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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

CAPÍTULO 1: OS PRINCÍPIOS DUM ESTUDO CIENTÍFICO DA HISTÓRIA JUDAICA

Abraham Leon

O estudo científico da história judaica ainda nom passou a fase de improvisaçom idealista. Embora o campo da história geral for conquistado, em grande parte pola conceiçom materialista, enquanto os historiadores sérios se tenham engajado na linha de Marx, a história judaica continua a ser o terreno favorito de “investigadores de Deus” de qualquer tipo. Esta é umha das poucas áreas históricas onde os preconceitos idealistas conseguiram prevalecer e manter-se dumha medida tão estendida.

Quanto papel se tem enegrecido para comemorar o famoso "milagre judeu!" "Umha visom estranha de ver estes homens, para preservar o sagrado depósito da fé, enfrentaram perseguiçom e do martírio", disse Bédarride (1). A conservaçom dos judeus é explicada polos historiadores como o resultado da lealdade que demonstraram ao longo dos séculos à sua religiom ou à sua nacionalidade. As diferenças começam a surgir entre eles ao definir o “objetivo" polo qual os judeus se conservaram, o motivo de sua resistência à assimilaçom. Alguns, do ponto de vista da religiom, falam do "depósito sagrado da sua fé", enquanto outros, como Dubnov, defendem a teoria do "apego à ideia nacional". "Temos de procurar as causas do fenómeno histórico da preservaçom do povo judeu na sua força espiritual nacional, na sua base ética e no princípio monoteísta", disse a Allgemeine Enzyklopedie que consegue conciliar os diferentes pontos de vista dos historiadores idealistas (2)
Mas é possível conciliar as teorias idealistas, seria inútil tentar alcançar um compromisso entre estas teorias e as regras básicas da ciência histórica. É preciso rejeitar categoricamente o erro fundamental de todas as escolas idealistas, que consiste em colocar o problema cardinal da história judaica, a manutençom do judaísmo, sob o signo da livre vontade. Apenas o estudo do papel económico dos judeus pode contribuir para esclarecer as causas do "milagre" judeu ".
Estudar a evoluçom deste problema nom apresenta apenas um interesse acadêmico. Sem um estudo aprofundado da história judaica é difícil entender a questom judaica no momento presente. A situaçom dos judeus no século XX está intimamente ligada ao seu passado histórico.
Cada estado social é umha etapa do processo social. O ser é apenas um momento da transformaçom. Para analisar a questom judaica no seu estado atual de desenvolvimento é essencial conhecer as raízes históricas.
No campo da história judaica, como no campo da história geral, o pensamento genial de Marx mostra o caminho a seguir.
"Nom buscar o segredo do judeu na sua religiom, mas buscar o segredo da religiom no judeu real.

Marx situa a questom judaica. Nom há que tomar em conta a religiom para explicar a história dos judeus, polo contrário, a manutençom da religiom e da nacionalidade judaica deve ser explicada polo "verdadeiro judeu", ou seja, o judeu no seu papel económico e social. A conservaçom dos judeus nom tem nada milagroso.
"O judaísmo foi preservado, nom apesar da história, mas pola história (3)."
E é justamente polo estudo do papel histórico do judaísmo que se pode descobrir o "segredo" da sua manutençom na história. Os conflitos entre o judaísmo e da sociedade cristã, sob o seu aspeto religioso, som na verdade conflitos sociais.
"A contradiçom entre o Estado e umha religiom em particular, como o judaísmo, dá umha expressom humana pola contradiçom entre o Estado e os elementos seculares determinados”. (4)

O quadro geral da história judaica é apresentado mais ou menos assim pola escola idealista predominante (com diferentes matizes): até que a destruiçom de Jerusalém, possivelmente até a rebeliom de Bar Kochba, a naçom judaica nom se diferencia em nada doutras nações normalmente constituídas, tais como a romana ou grega. As guerras entre os romanos e os judeus causaram a dispersom do povo judeu ao redor do mundo. Na dispersom, os judeus opuseram umha forte resistência à assimilaçom nacional e religiosa. O Cristianismo nom encontrou no seu caminho adversários tam inflamados e, apesar dos seus melhores esforços, nom os consegue converter. A queda do Império Romano acentua o isolamento do judaísmo que constitui, após o triunfo completo do cristianismo no Ocidente, o único elemento heterodoxo. Os judeus da Diáspora, no momento das invasões bárbaras, nom constituem um grupo homogêneo social. Em vez disso, a agricultura, a indústria, o comércio som amplamente representadas entre eles. É a contínua perseguiçom religiosa que os obrigou a se limitar cada vez mais no comércio e usura. As Cruzadas, o fanatismo religioso que eles têm provocado acentuam violentamente esta tendência, o que transforma os judeus em usurários os leva ao seu confinamento em guetos. Evidentemente, o ódio contra judeus também é impulsionado polo seu papel económico. Mas os historiadores apenas atribuem a este fator umha importância secundária. Esta situaçom do judaismo continua até que a Revoluçom Francesa, que destruiu as barreiras que a opressom religiosa erigira perante os judeus.

Vários factos importantes se encaixam em falso contra este quadro:

1. A dispersom dos judeus nom da data da queda de Jerusalém. Vários séculos antes deste evento, a grande maioria dos judeus já estavam espalhados ao redor do mundo.
"O que é certo é que muito antes da queda de Jerusalém, mais de três quartos dos judeus já nom viviam na Palestina. " (5)
O reino judeu na Palestina tinha para as massas judaicas espalhadas por todo o Império Grego e depois polo Império Romano, umha importância muito secundária. A sua ligaçom com a "mãe-pátria" apenas se manifesta durante as peregrinações religiosas a Jerusalém, que desempenhava um papel semelhante ao da Meca para os muçulmanos. Pouco antes da queda de Jerusalém, o rei Agripa, disse:
"Nom existe no mundo um povo que nom contêm umha grande quantidade da nossa. " (6)
A Diáspora foi, portanto, um fato acidental produto dumha empresa de violência (7), o principal motivo para a emigraçom judaica deve ser procurado nas condições geográficas da Palestina.

"Os judeus na Palestina som possuidores dum país montanhoso que nom é suficiente nalgum momento para proporcionar aos seus habitantes umha vida suportável como seus vizinhos. Esse povo é forçado a escolher entre a pilhagem e a emigraçom. Os escoceses, por exemplo, envolveram-se alternadamente em cada um destes caminhos. Os judeus, depois de muitas lutas com os seus vizinhos também levaram o segundo caminho... Os povos que vivem nessas condições nom se entregam aos estrangeiros como agricultores. Eles vão antes como mercenários como os Arcádios na antiguidade, os Suíços na Idade Média, os Albaneses do nosso tempo, ou como comerciantes, como os judeus, os escoceses e os armênios. Isto mostra um ambiente semelhante desenvolvido por povos de raças diferentes, as mesmas características. " (8)

2. Nom há dúvida que a grande maioria dos judeus na dispersom dedicaram-se ao comércio. A própria Palestina desde tempos muito antigos era umha passagem de mercadorias, umha ponte entre o vale do Eufrates e do Nilo.
"A Síria era a principal estrada de entrada dos conquistadores ... Era também a via que seguiam as mercadorias e pola qual circulavam as ideias. Entende-se que nessas regiões se estabelecese muito cedo umha populaçom com grandes cidades voltadas pola sua situaçom para o comércio. " (9)
As condições geográficas da Palestina, assim, explicam a emigraçom dos judeus e a sua natureza comercial. Por outro lado, nas outras nações, no início do seu desenvolvimento, os comerciantes som estrangeiros.
"A característica dumha economia natural é que cada regiom produz tudo que consome e consome tudo que produz. Nada cresce de modo a adquirir bens ou serviços de outros. Porque nesta economia, produze-se o que se consome, encontra-se entre todos os povos como os primeiros comerciantes os estrangeiros. " (10)
Philo enumera muitas cidades onde os judeus se estabeleceram como comerciantes. Ele disse que eles "viviam em inúmeras cidades na Europa, Ásia, Líbia, em continentes e nas ilhas, no litoral e no interior”. Os judeus que viviam tanto nas ilhas como o continente grego e mais tarde no Ocidente, instalaram-se lá com fins comerciais (11).
"Ao mesmo tempo que os sírios achavam-se os judeus, dispersados ou agrupados em todas as cidades. Estes som marinhos, corretores, banqueiros, cuja influência foi tão fundamental na vida económica do tempo em que a influência oriental que se deteta no mesmo período na arte e nas ideias religiosas. " (12)
É pola sua posiçom social que os judeus estão em dívida para com a autonomia que lhes concederam os imperadores romanos. É apenas aos judeus que se permite formar um Estado dentro do Estado e os outros estavam sujeitos à administraçom das autoridades da cidade, e em certa medida eles mesmo podiam autogovernar-se...
"Cesar... favoreceu os interesses dos judeus de Alexandria e de Roma por favores e privilégios especiais, e protegeu, em particular o seu culto especial face os sacerdotes gregos e romanos. (13) "

3. O ódio aos judeus nom data apenas a partir do estabelecimento do cristianismo. Séneca trata os judeus como raça criminosa. Juvenal acredita que os judeus só existem para causar a dor aos outros povos. Quintiliano disse que os judeus som umha maldiçom para as outras nações.
A causa do anti-semitismo antigo é a mesma que a do anti-semitismo medieval, oposiçom a qualquer sociedade baseada principalmente na produçom de valores de uso em relaçom aos comerciantes.

"A hostilidade medieval em relaçom aos comerciantes nom é apenas de inspiraçom cristã ou pseudo-cristã. Ela também tem umha origem pagã. Ela tem raízes fortes numha ideologia de classe, no desprezo que as classes dominantes da sociedade romana -tanto as senatoriais como as curiais de província – têm, por profunda tradiçom camponesa, a todas as formas de atividade económica nom derivadas da agricultura. (14) "

No entanto, se o anti-semitismo já estava altamente desenvolvido na sociedade romana, a situaçom dos judeus, como vimos, era invejável. A hostilidade das classes que vivem na terra em relaçom ao comércio nom excluiu o seu estado de dependência dele. O proprietário odeia e despreza o comerciante, sem poder prescindir dele (15).

O triunfo do cristianismo nom trouxe alterações significativas a este respeito. O Cristianismo, antes de mais religiom dos escravos e dos oprimidos, foi rapidamente transformado numha ideologia da classe dominante dos proprietários. Foi Constantino o Grande, quem na verdade estabelece as bases da servidom medieval. A marcha triunfal do cristianismo em toda a Europa acompanha-se da extensom da economia feudal. As ordens religiosas têm desempenhado um papel extremamente importante no progresso da civilizaçom, que naquele tempo era o desenvolvimento dumha agricultura baseada na servidom. Por que se surpreender com o facto
"nascido no judaísmo, constituído antes de mais exclusivamente de judeus, o Cristianismo nom acha, no entanto em lado nenhum nos quatro primeiros séculos, mais que neles, dificuldades em adquirir os seguidores de sua doutrina? (16) "
Na verdade, a essência da mentalidade cristã dos dez primeiros séculos de nossa para tudo o relacionado com a vida económca é
"que mal pode um comerciante fazer umha obra agradável a Deus"
e que
"todo negócio envolve umha parte mais ou menos considerável de artifício.(17) "
A vida dos judeus parecia completamente incompreensível para Santo Ambrósio, que viveu no século IV. Ele desprezava profundamente as riquezas dos judeus e acreditava firmemente que eles seriam punidos com a danaçom eterna.

Nada há nada mais natural que a feroz hostilidade dos judeus contra o catolicismo e na sua vontade de manter a religiom que exprime admiravelmente os seus interesses sociais. Nom é portanto a fidelidade dos judeus à sua fé que explica a sua preservaçom como grupo social distinto, mas, ao contrário, a sua preservaçom como grupo social distinto que explica o seu apego à sua fé.

No entanto, como a antiga hostilidade contra os judeus, o anti-semitismo cristão nos dez primeiros séculos da era cristã nom vai reivindicar o aniquilamento do judaísmo. Enquanto o cristianismo oficial perseguia impiedosamente o paganismo e as heresias, tolerava a religiom judaica. A situaçom dos judeus nom parou de melhorar desde a queda do Império Romano, após o triunfo completo do cristianismo, até o século XII. Quanto mais se acentuava o decadência económica, mais importante era o papel comercial dos judeus. No século X, eles constituem a única ligaçom económica entre a Europa e a Ásia.

4. Só a partir do século XII, a par do desenvolvimento económico da Europa Ocidental, com o crescimento das cidades e a formaçom dumha classe comercial e industrial indígena, que a situaçom dos judeus começa a agravar-se a sério, para levar à sua eliminaçom quase total da maioria dos países ocidentais. As perseguições contra os judeus assumem formas cada vez mais violentas. Por contra, nos países da Europa Oriental, atrasados, a situaçom continua a ser florescente até bastante recentemente.

Com estas poucas considerações preliminares, ver-se-á como é falsa a conceçom geral que prevalece no campo da história judaica. Os judeus constituem na história acima de tudo um grupo social com umha funçom económica específica. Eles som umha classe, ou melhor ainda, um povo-classe (18).

O conceito de classe nom contradiz o conceito de povo. O facto de os judeus sobreviver como classe social faz com que tivessem mantido algumhas das suas particularidades religiosas, étnicas e lingüísticas (19).

Esta identidade de classe e de povo (ou de raça) está longe de ser excecional nas sociedades pré-capitalistas. Nela as classes sociais distinguem-se muito freqüentemente por um carácter mais ou menos nacional ou racial.

"As classes inferiores e as classes superiores ... som, em vários países, os povos conquistadores e os povos escravizados dumha época anterior. A raça dos invasores formou umha nobreza ociosa e turbulento ... A raça assobalhada nom vive das armas, mas do seu trabalho (20)”.

Aliás, Kautsky, diz:
"Diferentes classes podem adquirir um carácter racial específico. Por outro lado, o encontro de diferentes raças, cada umha especializada numha determinada profissom, pode ter como resultado que cada umha dessas raças ocupe umha posiçom social diferente dentro da mesma comunidade. Pode ser que a raça se torne classe (21)”.

Há obviamente umha interdependência contínua entre o carácter nacional ou racial e o de classe. A posiçom social dos judeus exerceu umha profunda influência, determinante do seu carácter nacional.

Se nom há qualquer contradiçom neste conceito de povo-classe, ainda é mais fácil aceitar a correspondência da classe e da religiom. Cada vez que umha classe alcança de maturidade e de consciência determinada, a sua oposiçom à massa dominante toma formas religiosas. As heresias Catarista, o Lollardismo, o Maniqueísmo e inúmeras seitas que abundavam nas cidades medievais, som as primeiras manifestações religiosas de oposiçom crescente da burguesia e do povo à ordem feudal. Estas heresias nom foram elevadas em qualquer lugar ao nível de religiom dominante por causa da relativa fraqueza da burguesia medieval. Elas foram brutalmente reprimidas no sangue. Somente no século XVII, com umha burguesia cada vez mais poderosa, que pudo triunfar o luteranismo e, especialmente, o calvinismo e os seus substitutos ingleses.

Enquanto o catolicismo expressa os interesses da aristocracia rural e da ordem feudal, o calvinismo (ou puritanismo) os da burguesia ou o capitalismo, o Judaísmo reflete os interesses dumha classe comercial pré-capitalista (22).

O que principalmente distingue o "capitalista" judaico do capitalismo em si é que, ao contrário deste último, nom é portador dum novo modo de produçom.

"O capital comercial teve umha existência própria e estava claramente separado dos ramos da produçom aos que servia como intermediário. "
"Os povos comerciantes da antiguidade existiam como os deuses de Epicuro nas entranhas da terra, ou melhor, como os judeus nos poros da sociedade polaca".
“A usura e o comércio operam um determinado processo de produçom nom criado por eles e ao que som estranhos (23)”.

O acúmulo de dinheiro nas mãos dos judeus nom veio dumha forma especial de produçom, da produçom capitalista. A mais-valia (ou excedente) provinha da exploraçom feudal e os senhores feudais foram obrigados a abandonar umha parte dessa mais-valia a os judeus. Daí o antagonismo entre os judeus e do feudalismo, mas daí provinha a ligaçom indestrutível que existia entre eles.
Quanto ao senhor, o feudalismo foi também para o judeu a sua terra nutrícia. Se o Senhor precisava do judeu, o judeu também precisava do Senhor. Por causa desta posiçom social os judeus nom puderam elevar-se em qualquer parte ao papel de classe dominante. Na economia feudal, o papel dumha classe de comerciantes só pode estar subordinada. O judaísmo só podia ser um culto mais ou menos tolerado (24).

Já se viu que na Antiguidade os judeus possuiam a sua própria jurisdiçom. Aconteceu o mesmo na Idade Média.

"Na sociedade plástica medieval cada classe de homens, embora viva segundo os seus costumes, tem a sua jurisdiçom especial. Acima do Poder Judiciário do Estado, a Igreja tem o seu funcionalismo, a nobreza as suas cortes feudais, o campnesado as suas cortes próprias. A burguesia, por sua vez, adquire as suas magistraturas (25) "

A organizaçom específica dos judeus foi a Kehila. Cada cidade estava organizada em comunidade judaica (Kehila) que tinha umha vida social especial e um sistema judiciário próprio. Na Polónia esta organizaçom tem alcançado o grau mais avançado. De acordo com umha ordem do rei Sigismundo Augusto em 1551, os judeus tinham o direito de escolher os juízes e os rabinos que deviam administrar todos os seus assuntos. É somente nos processos entre judeus e nom judeus que intervinham os tribunais das voivodias. Cada populaçom judia elegia livremente um conselho da comunidade. A atividade deste conselho, chamado Kahal, era extensa. Devia coletar os impostos para o Estado, atribuir os impostos gerais e especiais, dirigir as escolas de ensino fundamental e superior (Ieschiboth). Ele resolvia todas as questões relacionadas ao comércio, artesanato e a caridade. Ele era responsável pola resoluçom de litígios entre os membros da comunidade. O poder de cada Kahal abrangia os habitantes judeus das aldeias circundantes.

Ao longo do tempo, diversos conselhos das comunidades judaicas tinham o costume de se reunir regionalmente, a intervalos regulares, para discutir os assuntos administrativos, jurídicos e religiosos. Estas reuniões e assemelhavam-se a pequenos parlamentos.

Por ocasiom da grande feira de Lublim reunia-se umha espécie de parlamento geral, com a participaçom de representantes da Grande Polónia, da Pequena Polónia, Podólia, e Volínia. Este parlamento foi chamado o Vaad Arba Aratzoth, o "Conselho dos quatro países."

Os historiadores judeus tradicionais nom deixaram de ver nesta organizaçom umha forma de autonomia nacional. "Na antiga Polónia, disse Dubnov, os judeus constituíam umha naçom com a sua própria autonomia, a sua administraçom interna, os seus tribunais e umha certa independência jurídica (26) "

É claro que falar dumha autonomia nacional no século XVI constitui um grande anacronismo. Esta época ignorava a questom nacional. Na sociedade feudal apenas as classes têm as suas jurisdições especiais. A autonomia judaica reflete a posiçom social e económica específica dos judeus e nom a sua nacionalidade (27).

A evoluçom linguística também reflete a posiçom social específica do judaísmo.

O hebraico desapareceu muito cedo como umha língua viva. Em toda parte os judeus adotaram a língua dos povos circunvizinhos. Mas esta adaptaçom linguística é feita geralmente sob a forma dum dialeto novo qno que se acham algumhas frases em hebraico. Existem, em diversos momentos na história, os dialetos judaico-arábico, judeo-persa, judaico-provençal, judaico-português, judeu-espanhol, etc. sem mencionar o judeu-alemom que se tornou o iídiche atual. O dialeto expressa as duas tendências contraditórias que têm caracterizado a vida judaica: a tendência para a integraçom na sociedade envolvente e a tendência ao isolamento produzida pola situaçom sócio-económica da judaria (28).

Apenas quando os judeus deixam de constituir um grupo social particular que se assimilam completamente à sociedade envolvente. "A assimilaçom nom é um fenómeno novo na história judaica", disse o sociólogo sionista Ruppin (29).
Na realidade, se a história judaica é a história da preservaçom do judaísmo, também é a história da assimilaçom de grandes camadas do judaísmo.
"No Norte de África, antes do Islã, muitos judeus praticavam a agricultura, mas a maioria deles foi absorvida pola populaçom local (30)”.

Esta assimilaçom é explicada polo facto de que os judeus lá deixaram de ser umha classe, eles se tornaram agricultores.
"Se os judeus se tivessem dedicado à agricultura, eles necessariamente teriam-se espalhado por todos os países, o que, em poucas gerações, teria conduzido a umha completa assimilaçom com o resto da populaçom, apesar da diferença religiosa. Mas, dedicados ao comércio e concentrados nas cidades, eles formaram comunidades particulares e tiveram umha vida social separada, relacionando-se e casando entre si (31)”.

Podería-se lembrar também as inúmeras conversões de proprietários de terras judeus na Alemanha no século IV, o completo desaparecimento das tribos guerreiras judias da Arábia, a assimilaçom dos judeus na América do Sul, no Suriname (32),... A lei da assimilaçom poderia ser formulada da seguinte forma: quando os judeus deixam de constituir umha classe, eles perdem mais ou menos rapidamente as suas características étnicas, religiosas e linguísticas; assimilam-se (33).

É muito difícil trazer a história dos judeus na Europa nalguns períodos críticos, as condições económicas, sociais e políticas eram diferentes em cada país. Enquanto a Polónia e a Ucránia ainse se achavam sob feudalismo no final do século XVIII, a Europa Ocidental está a assistir a um rápido desenvolvimento do capitalismo. Compreensivelmente, a situaçom dos judeus na Polónia assemelha-se antes à situaçom dos judeus franceses do período carolíngio do que o dos seus correligionários em Bordéus e Paris. "O judeu português de Bordéus e um judeu alemom de Metz som coisas absolutamente diferentes", escreveu um judeu francês a Voltaire. Os ricos burgueses judeus da França ou da Holanda nom tinham quase nada em comum com os judeus polacos, classe da sociedade feudal.

Apesar das diferenças consideráveis das condições e do ritmo de desenvolvimento económico dos países europeus habitados por judeus, um estudo cuidadoso revela as fases críticas de sua história.


I Período pré-capitalistaÉ também o período de maior prosperidade para os judeus. O “capital” comercial e usurário acha grandes oportunidades de expansom na sociedade feudal. Os judeus som protegidos por reis e príncipes e as suas relações com as outras classes som geralmente boas. Esta situaçom prolonga-se na Europa Ocidental até o século XI. A época carolíngia, culminaçom do desenvolvimento feudal, é também o apogeu da prosperidade dos judeus.

A economia feudal continua a dominar a Europa Oriental até o século XVIII. É também lá onde se situa cada vez mais o centro da vida judaica.

II. Período do capitalismo medieval
A partir do século XI a Europa ocidental entra um período de desenvolvimento económico intenso. A primeira fase desta evoluçom é caracterizada pola criaçom dumha indústria corporativa e dumha burguesia comercial indígena. A penetraçom da economia de mercado na agricultura determina a segunda fase.
O desenvolvimento das cidades e dumha classe comercial indígena supõe a expulsom completa dos judeus do comércio. Eles tornam-se usurários cuja clientela principal é composta por nobres e reis. Mas a transformaçom comercial da economia agrícola mina as suas posições.
A abundância relativa de dinheiro permite que a nobreza se sacuda do jugo da usura. Os judeus som expulsos dum país após outro. Outros assimilam-se, absorvidos especialmente pola burguesia indígena.
Nalgumhas cidades, principalmente na Alemanha e Itália, os judeus dedicam-se ao crédito para as massas populares, camponeses e artesãos. Convertidos em usurários exploradores do povo, eles som frequentemente vítimas de revoltas sangrentas.
Em geral, o período do capitalismo é o das mais violentas perseguições judias. O “capital” judaico entra em conflito com todas as classes da sociedade.
Mas a desigualdade de desenvolvimento económico dos países da Europa Ocidental afeta as formas da luta anti-semita.
Num país, é a nobreza que liderou a luta contra os judeus; noutros é a burguesia e, na Alemanha é o povo que desencadeia o movimento.
O capitalismo medieval é praticamente desconhecido na Europa Oriental. Lá nom há separaçom entre o capital comercial e o capital usurário. Diferentemente da Europa Ocidental, onde judeu é sinónimo de usurário, lá os judeus som principalmente comerciantes e intermediários. Enquanto os judeus som gradualmente eliminados dos países ocidentais, eles afirmam constantemente a sua posiçom na Europa Oriental. Somente no século XIX o desenvolvimento do capitalismo (nom é neste momento o capitalismo coporativo que penetra, mas o capitalismo moderno) começa abalar a situaçom próspera de judeus russos e polacos. “A miséria dos judeus na Rúsia data da aboliçom da servidom e do sistema feudal da propriedade rural. Enquanto ambos tenham existido, os judeus tinham encontrado grandes oportunidades de subsistência como comerciantes e intermediários (34)”.

III. Período do capitalismo mercantilista e industrial
O período capitalista propriamente dito começa na época do Renascimento e manifesta-se primeiramente por umha tremenda expansom das relações comerciais e polo desenvolvimento das manufaturas.
Na medida em que os judeus continuam na Europa Ocidental (e em pequeno número), eles participam do desenvolvimento do capitalismo. Mas a teoria de Sombart que lhes atribui umha açom preponderante no desenvolvimento do capitalismo pertence ao reino da fantasia. Precisamente porque os judeus representavam um capitalismo primitivo (comercial, usurário), o desenvolvimento do capitalismo moderno só poderia ser fatal para a sua situaçom social.
Este fato nom exclui, longe disso, as contribuições individuais dos judeus à criaçom do capitalismo moderno. Mas onde os judeus se integram na classe capitalista, ocorre a sua assimilaçom. O judeu, grande empresário ou um acionista da Companhia holandesa ou inglesa das Índias está no limiar do batismo, limiar que tem cruzado com grande facilidade. O avanço do capitalismo é paralelo à assimilaçom dos judeus na Europa Ocidental.
Se o judaísmo ainda nom desapareceu completamente no Ocidente é graças ao afluxo maciço de judeus da Europa do Leste. A questom judaica que surge agora a nível mundial procede, em primeiro lugar, da situaçom da judaria oriental.
Esta situaçom resulta do atrasado desenvolvimento económico desta regiom. As causas específicas de emigraçom judaica estão ligadas com as causas gerais da emigraçom do século XIX.
A emigraçom geral do século XIX produziu-se em grande parte polo fracasso do desenvolvimento capitalista em relaçom ao ritmo do colapso da economia feudal ou das manufaturas. Ao camponês inglês, expulso pola capitalizaçom da economia rural, junta-se o trabalhador artesanal ou da manufatura expulso pelas máquinas. Estas massas camponesas e artesanais eliminadas polo novo sistema económico devem procurar o seu ganha-pom além dos oceanos. Mas esta situaçom nom se prolonga indefinidamente. Por causa do rápido desenvolvimento das forças produtivas na Europa ocidental a parte da populaçom privada dos eus meios de subsistência pode rapidamente arrumar emprego na indústria. É por isto que na Alemanha, por exemplo, a emigraçom para a América, muito intensa no século XIX, freia-se quase totalmente no seu fim. Acontece o mesmo na Inglaterra e noutros países da Europa ocidental (35).

Mas enquanto o desequilíbrio da socieadde situada entre o desmoronamento do feudalismo e o desenvolvimento do capitalismo desaparecia na Europa ocidental, aprofundava-se nos países atrasados do Leste. Nesta zona a destruiçom da economia feudal e das formas primitivas do capitalismo efetuava-se muito mais rapidamente do que o desenvolvimento do capitalismo moderno. Massas cada vez mais consideráveis de camponeses e de artesãos devem procurar umha via de saída na emigraçom. A começos do século XIX eram principalmente os ingleses, irlandeses, alemães e os escandinavos que formavam a cerna dos imigrantes na América. O elemento eslavo e judaico torna-se preponderante no fim do século XIX entre as massas que se dirigem para a América.

Desde o início do século XIX as massas judaicas procuraram novas vias de emigraçom. Mas ao princípio dirigem-se para o interior da Rússia e da Alemanha. Os judeus conseguem introduzir-se nos grandes centros industriais e comerciais onde desenvolvem um papel importante enquanto comerciantes e industriais. Facto novo e importane, pola primeira vez em séculos, nasce um proletariado judeu. O povo-classe começa a se diferenciar socialmente.

Mas o proletariado judeu concentra-se essencialmente no setor dos meios de consumo. Ele é acima de tudo artesão. Conforme a grande indústria estende o campo da sua açom, os ramos artesanais da economia esmorecem.

A oficina cede o seu lugar à fábrica. Desta maneira a integraçom dos judeus na economia capitalista é muito precária. Já nom apenas é o comerciante “pré-capitalista” que se ve empurrado à emigraçom, mas também o operário artesanal judaico. As massas judias cada vez mais consideráveis abandonam a Europa oriental para o Ocidente e a América. A soluçom da questom judaica, isto é, a penetraçom completa dos judeus na economia torna-se assim um problema mundial.

IV A decadência do capitalismo
O capitalismo, pola diferenciaçom social do judaismo, pola sua integraçom na economia e pola emigraçom, estabeleceu as bases da soluçom da questom judaica. Mas nom a resolveu. Polo contrário, a formidável crise do regime capitalista no século XX agravou a situaçom dos judeus dumha forma inaudita. Os judeus eliminados das suas posições económicas no feudalismo, nom puderam integrar-se na economia capitalista em plena putrefaçom. Nas suas convulsões, o capitalismo rejeita os elementos judaicos que ainda nom se assimilaram completamente.

Em toda a parte desenvolve-se um anti-semitismo feroz nas camadas médias, que abafa sob as contradições capitalistas. O grande capital serve-se desse anti-semitismo elemental da pequena burguesia para mobilizar as massas ao redor da bandeira do racismo.

Os judeus estám asfixiados entre dous sistemas: o feudalismo e o capitalismo, no que cada um acentua a putrefaçom do outro.


NOTAS

(1) J. Bédarride, « Les Juifs en France, en Italia et en Espagne ». Paris 1859.
(2) Ben Adir, artigo sobre o anti-semitismo em “Algemeine yidishe Enzyklopedie” (em iídiche).
(3) Karl Marx, “A questom judaica” (em Obras filosóficas, trad. J. Monitor, Paris, Costes, 1927), pp 205 e 209.
(4) Karl Marx, idem., p. 173
(5) A. Ruppin, « Les Juifs dans le monde moderne », Paris. Payot, 1934.
(6) Flávio José, « Guerre des Juifs », II, XVI, 398, tard. Fr. R. Harmanci (em OEuvres complètes de F. Jose, t. V, Paris, 1912, pp 205ss).
(7) “Inicialmente nós nom conhecemos nenhumha potência hostil que tivesse forçado nosso povo a se espaldar por toda Ásia Menor, em Macedónia e na Grécia”. Rabino Levi herzfeld, Handelsgeschichte der uden des Altertums, Braunschweig, 1879, 2ª ed. 1894, p. 203.
(8) Kart Kautsky, em Die Neue Zeit.
(9) A. Lods, Israel, des origines au milieu du VIIIº siècle. Paris, 1930. p.22
(10) L. Brentano. Die Anfänge des Modernen Kapitalismus, Munique, 1915, p.15
(11) R. Herzfeld, op cit, p. 203
(12) Henri Pirenne, Mahomet et Charlemagne, 2º ed., Paris-Bruxelas, 1937, p. 3
(13) Th. Mommsen, Histoire romaine, trad. Fr. De Guerle, Paris 1882, tomo VII, p. 275
Werner Sombart, na sua obra de valor desigual (Les Juifs et la vie économique, trad. Fr., Paris, 1923), na que os piores absurdos acompanham pequisas cheias de interesse, isto é: “Eu acho na religiom judaica as mesmas ideias-força que caracterizam o capitalismo”. Esta afirmaçom é justa na condiçom de entender por capitalismo o comércio e a usura “pré-capitalistas”. Ver-se-á mais adiante que é falso atribuir aos judeus umha parte preponderante na construçom do capitalismo moderno (ver capítulo IV). Para apoiar a sua tese Sombart cita umha quantidade de extratos do Talmude e doutros livros religisos judaicos que refletem este parentesco da religiom judaica e do espírito comercial. Eis, a modo de exemplo, algumhas destas citações:
“Um homem que gosta da alegria, o óleo e o vinho, nom se torna rico” (Provérbios, 21:17)
“Tu emprestarás a todos os povos e tu nom tomarás prestado de ninguém” (Deuteronomio, 15:6).
“A riqueza honra a casa do sábio e a pobreza do mau”.
R. Eleazar dizia: “O justo gosta melhor do seu dinheiro que do seu corpo”.
E R. Itshak repara nisto: “Que o homem tenham sempre o seu dinheiro em uso”.
Com efeito é difícil obter umha visom conjunta da confusom de textos escritos e comentados em épocas e em países diferentes. A pegada do epírito comercial nota-se netamente na maior parte destes escritos. O trabalho de Sombart é, neste sentido, a ilustraçom da tese marxista de que a religiom constitui o reflexo ideológico dumha classe social. Mas Sombart, como outros sábios burgueses, esforça-se em invertir a relaçom causal: é a religiom que teria sido o fator primário.
(14) Henri Laurent, “Religiom e negócios” em Cahiers du libre examen (Bruxelas, 1938). Aristóteles diz na sua Política: “É com muita razom que se tem umha grande aversom pola usura porque ela procura umha riqueza que procede do mesmo dinheiro. Foi criado para para a troca, enquanto a usura multiplica-a. o juro é o dinheiro do dinheiro e é, de todas as aquisições a mais contrária à natureza”. “Os cidadoms nom devem ejercer nem as artes mecánicas nem as profissões mercantis, porque este tipo de vida tem algo de vil e é contrária à virtude”.
(15) Contrariamente à opiniom de vários historiadores, a economia antiga, a pesar dum desenvolvimento importante das transações comerciais estava fundamentalmente baseada na produçom de valores de uso. “A indústria familiar é a predominante nom só nas sociedades primitivas mas também nas da Antiguidade e prolonga-se até o primeiro período da Idade Média. Os homens dividem-se em pequenos grupos autónomos do ponto de vista económico, e neste sentido bastavam-se a si próprios, consumindo apenas o que produziam e produzindo aquilo que deviam consumir. A troca e a divisom do trabalho apenas existia em estado embrionário”. Charles Gide. Principes d’Économie politique, 6º ediçom, Paris, 1898, p. 165
(16) J. Juster, Les Juifs dans l’Empire Roman, Paris, 1914, p. 125
(17) Heri Lauret, “Religion et affaires”, Cahiers du libre examen (Bruxelas, 1938).
(18) “O camponês e o señor na Idade Média nom som produtores de mercadorias. É certo que trocam os seus excedentes mas esta troca para eles algo estranho, umha exceçom. Destarte, nem o señor nem o camponês possuem em geral grandes quantidades de dinheiro. A grande parte da riqueza consiste em valor de uso, em trigo, em gado,… A circulaçom das mercadorias, circulaçom do capital-dinheiro, a economia monetária em geral, é alheia a esta forma de sociedade. O capital vive, segundo a expressom de Marx, nos poros desta sociedade. É nestes poros onde se introduz o judeu”. Otto Bauer, Die Nationalitätenfrage und die Sozialdemokratie, Viena (1907).
(19) Pirenne diz a respeito da conservaçom do carácter nacional nos alemães que moram nos países eslavos o seguinte: “O motivo principal (desta conservaçom) é se calhar que eles foram entre os eslavos os iniciadores e durante muitos séculos os representantes por excelência da cultura urbana. Os alemães introduziram nos povos agrícolas a burguesia e é, se calhar, antes como classe social que como grupo nacional que eles desde os primórdios se diferenciaram deles”. Henri Pirenne, Histoire de l’Europe, Bruxelas, 1936, p. 248.
(20) Augustin Thierry, Histoire de la conquête de l’Anglaterre par les Normands (1825)
(21) Como os tabiques entre as diferentes classes som estancos na época pré-capitalista, acontece amiúde que as diferenças nacionais persistam durante muito tempo. Estas manifestam-se acima de tudo na diversidade linguística. A língua do povo conquistado estava degradada ao papel dumha fala popular desprezada e a língua dos conquistadores torna-se a língua das gentes de “boa sociedade”. Na Inglaterra, durante muitos séculos, a aristocracia normanda continuava a utilizar o francês, enquanto que o povo exprimia-se em saxom. É a fusom destas duas línguas que forma o inglês moderno. A longo prazo as diferenças linguísticas esbatiam-se. Os burgundos, os francos e outros bárbaros nom demoraram em falar a língua dos seus súbditos. Por outro lado, os conquistadores árabes impuseram a sua língua aos povos conquistados. Estas diferenças linguísticas entre classes só desapareciam completamente com a chegada da burguesia ao poder. K. Kautsky, Rasse und Judentum, p. 26.
(22) “O capitalismo judaico era um capitalismo especulativo de parias; o capitalismo puritano identifica-se à organizaçom burguesa do trabalho” (Max Weber). Para outros a correspondencia entre classe e religiom nom é perfeita. Todos os cavaleiros nom som católicos e todos os burgueses nom se aderem ao calvinismo. Mas as classes deixam pegada na religiom. Assim, “a revogaçom do Edito de Nantes faz fugir, no final do século XVII, ao redor de 100.000 protestantes, quase todos habitantes das cidades e pertencentes às classes industriais e comerciais (os camponeses hugonotes convertidos em apariencia apenas abandonaram o reino). H. Sée, La France économique et sociale au XVIIIº siècle, Paris, 1939, p.15.
(23) Karl Marx, O Capital.
(24) Com a exeçom dumha tribo mongol (os khazares) da ribeira do mar Cáspio, que adota no século XVIII o culto israelita. Existe umha relaçom entre a funçom comercial desta tribo e a sua conversom ao judaismo?
(25) H. Pirenne, Les anciennes démocrates des Pays-Bas, Paris, 1910.
(26) Palestra de S. M. Doubnov na reuniom da Sociedade histórica etnográfica de Sam Petersburgo (cfr. Artigo na revista Voshod, nº12, 1894, em russo).
(27) Já no século V a.C. os judeus da Diáspora falam o aramaico. Mais tarde, falam o grego: “Os epitáfios dos cemitérios judaicos de Roma som sobretodo gregos, redigidos numha gíria pouco compreensível. Alguns som latinos e nenhum está em hebraico”. L. Friedländer, Derstellungen aus der Sittengeschichte Roms, II, p.519.
(28) Seria interessante pesquisar porque os judeus que vivem nos países eslavos conservaram durante tanto tempo o dialeto germánico (iídiche).
(29) A. Ruppin, Les Juifs dans le monde moderne, Paris, 1934, p.265
(30) idem, p.136
(31) idem, p. 136
(32) Na época do desenvolvimento capitalista do século XIV para o XIX, a assimilaçom significou geralmente na Europa ocidental a penetraçom na classe capitalista cristã. A penetraçom dos judeus na classe capitalista pode ser comparada à transformaçom em capitalistas dos proprietários feudais. Aquí também a luta da burguesia contra o feudalismo acaba, nalguns casos, pola expropriaçom total da classe feudal (França) ou pola penetraçom dos feudais na classe capitalista (Inglaterra, Bélgica). O desenvolvimento capitalista teme feitos semelhantes nos judeus. Nalguns casos eles devem assimilar-se; noutros, som eliminados.
(33) Geralmente, as perseguições contra os judeus tinham um carácter social. Mas o atraso da ideologia a respeito da infraestrutura social pode também explicar algumhas perseguições puramente religiosas. Nalgumhas regiões os judeus puderam conservar durante muito tempo a sua religiom particular embora se tivessem convertido em agricultores. As perseguições terám por fim, neste caso, acelerar a sua conversom. O que diferencia as perseguições religiosas das perseguições sociais (sob disfarce religioso) é o seu carácter menos violento e a pouca resistência dos judeus. Assim, se calhar na Espanha visigótica os judeus eram em parte agricultores. Destarte os reis visigóticos nunca sonharam na sua expulsom, como fizeram mais tarde Fernando e Isabel. As perseguições puramente religiosas devem ser consideradas como excecionais.
(34) Werner Sombart, L’apogée du capitalisme, Paris, 1932, p.430.
(35) “O crescimento econòmico dos principais países europeus no último quarto do século XIX para essa vaga de emigraçom, mas em breve tem lugar a segunda vaga integrada principalemente por emigrantes dos países agrários da Europa” W. Woytinski, Tatsachen und Salen Europas, Viena, 1930, p.60.

PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇOM

Ernest Mandel

O período de paz e bem-estar relativos que viveu a Europa Ocidental entre 1870 e 1914 nom foi muito propício à formaçom de verdadeiros revolucionários. Para que o espírito se tire completamente da influência da ideologia da classe dominante, para que a vontade se concentre inteiramente num único objetivo, a conquista do poder pelo proletariado, nom basta com assimilar corretamente o método e o legado marxista; ainda é necessário que a vida lance os homens para fora da rotina duma existência "respeitável", que lhe imponha a experiência imediata de tudo aquilo que o sistema capitalista tem de explorador, cruel, degradante e de bárbaro. Foi no cadinho da ilegalidade, da prisom, da emigraçom e duma luta sem trégua contra a autocracia, que se forjou a grande geraçom revolucionária dos bolcheviques na Rússia revolucionária. Para que se forme uma nova geraçom revolucionária nos países ocidentais, era necessário que a humanidade entre no fogo da época das crise, , guerras e revoluções.

As guerras e revoltas trouxeram o berço de A. Leon e depois fecharam-lhe os olhos. Quando ele nasce os passos da revoluçom ressoavam nas ruas da sua cidade natal, Varsóvia. Dois sovietes rivais disputavam-se o poder. No horizonte aparecia a sombra da República dos Sovietes. Os exércitos em debandada arrastavam os seus trapos, a sua amargura e a sua sede de justiça nas assembleias populares. Dos fundos mais escuros da humanidade varriam sucessivas ondas na arena política, homens e mulheres, jovens e idosos, todos os pobres, os oprimidos e despossuídos que viveram em silêncio e dobravam a espinha, descobrem de repente uma voz. Enquanto nas extremidades de seus braços ondeou a bandeira vermelha na capital atormentada, no alto da fortaleza já flutuava a bandeira vermelha e branca, com a águia polaca, içada pelos legionários comandados por um "socialista", Pilsudski. Estes dois símbolos, estas duas escolas de pensamento, o socialismo internacionalista e o social-patriotismo pequeno-burguês lutaram apaixonadamente pela supremacia sobre as massas. A vida tão curta e bem sucedida de Leon ia-se desenvolver inteiramente sob o signo desta luta.

Partilhada em cada conjuntura histórica, a Polónia nom podia deixar hipotecar o movimento sindical pela pesada herança de um passado miserável, o nacionalismo militante. Vítimas de cada crise política e social, os judeus da Polónia, que testemunharam pogroms sob os czares, sob a Revoluçom, sob os Brancos sob os russos, sob os polacos, sob os ucranianos e sob os lituanos, nom podiam deixar de procurar uma soluçom de desespero na formulaçom de um novo mito nacionalista: o sionismo. Expressando a total falta de saída perante a que a pressionava o pensamento judaico pequeno-burguesa, esta utopia reacionária misturava-se entre os jovens, e em especial entre a juventude operária, com a vontade de atingir o ideal socialista, de participar ativamente na luta proletária mundial. A contradiçom entre o caráter pequeno-burguês do sionismo e os resultados rigorosos do internacionalismo marxista empurrou os líderes operários sionistas a formular uma nova teoria que, embora combinando o seu socialismo que eles queriam científico com as suas aspirações sionistas, dar-lhes a estes últimos um pingo de justificaçom marxista. Eis como nasce essa estranha teoria chamada Borochovismo, em homenagem ao seu autor Ber Borochov, e que estava destinada a tornar-se durante várias décadas a teoria oficial de centenas de milhares de socialistas revolucionários judeus no mundo.

Na casa paterna de Léon, os seu pais representam o sionismo pequeno-burguês clássico. No primeiro contato com a realidade, a criança se sentiu a atraçom do mito sionista como uma embriaguez religiosa. O mito seria realizado, a família mudou-se para a Palestina quando o menino tinha a idade para entrar na escola primária. O grande desfile das imagens desta viagem ficaram nele como um conto de fadas. Ele lembrava-se como o sol brilhava sobre os telhados de Constantinopla, o som do mar sobre as ilhas do arquipélago e como ele viu pela primeira vez a costa dura e áspera da Terra Prometida. O conto de fadas, porém, nom durou muito e, um ano depois, o pai de Léon decide regressar ao seu país natal. Na instabilidade das suas condições de existência, o menino observa, tenta compreender, assimilar o conceito do movimento contínuo dos homens e das coisas. O espírito viaja e nom se fixa ainda. Nom foi até 1928 quando a família decide imigrar de vez na Bélgica, que Abrão começou a se interessar intensamente sobre os seus companheiros de idade e que começou a tomar contato com o movimento da juventude socialsita sionista Shomer Hazair, A Guarda Nova.

Em seguida diferentes forças começam a trabalhar. Na escola ele sente uma barreira intransponível entre os seus companheiros e ele próprio, um judeu estrangeiro. Como nom entender que ele seja diferente dos outros, que ele tenha os seus próprios problemas, quando ele observa que o tratam sempre assim, que nom lhe deixam entrar nos jogos e nas conversas, apenas sem comentários ou ironia, como um outro rapaz? Quando volta para casa, pelas ruas fervilhadas dos velhos bairros de Bruxelas, ele descobre todas as grandes contradições da sociedade moderna; carros de luxo estacionados em frente de casas bonitas mas, na virada da rua, as crianças sujas e famintas brincam entre o lixo. Como o seu coraçom sensível nom seria afetado pela imagem dum mundo dividido entre ricos e pobres, como nom tomar naturalmente o lado dos oprimidos, ele que se sente vítima de uma dupla injustiça? Assim, o jovem Abrão torna-se um ativista fervoroso da juventude socialista judaica. O que o seu coraçom sentiu de indignaçom e revolta, a sua mente começa a o explicar e sistematizar. Gradualmente, através de uma educaçom marxista metódica, Leon procura entender a sociedade e a soluçom dos problemas sociais que parte da noçom da luta de classes. Como parte de seu movimento de juventude, apesar das suas ideias políticas um pouco confusas, é um modelo de organizaçom e uma das melhores escolas de costumes e do espírito proletário existentes, os laços de família, a tradiçom, o legado dma passado pequeno-burguês de cálculo mesquinho, de temor submiso perante os representantes do poder, dissolve-se. O caráter liberta-se com o espírito, ele aprende a se controlar, a se conduzir pela razom, a se submeter à procura de um objetivo. A vontade mergulha-se no ideal. A personalidade forma-se, unida, feita de uma única peça, enfocando-se na luta pelo socialismo, encontrando a maior satisfaçom no pensamento e na açom em nome do proletariado mundial.

O jovem Leon nom tarda em ultrapassar os seus companheiro no movimento. O mais inteligente, o mais voluntário, o mais compreensivo, ele é ao mesmo tempo duma calma e segurança racional que impõe naturalmente o respeito de todos aqueles que o rodeiam. Líder nato, ele nom precisa elevar a voz, nem prometer ou ameaçar, nem cativar pela retórica ou arrastar por atos extraordinários para que a sua autoridade seja aceite por todos. Logo ele foi eleito democraticamente em vários níveis da Shomer para logo estar na direçom da seçom de Bruxelas e na direçom nacional. As condições de vida da família forçaram-no a abandonar temporariamente os estudos que ele queria continuar. Forçado a se deslocar frequentemente em toda a Bélgica para ganhar a vida, ele retomou o contato com a malta de trabalhadores que mais uma vez sai à rua para fazer valer a sua força e reivindicar os seus direitos. Nos dias ensolarados do verão de 1936, a febre sobe das minas de carvom de Charleroi às sombrias aldeias mineiras de Borinage. Enquanto a polícia vigia nos cruzamentos, os trabalhadores reúnem-se para ouvir um novo líder. Passaram muitos anos desde que ouviram pela última vez um sincero e verdadeiro acento revolucionário. Milhares vêm para Flenu, Jemappes, Quaragnon, Frameries e ao estádio da Bouverie para ouvir os discursos inflamados de Walter Dauge, o jovem fundador do Partido Socialista Revolucionário. Leon segue os comícios de Dauge. Ele aprende a distinguir o trotskismo do estalinismo. Estuda, nom hesita muito tempo. Ele escolheu as ideias que lhe parecem determinadas pelo verdadeiro marxismo, inspirado nos verdadeiros interesses do proletariado mundial e nom das miseráveis falsificações forjadas pelo mestre do Kremlin. Ao mesmo tempo, acontece a série dos grandes processos de Moscovo, que lhe fazem tomar uma posiçom definitiva. A partir deste ano, enfrentando a toda a organizaçom mundial da Shomer -que é bastante stalinista- ele tornou-se resolutamente trotskista e defende as suas ideias com vigor, e nom sem sucesso, nas reuniões nacionais ou internacionais.

Mas apesar de avançar muito longe na compreensom do marxismo, prosseguir um estudo muito aprofundado da economia política, ele continua profundamente comprometido com o sionismo. Presidente por um ano da Federaçom da Juventude Sionista de Bruxelas, ele coloca toda a sua energia, todo a sua paixom revolucionária no serviço desta causa. Um entusiasmado apelo é lançado com motivo da partida de uma série de jovens ativistas para uma colónia comunista na Palestina. Mas ele começa a estar confundido, a duvidar. Ao seu lado, no escritório, acham-se os representantes das organizações sionistas burguesas e pequeno-burguesas. Nom está ele unido a eles no imediato, mesmo se ele pretende se propõe combatê-los sem clemência, uma vez que tenham conquistado a nacionalidade e a possibilidade dumha luta eficaz (1) lá na Palestina? Nom é patriotismo-social, embora que sob uma forma algo especial? Leon conhece o seu Lenin sobre a ponta do dedo. As grandes e límpidas demonstrações contra a corrente já nom lhe saiam do espírito. Como conciliar o seu leninismo integral com o sionismo? Onde se acha a base comum entre a luta nacional judaica e o socialismo internacionalista?

Desta forma, duas décadas após Borochov, Leon lança-se sobre as pegadas do teórico da Shomer para encontrar uma justificaçom marxista das ideias sionistas. Ele questionou tudo, revisou metodicamente, passo a passo, toda a filiaçom de ideias, descartando todos os axiomas da ideologia sioniasta, abrindo-se um caminho através dos múltiplos preconceitos de judeus e nom judeus a respeito da história do povo, história que parece tão incrível, tão extraordinária e pela que o seu espírito rigorosamente científico ainda busca uma explicaçom consoante o méotodo marxista. No meio de sua pesquisa, ele envia vários artigos para o semanário trotskista A Luta Operária. Os editores deste jornal entram em contato com ele. Ele fica surpreso ao descobrir nestes trabalhadores comuns, como Teuniuck, açougueiro de profissom, um tesouro de conhecimentos históricos, económicos e políticos. Eis a verdadeira vanguarda. Como o viajante que inconscientemente já escolheu a sua rota, ele virou mais uma vez no seu passado: ele quer quebrar "em beleza”, em plena consciência, após ter-se explicado a si próprio e aos seus antigos camaradas os motivos subjacentes da sua rutura, após fazer todo o possível para demonstrar a todos os seus amigos o que ele acha verdade no que vem de descobrir. As suas Teses sobre a questom judaica tomam forma, teses cujo livro "A conceçom materialista da questom judaica” será a sua elaboraçom expandida.

Enquanto isso, uma vaga de ansiedade abrange as massas judaicas em todo o continente. Eles sentem a proximidade da guerra, e um pressentimento da catástrofe terrível que virá sobre eles empurra-os numa crise de nervosismo e de medo. A Shomer reúne-se. Entom a sombra ameaçadora de Hitler já esvoaça sobre Bruxelas, confrontando apaixonadamente argumentos opostos num sentido ou no outro, os delegados irão decidir quer o apoio condicional ao imperialismo britânico, quer a neutralidade, quer pela defesa independente da Palestina se um exército fascista se aproximar deste país. Apesar das vaias e dos gritos de indignaçom perante este renegado de Israel, Leon, mesmo antes de ele romper finalmente com o sionismo defendeu corajosamente a posiçom do derrotismo revolucionário integral. “Ai daqueles que por causa do seu social patriotismo acentuem o chauvinismo dos trabalhadores dos países inimigos. É contra eles próprios que suas armas irão virar-se toda a sua força! Ai daqueles que esperam ver surgir da guerra do imperialismo britânico contra o seu concorrente alemão uma melhoria da miserável situaçom dos judeus na Europa Central! Serão eles próprios as vítimas mais duramente atingidas!”. É nesse sentido que deveu ter falado Leon. Que espantado nos centristas indecisos, incapazes de seguir o seu raciocínio até ao fim, olhando para cada turno soluções fáceis e de compromisso, incapazes de reagir sobre o rigor da história pelo rigor do seu pensamento! De que forma tão trágica os acontecimentos confirmaram as suas previsões.

Enquanto as ondas da guerra imperialista se aproximavam da Bélgica para rebentar sobre o país em maio de 1940, Leon desenvolve as suas Teses sobre a questom judaica que ele submete à discussom da sua organizaçom. Ao chocar, na sua tentativa de apreender o sentido da história judaica, com a teoria de Borochov do materialismo metafísico como a chamava, ele primeiro tentou eliminar este obstáculo. Borochov afirmara que a "questom judaica" teve sua origem no fato de que os judeus, nomeadamente os trabalhadores, nom desempenhavam um papel importante nos setores vitais da economia (indústria pesada, metalurgia, minaria, etc.) mas que eles ocupavam unicamente um lugar importante nas esferas periféricas da vida económica. Enquanto a composiçom social dos outros povos parecia uma pirâmide cuja base estava constituída por centenas de milhares de mineiros, metalúrgicos, trabalhadores ferroviários,... passando por grandes camadas de pequenos artesãos para alcançar no cimo grandes comerciantes, industriais e banqueiros, a composiçom social do povo judeu assemelhava-se com uma pirâmide invertida, na que grandes camadas artesanais estavam alicerçadas por estreitas camadas de operários -e unicamente operários dos setores nom-vitais da indústria- mas que deviam carregar o peso enorme de uma grande massa de operadores.

Borochov ficara neste ponto da sua análise, aceitando-o como dado histórico, sem tentar explicá-lo, fazendo dele o ponto de partida da questom para a sua soluçom: primeiro era preciso inverter a pirâmide invertida, quer dizer, criar uma sociedade judaica normal, como a de outros povos, antes que o proletariado judeu encete a luta revolucionária: esta sociedade apenas podia ser criada na Palestina.

Leon apreende logo o que nom era dialético nesta teoria: a atual condiçom social dos judeus nom devia ser considerada como um fato, mas como o produto do processo histórico. Donde vem esta evoluçom histórica diferente dos judeus? Reatando o fio do raciocínio de Borochov com algumas fugazes expressões de Marx que, com o seu gênio de costume, apreendera de uma vez todo o mistério da história judaica. Leon começou a reconstruir todo o passado dos judeus. A explicaçom da religiom e da preservaçom dos judeus, como dados originais, era preciso procúrá-la no papel social dos judeus. Reunindo toda a literatura existente sobre o assunto, ele desenvolveu a teoria do povo-classe, impressionante na sua simplicidade e chave indispensável para a compreensom do papel passado e presente dos judeus e para encontrar uma soluçom à sua miséria.

Mas o borochovismo nom pecava apenas no seu ponto de partida, ele também pecava nas suas conclusões. Ele considerava a soluçom do problema judaico nom só fora do processo histórico passado, mas ainda fora da realidade social atual. No período do imperialismo e do capitalismo agonizante, a vontade de alguns milhões de trabalhadores judeus para criar uma sociedade como qualquer outra parecia uma força ridiculamente limitada face os gigantes imperialistas que lutavam por cada canto desocupado do mundo, face à coligaçom violenta das classes sobre a arena mundial. Borochov nom entendeu a lei do desenvolvimento combinado na era imperialista, lei que proibia a qualquer naçom a soluçom de qualquer problema sob o regime do capitalismo em agonia. Para eliminar os aspetos trágicos da sociedade judaica, nom se podiam isolar de toda a sociedade em decadência. Nom se podia inverter a pirâmide invertida de judeus, enquanto a pirâmide normal das outras nações estava a desmoronar-se. Só a revoluçom proletária mundial seria capaz de normalizar a história judaica. Como parte do capitalismo decadente nom existe soluçom possível para a questom judaica.

E assim, até o fim, Leon resolveu as suas contas com o seu próprio passado. Ele denunciou nom apenas o caráter utópico e pequeno-burguês do ideal sionista, mas ele também mostrou como esse ideal, como qualquer ideologia específica da pequena burguesia da época imperialista, estava condenada a se tornar um instrumento nas mãos do capitalismo global. Ele denunciou o sionismo como um travom da atividade revolucionária dos trabalhadores judeus no mundo, como um obstáculo à emancipaçom da Palestina das garras do imperialismo britânico, obstáculo no caminho da plena unidade entre os trabalhadores judeus e árabes desse país. Francamente, sem reservas nem hesitações, ele condenou toda a sua atividade passada. Ele entendeu tudo o determinismo, ele soube que fora um passo necessário do seu próprio desenvolvimento. O seu espírito embebido na dialética gostava de apresentar cada conhecimento de forma clara e cada estado de consciência como resultado de uma luta para superar a contra-verdade e o erro. “Para entender é preciso começar por nom entender”, dizia muitas vezes. “Nenhuma conviçom é tão profunda como a saída de uma luta ideológica interna grande e sincera”. Os anos que lhe restavam para viver provaram a justeza dos seus achados no que diz respeito a si próprio. Superada a fase nacionalista do seu desenvolvimento, Leon extirpou até a últimas parcelas sionistas do seu pensamento e o seu internacionalismo foi de uma pureza tal que uma raramente se encontrava.

Livre de se dividir em duas direções contraditórias e de se consumir num dramático debate interno, entom a sua energia pudo lançar-se com todas as suas forças numa só e única via, a da IV Internacional. Deixando a organizaçom Shomer com vinte companheiros, Leon criou um círculo de estudos no propósito específico de levar os seus seguidores para o trotskismo. Nada é mais importante do que o momento de uma conversom. Quando Leon chegou ao comunismo internacional, o movimento operário parecia morto na Bélgica. Tendo iniciado a sua evoluçom como um fervoroso anti-militarista, para se tornar, sucessivamente, social-patriota, teórico de uma revisom insípida do marxismo, ministro real e grosseiramente charlatão do capitalismo, Henri de Man acabava de completar o ciclo da sua vida “socialista" autodissolvendo o partido do qual fora Presidente e apelando os seus companheiros para colaborar com Hitler na construçom de uma "nova ordem" na Europa. Isolado das massas batidos de estupefaçom pelos acontecimentos de maio-junho, o Partido Comunista, seguindo as instruções de Moscovo, manteve-se numa espera prudente e arriscava-se até mesmo a publicar um jornal semanal flamengo que reproduzia obedientemente, junto dos hinos sobre “o país da vida alegre e feliz”, as intermináveis ladainhas anti-britânicas de Goebbels. O ex-líder trotskista Walter Dauge, cuja bagagem ideológica se mostrou muito leve para esta longa tempestade, profundamente desmoralizado, abandonou o seu partido à sua própria sorte. Os poucos quadros trotskistas, espalhados por todo o país, mal restabeleceram um primeiro contato entre eles. A situaçom parecia justificar a resignaçom ou a espera. Qualquer outra atitude parecia desesperada e impotente.

No entanto, faltou a coragem nom para agir, mas para pensar e raciocinar corretamente. A análise marxista poderia penetrar sob a pesada laje totalitária que pendia sobre a Europa e nela descobrir as forças em gestaçom que acabaria por derrubá-la. Fixando corretamente as razões que esperávamos, Leon observou que o movimento operário na Europa atingira o ponto mais baixo da sua queda. Agora, era preciso contar com uma nova subida, nom para esperá-la passivamente, mas para prepará-la, para preparar os quadros e para preparar, sempre que possível, as massas. Somente em contato permanente com a vida, as dificuldades, as aspirações cotidianas das massas que pode ser forjado, mesmo nos momentos mais sombrios da história, um partido capaz de as dirigir mais tarde na luta. Por trás de cada razom da desesperança é preciso encontrar uma razom para esperança. Foi mais que um símbolo, foi um início de açom do pensamento motriz de Leon. Quando em 20 de agosto de 1940 a trágica notícia da morte de L. D. Trotsky nos bate de consternaçom, Leon escreveu imediatamente o primeiro trato do movimento clandestino trotskista belga. Ele fez contato com vários ex-líderes regionais do partido em Bruxelas. Uma primeira direçom é esboçada. A organizaçom clandestina trotskista na Bélgica nasceu com a morte do seu pai espiritual. A vitalidade indestrutível das ideias da Quarta Internacional, que são a expressão consciente da realidade histórica, apenas procura as oportunidades e os homens para se afirmar em cada momento. E elas acababam de descobrir-se uma à outra.

Em seguida começou um período de trabalho contínuo, teimoso, incansável, face ás dificuldades recorrentes que cada vez pareciam intransponível. Nom é uma banalidade, mas uma verdade estritamente precisa que a história pessoal de Leom mistura-se a partir de agora inextricavelmente com a do movimento trotskista na Bélgica, o principal organizador do partido, do que ele era o secretário político desde a composiçom do primeiro Comitê Executivo. Jornalista de linguagem incisivo, vivo, claro, ele fazia sentir aos seus leitores que ele entendia e compreendia completamente cada problema que tratou. Sob a sua direçom trabalhou a redaçom d’O Caminho de Lenine ilegal, cujas primeiras edições contêm um estudo magistral escrito pela sua mão sobre a estrutura e o futuro das potências imperialistas, estudo em que traçava as grandes linhas dos acontecimentos futuros da guerra, tal como iriam ocorrer. Organizador e educador exemplar, ele levou as células, tentou construir um aparelho ilegal, dedicou-se com infinita paciência a conquistar a confiança das regiões operárias do Partido, a formar sobre a base desta confiança uma liderança nacional reconhecida e responsável. Foi no primeiro Comitê Central do Partido reconstituído, resultado dos seus esforços incansáveis, em julho de 1941 quando tive a primeira oportunidade de o conhecer. Mas embora inteiramente absorvido pelas imensas tarefas cotidianas, tanto as políticas como organizacionais, Leon nom parou por um momento este trabalho ideológico que é o legado mais precioso que ele nos deixou. De um lado, ele teminou gradualmente o seu livro sobre a questom judaica pondo em causa constantemente as questões de pormenor, refletindo semanas sobre um aspeto particular da questom, devorando toda a documentaçom que existia, mas pronto, quando o seu parecer foi feito, a defendê-lo até o fim. É assim que este livro foi escrito que nom é apenas um modelo de aplicaçom do método marxista de um problema histórico específico, que nom só o liquida a questom judaica como um problema do ponto de vista do materialismo histórico, mas que tem também uma riqueza de observações e formulações sobre os muitos problemas da economia política, da história e de política contemporânea. Por outro lado, ele dedicou-se ao desenvolvimento de uma conceçom leninista exata sobre o problema que neesa altura apaixona a todos os revolucionários nos países ocupados: a questom nacional e sua relaçom com a estratégia da Quarta Internacional. Aqueles que se entregam a uma crítica fácil da política trotskista na Europa face a questom nacional, devem ler e estudar primeiro os documentos que Leon elaborou durante este período. Que reparem qual era a preocupaçom, e a de toda a liderança do nosso partido, salvaguardar por um lado o programa leninista do vírus chauvinista, e defender por outro lado a tática leninista da miopia sectária, e irão ver que ridículas som as acusações pelas que se subestimara a questom nacional. O que antes de mais clafiricou em termos de teoria, ele tentou executá-lo em prática. A pequenez dos nossos quadros nom nos permite começar um trabalho fracionário consequente entre os refratários. Mas cada vez que um movimento real emerge, quer com ocasiom do encerramento da Universidade de Bruxelas, quer durante as primeiras grandes greves de Liège, quer durante a deportaçom ou nas ações contra judeus, o partido deixou claro seu ponto de vista e aplicou a sua linha política: "Apoiar e impulsionar o movimento de massas contra os invasores imperialistas para transformá-los em movimentos revolucionários proletários”. E foi com orgulho justificável que Leon notou, no Congresso ilegal do Partido do Congresso em julho de 1943, foi que nom houve um evento na Bélgica desde 1941 no qual o partido tivesse permanecido alheio.

Uma vez que a reconstruçom do partido superou a fase de acabamento, Leon começou a se preocupar com as ligações internacionais. Internacionalista em todo o seu ser, ele nom podia aceitar a ideia de que a organizaçom belga vivesse isolada de todas as organizações irmãs na Europa e no mundo. A necessidade de contato com outras seções da Quarta Internacional nom foi apenas devida à sua disposiçom para enfrentar a linha política do partido belga com a dos seus partidos irmãos; também correspondia a uma consciência clara do fato de que no futuro os grandes choques militares e revolucionários tinha inevitavelmente um caráter continental e que nenhuma liderança política efetiva já nom poderia operar nacionalmente. Uma tomada de contato com a Holanda falhou. Na França foi mais bem sucedida. Graças a esta ligaçom, os últimos documentos de L. D. Trotsky chegaram até nós através de Marselha e Paris, especialmente o precioso manifesto da Conferência de Alarme de 1940 que o nosso partido editou sob a forma de brochura impressa. Entom em agosto 1942 teve lugar numa pequena aldeia das Ardenas, a que seria a primeira conferência de ligaçom entre os representantes das direções belga e francesa. Leon e Hic foram os principais facilitadores deste encontro. Eles estabeleceram a base do futuro Secretariado Europeu Provisório que, por sua vez, iria reconstituir na clandestinidade uma direçom internacional na Europa. Meses de trabalho ilegal nas circunstâncias mais perigosas, quando o coraçom se apertava apesar de toda a vontade, cada vez que tocavam na porta ou um carro ia mais lento perto da calçada, também foram meses de uma tensom nervosa suprema, de espera, espera contínua de uma explosom que finalmente iria abrir as grades e permitiria avançar o dia em que todas as portas saltariam desta prisom enorme em que se tinha tornado a Europa. Esperaríamos que este raio dentro da prisom, com uma confiança nas reservas de energia revolucionária que acabavam de acumular-se durante os longos anos de sofrimento do proletariado do continente. Mas apesar de nossa confiança, a espera foi muito longa. Quer no seu compromisso pessoal a levar o modesto trabalho do nosso partido para com os soldados proletários da Wehrmacht, quer na sua preença nas reuniões dos comités de empresa clandestinos que acabavam de constituir-se na metalurgia de Liège, Leon deu sempre a estas atividades um significado que ia além do futuro imediato de maneira que o fruto da sua semente pudesse ser colheitada pelo partido no momento decisivo. Dada a pequena dimensom dos nossos cadros nessa altura, muitas vezes se tem perguntado se seríamos capazes de recolher. Ele nom podia prever que é ele próprio quem ia faltar ao partido durante os dias decisivos da Libertaçom e que seria a ausência deuma direçom eficaz o que impediu que o partido aproveitasse as extraordinárias possibilidades do momento.

Com a queda de Mussolini finalmente sentimos erguer os ventos da revoluçom e a nossa atividade multiplicou-se, tornou-se mais febril. Cada um de nós entregou-se conforme sentimos a abordagem da decisom. Com uma série de viagens clandestinas na França, Leon participou ativamente nos trabalhos da Conferência Europeia da Quarta Internacional, em fevereiro de 1944.

Nessa altura começamos a nos preparar, tratava-se de participar ativamente na luta que eclodia em cada lado. Na regiom de Charleroi, a organizaçom trotskista tinha tomado a iniciativa de criar um movimento de delegados mineiros ilegais. Este movimento rapidamente se espalhou para uma dúzia de minas: na clandestinidade as ideias do partido começaram a ganhar uma posiçom entre as massas. Leo, que compreende a importância deste movimento, queria segui-lo passo a passo. Ele decidiu estabelecer-se em Charleroi para trabahar diariamente com os trabalhadores revolucionários da regiom. O anúncio do desembarque e o temor de ver as conexões entre as diferentes regiões interrompidas aceleraram os preparativos do seu deslocamento. Após ter vivido na mais completa ilegalidade durante dois anos, ele iria-se instalar em Charleroi com sua namorada. A primeira noite após a sua chegada, a Feldgendarmerie alemá invadiu por acaso a casa onde ele está. Ele foi detido e transportado para a prisom.

Depois vêm os longos dias de tortura física e moral. A Gestapo tenta por todos os meios fazê-lo falar. As preocupações pelo partido que perdera cinco dos seus principais líderes nos últimos dois anos corroem-no. Ele conseguiu ganhar a confiança dum dos soldados encarregados da vigiância da prisom. Estabelece-se uma ligaçom com o partido. Ele envia cartas que som a evidência mais convincente de que na hora mais difícil da sua vida todos os seus pensamentos estavam com a organizaçom, nos seus planos imediatos, no seu futuro. Desejava tanto continuar a trabalhar ao lado dos seus camaradas. O destino nom quis. O seu transporte rápido destrui os preparativos para escapar que o partido tinha começado, lançando-o para esse inferno onde iam morrer cinco milhões de seres humanos: Auschwitz.

Leon era o tipo de homens que têm o mínimo de resistência ao regime dos campos nazistas. Antes de mais nada ele brilhou em um alto conceito de dignidade humana que nom podia tolerar um contato com a degradaçom ea crueldade tornam-se a açom comum do comportamento humano nos campos. A nobreza do seu caráter eram para quebrar a brutalidade implacável de um desespero egoísta, como seu corpo foi esmagado por um esforço físico incomum e uma doença traiçoeira. Após várias semanas de trabalho em um comando atribuído a construçom da estrada, ele é enviado, os doentes em quarentena. Ele estava lá para encontrar aparelhos, para reverenciar os professores sádicos, adulteraçom, roubando para sobreviver. Ele nom podia subir acima de seus companheiros na miséria. Pregado na sua cama, ele passou seus dias lendo, meditando sobre a sua vida estoicamente. Tinha certeza de que o fim estava se aproximando. Entom, a inspeçom "última médico" passou, vamos selecionar os pacientes para as câmaras de gás. Leon foi um dos selecionados. Corajosamente ele deixou.

É difícil se nom impossível, para apreciar plenamente o valor de um revolucionário gigante que viveu apenas 26 anos. Apesar de seu trabalho incessante, relativamente poucas som as obras que ele deixou para nós, ele nom escrever muito, ele preferiu pensar com cuidado antes de confiar os seus pensamentos para o papel. Apesar disso, ele nos deixa, seu livro, e um magro volume de itens, apenas para vê-lo com Marcel Hic, o talento mais excecional, a promessa do mais grave que a Quarta Internacional teve no continente . Através de sua força de caráter, pela maturidade de suas decisões políticas, por sua autoridade natural e sua liderança, Leo estava destinado a levar o nosso movimento e para guiá-los através de lutas constantes para a vitória. O vazio que ele deixa nom serão preenchidos em breve por uma figura de seu tamanho.

Todos aqueles que o conheciam se lembrarão para A. Leon como um exemplo e uma fonte constante de inspiraçom. Aqueles que leram o livro vão admirar a clareza e rigor do seu raciocínio e continuam a ser surpreendido com o vencimento de sua mente com a idade de 24. Aqueles que aprendem a história de sua vida pode perguntar por que um homem de qualidades notáveis também misturado o seu destino ao de uma pequena organizaçom revolucionária, eles elogiam a sua sinceridade, honestidade força ideológica que o fez viver em total acordo com suas ideias. Eles ainda perguntam por Marcel Hic, o Wideline, de A. Leon, que estavam entre os mais talentosos da intelectualidade europeia escolheu para lutar contra um movimento que poderia lhes prometer sem sucesso fácil ou glória ou honras, ou até mesmo um mínimo de conforto material, mas exigia que eles todos os sacrifícios, incluindo as suas vidas, em um trabalho longo e ingrato e muitas vezes doloroso isolamento do proletariado, que queriam dar tudo. E se eles reconhecem esses jovens revolucionários, ao lado de suas qualidades intelectuais de excecionais qualidades morais, eles deveriam dizer, entretanto, um movimento que só pela força de suas ideias e da pureza de seu ideal chamar esses homens lá e trazer essas lógicos racionalista às alturas misteriosas esquecimento de si mesmo e um espírito de devoçom, tal movimento nom podia morrer, porque ele viu que tudo o que é mais nobre na homem.


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(1) A Schomer Hazair defende a conceiçom que os operários e socialistas revolucionários judeus apenas podem lutar eficazmente pola Revoluçom proletária na Palestina.