sábado, 29 de novembro de 2014

QUANDO A UNIOM SOVIÉTICA PATROCINAVA ISRAEL

MICHEL RÉAL

Em 17 de maio de 1948 a URSS reconhecia o Estado de Israel, criado três dias antes [1]. Este gesto, considerado umha grande vitória polo movimento sionista, marcava o resultado de vários anos de esforços. Os primeiros contatos tiveram lugar em Londres, nos inícios de 1941. Por enquanto, a URSS continuava a ser aliada da Alemanha nazista, o presidente da Organizaçom Sionista Mundial, Chaim Weizmann, reunia-se com o embaixador soviético Ivan Maiski. De súbito, os dous referiram-se ao futuro da Palestina. Weizmann militava pola criaçom dum Estado judeu. David Ben Gurion, dirigente do Yishuv, a comunidade judaica na Palestina, e futuro primeiro-ministro de Israel, continuaria com as trocas umhas semanas mais tarde. Apesar da oposiçom histórica do movimento comunista ao projeto sionista, o novo Estado nom iria em contra dos interesses soviéticos; porém, até 1946, Moscovo evitou o seu apoio.


O apoio inicial da URSS foi fulcral para a criaçom do Estado de Israel

A mudança produziu-se em maio de 1947. O Reino Unido, que conseguira da Sociedade das Nações (SDN) em 1922, o mandato sobre a Palestina, decidiu reencaminhar a questom para a ONU. Encargada de decidir sobre o futuro desse território, esta entom deu os primeiros passos. Andrei Gromyko, novo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros soviético, anunciou que a URSS poderia apoiar a divisom da Palestina em dous Estados, um judeu e um outro árabe, se a soluçom binacional resultasse impossível de implementar.

Desde entom e até 1949 Israel contou com o suporte político, militar e demográfico da URSS de Estaline, mesmo quando o dirigente soviético iniciou umha campanha de repressom contra os Judeus, devida em grande parte à luta polo poder no cimo do partido-estado.

Na cena diplomática, a URSS desempenhou um papel central na adopçom do Plano de Partilha da Palestina por parte da ONU, a 29 de novembro de 1947. Para além do seu, contribuiu com o voto dos seus países satélites, com a exceçom, nunca explicada, da Jugoslávia. Assim mesmo, forneceu a Israel dos recursos que mais precisava: homens e armamento.

A batalha demográfica foi vital para o sucesso do projeto das lideranças sionistas. A populaçom judaica em Palestina representava 600.000 pessoas em 1946, quer dizer, um terço do total. Deviam, portanto, modificar a relaçom de forças. A URSS contribuiria para isso de maneira decisiva.

Em primeiro lugar, forneceu candidatos para que viajassem à Palestina. Ao longo de 1946 permitiu a saída de mais de 150.000 judeus polacos para as zonas de ocupaçom estado-unidense e britânica na Alemanha, onde se sumaram aos campos de pessoas deslocadas. Ora bem, esses sobreviventes dos campos nazis, ou essas pessoas que, ao finalizar a guerra, se achavam sem lar nem família, nom tinham outra alternativa que a Palestina. Moscovo agravou deliberadamente este problema, pondo ao Reino Unido numha difícil situaçom. Londres sofreu umha forte pressom nom apenas do movimento sionista, mas também dos Estados Unidos. Os americanos nom a queriam receber estes refugiados no seu território, e temiam o efeito na opiniom pública das imagens desses barcos de imigrantes ilegais rumo para a Palestina expulsos sem consideraçom polas forças britânicas.

Antes de 1948 a URSS apoiou direta ou indiretamente as operações da imigraçom clandestina organizadas pola Agência Judaica desde os países da Europa do Leste, especialmente desde Romênia e Bulgária. Dous terços dos Judeus chegaram à Palestina entre 1946 e 1948 provenientes destes dous paises.

Após o 15 de maio de 1948 e a proclamaçom da Independência de Israel, a questom da imigraçom tornou-se ainda mais vital. Doravante, era preciso fornecer recrutas ao novo exército. Noutras palavras, alimentar os fluxos migratórios significava participar no esforço bélico israelita. Destarte, entre 1948 e 1951, mais de 300.000 Judeus da Europa do Leste chegaram a Israel, isto é, metade do total de imigrantes ao longo desse periodo.

Aliás, Moscovo apoiou o novo Estado hebraico noutra frente da batalha demográfica: o da homogeneizaçom da sua populaçom, que acarretou a saída, e acima de todo a expulsom, de mais de 700.000 árabes-palestinianos. A URSS eximiu a Israel de qualquer responsabilidade e acusou a Londres. Em dezembro de 1948, Moscovo votou em contra a Resoluçom 194 da Assembleia Geral da ONU, que previa a possibilidade dum regresso.

No âmbito militar, a URSS brindou a sua ajuda à causa sionista mesmo antes da criaçom de Israel. A partir do mês de maio de 1947, a compra de armas tornou-se umha prioridade para Ben Gurion. Após as pressões sovieticas, Checoslováquia tornou-se no seu principal fornecedor. Entre 1948 e 1951, Praga entregou armas ligeiras e pesadas, mesmo tanques e aviões de combate, e forneceu treino militar. Em 1968, Ben Gurion estimou que essas armas "salvaram o país": "Constituiram a ajuda mais importante que obtivemos. (...) Duvido muito que sem elas tivéssemos podido sobreviver o primeiro mês".

Durante este primeiro período, que abrange a década de 1941-51, Israel obteve da URSS, em todos os âmbitos, um apoio que superou as suas expetativas, sem por isso poupar os seus apoios ocidentais, encabeçados polos EUA. No entanto, vários episódios iriam mais tarde semear a discórdia, chegando mesmo à ruturra das relações diplomáticas em fevereiro de 1953.

Em primeiro lugar, produziu-se a interrupçom total da imigraçom de Judeus da Europa do Leste, onde as campanhas antissemitas alastravam. Logo a seguir, teve lugar o Processo de Praga, em novembro de 1952. Em consequência do divórcio entre Estaline e a Jugoslávia do marechal Tito, em 1948, as "democracias populares" da Europa do Leste viveram grandes expurgos. Na Checoslováquia, o secretário geral do Partido Comunista, Rudolf Slansky, detido em novembro de 1951, foi acusado de ter tramado um complô "imperialista sionista". Durante o processo, 11 dos 14 acusados eram Judeus e explicitamente foram designados como tais.

A tudo isto acrescentar o caso das "batas brancas". Em 13 de janeiro de 1953, o Pravda publicou um comunicado no que se acusava a um grupo de "médicos sabotadores", na sua maioria judeus, de ter assassinado lideranças soviéticas por ordem dumha organizaçom judaica internacional. Vários vultos foram detidos, entre os quais, Polina Zhemchuzhina, a mulher de Vyacheslav Molotov, braço direito de Estaline; Ivan Maiski, ex-diplomático que desempenhara um papel chave nos contatos com o movimento sionista; ou mesmo Maria Weizmann, irmã do presidente israelita, Chaim Weizmann.

A morte de Estaline, a 5 de março de 1953, deu cabo das tensões entre os dous países e marcou o fim da campanha contra os judeus soviéticos. As relações diplomáticas foram restelecidas em julho. Iniciava-se umha nova era. Porém, nom houve um retorno para a idade de ouro dos anos 1947-49. A guerra de junho de 1967, na que Moscovo apoiou o Egito e os seus aliados árabes, conduziu a umha nova rutura das relações diplomáticas. Nom seriam restabelecidas até 1991, poucas semanas antes da desapariçom da URSS.

Michel Réal é historiador.

[1] Sobre o período 1948-53, cf. Laurent Rucker, "Staline, Israël et les Juifs", Presses universitaires de France (PUF), Paris, 2001.

[2] Citado em Uri Bialer, "Between East and West: Israel Foreign Policy Orientation 1946-56", Cambridge University Press, 1990.

Texto tirado do nº 227 de Le Monde Diplomatique (setembro de 2014), traduzido para o galego-português por CAEIRO.

Sem comentários:

Enviar um comentário