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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

JUDEUS GALEGO-PORTUGUESES DE SALÓNICA

Aquando o édito de expulsom de 1492, o sultám Bayezid II, convida os judeus sefarditas dos reinos de Espanha a se transferirem com as suas propriedades para o Império Otomano. Falando na política espanhola referente aos Judeus, o sultão afrma ironicamente: "Pode você chamar esse rei de sábio e inteligente? Ele está a empobrecer o seu país e enriquecendo o meu reino".
Salónica no século XVII. Foto: EternaSefarad
Com certeza, os Judeus receberam a promesa de que no Levante teriam total liberdade de praticar a sua religiom, falar a sua língua, bem como organizar-se e dirigir as suas próprias comunidades. Em consequência, o sultão decreta que os seus governantes deveriam receber os Judeus com todas as facilidades possíveis e condena à morte a qualquer ameaça à sua segurança.

Essa certa autoorganizaçom inseria-se no modelo turco de de millet, ou comunidade étnico-religiosa, forma pola qual os Turcos dirigiam um império pouco centralizado, multiétnico e multirreligioso, oferecendo umha relativa autonomia para cada grupo.

Ao cabo dum ano chegam a Salónica mais de 20.000 Judeus sefarditas procedentes dos distintos reinos hispânicos. 

Estabelecidos na cidade, cada comunidade postou-se em separado no seu próprio bairro, como constituindo pequenos "estados" independentes, consoante as suas origens, ao redor dumha grande praça central comum a todas elas. Essas congregações eram chamadas polos seus nomes ibéricos das cidades, países ou regiões donde provinham, por nomes de famílias ou por algumha homenagem que quisessem prestar ou evento a lembrar. 


A partir de 1497 optaram por Salónica como terra de refúgio, juntando-se às comunidades sefarditas vindas de Espanha, os Judeus expulsos de Portugal num êxodo continuado que se acelera logo depois do ‘pogrom’ de 1506 em Lisboa, que provocou centenas de mortos. 

Assim sendo, em 1510 é fundada a sinagoga Lisboa polas famílias que chegaram de Lisboa, em 1525 a sinagoga Portugal, em 1535 a sinagoga Évora polos que vieram de Évora e em 1536 a sinagoga Lisboa Hadash (nova) para diferenciá-la da fundada em 1510, que doravante passou a ser chamada de Lisboa Yashan (antiga). Em 1560 os judeus portugueses fundaram umha quarta chamada Yahia (ou Leviat Chen ou Seniora) e provavelmente criaçom de Dona Gracia Mendes Nasi (nascida em Lisboa) para judeus de descendência portuguesa convertidos ao catolicismo. Mais tarde tornar-se-ia na sinagoga dos ‘estrangeiros’, que chegaram num período mais tardio e nom pertenciam a nengumha das sinagogas existentes. 

Os Judeus galegos instalaram-se em Salónica a partir dos finais do século XV e fundaram em 1575 a sinagoga Beth Aharon, localizada no distrito de Vardar.


Cada sinagoga também refletia rivalidades pessoais, divergências nos rituais de celebraçom, problemas com os negócios. E consumava-se a separaçom, o que explica, por exemplo, a existência dumha sinagoga Lisboa Yachan (antiga Lisboa), fundada em 1510, e a apariçom em 1536 dumha Lisboa Haddach (nova Lisboa)

Cada sinagoga tinha a sua família relacionada, o que permite identificar alguns apelidos com provável descendência galego-portuguesa. Assim, a sinagoga Lisboa Yashan (antiga), era frequentada polos Afias, Benforado, Benveniste, Eskaloni, entre outras famílias. A Lisboa Hadash (nova) polos Abravanel, Alvo, David ou Saporta. A sinagoga Évora pelos Altaras, Ergas, Bivas, Maloro, Pinto, Ovadia, Attias, Rouvio ou Amarillio e a de Portugal polos Atias, Perera, Medina, Melo, Ferreira, Antunes, Raphael, Pereire, Paraira, Arari, Rangel, Miranda, Boueno, Hernández, Pera, Pérez, Pinto, Preciado, Santo, Vilar, entre polo menos 25 famílias. Na de Dona Gracia, compareciam mais de 40 famílias. A da Galiza era frequentada polas famílias Cassouto, Pardo, Saragoussi, Toledano, Franco, Avayou, Israel, Leal, Sadoc, Zadoq, Cadoc, Cadoche, Cadoches, Cados, Kados, Cadosch, Kadosh ou Qadosh.

Relativamente à presença de Judeus galegos em Salónica existem duas hipóteses. Por um lado a tese, recolhida por Álvaro Cunqueiro num artigo que dava conta do primeiro simpósio de estudos sefarditas celebrado em Madrid em junho de 1964, a comunidade galega era muito fraca em número, e, embora com cum pequeno bairro e praça particular, nom fundaram umha sinagoga chamada de "Galegos", mas ter-se-iam filiado à sinagoga dos aragoneses. Por outro lado, outros estudiosos nom apenas ligam a comunidade judaica galega à referida sinagoga Beth Aharon, mas referem os apelidos das famílias que a frequentavam, entre os quais os Pardo, Cassouto ou Leal.

Os sefarditas espanhóis, catalães ou vindos da península itálica também tinham os seus próprios templos, chamados Aragom, Castilha, Catalão, Itália ou Sicília.  Estes sefarditas, conhecidos de sefarditas orientais, exprimiam-se em ladino ou judeu-espanhol, com origem no castelhano de entom e ao qual foram acrescentando diversas expressões em turco, grego, mesmo em hebraico. Seria a sua língua veicular de comunicaçom até ao século XX.

A chegada de imigrantes foi tam elevada que em 1519 os Judeus constituam os 56% da populaçom, passando para 68% na altura de 1613.

A diferença do que acontecia noutras grandes cidades do Império otomano, nas que comércio estava principalmente en mãos de gregos e arménios, em Salónica eram os Judeus que o controlavam. De facto, o porto e o comércio nom abriam em sábado (festa de shabat). A atividade económica relacionava a Salónica com o resto do Imperio Otomano, mas também com os estados italianos de Veneza e Génova, bem como com todas as comunidades judias do Mediterráneo, Flandres ou Golfo de Gasconha. Prova da grande influência dos judeus de Salónica sobre os negócios da zona foi o boicote, em 1566, ao porto de Ancona, dependente dos Estados Papais, após o auto-da-fé de 25 "marranos" portugueses ordenado polo Papa Paulo IV.

Os Judeus de Salónica faziam parte de todos os setores económicos e nom se limitavam a especializar-se nalgum particular, como ocorria nos locais em que eram minoria. Assim sendo, havia judeus em todos os niveis da escala social, desde portadores até grandes empresários. Caso praticamente unico na diáspora judaica é que em Salónica havia um grande número de pescadores judeus.

Durante o século XVI floresce em Salónica o artesanato têxtil, mormente a indústria dos lanifícios. Por volta desta industria viravam numerosos ofícios: tecedores, tintureiros, prensadores, aprestadores, cardadores e outro operariado especializado ocupado por judeus. Este florescimento económico atraiu rabinos, médicos, poetas, comerciantes, intelectuais de toda cepa e estudantes de todos os cantos, ganhando Salónica a reputaçom de cidade Mãe de Israel. Em 1558 fixa-se em Salónica o médico Amato Lusitano para dar aulas na escola de medicina.


Mas nom apenas como artesãos os judeus progrediam, já que em funçom das suas qualidades e conhecimento umha elite logo passou a ocupar cargos militares e administrativos junto ao Sultám. O crescimento do comércio com a Europa tornou-os embaixadores, emprestadores de dinheiro e banqueiros, ao serviço do Sultám e para os governadores locais. Experiência adquirida em Sefarad, emprestaram os seus dotes como angariadores de impostos, tornando-se imprescindíveis em várias regiões do Império. O exemplo mais notável foi o financeiro e milionário Dom Josef Nasi ou João Mendes, que construiu para os turcos umha eficientíssima rede de coleta de impostos na metade do século XVI. Considerado o maior banqueiro e empresário do Império, a sua eficiência e sucesso econômico fê-lo amigo íntimo de Suleiman e do seu sucessor Selim II, tendo sido nomeado Duque de Naxos em 1566 ou atuado em nome do Império turco em questões diplomáticas junto a Polónia, Itália e Espanha.

A chegada de imigrantes procedentes da Península Ibérica foi esmorecendo ao longo do século XVII, já que estes preferiam instalar-se, em lugar de em Salónica, em cidades da Europa ocidental como Londres, Amsterdám ou Bordéus, o que provocou um afastamento dos judeus sefarditas otomanos a respeito de Ocidente. 

Assim sendo, durante todo o século XVII-XVIII nom apenas se interrompe o fluxo de entrada, mas numerosos judeus de Salónica emigraram para Istambul, Israel e, sobretodo, para Esmirna, cuja atividade económica estava a despontar. Este processo nom foi alheio ao declínio da atividades comerciais que acarretou o declínio progressivo do Império Otomano, que entrou num estado de guerra continuada com vários países e povos. 

Na década de 1720-30 cristãos-novos portugueses, chamados de "francos" emigraram para Salónica. Com um elevado nível educativo, a maioria deles tratava-se de mercadores e banqueiros que se fixaram em Livorno. Considerados como intérpretes dos cônsules, nom pagavam impostos ao sultám. No início eles também recusaram pagar as taxas à comunidade judaica, mas afinal acabaram acedendo às exigências das autoridades comunais.

No século XIX peste e outros andaços (como o cólera que afetou a Salónica a partir de 1823), contribuiram também para a decadência da cidade e da sua comunidade judaica. No início do século XX havia aproximadamete 80.000 Judeus em Salónica (os 46,2% da populaçom total), na sua maioria descendentes dos judeus sefarditas hispano-portugueses.

Em 1912 Salónica deixa de ser turca e passa a ser grega. Com a conquista da cidade polo exército grego e consequente perseguiçom física generalizada aos súbditos otomanos (os sefarditas portugueses eram-no), surgiu um movimento que levou os Judeus da nação portuguesa a requererem a nacionalidade dos seus antepassados. Como «pátrias de acolhimento», selecionaram a Áustria, Espanha e Portugal.

Com autorizaçom do Governo português, o consulado luso em Salónica passou a emitir certificados provisórios de nacionalidade (passaporte com a validade de um ano, renovável) a quem o requeresse com base em prova documental da respetiva ancestralidade, com base nas declarações juramentadas de duas testemunhas ou polo conhecimento pessoal do Cônsul. Foram mais de 300 as famílias assim acolhidas, o que correspondeu a um milhar de pessoas. 

Fizeram parte deste grupo membros das famílias Angel, Amariglio, Almosnino, Abravanel, Benveniste, Barzilai, Covo, Cohen, Florentin, Levy, Molho, Misrahi, Nahmias, Pardo, Pinho, Segura, Saltiel, Strumza, Toron, Uziel e tantas outras. Alfredo de Mesquita, embaixador de Portugal em Istambul foi o grande obreiro desta missom de resgate.

Após as Guerras dos Balcães (1912-13), Salónica, isolada dos territórios interioranos que até entom servia como porto, perde a importância como porto do estados balcânicos, que se transferiu para o Pireu e Istambul. No entanto, durante a Primeira Guerra mundial tornou-se num centro dos soldados aliados.

Em agosto de 1917, um grande incêndio que se prolongou por dous dias e duas noites destruiu parte da cidade, atingindo em particular os bairros judeus. Casas, sinagogas, bibliotecas, arquivos, fábricas, escolas, foram devoradas polo fogo, ficando desalojados cerca de 55.000 judeus. O governo grego, que seguia umha política de helenizaçom da cidade, estava pronto para compensar os Judeus cujas casas foram destruídas, mas rejeitou permitir o regresso dos Judeus a algumhas áreas, o que causou que muitos deles abandonassem o país rumando para os EUA, França, Itália e Alexandria.

A troca de populaçom entre a Grécia e a Turquia fez com que chegassem milhares de refugiados gregos à cidade o que permitiu, desde 1922, a sua hegemonia económica ao aumentar a sua influência no comércio, o artesanato, a banca e os serviços públicos. Em consequência das políticas antissemitas implementadas polo governo grego (sistema eleitoral discriminatório, ataques ao bairro judeu de Campbell,...), na década de 1930 entre 15.000-18.000 Judeus de Salónica emigraram para Israel e um outro grupo de 15.000 para a França. Na altura de 1935, a comunidade judaica estava formada por 60.000 pessoas.

Em 1936, Lencastre e Menezes, o cônsul honorário de Portugal em Atenas é demitido por conceder documentos transformando em cidadãos portugueses judeus fugidos da Alemanha. Embora nom abertamente antissemita, a atitude do Estado Novo de Salazar foi a de dificultar ao máximo a entrada de refugiados judeus, impondo-lhes inúmeras exigências legais que tornavam a imigraçom praticamente impossível.


Na véspera da Segunda Guerra mundial em Salónica havia cerca de 52.000 Judeus, perto de 50.000 em 1941, no início da ocupaçom alemã da Grécia. Segundo documentos alemães, entre 20 de março e 18 de agosto de 1943, partiram de Salónica para Auschwitz-Birkenau 19 transportes com 48.533 Judeus. Porém, parte dos deportados chegaram a outros campos de extermínio, por exemplo a Treblinka. Apenas sobreviveram a Shoá 1.950 Judeus, perecendo os 96% de deportados de fome, doenças ou nas câmaras de gás.


A iminente vitória das forças aliadas levou, a partir de 1943, a umha mudança de postura de Salazar, levando-o a relaxar as exigências e, em 1944, conceder passaportes coletivos de Judeus vindos de Salónica.

A maioria dos poucos sobreviventes nom encontrou nengum familiar vivo na cidade. Alguns lutaram por recuperar parte das tenças familiares e reconstruir as suas vidas na cidade, mas a maioria preferiu reiniciar a sua existência em Israel, os EUA, Canadá, Austrália ou na América do Sul. Os que emigraram para Israel fizeram parte na reconstruçom do país e a sociedade.


Na comunidade judaica de Salónica, hoje com cerca de mil pessoas, ainda há apelidos com origem portuguesa, apesar das dificuldades em determinar a sua ascendência após um século XX de guerras, desastres naturais, deportações e mortes em massa que quase aniquilaram esta populaçom sefardita. 

Por isto é possível que alguns Judeus de Salónica assinalem a recente decisom do governo português e consigam solicitar nacionalidade portuguesa. Segundo Erika Zemour, diretora do Museu Judaico de Salónica  é "muito difícil encontrar referências sobre descendentes de Judeus portugueses". “Os arquivos da comunidade foram consumidos no grande incêndio de 1917, e assim nom temos nada antes dessa data. Os arquivos elaborados pola comunidade entre 1917 e 1941 foram levados polos alemães (durante a Segunda Guerra mundial). Hoje, apenas temos os aquivos pós-guerra. E o que sabemos de antes da guerra é aquilo que os sobreviventes (da Shoá) contaram à comunidade”, precisa. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

JUDEUS PORTUGUESES NO MAGREBE

A primeira direçom procurada polos judeus portugueses que abandonaram Portugal encaminhou-se para o Mediterrâneo, aportando nas cidades do Magrebe, atualmente os países de Marrocos, Argélia e Tunísia.
Mapa da África no século XVI
Vários foram os fatores que contribuiram para a tomada desse rumo: 

Em primeiro lugar, a sua proximidade da costa portuguesa, associada tanto ao conhecimento destas águas polos marinheiros portugueses como às boas condições de navegaçom existentes. Assim sendo, os marinheiros de cidades como Setúbal, Sesimbra ou Tavira desempenharam um papel fulcral como passadores de cristãos-novos em navios de pequeno porte.

Em segundo lugar, os Judeus eram bem aceites nom apenas polas cidades de Fez, Argel e Tunes, mas também polas praças marroquinas sob soberania portuguesa (nomeadamente Ceuta, Tanger, Safim, Azamor e Mazagão) onde já existiam comunidades judaicas desempenhando funções de relevância. 

A partir do norte de África outros foram parar a territórios dependentes do Império Otomano (Turquia), onde era numerosa a comunidade hebraica em cidades da Palestina, Alexandria, Constantinopla ou Salónica.

Entre os Judeus portugueses que se fixam no Magrebe logo depois da expulsom de 1497 Abraão Zacuto, astrónomo de D. João II. Em Tunes, Zacuto escreveu em 1504 a História dos Judeus, desde a Criação do Mundo até 1500, assim como vários tratados astronómicos. Esta História foi muito respeitada e republicada em Cracóvia (1581), em Amsterdão (1717), e em Königsberg (1857). Em Londres foi publicada umha ediçom também em 1857. As suas pesquisas salvaram a vida de muitos marinheiros portugueses e permitiram as descobertas do Brasil e do caminho marítimo para a India. Judeu errante, finou em Damasco em 1522.



O cientista Abraão Zacuto rumou para o Magrebe

Antes da chegada dos refugiados judeus portugueses, já viviam no Magrebe outros judeus descendentes daqueles judeus da primeira diáspora babilônica que permaneceram na Pérsia com autorizaçom do rei Ciro e que emigraram de Bagdá a partir do século VIII, por ocasiom da grande expansom omíada em direçom ao Ocidente. Enquanto os recém chegados som chamados de "megorashim" (expulsos), os que lá estavam eram conhecidos como "toshavim" (residentes).

Dada a açom dos Judeus de Fez na conquista e Safim, em 1509, D. Manuel I outorgou-lhes umha carta de privilégio comprometendo-se a "que em nehum tempo sejam lançados fora da dita cidade contra suas vontades, nem os mandarem tonar christãos por força". Com a tomada de Azamor (1513) o monarca também lhes outorgou umha carta de privilégio autorizando os judeus a viverem "em a nossa cidade d'Azamor e que aho diamte a ella quiserem vir vir, morar e estar com suas casas e fazendas nos praz por esta pressente carta". Os Judeus destas duas comunidades tiveram umha grande importância no seu relacionamento e desenvolvimento comercial, chegando alguns deles mesmo a vir à presença do rei em Lisboa, já que eram intermediarios diplomáticos entre o rei e o Sultão de Fez. Finalmente, em 1533 D. João III permitiu a transferência dos judeus portugueses de Azamor e Safim para Arzila. Estes factos demonstram que, embora excluídos de Portugal, o estado luso mantinha com eles relações baseadas na tolerância.

O Sultám de Fez, como outras autoridades no espaço magrebino, incentivaram a vinda de Judeus permitindo que usufruissem dalgumha ou plena liberdade de culto e de movimentos. Destarte, os Judeus portugueses podiam deslocar-se facilmente de um reino para o outro.

A introduçom da Inquisiçom em Portugal em 1536 fez incrementar a saída de refugiados para terras magrebinas, onde os cristãos-novos iriam encontrar importantes comunidades judaicas nas que podiam nom apenas dedicar-se ao comércio, mas também regressar ao judaismo. O Tribunal da Inquisiçom de Lisboa nom poupou perseguir os judeus portugueses de Marrocos, ao os terem as autoridades do Santo Ofício por portugueses que adjuraram da fé católica e, por isso, sujeitos ao seu julgamento.

No Magrebe Judeus e cristãos-novos portugueses (muitos dos quais reconvertidos à fé antiga) tiveram um papel preponderante nos contatos comerciais e diplomáticos entre portugueses é árabes, À medida que cresceram as comuniadades judaicas em Fez, Tânger, Tetuám e Xexuám, os judeus começaram a desempenhar o papel de comerciantes (em especial de cereais, açúcar, passas, tâmaras, especiarias, panos e lacre), tradutores, banqueiros e alfaqueques, isto é, resgatadores de cativos. Como o próprio rei D. Manuel chegou a explicitar, as especiarias reexportadas de Lisboa constituira um negócio particularmente rentável.

Para além de mercadorias, os judeus faziam circular saberes religiosos e nunca deixaram de ter contatos com os seus familiares que, apos um batismo forçado, tinham optado por ficar em Portugal. Mesmo algun deles, sobretodo os envolvidos no negócio do resgate de portugueses logo da derrota em Alcácer-Alquivir (1578) e outras localidades de Marrocos, nom hesitaram em abraçar o cristianismo, polo menos em aparência, para poder viajar para Portugal e negociar o diretamente o preço do resgate.

No mês de Outubro de 1578 o xarife fixou o preço para a libertaçom dos 80 fidalgos em 400.000 ducados, os quais tinham que ser pagos em sete meses. No dia 10 de novembro de 1578 um judeu de Fez disponibilizou 10.000 ducados a crédito para começar a libertaçom dos cativos. Segundo o Padre Domingos Maurício Gomes dos Santos, S. J., uns judeus moradores na praça portuguesa de Tânger também contribuíram com dinheiro a crédito para obter a libertaçom dos prisioneiros dispersos em várias localidades do Magrebe. Mais tarde, em janeiro de 1580, quando um grupo de presos foi libertado, viajava com eles umha comissom de judeus prestamistas, levando letras de crédito para serem descontadas em Portugal. Evidentemente, aqueles refugiados tinham sido importantes no esforço para obter a libertaçom dos presos portugueses.

A partir da ocupaçom de Portugal pola Espanha (1580-1640) a intransigência dos espanhóis provoca umha segunda vaga de refugiados judeus portugueses no Magrebe.


A chefia política do reino de Marrocos, apertado entre o imperialismo europeu e turco-otomano, acentuou a sua tentativa de penetraçom para a África numha estratégia com a que contou com o apoio diplomático e financeiro da comunidade judaica. Precisamente devido à sua origem e à dispersom a que as expulsões de Espanha e Portugal os obrigaram, eles podiam ser emissários para alianças tácticas ora com um, ora com outro dos ameaçadores vizinhos.

Com o tempo e a modernidade a divisom entre as comunidades megorashim (expulsos) e toshavim (residentes) desapareceu a partir dum processo de assimilaçom das últimas polas primeiras a teor da sua maior influência cultural e religiosa. Todavia, algum ponto de referencia daquela divisom, de tipo episódico e pontual, resistiu até o século XIX.

A enorme comunidade de Judeus portugueses existente no Reino de Marrocos começa a ser brutalmente perseguida e assassinada nos finais do século XVIII, o que provoca a saída de milhares de judeus. Entretanto, as comunidades de judeus portugueses localizados nos atuais estados da Argélia e Tunísia chegaram até o século XX, altura em que foram desvastadas por novas vagas de perseguições religiosas.

Os Judeus portugueses refugiados no Magrebe mantiveram por muitos séculos o português como língua materna. E, ao raiar do século XIX, ao invês de adotarem o arbía (árabe do Magrebe com forte sotaque judaico falado polos judeus sefarditas espanhóis ao abandonar o ladino ou judeu-espanhol), preferiram voltar para Portugal com o fim da Inquisiçom (1821) ou emigrar para as Américas (Brasil, Venezuela, Argentina e EUA). 

Neste caminho de regresso está a origem das comunidades judaicas ressurgidas no século XIX em Faro, nos Açores ou Lisboa. Entre estes retornados destacam as famílias Cardoso-Nunes, De Mattos, Monteiro, Peres, Pinto, Medina, Miranda,... ou Abraham Nathan Ben-Saúd (a atual família Bensaúde).

Durante a Segunda Guerra mundial, quando a França de Vichy estendeu a Marrocos as leis antissemitas, os consulados de Portugal apoiaram a famílias de judeus portugueses ameaçados de serem expropriadas dos seus bens.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A DIÁSPORA DOS JUDEUS DA NAÇÃO PORTUGUESA

Os Judeus da nação portuguesa som um subgrupo dos Judeus sefarditas. Apesar desta designaçom, trata-se de Judeus oriundos de Portugal e Espanha, donde foram expulsos nos séculos XV e XVI.

Este grupo, também chamado de Sefarditas Ocidentais, difere-se dos Sefarditas Orientais (aqueles que fugiram para territórios dependentes do Império Otomano e que maioritariamente falam ladino ou judeu-espanhol), já que possuem umha herança linguística, ritual e social próprias. De língua falada e escrita portuguesa, os rituais judaicos dos Judeus portugueses baseiam-se nos pré-existentes à expulsom de Sefarad (Península ibérica).

Essa era também a língua falada polos judeus galegos, e nom o ladino/judeu-espanhol, que quando foram expulsos do Reino da Galiza em 1492, incluido na altura dentro da Coroa de Castela, foram para alguns locais da Europa onde a partir de 1497 chegaram os judeus portugueses. Assim sendo, a Holanda, Alemanha, Flandres, Inglaterra e algum outro país acolheram os Judeus galegos que com o tempo acabaram por nom se distinguirem dos judeus da nação portuguesa. Afinal torods eram considerados judeus portugueses, e isso foi porque a Galiza falava a mesma língua que Portugal, com o qual a uniom e confusom foi muito fácil, mas como a Galiza nom era independente, os Judeus galegos apenas eram judeus portugueses de estranha procedência. 

Os Judeus galegos nom integraram o grupo dos sefarditas orientais e provavelmente hoje os seus descendentes estejam com a ideia serem descendentes dos Judeus portugueses.

A expulsom dos Judeus da Península Ibérica (Sefarad)

Após a expulsom dos Judeus dos reinos de Espanha polos reis católicos em 1492, entre 83.000-100.000 pessoas, que se recusaram converter-se à religiom cristã emigraram para Portugal, acrescentando-se à comunidade de 30.000 Judeus lá existente. O rei D. João II, influenciado por judeus importantes na Corte, acolhe-os, impondo-lhes o pagamento dumha quantia elevada para permanecerem em Portugal. Os que nom podiam pagar viram metade dos seus bens confiscados para a Coroa. Com esta medida pretendia-se a fixaçom de operários especializados, que faltavam em Portugal. 

Finado D. João II, sucede-lhe D. Manuel, monarca que se revelou tolerante para com os Judeus que nom podiam pagar. No entanto, em dezembro de 1496 é aprovado um édito e em março de 1497 é imposta a expulsom da comunidade judaica de Portugal, iniciando umha série de medidas persecutórias. Os Judeus portugueses viviam em território português polo menos desde o século I d.n.e. 



Porém, Manuel I nom queria a saída dos Judeus, tam necessários para o progresso económico, polo que, por um lado, foram baptizados à força por decisom do rei e, por outro lado, em abril de 1499 proibiu que esses cristãos novos conversos abandonassem o país sob penas severas. Destarte, desejado ou nom, os Judeus portugueses tornaram-se em cristãos-novos conversos ou cripto-judeus. Dado o secretismo da sua situaçom, a lealdade religiosa deste coletivo pode ser classificada segundo o seguintes perfis:
- Sinceros cristãos, embora sujeitos a discriminaçom e às acusações de judaizantes por parte da Inquisiçom
- Aqueles que honestamente tentaram viver como cristãos, mas que, ao descobrir que ainda nom eram aceites socialmente e eram suspeitos de judaizantes, conceberam dúvidas intelectuais sobre o assunto e decidiram regressar ao judaísmo.
- Verdadeiros cripto-judeus, que viam as suas conversões como forçadas e, relutantemente, conformados com o catolicismo até encontrar a primeira oportunidade de viver umha vida judaica aberta.
- Oportunistas culturais cujos pontos de vista privados puderam ter sido bastante céticos e que se mostravam conformes com a forma local do judaísmo ou do cristianismo, dependendo de onde eles estavam a cada momento.

Seja como for, os Judeus sefarditas portugueses, viram-se obrigados a viver um judaísmo na clandestinidade, sob o medo permanente da denúncia por heresia. Em consequência iniciaram um êxodo continuado (que se prolongou até os finais do século XVIII) para outros lugares, com maior ou menor fortuna, onde pudessem praticar o judaismo publicamente. Eles foram geralmente aceitados polas comunidades judaicas locais como anusim (conversos forçados), cuja conversom, sendo involuntaria, nom punha em causa a sua judeidade.

Destinos da Diáspora cristã-nova portuguesa Fonte: ANUÁRIO JANUS

Destinos da Diáspora judaica


Os destinos da emigraçom clandestina dos conversos da primeira geraçom logo após a expulsom foram o norte da África, o Império Otomano (Turquia), ou mesmo o regresso a Portugal ou aos reinos de Espanha. Estas comunidades nom precisaram qualquer "formaçom" já que ainda tinham algum conhecimento direto do judaismo com base na memória do contato cumha comunidade judaica viva. 


No entanto, o massacre dos cristãos-novos de Lisboa, na Páscoa de 1506, iria permitir-lhes alcançar a possibilidade de partir com autorizaçom régia para terras da cristandade. Entre esse ano e 14 de junho de 1532, os cristãos-novos puderam sair livremente de Portugal com bens e família. Esta permissom voltar-lhes-ia a ser concedida com os perdões gerais de 1535 e 1547 e tornar-lhes-iam a ser outorgadas ou negadas, ao longo dos séculos XVI e XVII, consoante as vontades políticas ou as necessidades económicas dos soberanos. Iniciava-se assim a nova diáspora judaica. 

Ainda que até 1536 foi possível, através da política de baptismos forçados, escamotear o decreto de expulsom conservando as suas antigas crenças religiosas, a Inquisiçom, ao perseguir as heresias com mão de fogo, em especial os judaízantes, só lhes deixou a alternativa da fuga do país, sempre que ela era possível. Doravante o número de Judeus em Portugal diminuiu dramaticamente, passando de 60.000 em 1542 e 30.000 em 1605 para uns 7.000-8.000 em 1631.

O primeiro êxodo acompanhou a própria expansom atlântica portuguesa, sendo as novas terras descobertas pretexto para umha diáspora em território nacional. Assim sendo, as ilhas atlânticas (Madeira, os Açores e S. Tomé), o Oriente e o Brasil abriam-lhes perspectivas de comércio rentável e dumha relativa liberdade religiosa, entre vizinhos que desconheciam o seu passado de judeus. 

Os primeiros Judeus portugueses chegaram ao Brasil principalmente como cristãos-novos conversos e contribuiram para a colonizaçom do território. De facto, quando em 1500 Pedro Álvares Cabral desembarcou nas Terras de Vera Cruz estava acompanhado por Gaspar da Gama, um judeu polaco. Fernão de Noronha, um fidalgo cristão-novo português, foi um dos primeiros grandes exploradores de pau-brasil nas terras recém descobertas. Com ele iniciou-se o regime das capitanias ao receber em 1504, por concessom de D. Manuel, a Ilha de São João (hoje Fernando de Noronha).

No essencial, o regime das capitanias, consistia numha doaçom ao capitám que se dispusesse a colonizar um território a expensas suas. As primeiras capitanias no Brasil foram 15, criadas entre 1534-36 por João III. Cedo elas atrairam famílias de cristãos-novos, que estám na gênese do desenvolvimento da exploraçom açucareira. A cidade de Salvador da Baía, primeira capital do Brasil, recebeu, logo após a descoberta, várias famílias de origem judaica. Foram elas que desenvolveram o interior e se expandiram para os territórios que hoje constituem os estados de Sergipe e Alagoas.

A Inquisiçom nom tinha ainda atravessado o Atlântico e a distância emprestava umha ilusom de segurança. Muitos dos que lá chegavam eram deportados, condenados ao degredo por suspeita de judaísmo, transformando o território virtualmente numha colónia penal. Mesmo assim, o espectro inquisitorial pairava ainda na penumbra e sobre os Judeus pesava o receio de poderem ser repatriados para Portugal a mando dos tribunais da Inquisiçom. 

Na altura de 1624 por volta de 50.000 europeus moravam no Brasil, sendo os cristãos-novos umha significativa percentagem, onde trabalhavam como mercadores, importadores, exportadores, mestres, poetas e mesmo como padres. 

Os historiadores som consensuais na conclusom de que um em cada três colonos portugueses no Brasil era cristão-novo, isto é, judeu oculto ou de ascendência judaica.

Os que preferiram retornar para o Próximo Oriente foram bem recebidos polos turcos otomanos, sendo assimilados posteriormente nas comunidades sefarditas orientais.

Alguns rumaram para o norte da Europa, onde fundaram comunidades em Flandres (Antuérpia), nos Países Baixos (Amsterdão) e norte da Alemanha (Hamburgo). Outros dirigiram-se para o sudoeste da França (Bordéus e área de Baiona) e um menor número para a Inglaterra e para os territórios dos estados que hoje conformam a Itália.

A opçom polo judaísmo significava para os que partiam a impossibilidade de regressar a Portugal, quer como cristãos, quer como Judeus, a menos que se "purgassem" voluntariamente da sua culpa, num dos tribunais inquisitoriais (operativos em Portugal desde 1540) ou que, com algumha sorte, conseguissem iludir possíveis denunciantes, conhecedores da sua opçom judaica, através de disfarces bem sucedidos ou da utilizaçom de múltiplos pseudónimos.

Umha vez alcançados os seus locais de refúgio, estes cristãos-novos pertencentes a gerações posteriores aos éditos de expulsom tiveram de reeducar-se no judaismo, já que tanto a memória como os rituais judaicos viram-se adulterados pola situaçom de clandestinidade em que viviam. Para "regressar" a um judaismo verdadeiro foi possível precisaram, quer dos Sefarditas que viviam na Itália, quer dos exilados de 1492 que viviam em Marrocos (herdeiros diretos da tradiçom judaica andalusi), quer dos Judeus asquenazitas dos Países Baixos e Alemanha.

Os Judeus portugueses fixados nos Países Baixos também chegaram com os Holandeses em Pernambuco e a toda a regiom setentrional do Nordeste brasileiro (1630-54). Com a reconquista portuguesa e a proibiçom de praticar o judaismo a comunidade dispersou-se, sendo que alguns voltaram para os Países Baixos, outros migraram para outras colónias holandesas da América do Sul, do Norte e Caraíbas (nomeadamente CuraçãoCosta Selvagem ou Guianas, Jamaica e Barbados) e umha parcela permaneceu refugiada nos sertões onde se converteram em cripto-judeus brasileiros.

Em Nova Iorque, que fora colónia holandesa com o nome de Nova Amsterdão, chegaram do Recife um grupo de 23 judeus em 1654, onde fundaram a primeira comunidade judaica dessa cidade. Os Judeus da nação portuguesa fundaram outras comunidades na América do Norte, como Montreal, Newport, Philadelphia, Charlotte, Nova Orleães e participaram ativamente da sociedade norte-americana, formando uma elite política e cultural judia.


Os Judeus Ocidentais conservaram o português como primeira língua
Os Judeus da nação portuguesa falaram maioritariamente português como primeira língua. Até o século XVII o portugués foi utilizado para a comunicación diária entre gerações mais novas e era a língua habitual dos documentos oficiais utilizados nas sinagogas. Porém, como língua litúrgica persistiu até meados do século XIX, aquando foi substituido polas línguas próprias dos locais de fixaçom. Polo contrário, os Sefarditas Orientais e da África do Norte falavam principalmente o ladino, língua judia derivada do judeu-espanhol.

O uso do dialeto judeu-português conservou-se nalguns documentos, mas deixou de ser usado como língua falada desde finais do século XVIII ou inícios do XIX. Por exemplo, o português deixou de ser lingua falada nos Países Baixos no período napoleónico, quando as escolas judaicas apenas permitiram o ensino do neerlandês e do hebraico. Os sermões na sinagoga de Bevis Marks (Londres) foram em português até 1830.

Com a Shoa, no quadro da Segunda Guerra Mundial, os Judeus da nação portuguesa sofreram fortemente, tendo a sua populaçom diminuída, de forma considerável, nas suas comunidades na Europa continental.