galiza foi o processo de Ribadávia entre 1606 e 1610. Pola primeira vez em 50 anos o Tribunal de Santiago oferece um balanço económico positivo. O grupo maioritário entre os processados pola Inquisiçom em toda Galiza esta formado por judaizantes, a maioria deles comerciantes e, portanto, alvo predilecto da confiscaçom de bens que praticava a Inquisiçom para o seu financiamento.

O processo de Ribadávia

Entre 1492 e 1595 os judeus de Ribadávia vivem relativamente tranquilos, simulando serem cristãos e praticando clandestinamente a sua religiom. Tinham especial cuidado em iniciar os moços na adolescência. Este relevo geracional, que abrangeu quatro gerações, foi vital para garantir a continuidade histórica do judaísmo de Ribadávia. De facto, a maioria dos detidos, e condenados, entre 1606 e 1610, serám moços e moças na vintena. O papel principal na transmissom da tradiçom jogavam-no as mulheres, as mães e as avós, bem como matriarcas judaicas como Branca Vasquez e Ana Mendes, ja finadas quando veio a repressom, que também ensinavam os ritos e cerimónias da Lei de Moisés na comunidade judaizante de Ribadávia.

Nos finais do século XVI sucedem-se as visitas da Inquisiçom a Ribadávia. Em 1595 é processado o advogado Jerónimo Rodríguez: um aviso. A 7 de março de 1606 o Tribunal de Santiago recebe do Conselho da Geral e Suprema Inquisiçom umha carta ordenando passar à açom: “Prendan a once deles”. Serám muitos mais porque um moço circundado, Jerónimo Bautista de Mena, que a comunidade enviara às sinagogas de Veneza, Pisa e Tessalónica, para formar-se e ensinar logo a lei velha em Ribadávia, os denuncia por arrependimento, inimizades e/ou simples desequilíbrio mental: confessou-lles aos inquisidores que quando, dous anos atrás, morrera mãe dele, tentara resuscitá-la como fizera o profeta Eliseu com o filho da viúva.

O fenómeno do malsim (delator) é habitual na história do judaísmo, mais ainda quando a perseguiçom os obrigava a formarem sociedades secretas. O malsim de Ribadávia denunciou de entrada a 200 judaizantes, metade da vila (450/500 vizinhos em 1517-23; 460 vizinhos em 1645), começando pola defunta de sua mãe e polos seus irmãos de 13 e 15 anos. Jerónimo apareceu morto (em estranhas circunstâncias, como se diz nestes casos) no tempo do processo, e o Tribunal, que como Roma vê-se que nom paga traidores, sentencia-o no derradeiro momento (1610) a ser queimado em forma de estátua, junto com os seus ossos, que para tal fim foram desenterrados. Jerónimo Bautista de Mena morre duas vezes, primeiro como falso judeu, depois como falso cristão.

Ao cabo houve 40 condenados em Ribadávia, e importantes confiscações de bens, bem complicadas de executar pola ocultaçom que procuravam os judaizantes. Entre os sentenciados havia dous regedores do concelho, sete mercadores, dous que vivem da sua fazenda, vários profissionais liberais e catorze mulheres. A maior parte dos processados nasceram em Ribadávia, o resto eram ribadavienses originários doutros lugares de Ourense, Galiza e do Norte de Portugal (vários de Vila Flor, Braga), atraídos pola sua florescente comunidade. Vinte e um judaizantes foram sentenciados a cadeia perpétua, depois de a Suprema de Madrid repreender o Tribunal de Santiago pola suavidade das penas. Dous foram condenados, pola sua relevância, a serem relaxados em pessoa, quer dizer, a serem queimados na fogueira: Filipe Álvarez e o seu filho mais rebelde, António Mendes. Os restantes receberam penas de cárcere de entre 6 meses e 4 anos. Polo regular as condenas supunham, para além do imediato sequestro dos bens, a obriga de levar hábito (sambenito).

Nom está claro que os condenados cumpram as penas mais duras, morte e perpétua, tanto polos acordos económicos com a Inquisiçom, como polas dificuldades desta para ter muito tempo os condenados nos cárceres secretos, e a caída em desgraça dos inquisidores que assinaram as sentenças de Ribadávia, Juan Muñoz Cuesta e Juan Ochoa, ao ano de rematar o processo.

Os 25 % dos réus que se reconciliaram com a Igreja no século XVII em España compraram as penas. Claro que nem todos tinham os mesmos possíveis, embora há que dizer que o status social e económico nom poupou a ninguém do sofrimento no tormento, mais bem ao contrário.

O sistema, chamado o “potro”, para atormentar os presos era bem simples: colocavam-nos sobre unha escada, com cordas atadas a braços e pernas que se apertavam dando voltas a garrotes até descobrir o osso se fosse preciso. Deste jeito foram torturados 32 % dos vizinhos de Ribadávia presos: treze réus no total, polo regular gente idosa, cinco mulheres e oito homens. A maioria deles, segundo o proprio Tribunal, venceram o tormento: todas as mulheres, e alguns homens (concretamente, três). A quem se torturava? Às pessoas mais relevantes da comunidade judaica do ponto de vista político, económico e religioso, isto é, aos dous membros da corporaçom municipal, Jerónimo de Morais e Joám Lópes Hurtado (e a sua dona), a aqueles processados que eram mercadores e mulheres de mercadores (os 53 % dos que passaram polo potro eram comerciantes), a viúva do antepassado Marcos López, advogado e relaxado em estátua. Foram muito cruéis sobretodo com Filipe Álvarez, que fazía de rabino de todos eles, e com o seu filho fiel António, os únicos condenados a morte. Torturavam para obter unhas confissões que supunham bons ingressos económicos, e também por pura vingança.

O Conselho Supremo de Madrid e o Tribunal de Santiago, quiseram fazer em Ribadávia um processo exemplar, cortando de raiz, que servira de escarmento para toda a Galiza judaizante: perseguiram os colaboradores da ocultaçom de bens e da fugida de judaizantes; perseguiram os familiares dos condenados, mesmo menores; perseguiram a memória e a fama daqueles defuntos que ensinaram a Lei de Moisés e Ribadávia na segunda metade do século XVI aos presos.

Mas os condenados e torturados de Ribadávia asina obtiveram umha satisfaçom moral. A Suprema envia em 1611 um inspector com 60 cargos de ineficácia e corrupçom contra os dous grandes inquisidores da Galiza durante o processo de Ribadávia, que som acusados de irregularidades no sequestro, depósito e lançamento dos bens dos judaizantes, de repetirem ilegalmente sessões de tortura, de falta dum comportamento pessoal acorde com a sua funçom no Santo Oficio e com o estado clerical. Ochoa é acusado de dar missa bêbado, de amancebar-se com umha casada que chegou a presidir com ele a audiência do Tribunal. Muñoz Cuesta é acusado de ir com prostitutas e de aliciar meninas de 14 e 15 anos. Meses depois do derradeiro auto-da-fé onde se queimaram, na catedral de Santiago, as estátuas do últimos processados de Ribadávia, Juan Ochoa e Juan Muñoz Cuesta, foram expulsos da Galiza, inabilitados por três anos para exercerem cargos na Inquisiçom e multados economicamente. Penas bem pequenas se compararmos com as que eles aplicaram ao rabino Filipe Álvarez e a sua gente por nom trabalharem nos sábados ou recitar na igreja da Madalena os Salmos de David sem o “Gloria Patri”. A pública sançom da imoralidade dos máximos responsáveis do Santo Oficio na Galiza favoreceu, logo a seguir, a negociaçom das penas de morte (Filipe Álvarez) e cadeia perpétua (Simom Pereira), e supomos o mesmo relativamente às outras sentenças contra os vizinhos de Ribadávia.

Quatro séculos depois destes lamentáveis feitos ainda está pendente a reabilitaçom das vítimas, a restauraçom da verdade histórica, a devoluçom da fama e da memória aos desconhecidos descendentes dos últimos judeus de Ribadávia: os Álvarez, Mendes, Gomes, Lopes, Hurtado, Pereira, Vásquez, Duarte, Coronel, Mena, Blandón, Morais, Oliveira, Díaz, Fernández, Rodríguez, Sousa, León, Chaves, que cuidamos seguem a viver em Ribadávia, e noutros lugares da Galiza. Apelidos polo geral comuns, devido ao afã dos conversos de passarem desapercebidos, que nos lembram que todos podemos ter origens xudaicas. Melhor dito, se alguém prendeu e torturou umha pessoa por ser doutra ideia, naçom e religiom, todos somos vítimas, todos somos judeus, todos somos pois vizinhos de Ribadávia naqueles anos de terror 1606, 1607, 1608, 1609, 1610, como bem gostamos de celebrar nas “Festas da Istória”, que caem a cada ano no tempo da vindima e do “Ayuno Grande” dos nossos antepassados.

Memória contemporánea

Depois do processo de Ribadavia a Inquisiçom atuou contra os judaizantes de toda Galiza ao longo dos séculos XVII e XVIII, mantendo deste jeito vivo e latente um espírito anti-inquisitorial que faz parte da nossa cultura popular, e da melhor tradiçom intelectual galega.

A Inquisiçom, engrenagem essencial do Estado absolutista, tentou apagar no Reino da Galiza a memória dourada da liberdade religiosa medieval, espalhando calúnias antissemitas e convertendo em infâmia a ascendência judaica dumha parte do povo galego.

O combate iluminista contra a mentalidade inquisitorial, e a definitiva dissoluçom do Santo Oficio em 1813, fruto dumha potente açom liberal que continuou até o século XX, criaram as condições ajeitadas para a recuperaçom da velha memória das raízes judaicas da Galiza. Ainda que nom será até a restauraçom da democracia, nos tempos presentes, quando o passado judaico se torne em galardom e motivo de orgulho de vilas, como Ribadávia, que recobram o seu esplendor graças à história.

O primeiro protagonista do renascimento da memória judaica em Ribadávia foi o advogado e escritor Leopoldo Meruéndano, alcalde de Ribadavia durante os anos 1900-1906. A sua obra Los judíos de Ribadavia (1915) teve um papel chave na tomada de consciência em Ribadavia, e na Galiza, sobre a história dos judeus.

O pulo cultural e democrático semiado na juventude ribadaviense polos sacerdotes Virgílio Rodríguez Silva, José Benito Rodríguez Sieiro e Miguel Fernández Grande, e os intelectuais Jesus Sánchez Orriols e Rubén García Álvarez, na derradeira década do franquismo, fez possível a constituiçom em 1969 da Asociación Cultural Abrente, e mais tarde do Centro de Estudos Medievais de Ribadávia em 1989, associaçom que faz da historia e da reivindicaçom judia os principais eixos da sua atividade.

En 1989 organiza-se também a “Festa da Istória” com a participaçom do povo de Ribadávia com vestidos da época medieval. A partir desta primeira ediçom, representou-se várias vezes na Praça Maior o processo de Ribadávia e a morte do malsim Gerónimo Bautista de Mena. Aliás, na ediçom de 1993, e noutras posteriores, encenou-se um casamento sefardita.

Em outubro de 1991, em vésperas do 500º aniversário do decreto de expulsom, celebrou-se o Congresso Internacional “Judeus e conversos na história”, que situou a Ribadávia no cerne da investigaçom académica mundial sobre as comunidades judaicas, judaizantes e sefarditas na história.

Hoje em dia Ribadávia, capital da Galiza judaica, representa aos galegos na Ruta de las juderías junto a Toledo, Córdoba, Segovia e outras vilas espanholas.

Seguindo o exemplo da vila do Avia, outras cidades galegas desenvolveram ultimamente atividades divulgativas sobre a presença dos Judeus na história da Galiza.

* Neste artigo o Prof. Carlos Barros realiza umha cronológica da presença judaica na Galiza desde os séculos X-XXI.

** Os textos originais foram redigidos polo autor em 2002 para a exposiçom permanente do Centro de Informaçom Judaica, localizado na Casa dos Condes, em Ribadávia, Galiza.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

GALIZA JUDAICA

Prof. Carlos Barros
Historiador da Universidade de Santiago de Compostela
Casa do Judeu de Quintela, Cabanelas, Carvalhinho. MANUEL GAGO
Segundo Américo Castro, cristãos, mouros e judeus constituiram Espanha na Idade Média, época histórica decisiva para a formaçom nacional da Galiza, ainda que nom podamos falar neste caso tam claramente numha convergência de três culturas, especialmente se considerarmos a praticamente nula presença árabe na Galiza medieval.

Dá-se o aparente paradoxo de que nom houve Mouros na Galiza histórica mas eles estám bem presentes na mentalidade popular como mouros imaginários, os seres míticos que habitam nos castros; enquanto sim houve judeus galegos e, no entanto, se recordam hoje em dia como algo alheio a nós, quando nom como umha maneira de escarnecer e maldizer a este ou àquele. Com esta exposiçom queremos contribuir para a recuperaçom da nossa historia real, quer dizer, plural.

Judiarias

As comunidades judias na Galiza medieval foram pouco numerosas mas avonde significativas na vida social de concelhos como Ourense, Ribadávia ou Allariz. Caso se conservasse mais documentaçom municipal daquele tempo com certeza confirmaríamos noutras cidades (na Corunha, por exemplo) a influência económica e política judaica. Contodo, a consequência mais proeminente da presença dos Judeus na Idade Média galega está nas mentalidades colectivas.

Conforme formos na Península para o Norte e Oeste diminui o número de judeus, se bem dispomos de mais dados sobre Galiza que sobre o resto da cornija cantábrica. No tocante ao tamanho, as judiarias galegas assemelham-se, portanto, mais à Europa do que à Espanha, e quando em 1391 se desatam as matanças de judeus na Andaluzia, Castela e Aragom, Galiza seguirá fiel à tradicional tolerância medieval entre cristãos e judeus até uns anos antes do édito de expulsom de 1492.

Precisamente nas listas de impostos reais de 1474 a 1491 aparecem comunidades judaicas em Alhariz, Baiona, Betanços, Coruña, Monforte, Ourense, Pontedeume, Ribadávia e Ribadeu. Outras fontes medievais falam em judeus em Tui, Lugo, Ponte Vedra... Aliás, está documentada presença judaica no mundo rural nos cartulários dos mosteiros de Cela Nova (século XI) e de Sobrado.


En 1492, do arcebispo de Santiago dependia a judiaria de Cacabelos no Berço, havia também judeus na mesma Compostela medieval? O mais importante historiador dos judeus na Espanha cristã, Yitzhak Baer, deixou escrito que "no lugar santo para toda a Cristandade onde se ia pregar no túmulo do apóstolo, só no século XV há constância da existência de judeus e em número escasso". Seja como for, o Caminho de Santiago, cosmopolita, esteve aberto aos judeus que sen dúvida o percorreram: no Códice Calixtino o Papa Leom interroga-se como pode haver alguém no mundo que "nom deseje amparar-se no patrocínio de Santiago" e passa lista a todas as nações -mormente bárbaras- que está a vir a Compostela, significativamente começa polos Francos e remata com os "Judeus e as demais gentes inumeráveis de todas as línguas"; confirma a existência de judeus peregrinos um hino do século XI em latim, grego e hebraico que o padre Fita publicou há anos e mais unha lápide encontrada em Leom onde, em hebraico, se conta como um judeu foi assassinado no Caminho de Santiago na época de Gelmires. Chegando à catedral os peregrinos judeus podiam contemplar no Pórtico da Gloria, e na Porta de Pratarias, os seus patriarcas Moisés e Aarom; os seus profetas Isaías, Geremias, Oseias, Joel, Amos, Obadias; o Rei David; e outras imagens que representam o povo judeu de forma bem diversa ao estereótipo antissemita que via acima de todo no povo de Israel o povo deicida que crucificou o filho do Deus. Outro signo mais da tolerância mútua entre ambas as religiões do livro no reino medieval da Galiza.

Passado o tempo, em pleno rigor inquisitorial, no século XVII, Santiago de Compostela será a única sé galega que tenha um estatuto de limpeza de sangue que obrigava a todos os aspirantes a entrar no cabido da Catedral a demonstrar que nom tinham sangue de judeu ou converso na sua linhagem...

Pegadas

Das referências aos judeus galegos que tiramos nas fontes narrativas, cabe sublinhar o que diz o cronista Froissart, que acompanhava as tropas do Duque de Lencastre que tomam Ribadávia en 1386: "Assim foi a vila de Ribadávia ganhada à forza, e houveram os que là entraram, grande botim de ouro e prata em especial nas casas dos Judeus". A impressom que teve o cronista francês da importância da judiaria de Ribadávia fez com que exagerasse notoriamente o número de judeus (1.500).

No tocante aos restos materiais, conservam-se três lápides do cemitério judaico da Corunha, anteriores ao século XII, com inscrições hebraicas de três defuntos chamados dona Justa, dona Çeti e Abrahám. Ao contrário, nada sabemos do que se encontrou em 1500 ao se remover o cemitério judaico de Alhariz (túmulos de pedra em forma de cadeira, lápides em hebraico, restos de corpos em posiçom sedente com vestimenta ritual e joias de ouro e prata). Do ponto de vista arqueológico está ainda todo por fazer relativamente aos cemitérios e sinagogas judaicas na Galiza.

Referências documentais ajudaram a localizar o prédio da sinagoga (na rúa que vai da Praça Maior à igreja da Madalena) e do bairro judeu de Ribadávia (entre o castelo e a muralha).

Noutros lugares da Galiza a memória da existência judaica está bem patente na toponímia. Mas onde se encontraram as lápides corunhesas, na cidade velha, temos unha rua chamada "Sinagoga"; parecida proximidade cemitério-casa do oraçom dá-se em Alhariz, onde é popularmente conhecida como "Sinagoga" a Rúa Acenhas. Umha aldeia da paróquia de Caberta (Mugia) tem o nome de Sinagoga, e assim mesmo fincas em Sobrado e Doncide (paróquia de Silva no município de Pol). Existem outros topónimos que provavelmente fazem referência a unha presença histórica judaica: a Rua Batizados em Santiago, o lugar de Sión (Sião) na paróquia de Ribeiras do Sor (município de Manhom), etc. O mesmo se poderia dizer da antroponímia: muitos dos nomes bíblicos (David, Salomom, Moisés, Abrahám, Jacob..), que na documentaçom medieval de Ourense e Lugo, por exemplo, pertencem a judeus, seguem em uso hoje, outros perderam-se como Judá e Donouro.

Galiza tolerante

Um sartego com a estrela de David e outras inscrições significativas, encontrado no lugar de Vilar (paróquia de Servoi, município de Castrelo do Vale), permite-nos datar a existência de judeus na Galiza desde o século IV até o final do século XV. Estamos em condições de afirmar que a tolerância dominou durante um milénio as relações entre cristãos e judeus. Já o fizeram notar outros autores que escreveram sobre os judeus galegos como a nota mais original da passagem do povo escolhido do Antigo Testamento pola Nossa Terra. Dizemos tolerância porque coexiste com manifestações de antijudaísmo (e por outro lado, de anticristianismo), que se mantêm a níveis suportáveis. Este domínio da hostilidade por parte do convívio tornou-se patente no século XV: enquanto se reproduziam ciclicamente pogroms no resto da península no reino da Galiza no apenas continuaram as relações pacíficas, mas nalguns lugares incrementaram-se. Na Galiza nom há nem matanças populares de judeus nen conversões forçadas ao cristianismo (até o grande êxodo de 1492).
Estrela de David na igreja da paróquia de Sta. Maria de Magazos, Viveiro
Existe um documento exemplar assinado a 20 de maio de 1289 polo concelho de Alhariz e os seus párocos, ante o representante real na vila, com Isaac Ismael, "Judeu Maor dos xudeus moradores en esta vila", para regular o convívio pacifico de cristãos e judeus. Muito depois, quando se agudizam as tensões sociais a tolerância chega a se transmutar em fraternizaçom. No Ourense do ano 1457 na festa de casamento dum fidalgo, os cristãoss convidam os judeus, contradizendo a legislaçom vigorante, e conseguem, aliás, a reconciliaçom de duas famílias judias enfrentadas; dez anos depois, em 1467, a direçom local dos irmandinhos bota um pregón para que "leigos e clérigos, judíos e mouros, fosen derribar o castelo Ramiro". Já na década de oitenta, o Concelho de Ourense resiste-se a aplicar o decreto que obrigava a afastar os judeus na Rua Nova (algúm deles refugia-se em 1488 em Alhariz para safar essa marxinación). Asim por diante até 1492.

Os Reis Católicos decretam a 31 de março de 1492 a expulsom nos reinos de Castela e Aragom de todos os judeus que nom se quiserem batizar. Temos para nós que os mais dos judeus galegos se converteram ao cristianismo, e seguiram a praticar clandestinamente a sua religiom com a conivência dos seus vizinhos cristãos. Outros exilaram-se para nom renegarem publicamente da fé dos seus antepassados. Assim sendo, o ourive da Corunha Isaac foi denunciado em 1493 por se embarcar para o exilo com ouro, prata e mais tesouros, o que estava proibido; nom foi o único caso, os representantes reais na Corunha, bem como mercadores e capitães de barcos do seu porto, resultaram ser cúmplices da fugida clandestina de judeus galegos e doutros lugares. Na linha dumha tradiçom de convívio que chocava na Galiza com a tradiçom de perseguiçom que tentava impor o conhecido decreto estatal e o estabelecimento da Inquisiçom. Faltava na Galiza umha vaga de antissemitismo popular que servisse ao Santo Ofício e ao novo Estado para apoiar e justificar o seu labor depuratório.

A Inquisiçom na Galiza

No reino da Galiza podemos considerar instalada a Santa Inquisiçom na altura de 1574 (o Tribunal de Santiago foi o último em se estabelecer), quase um século depois da sua fundaçom em Castela. Um reflexo serôdio pois do desfase medieval entre umha Galicia tolerante e umha Castela medieval cunha tendência mais marcada ao antijudaísmo. A resistência galega ao Santo Oficio é global, duradoura e num princípio bastante efetiva. Para além dumha constante e difusa resistência popular, a Inquisiçom que vinha de Castela tem múltiplos confrontos com os concelhos, os oficiais reais e a própria Igreja galega. De facto, o Tribunal nom encara decididamente na Galiza o problema dos judaizantes até que os imigrantes portugueses obrigam a tomar, no século XVII, cartas no assunto. Isto é, que depois da conversom forçosa de 1492 decorre quase um século antes de que sejam reprimidas as práticas religiosas e os costumes dos nossos judeu-conversos.

O processo inquisitorial de Ribadávia (1606-09) encetou com a denúncia feita por Jerónimo Bautista de Mena contra 200 vizinhos (incluída a sua família) por judaizarem e acabou com a condenaçom de 42 deles. Por enquanto, o tal Jerónimo, que chegara a estudar a lei de Moisés nas sinagogas de Veneza, Pisa e Tessalônica, portanto, um grande malsim (traidor) para os seus, apareceu morto na vila. As práticas denunciadas foram: trabalhar e vestir roupa limpa no sábado (o dia santo judaico), acender o candelabro e cambiar a muda da cama a véspera, nom comer carne de porco, sangrar a carne, jejuar em setembro, etc. O grupo mais numeroso dos judeu-conversos condenados na vila do Ávia eram jovens de 20 a 30 anos; os 77% dos culpados eram de Ribadávia e doutros lugares da Galiza, e 23% portugueses; no total, entre 1492 e 1606 a religiom judaica praticou-se e transmitiu-se de pais para filhos, mantendo-se para tal fim umha boa relaçom com as sinagogas da Itália, Grécia e França (Baiona). Escusado será dizer que a maioria dos judaizantes de Ribadávia detinham certa posiçom social: mercadores, regedores, funcionários, médicos, boticários, advogados, estudantes...

Em 1680, no Auto General de Fé celebrado em Madrid participam 21 judaizantes vizinhos da Galiza, aqui som maioria os procedentes de Portugal (como Juan Bautista Pereira, 37 anos, tratante, natural de Monforte de Lemos mas originário de Portugal).

Existem também casos de cristãos velhos convertidos ao judaísmo, Caro Baroja noticiou o caso dum clérigo da catedral de Ourense, Jacinto Vázquez Araújo, que em 1687 declarou a sua crença na lei de Moisés, sendo ato contínuo denunciado, foge a pé rumo para Madrid, mas fica preso pola Inquisiçom perante a qual declara voluntariamente por escrito, o que nom o livrou mais tarde da tortura porque nom se queria emendar. Confessou valorosamente Jacinto que "aunque toda su familia han sido Christianos viejos, este confte. quiere ser Judío nuevo". Nom tinha muitos conhecimentos da religiom judaica, salvo o que aprendera num panfleto antissemita que lera, mas reinvindicava que "en defensa desta Ley de Moyses se han sacrificado muchos hombres que a quemado el Santo Oficio de la Inquisición y mujeres que con ser del sexo fragil y pusilamines se han arrojado a las llamas". O nosso judeu novo cumpria a sua maneira com os ritos judaicos -mesmo no cárcere inquisitorial- e pedia a Deus nas suas orações liberdade e piedade para o povo de Israel "repartido por varias partes del mundo, y perseguido de los cristianos y otras naciones", dedicando os seus jejuns aos mártires da Inquisiçom. Depois de torturado, teimoso, berrava que queria morrer na lei de Moisés. Como tornava sempre à sua fé no judaísmo, cuidavam que endoidecera e mandaram vir aos médicos que, porém, acreditaram que estava no seu são juízo. Nos finais de 1688 foi condenado a cadeia perpétua e a levar o sambenito, degradado verbalmente, perdeu os seus bens e o seu hábito. Um personagem extraordinário digno da nossa memória colectiva.


Tradições

A imagem negativa dos judeus na Galiza é um fenómeno moderno, vinculado à perseguiçom levada a cabo pola Inquisiçom nos séculos XVII e XVIII; é entom quando começam a correr histórias imaginárias de rituais anticristãos: sacrifício dumha criança cristã (Lugo), imagens de Cristo açoitadas (Monforte, Ribadávia), profanaçom de hóstias consagradas (Ourense). Falsas acusações que alastraram a má fama do judeu, que passou a ser considerada palavra injuriosa e malsoante. Embora também a Inquisiçom teve muita má fama em determinados médios populares e cultos do Antigo Regime. Tradiçom alternativa que deu lugar no século XIX a celebrações reivindicativas do passado judeu e judeu-converso da Galiza.

A mais conhecida é a festa da História de Ribadávia, que tinha lugar em setembro, quando a Virgem do Portal, e consistia na representaçom por parte dos vizinhos dum episódio da história do povo de Israel, como a batalha contra os Filisteus, onde morre o rei Saul, berrando entom a todos os presentes o diretor da representaçom: "Chorai, filhos de Jerusalém, a morte do vosso rei Saul"; segundo conta Meruéndano. A Festa da Historia foi recuperada recentemente. Em 1992 foi representado o processo inquisitorial de 1606-1609 e a morte do malsim Jerómino Bautista de Mena. Em 1993 representou-se um casamento judaico.

Original: Galicia xudía, Santiago, Concelho de Santiago, 1994, 29 pp. (Folheto da exposiçom no Paço de Bendanha, abril/maio de 1994).

quinta-feira, 15 de maio de 2014

ISRAEL DECLARA "INIMIGA" À GALIZA

Desde a sua criaçom, o Parlamento galego nunca se tem caracterizado polo seu compromisso com a soberania nacional da Galiza nem pola defesa dos seus direitos nacionais. 

Muito diferentemente das outras nações sem Estado existentes no Estado espanhol, a hegemonia política na Galiza corresponde às forças que defendem a unidade de Espanha ou mesmo negam a existência dum conflito Galiza-Espanha em termos nacionais. Nem sequer no breve período progressista (2005-09) em que o nacionalismo galego participou no governo galego (Junta da Galiza), o Parlamento galego jamais adoptou qualquer resoluçom em prol da soberania nacional.

Porém, agindo como se nom existisse umha questom nacional galega, no passado dia 6 de maio TODAS AS FORÇAS com presença do Parlamento galego (unionistas e soberanistas) aprovaram umha Declaraçom Institucional com motivo do aniversário do início do êxodo do povo palestiniano. 

No que resulta, já agora, umha atitude muito espanhola de querer ser mais papista que o Papa, a declaraçom feita polos deputados autonómicos galegos aponta umhas exigências que Israel deve cumprir para chegar a umha resoluçom do longo conflito israelo-palestiniano:

"- o cumprimento das resoluções da ONU
- o respeito absoluto dos direitos humanos de palestinianos/as
- o respeito absoluto dos direitos colectivos do povo palestiniano
- o reconhecimento do direito ao retorno das pessoas e comunidades às terras e casas de que foram expulsas".

Logo a seguir, essa Declaraçom oficial acaba referindo que "o Parlamento da Galiza nom irá poupar esforços em contribuir desde a Galiza para construir umha ordem internacional justa sob o apoio da legalidade internacional, um mundo no que a força fique sempre submetida ao direito". Isto é, o Parlamento galego em vez contribuir para que as partes encontrem umha soluçom ao conflito na sequência do Processo de Paz em que estám envolvidas e apoiar o Acordo ao que se chegue, entra em cheio em certos aspectos ou linhas vermelhas que dificultaram até agora a soluçom do conflito.

Umha vez conhecida a declaraçom, Alon Bar, o embaixador de Israel no Reino de Espanha e em Andorra, remetou a 9 de maio umha carta à Presidência do Parlamento galego mostrando a sua surpresa polos termos em que está redigida a Declaraçom. 
Alon Bar. Foto. Adrià Costa
Segundo o embaixador israelita com esta declaraçom o Parlamento da Galiza coloca-se entre os piores e mais extremos inimigos de Israel ao pretender impor o retorno dos refugiados palestinianos, pois a implementaçom disso suporia a desapariçom do Estado de Israel. "Com essa postura, o Parlamento da Galiza situa-se fora do que é o consenso da UE sobre os parâmetros do futuro acordo de paz entre palestinianos e israelitas e das posições defendidas polos sucessivos governos de Espanha". A carta do diplomata israelita finda frisando que "umha declaraçom com estes conteúdos e focagens, aprovada polo Parlamento da Galiza precisamente no dia do aniversário da Independência de Israel, apenas serve para favorecer as posições mais extremistas dos que perseguem a desapariçom do Estado de Israel".

Esta tomada de posiçom constitui um grave erro dos representantes legítimos do povo galego que, mais umha vez, agem contra os interesses da Galiza. Especialmente os dez representantes que dizem representar a consciência nacional deste povo oprimido (7 deputados do BNG e 3 de ANova-IN) que, sem dúvida, vangloriar-se-ám polo seu "golpe ao imperialismo" mas que, na prática, fecham as portas a um país que pode ser aliado, como o está a ser na Catalunha, na causa da libertaçom nacional. Com certeza, cabe lembrar as declarações de Musa Amer Osed, embaixador da Palestina em Madrid, quem chegou a afirmar que "umha Espanha unida apoia melhor a causa palestiniana".

Muito diferentemente do caso galego, os representantes nacionalistas do povo catalão que estám a liderizar um movimento secessionista em marcha (CiU e ERC), gozam de boas relações tanto com o povo Judeu quanto com o Palestiniano. De facto, no passado 3 de junho de 2013 a Comissom de Açom Exterior, Uniom Europeia e Cooperaçom (CAEUEC) recebeu Alon Bar, ao que lhe trasladaram os pormenores do movimento independentista em marcha. Nessa reuniom o diplomata israelita manifestou, literalmente, que "Israel vai respeitar a vontade expressa pola Catalunha", interiorizando ato contínuo quais som as procuras catalãs de que seja respeitada a vontade e que se permita a sua expressom democratica através dum referendo. A diferença doutros governos ocidentais, a mídia espanhola tem destacado em múltiplas ocasiões a recusa de Israel a criticar o movimento soberanista catalão que, por outro lado, tenciona abrir em breve um consulado israelita em Barcelona.


Reações na Galiza

Ao abrigo do acontecido, a presidenta do Parlamento galego distribuiu a carta entre os porta-vozes das distintas forças políticas representadas nessa câmara. 

Assim sendo, embora o porta-voz do Partido Popular, recusou inicialmente valorizar a resposta diplomática, o Presidente da Junta da Galiza, Alberto Núñez Feijóo, lembrou que os termos da declaraçom "está dentro das resoluções da ONU", lamentando a "má interpretaçom". O presidente conservador defendeu que "o povo galego nom procura nem procurará qualquer conflito", mas que visa enviar "umha mensagem de respeito a todos os povos". "Admiramos e respeitamos o povo israelita, a sua laboriosidade, e somos conhecedores das calamidades que sofreram ao longo da História", frisou ele.

Por outra parte, o porta-voz do Grupo parlamentar do PSOE, J. L. Mendez Romeu, qualificou a resposta de "desproporcionada", reiterando que a declaraçom unânime foi aprovada numha "data muito simbólica". Ele lembrou outras declarações semelhantes "como a que condena o Holocausto aprovada no mês de janeiro" e que põe de manifesto a postura socialista de comprometer-se com a paz e com o cumprimento das resoluções da ONU.

Para Xosé Manuel Beiras, porta-voz de AGE conhecido entre os meios da extrema-direita mundiais por ter vetado no ano passado umha resoluçom de condena do genocício nazista por parte do Parlamento galego, a resposta do embaixador israelita é "totalmente inadmisível que o diplomata israelita cometa umha ingerência nas decisões soberanas do parlamento galego". O velho líder nacionalista criticou que o Estado de Israel "leva decénios incumprindo sistematicamente as resoluções da ONU e  e cometendo etnocído e genocídio contra o povo palestiniano". Por se havia dúvidas, "é o Estado judeu, nom o povo judeu, o que se comporta de maneira extremista e submete a um regime de apartheid aos palestinianos em Gaza ou Cisjordânia". Coerente com a sua aliança politico-eleitoral com a esquerda espanhola, o ex-independentista galego manifestou-se em prol da existência dum único estado binacional judeu-árabe ao exprimir o seu desejo de que "algum dia um Estado laico garanta o convívio dos povos palestiniano e Israelita".

Para o BNG, formaçom política que também se tem negado a condenar o genocídio nazista contra os Judeus ou que mesmo chegou a expulsar do seu seio a militantes nacionalistas por fazerem parte dumha associaçom de amizade com Israel, mostrou-se muito duro ao qualificar de "impresentável" a carta enviada pola Embaixada de Israel. O seu porta-voz, F. Jorquera Caselas, anunciou que o BNG vai pedir na próxima junta de porta-vozes do Parlamento galego que se encaminhe umha resposta "reprovando" a atitude de Alon Bar.

Em geral, os grupos políticos representados no Parlamento galego nom compartilham a opiniom do embaixador israelita.

Galiza antijudia


A imagem negativa dos Judeus na Galiza nom é um fenómeno novo; está ligado tanto ao processo de castelhanizaçom/espanholizaçom (de facto, o Reino da Galiza era muito tolerante com os Judeus) quanto à perseguiçom levada a cabo pola Inquisiçom nos séculos XVII-XVIII. Posteriormente acrescentar-se-ia a propaganda nacional-católica e antissemita espalhada durante quarenta anos polo regime nazi-fascista de Franco. 

Paradoxalmente é o nacionalismo galego bregado no combate antifranquista e que se chama de esquerdas o que, ao igual que a esquerda espanhola operante na Galiza, defende maioritariamente posições antissionistas que abeiram o velho antissemitismo. Destarte para os antissionistas é o Estado de Israel de hoje que corporifica o Judeu eterno de outrora dos antissemitas como bode expiatório da sua impotência para interpretar umha realidade complexa que os supera.

sábado, 19 de abril de 2014

O PROCESO DO MALSIM CONTRA OS CRISTÃOS-NOVOS DE RIBADÁVIA

As primeiras visitas da Inquisiçom espanhola a Ribadávia nom se produzem até 1595, um século depois da expulsom dos Judeus.

O processo de Ribadávia recebe o nome da alcunha com o que era conhecido um cristão-novo, Jerónimo Bautista de Mena, vizinho desta vila. Pessoa inadaptada, de carácter volúvel e agressivo, foi enviado para Veneza, Pisa e Tessalónica, onde aprendeu a lei judaica e se circuncidou, mas, de regresso à Galiza, manifestou a sua inadaptaçom recorrendo ao Tribunal da Inquisiçom.

Assim sendo, em outubro de 1606 entregou ao Santo Ofício umha lista com 200 pessoas acusadas de seguir a praticar o judaísmo apesar de se terem convertido ao cristianismo. O malsim (do hebraico mashlin, isto é, delator, traidor) denunciou à sua própria mãe, Ana Mendes, morta mais de dous anos atrás, os seus irmãos de 15 e 13 anos, às suas irmãs e cunhados, para além de delatar a várias famílias de mercadores, como a de Fernão Gomes, médicos, vereadores, oficiais de justiça, estudantes, médicos ou advogados.

Em 1607 foram praticadas a maioria de detenções, já que muitos dos denunciados fugiram, altura em que Jerónimo Bautista, o acusador, rejeitado polo seu grupo originário, apareceu assassinado numha rua sem se conhecerem os seus autores. Polos calabouços secretos da Inquisiçom, sediada no convento de Santo Domingos, passou grande parte da vizinhança da vila para ser interrogada ou torturada. Mesmo houve casos de heroísmo, como o de Maria Vasques, de 60 anos, que nom delatou a ninguém apesar das graves torturas às que foi submetida.

Convento de Santo Domingos de Ribadávia
Nem todos os perseguidos neste processo eram vizinhos de Ribadávia (19), ainda que alguns eram de Portugal (10) como, por exemplo, Leonor Gomes, de 68 anos e natural de Vila Flor ou António de Morais, natural de Mirandela de 36 anos. Também se testemunham processados de Ourense (4), Ponte Vedra (2) e Verim (1). 

Os acusados exerciam profissões muito diferentes e foram objeto de investigaçom tanto um "graduado em artes e medicina" como um mercador de peixe e outro de panos ou Duarte Coronel, pertencente a umha ilustre família de judeus de Salvaterra do Minho e vizinho de Ribadávia, pois casara com Ana de Mena. Foram condenadas um total de 42 pessoas, tanto homens quanto mulheres de todo tipo de idades, acusados todos eles de "terem vivido na lei de Moisés".


Em 11 de maio de 1608 celebrou-se na praça da Quintana de Santiago de Compostela um grande auto-da-fé com 28 acusados de Ribadávia, sendo queimados Filipe Álvares e o seu filho António Mendes. Posteriormente, a 22 de fevereiro de 1609, celebrou-se um novo auto, com mais sete réus procedentes de Ribadávia.

Porém, as investigações do Santo Ofício fizeram com que as suspeitas caíssem mesmo sobre o próprio acusador, chegando-se a desenterrar o seu corpo e a queimar as suas ossadas por heresia em agosto de 1610. Nesta última fase do processo, iniciada em setembro de 1609, também foram condenadas a memória e fama de Branca Vasques, Ana Mendes e Marcos Lopes, já todos defuntos, ao tempo que se ordenava a confiscaçom dos seus bens e que fossem queimados em "estátua".

O processo de Ribadávia, que envolveu quase metade da populaçom da vila, supôs umha comoçom enorme para umha populaçom tam pequena.

Casa da Inquisiçom de Ribadávia, no fundo da R. S. Martinho
Durante a Festa da Istória que cada ano se celebra em Ribadávia para comemorar a presença judaica nesta vila galega tem lugar umha cenificaçom teatral baseada neste caso. O argumento serve de escusa para apresentar umha reconstruçom da vida dos conversos nos inícios do século XVII.

No quadro dos eventos da XII Jornada Europeia da Cultura Judaica, em 2009 colocou-se umha placa comemorativa deste infame processo.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

JUDIARIAS DE PORTUGALIZA

JUDIARIAS DA GALIZA

MONDONHEDO
Magazos / Viveiro

BETANÇOS

CORUNHA

SANTIAGO DE COMPOSTELA

LUGO

OURENSE
TUI

JUDIARIAS DE PORTUGAL



ENTRE-DOURO-E-MINHO
Braga
Vila Nova de Famalicão
Matosinhos
Arrifana

TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
Carção    
Miranda do Douro
Rio Frio
Sambade - Alfândega da Fé
BEIRA
Caria
Idanha
Monforte
Oleiros
Proença
Sarzedo
Segura
Vilar Maior
Buarcos
Condeixa
Lagos da Beira
Almendra
Castanheira
Castelo Bom
Covilhã
Escarigo
Freixedo
Salvaterra
Vila Franca das Naves
Vila Cova à Coelheira / Vila Nova de Paiva

ESTREMADURA
Palmela

ALENTEJO
Garvão
Odemira
Ourique
Mourão
Serpa
Avis
Benavila
Crato

ALGARVE
Aljezur
Alvor
Alcoutim
Loulé
Porches
Portimão
Silves